Em primeira pessoa

PEDINDO ESTRADA

Paro, que gosto de respirar mato.
Paro, que gosto de beber ar de rio.
Paro, que nada pode ser mais sensual que nuvens de algodão-doce no céu.
Paro, que gosto de ouvir o som do nada cortado pelo bucolismo de mim.
Paro, porque meu sonho, meu lirismo, minha rima pedem estrada.
sam_9435

Sempre adorei estradas. Quando menina, ficava olhando pelas janelinhas dos ônibus em que viajava do Rio para Minas e adivinhando que mundos eram aqueles, quem moraria por ali, se haveria crianças como eu, como iriam à escola … na minha imaginação as cidades não se aprofundavam, e aquilo que eu via das janelinhas já eram as cidades. Uma concepção infantil ainda, sem nenhuma elaboração.

sam_7914

Crescida, quis ser caminhoneira, imagine. Acreditava que pudesse conhecer meu país dessa forma. Sim, porque a gente conhece vivendo ali, conhecendo as pessoas, seus hábitos, sua cultura, sua linguagem, ah, nisso então me delicio com ouvidos atentos. E pergunto, quando não entendo. O que é mesmo isso? Gosto das explicações e, surpresos de que existam outras formas de se dizer aquilo, acabam me explicando. O mundo é GRANDE mesmo. Bem sei. E vou aprendendo.

sam_48141

 

Foi assim que em 1987, fiz uma viagem mochileira, como se tivesse 20 anos. Na verdade, por aqueles tempos, eu passei a ter mesmo.

Fui de ônibus com um amigo, professor de Geografia, Osvaldo, e um ex-aluno querido, Fabiano, o Bianinho, 15 anos, para o sul do Chile. Dias de viagem de ônibus, dormindo, acordando, nas paradas o banho, o almoço, a janta. Na madrugada a Cordilheira dos Andes penetrada, deflorada em neve – no verão de um janeiro. Eu, minha manta, minha mochila de ferros, enorme, para ficar em pé sozinha no chão (tenho-a ainda aqui, aguardo mochilar de novo) . Viña Del Mar inesquecível. Oceano Pacífico gelado e muito salgado. De Santiago, Viña Del Mar, fomos de trem até o fim do continente, de lá pra frente só mar. Aquele Pacífico salgado todo, a grana curta, sem comprar lembrancinhas, recuerdos, sem fotografar quase, tudo caro. As baterias para os fones de ouvido, idem. As ligações internacionais, idem. A vontade de ir em frente, sempre.

Ficávamos em pousadas, casas de famílias – que no verão hospedavam visitantes, apenas com café da manhã, o desayuno. E saíamos a pé, percorrendo, percorrendo, conhecendo, conhecendo. Naquele tempo me propus a nada escrever, nada anotar, nada registrar. Apenas a confiar na memória. Hoje para refazer aqueles percursos, tenho que recorrer ao Google, pois que não me lembro mais com precisão de nomes de lugares e apenas das sensações vividas, das emoções tatuadas em mim.

Num domingo ensolarado saímos de Valvívia , 840 km de Santiago – cidade universitária e cultural – com belos jardins e lindas paisagens e tomamos uma embarcação – não me recordo de que espécie- não tenho, nunca tive ligação forte com mar, com alto mar muito menos, meus amigos costumavam dizer “Você morreu afogada em outras encarnações, só pode“. Fato é que não tenho intenções de mar mesmo. Fizemos a viagem de cerca de uma hora até um forte, O Forte de Mancera. Viagem sobre lagos, nos quais não se enxergava margem alguma do outro lado, profundos e muitíssimo perigosos. Cuidei de ficar na parte de cima da embarcação. Observando as aves, enormes aves que sobrevoavam literalmente nossas cabeças. Meus amigos fotografavam e eu, maravilhada, apenas. Li que havia horário para o último retorno e tal. Avisei-os. Ficamos atentos.

A paisagem “em terra” era deslumbrante, uma pequena vila de pescadores, o forte, em ruínas, todo de pedra, com canhão e tudo, seculo XVII.  Perdemo-nos ali, tamanha beleza, presença inconfundível de um ser maior que o humano. Acontecia um Festival de Cinema ou de teatro em Valdívia, não me recordo bem, e muitos atores também haviam feito aquela viagem conosco na embarcação, eram da Argentina, do Chile e de outros países. Falavam muito alto, declamavam, riam muito e com isso, todos nós perdemos a última viagem de volta para Valdívia. Lembro que os atores, inclusive, precisavam estar lá para alguma premiação, algo assim. Foi um desespero total.

Não havia lugar para hospedagem na aldeia de pescadores. Era domingo, dia sagrado para eles, que tinham pequenos motores em seus barquinhos e talvez pudessem nos levar até uma aldeiazinha próxima e de lá pegarmos uma jardineira até Valdívia. Imaginei. Se nós os convencermos, seriam várias viagens … já fim de tarde, embora fosse verão, com horário de verão, naquela latitude, escurecesse muito tarde, às nove ou dez da noite, mesmo assim” … o medo estratosférico. Já pensei que haveria de morrer ali tão distante do meu país, longe de minha filha menina, oh, céus.

Convencemos os pescadores, pagamos bem paga cada viagem. Fomos os 3 e mais 2 atores já na segunda viagem. Entrava água dentro da embarcação, com o movimento “em alto mar”. O motor voava. Os peixes e as aves nos acompanhavam. E eu sentada, no chão do barco, não nas madeiras feitas de bancos. Não suportaria. Fui de olhos fechados os 40 minutos até a aldeiazinha. Pareceram-me séculos.

Chegando lá, tive uma crise de pânico – creio hoje – não consegui andar, fiquei enrijecida, minhas pernas travaram e eu só chorava, de gritar, de soluçar, de falar o que não me recordei nunca. Só meus 2 amigos me narraram depois. Fui carregada no colo até o ponto. Fui me acalmando, mas sem conseguir mexer as pernas. Fui colocada no banco da jardineira, e durante todo o tempo de viagem – nem recordo quão demorada foi – seguiram me acarinhando, conversando, contando piadas, cantando pra mim. Só em Valdívia, muito devagar, consegui descer da jardineira. De madrugada, na pousada, tive pesadelos e falei o tempo todo, assim contaram meus amigos – que por conta disso não dormiram também.

Mas nada nos impediu de prosseguir viagem 2 dias depois até Puerto Montt, de trem, por horas e horas, com porcos, bicicletas e muito mais, nos acompanhando na viagem. Quem já assistiu como eu, anos depois, a Diários de Motocicleta, com Che Guevara, personagem principal, saberá do que estou falando. Punta Arenas, depois.

A volta por Bariloche, pelos lindos lagos e vulcões em atividade, os parques magníficos, os cannyons, águas verde-esmeralda, parecendo ter sido derramada uma tintura dos céus nelas. Tudo de encantar mesmo. Depois a volta pelo interior argentino La Pampa, Buenos Aires. E no Brasil por Foz do Iguaçu, São Paulo. Tudo por terra, lago e mar. Dormindo numa barraca de camping. Tudo novo.

Pouca grana. Amigos de meus amigos já haviam feito esse percurso no ano anterior e nos indicaram todas as pousadas, casas de família etc. passeios nos caminhos. O que levei em grana? Em 1987, 350 dólares, para 28 dias de viagem. Do jeito que sempre gostei. Passeios para conhecer o mundo, os lugares, a natureza, as pessoas. Como a caminhoneira que nunca fui, ora.

Essa viagem inaugurou em mim, com um atraso relativo a uns 15 ou 20 anos, uma vida nova.

Continuo motorista de caminhão. Em terra. E algumas vezes nas nuvens também.

sam_35601

Observação: Minha amiga, Conceição A. Bento, professora em uma Universidade Federal em MG, defendeu sua tese de doutorado na USP, sobre Memórias, a que assisti. Fez o último curso de um renomado memorialista, professor na Sorbonne, que depois aposentou-se. Ela foi sua aluna. Sei que é  muito importante resgatar nossas memórias, há nisso uma revisão histórica individual e coletiva, além de se registrar o “real vivido”. É exatamente sobre esse tal “real vivido” o desenvolvimento do trabalho dela publicado em ”A Fissura e a verruma: corpo e escrita em Memórias do Cárcere” – tendo a obra de Graciliano Ramos como centro e mais toda pesquisa psicanalítica, social, literária a seu redor (simplificando a complexa dissertação apresentada e já publicada em livro com esse título).

Há uma moçada mais jovem que acredita que quem vive de passado é museu. No entanto, como escreveu Mário de Andrade “O passado é para se refletir, não para se reproduzir“. Penso como o modernista. Quando se lê o passado com outros olhos, com reflexão, revive-se de outras maneiras aquele passado. Há um fluxo de significados naqueles acontecimentos diferente do momento em que se os viveu. Já cantou Chico Buarque         ” … tudo o que a memória coa“…

sam_9456

Poesia e texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

1º Vídeo: Canal Grupo La Vuelta

2º Vídeo: Canal Jonathan Pereira

 

Anúncios

Já faz tantos anos. Nem percebi

 toquinho

A MÃE DOS ANOS 80

Revendo minhas fotos e recebendo outras, vou me lembrando da rotina de ter sido, tão nova ainda, tão cheia de responsabilidades. Ser mãe da minha ”cabritinha” era bom, viu. Chegando o mês do seu aniversário, eram dias e noites escolhendo o desenho do bolo, anotando as receitas dos docinhos e salgadinhos, testando antes, tudo com um PRAZER grandão mesmo. Ela, junto. Chegamos a enrolar mais de 400 brigadeiros, mais não sei quantos cajuzinhos, beijinhos, docinhos de abacaxi, a fazer as gelatinas coloridas, em formatos diferentes; depois embrulhar lembrancinhas, escolhidas por ela para os amigos, preparar os convites. Semanas de providências, a cada ano, com papeis crepom diferentes, nossa, tantas coisas lindas. Nós duas, apenas nós duas.

Mas minha filha gostava mesmo era de correr, ninguém a alcançava. Fazia teatrinho de fantoches, com palco, criava histórias, mas agradava a ela era correr, andar de balanço, na gangorra.  E riam muito, ela e seus amiguinhos. Fazíamos festa única, com os amigos do prédio, da escola e os poucos parentes que tinha seu pai em Santos.

Em 1986 foi diferente. Minha mãe foi do Rio para o seu aniversário. Sua avó santista, também. E muitos amiguinhos dela e meus enfeitaram a festinha. E enchemos mais de 100 bolas de assoprar – que em São Paulo são chamadas de bexigas. Além das músicas. Em 1986, fazia enorme sucesso entre as crianças, o disco de vinil Casa de Brinquedos, com músicas de muitos compositores e de Toquinho e Vinícius. Foi dança das 3 da tarde às 10 da noite.

Na parede fiz uma mostra de fotos de minha filha e lhe escrevi um poema. Não me lembrava disso, mas ao rever as fotos, fui lendo, agora com uma lupa, e transcrevendo o que lhe escrevera naquele dia.

Tenho grande prazer em ver fotografias, como vídeos também. Sou capaz de ficar muitos minutos resgatando o instante em que determinada foto foi capturada, quem a tirou, onde … fotos, na verdade, alguém já disse, capturam a alma das pessoas.

Creio que seja isso o que procuro quando me perco em fotos. Desejo capturar, captar a alma daquela pessoa ali.

36725070_658736044474389_1709380276385218560_n

36779243_658755004472493_32892895367266304_n

36718740_658753024472691_4178433168128344064_n

36775549_658755244472469_4052727008747061248_n
36730895_658752507806076_6422453773838319616_n
‘VOCÊ”
 
Choro suave
olhar indefeso
Você viva
Você vida
 
Era tarde
quase noite
Dedo na boca
Boca no seio
Dedo na boca
Você rindo
dormindo
qual anjo
acordada.
 
Você, menina nossa!
Olhos como o céu
Olhos da alma
Pureza! Paz! Alegria!
 
Meses correndo
Você resfriada
Doendo a barriga
Você tossindo
Você caindo
e sorrindo
 
Você com dentes
Você sem dentes
Comendo devagar
Falando depressa
 
Ah, você tão linda
loirinha do cabelo de milho
Você de pele clara
dos olhos agora de mar
Você, filha minha
Retrato da espécie
na continuação!
 
Você lendo
escrevendo
Você sofrendo
Você se formando
ganhando jeito próprio
particular
 
Dedo na boca
Você segue indo
 
Você, espelho da vida
Viva a sua vinda
Viva a sua vida
 
Viva você!
Te amo.
 
26/5/1986
36751485_658752747806052_8182834089624076288_n

 

Texto e poesia: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal (imprecisas, propositalmente imprecisas)

1º Vídeo: Canal Simone Pedaços – Áudio

2º Vídeo: Canal BAUDATV

3º Vídeo: Canal TRIBUTO ROUPA NOVA

99 anos

sam_4676
ACRÓSTICO

Irmã do trabalho, da obrigação diária
Tímida ao ponto, observadora, crítica
Amante de orquídeas, begônias, flores de seda
Lutadora de dia e de noite na sustentação da família
Inclemente na justiça, discurso moral idôneo, correção
Aspirante à doutora de todas as doenças.

Diletante da medicina, estudiosa, pesquisadora
Encantamento por valsas vienenses dançantes.
Anônima sempre nas narrativas de pais e irmãos mineiros
Reprodutora de ditados paternos à exaustão
Adivinhadora na interpretação de sonhos pelas manhãs
Uma fiel espectadora de filmes de mistério e de suspense
Julho trouxe do ventre de Natália ela, a menina valente
Ondas de sentimentos resguardados, de choros contidos.
Ombros cúmplices de filhos e netos na guerra da vida
Laranja seleta, jiló, angu molinho com leite os preferidos sempre
Inteligente, perspicaz, visionária de passos a seguir
Valente, braba feito onça, desconfiada
Entre segredos e declarações sempre uma advertência, uma recomendação
Ira de felina parida na defesa de suas crias ofendidas, machucadas, aviltadas
Razão escondendo uma emoção envergonhada, constrangida, sufocada
A mais deliciosa quituteira do trivial simples de tempero mineiro.

CONVERSAS INESQUECÍVEIS

Ao telefone: ”Mãe, animada pro carnaval?’‘ ”Muito, já até preparei minha fantasia, de tanto que eu gosto. Esse ano vou sair de Eva’‘ (risos)

36448109_653829131631747_7199690851226746880_n

Conversas tête-à-tête:

” Mãe, gostou do poema que eu fiz pra senhora? ”.” Ah, pensei que fosse do Carlos Drummond igual o da outra vez. Era bonito igual ao dele. Gostei”.

‘Queria gravar uma fita dessas de vídeo recitando Navio Negreiro ou Sinistro 13″. ”Como é, mãe? Começa aí pra eu ver se a senhora lembra mesmo” ( declamava só parando quando interrompida).

Meu pai não tinha estudo mas era um filósofo, gostava de Allan Kardec, era um homem muito bom e justo, só de olhar pra gente, já sabíamos se estava gostando ou não. Meu pai nem suava. Suava , mas não tinha pelos e nem cheirava”.

Cuidado, quem com porcos se mistura farelos come“. ” A família da minha mãe era muito sistemática, todos de Belo Horizonte, de estirpe francesa, dos Renault, pão duros que só vendo”.

36433538_653845614963432_390260588443336704_n

“Pouca farinha no leite, senão engasga’‘. ” A sociedade é isso que tudo nos cobra e nada nos dá“. “Quem sai aos seus não degenera“. ”Fulano é muito interesseiro, cuidado”.

“Fulana tá mal com beltrana, ciumada. Cuidado, fala mal dela com você, depois fala mal de você com ela”.

“Não gosto que falem mal dos atores das novelas; são meus amigos, entram aqui em casa todo dia”. 

sam_4678

Depois do teatro: “Não gostei não. Gritam muito e não são bonitos de perto como são na televisão”. ” Gosto do Nelson Rodrigues, mas na televisão. Se tiver alto, abaixo e pronto”.

” Olha só … você estudou na USP tudo aquilo e agora tá aí amamentando na minha cadeira de balanço, igual eu fazia, engraçado”.

36438137_653833068298020_4096336238359871488_n

Vou chamar seu pai; vem ver aquela roupa toda que ela já passou; como é que pode, nesse tempinho? Vem ver, Plácido, quando eu dei fé, olha só”.

” Como que você acerta esses caminhos todos aqui nessa cidade enorme, quem te ensinou isso tudo, dirigir por isso tudo?”. ”Engraçado, a gente anda, anda aqui em São Paulo e não encontra um conhecido, né “.

Gosto de tailleur branco de linho, com blusa de organdi, acho tão chique e sapato branco de verniz então, acho lindo”. “Nunca tive uma saia longa”.

36482964_653861471628513_7740468963695394816_n

“Acho homem que dá buquê de flores pra mulher a coisa mais linda, igual seu irmão fez com a mulher dele”.

“Acho feio mulher chupar picolé na rua, sem classe. E casada vestir saia acima do joelho e decote também. Falta de linha”.sam_3355

“Por que não vou à praia com seu pai? Eu não. Não ponho maiô nem morta. Deixa ele ficar namorando as beldades por lá. Ele fala que tem mulher muito pior que eu de maiô em Copacabana, que é pra eu ir ver o mar. Não vou. Sou mineira, mas não sou bobona igual ele com esse negócio de mar, de mar”.

Seu pai fala que eu nunca dei um beijo nele e vem com essa brincadeira de me forçar a beijar. Eu não. Primeiro que já dei sim, mas tô vendo aí umas que beijam muito e eles passando elas pra trás. Não dou beijo não”.

36430402_653844564963537_8376760629066727424_n

Antes eu é que sabia muita coisa, até de Minas. Agora você sabe muito mais coisas que eu, até de Minas. Eu não sabia nada disso que você tá ensinando pros seus alunos, meu Deus do céu, ah“.

Queria que seu pai estivesse aqui pra ver isso tudo. Ele ainda tinha tantos planos, tanta vontade de viver e não viveu“.

sam_4675

Obrigada, minha mãe braba feito onça, consegui ouvir sua voz. De verdade. Não gravei a fita de vídeo, mas tenho feito isso de outras formas.  

Texto e poesia: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal George C. Cassemiro

 

Das virtudes e dos vícios

aristc3b3teles

34901665_628118624202798_6714083238647693312_n

RAZÃO & EMOÇÃO

Ele não tem razão
ele não tem emoção
ele não tem respeito ou consideração.
A noite de lua
testemunha
a manhã de sol
desmascara
da independência, a dependência evidente
da liberdade, a geminada interferência
da escolha, a canastrice infringente da prisão.
Nada é tudo
tudo é nada
sufocou, amorteceu, narcotizou
do elo-laço, ora uma corrente com cadeado
a obsessão, a cegueira, o entorpecimento.
35268204_630365363978124_8907213635860824064_n
35287244_630245770656750_8981122055860649984_n
VIRTUDES
Pode o homem ser bom?
Pode o homem ser virtuoso
sem ser plausível de risos e deboches?
Pode o homem transitar pelo bem
com a sua essência natural
sem necessidade de escamoteações?
Pode o homem seguir seu instinto natural
sendo solidário, amistoso, digno?
Pode o homem afirmar seu âmago
repleto de compaixão e amorosidade?
Pode o homem distinguir-se por ser íntegro e incomum?
35923470_646312035716790_567474314920591360_n
lalostopthecruelty
34962742_624335294609127_5479154457419710464_n
CAPÍTULO IX
Da virtude e do vício; do belo e do disforme, moralmente; do que constitui o elogio e a censura
I
3.  […] A virtude é necessariamente bela.
” 4. A virtude, segundo parece, é a faculdade que permite adquirir e guardar bens, ou ainda a faculdade que nos põe em condições de prestar muitos e relevantes serviços de toda sorte em todos os domínios. 5. As partes da virtude são: a justiça, a coragem, a temperança, a magnificência, a magnanimidade, a liberalidade, a mansidão, a prudência, a sabedoria 6. As maiores virtudes são necessariamente aquelas de que os demais homens retiram maior utilidade, visto a virtude ser uma faculdade que permite ser benfazejo. Por tal motivo são particularmente tidos em consideração os justos e os corajosos …”
Aristóteles, Arte poética e Arte retórica, DIFEL, SP, 1964 p. 58
35943730_645311222483538_7952103228097691648_n
DAS VIRTUDES HUMANAS

É PRECISO TER OLHOS DE VER …

Há pessoas que só conseguem se importar consigo mesmas. Por extensão, com seus familiares, assim, quando algo inesperado acontece, pensam somente em como serão atingidos por aquela mudança, o quanto afetará suas vidas. Caso contrário, estando resguardados, protegidos em alguma bolha, em alguma redoma, em algum abrigo anti-aéreo, não são capazes de enxergar o mecanismo de comutação que fatalmente ocorrerá. ”Na falta de farinha, meu pirão primeiro”. ”Vou puxar a brasa pra minha sardinha” . E isso acontece, de forma tão profundamente arraigada, que parece ser até inconsciente. No máximo, ouve-se um discurso de solidariedade, mas é só. E bom será se a fome estiver acontecendo bem distante, se a guerra eclodir bem longe … nada que obrigue a refletir, a tocar com as mãos o problema.

Sempre me incomodou muito qualquer injustiça, as diferenças sociais sempre me tocaram muito. Na minha área de atuação profissional e pessoal acolhi dores e misérias. Aprendi com outros que me ensinaram a ser assim. E fui eu a beneficiária desse bem, muito mais do que aqueles a quem acudi.

Mas a vida precisa ser vivida. De verdade. Não apenas no discurso.
Ou como disse-me o pai de uma amiga, na década de 1970, em SP
“Odonir, por que você defende tanto os pobres; pobre sempre existiu e vai continuar existindo “.
Coitado, era um homem de pouca instrução e POBRE também, principalmente de espírito, de solidariedade. Havia conseguido uma casa, um carro, apartamento na praia e NÃO QUERIA QUE SE LEMBRASSE A ELE QUE JÁ FORA MAIS POBRE. Queria distância da pobreza.

31589823_611431652538162_1645802386603638784_n

COMUNHÃO

bebe verso
come letra
sorve número
mastiga a história
namora a ciência
acorda com a geografia
aprecia a letra e a música
desenha a geometria dos sons e dos signos
encanta-te com as descobertas todas os dias
porque todo dia tem um futuro novo pra você.
35776193_644259259255401_759556299053596672_n

IGUALDADES SEMEADAS

Em todos os anos em que lecionei em São Paulo, estive entre os meninos das escolas  estaduais de Carapicuíba e das particulares da Granja Viana e depois na Vila Romana. Estive nas escolas municipais entre os jovens do Jardim Santo Elias, em Pirituba, e os do Morumbi. Sempre rompendo muros de um lado e de outro com a mesma força. Integrando alunos dos bairros ricos aos dos bairros pobres, com campanhas de doações de livros, de socialização das conquistas de uns a outros, com visitas aos mesmos equipamentos culturais ao lado de uns e de outros. E comigo outros tantos colegas de ofício.

Sentia que não eram uns e outros, mas apenas eles e eu, eles e o mundo, eles e a vida em São Paulo e no mundo.

Aprendia com eles, enquanto lhes ensinava as coisas mais elaboradas do conhecimento formal e ao mesmo também aprendia, quando me ensinavam como eram, aquilo que queriam, como se sentiam.

Em 40 anos de ensino, pude, como poucos têm chance, medir e sentir as diferenças entre o tratamento dado a pobres e ricos, os valores ensinados em suas famílias, as dificuldades de relacionamento entre “os mais iguais e entre os mais diferentes”. Antes dos rolezinhos concretos, constatei rolezinhos emocionais, religiosos, funcionais e suas diversas formas de repressão.

Certa vez, jovens adultos alunos de escolas da periferia de SP foram convidados pela zeladoria a se sentar no chão do Theatro Municipal para não sujarem as cadeiras do salão nobre. Ao que me opus. Aconteceu quando eu estava na Secretaria de Cultura, desenvolvendo um projeto que criei  “Educação é cultura”, em que eu elaborava projetos pedagógicos a serem desenvolvidos por professores em suas escolas, envolvendo todas as disciplinas – preparando os alunos , recheando-os – para o saboreio de um espetáculo teatral, de uma apresentação de coral lírico ou de música de câmara. Para que tivessem acesso a tudo o que é de todos. Um teatro municipal, literalmente, pertence aos munícipes, portanto há que se frequentá-los.36064321_646552212359439_8760483018860134400_n

145d884bfc5bcc04d5a7bc11ec489818

36387183_652761375071856_3711216867503767552_n

A CARTEIRA DA VIRTUDE

Arlete havia trabalhado 2 dias inteiros, em uma cidade do interior, formando professores. Ao final do sábado tomara o ônibus intermunicipal, e pegara no sono durante as 3 horas até a capital.

Desceu na estrada, já à noitinha, pegou um táxi pra casa, que o cansaço a impelia a chegar o quanto antes e relaxar. Pagou, em frente a casa, e desceu. Quando foi abrir a porta não encontrou seu porta-chaves e a bolsa onde deveria estar. Telefonou para a filha que, de onde estava, veio para deixá-la entrar. Mas e a bolsa? Procuraram por todo lado e nada. O pior é que o cheque, ao portador, que recebera pelo trabalho, estava na tal bolsa também. Era de um valor alto.

Contou-me  essa narrativa 3 dias após, mas principalmente o que aconteceu depois. Durante 2 dias seguidos um senhor, procurou por Arlete, sem encontrá-la; apenas no terceiro dia isso aconteceu. Ele encontrara a bolsa com as chaves e os pertences. Lá havia o endereço de Arlete e o telefone. Durante o dia – contou ele – ligou várias vezes para confirmar se era dali mesmo a dona da bolsa etc. Sem sucesso, continuou tentando. Até que no último dia, passou na casa dela mais tarde um pouco e insistiu. Achava que estaria precisando da bolsa.

Arlete não acreditava naquela insistência exemplar de virtude ao dar telefonemas, em ir depois do trabalho as 3 vezes até lá. Era um homem humilde. Arlete quis agradecer, dar-lhe uma recompensa simbólica pelo tempo empenhado naquelas ações e, principalmente, como forma de elogio por sua virtude. O homem não aceitou nada. Disse a ela que esperava que um dia alguém fizesse algo parecido para ele também. ‘‘Eu fiz apenas a minha obrigação, dona”.

Ouvi essa narrativa faz mais de 25 anos e jamais me esqueci dela. Virtude a gente também aprende.34319920_626134484401212_5061179905304166400_n

III. [Habilidade em louvar o que não merece louvor]

”É prova de virtude superior mostrar-se benfazejo com todos. 30. Importa igualmente ter em conta as pessoas diante das quais se faz o elogio, pois, como diz Sócrates, não custa louvar atenienses na presença de atenienses. Convirá ainda tratar do que é tido em honra por cada auditório, por exemplo, pelos citas, pelos lancedemônios ou pelos filósofos. E, de um modo geral, o que é honroso deverá ser reduzido ao que é belo, visto que, segundo parece, o belo e o honroso são vizinhos. 31. Consideraremos outrossim tudo o que foi cumprido como convinha; por exemplo, se as ações de um homem são dignas de seus antepassados e de seu comportamento anterior, pois há nisso um indício de felicidade e é belo acrescentar novas honras as que já se possuem.” 

Aristóteles, Arte poética e Arte retórica, DIFEL, SP, 1964 p. 62

SAM_1051

Poesias e narrativas: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Frases e cartazes retirados da Internet

Vídeo: Canal ArtyClassical

São João baiano

 

a0c002b39f05e6541bef1aa84784da101

TEMPOS INESQUECÍVEIS

vozes roucas cantam
vozes bentas cantam
vozes bêbadas cantam
vezes umas dançam
vezes outras sonham
vezes castas são
vezes profanas estão
fogueira arde
balão sobe
rojão explode
prazer
encantamento
tesão
inesquecíveis

FESTA JUNINA EM ITAPUÃ

Viver à beira-mar tem seus prazeres obscuros. Aprende-se a amar não só os dias, como as noites, não só os dias e as noites, como nos dias e nas noites.

São João na Bahia era Natal. A publicidade apresentava ofertas para compras da mesma maneira que o fazia para o Natal. A força do mês de junho na Bahia é enorme. Talvez no nordeste inteiro. Coisa de sincretismo religioso mesmo. Enfeitavam-se as casas, e os apartamentos também, pelo lado de dentro, com bandeirinhas, balõezinhos, guirlandas, lanterninhas japonesas, de tudo um pouco – como as árvores de Natal em dezembro. Funcionários pediam férias, respeitavam-se as datas como feriados sagrados.

ciranda20de20sc3a3o20joc3a3o20-2040x60

Os preparativos nas casas comparavam-se aos das ceias de Natal, só que com o milho, como rei dos quitutes. Nomes diferentes para iguarias conhecidas no sudeste. Bebidas à base de caju, pinga, amendoim. Quiabo em carurus e pimenta da boa. Vatapás , abarás, acarajés, os pasteizinhos de arraia (que eu jamais comera) e de camarão, a paçoca salgada para acompanhar a moqueca, a farofa de caju do quintal, tudo feito durante o dia pra nos servirmos à noite. A canjica – a que chamamos de curau no sudeste – o mungunzá – a que chamamos de canjica – a pamonha e o maravilhoso bolo de rolo. A mandioca quentinha derretendo com manteiga de garrafa por sobre seu dorso … pra quem adora comer era festa divina, eram manjares dos deuses.

Nossa casa, nossa comunidade, vivia repleta de amigos baianos que gostavam de artes em geral, música, pintura, literatura, cantorias e muita dança. Enquanto fazíamos, íamos ouvindo os nossos baianos na vitrola, separando os vinis para a noite, depois era cortar bandeirinhas, colar e estender nas árvores do nosso grande quintal: do cajueiro à mangueira, do coqueiro ao outro coqueiro, do mamoeiro ao cajueiro. Tudo magia. Não soltávamos fogos, nem balões.

Nós éramos os fogos e os balões dançando, rindo, comendo, bebendo, amando.

Viver à beira-mar tem seus prazeres obscuros.

72fe21_dcb37aa359ca47338584c98a9e9ee0c5mv2

Poesia e texto: Odonir Oliveira

ARTE NAIF

1ª imagem: Pinterest – Festa de Sao Joao-Militao Dos Santos

2ª imagem: Ciranda de São João,  Barbara Rochlitz

3ª imagem: Arte Naif Letras e cores, São João

Vídeo: Canal Carlinhos Freddy “Doces Bárbaros”

Jardins de infância

crianc3a7as-mc3a3os-dadas

JARDINS DE INFÂNCIA

Estão todos ali naquela festa de confraternização. Quem são eles? Quem foram eles? Que sonhos desenharam, perseguiram, realizaram? Quem são eles?

Os homens, todos com mais de 60 anos, riem e fazem piadas sobre sexo, mulheres, futebol,  riem muito. São parceiros de copo, de paixões e de gargalhadas. Um comenta que “o que vale é a amizade, que nada paga aquilo, amigos são para sempre”. Outro relembra as aventuras de bebedeiras deles na adolescência, as madrugadas, as mentiras contadas – e bem sucedidas – aos pais, às namoradas. Cada um aumenta um ponto às narrativas, cada um conta vantagem maior, ou se coloca como o mais desafortunado, na esperança de que algum o corrija, o negue e reafirme a sua sorte com mulheres, com as situações. É um jogo. Um jogo de passes, um chuta, o outro toca, o outro conclui. Às vezes é uma partida de vôlei em forma e conteúdo, um saca, o outro toca e mais um corta. Divertem-se com as graças todas. Muitas abobrinhas, conversa fiada. A cerveja gelada solta as línguas e as gargalhadas. Muitas lembranças ali. Um jardim de infâncias em corpos reformados pelas esquinas das vidas, pelos palcos espetaculares, pelas macas hospitalares, pelos encontros e desencontros fatais.

tumblr_ov2d81geaz1wnvs4to1_500

As mulheres, todas com mais de 60 anos, riem e fazem comentários sobre maridos, filhos, netos. Umas se casaram algumas vezes ou viveram com alguns parceiros, outras continuam casadas com os mesmos maridos, outras ainda continuam sem casamentos. Trocam experiências. Umas sempre elogiando viagens e trajetórias de outras “Ai, se eu pudesse, ai se eu pudesse”.

Lembram das ausentes, contam sobre as ausentes, riem das ausentes, são só alegrias. A cerveja gelada solta as línguas e as gargalhadas. Muitas lembranças ali. A culinária e as habilidades artísticas de uma se sobressaem sobre as de outras. Os elogios são exagerados, amigavelmente exagerados. Olham para a mesa dos homens e concluem sobre o que estão falando. Quase em uníssono. Relembram de todos aqueles na adolescência, de suas fragilidades, de suas manias e cacoetes, de sua forma de dançar, de namorar, de beijar…. quem beijou quem, riem e revelam-se em deliciosas confissões. Tudo liberado, tudo permitido agora. “Sou fraca pra bebida, daqui a pouco já vou começar a falar besteira, gente”. Nada, estão entre elas, tudo válido. Riem muito, bebem mais, riem muito.

Uma pergunta sobre um namorado antigo, a outra conta. A amiga acrescenta “Ah, comigo aconteceu isso também com aquele outro, vocês sabem”. “Já comigo foi justamente o oposto, vocês nem imaginam, foi assim …”. Riem e se revelam.

depositphotos_6593322-stock-photo-multiracial-young-holding-hands-in

2a42b058cf2bfec7e00c221f3b7f845f

Rapazes e moças nesse instante se juntam e propõem dançarem. ”Música pra dançar junto, hem”. “Isso mesmo, dançar junto ”. ” Vai ter a dança da vassoura também, tem que trocar os pares, né”. “Vamos, gente, vamos, mulherada”.

35671844_639815019699825_5061248105089859584_n

fotoconfraria

Dançam os casais. Lentas. Boleros, sambas-canção …  Trocam-se os casais. Rock, twist, ié, ié, ié, hully gully. Grupos coreografam dancinhas, riem muito de si mesmos tão meninos ali assim. Beijos apaixonados. Fotos engraçadas. Alegrias muitas.

unkowviski_morgado_a_bebida_entra_e_o_quot_eu_te_amo_qu_lrjm7l0

Fim do encontro. Cafezinho para ajudar na volta pra casa. Despedidas. ”Você vem pro nosso São João, né?”. ”Não. Prefiro guardar os meus comigo”. “Nem eu. Com esse frio, vou pro nordeste. Todo ano vou, né. Uma semana, pousada reservada e tudo. Festa de São João tem que ser lá, já é vício aquilo pra mim”.

Despedem-se de seu jardim de infância e se vão.

 

Texto: Odonir Oliveira

Imagens retiradas da Internet

1º Vídeo: Canal José Almeida

2º e 3º Vídeos: Canal luciano hortencio

Personas

 

mc3a1scara-grega-do-teatro-43000620

slide_5

TRAGÉDIA , τραγωδία
rapaz púbere apaixonado
clama por sua amada
mãe proíbe
moça pobre
filha de vendeiro analfabeto
rapaz púbere apaixonado
declara-se à amada eterna
revela planos
a vida só faz sentido com ela
não quer dela se separar
a amada pobre avalia, releva
propõe trégua na guerra do amor
rapaz púbere apaixonado
renega aquele destino
apresenta a saída a ela
uma grossa corda e a árvore
amada pobre o convence
não àquele ritual mortal
no crepúsculo, estava morto
enforcado
a amada mudou, casou, viveu
a árvore está lá
todos se lembram do amigo adolescente
na terra mineira
mascara-romana_dsc09880_contenido
COMÉDIA, κωμωδία
Cena 1
– É a senhora, né, que faz isso? (dirigindo-se à mulher que caminha com seu cão, na coleira, pela rua)
– Sou eu o quê?
– É sim, a senhora que deixa o cocô do seu cachorro aqui no canto da minha porta.
– Eu? Observe aqui. Eu recolho tudo e levo comigo, repare aqui nesse saquinho.
– Não, eu sei como a senhora é. É do seu sim.
– Vamos analisar o que estava lá e esse aqui comigo, vamos comparar?
– Não, eu sei que é a senhora que faz isso.
– Ora, meu senhor, me viu fazendo isso? Como afirma assim tão categórico? Eu poderia dizer muitas coisas a seu respeito, só pela forma ameaçadora de se dirigir a mim, inclusive como  mulher, mas não teria provas …
– Eu sei como a senhora é (ameaçador) E é a única que recolhe cocô do cachorro aqui. Então, só pode ser a senhora mesmo.
A mulher sai andando com o cachorro na coleira e o saquinho de cocô.
Fecha o pano.
Cena 2
– Já pedi para não entrar na minha calçada, na garagem, pra manobrar seu carro. Vá até a esquina ( diz a mulher, enquanto caminha com o cão)
– Eu quebrei alguma coisa lá. Deixa de ser implicante. ( motorista ameaçador, manobrando o automóvel)
– Já pedi. Ali é minha casa (segue caminhando)
– Pior é esse seu cachorro cagando pela rua toda (aos berros pela janela do carro)
– Eu recolho tudo. Os de vocês é que são soltos na rua para fazer isso. Recolham vocês (seguindo em frente)
– Sai da frente, sua velha ! (acelerando o carro)
Fecha o pano.
Cena 3
Rapaz jovem lava seu carro branco na porta da garagem da mulher. A porta da garagem dele está livre.
A mulher sai com seu cachorro por mais de meia hora. Quando retorna, o carro branco está com portas abertas, sem o rapaz. Mais à frente, em direção oposta à casa dele, o rapaz cuida de um caminhão.
– Tire o carro da minha porta, por favor.
– A rua é pública. Fala direito. (desafiador)
– Aqui é minha porta, tire o carro.
– Chama a polícia, vai, chama a polícia (ameaçador)
– É melhor não, hem. Tire o carro (entrando em casa)
Fecha o pano
dionysos_mask_louvre_myr347
Tragicomédias
PERSONA, πρόσωπο
Comédia risível
De costumes corriqueiros comuns vilmente cotidianos.
Sem profundidade nos dias
Era vulgar no comum, visível a olho nu.
Fora moça pobre gorda morena
Sofrera por amor por muitas vezes
Sofrera pela pobreza
Sofrera pelo físico pouco aplaudido
Trocada, assim ela se sentia.
E dela isso não conseguira expurgar.
Lutara quanto à pobreza
Lutara quanto a ser orgulho da família pobre
Carecia elogios
Carecia destaque
Carecia reparações.
Carecia reconhecimentos.
Cristã, mascaradamente,
mas cristã.
Personas:
Fingia ser uma, era mil
Mil mulheres comuns sem distinção de outras
Tão carente quanto,
necessitando de carinhos do macho, aplausos, sorrisos,
amassos e menções.
“Jamais o retorno ao peso anterior, aos cabelos morenos ,
à substituição por uma outra melhor!”.
Era assim que se via: fora a pior.
Naqueles momentos novos a competição pelos machos era ponto de honra
“Nunca mais serei substituída”- arremedo de heroína de “O vento levou”
Trocava de máscara qual um Zelig de Woody Allen a agradar
machos, primeiro
depois a familiares: mãe, irmãos, sobrinhas, madrinha.
Orgulho do clã.
Máscaras de sobrevivência.
Em fundo raso: mulher vulgar, cotidiana, confusa, casual, comum
De novidade talvez a capacidade de dissimular
Mas nem isso era glória: Capitu de uns Bentinhos desavisados
que para feromônios comuns, respostas biológicas.
Era o bastante.
Talvez aquele peito pequeno reformado com o silicone, de bicos escuros
aquela cavidade úmida desnuda de pelos, tornada quase uma púbere
os atraísse, os excitasse a idealizações de penetrações primeiras.
Ofertas de ocasião.
De pele morena e nada de novo.
Dentro de si o de si apenas .
Nada de doar-se, nada de entregar-se, nada de seu neles.
Nada.
Medo.
Imagens para consumo externo, de fora de si.
Medo da substituição contumaz, da troca iminente, recorrente.
Máscaras.
Apenas vaso preenchido de água de sal
Incapacidade de dar e sofrer.
Para tanto esforço de emagrecimento, exercícios físicos diários bronzeamentos de peles haveria de contar com aplausos.
Aguardava e se comprazia com apenas aquilos ou issos.
Bastava.
Mais de cinquenta anos… espessura tênue, cova rasa.
Prazeres.
Beberes
Comeres.
Apenas.
Não necessitando de mais.
Frouxidão de laços.
Mascarando sonhos sufocados
Enganando a si e a outros
A certos outros tão e tanto iguais a ela.
ou de máscaras de paetês de dourados triviais
que se dissolvem ao apagar das luzes,
e, por vezes, ao acender também.
Personas tragicômicas num palco de beira de estrada.
Teatro poeira de atores casuais. Retreta de descaso.
Poucos aplausos.
Uns, somente em consideração ao intenso esforço.
Risível comédia humana.
dionisio2
Poesias e texto: Odonir Oliveira
Imagens retiradas da Internet
Vídeo: Canal Biscoito Fino