Histórias de Minas, seu Teco

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Em maio de 2017, escrevi sobre meu primeiro encontro com seu Teco:

“Seu Teco me leva pela mão a conhecer suas preciosidades da horta. Surpreende-me ser como o meu velho pai, que se vivo estivesse completaria, nesse mesmo 7 de maio, os seus 99 anos. Seu Teco é um Plácido pai revivido então. Vê que me encanto fotografando seus caquizeiros repletos de frutos e me carrega pela mão. Vai narrando seu prazer quando sai do restaurante e vai pro fundo, pra horta, ficar com suas plantações. Diz que volta outro. Vai falando aquela poesia lírica toda nos meus ouvidos, como fosse um personagem roseano caído de uma página de um Sagarana ou de um Grande Sertão daqueles. Ficamos ali por muito. Gostou de me ouvir contar onde eu vivia antes e por que estava agora por aqui, fez perguntas, elogiou minhas escolhas e me encheu de presentes: muitas mexericas, que fomos eu e ele pegando nos pés repletos, chuchus de 3 qualidades diferentes, cebolinhas, goiabas grandonas, maracujás, e, disfarçando um instante, me trouxe uma bela abóbora – sequinha, viu- que de tão pesada carregou-a para mim o tempo inteiro.

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A refeição de comida caipira, à vontade, feita no fogão à lenha,  apenas vinte reais, era saborosa e fresca – como gosto. Muitos turistas no caminho entre BH e o Rio param por ali só pra levar, em si, os céus em caldos e caldas da dona Aparecida e do seu Teco.

Continuamos nossa prosa, fotografei mais, muito mais e segui pela estrada.

Seu Teco deve ter descido de uma estrela de noite e ficado ali me esperando, só pode ter sido assim. Quase desisto de ir embora, de tão carregada da energia telúrica com a qual me abastecera.”

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Depois disso, voltei e o encontrei debilitado, desidratado, deprimido, sem coragem nem força para se levantar da cama. Fui ao seu quarto, com dona Aparecida, levamos uma conversa suave, sem tocar em doença. Prometi voltar e desejei vê-lo forte, cuidando da horta tão rica e bela. Quis telefonar para saber dele, mas com essa envergonhada postura de gente que vem da cidade e teme constranger os outros, não o fiz.

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Fui até ele, por fim.

Sentei, esperei que começassem a colocar panelas e caldeirões no fogão de lenha, no salão de refeições, para que cada um se servisse à vontade, e tudo se mantivesse quentinho. Perguntei por ele. Foi avisado. Veio logo e sentou-se para o nosso proseado de sempre. Quem me acompanhava sabia que pergunto pouco, ouço mais do que falo. Dois homens da mesa ao lado, interferiam na nossa conversa, por terem percebido meu interesse pelas histórias mineiras de seu Teco e quiseram protagonizar o bate-papo. Sei dar um corte preciso em entrões, galanteadores, exibicionistas contumazes. Fiz isso. Estava ali pra me deliciar com aqueles quitutes, hum, o quiabo com carne moída estava mais gostoso que tudo. O macarrão, com pouco molho vermelho, até o torresmo, sequinho, saboroso. Sem falar nos doces de figo, de leite, de cidra, de goiaba e o queijinho branco. Tudo de primeira linha, com tempero de mãe, de avó. De sonhar mesmo.16507897_562617267419601_3742626132457015636_n

Principiei perguntando a ele pela saúde. Narrou um pouco a trajetória de exames e internações, os remédios e disse que estava melhorando. Desanimado pra cuidar lá da horta, mato grande, muito cansaço. Mas que mesmo assim, as goiabeiras estavam carregadas, os pés de romã e que as outras frutas aguardavam o tempo delas de frutificarem. Quando lá estive, na primeira vez, estavam muito lindas todas elas. Depois quando esteve doente, só fiquei com ele, sem ir ver as plantações, de que tanto gosto.

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Contou-me que bebeu muito, durante muitos anos. Havia parado fazia 18 anos. Bebia pelos bares, pelos armazéns, se o dono do local dizia que ia fechar, não apavorava não, pegava a garrafa de pinga e ficava do lado de fora. Mas continuava bebendo. Quando voltava pra casa na jumentinha, vinha que vinha caído. Ao cuidar da horta, levava a garrafa, enterrava a mardita dentro de um pote com água e só deixava a beiradinha pra fora. E ia assim o dia todo.

Agora acha que beber não tá certo, faz mal; o médico mandou parar de beber e de fumar, bastou. Pergunto-lhe por que as pessoas bebem. Ele não entende e diz que não é porque mulher não quis mais que o homem bebe, isso é bobagem. Não me quis … ou eu arranjo outra ou deixo pra lá. Não me quer, não me quer. Também eu era treteiro, assim bebia e gostava de contá vantagem. Era isso.

Insisto na razão pela qual se bebe tanto, era pelo sabor, por exemplo? A surpresa geral, não fala mais dele, mas passa a falar de uma terceira pessoa, um companheiro do passado – como se desejasse também compreender os porquês a partir dos motivos de outro. Conta-me que havia um, cita nome, que não aceitava tira-gosto com a pinga. Corta o efeito da pinga. Não como, quando bebo não- dizia o tal. Era como um remédio que perde o efeito se …

Aproveito a carona e sugiro se era pelo sabor, pelo efeito … ele diz que pelo sabor não era não. A pinga dá mais disposição. Como assim? Assim, uma coisa que você não tinha coragem de fazer, você faz com a pinga, por exemplo, entra num córrego perigoso e nem dá fé daquilo. Insisto se a bebida faz a vida ficar diferente, ficar melhor, era isso? É isso. Agora, minha mulher não gostava que eu bebesse não. Também, já pensou a mulher deitar na cama com um homem fedendo à pinga. Ela não aguenta, né.

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Como foi que o seu Teco começou a beber? O pai bebia muito, mas nunca me deu copo na mão, não. Dizia a bebida tá aqui, se quiser beber, mas te dar no copo eu não dou.

Trabalhando nas roças, ganhou casa do patrão. Aqui seu Zé, quero casar, preciso de casa pra morar. Eu te dou. Veja quanto fica que eu te dou o dinheiro. Naquela época me deu 30 conto, seria uns 30 mil hoje. É aqui onde eu construí. Sempre vivi aqui. O terreno aí pra trás com o riozinho, a horta, foi tudo junto que ele me deu e eu levantei a casa, eu e meu primo.

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Admiro. Pergunto se ele acredita nisso que quem faz o bem acaba prosperando, vivendo bem etc. Ah, é isso mesmo. Quando alguém vem me pedi uma ajuda aqui e tá no meu alcance, eu posso fazê, eu faço, fico numa satisfação danada. Analisando aqui, acho que a gente não deve brigar com ninguém, a gente vai descobrindo, conversando com um com outro, que a gente é tudo irmão mesmo. Não deve brigar não. Uma hora o outro pode te servi também. Por isso tem que ajudá os outro.

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Os dois homens da mesa ao lado intervém, querem dar seus exemplos, gente mais jovem, dois irmãos, um de vinte e poucos anos e o outro de menos de quarenta. Bebem conhaque e cerveja. Vermelhões já. Ouço e corto pro seu Teco de novo. Lembro a ele o quanto se parece com meu pai e lhe revelo que conheci em Santana do Paraíso um outro homem ainda mais parecido com meu pai, mais moreno de pele como ele, de roça, plantador de horta etc. Ele me diz num disse que a gente é tudo irmão. Aí, lá longe, achou ele.

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Converso com dona Aparecida sobre a saúde dele, peço pra ir ver o que gosto tanto. Avisa que está tudo sem capinar, frutas feias etc. sem os cuidados do seu Teco. Despedidas.

Adentro ao paraíso de onde aquele anjo me faz tão bem sempre.

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TERRA DE MINAS

Que bondade tem o garoto mineiro que ajuda a carregar embrulhos,
mesmo sem precisão …
Que prosaico é aquele “cê bobo” ao final das frases coloquiais …
Que vontade é essa de ficar sentado na praça a tocar causos e prosas até o entardecer…
Que permissivo é esse tom de confidência de quem jamais nos viu antes …
Que adocicado é esse olhar de matutagem espalhado pelas calçadas …
Que coisa caseira é essa que me enternece de água os olhos …
Talvez seja encontro de sangue mineiro com sangue mineiro.
Talvez seja um ponto de vista repleto de montanhas .
Talvez seja essa vontade de encontrar o que uma vez se perdeu em mim.

 

Texto e poesia: Odonir Oliveira
Fotos de arquivo pessoal
1º Vídeo: Canal Piano Brasileiro
2º Vídeo: Canal Odonir Oliveira
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Feiras: livres e belas

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“PROSEANO ONCOVÔ”

Sempre gostei de feiras de ruas, quase uma galeria a céu aberto, ao ar livre, esculturas públicas pelas cidades. Gosto delas primeiro, logo cedinho, tal qual um aperitivo antes do prato principal. É quando suas frutas e legumes e flores e coisas todas estão ali expostas, nuas a serem apreciadas. Numa explosão sensorial de cores, perfumes, formatos, encantos, pouco vistos em outros lugares públicos. Gosto da res-pública, do livre, gratuito e saboroso. Gosto.

Nas cidades pequenas o prazer é ainda maior. Quando morei em Itapuã, em Salvador, era um delírio ouvir o que se vendia ali, ver o que se vendia por lá.

Gosto de chegar e prosear com quem plantou, colheu, recolheu, trouxe pra vender ali. Gosto de ouvir a fala e a sintaxe de cada um, as razões, as qualidades do produto exposto ao deleite público. E os pregões ? “É a carioca, gostosa, leva senhora”, “Moça bonita não paga, mas também não leva”. Incorporam as atualidades em seus pregões com a maior facilidade, seja uma façanha do futebol, uma personagem de novela , um chiste da política. Não há como andar e não rir, andar e não rir. Uma antologia de textos únicos, engraçados e leves. Assim, quem não compra ? Eu compro, agradecida.

Depois, tem a “sevirança” característica de nosso povo moreno. “Não me servindo mais passo pra frente, vendo baratinho”. A garimpagem daquilo que para alguns não tem mais nenhum valor ou utilidade para outros vale muito, basta que se saiba ressignificar aquilo que se estende ali naquelas lonas – no chão mesmo – desde bijuterias a discos de vinil e ferramentas.

O trabalho artesanal familiar rendendo para a comida da semana, a condução, o uniforme das crianças.

A agricultura familiar que produz cenouras menores, goiabas menos bonitas – porém docinhas – o quiabo, a abóbora, a jabuticaba. A pinga feita lá no sítio, o óleo de mamona, o feijão nas garrafas …

Quando pergunto pelas mudas de rosas e de verduras, é quase um seminário de cultivo o que recebo em troca. E por que a galinha está na gaiola … ora, porque já está reservada, o comprador já vem buscar, por isso está ali. E os ovos caipira, que se estendem à nossa frente, quase pedindo para nos acompanharem ? Irresistíveis.

Saio, depois de umas boas horas, fotografo, peço licença, explico que escrevo …

Na saída, já no final da feira, um sanfoneiro tempera e alegra com cerveja e pinga o pessoal.

Feiras livres e belas.

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Texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal  apfrezende G

Histórias de Minas

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RETALHOS DE MULHER

passo em compasso de marcha militar
cabelos desgrenhados olhar distante
quase sempre um guarda-chuva na mão
calças largas blusas largas passos largos
um cumprimento lacônico de olhar indireto na ida
um caminhar apressado na volta
o menino com ela
vez ou outra o menino e o amigo do menino com ela
diariamente
aquele rosto marcado de mágoas
aquele corpo dilacerado
pelo desprezo do outro por ela
pelo desprezo dos outros por ela
pelo desprezo de si mesma
diariamente
a marcha
a luta
a entrega
a busca
a ida
a volta
diariamente

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VELÓRIO DO MIGUEL

Manhã de domingo, antevéspera do Natal, todos estamos naquela salinha pequena, ao lado da igrejinha centenária. Uns falam pouco. Uma mulher, aparentando 70 anos, na cadeira da cabeceira do caixão mantém expressão estática, ouve sentimentos e pêsames. De cortar o coração.

Miguel morrera no sábado com a cabeça esmagada por um caminhão. Logo ele que sempre montara na moto e nela trotara lento. Lento até demais, atrasando as tarefas expedidas pelo patrão nas casas de clientes. Logo ele, acabara assim, na horinha do acidente. Um filho de 8 anos, uma mocinha maior e a mulher. A viúva, mulher muito humilde, de poucas palavras e expressões, de pouca ciência das ações de ofício do marido, mormente de suas horas extras. O que fazia, o que tinha, quanto recebia pelas atividades, de onde ia e vinha, nada era conhecido por ela. Aparentava 70, mas não tinha mais de 50 a sua esposa

Logo agora que ia construir a casinha pra família. Pegou o salário anteontem, o décimo terceiro, tudo o mais de horas extras e ia dar na casa deles, me contou. Disse o patrão a mim, que desconhecia os antecedentes daquela narrativa trágica.

A consternação era enorme. O menino de 8 anos, de cabelos muito negros, cacheados, até quase os ombros, eu o encontrara vez ou outra em festas de aniversário de criança ou indo no caminho das aulas com a mãe. Meu coração partiu-se pelo garotinho, tão ligado ao pai e sequestrado com tal violência agora daquele seu herói.

Dura vida. Do que viveriam, como seguiriam, o que fariam sem o Miguel.

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Vez ou outra vou em sentido contrário ao de mãe e filho a caminho da escola. Desde logo me identifiquei sobre quem eu era e convidei o menino para vir ler o mundo em meus livros. Nunca veio. Hoje amanhã viria, mas nunca veio.

Mais de ano se passou, continuei encontrando com mãe e filho diariamente pelo caminho. Um dia, sozinha, me perguntou sobre minha cachorra Luna, de forma bem lacônica, e enquanto andávamos, expliquei-lhe o diabetes, a magreza, a cegueira, a insulina … Nada disse, apenas balançou a cabeça. Aquela mulher sempre me intrigara.

 

EXPANDINDO NEGÓCIOS 

Soube eu, alguns dias atrás apenas, pelo patrão de Miguel, a razão do aniquilamento da esposa dele. Aquilo era mais do que tristeza e saudade. Era mais. Contou-me ele que seu funcionário tinha negócio de aluguel de mesas de bilhar, espalhadas pela cidade, jogo completo de ferramentas, novas, sofisticadas. Comunicou à esposa e entregou-lhe as ferramentas, que ela não conhecia. Das mesas de bilhar nunca soube também, nem em que lugares estariam para cobranças ou retiradas. Como também foi surpreendida pela comunicação do patrão da existência de uma outra família dele, com uma filha da mesma idade do seu menino de cabelos cacheados. O patrão teve que fazê-lo porque fora instado por essa segunda mulher, jovem, forte, saudável, que estivera lá solicitando retirada de documentos para requisição de pensão junto ao INSS para a filha. Ele não entregou, antes deu ciência à esposa, que só não morreu porque não conseguiu. Mas a mãe da menina conseguiu. Conseguiu a metade da pensão por morte, requerida.

A mãe dos filhos maiores passou a fazer faxinas desenfreadamente para conseguir manter aquela vida paupérrima dos filhos. O patrão fora até a casa, muito humilde, em que viviam eles e constatou que havia lá muito pouco, inclusive um único ponto de luz que para se ligar um chuveiro, por exemplo, puxava-se a extensão atravessando a casa e desligava-se todo o resto.

Indagada sobre a casa que ele estaria construindo e sobre o dinheiro que recebera dias antes de sua morte, a esposa quase sucumbiu, nunca soubera de nada daquilo. A outra mulher, mãe da garotinha, por sua vez, era conhecida da primeira, sabia da existência da esposa, haviam tido criança nos mesmos dias em hospital da cidade. Só a esposa desconhecia os fatos. O insidioso marido não passara por nenhum questionamento, não tivera que dar nenhum esclarecimento, não suportara nenhuma revolta de nenhum deles. Apenas …  morrera.

Onde estaria o produto de seus negócios ocultos, o dinheiro que recebera quase no dia de sua morte?

Onde estariam as explicações para aquelas ocultações, dissimulações, empulhações todas?

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MISTÉRIOS CONJUGAIS 

Ao que parece – observa o patrão – Miguel tinha uma terceira mulher para quem estariam indo o produto de seus ganhos extra com trabalhos,  seus alugueis de mesas de sinuca e uma possível poupança em caixa doméstica bem segura e secreta para construção de uma casa. Essa mulher não se sabe até hoje quem é. Mas deve ter apresentado maiores novidades, e, atrativos bem mais interessantes que as duas primeiras – que afinal até se conheciam.

Como sei quem foi Miguel, fez trabalhos em minha casa, e a esposa e os filhos do casamento os vi no dia do velório tão consternados, fico me perguntando o que sente cada um deles agora: o menino tão apaixonado pelo pai, a filha mocinha e a esposa viúva – uma das viúvas, aliás.

(Convivi um pouco com tios – já falecidos – senhores desse mesmo instinto de perpetuação da espécie do homem mineiro, com essa virilidade insuspeita e essa inconsequência, tão particulares, que tornam bem mais difícil a vida para os envolvidos com eles. Com absoluta certeza que sim.)

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Poesia e narrativa: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

1º Vídeo: Canal BATUKILIN BRASIL

2º Vídeo: Canal Vangodias

3º Vídeo: Canal N2010R

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Leia também sobre o mesmo tema o meu post “Amores serão sempre amáveis”

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2017/06/05/amores-serao-sempre-amaveis/

Angélica, lavanda, pedras, conchas …

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UMA FLOR CHAMADA ANGÉLICA

Companheira de viagem
astral nas alturas
presente em qualquer proposta
sentada no banco do trem, do carro, voando numa asa delta
seguindo os ventos num teleférico até as nuvens
Companheira de viagem
presente da gente
presente sempre com a gente
Parabéns por seu coração ser tão enorme
com pontes artificiais pra fazer mais ligações entre as pessoas
Parabéns por mais esse ano de vida.
Grande beijo.

 

 

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A LAVANDA

Tempos houve em que a lavanda perfumou tudo. E como era bela em seu viço arroxeado de juventude ! Não havia quem não se aproximasse querendo sentir seu perfume, inebriar-se de sua coloração, apalpar-lhe as flores. Era tudo beleza.

Tempos há em que suas folhas ficam secas. Suas flores perdem a cor. Mas, inacreditavelmente, seu perfume fica ainda mais pronunciado. É agora que recolho-as, acaricio-as, agradeço-lhes o viço de antes e as reintegro em meus dias.

Descubro assim que podem sim continuar comigo porque sua essência permanece ali, inteira, forte e, por isso, linda ainda.

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COLEÇÃO DE PEDRAS

caminho olhando o chão
caminho sentindo os céus
caminho recolhendo pedras
pedras que encontro
pedras que escolho
pedras que me sustentam
sou edificação de cores várias
entorno minhas pedras rudes
acaricio cada uma
encantada com sua textura
agradecida por sua cor
extasiada com sua forma
tenho-as de minhas veredas
tenho-as de meu chão
tenho-as de minhas idas e vindas
sou pedra e mulher

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COMO CONCHAS

conchas se atiram a meus pés
descalços
desavisados
conchas aconchegam meu sentir
me põem agachada
a serem colhidas
a serem admiradas
conchas me trazem sonhos
sons inimagináveis
mapas de águas
cartas de mares
timoneiros revoltosos
navegantes diáfanos
conchas me escutam pensamentos
conchas me navegam sentimentos

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Texto e poemas: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

1º e 2º Vídeos: Canal gondwanarecords

3º Vídeo: Canal  Raph Schouten

Natal: De bar, oficina e biscoitos

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[Quando se escreve, quase sempre, toca-se as pessoas. Meu post sobre “sororidade”, Natal: Sexagenárias também amam, trouxe uma torrente de lembranças a uma leitora que perfumou minha emoção com seus sentimentos. Pedi, então, para narrar um Natal vivido por ela, entre tantos outros que me contou.]

DE BAR, OFICINA E BISCOITOS

Houve aquele Natal que agora a memória côa. Nos anos sessenta, o pai de Vera, bem embriagado, num bar, fez um negócio com a casa e a oficina mecânica. Vendeu tudo.

No dia seguinte apareceu o comprador, com uma testemunha e finalizaram a compra. O espanto da esposa, a palavra empenhada, o negócio concluído.

Resultado, em três meses tiveram que entregar casa e oficina, sem ter para onde ir. O produto da venda foi entregue a um fazendeiro, a um açougueiro … nada a ser compreendido pela menina, pela irmã mais velha com um filho e grávida de outro, pela esposa.  Não tinham mais casa. Foi preciso espalhar móveis pelas casas dos parentes e alugar cômodos para, amontoados, resistirem. 
Foram dias de muita fome, sofrimento, bebedeiras, xingamentos. Com quatro crianças pequenas, dois sobrinhos e duas irmãs menores 8, 6 anos, foram acolhidos numa cidade do interior, onde morava outra irmã mais velha. Ela fez o que pode para ajudar.
Vera começou a trabalhar aos 14 e trazia dinheiro para a pouca comida. A irmã, com pequena diferença de idade, e já viúva, também ajudava, lavava e passava para uma senhora rica.
Alugaram uma casinha no fundo de um consultório e começaram a viver melhor, tentando a sobrevivência.
Que músicas ouviam? Não, Vera não se recorda, pois não tinham rádio. A secura pertinente àqueles que precisam encher as panelas de comida, muitas vezes cria uma presumida falta de sensibilidade, uma remota capacidade de emocionar-se, necessitando ser tocada, ser motivada, ser sacada como rolha de vinho. Está lá no ser humano vivo, entretanto precisa ser provocada, resgatada.
Chegando o Natal, o assunto era proibido perto das crianças.
Uma tarde, a  irmãzinha entrou toda feliz com um saco de biscoitos, era tudo que ela desejava. Um presente. E chorava. Na mão um cartão que agradecia o Natal e também desejava bons votos de fim de ano. Dois nomes estavam lá, quem seriam, pois moravam perto de outro estado e nada sabiam das coisas de cidade mais próxima.
Intrigada, a mãe chamou a irmã mais velha e mostrou-lhe o cartão com as assinaturas. Esta riu muito e disse que eram os coletores de lixo da cidade, que davam cartões e recebiam presentes ou algum dinheiro, a caixinha de Natal. Então, perguntaram a menina, como tudo havia acontecido.
– Tocou a campainha, fui atender . O homem deu o cartão. Perguntei pra o que era. Ele me explicou que queriam uma caixinha de Natal, algum dinheiro. Respondi que não tinha dinheiro nem para comprar um biscoito que estava com vontade de comer. Ele, então, tirou do carrinho um pacote de bolacha e me deu. É esse.
Ali, naquele lar onde Natal era proibido encontrou-se no coletor de lixo a solidariedade com a criança. Ele havia feito o NATAL DA PEQUENA.
A mãe riu, as filhas riram da situação e de onde tinham ido parar. Em vez de dar, receberam.
São recordações de Vera que nem sempre são reconhecidas como válidas, nobres, sensíveis por todos. Homens, em geral, por serem mais práticos, objetivos e guardarem menos o que chamam de memórias descartáveis, não dão o valor que relatos como esse merecem. Talvez, por não quererem sofrer dores. Talvez.
Pois saiba, Vera, nem que meu lirismo não conseguisse convencer o homem amado do meu amor, nem que minhas palavras escritas não fossem capazes de louvar meu país como o desejo, nem que a combinação de meus pensamentos em palavras não fosse capaz de mudar situações insustentáveis, nem assim essa sua história de Natal deixaria de me emocionar.
” Fortes lembranças, amiga”.

 

MEMÓRIA

ceia ausente
presentes ausentes
moradia ausente
rádio ausente
pai ausente
ternura ausente
mãe presente
irmãs presentes
Presentes
eternos
a memória côa presentes
a memória ensina o presente

 

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(São do meu jardim, pra você, com todo meu carinho. Feliz Natal )

Poesia: Odonir Oliveira

Texto: Odonir Oliveira (escriba da Vera)

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos: Canal Sandro M. Silva

Leia também: https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2017/12/18/natal-sexagenarias-tambem-amam/

Natal: Amor, paixão, fé

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Resolvera. Nada de panetones, leitões, rabanadas, nozes ou amêndoas. Iria para dentro. Para dentro de si. Foi. O que esperava? Não esperava nada mais. Queria ser de novo o novo de dentro de si, sem nódoas, marcas, medos e lágrimas. Lágrimas dali pra frente só de prazer. De prazer estético, de prazer no amor, de prazer na natureza. Foi.

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Seguia em seus pensamentos. Ou melhor, sob seus sentimentos.

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Via a árvore e saltava-lhe a imagem do homem em som e espectro. Adentrava uma lagoa e dava-lhe a mão o riso do homem em lume. Corria pelas estradas vicinais e era o homem, de novo, que a acompanhava na música do carro. Sentava para comer o trivial lírico, e seu rosto e sua lente coloriam o fundo do prato. Trocava para prato raso, mas era pouco, queria o prato fundo, antes tão repleto dos sabores a lhe fartar. Ao olhar aquela lua cheia, tão transformadora de homens em lobos, era na estrela que pensava Sofia. Como um presente ou um anátema, o que seria aquele homem tão onipresente?

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Bebeu uma caipirinha num botequinho muito simpático, onde estavam apenas homens. Que importava? Bebeu outra em outro, a uns 5 quarteirões. Já enxergava a estrela dos 3 Reis Magos a apontar-lhe uma única direção. Sentou no banco de pedra. As ruas quase vazias. Apenas os companheiros das noites vagas, anônimas e eternas.

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Olhou pro céu. Viu como em letras de fogo o que leu.

SORRISO DE ESTRELA

É quando no desespero de mim,
que encontro a ti
sorrindo repetidas vezes
com passos ouvidos
em reflexos mínimos
em espaços imprevisíveis
em momentos inesperados.

É quando miro estrelas
que encontro
teu lume no delas
tua silhueta na delas
teu dorso incomum no brilho delas.

É quando escurece
que estrelas em ramalhetes
te trazem a mim,
e em ti permaneço
pousada no céu.

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Agora já era quase meia-noite. Quase hora de se celebrar o Natal. O Natal veio e esteve ali com Sofia todo o tempo. Estivera com ela em carne, osso e paixão. Era sim nascimento, renascimento, Natal.

Havia ali um presépio real à sua frente. Era só caminhar. Ir.

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Texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal: MG

1º Vídeo: Canal Zelda Silveira

2º Vídeo: Canal Marcio Proença

Natal: Cantos e contos de Natal

CANTO DE NATAL

Manuel  Bandeira

O nosso menino
Nasceu em Belém.
Nasceu tão-somente
Para querer bem.

Nasceu sobre as palhas
O nosso menino.
Mas a mãe sabia
Que ele era divino.

Vem para sofrer
A morte na cruz,
O nosso menino.
Seu nome é Jesus.

Por nós ele aceita
O humano destino:
Louvemos a glória
De Jesus menino.

Antologia Poética – Manuel Bandeira“, Editora Nova Fronteira – Rio de Janeiro, 2001, p.137.

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CONTO DE NATAL

Rubem Braga


Sem dizer uma palavra, o homem deixou a estrada andou alguns metros no pasto e se deteve um instante diante da cerca de arame farpado. A mulher seguiu-o sem compreender, puxando pela mão o menino de seis anos.

— Que é?

O homem apontou uma árvore do outro lado da cerca. Curvou-se, afastou dois fios de arame e passou. O menino preferiu passar deitado, mas uma ponta de arame o segurou pela camisa. O pai agachou-se zangado:

— Porcaria…

Tirou o espinho de arame da camisinha de algodão e o moleque escorregou para o outro lado. Agora era preciso passar a mulher. O homem olhou-a um momento do outro lado da cerca e procurou depois com os olhos um lugar em que houvesse um arame arrebentado ou dois fios mais afastados.

— Péra aí…

Andou para um lado e outro e afinal chamou a mulher. Ela foi devagar, o suor correndo pela cara mulata, os passos lerdos sob a enorme barriga de 8 ou 9 meses.

— Vamos ver aqui…

Com esforço ele afrouxou o arame do meio e puxou-o para cima.

Com o dedo grande do pé fez descer bastante o de baixo.

Ela curvou-se e fez um esforço para erguer a perna direita e passá-la para o outro lado da cerca. Mas caiu sentada num torrão de cupim!

— Mulher!

Passando os braços para o outro lado da cerca o homem ajudou-a a levantar-se. Depois passou a mão pela testa e pelo cabelo empapado de suor.

— Péra aí…

Arranjou afinal um lugar melhor, e a mulher passou de quatro, com dificuldade. Caminharam até a árvore, a única que havia no pasto, e sentaram-se no chão, à sombra, calados.

O sol ardia sobre o pasto maltratado e secava os lameirões da estrada torta. O calor abafava, e não havia nem um sopro de brisa para mexer uma folha.

De tardinha seguiram caminho, e ele calculou que deviam faltar umas duas léguas e meia para a fazenda da Boa Vista quando ela disse que não aguentava mais andar. E pensou em voltar até o sítio de «seu» Anacleto.

— Não…

Ficaram parados os três, sem saber o que fazer, quando começaram a cair uns pingos grossos de chuva. O menino choramingava.

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— Eh, mulher…

Ela não podia andar e passava a mão pela barriga enorme. Ouviram então o guincho de um carro de bois.

— Oh, graças a Deus…

Às 7 horas da noite, chegaram com os trapos encharcados de chuva a uma fazendinha. O temporal pegou-os na estrada e entre os trovões e relâmpagos a mulher dava gritos de dor.

— Vai ser hoje, Faustino, Deus me acuda, vai ser hoje.

O carreiro morava numa casinha de sapé, do outro lado da várzea. A casa do fazendeiro estava fechada, pois o capitão tinha ido para a cidade há dois dias.

— Eu acho que o jeito…

O carreiro apontou a estrebaria. A pequena família se arranjou lá de qualquer jeito junto de uma vaca e um burro.

No dia seguinte de manhã o carreiro voltou. Disse que tinha ido pedir uma ajuda de noite na casa de “siá” Tomásia, mas “siá” Tomásia tinha ido à festa na Fazenda de Santo Antônio. E ele não tinha nem querosene para uma lamparina, mesmo se tivesse não sabia ajudar nada. Trazia quatro broas velhas e uma lata com café.

Faustino agradeceu a boa-vontade. O menino tinha nascido. O carreiro deu uma espiada, mas não se via nem a cara do bichinho que estava embrulhado nuns trapos sobre um monte de capim cortado, ao lado da mãe adormecida.

— Eu de lá ouvi os gritos. Ô Natal desgraçado!

— Natal?

Com a pergunta de Faustino a mulher acordou.

— Olhe, mulher, hoje é dia de Natal. Eu nem me lembrava…

Ela fez um sinal com a cabeça: sabia. Faustino de repente riu. Há muitos dias não ria, desde que tivera a questão com o Coronel Desidério que acabara mandando embora ele e mais dois colonos. Riu muito, mostrando os dentes pretos de fumo:

— Eh, mulher, então “vâmo” botar o nome de Jesus Cristo!

A mulher não achou graça. Fez uma careta e penosamente voltou a cabeça para um lado, cerrando os olhos. O menino de seis anos tentava comer a broa dura e estava mexendo no embrulho de trapos:

— Eh, pai, vem vê…

— Uai! Péra aí…

O menino Jesus Cristo estava morto.

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Texto extraído do livro “Nós e o Natal”, Artes Gráficas Gomes de Souza – Rio de Janeiro, 1964, p. 39.

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal jnscam