Semana da criança: a italianinha

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Datemi Un Martello

 

Datemi un martello

Che cosa ne vuoi fare

Lo voglio dare in testa

A chi non mi va

A quella smorfiosa

Con gli occhi dipinti

Che tutti quanti fan ballare

Lasciandomi a guardare

Che rabbia mi fa

Che rabbia mi fa

 Datemi un martello

Che cosa ne vuoi fare

Lo voglio dare in testa

A chi non mi va

A tutte le coppie

Che stanno appiccicate

Che vogliono le luce spente

E le canzoni lente

Che noia mi dà

 E datemi un martello

Che cosa ne vuoi fare

Per rompere il telefono

L’adopererò perchè si

Tra pochi minuti

Mi chiamerà la mamma

Il babbo ormai sta per tornare

A casa devo andare

Uffa che voglia ne ho no no no

Un colpo sulla testa

A chi non è dei nostri

E così la nostra festa

Più bella sarà

Saremo noi soli

E saremo tutti amici

Faremo insieme i nostri balli

Il surf, il hully gully

Che forza sarà

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TRADUÇÃO

Datemi Un Martello 

 

Ah ah ah….

Thiu riu thiu ria….

 Deem-me um martelo,

O que quer fazer com ele,

Quero batê-lo na cabeça

De quem não gosto, sim sim sim,

Daquela dengosa

Com os olhos pintados

Que todos todos fazem dançar

Deixando-me a olhar.

Que raiva me dá!

Que raiva me dá!

 Thiu riu thiu ria….

 Deem-me um martelo,

O que quer fazer com ele,

Quero batê-lo na cabeça

De quem não gosto,

De todos os casais

Que ficam coladinhos

Que querem as luzes apagadas

E as musicas lentas.

Que tédio me dá!

Ufa, que tédio me dá!

 Thiu riu thiu ria….

 Deem-me um martelo,

O que quer fazer com ele,

Para quebrar o telefone

O usarei,

Porque em poucos minutos

Me chamará mamãe,

O papai está quase para voltar,

Para casa devo ir.

Ufa, que vontade que tenho!

Não não não, que vontade que tenho!

Thiu riu thiu ria….

Um golpe na cabeça,

A quem não é dos nossos

E assim a nossa festa

Mais bonita será,

Seremos nós somente

E seremos todos amigos,

Dançaremos juntos os nossos bailes

O surf e o hully gully

Que força será!

Que força será!

Que força será!

Que força será!

Cicantica…

Ai!

https://www.vagalume.com.br › R › Rita Pavone › Datemi Un Martello

 

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TERCEIRA INFÂNCIA

A Jovem Guarda já fervilhava nas rádios AM da cidade, as gírias, a moda, os modos, tudo influenciava a quem vivia naqueles anos sessenta.Os festivais da canção de São Paulo, os programas de auditório da Excelsior, da Record,  da Tupi eram determinantes para que crianças e adolescentes bebessem da cultura estrangeira que galopava. Chegavam os primeiros discos dos Beatles, dos Rolling Stones e de outros conjuntos americanos. Tudo era novidade.

Gina era meninota ainda, não se incomodando, ainda, com assuntos de querer, de namorar, de se enfeitar com a sensualidade já permitida. Gostava de cantar, dançar o twist. As composições entravam-lhe pelos ouvidos e ela passava a repeti-las, mesmo sem compreender seu significado, mas repetia aquilo tudo com enorme prazer. Encantavam-lhe as palavras, a sonoridade das palavras, o ritmo das canções. Não eram invocação para o real vivido, para uma paixãozinha inicial, como para muitas de suas amigas. Quase todas.

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Naquele ano de 1964 iniciaram-se as dublagens, as mímicas das canções estrangeiras. As meninas criavam  grupos de 4 para dublarem formações americanas. Os meninos imitavam Beatles, Rolling Stones, com guitarras sem fio, numa mise-em-scène  adorável.

Gina encantara-se por Rita Pavone, pelo italiano que ela trazia, pela língua, pelas traduções das letras. Acreditava que teria de entender o que iria cantar. Cantar não, dublar. Assim encaminhou-se a estudar por conta própria, a ouvir muitas e muitas canções em italiano. A língua já lhe era até familiar. Pensava em italiano. Vestia-se como Rita Pavone nas apresentações que ela e as amigas faziam no clube nas concorridas domingueiras. Levava até o martelinho.

Assim, iniciou seu interesse por uma língua estrangeira, a primeira pela qual demonstrou atenção. Nem o inglês beatlemaníaco a fascinara tanto quanto o italiano.

Um dos motivos de tamanho interesse também devia-se ao fato de haver engenheiros italianos trabalhando na fábrica da cidade, da observação de sua forma de falar, de se vestir, de se relacionarem com os filhos. Tudo era um mundo novo que se descortinava para a menina.

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Conforme Gina ia traduzindo as letras, ia descobrindo naqueles versos um outro mundo, o do amor, da adolescência. Foi assim que Gina abriu-se em flor, através das letras e das canções italianas que ouvia. Com um prazer extasiante foi descobrindo o amor. Um amor que chora, ri, perde e ganha alguém.

“Cuore, cuore, Dio come ti amo!”

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Texto: Odonir Oliveira

1º Vídeo: Canal ORIGINALISSIMA

2º Vídeo: Canal Tonino Marcato

3º Vídeo: Canal Marcello Felici

4º Vídeo: Canal  LACM2610

5º Vídeo: Canal  SagradoAmor2

6º Vídeo: Canal glivingston73

7º Vídeo: Canal charassita

Imagens retiradas da Internet: telas da pintora surrealista Bridget Bate Tichenor (1917-1990), que viveu em Roma por um período.

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Simplicidades … três mulheres de verdade

 

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Ave, Maria

Passo por uma casa. É domingo. Encanto-me com o jardim, as flores. O cão late forte abafando minhas palmas insistentes.

Na janela surge a mulher. Espanta-se com as fotografias que tiro fascinada com suas flores. Entro mais. Vou vendo muita beleza. Não sei o que é mais lindo. Conta-me que gosta muito de plantas, como trata delas. Olho que o mais importante ali são as flores, as plantas. O acabamento da casa não tem a mínima relevância. Mas as flores.

Converso muito com ela. Digo-lhe de onde venho, o que estou fazendo ali. Nada pergunto. Olha-me desconfiada, como se não acreditasse em tantos elogios a ela, a seu trabalho. Sorri agradecida e diz Mas esse jardim nem tá bem cuidado nem nada. Discordo, explico por quê. Ela é só atenção.

Saio dali inchada de delicadezas, das delicadezas das flores e daquela mulher.

No dia seguinte, volto, bato palmas. Insisto nas fotos. Ela cede e, por último, me conta. Seu nome é Maria.

Ave, Maria !

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Marilene, a Dica

Ri, ri muito, ri de tudo.

Ensina que se as folhinhas da arruda caem é porque tem muita inveja ao redor, e as folhas estão como escudo de proteção. E fala da vida, do filho, das mulheres, da força das mulheres e ri, ri muito. Aprendo tanto que fico sem saber se digo que sou professora. Digo e conto que aprendi muito ali. Vou até os canteiros das verduras, fotografo a beleza delas verdinhas e vistosas. Conta-me o que tem que ser feito. Olha só, você não tem que dar muita confiança pra planta, não. Quanto mais você quer que ela fique bonita, mais ela desobedece. Esquece dela, não liga. Você vai ver, logo logo ela vai desabrochar. É como mulher que quer muito ter filho e não engravida. Tem que esquecer. Esquecendo dá certo.

Vou com seu sorriso e sua habilidade faceira de falar e de cortar couve nos dedos. E olha que a faca não pode estar muito afiada não – declara – porque senão corta os dedos.

Caminho pelas ruas no dia seguinte. Lá vem Dica lá longe. Quer saber se já fui aqui, ali, acolá. Ficamos cúmplices de ensinamentos.

Segue ela pra cuidar do filho adolescente indo pra escola.

Dica é demais !

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Salve, salve, Maristana

Conheci essa mulher bem antes, mas só agora pude sentar com ela e ouvir sua história.

Trabalha desde os nove anos. Veio da roça trabalhar com Sá Donana. Morou a vida toda com ela, até que falecesse. Trabalhava para pagar a pensão …  de Sá Donana.

Tem 82 anos e sabe da história muito. Sabe da cultura mineira, sabe que foi a diretora do grupo escolar a primeira a ter uma TV na cidade, sabe das verduras que planta, colhe e cozinha do quintal-horta direto pra cozinha. Cada um que pegue seu prato e venha se servir diretinho no fogão à lenha. Comida leve, fresca, barata, como gosto.

Primeiro, meio desconfiada, mineiramente desconfiada, me conta que vai fazer frango com quiabo e angu amarelo. Gosta? Gosto. Muito. Volto em seguida, depois de deixar minha Luna sossegada e poder me entregar à  conversa com ela. Envergonha-se, diz que não sabe se explicar direito … tem apenas uma ajudante durante a semana e uma para sábados e domingos. Sempre foi só.

Aos poucos me conta tanto, como se me conhecesse de há muito. É um poço de afetividades. Vou. Ela corre até o carro a se despedir de mim e me contar mais na janela do automóvel. Diz que noutro dia tirará uma foto, mas que estava pouco arrumada agora.

Fui embora pensando nela. No outro dia voltei, e no outro …  há dias.

Mulher forte assim a gente não desperdiça nem um pouquinho, bebe até o último gole. E sai cheia de energia, de coragem, de esperança. E de força.

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Texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal PianOrquestra Dez Mãos e Um Piano

Como se aprende a amar

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DE: Odonir

PARA: Leitores

Das conversas triviais entre primos e amigos, nascem reflexões, sentimentos abissais, trocas de cumplicidade e, sobretudo, conhecimento sobre o ser humano.

Tudo que li, estudei de psicologia do comportamento, da sexualidade … fica miúdo frente à grandeza da exposição inteira do outro frente a nós mesmos. E vice-versa.

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Durante anos em escolas fiz, em equipe, aconselhamentos a pais de crianças e adolescentes. Ouvi muito e orientei também. Uma das formas de se iniciar a prática do afeto em crianças é ensiná-los a cuidar. Sim, a cuidar de uma plantinha, de um aquário, de um animalzinho… tratar dele, alimentá-lo, acarinhá-lo, promover seu bem-estar … Lembro quando foi criado um brinquedinho eletrônico, o Tamagotchi, para ensinar as crianças a terem responsabilidades com ele, caso contrário morreria. Na época, nós educadores refletimos sobre a necessidade de se criar algo tão artificial para ensinar amor, cuidados etc. Muitos pais não queriam animais por serem trabalhosos, prenderem a família em casa, entre outras argumentações. Fato é que não se queria ter nenhuma responsabilidade adulta por aquilo que cativavam, digamos assim. Modelos esdrúxulos de ser e viver.

O egocentrismo, natural na primeira infância e até na segunda, e a inconsequência e onipotência dos adolescentes muitas vezes os fazem ter sérias dificuldades para lidar com o amor. É claro que receber afeto, carinho, atenção e cuidados pode desencadear amor e fazê-los retribuir. Mas nem sempre apenas isso é suficiente. É preciso ensinar e dar exemplos efetivos do que é cuidar do outro: de um parente mais velho, de um amigo, de um ser vivo animal ou vegetal e do responsabilizar-se por seu bem-estar. O produto desse encaminhamento de afetos é sempre favorável e prepara o ser humano para os diversos tipos de amor aos quais se entregará mais tarde. Já dizia o poeta Drummond “Amar se aprende amando”.37699-252c252ckooooooooooo

Percebo a dificuldade de algumas pessoas de lidar com afeto por um animal, um cão, um gato … Muitas escolheram não ter filhos, não têm plantas em casa e admiram-se da dedicação que outras mantém por animais. Ouço e analiso as razões desse tipo de comportamento, claramente explícito. Há certo egocentrismo e certa inconsequência em algumas pessoas, talvez marcas de momentos anteriores que não tenham sido vividos de forma mais altruísta. Embora seus discursos sejam muito interessantes até, percebe-se alguma fraqueza quanto a dar e receber afeto. Afirma-se que mulheres são mais cuidadoras, mais afetivas (por modelos etc.) que homens, mas nem sempre é assim que constato. Há certo culto à sua própria beleza, ao seu próprio bem-estar, ao seu próprio prazer (talvez reflexo de décadas de submissão etc.) em parcela grande de mulheres também. Assim, concluo que isso não seja relativo a um gênero, mas a seres humanos que não tenham exercitado, em momentos iniciais, o cuidar.

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Desenvolver a sensibilidade é tão importante como se alimentar. A poesia, a literatura são alimentos essenciais para quem se deseja humano, solidário, altruísta. É só se deixar levar por elas.

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Texto: Odonir Oliveira

1º Vídeo: Canal Piano Brasileiro

2º Vídeo: Facebook, postado por My Future Someone

Dizendo versos

 

Por que dizer, ler seus próprios versos? Certa vaidade, certo preciosismo de propriedade, certo encanto narcísico?

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Não sei de todos os poetas, mas de alguns deles. Drummond, por exemplo, acreditava que devia dizer, ler seus versos, apenas. Concordo com ele. Quando declamamos nossos próprios versos já inserimos neles certa interpretação, certa linha de sentimentos, de sensações.

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Por outro lado, há poemas que nasceram para serem declamados, foram escritos para serem ditos em tom altissonante, como os versos condoreiros de Castro Alves , prontos para seduzirem a quem os ouvia nas campanhas abolicionistas em saraus, nas ruas …

Fato é que atores interpretam, dão passos além dos que havíamos dado ao saborear, namorar um belo poema. Eles sim fazem o que seu ofício lhes ensinou a fazer; não os poetas, creio eu.

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O suporte para poesia é qualquer um: poste, guardanapo, lata, parede, faixa, serenata, tela tecnológica, papel, livro. Costumo fazer uma sutil diferença entre poema e poesia, contudo. Pra mim poema é um produto concreto, nascido de letras e frases. Já poesia é um processo abstrato de se enxergar a vida, cada coisa ao nosso redor: um nascer do dia, um desabrochar de flor, um riso de criança, um carinho do animalzinho, as nuvens coreografando danças nos céus … poesia vai além. É ela que distingue os seres sensíveis de outros para quem ela não tem nenhum valor. E isso nada tem a ver com instrução, estudo. Tem a ver com sensibilidade, com espírito afável a dar e receber, creio eu. Sensibilidade se desenvolve, se aperfeiçoa também.

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A vida com poesia é muito maior.

Há um ano criei um canal no Youtube onde leio meus poemas. Não tem intenção monetizadora nem nada. Jamais quis sequer publicar um livro, não seria agora que gostaria de vender meus escritos então. Lá acrescento imagens e trilha sonora aos poemas. Por que faço assim? Porque sempre vivi acompanhada de música, até bem antes de aprender a ler e escrever. Gosto de concretizar imageticamente o que escrevi. E há algumas possibilidades de recepção dos vídeos: fechar os olhos e só ouvir os versos e  a trilha sonora, retirar a música e apenas ver as imagens e ler os versos … ou recebê-los como os editei.

Canal Odonir Oliveira

https://www.youtube.com/channel/UCjD6ZiLlJOgDu5-lupIiWGw

Se há prazer em escrever, há também prazer em se ler versos. Os nossos e os de outros poetas. É como se fizéssemos contato com eles, como se tivessem assoprado plumas ao vento, e nós houvéssemos conseguido recuperar algumas delas.

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Texto: Odonir Oliveira

Imagens retiradas da Internet

Fotos de arquivo pessoal

1º Vídeo: CaetanoVelosoVEVO

2º Vídeo: Canal Odonir Oliveira

 

 

Velhice, doce velhice

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Ao vermos nossos filhos crescidos, encaminhados em suas vidas, resolvemos “Vamos morrer na nossa terra”. É claro que não se tratava de um convite para a morte, mas sim para usufruirmos da qualidade de vida que sempre desejamos, mesmo estando vivendo em metrópoles. Era escolha, opção. Poderíamos ter renovado nossos passaportes, ido visitar nossa filha e seu cãozinho em Toronto, no Canadá, termos ido bater pernas pelas cidadezinhas portuguesas e espanholas que tanto adoramos. Não. Voltamos para o cheiro de terra que conhecemos. Enquanto temos pernas e desejos… vamos nos beijando e beijando o mundo.

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Gosto de sentir a terra em minhas mãos, vê-las ásperas mesmo, não ligo. Gosto de ver as flores se embonitarem para nós e os passarinhos livres ao nosso redor. Somos como eles, só não podemos voar. Não como eles o fazem. Voamos em nossa riqueza de ser e estar onde queríamos e há tanto tempo.

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Cato miudezas pelo chão como diamantes; cato sementinhas como brilhantes; cato flores e frutos como estrelas. Sei que a noite fará a temperatura baixar, uma certa nostalgia de nossas infâncias e juventudes chegar. Sentamos e narramos um ao outro o que ainda não conhecemos um do outro. É um prazer !

Depois ficamos mudos, um livro, um som do entardecer, do anoitecer, uma noite escura, uma noite de lua. Seguimos.

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Nossa porta permanece meio aberta à natureza, vez por outra visitam-nos um pássaro, uns insetos … vamos aprendendo a ser parte dessa comunidade natural.sam_1161

Faço doces. De mamão, de abóbora, de cidra, de laranja em calda, doce de leite, bolo de fubá cremoso ou com erva-doce. SAM_5545

Há quem diga que a velhice limita demais o viver. Não pensamos assim e, porque somos cúmplices, seguimos não pensando em ruínas, mas na beleza do tempo que nos resta para amar e sermos únicos um para o outro, porque semelhantes e coniventes com nosso presente mais do que com nosso passado e nosso futuro. Não somos pessoas em ruínas, em demolição, como as casas que vemos pelas ruas daqui.

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Somos vida e gostamos de poder escolher a simplicidade, conversar com as pessoas que sempre viveram por aqui; aprendemos muito com elas, desde a linguagem, as expressões, quanto o proceder, o respeito, a quietude. Faz bem estar aqui.

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Sinto muito a falta dele, quando se ausenta por qualquer motivo. Sinto falta de ouvir as canções que põe para tocar, das sugestões de leituras que me propõe, do seu cuidado com nossas árvores e flores e, sobretudo, sinto sabê-lo tão longe de mim. Na verdade, já há muito entreguei meu viver a ele, por livre e espontânea vontade. Ele sabe.

Nosso ser e estar é parceiro.

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EU E MEU VELHO

Quase sempre

acordamos juntos,

tomamos café, cada um do jeito que mais gosta,

vamos aos canteiros de flores,

vamos à horta,

tratamos das galinhas e dos patos 

Quase sempre

rimos de nossas imperfeições,

gargalhamos de nossos prejuízos etários,

sentamos e descansamos ouvindo nossos bolerões embaixo da mangueira.

Quando há mangas, chupamos umas tantas, mas sem facas, mordendo a fruta.

Aí, sem mais nem menos, acho meu velho tão sensual mordendo mangas !

Chego mais perto, rimos, nos tocamos, nos beijamos.

Quase sempre

lemos poesias, ficção, ouvimo-nos um ao outro como música

nem sempre suave,

nem sempre terna,

nem sempre pacífica.

Nós dois somos a música.

(Barbacena,  agosto de 2016)

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Texto e poesia: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal (última imagem, do filme “Bob and Rose”, retirada da Internet)

1º Vídeo: Canal rsinatra (Egberto Gismonti – 8-string guitar, piano, wood flutes, voice
Naná Vasconcelos – percussion, berimbau, corpo, voice)

2º Vídeo: Canal Odonir Oliveira

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DEDICATÓRIA

Post dedicado à Tereza e Fredmil, que conheço desde os anos 90 em SP. Fizeram há mais de uma década a opção por sair da cidade para viver em outra, menor, e vivem companheiros por lá. Nessa semana fizeram 55 anos de casados. Louvo seu amor e sua parceria. Felicidade e muita saúde para os dois, viu.

A cabocla Tereza

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CABOCLA TEREZA
Lá no alto da montanha
Numa casinha estranha
Toda feita de sapê
Parei numa noite a cavalo
Pra mór de dois estalos
Que ouvi lá dentro bate
Apeei com muito jeito
Ouvi um gemido perfeito
Uma voz cheia de dor:
“Vancê, Tereza, descansa
Jurei de fazer a vingança
Pra morte do meu amor”
Pela réstia da janela
Por uma luzinha amarela
De um lampião quase apagando
Vi uma cabocla no chão
E um cabra tinha na mão
Uma arma alumiando
Virei meu cavalo a galope
Risquei de espora e chicote
Sangrei a anca do tar
Desci a montanha abaixo
Galopando meu macho
O seu doutô fui chamar
Vortamo lá pra montanha
Naquela casinha estranha
Eu e mais seu doutô
Topemo o cabra assustado
Que chamou nóis prum lado
E a sua história contou
“Há tempo eu fiz um ranchinho
Pra minha cabocla morá
Pois era ali nosso ninho
Bem longe deste lugar.
No arto lá da montanha
Perto da luz do luar
Vivi um ano feliz
Sem nunca isso esperá
E muito tempo passou
Pensando em ser tão feliz
Mas a Tereza, doutor,
Felicidade não quis.
O meu sonho nesse oiá
Paguei caro meu amor
Pra mór de outro caboclo
Meu rancho ela abandonou.
Senti meu sangue fervê
Jurei a Tereza matá
O meu alazão arriei
E ela eu vô percurá.
Agora já me vinguei
É esse o fim de um amor
Esta cabocla eu matei
É a minha história, dotor.
(De João Pacífico e Raul Torres )

 

 

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TEREZA, UMA CABOCLA ROMÂNTICA 

“Viver é muito perigoso” (G. Rosa)

Era Tereza a morena cabocla mais feminina da região. Gostava de ouvir as modas nas rodas de noites, sentados irmãos, a parentada e os violeiros rasgando dores e saudades das amadas, das terras distantes, das esperanças perdidas, das traições de amigos, de mulheres … Tereza apreciava cada moda daquelas e era alimento pras suas carências e prazeres.

Deu que ali entre todos os que paravam na venda do seu Neco, agradou em demasia de um quase índio quase negro, meio assim de olhar matreiro e risada alta, voz de cantador. Tocava pouco da viola, menos ainda da rabeca, mas cantava. E inventava. Era bão de invencionices o tal. Pedia acompanhamento, “um dó maior”, “um si menor”, como se de muito entendesse ou tivesse estudado de cancionices. Era matreiro. Matreiro e bonito. Bonito e encantador de olhares também. Agradou de Tereza como nem. Agradou de suas pernas grossas, desde meninota eram assim. Agradou de seus seios fartos e empinados. Agradou de seu cabelo ondulado castanho-escuro e do seu olhar romântico pros versos que cantava nas noites de varanda, lá  no seu Neco.

Fez que fez, dedicou que dedicou, com olhares e sorrisos, versos a ela, que Tereza entregou-se. Foi dele e de mais nenhum outro que vinha por aquelas bandas a se entornar  viola pra ela. Disse pra cada amiga que tinha dono agora. Ele era seu. Nome não sabia, que todos o chamavam de Goiano apenas. Imaginava que fosse das bandas de Goiás então.

Passou a esperar por ele. Passou a gostar dele num tanto, que quem via achava que já houvera lhe dado os beijos, os abraços, os seios, as coxas e o ventre pra serem degustados a dois. Nonada. A Tereza era de matutar num tanto e esperou que ele se entregasse, falasse cara a cara o que dela queria, como é que seriam, pra onde é que iriam, se tudo ficaria daquele jeito mesmo – que bão era um tanto tamém. Aguardou.

Goiano, sempre  pelas corrutelas e querências da vida, num vinha nem ia, empacava. Tereza querendo ir e vir, ir e vir,  Goiano preferindo as casas de tolerância das vielas de vento forte, se abrigando em bocas alheias, cantando modas e tocando um nada de viola. Ora num cabaré, ora num lupanar, outra hora num bordel mais perfumado, dançando boleros e cochichando safadezas nas orelhas das mulheres amaciadas pelas estradas. Não havia uma zona dos entremeios em que Goiano nunca tivesse deitado em colcha de cetim grená. Era doido por pinga de qualidade, por boleros e permanências curtas. Gostava da alta rotatividade das picadas, das veredas e dos caminhos esquerdos da bandidagem parceira.

De costume assim enfileirado, o homem moreno acaboclado sentia falta por alguma vez de rever Tereza, de dedicar certo olhar religioso a ela, mas nunca deixava claro suas intenções, fossem quais. Não dava torcer nem braço, nem mão, nem boca, nem corpo pra Tereza se afeiçoar. Media distância, como se a moça fosse reservada pra um seiquê qualquer de pouco esclarecimento na sua cachola e no seu apaixonamento insistente.

Foi assim que foi.

Foi que Tereza amava aqueles braços de poesia e invencionices de rir e de chorar também.

Foi mesmo assim que um dia, levou Tereza pra dijunto dele, mas separado, de certeza.

Abandonava Tereza e ficava dias sem aparecer nem pra dar conta de um angu com feijão e couve, nem pra uma noite de suor com ela, nem mais pra uma viola, daquelas que tinham endoidecido Tereza antesmente. Foi ficando Tereza e seus doces olhos castanhos. Restando, restando.

Numa noite, chegou Goiano sem notícia dada antes.

Pegou Tereza e um cavaleiro tocando viola na sala pra ela. Era como se estivessem grudados de imã no olhar.

Matou.

(E mais não conto que conheci a cabocla Tereza e sei que sucedeu mesmo assim essa história)

Texto: Odonir Oliveira

Imagens de arquivo pessoal

Vídeo: Canal Kaio Diêgo Costa

Emergências emocionais

 

Conheceram-se em situação de emergência emocional. Crise de saúde física ou emocional? Vai saber…

Do momento do encontro inicial ao clímax do contato, houve perdas e danos, risos e sufocamentos gástricos, engasgos incontidos, soluços intermitentes, isquemias transitórias, enxaquecas e, por fim, vômito em jato. Tudo com o quê apenas a saúde não poderia contar.Vai saber…

Remédios eram aquelas conversas intermináveis pelas telas, fosse sobre a conjuntura nacional sobre a internacional; desabafos de temática cotidiana, o emprego, o carro batido, a dor na família, uma perda aqui um dano ali, uma torcida acolá. Uma música ontem, um filme hoje , uma série amanhã, compartilhados via tela em emergência existencial. Coincidências de “toques de cotovelos cibernéticos”, etéreos, aéreos, em nuvem. Vai saber …

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Tudo novo, mesmo que conhecidos em carne e osso, em tela encontravam-se, assim, pelos botecos webianos. Os produtos, as alegrias, a vontade de rir … Freud explica, quase querendo fazer uma selfie de almas.

Os hábitos diferentes, os gostos diferentes, as trajetórias diferentes. Tudo igual. Vai saber … “Gente é pra viver não pra morrer de fome”, canta aquele que era um antes e agora já não se pode confiar nele politicamente mais. 

–  É mesmo, né.                                                                                                                                                                        

– Gosta de jiló, já comeu com chuchu? E com pimenta?

– Nunca provei, sabor amargo.  

– Vou ver se consigo uma boa receita, estas coisas têm segredos que os mais antigos conhecem bem, como altura do fogo, quantidade de água, tempo de cozimento, além da escolha do jiló ! …

  Há, há, há, quanta sutileza pode ter o jiló, né. Preciso até ter cuidado ao cozinhá-lo, ao degustá-lo…

–  Comer jiló é para ..profissionais!..

Ao que parece você é uma neófita!…hahhahhahahha

Não pode ser muito nem pouco, não pode ser cozido demais nem de menos. Como vinho é preciso aprender a gostar do discreto amargor que acaba por lhe conferir um certo charme!…

Vamos ver se consigo o passo a passo!..

Diria que nem tudo que parece amargo é realmente amargo. Um discreto amargo pode dar um gosto especial a certos pratos.Para alguns amargo é doce e nos faria ver as diferenças do mais doce mais salgado mais ácido e, nem tanto amargo, como é a fama do jiló!

– Aguardo o passo-a-passo.

–  Amargo pode ser doce, como pimenta que pra uns arde e pra outros não.                                –  Maas,  o nome desse sabor é amargo mesmo? Há controvérsias.

– Isso veremos brevemente ! e mesmo as controvérsias são as faces da mesma moeda!..Reagiu…tem a ver!…Não existe reação sem motivos.O que não tem importância não gera reação!.. Interpretá-las é FREUD.

Sabia que aquela pessoa interessante que conhecera há alguns meses era … era atraente. Era atraente conversar com ela em palavras, sentia falta daquela conversa. Mas havia perigos perigosos naquilo também: metáforas e alegorias em profusão, onomatopeias pouco reveladoras dos sentidos verdadeiros, pressupostos unilaterais ou bilaterais. Vai saber …

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Correr riscos, ainda que etéreos, implicava viver aquele discurso cheio de exclamações, vírgulas, pontos de interrogação. Tudo muito novo, ainda que de nuances tão conhecidas. No suporte, na plataforma diferente mas revelando emoções tão conhecidas, tão experimentadas. Sabe-se como começa, como caminha… e como terminaria. Teria de haver um término, uma finalidade em tudo aquilo. Ou não?

Embora haja ansiedades desveladas, prazerosas, elas também podem ser mais complexas do que aparentam.

Seres humanos são cheios de complexidades, quando deviam viver apenas.

As músicas enviadas e recebidas, o compartilhar de mensagens sobre partidos políticos, panelaços, coxinhas, terceirização, Lava Jato permeando sílabas, figuras de linguagem e trocadalhos recheados de humor. Tudo em cima do ponto, na mosca tal e qual em um e noutro.

Fôlego para mais quantas partidas? Para mais quantas chegadas?

O choque de realidade como um tapa na cara; nada daquilo existiu? Talvez nada daquilo tivesse existido.

Medo de abrir nova pasta, novo arquivo.

Salvos na nuvem, entretanto.

Deletem-se todos os e-mails, até prova em contrário.

Perigos perigosos desvelam-se a partir de um enter.

Ficar com um sentimento nas mãos.

Essas telas são muito perigosas mesmo.

Vai saber.

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Leia também:

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2016/09/26/carta-aberta/

 

Texto: Odonir Oliveira

Imagens do pintor Pino Daeni

1º Vídeo: Canal: MaestroCanale

2º Vídeo: Canal:  max26111000