O lirismo das rosas

ROSAS FORMOSAS

O que aprendi com as rosas
Aprendi que coloridas, lindas
se transformam
mudam de cor
outros botões surgem, outras belezas aparecem
outras cores se misturam
ora se despetalam
ora se embotoam
o ciclo da vida é esse
somos rosas amarelas
bonitas, formosas, em botão
depois despetalamos
ficamos metade
ficamos assim
uma parte apenas.

Isso foi o que aprendi com as rosas
a beleza é efêmera
a beleza é passageira
Mas, quem não admira
Quem não se enamora da beleza?

Rosas formosas são rosas de mim
rosas em botão
assim.

CRÔNICA PERFUMADA
No domingo de sol frio há um tom de multicores no ar. É flor de inverno. Companhia que não dispenso por cores, perfumes, belezas.
Quando não as tenho por aqui. Vou buscá-las. Gosto das rosas amarelas, das grandes, que se abrem e permanecem comigo por uma semana, me olhando escrever, me dirigindo olhares lânguidos e fluidos. São de uma sensualidade atrevida e suave, como gosto.
Nessa cidade das rosas, essas lindas para exportação, vez ou outra aparecem em buquês nos supermercados. Não resisto a elas. Compro, trago-as nas mãos. Ninguém toca nelas. Aconchego-as em meu colo. Dou-lhes água e jarro. Namoro-as com prazeres.
Nas manhãs, bem cedo, alimento-as de água nova, converso com elas e me inspiro em sua beleza, assim, como agora, mirando-as ao escrever.
Sempre adorei rosas.
No meu quintal, as miudinhas fazem saraus ao entardecer, como num conjunto, aos grupos. E perfumam tudo. Não tenho coragem de cortá-las de lá. Prefiro admirá-las nas manhãs, cheias de gotinhas geladas e ao entardecer, quando me contam que estão ali, que se delas precisar, estarão ali.
Doces rosinhas as minhas.

MEU QUINTAL

meus pássaros cúmplices
meus pássaros cúmplices
me trouxeram as sementes
me enfeitaram o quintal
árvores que vi crescer
árvores que vi brilharem
árvores
árvores
árvores
belezas que vi resplandecer
no meu quintal
pertinho de mim
chegando juntinho de mim
árvores que semeei
árvores que encontrei
flores que chegaram
sem que eu pudesse 
por elas nada fazer
nada impedir
nada coibir
só vê-las em seu resplandecer

Poesias e crônica: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal cfariarj

Um copo vazio

”Para além das redes sociais repletas de vidas perfeitas existe a realidade de várias mulheres que são silenciadas. Vivemos falando sobre como a era digital acaba criando expectativas irreais e adoecendo as pessoas. É bom gritar o real, expor os fatos, viver a verdade. Quando se faz isso, além de se libertar, estendemos a mão a outras mulheres’‘ (Margareth Canotilho )

DELEGACIA DE MULHERES

Drª Tânia Dias, formada em Universidade Federal, feminista, engajada na luta em defesa das mulheres, faz plantão, como voluntária, na delegacia de mulheres na região de Cerqueira César, na capital paulista. A cada dia pelo menos 10 histórias diferentes narram abusos cometidos contra mulheres. Vão desde ameaças e humilhações verbais a coações, subjugamentos, maus tratos físicos e traições sexuais.

A Drª as ouve atentamente, as instrui a perceberem as primeiras manifestações de abusos de quaisquer naturezas. Além disso as aconselha a agir, a gritar de diversas formas, a não se intimidar com o peso do poder masculino, porque juntas são fortes. Dá a elas os endereços para pedirem socorro no momento em que precisarem. Elas estarão ali para ajudar.

Cada mulher sai dali segura, empoderada pelo discurso das plantonistas, conhecendo um pouco de leis, muito mais sobre seus direitos de cidadã etc. Sentem-se acolhidas por verdades, por exemplos, por sororidade.

Drª Tânia corre que já é quinta-feira, tem que se apressar para chegar ao aeroporto na hora do voo para BH, lá encontrará seu amado-amante, que vive em outro estado. Ele não se dispõe a ir a seu encontro em SP, e ela é que corre para seus braços nos fins de semana. Lá, torna-se a mulherzinha que ele adora, afável, doce, carinhosa, a ”senhora meretriz” e politizada, feminista, discursando até na hora de se deitarem, olhando a lua e as estrelas. Não é bonita apenas. É uma pessoa boa.

Na segunda-feira corre para o aeroporto. A luta continua.

VIOLÊNCIA , AOS COSTUMES

Nas noites …
reprime a fala
maltrata o sentir
encosta o açoite sutil da moeda
encosta o açoite do domínio sexual
encosta o açoite do poder físico
cala as mãos, os pés, o olhar
cala a partida
cala , amedronta, ameaça.

Marisa engole
Marisa sufoca
Marisa implode

Maísa bebe
Maísa enlouquece
Maísa explode
Maísa se suicida.

Maria grita
Maria berra
Maria enfrenta
Maria desacata
Maria chora
Maria enxerga as pedras
Maria enxerga a luta

Maria faz jardins
Maria faz poesia.

MEDO

Elas tinham medos
medo de se dar
medo de sofrer
medo de rejeição
medo de solidão.
Ofertavam-se por medo.
Ofertavam-se por umas rimas, umas melodias, umas palavras doces.
Ofertavam-se
Entregavam-se às ilusões.

MÃOS DUPLAS

ferida, inflamação
dor
desprezo, humilhação, descarte
desespero, incompreensão, ruptura
silêncio estrangeiro, comum, vulgar
mecanismos
simples troca
dupla troca
vereda de mão dupla
ramais e caminhos de mãos duplas
sonolência, dormência, imobilismo

dor
embriaguez
vinho

SEXY

Dinorah era sexy.

Não havia como definir, era sexy.

Tinha um jeito displicente de olhar, um andar rebolado tão natural, mas tão natural … que sexy.

Por ser assim talvez, despertava nos homens um desejo quase que incontrolável de tocar nela, beijar ela, comer ela.

Tudo isso lhe passava meio despercebido, porque Dinorah não tinha atração física por homens, em geral. Nem por mulheres. Gostava da sensualidade insinuada, da sedução persistente, do banho-maria em degraus. Gostava mesmo era de preparar a festa.

Dinorah era doceira, confeiteira. Começara adocicando em casa, depois da falência de uma vida a dois, com um companheiro banana que a única coisa que fazia bem era sexo. E isso não sustentava o teto. Pelo menos para ela não. Adoçando uma festa lá outra cá, montou seu próprio negócio. Com ele ganhava a vida. E bem. Não dava para as encomendas.

Não dava para tanta encomenda de olhares, de piscadelas insinuantes. Parecia uma Gabriela de Jorge, sem o mar de Ilhéus, contudo. E, assim, na entrega dos doces, bolos e trejeitos, vez por outra quase sucumbia a olhares mais cobiçadores dos donos da festa, ao assinarem os cheques, ao passarem o cartão. Sabe como é, adocicou tem que rezar, pensavam. E eram sempre os maridos que tinham que pagar a conta. Eita mulherada dependente, concluía Dinorah.

Certa vez apaixonou-se não por um corpo, mas por uma voz. Enquanto cozinhava, quase sempre em carreira solo, ouvia na rádio FM de sua cidade um locutor. O tal tinha três horários na rádio. De manhã ocupava seu espaço com música sertaneja de raiz e declamava versos. Ao meio-dia, um programa de nostalgia, a saudade não tinha idade e lia crônicas, poemas, versos esparsos, pequenos comentários, nunca de sua lavra, mas a encantavam. Bem de noitinha, depois das sete, programava músicas americanas, sempre contextualizadas a poemas e intenções; Dinorah captava as mensagens e entendia que o locutor dedicava a ela aquelas melodiosas seduções. Enganando-se porque cada um empresta a sua própria vida os olhares que deseja ou precisa emprestar.

Apaixonou-se num tanto, que acreditou ser amada por ele. Assim, não mais olhou ao redor, aos homens interessantes, que sempre há pela cidade.

Certa noite, lambendo a colher de pau que acabara de mexer brigadeiros, ouviu no rádio uma música de mensagem claramente erótica; excitada desejou ligar para o programa – coisa que nunca fizera antes – e falar com ele. Era como se isso concretizasse o ato sexual que imaginava partilhar todas as noites. Estava perdidamente apaixonada. Apaixonada pela voz, pelas palavras lidas, pelas melodias que a tocavam. Não conseguiu falar com ele. O telefone só dava ocupado na rádio. Tinha ensaiado um discurso para quando ele chegasse ao telefone. Tinha até rascunhado umas frases para dizer a ele e, principalmente, lhe entregaria doces mãos, braços polvilhados de açúcares, seios em ponto de suspiro, ventre em ponto de bala.

Não conseguiu. Pensou que não era para ser. Tinha em si esse fatalismo feminino, quase cabalístico da negação amorosa.

Nos dias que se seguiram, entregas de doces. Andares, assinaturas de cheques, quereres.

Doces delírios repetidos, repetidos, repetidos …

LOBOTOMIAS COTIDIANAS

“Para com isso, sua louca”

acalma
obedece
não se altera
abaixa a cabeça

obedece
não se revolta
cala
aceita

obedece
aquiesce adoça entontece
sangra
esfola-se
maltrata-se

obedece
acata
embobece

Assim.

TODAS AS NOITES

Há um rude homem que chega
há um deboche no riso do homem que chega
há um desperdício de uma gargalhada
há um sino que toca intermitentemente
há um trem que apita intermitentemente
há um vulto que adentra o espaço
há um aroma que perfuma o espaço
há um rasgo que penetra o corpo
Ali,
todas as noites.

VERSEJAR SEM LÁGRIMAS

Capaz de rir
capaz de gozar
capaz de flutuar
capaz de ouvir e ser ouvida
capaz de beber vinho e rir muito
capaz de ver o mar em noite calma
capaz de sentir vento quente nos cabelos
capaz de ver a linda lua cheia de inverno
capaz de sentir o fascínio do olhar varão
capaz de ser feliz.

PERTINÊNCIA: Além da atualidade do tema, principalmente em tempos de quarentena e de ”carentena”, noticiadas amplamente pelos veículos de comunicação, esse post foi motivado pela citação na epígrafe – postada no Facebook, por minha ex-aluna querida, Margareth Canotilho, hoje psicóloga clínica. Salve, menina-mulher ”ardida como pimenta”.

Leia sobre o tema, aqui no blog:

Violências

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2019/01/11/violencias/

Textos e poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1- Canal Biscoito Fino

2- Jéssica Lourenço

Fim de noite

ROAD MOVIE II

Meu “Paris, Texas”
em verde-amarelo
é “Central do Brasil”;
No meu “Easy Rider”
tem montanhas e pedras
é “Bye, Bye, Brasil”.

Meu momento pérola na concha
é “Cinema, Aspirina e Urubus”.
Minha descoberta eu lírico
é “On the road” com Kerouac
Meu ensaio político com veias abertas de latinidade
é “Diários de Motocicleta”.

Minha libertação feminina
é “Thelma e Louise”
Minha liberação em intensidade
é “E sua mãe também“.
Buscas encontros procuras entregas
Nas estradas…

Minha “Pequena Miss Sunshine”
na pureza, no reconhecimento da particularidade.
No meu amor por vinhos,
“Sideway“.
No meu amor por meu amor
Uma estrada.

VERTIGEM

Acordara bem cedo. A noite havia sido curta. Encontrara-se pela madrugada de uma, duas ou três maneiras com ele. Em uma delas perdera a respiração, como que engasgada, e numa apneia orgástica, sufocara.

Água fria, não gelada para não espantar de todo o companheiro de viagem que a cama ainda estava quente.

Computador, músicas, leituras, versos, notícias. Vontade de dormir a continuação daquele sonho anterior. Não daria, que Virgínia era exigente pra cacete. Em sua boca só palavras de alto calão. Em sonhos… em sonhos…outras palavras.

Voltou pra cama em olhos fechados e imagens distorcidas.

Tudo lhe vinha misturado agora; muitas figuras, muitas vozes, de Dioniso um aviso, acorda, acorda. De Morfeu outra, dorme, dorme . Afrodite ainda, fica, fica, espera, espera, chove, chove, chove, fica.

Confusão etílica de vinho tinto bom. Queijos, pouco aprovados que desejava apenas a companhia de seus deuses hoje, ontem, amanhã.

De pé de novo, escreve. Escreve não, pois que psicografa dez poemas, uma crônica, uma ode, dois recados e uma apelo. Era uma romântica.

Exílios, ainda sem forma e estilo. Psicografa.

Exílios voluntários; exílio de coxas quentes; exílio de costas largas; exílio de pés enormes; exílio de mãos atrevidas; exílio de ventre berço; exílio de braços laços; exílio de membro aderente; exílio de pescoço salgado;exílio de orelhas atraentes; exílio de olhos mudos; exílio de cabelos outros; exílio de língua sonora; exílio de lábios profanos; exílio de boca sagrada; exílio de corpos nus; exílio de corpos nós; exílio de medos; exílio de gozo; exílio de tantos.

Não consegue mais dormir. Precisa dormir. Não sabe mais a quem ouvir se a Safo, a Baco, a Dioniso, a Afrodite ou até mesmo a Zeus, ó pai.

Tem visões alucinadas de estradas, automóveis, flores, barcos, trens, vozes surdas, convites vagos, interpretações múltiplas. Estaria Virgínia enlouquecendo com aquele jogo de dá e toma dos deuses, com aquelas gestalts interrompidas todas. Muito mais do que falar, a ensandecida  adormecida queria ouvir. Impossível. Estava dentro de um sonho, repleto de imagens fugazes, inefáveis, pouco táteis. Era uma romântica.

Decidida a se levantar, fossem que horas fossem. Pegou o carro, entrou num bar, havia ali  três ou quatro caras acompanhados, e mais um, de rosto moreno, braços fortes no balcão.

Sentou lá ao lado dele. Ele perguntou seu nome. Ela disse. Bebeu pinga. Ele pagou.

Saíram dali para casa dele.

Surpresa.

O cara sabia dos desejos de uma mulher. Falou nada.

Talvez um oferecimento de um isso ou de um aquilo. E só.

Vertigem. Em poucas palavras.

Estranhou ela tudo aquilo e que tivesse alcançado tanto prazer naquele encontro casual.

Sentiu falta de um Vinícius, de um Drummond, de um Caetano, de um Pessoa, de um Baleiro, talvez. Mas nem tudo pode ser perfeito,  não é.

Era uma romântica.

MULHER FÁCIL

Não sou fácil,
saiba disso.
Não sou fácil de saboreio nas coxas
não sou fácil de conversas paralelas
não sou fácil de verbos banais
não sou fácil de meios termos meias entradas,
rápidas saídas
não sou fácil de sair da dança do samba do tango.
Não sou fácil de entregar pacotes prontos
embalados em papel de seda de maçãs.
Não sou fácil de ler de ver de ter de me ter
assim separado, ou junto.
Não sou fácil sem hora senhora,
sou sem ouros e pedras falsas
sou de moles e duros de meios e fins.
Não sou fácil em ventre e membros
Não sou fácil de peles e gostos
Não sou fácil de descascar cortar chupar e engolir.
Sou de digestão difícil
Sou ácida nas bases
Sou base nos doces.
Sou sal nas unhas.
Não sou fácil
Saiba disso.
Rejeito fáceis, fósseis e fôssemos.

BUSCAS

Sigo na direção
é sim é não.
Transformação.
Janelas abertas
vento pelos ouvidos
esperas na pele
torneios entre razão e emoção.
Uma canção
Duelos constantes
é sim e não.
Rotas sinuosas
casas de menina
cores de menina.
Encontro de mulher.

MERGULHO

Sentada, a luz de Narciso me suga
Interpreto o mais e o menos
Mergulho no líquido
Mergulho no sólido
E é etéreo e gasoso.
De pé, caminho sobre tábuas
de mandamentos pagãos.
Tudo em frente, tudo ali
E é etéreo e gasoso.
Mergulho entregue
Sem nadadeiras
Sem asas
Nem redes de proteção.
Mergulho no risco de Narciso, então.

Poesias e texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos: Canal musicavitor

Mercado livre: negócios de ocasião

VENDE-SE
Carretinha de reboque e engate, novíssimos, com única viagem a Porto Seguro, em dezembro do ano passado, por motivos relativos à pandemia e impossibilidade de se pegar estradas. Muito útil para trabalhos na cidade. Possibilidade de ganhos em tempos de crise.
Contatos pelo zap: 31-9999-9999

VENDE-SE:
1 par de sapatos salto agulha, novíssimo, na cor grená, ainda na caixa de desenganos, de decepções, de desilusões. Atendo no zap 11-9999-9999

ALUGA-SE:
homem envelhecido em toneis de carvalho, usado, testado, aprovado, por motivo de mudança e necessidade de espaço. Atende em todo o território nacional. Tratar no zap 21- 9999-9999

TROCA-SE
Troca-se uma estante de livros usados, muito manipulados, com marcações e dedicatórias dos autores por uma caixa de garrafas de pinga nacional da melhor qualidade. Aceita-se negociar outras trocas também. Contatos pelo zap: 32-9999-9999

PASSA-SE O PONTO
Esquina central, muito bem frequentada, alta rotatividade e movimentação eclética. Frequentada por músicos, notívagos, declamadores de versos, professores universitários, solteiros e casados disponíveis. Tratar pelo zap:
21-9999-9999

VENDE-SE
Coleção de cartas de amor, em envelopes fechados, jamais lidas, jamais enviadas, jamais devolvidas, em estado de novas. Sujeitas à verificação de autenticidade. Muito úteis para quem não possuir facilidade com a escrita. Resolve seu problema de Ctrl C+ Ctrl V. Não perca mais tempo. Sua solução está no zap: 32-9999-9999

DOA-SE
Coleção de livros de auto-ajuda, podem servir de alta ajuda a você que pretende mudar. Nas modalidades: ”como cozinhar comidinhas com panela de pressão elétrica”, ”como agradar familiares de amados e similares como o seu chefe, por exemplo”, ”como mudar sua postura natural agressivo-primitiva para doce-casual”, ”como conquistar amigos e influenciar pessoas”, ”como ser a dona-de-casa nos dias e a vadia nas noites” e mais volumes bastante úteis na atualidade. Oportunidade única, não deixe escapar. Faça contato comigo no zap: 11- 9999-9999

Textos: Odonir Oliveira

Vídeos:

1-3- 4: Canal Blitz Oficial

2- Canal Herva Doce – Tema

Os patos e as patas

DOS PATOS
Manhã nublada
Dona Pata,
coitada,
cansada,
ensinava aos patinhos
os tropeços da lagoa.
– Nem sempre vocês terão uma lagoa bonita,
assim, como aquela – erguendo a cabeça a apontar-lhes a direção-
entretanto, haverá sempre um laguinho aqui,
uma pocinha d’água ali
a lhes aliviar a vontade de molhar-se
e até a de nadar.
Lembrem-se, filhotes, as melhores lagoas
são as de águas claras, frias, cheias de atrativos e novidades.
As galinhas ali próximas
nada entendiam,
por isso olhavam para um lado e para o outro,
esperando qualquer explicação,
visto que língua de pata é mesmo uma complicação.
Contudo, no quintal, acolhiam ,cordatas, aquela situação.

E nessa cantoria, vão tecendo a manhã

DE QUATRO PATAS
Deu que já era bem tarde naquele fim de domingo, quando a campainha da minha casa soou. Eu e minha filhota, de 8 anos, apaixonada por cães, nos levantamos e fomos à janela do meu quarto, ver quem era. Era o pai dela, com a atual esposa.
Descemos, abrimos a porta e a nossa cachorra Terra, veio do quintal para receber agrados, sentira o cheiro afetivo de sempre do visitante. O pai apontava para o carro, onde estava sua mulher com um cão.
Minha filha acendeu todos os faroletes dos afetos caninos e quis, na friagem e de pijaminha, ir lá ver. Era um cocker preto abandonado e sujo, adotado na viagem ao Paraná e recolhido com afeto e companhia.
Pensei, num segundo. O que eu tenho com isso, meu Deus, às onze da noite de um domingo frio, que tinha aulas na manhã seguinte, às sete. Pensei e repensei.
– Olha, mãe, que lindinho.
– Não, não pega, tá todo sujo, a gente precisa levar a um veterinário amanhã – dizia a esposa.
O pai me explica na sala, com minha filha já fora da neblina, sem contato direto com o cãozinho e, principalmente, protegendo a nossa Terra, novinha – amada e adotada, depois da morte traumática por cinomose do outro cãozinho, também adotado.
A explicação era que haviam tido um problema qualquer com as chaves da casa deles, em São Paulo, impossibilitando-os de entrar. Dormiriam num hotel e no dia seguinte, passariam para pegar o cão, voltar pra São Paulo etc. Nós duas morávamos a mais de 25 Km da casa deles – preciso dizer. Pois vieram de lá até nossa casa para nos pedir socorro. Ora, ora, foi o que fizemos. Minha filha, na maior felicidade.
No dia seguinte, tudo transcorreu como o combinado.
O cãozinho Benji passou a ser a alegria da minha filha, a cada quinze dias, quando ia ficar com o pai. Chegamos até a trazê-lo para um fim-de-semana romântico com minha cachorra Terra. Sucesso total: filhotes lindos.
Minha filha era só FELICIDADE.

Por trás da Letra: Drão – Gilberto Gil

O compositor escreveu em 1981, poucos dias depois da separação. A letra é uma parábola sobre o amor, que não morre – e sim, se transforma. Assim como o trigo, ele nasce, vive e renasce de outra forma. Há referências à cama de tatame onde o casal costumava dormir (“cama de tatame pela vida afora”) e aos três filhos frutos do relacionamento deles (“os meninos são todos sãos”).

O curioso é que o próprio Gil era um dos poucos da roda de amigos que não chamava a mulher de Drão. Ele e Caetano a chamavam de “Drinha”.

O apelido foi dado por Maria Bethânia. Drão vem do aumentativo de Sandra, a terceira mulher de Gilberto Gil. Ao virar título de um dos maiores sucessos do compositor, o apelido incomum sempre foi confundido com a palavra “grão”. Sandra Gadelha desfaz o mal-entendido e se assume como inspiração dos versos densos, compostos em 1981, em plena separação do casal. Gil diz que foi bem difícil escrever a letra, uma poesia profunda e sutil do amor e do desamor. “Como é que eu vou passar tanta coisa numa canção só?”, questiona-se Gil no livro “Gilberto Gil-Todas as Letras” (Cia. das Letras).

Os dois foram casados por 17 anos e tiveram três filhos: Pedro, Maria e Preta. Hoje, aos 73 anos, Sandra mora sozinha no Rio, sonha em montar uma pousada e se lembra com carinho da canção que marcou o fim de seu casamento. Por uma feliz coincidência, Sandra costuma ouvir sempre a “sua” música no rádio do carro. Uma emissora carioca parece estar programada para tocá-la todos os dias, às 11h. A ouvinte especial está sempre sintonizada.

Sandra Gadelha: “Desde meus 14 anos, todo mundo em Salvador me chamava de Drão. Fui criada com Gal [Costa], morávamos na mesma rua. Sou irmã de Dedé, primeira mulher de Caetano. Nossa rua era o ponto de encontro da turma da Tropicália. Fui ao primeiro casamento de Gil. Depois conheci Nana Caymmi, sua segunda mulher. Nosso amor nasceu dessa amizade. Quando ele se separou de Nana, nos encontramos em um aniversário de Caetano, em São Paulo, e ele me pediu textualmente: ‘Quer me namorar?’. Já tinha pedido outras vezes, mas eu levava na brincadeira. Dessa vez aceitei.

Engraçado que Gil mesmo não me chamava de Drão. Antes havia feito a música ‘Sandra’. Já ‘Drão’ marcou mais. Estávamos separados havia poucos dias quando ele fez a canção. Ele tinha saído de casa, eu fiquei com as crianças. Um dia passou lá e me mostrou a letra. Achei belíssima. Mas era uma fase tumultuada, não prestei muita atenção. No dia seguinte ele voltou com o violão e cantou. Foi um momento de muita emoção para os dois.

Nos separamos de comum acordo. O amor tinha de ser transformado em outra coisa. E a música fala exatamente dessa mudança, de um tipo de amor que vive, morre e renasce de outra maneira. Nosso amor nunca morreu, até hoje somos muito amigos. Com o passar do tempo a música foi me emocionando mais, fui refletindo sobre a letra. A poesia é um deslumbre, está ali nossa história, a cama de tatame, que adorávamos. No começo do casamento moramos um tempo com Dedé e Caetano, em Salvador, e dormíamos em tatame. Durante o exílio, em Londres, tivemos de dormir em cama normal. Mas, no Brasil, só tirei o tatame quando engravidei da Preta e o médico me proibiu, pela dificuldade em me levantar.

A primeira vez em que ouvi ‘Drão’ depois que Pedro, nosso filho, morreu [num acidente de carro em 1990, aos 19 anos] foi quando me emocionei mais. Com a morte dele a música passou a me tocar profundamente, acho que por causa da parte: ‘Os meninos são todos sãos’. Mas é uma música que ficou sendo de todos, mexe com todo mundo. Soube que a Preta, nossa filha, chora muito quando ouve ‘Drão’. Eu não sabia disso, e percebi que a separação deve ter sido marcante para meus filhos também. As pessoas me dizem que é a melhor música do Gil. Djavan gravou, Caetano também. Fui ao show de Caetano e ele não conseguia cantar essa música porque se emocionava: de repente, todo mundo começou a chorar e a olhar para mim, me emocionei também. E, engraçado, Caetano é o único dos nossos amigos que me chama de Drinha.”

FONTE: Rosane Queiroz – Revista Marie Clarie

Minha mãe diria ”Gente fina é outra coisa”. Eu remodelaria a frase: Gente civilizada é outra coisa, mãe.

Poesia e texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1- Canal Rufus Wainwright

2- Facebook de Odonir Araujo

3- Canal Gilberto Gil

Teatro em casa: Júlia Medeiros

Atriz e escritora do Grupo de Teatro PONTO DE PARTIDA, de Barbacena, conta a história do livro. Prêmio Jabuti de Literatura Infantil entre outros internacionais também,

A avó amarela em dezembro de 2018

Leia aqui o post que escrevi quando fui ao lançamento do seu livro e conheci a vovó amarela real.

”A personagem que virou gente”

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2019/01/16/a-personagem-que-virou-gente/

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal Sesc São Paulo

Em sendas mineiras …

AS NAMORADAS MINEIRAS
Drummond

Uma namorada em cada município,
os municípios mineiros são duzentos e quinze,
mas o verdadeiro amor onde se esconderá:
em Varginha, Espinosa ou Caratinga?

Estradas de ferro distribuem a correspondência,
a esperança é verde como os telegramas,
uma carta para cada uma das namoradas
e o amor vence a divisão administrativa.

Para Teófilo Otoni o beijo vai por via aérea,
os carinhos do sul pulam sobre a Mantiqueira,
mas as melhores, mais doces namoradas
são as de Santo Antônio do Monte e Santa Rita.

No Oeste, na Mata, no Triângulo,
no Norte de Minas há saudades e ais.
Suspiros sobem do vale do Rio Doce
e o Rio São Francisco trança mágoas.

Enquanto na Capital um homem indiferente,
frio, desdobrando mapas sobre a mesa,
põe o amor escrevendo no mimeógrafo
a mesma carta para todas as namoradas.

Carlos Drummond de Andrade. ”Nova reunião: 23 livros de poesia” – Volume 1. Rio de Janeiro: Bestbolso, 2010. 3.ed.

A NORMALISTA

-Tenho que parar esse homem, gente. É todo dia me seguindo depois das aulas. As meninas já perceberam. Finjo que nem é comigo. Ele insiste. Nunca troquei palavra com ele.
– Quem sabe se trocasse … talvez parasse de seguir você, uai. Para e ouve ele, Carminha.
– Eu não. Já pensou se o Zé Carlos me vê de prosa com esse homem! Parece muito mais velho que eu. Sabe lá o que pode estar querendo, eu hem!
– Conversa. Eu fico por perto. Eu garanto. O que ele pode fazer com você?
– Não sei, sou noiva, né, não fica bem.
Na sexta-feira seguinte, Carminha ajeitava o cadarço do sapato que abrira o laço, quando seus cadernos caíram. No que foi pegá-los, duas mãos já haviam se adiantado e os entregavam a ela. Justo no dia em que se atrasara e as amigas já haviam saído.
Olhou para o homem, agradeceu e saiu andando devagar. Ele mais atrás, como se a escoltasse. Não lhe dirigiu palavra, não a ofendeu com gracejos, nem pilhérias. Apenas a acompanhou. E quando a viu entrar em casa, virou-se e se foi.
Carminha chamou a amiga Vera em casa e lhe contou o acontecido. Temerosa, porque agora ele já sabia onde ela morava. Lamentou.
– Mas por que você não entrou em outro lugar antes, em casa de uma amiga, sei lá.
– Não sei, não sei, Vera, não tive expediente. Vai escutando. Ele não fez nada, não falou nenhuma besteira, parecia um anjo da guarda. Que trem estranho, sô.
– É, muito estranho, cê boba, menina. Fica de olho. Qualquer coisa avisa o Zé Carlos.
– Num sei não, ciumento do jeito que ele é, capaz de arranjar briga. Pode sair até morte. Vamos ver amanhã, se o tal vem de novo.
O homem não foi.
E no outro dia também não.
Carminha sentiu muito suas ausências.
Há um fogo interno, uma chama, que tem a ver com o desejo. E desejo ninguém sabe de onde vem, ninguém controla, ninguém sabe o porquê.
Freud explica.

Acervo Histórico do 9º BPM

REMÉDIO NA ESTAÇÃO

Não me recordo bem se era morena, loira ou ruiva. Sei que tinha um dor de amor nas costas que a fazia se sentar na beiradinha do banquinho e falar meio pra dentro, como se quisesse desistir a qualquer momento.

E o fez por umas três vezes. Vinha, começava, se arrependia e saía rapidamente, descendo as escadas que davam para a rua de baixo. Alguma vez a acompanhei com o olhar, nas outras desisti.

Na quarta vez, iniciou contando que havia amado um único homem em uma cidadezinha. Era forte, jeito de moleque, piadista, que o conhecera no bar em frente à estação. Ela gostava de ir ali comer qualquer coisa porque sempre apanhava uma história ou outra, descida do trem com os passageiros. Assim teria o que contar mais tarde, no pensionato, às colegas de quarto, após o jantar.

Lembrou que vez ou outra faltava energia, e, ficarem ali à luz de velas era excitante … enchiam-lhe de prazer as histórias das colegas, muito mais experientes que ela, nascida e criada na zona rural da cidade mais distante daquele estado. Nem trem parava por lá. Trem para ela… novidade e tanto. Rita era calada, tinha cabelos ondulados qual essas moças de filmes antigos. Não sei por que não consigo lembrar de que cor eram.

Contou que conhecera lá o homem, que para ela dissera ser Júlio, representante comercial de laboratórios farmacêuticos. Vinha com uma bonita pasta marrom de couro que se abria como flor para um lado e para o outro.

Estava por ali a cada quinze dias e foi o bastante para Rita entrar na sua rota de conquista.

Havia um hotelzinho barato em que passaram a se encontrar. Apaixonou-se, ela, num tanto que já nem respirava bem, acometera-lhe uma certa asma brônquica que lhe tirava o ar. Mas quando Júlio chegava, não havia remédio melhor a sair de sua maleta que a camisa-de-vênus que usava sob os lençóis do hotelzinho barato. Era rápido sempre, beijos no fim, sem muito lirismo, quase sem nenhum lirismo, na verdade. Dava-se a ele e ele a ela assim em doses quinzenais, qual remédio em visita de médico.

E então, sumiu.

Anos e anos Rita comparecera à estação. Até que esta foi desativada. Não receberia mais passageiros, só cargas.

Rita perdeu as esperanças de reencontrar Júlio por um trem de amor daqueles. Só cargas e encargos apareciam por ali. Dor nas costas.

Fechou-se como um vagão em um túnel.

Não mais se entregou a viagens. Nunca mais.

Sofria dessa maneira, até enquanto sentou-se aqui para contar essa sua dor.

Cardápio da Uai Pizzaria, Toronto, Canadá

ENCONTROS DE AMOR

Na viagem, a viagem. Atraiu-lhe o desejo de conhecer quem e por quê. Era um ímã no aço. Era um visgo de sangue. Era o quê?
Foi.

Pegou o ônibus no lado oposto ao da Uai Pizzaria e foi.
Jamais se aventurara tanto, assim, sem saber o que encontraria, que sabores seriam aqueles … em um país estranho, que DNA era aquele. Foi.

No caminho, olhava a paisagem de outono, as folhas caídas ao chão. Depois de semanas de nevasca, aquele calor externo. Ou interno? Foi.

Sentou, observou, não viu quem pudesse ser o dono da pizzaria. Só garotada atendendo, mulher no caixa.
Pediu para embrulhar. Pegou o ônibus de volta. Como num vagão de trem, descontente, como quase sempre, retornou.

De volta às Gerais, recordava aquela noite de outono quando foi com a boca salivando especiarias a serem degustadas, saboreadas, em temperos mineiros e voltou com a pizza nas mãos. Fria, frias.

Quero me casar
Drummond

Quero me casar
na noite na rua
no mar ou no céu
quero me casar.

Procuro uma noiva
loura morena
preta ou azul
uma noiva verde
uma noiva no ar
como um passarinho.

Depressa, que o amor
não pode esperar!

Carlos Drummond de Andrade, in ‘Alguma Poesia’

Textos: Odonir Oliveira

Poemas: Carlos Drummond de Andrade

Fotos de arquivo pessoal

Fotos em P/B do Facebook BarbarasCenas

Vídeo: Canal tjongerak

Meu tio carpinteiro

O serrote vaivém

Havia numa certa cidadezinha do interior, um excelente carpinteiro, chamado velho Juvenal. Sua oficina era um brinco, sempre muito limpa e organizada, tudo nos seus devidos lugares.

Mas a mania do velho Juvenal era batizar cada ferramenta com um nome apropriado. Por exemplo, o martelo chamava-se toc-toc, o formão rompe madeira, o serrote vaivém.

Quando alguém do lugar precisava de uma ferramenta de carpinteiro, corria logo a oficina do velho Juvenal, a pedir-lhe de empréstimo.

Mas tantas lhe fizeram, demorando a lhe devolver ou ficando com a ferramenta de uma vez por todas, que o velho Juvenal resolveu parar com os empréstimos.

Certo dia, um menino foi à oficina, a mando de seu pai, e disse ao velho:

— Papai manda-lhe lembranças e pede emprestado o vaivém.

Mestre carpinteiro Juvenal fechou a cara e respondeu:

— Menino, volta e diz a teu pai que se vaivém fosse e viesse, vaivém ia; mas como vaivém vai e não vem; vaivém não vai.

(Sei esse conto popular, de cor, desde os 8 anos, quando o li no meu livrinho de leitura).

”Arruma a noiva que o Jorge arranja os móveis”

Slogan da publicidade – intuitiva – gravada nas flanelas de cor laranja, distribuídas aos clientes da Carpintaria São Jorge.

A CARPINTARIA SÃO JORGE

Meu tio Jorge veio do Alto Rio Doce, bem pequeno. Meu pai era o irmão mais velho. Os dois sempre tiveram grandes afinidades. Talvez porque seus destinos tenham sido forjados nas têmperas do aço e da madeira e banhados, temperados, em banhos de caráter e honestidade da mesma forma.

Bem pequenos, foram trabalhar na Cerâmica Bonato. Na friagem de Barbacena dos anos de 1930, dormiam no piso gelado, apenas sobre sacos de aniagem. (Todos tiveram, mais tarde, quando adultos, problemas de pulmão, de coração, levando-os a óbito, inclusive). Meu pai, logo depois, foi estudar na Escola Agrotécnica Diaulas Abreu, recém-criada, em sistema de internato, por longos anos – o que lhe valeu sólida formação teórica e prática.

Meu tio Jorge era fã da Emilinha Borba e do Vasco da Gama. (Até os anos de 1970, muitos mineiros torciam para times cariocas – Juiz de Fora é uma torcedora, até hoje, de times do Rio, em especial do Flamengo. Meu pai sempre fora ”Botafogo”). O tio era tão fanático pelo Vasco da Gama, que sem ter recursos para ir ver os jogos do seu time no Rio, pegava carona com caminhoneiros e levava muito tempo para ir e retornar. Mas ia ver seu Vascão jogar. Deu o nome de Dejair ao seu primeiro filho, em homenagem ao grande jogador vascaino, inclusive. Tio Jorge aprendeu o ofício de carpinteiro, trabalhou com Vitório Marteleto, ficou lá uns tempos e depois montou sua carpintaria no terreno da casa de meu avô Juquinha. Mas fazia muito barulho, a vizinhança passou a implicar. Precisava sair dali.

Tio Jorge tinha jeito com o ofício, desenhava os móveis e os riscava na madeira, adquiriu um pequeno maquinário e empregou um funcionário para manobrar a máquina. E cresceu. Era proseador de primeira. Com o acento mineiro, a pausa mineira, engraçado, cheio de maneirismos amineirados e me encantava. Eu, meninota, 10 anos, gostava de sentar junto dos meus tios e do meu avô Juquinha, quando vinha do Rio em férias, e ouvir aquilo tudo. Era curiosidade que não acabava mais. Podia ficar horas na calçada do quintal ouvindo aquele proseio todo. Era tudo música pra mim. Aproveitava cada minutinho do convívio, raro, com meus tios e avós em Barbacena. E adorava. Quase sempre com uma latinha de doce de leite, que minha avó Jovem fazia e me dava – que sabia da minha adoração.

A Carpintaria São Jorge passou a fazer móveis de quarto, de sala de jantar e carrocerias para caminhão. Depois, permaneceu por anos só se dedicando à fabricação de móveis. Meu pai sempre passou muito tempo na oficina do irmão, sabia também trabalhar com madeira e, quando estava em Minas, se deliciava por lá.

Já eu ia brincar no pomar entre os pés de todas as frutas e na casinha de bonecas de alvenaria que meu tio Jorge havia construído para as minhas duas primas brincarem. Era lá que a gente se divertia. E muito. E corria, entre laranjeiras, mangueiras, mamoeiros, mexeriqueiras, bananeiras. Que delícia aquilo tudo. Começo dos anos de 1960.

Casando com tia Eneida, pais de 6 filhos: Dejair, Angélica, Jorge, Almir, Lúcia Helena e Maurício, os criaram com valores sólidos e vontade de trabalhar.

Em sua nobreza, certa vez, salvou de acidente automobilístico na BR 040, uma senhora que sofrera graves ferimentos. A surpresa foi quando ela mencionou que era funcionária, alta funcionária, da FNM. Meu tio citou o irmão Plácido, a quem ela conhecia, claro, fresador ferramenteiro, delegado sindical metalúrgico etc. Meu tio a socorreu, levando-a para um hospital e lhe devolveu sua carteira de dinheiro, lotada de notas, nem fechava – com o que ela ficou muito agradecida. Quando semanas depois narrou ao meu pai o salvamento, a senhora elogiou a honradez e a solidariedade do meu tio Jorge. Meu pai chegou em casa, orgulhosíssimo do irmão mais novo. Era o mesmo caráter herdado pelos dois irmãos.

Meu tio foi algumas vezes à nossa casa na FNM, em Xerém, e depois, em meados dos anos 70, ao casamento de minha irmã, já no Rio. Que alegria tinha meu pai em recebê-lo por lá.

Depois de seu falecimento, meu pai, já morando de volta na sua terra, ia muitas vezes à agora chamada Marcenaria São José, no bairro do Pontilhão, dirigida pelos filhos, modernizada, assumindo outros projetos de marcenaria e design diferenciados. Meu pai tinha orgulho dos sobrinhos que ”tocavam a oficina” do pai e sempre dizia que tio Jorge estaria muito feliz em ver tudo aquilo.

Dedicatória: Ao meu querido primo Dejair, o primogênito, que mesmo se recuperando de uma cirurgia cardíaca, não se furtou a conversar por telefone comigo sobre nossos pais. Primo Dejair foi sempre muito carinhoso com seu tio Nem, seu Plácido, talvez até em nome do afeto que nutrira nossos dois pais. Foi Dejair que acompanhou os últimos dias de meu pai no hospital, quando seus filhos ainda não estavam na cidade. Obrigada, Dejo, valeu, primo.

Texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivos familiares

Vídeo: Canal total90show

Viagens na bagagem VII

ESSA BARBACENA

Barba
-acena
Sobe
Desce
Venta
Queima sol
Olha rosas
Olha
Rua Quinze
Olha Escola de Cadetes
Olha a Cabana da Mantiqueira
Olha as pedras
Tropeça
Levanta
Cai
Levanta
Olha mais
Olha isso aquilo, olha
Que Visconde de Barbacena que nada.
Que cidade de loucos que nada
Que gente boa de tudo!
Ah, Barbacena!
Acena
traz teus filhos todos de volta
Que a gente muda esse negócio de política
leite com leite
Vota de novo
Muito bem
E reconstrói esse país.
Eh, Minas,
Eh, Minas !

[…] toda palavra, sim, é uma semente; entre as coisas humanas que podemos nos assombrar, vem a força do verbo em primeiro lugar; precedido o uso das mãos, está no fundamento de toda prática, vinga e se expande, e perpetua, desde que seja justo”. Raduan Nassar, in: Lavoura arcaica. 2ª ed., Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982 p. 85-86- 160

O ”TREM DE MISTO”

Naqueles anos, lá por 1950, Dona Conceição fazia viagens de trem entre Antonio Carlos, Barbacena … pela ”Oeste”. Era menina ainda, e lembra. Lembra e conta que gostava de viajar no trem de misto. Quem comprava levava aquilo que comprava no trem de misto. Fosse à Ressaquinha, fosse a ‘Antonho Carlos, fosse de onde fosse, pra onde vortasse”.

Em meio à conversa, revela que sabe declamar. Lembra, desde menina, de uns versinhos de cor. E os diz.

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”.

– Olavo Bilac, em “Poesias”. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1964.

PRIMOS

Quero contar sobre meu amor por um primo. Nunca consegui esquecer aquilo, sabe” – contou.

Viveram sempre em cidades diferentes, desde crianças. Passavam férias de verão no mesmo lugar.

Ali, sempre amiguinhos, descobriram-se adolescentes e apaixonados.

Armando – dizia ela –  lindos olhos verdes, tímido, um poço dos afetos todos com a prima. Tanto afeto que, uma vez quando ela quebrara a perna, tinham os dois doze anos, cuidara as férias inteirinhas dela, dando-lhe preparação de água, esquentando-a, colocando em outro recipiente água gelada para que ela banhasse várias vezes ao dia a perna e o calcanhar ainda inchados – depois do gesso retirado. Era de uma gentileza que beirava à submissão – contava isso quase sem fôlego.

Ah, mas quem nunca brincou de médico com primas! Eles não. Cuidava dela como de uma flor do campo, frágil, mimosa. Para ela buscava o que fosse necessário, mesmo sem que pedisse. Lembrava Peri e Ceci em O Guarani, tamanha adoração.

Mesmo sozinhos, com todos os hormônios em ebulição, jamais efervesceram paixões neles mesmos. Nem um beijo roubado sequer. Eram primos. Filho de pai, irmão da mãe dela. Jamais poderiam ficar juntos e se casassem e tivessem filhos, como seria?

Que casar nada. Doze anos. Ouvindo o Lobo bobo de João Gilberto, disco do primo mais velho, jogando pedrinhas, seis marias, e batalha naval. Férias.

Tempos e tempos se passaram

Ela se casara com seu engenheiro. Ele, com sua vizinha, tendo com esta uma filha. Separara-se, casara-se de novo tenho aí mais dois meninos.

Ela soubera pouco de Armando por mais de duas décadas. Até que voltaram a frequentar os mesmos lugares. O olhar dele sempre o mesmo por ela. Divorciada, livre, sequer demonstrava qualquer intenção para com ele, homem casado, pai de dois filhos então.

Os olhares dele, no entanto, encandearam-se em palavras mais adocicadas, mais atenciosas. Uma balançada geral nela.

Tempos e meses depois, tudo é carnaval na praça principal, onde sempre passavam as férias. Praça da Matriz.

Na barraquinha em que se vendiam bebidas, os dois se esbarraram. Ela já estava ali, bebendo cerveja com parentes e amigos há horas. Ele, pescando. Chegou depois, bem depois de as escolas de samba e blocos terem desfilado.

Sozinho, olhou para ela, que meio ali meio lá na casa dele, recuou.

Anos e anos de tesão reprimido, agora o sabiam mesmo – explicava a mim.

Por que não beijar na boca, rir muito e relembrar o quão tontos sempre haviam sido. Lembrou-se de Mário de Andrade apaixonado por sua impossível prima Luísa e resolveu aceitar aquele desafio por décadas adiado.

Lendo seus pensamentos, Armando puxou-a pelo braço, naquela música “me dá um dinheiro aí”, levou-a para uma calçadinha com jardim e, na frente de quem quisesse ver, beijou-a com três décadas de atraso.

Dali foram se amar como se jamais tivessem se conhecido, mas com uma intimidade tal, que pareciam ter estado juntos por todos aqueles trinta anos  também.

“Depois só rezando na Igreja da Matriz uns três padres-nossos e umas três ave-marias, a pedir perdão a Deus pelo sacrilégio cometido. Mas teria sido sacrilégio, o senhor acha?”

REMÉDIO NA ESTAÇÃO

Não me recordo bem se era morena, loira ou ruiva. Sei que tinha um dor de amor nas costas que a fazia se sentar na beiradinha do banquinho e falar meio pra dentro, como se quisesse desistir a qualquer momento.

E o fez por umas três vezes. Vinha, começava, se arrependia e saía rapidamente, descendo as escadas que davam para a rua de baixo. Alguma vez a acompanhei com o olhar, nas outras desisti.

Na quarta vez, iniciou contando que havia amado um único homem em uma cidadezinha. Era forte, jeito de moleque, piadista, que o conhecera no bar em frente à estação. Gostava de ir ali comer qualquer coisa porque sempre apanhava uma história ou outra descida do trem com os passageiros. Assim teria o que contar mais tarde, no pensionato, às colegas de quarto, após o jantar.

Lembrou que vez ou outra faltava energia, e, ficarem ali à luz de velas era excitante … enchiam-lhe de prazer as histórias das colegas, muito mais experientes que ela, nascida e criada na zona rural da cidade mais distante daquele estado. Nem trem parava por lá. Trem para ela… novidade e tanto. Rita era calada, tinha cabelos ondulados qual essas moças de filmes antigos. Não sei por que não consigo lembrar de que cor eram.

Contou que conhecera lá o homem, que para ela dissera ser Júlio, representante comercial de laboratórios farmacêuticos. Vinha com uma bonita pasta marrom de couro que se abria como flor para um lado e para o outro.

Estava por ali a cada quinze dias e foi o bastante para Rita entrar na sua rota de conquista.

Havia um hotelzinho barato onde passaram a se encontrar. Apaixonou-se, ela, num tanto que já nem respirava bem, acometera-lhe uma certa asma brônquica que lhe tirava o ar. Mas quando Júlio chegava, não havia remédio melhor a sair de sua maleta que a camisa de vênus que usava sob os lençóis do hotelzinho barato. Era rápido sempre, beijos no fim, sem muito lirismo, quase sem nenhum lirismo, na verdade. Dava-se a ele e ele a ela assim em doses quinzenais, qual remédio em visita de médico.

E então, sumiu.

Anos e anos Rita comparecera à estação. Até que esta foi desativada. Não receberia mais passageiros, só cargas.

Rita perdeu as esperanças de reencontrar Júlio por um trem de amor daqueles. Só cargas e encargos apareciam por ali. Dor nas costas.

Fechou-se como um vagão em um túnel.

Não mais se entregou a viagens. Nunca mais.

Sofria dessa maneira, até enquanto sentou-se aqui para contar essa sua dor.

Pertinência: Nesses tempos de quarentena, quando os mais velhos têm se mantido reservados em seus lares, em seus momentos, amigos me relatam que emoções e memórias povoam seus pensamentos, reveem fotos, e começam a escrever, a registrá-las também, sejam por cartas a serem enviadas pelos correios, sejam em mensagens por e-mail, sejam via Facebook … Se essa VIAGEM DA QUARENTENA favoreceu essa outra viagem em si mesmos, que eu escreva também as minhas: seja aqui, ali, em qualquer lugar. Gosto de ler memórias afetivas das pessoas. Acho bonito.

A série Viagens na bagagem nasceu de uma demanda de grupos do Facebook para se compartilhar fotos de viagens – visto que em tempos de pandemia isso se tornara impossível. Como sempre conecto o que escrevo a uma imagem, a uma canção, resolvi dar voz e vez ao que vi e vivenciei em viagens nas minhas criações, e com tudo isso, portanto.

Leia também: Viagens na bagagem I

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2020/04/19/viagens-na-bagagem-i/

Viagens na bagagem II

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2020/04/20/viagens-na-bagagem-ii/

Viagens na bagagem III

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2020/04/25/viagens-na-bagagem-iii/

Viagens na bagagem IV

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2020/04/30/viagens-na-bagagem-iv/

Viagens na bagagem V

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2020/05/13/viagens-na-bagagem-v/

Viagens na bagagem VI

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2020/05/22/viagens-na-bagagem-vi/

“… rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra o seu curso, não irritando sua corrente, estando aberto para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é.” Raduan Nassar, in: Lavoura arcaica1975

Poesia e textos: Odonir Oliveira

Fotos do Facebook BarbarasCenas

1- Canal José Lito – Tema

2- Canal anindya8q

Chico Buarque e as crianças

O MENINO QUE LEVITAVA

Ao clarear do dia o menino abria olhos arregalados
De beber o mundo.
Mas era pouco.

Montava seu cavalo alado
Como se dançasse com ele.
Era doce o menino.
E partia ao encontro de seus marimbondos
de suas rãs
e lagartixas.
Morcegos eram como flores do campo.

A tarde tinha a estrela vésper sempre a sua espera
E nela menino, cavalo e aventuras seguiam,
bebendo cada folha, cada árvore, cada trilha.
Mas era pouco.

Depois, pisar na água era um barulho celestial
Era cócega
Era música
Era verso
Era poesia.

Desmanchar rotas citadinas
Mergulhar no escuro de grutas cavernas, barcos e estradas.
Era pouco
Porque o menino ria, ria, mas ria tanto,
que de prazer
levitava.

E de baixo, em terra firme,
Ninguém o alcançava
E não era pouco!

Lecionei para crianças pequenas até 1976. Foi justamente em 1977, quando foi lançado esse LP, com as músicas da peça infantil, que comecei a trabalhar com pré-adolescentes e adolescentes, em Santos. Os alunos da 5ª série, de então, adoravam essas canções. E os maiores já as interpretavam com suas chaves de vivências, de contextualização. Nunca esqueci esse disco. Pena, que hoje os pais jovens nem o conheçam, nem proporcionem essas belezas a seus filhos. Tampouco as escolas.

CRIANÇA DIZ CADA UMA …

Esse era o nome da coluna semanal do Dr. Pedro Bloch, médico foniatra, dramaturgo e jornalista. Gostava demais de suas crônicas em jornais. Depois foram reunidas em livro também. E, mocinha, eu as devorava.

… DIZ UMA

Na sala de aula o menino recém-chegado dos EUA não se conformava com o uso do verbo tomar no sentido de ”Ele tomou o ônibus das cinco”. Questionava que ninguém poderia tomar um ônibus. Os colegas brasileiros tentavam explicar ”Ele pegou o ônibus, entendeu?”. Ficava pior, como alguém podia pegar um ônibus, ninguém conseguiria… até os colegas desistirem e irem jogar futebol no recreio.

Outra vez, eu assistia a aula de uma professora ( sentada ao lado da coordenadora pedagógica na classe), observando o trabalho que realizava com a fruição de um poema etc. Todas as crianças daquela terceira série atentas, a professora fazendo a mediação adequada, solicitando as ideias e sensações dos alunos. Tratava-se de um poema de Drummond. Fui apreciando aquilo tudo, quando a mestra perguntou algo que envolvia a palavra pesadelo. Um menino, pequenininho, afirmou que ”um pesadelo é um sonho pesado”. Adorei aquela relação semântica e até ”etimológica” da criança. Depois, refleti com a professora sobre quais haviam sido os processos cognitivos que alicerçaram aquela resposta dele.

Vivendo em outro estado, a filha de minha sobrinha recebe muitos livrinhos e brinquedos pedagógicos que lhe envio desde que nasceu. Possui bonecas e bonecos de pano – famílias inteiras – animaizinhos … porque tudo isso favorece a construções simbólicas nos pequenos, além da valorização do material de que são confeccionados, da importância do artesanato etc. É claro que foi crescendo e na escola as outras crianças levam seus brinquedos produzidos pelas indústrias, em série, as lojas também desaguam outros produtos sedutores etc. Ocorre que em viagem, viu numa loja de artesanato local várias bonecas de pano. Imediatamente pediu aos pais para comprarem uma pra mim, pra ela me dar de presente ‘porque a tia Doni gosta muito de bonequinhas de pano, né mãe’. Aos 3 anos. E reza todas as noites, pedindo por mim. Encanta-me vê-la e ouvi-la nos vídeos.

… DIZ DUAS

Nos anos 40, no Rio, o caminhão do ”mata-mosquito” parava nas ruas e os agentes iam de casa em casa higienizando-as, cantinho por cantinho, com seu vapor. O menino de 4 anos constata que a irmãzinha de 2 estava sem calcinha, sentada no peniquinho na hora em que o ”mata-mosquito” chegou. Deu seu jeito. A mãe acompanhava o homem pela casa, mostrando cantos, seguindo seus passos. Ao final, fecha a porta e procura pela menininha. Pergunta pela irmãzinha, ao que o garotinho responde ”Guardei ela, mãe, guardei ela no armário, porque ela tava sem caça, mãe”. E foi com peniquinho e tudo que a mãe a salvou do guarda-roupa. E ela nem chorou lá dentro, devia estar achando que era brincadeirinha do irmão mais velho. Já a mãe ficou apavorada.

Na ”Vinidinha”, quando morria alguém fazia-se o velório era em casa. A curiosidade de um menininho de 5 anos, nos anos 40 – sem parentes próximos, convivendo apenas com pai, mãe e irmã menor – era enorme. Queria entrar e ver o que estava acontecendo ali no vizinho. Escapou de casa e foi ver aquilo de perto. Foi barrado na porta, pelo irmão grandão da menina que morrera. Criança não podia entrar ali. O garotinho, do alto dos seus 5 anos retrucou vingativo ”Também quando minha irmã morrer, não vou deixar você entrar” e saiu cuspindo marimbondos.

Nos anos em que as parteiras iam às casas dos outros ajudar nos partos, o avô, o pai e os filhos menores aguardavam longe, fora da casa, o desenrolar dos fatos. Só as avós e tias ajudavam no parto. Foi aí que a menininha, de quase 4 anos, escapou e foi dar na porta do quarto da avó, para esperar o nascimento do irmãozinho ou da irmãzinha. O avô materno, muito ”zeloso da moral e dos bons costumes da tradição”, correu e foi buscar pelas orelhas e pelos cabelos a pequenina na porta do quarto, repleto de outras mulheres. Perguntou-lhe o que tinha ido fazer lá dentro, se era para esperar lá fora. Ao que ela respondeu ”Vô, eu nunca vi cegonha, vô, fui lá pra ver ela chegando”. Foi reconduzida ao quintal.

… DIZ TRÊS

O netinho adorava ajudar a avó. Se ela estava abrindo massa de pastel com rolo ”Me dá vó, que eu te ajudo”. E lá ia a avó lhe dar o rolo de pastel pra ele abrir. E quando a via costurando na máquina, ficava observando aquele movimento do pedal, vez em quando ia lá embaixo olhar como ela fazia com os pés, tudo em detalhes mesmo (a avó contava que o pai dele também, na ”Vinidinha”, chegava a dormir aos pés da máquina, enquanto ela costurava). Deu que o garotinho de 3 anos e meio, observou a dificuldade da avó para enfiar a linha na agulha da máquina, não conseguia, ajeitava os óculos, tentava de novo … ele observou aquilo e falou ”Vó, deixa que eu te ajudo. Me dá o óculos”. Colocou aqueles óculos de grau da avó para desempenhar a tarefa – talvez entendendo que fosse ferramenta sine qua non para se enfiar uma linha na agulha das máquinas.

Creio que crianças e jovens têm muito em comum com as nuvens. Tanto eles quanto elas nos fazem olhar para cima, para o céu. Ou não? (Minha mãe, ”narradora dramática”, faria 101 anos. Escrevo histórias reais que ela gostava de contar. Ela não sabia contos da carochinha. Minha mãe era das realidades nuas e cruas. Linda!)

Poesia e crônicas: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1- Canal Os Saltimbancos – Tema

2- Canal Gootie Music