Janela discreta

LUAU

terra firme
canoa silente
em serenata
líricos coaxares
murmúrios solitários
ruídos de pirilampos
tantos
corredeira de rio
frio
ventos leves
febre
dó ré mi fá
estrela lume
halo da lua
halo de gente
sol lá si
sós

MULHERES APAIXONADAS

Durante alguns anos, observei pessoas e, principalmente em terapias reichianas em grupo, pude conhecer muitas histórias de amor. Sempre me interessei mais, e guardei na memória, as das mulheres – por motivos de identificação ou por oposição. Gostava de tentar compreender aquilo que narravam, visualizar os episódios e até sentir o que haviam sentido. Enfim, sempre fui solidária àquelas histórias, nunca critiquei suas ações ou não-ações, sei que nessas coisas de amor, quem ridiculariza o outro é, no mínimo cabotino; quando não, cruel.

Assim, quando estou ouvindo uma canção ou até lavando a louça, me vem a imagem daquela mulher e da situação vivida. Lembro, reflito, às vezes com outro olhar … e quero escrever aquilo.

SANGUE

pulsando lateja
correndo percorre
fervendo explode
muitas vezes
muitas vezes
muitas vezes
ele e eu
eu e ele
ele e eu
eu e ele
veias dilatadas pulsando
veias quentes gritando
veias dele sobre
veias dela sobre
transfusão
transfiguração
rios vermelhos
tempestades vermelhas
sem afluentes
desaguando num mar

JANELA DISCRETA – I- ”FENÊTRE”

Cíntia era assim.

– Eu? Homem nenhum faz de mim o que quiser. Vou lá, pego, mato e como, hahaha, duvida?
– Mas parece que ele tá com a outra, todo mundo tá vendo, Cíntia.
– Tá nada. Ganho fácil. Eu sei do que esse tipo de homem gosta. Ela não tem isso, não. Sabe a ” Jennifer” da música, então? Ganho, fico, não tem pra ela não. Porque os direitos são iguais. Homem e mulher, sexo, cerveja, cigarro, gargalhadas, quer melhor? Nenhum zé resiste, neguinha.
– Vai se apaixonar pelo zé, hem?
– Eu? É zé, igual a todos os outros da praia, da quadra, do samba, do forró. Entendo de homem e sei o que é bom. Eles precisam de mim e eu deles, o combinado não é caro, minha santa.

Cíntia sabia do que estava falando. Brincava bem. Jogava em várias posições e não cometia falta, nem cobrava … pênaltis. Fez tá feito. Gozava com gosto em campo. Era mulher gol. Valorizava sexo casual, sem relacionamento, sem namoro. Dizia que os caras pareciam gostar disso, mas que, na verdade, queriam era a caça. Amoleciam, bambeavam sem a caça.

Começou a ver que o zé pensava como ela. Pensava só ou agia também ?

Resultado: no atacado a casual, a free; no varejo, ah, no varejo cedeu.

Caiu de joelhos pelo zé. Não desgrudava mais dele, mensagens, viagens, aproximação cheia de artifícios e joguinhos. O pessoal do forró nem fechava muito com aquilo. E dizia pra ela. Mas estava cega. ”Quem me ama me aceita assim vida loka como sou. Se não gostar, pode ir embora”. Era assim a Cíntia.

RITMO

saiu à tardinha
no metrô o olhar dele já a seguia
na entrada um odor de Dionísio
um copo vazio
um copo cheio
a vez, a voz, a música esperada
o salão cheio
a pista cheia
a dança sem ele
os braços, as coxas, os pés
a dança com ele
o encaixe, o encontro, o suporte
suas mãos envolvidas na cintura dela
giros, ritmo, risos, cor,
mesmos
olhos fechados dele
olhos fechados dela
quem é ele
quem é ela
dançam
riem, giram, envolvem-se
dançam
nela a música
nele a música
dançam
riem, fluem, voam
dançam

JANELA DISCRETA – II – ”FINESTRA”

Quem nunca?

Conheceu o ruivo e fugiu dele. Era uma cafa de marca. Convencia até freira a morder hóstia, digamos assim. Era mentiroso demais. Rei dos álibis, dos disfarces, das encrencas mal resolvidas. Negava sempre, página zero do manual do cafa, sabe como, né. Era um donjuan canhestro, se achando a última bolacha do pacote, o rei da cocada preta. Mulher pra ele não fazia diferença, isto é, caía na rede era peixe. Preferia as que não haviam tido filhos, por motivos óbvios, dizia. A carne era mais macia, mais estreita, mais saborosa.

Conquistou, com disfarces, a moça do apartamento exatamente embaixo do dele. Rodeou, ela resistiu. Encenou, ela resistiu, fez a dança do acasalamento em serenata, ela resistiu.
Valdete, a Dete, a Detinha, era dura, conhecia aquele tipo de homem. Se quisesse, entraria na jogada por desejo seu, mas que conhecia, conhecia.
Era carioca folgadão, chegava com aquele papo de ”se tiver teia de aranha, a gente tira’‘, ‘‘vem se deleitar na macaxeira do zé aqui”, ”vem pra felicidade”. Papo cafa mesmo.
E acontece que jogava ao mesmo tempo com várias. E, sem distinção, fosse quem fosse, indo ao seu encontro ” receberia dele a maior assistência’‘. Era aquele tipo de homem que, já desinteressado, costuma dizer ”Eu não te mereço, você vai encontrar alguém que te ame’‘ e que quando sabe que a mulher já está com outro, logo diz ”que bom pra ela, e assim vai parar de me perseguir

A Dete foi na dele. Apaixonou-se. Ele já estava com a Val, uma outra, engatilhada, a ponto de bala. Ela não sabia. A Dete perdia pra Val em alguns quesitos.
O zé gostoso deu de debochar de Dete, ironizar seu amor, suas buscas por ele. Algo assim como se fosse um dono de harém.” quem nunca … teve uma apaixonada correndo atrás? ”, costumava comentar com outros, quando tinha plateia.
Nunca teve irmã. Nunca teve sobrinhas.
Mais tarde teve duas filhas.

CORPOS

nus
eram uns
nus
eram outros
sem nomes
sem restos
sem rostos
sem máscaras
sem mitos
sem metas
sem mesmos

tronco membros cabeça
membros tronco cabeça

tronco e membros
membros e tronco

sinfonias

JANELA DISCRETA – III – ”WINDOW”

Jéssica conheceu aquele rapaz pela Internet. Site de relacionamento? Nada. Rede social. Era de outra cidade. Encantou-se com ele.

– Tia, já chega minha mãe, você também não. E daí, gente, gosto dele, corro atrás mesmo. Se eu não fizer assim, tem outra que vai fazer.

-Mas pôs silicone nos seios por que, Jéssica? Não gostava deles, incomodavam, está se sentindo mais feliz, precisava mudar seu corpo?

-Nunca liguei pra isso, tia, mas homem gosta de seios maiores, é exigente, entendeu? Toda mulher mexe nisso. Aqui em casa todo mundo tem seios pequenos, somos magras, pernas finas, é de família. Não ia conseguir me dar bem com nenhum companheiro desse jeito, tia. Aí resolvi logo isso.

-E com esse rapaz da rede social, está se dando bem? Ele valoriza você? Reconhece esse seu esforço de deixar tudo aqui, amigos, programas que você fazia e ir pra lá ficar com ele?

-Acho que sim, né, se não nem me recebia lá. Mas também não dou mole, vou atrás mesmo. Caso contrário tem quem ocupe o vácuo. Hoje tudo é assim.

– Ele quer só diversão, isso satisfaz você? Foi pra isso que você abriu mão de todo o resto? O contrato entre vocês é só esse? Não está barato demais, não? Pra você?

-Os tempos são esses, tia, vocês não compreendem. A gente fica junto, viaja, dança, bebe, transa, ri, namora e tá valendo. Quando eu não estiver com ele, não quero saber. Liberdade.

-Mas você também age como ele? Tem outros namorados? Vejo é você indo sempre pra ficar com ele.

-Não, não fico com outros. Mas ele até pensa que eu fico. Feminismo, tia, já ouviu falar? A gente é empoderada, faz o que quiser, vai aonde quiser.

-O amor de vocês é curioso, né Jéssica.

-Se não fosse assim, não existiria, tia.

JANELA DISCRETA – IV – ”窓 (MADO)”

Bairro da Liberdade. Sampa. Trabalhava lá. Morava no bairro vizinho. Escritório.

Nos ônibus, no metrô, tudo quanto era homem vivia querendo alguma coisa com ela. Praga ! Não sabia por quê, mas não aguentava mais aquilo. Era assim que Suzette relatava às amigas do grupo de terapia bioenergética a sua cruz com os homens. As outras se divertiam dizendo que achavam que ela fazia caretas e por isso provocava aquelas reações nos homens.

Suzette vivia lendo alguma coisa na condução. O quê? Ah, o Jornal do Metrô, um folheto de propaganda, uma revistinha de pedidos da Natura. Alheia sempre ao entorno, blasée.

Naquela manhã desceu na estação do metrô e … foi seguida. O homem a observava de perto e viu quando entrou no prédio. Depois foi obter as informações sobre Suzette, inclusive seu nome e o horário em que deixaria o escritório – o porteiro do pequeno edifício fora camarada até.

No fim da tarde, o homem estava à sua espera. Pediu para conversar, se apresentou e contou que havia sido enfeitiçado por ela. Suzette se assustou um pouco. Um pouco. Depois ouviu tudo. Fez ar de superioridade e considerou encontrar-se com ele em outro dia.

A insistência do homem não rendia muito. Era daquele tipo que gostava de falar umas tolices, umas sacanagens sem propósito, achando que seduziam, excitavam etc. Ela era mulher para muitos talheres, ao contrário, via naquilo muita vulgaridade, cantada comezinha, sabe como é? Quando saía com ele, no carro importado, cheio de acessórios, não dava a mínima para o motor, o estofamento, a parafernália de som e imagem. Apenas ia. Era tudo muito, muito comum.

Na terapia, continuava a reclamar da perseguição dos homens pelos caminhos. O terapeuta chegara a perguntar a todas se não seria pelo ar blasée de Suzette. Homem adorava ser desprezado? Gostava de investir e de insistir na conquista? Seria isso?

JANELA DISCRETA – V- ””FINESTRA”

– Encontrou com ele ontem na pracinha? 
– Encontrei nada. Vi de longe. Nem parece aquele homem lindo com quem tive meu filho. Fui andando e não falei nada. Fiquei observando. Sabe um cara grosseirão … não sei como as pessoas se transformam daquele jeito. Já pensou se eu tivesse ficado com ele, nossa, foi livramento minha filha, foi livramento. No começo não entendi assim, mas depois, sim.
– Como foi que você engravidou, Lena, isso já não acontecia na nossa época.
– Ele vinha de São Paulo nos feriados, depois nos fins de semana e aí, a relação foi ficando mais constante. Eu tomava pílula, mas tinha que ficar escondendo da minha mãe, sabe né. Esquecia de tomar.
– Mas e ele não tinha como evitar? Só você?
– Ah, nos anos 70 quem tinha que evitar gravidez era a mulher, os caras não tinham nada com isso. Só perguntavam se a gente estava tomando pílula e pronto. Ninguém usava preservativo não. A tal história da bala com papel, lembra?
– Mas não usavam nunca, você acha?
– Usavam sim, senão as fabricantes não fariam mais, né. Eles usavam com as prostitutas, na zona, nos bordéis e para se protegerem das doenças, sífilis, etc. Em casa, com as esposas, era um filho atrás do outro. Minha mãe teve 8, duas gêmeas.
– Mas quando você falou que estava grávida, o que ele fez?
– Disse que ia pensar, voltou pra São Paulo. Eu fiquei com aquela reação dele em mim. Não era garotinha, né, mais de 30 anos. Todo mundo achava que eu tinha engravidado porque quis. E não era.
– Mas dizem que no inconsciente, a mulher engravida porque deseja ser mãe, sente falta disso e acolhe a fecundação. Os psicanalistas analisam assim.
– Pode até ser, mas ele contou pra mãe dele lá em São Paulo, que mandou me chamar. E eu fui. Ela disse que receberia o neto com amor, mesmo se seu filho não o assumisse. Mas deu nome e tudo. Só não casamos. Casou com outra, mais tarde.
– Ah, agora entendi porque você se dá tão bem com a família dele até hoje e seu filho, já um adulto, também.
– Foi assim. Eu posso dizer que amei muito o pai do meu filho. Mas quando ele se afastou no momento mais necessário, aquilo morreu em mim. Mesmo depois, quando meu filho foi crescendo, indo sempre lá pra casa da avó, das tias, mesmo assim, aquele homem ficou muito pequeno pra mim. Meu filho é importante; ele, não.
– Depois, você não teve ninguém mais, Lena?
– Muita gente. Danço, bebo, beijo, abraço, transo e tiau. Nunca mais me liguei a nenhum homem. Não que eu não quisesse. Mas não consegui. Não brota mais amor em mim pra me fixar em alguém, entendeu?
– Foi o tempo o responsável?
– Não sei. Não me abri mais para sentir o que sentia por ele. Sou outra. Fui vivendo assim. Agora já tenho até minha netinha. Linda. Mas continuo dançando, abraçando, beijando. Vou indo.
– Vamos ao ”Pilequinho” um dia desses? Lembra das batidas deliciosas de lá? Eu adorava a de abacaxi com vinho, e você a de pêssego, né. Vamos?
– Claro, adoro, vamos sim.

JANELA DISCRETA – V – ”OKHO”

Olhos de tigre.

Bagunçou tudo. Revirou suas gavetas. Falou alto com decisão. Falou baixinho em seu ouvido. Entregou-lhe prosa e perfume do novo, de novo. Entornou seu vinho. Sujou a toalha da mesa. Adorou a lasanha. Entrou com pés sujos. Trocou a música da vitrola. Dançou rock. Atirou cabelos molhados de louro e cinza, bem no meio do quarto. Falou verdades e mentiras com a mesma graça. Dourou o amanhecer. Enluarou as noites e as madrugadas. Citou e discutiu Nietzsche com sedução. Cantou em inglês. Ensinou Pink Floyd em carne e osso. Sabotou seus fracassos. Ludibriou suas certezas. Pintou seus olhos de gatinho. Passou-lhe o batom vermelho- madrugada. Cortou seus cabelos à máquina zero. Salgou-lhe língua, mamilos, umbigo e ardores. Caminhou de mansinho para não acordar o amor dormindo ali. Acordou o amor dormindo ali com mordidas de mel. Sapateou seus medos com afagos, toques, começos e fins. Escreveu frases de mel e fel no papel. Caminhou cedo, correu ao meio-dia, caminhou às tardes na autoestrada, abriu o portão ao anoitecer. Esteve sempre presente na terra, no fogo, na água e no ar. Foi nuvem que desceu naquela barraca de camping. Dançou o tango de sua pátria em sua pátria. Falou em castelhano em seu ouvido bêbado de paixão. Caminhou de mãos dadas provocando inveja em olhares azedos. Ensinou o desafio, a raiva, o grito, a pressa, o alívio. Foi gaivota, canário, sabiá. Leu seu corpo em todas as línguas. Escreveu em inglês, de propósito, para provocar leitura em suas línguas todas. Riu, riu muito, gargalhou alegrias e riscos de vida e de morte em um só gozo. Homem, escorregou suores dos pés à cabeça. Menino, inverteu a vida até seu último minuto.

Zé, homem-menino, eternamente nas nuvens. Morto ou vivo, assim.

ποιητής , poietés

Ah, pudesse eu, imitando deuses,
ser palavra criadora
ser a que produz, a que fabrica e confecciona.
Sou uma operária na poesia.
Já avisei a Safo que não serei ela.
Já me expliquei com Teógnis, aristocrata,
sou plebeia, filha de fresador ferramenteiro,
não sei de lutas políticas o suficiente.
Já me entendi com Anacreonte, que pouco sei ser satírica
em versos de vinho e de amor.
Sou o que me fizeram.
Sou daqueles que me influenciaram.
Sou sombra deles, irremediavelmente

JANELA DISCRETA – VI – ”παράθυρο”

Noite de lua … não olhou a lua lá fora. O e-mail a tirara do chão. “Saudades”. Por que tão mexida assim, agora, depois de tantos anos! O conteúdo, o pedido delicado, a menção suave a ela, por que tão mexida assim, meu Deus?

Amor de sua vida. Primeiro amor de carne e pele de sua vida. Por que tão mexida assim? Lembrou que ele gostava de mar, era de São Paulo, sem mar. Amar. Aquela barba grande, aquela literatura toda, aquela bolsa de couro repleta de livros, aqueles 10 anos a mais dele, aqueles jantares nos bandejões regados a James Dean, juventude transviada, On the Road, Kerouac, Jules e Jim, Maysa, ah Maysa, Sartre e Simone de Beauvoir, Mário de Andrade, a ditadura militar. Tantos encontros fortuitos, tantas caminhadas de mãos dadas pelas noites, tantas sessões de cinema, pré-estreias.  Que estímulo à leitura, que vontade de ler todo o Sartre pra poder discutir sobre aquilo com ele, que vontade de conhecer Pessoa tão melhor. Passeios de dentro, passeios por dentro.

Por que tão mexida assim agora … “Saudades”. Valorização de palavras escritas, de lirismos uns e outros. Estrada conhecida, familiares, amigos, destinos ..“Saudades”.

Tempo, inimigo cruel de corpos, de projetos, de trajetórias. “Saudades”. 45 anos depois, umas fotos, uns elogios, um reconhecer de carne e osso, um aroma de gente que se conhece, que sabe o valor de si e do outro. “Saudades”. Umas sensíveis observações, uma seleção das histórias preferidas. Olhares pelo retrovisor. Tudo caminha, evolui, se espraia …

Que acaso misterioso é esse que faz uma palavra ganhar tanto sentido. “Saudades”.

Textos e poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Fotos retiradas da Internet : 1-5-7

Vídeos:

1- Canal PedroProgresso

2 e 3- Canal gipsykingsVEVO (canções enviadas por meu filho para começarmos bem o dia; renderam)

”Todo o artista tem de ir aonde o povo está”

CHEIRO DE GENTE

braços pernas passos
passo e compasso
respiração suor
graça traço laço
emanação contemplação religião
união de olhares
união de falares cantares contares
união de igualdades
união de cores de peles de oportunidades
união de sensibilidades
democraticamente, ver sentir saber
usufruir conquistar usufruir
cheiro de gente
calor de gente
gosto de gente
gente que é gente

ENCANTANDO UM DOMINGO

Na manhã de um domingo, namoro flores e árvores. Mas gente é da maior importância.
O músico dedilha sua viola. É trilha sonora repleta de ingenuidades. Paro. Ouço. Encanto-me. Pergunto. Respondo.Quero comprar um CD. Vou trocar o dinheiro. Ele não tinha troco. Era Vitinho da Viola. Não parou de cantar e tocar durante todo o tempo em que estive na lanchonete e loja de artesanato. Lindas canções.

Tentei trocar minha cédula em 3 caixas. Expliquei que era para comprar o CD do artista mineiro que tocava lá fora.Não tenho.Não tenho. Não tenho. Notas envoltas por um elástico repousavam nas gavetas, alheias ao pedido de solidariedade explicitado.

Insisto. Por se tratar de parada de ônibus do Rio para Belo Horizonte, na BR 040, há bastante tráfego de ônibus e de pessoas, que almoçam na deliciosa churrascaria ao lado. Um casal que fizera lanche e estava passando pelo caixa resolve me atender e trocar a nota, simplesmente porque se solidarizou com o artista.

Saio, compro o CD, ouço dele um agradecimento solene. Diz-me qual o preço das apresentações de 2 horas e mais e mais.

Fico ali pensando no desprezo que tantos demonstram por seus artistas, pela prata da casa, para pagarem ingressos caríssimos em shows de quem é alçado ao sucesso pela engrenagem do mercado – com talento ou não.

Sabe-se que só se pode valorizar, defender aquilo que se conhece. Vitinho da Viola compõe, canta e toca. Letras de uma poesia tocante, sincera, real. Contou-me as histórias que resultaram em algumas das canções, inclusive.

Cheguei em casa, ouvi uma meia dúzia de vezes O SEU LIRISMO – hoje os automóveis exibem e exigem outras mídias, não mais acolhem um CD.

Meu avô José Galdino sempre ouvia, ao clarear o dia, canções sertanejas aqui na rádio da cidade. Eduquei meus ouvidos no lirismo ingênuo do caboclo, do tropeiro, do homem de raízes.

Há belezas em todos os lugares. Mesmo.

Faixas:

1-Sou Riograndense
2- Corpo de Fada
3- Lembranças Vivas
4- Caboclo na Cidade
5- Tropeiro
6- Degrau da Fama
7- Saco de Ouro
8- O milagre de Tambaú
9- Arrependimento
10- Rainha Camponesa
11- Dona Saudade
12- Porta do Mundo
13- Rasguei a Passagem
14- Relógio Quebrado
15- Trancos da Vida
16- Último Encontro

O Encantador de domingos.

Poesia e texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1- Canal LUBOR

2- Facebook de Odonir Araujo

Feitiço !

INSEGUROS

Meninos e meninas se beijando de olhos abertos na porta da escola
Plateias diárias para o espetáculo
Mãos bobas e tontas aguardando esconderijos
Saudade do outro após dez minutos de separação
Vontade de contar ao outro tudo,
as mínimas banalidades.
Desejo de cabeça, tronco e membros.
Fogo aceso de apaixonamentos.

Tia Ziza e tia Neyde em frente à varanda, onde a gente lia fotonovelas, jogava 6 marias, pedrinhas, e fazia barquinhos de jornal pra atirar nas enxurradas – quando chovia.

DE FÉRIAS E FEITIÇOS

Moças e adolescentes dos anos de 1960 liam fotonovelas. Sabe as séries americanas que tanto fascinam a moçada de hoje, pois então, as fotonovelas exerciam o mesmo fascínio sobre nós.

No Rio, pouco lia. Não me recordo. Talvez as folheasse em alguma banca de jornal, sem comprar. Mas quando vinha de férias para Minas, era uma festa. As amigas e primas mineiras tinham verdadeiras coleções, indicavam as melhores, emprestavam, trocavam. Viralizavam as histórias das revistas, digamos assim. Nossos encontros eram reais e não apenas virtuais como hoje fazem pelo Twitter, Instagram, Facebook, WhatsApp, para seduzirem os amigos a acompanharem tal série americana.

Minha tia Ziza, religiosa, mineira de corpo e alma, quando nos via deitadas, ”garradas” nas fotonovelas, dizia: Feitiço, já tão no feitiço, né.

Adorávamos as histórias, os atores – antes apenas italianos, depois os nossos cantores, atores da TV e até do teatro. Sabe-se que no século XIX, foi nos folhetins, em capítulos, nos jornais, que os romances se firmaram no Brasil.

As moças, que achavam os Beatles, Chico Buarque e Roberto Carlos uma brasa mora, eram completamente adoçadas pelo romantismo das fotonovelas também. Assim, se formou toda uma geração, acreditando no amor romântico, na cordialidade, na beleza da vida e nos amores que podem dar certo.

(Sandro, por isso sua mãe escolheu esse nome pra você. Acho que já havia compreendido, né. E tudo aqui foi apenas uma motivação para eu me refletir nesse espelho também.)

JANELAS ABERTAS

Viver tudo
ao mesmo tempo
Ele querendo corpo, pulso, pescoço, orelhas, carne e ossos
Ela querendo corpo, pulso, pescoço, orelhas, carne, ossos e suspiros e [palavras.
Encaixe de desejos e sabores
Perfumes de enamoramentos.

ENAMOREM-SE, MENINOS !

Moços e moças, enamorem-se.
A existência sem enamoramentos é parca
A caminhada sem paixões é ínfima
A trajetória sem amores é cinzenta
Estar na vida sem doar-se e dar-se ao amor é medíocre e vão.
Enamorem-se até os últimos momentos de suas existências.
É o enamorar-se que nos torna mais humanos e doces com nossos semelhantes
Abençoado é aquele que ama e se deixa amar .
Moços e moças, enamorem-se.

BAÚ FLORIDO

Tempos que vão
tempos que vêm
tempos que se guardam em baús de flores.
Quando as estações são sem flores,
abrem-se as histórias, perfuma-se o ar com elas de novo,
sorvem-se horas, dias, meses, anos encantados.
Depois, fecha-se o baú e segue-se
porque aquela bagagem estava repleta de fragrâncias.

Post inspirado na crônica do mineiro Sandro Ernesto, de Sete Lagoas, em seu blog. Revela ele que seu nome foi escolhido pela mãe, por ser grande leitora de fotonovelas e ter-se influenciado pelo nome do ator Sandro Moretti. (Curiosidades sobre pais mineiros. Minha mãe pedia que o meu registrasse um filho com um nome, ele voltava com outro. No máximo, concedia ser um parecido ou estar como segundo nome. O meu, por exemplo, seria Elizabeth).

Leia aqui a crônica de Sandro Ernesto: ‘‘Meu nome, uma novela”

https://panografias.com.br/meu-nome-uma-novela/

Versos e crônica: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Imagens retiradas da Internet

Vídeos:

1- Canal André Baur Aquere

2- Canal JC Pasquini

Casa de marimbondo

CASA SEM DONO, CASA DE MARIMBONDO

Dizem por aí que quem usa cuida. Pode ser. Mas em casa de poeta, marimbondo pode ser fatal.
Estando mais de 50 dias distante de jardins, galos e quintais, com 5 asas partidas, sem poder voar, confiando em mãos alheias, não em mãos que sentem, mãos de poeta, negligenciando – a contragosto – flores e passarinhos, a surpresa.

Deu que habitantes alados, sem terra, sem teto invadiram a propriedade. Com propriedade. Seria? Trata-se de recanto encantado, repleto de vermelhos e rosa, verdes-refúgio e éden de canarinhos, bem-te-vis, sabiás, beija-flores, maritacas e poeta.

Não fora autorizada nenhuma edificação, tampouco o habite-se de marimbondos ali.

Devidamente documentada a morada invasora no primeiro pé de mexerica, considerou-se a hipótese de não reprimir a colônia. No entanto, passaram a se achar os donos do pedaço. E poeta, quando começa a voar de novo, bate asas, reapropria-se de seu território e escreve.

Ao namorar suas plantinhas, conversar com suas rosinhas, encantar-se com as palmas cor de cenoura, todas elas sedutoras, reparou no voo do beija-flor ao redor delas. Permaneceu poeta ao encantar-se com aquele bater de asinhas tão apaixonadamente terno. Foi aí que – por ciúme ou crueldade – um marimbondo desceu de seu apartamento  e, num átimo, picou a poeta. Em seguida vieram todos os demais moradores e vilmente trataram de picar seus versos e seu lirismo.

Poetas são seres lentos, doem-se muito por agruras, vilezas, injustiças e sofrimentos alheios, o que dirá por seus próprios.

Tentando evadir-se, a poeta, ainda sem poder voar totalmente, que com asas adoecidas, vê-se picada em várias partes do corpo, nas mãos, no rosto. Dores demais, inchaços, vermelhidões.

Recorre ao doutor que lhe dá as orientações, de maneira virtual, e ri.

O anjo da guarda da poeta havia entregue sua carta de demissão, alegando trabalho escravo ‘’Ninguém dá conta de tanto serviço. Em 11 meses, essa poeta me deu mais trabalho que a Academia de Letras inteirinha, incluindo-se os imortais já mortais. Não suporto mais’’

 A poeta ouviu tudo e pediu que ele reconsiderasse.

Ardida, queimando em verso e prosa, ajeitava com a mão direita tijolinhos de gel congelados, dispostos em um embornal, qual uma mochila, sobre as costas, enquanto que com a mão esquerda congelava as demais picadas do rosto. De asas ainda quebradas, em convalescença, suportava tudo porque sabia que passaria, ah, iria passar, teria que passar.

No dia seguinte, a saga dos homens que vieram para exterminar o condomínio dos invasores de quintais alheios. Foram necessários 3 homens diferentes, cada um cheio de delicadezas e respeito com o jardim e as flores da poeta – que sabiam ter de ser assim. Mas, um deu continuidade ao serviço do outro e, por fim, chegou a termo a desocupação.

Como tudo tem seu lado bom, a poeta sentada no banco do jardim, na tarde, admira a beleza da correria, da brincadeira de pique-esconde das maritacas pelas árvores e telhados. Mas … surge o visitante mais ilustre de todos, ao som do canto dos bem-te-vis, surge ele, o tucano. Lindo, menino, formoso, fascinante.

A poeta vive onde há 2 bosques, um em cada extremidade da rua, portanto personagens alados desfilam o dia inteiro por ali.

Filhos – em cidade distante, e em país no outro hemisfério – se apavoram com mais essa peleja entre o perigo e a poeta. Afirmam que a escritora vivera um halloween nas Gerais.

Pois então …  já ela crê que o anjo da guarda tenha reconsiderado o pedido de demissão.

Texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal bboxerz

Anos de sonho, anos de chumbo

# tbt

VOU

Querer voar o mundo
querer conhecer o mundo
querer outros mundos

Ir-se.
Voar.

Estar, descer, subir, cair, voar.
Novidades de véspera.
Novidades de hoje.
Novidades de amanhãs.
Arriscar-se no ar, em terra, em corações.

Voar é preciso.
Voar é urgente.

1968

FESTIVAIS DA CANÇÃO

A televisão em preto e branco trazia as novidades em imagem. Em som tínhamos o rádio, as vitrolas com discos, vários discos, já dispostos no braço, para que fossem caindo e a gente ouvindo primeiro todos eles no Lado A e depois os virávamos e iam caindo, um a um, do Lado B. Mas os Festivais da Canção eram o novo frisson em nosso país. Pouca gente tinha televisão ainda. Elas vinham em um móvel mesmo, com pés, num gabinete, tinham seletor de canais (controle remoto, nem sonhávamos em saber o que era isso), ficavam nas salas de estar das famílias brasileiras. Os canais de TV eram poucos e a programação, em princípio, só existia à noite.

Anos de 1968, 1969, inebriavam nossos corações e mentes com os festivais da canção, os da TV Record, em São Paulo e os da TV Globo, no Rio. Esse último com fase nacional e internacional. Eram formadas torcidas organizadas imensas e as revistas especializadas em TV davam aquecimento a tudo que ia acontecendo nas semanas dos festivais. Assim, nos apaixonávamos pelos cantores, sabíamos as letras das canções de cor e as cantávamos dia e noite. Tantas ingenuidades!

Imagine um mundo pequenino, isolado, onde sua aldeia era o que havia de maior em seu coração e, de repente, a TV trazendo tudo aquilo de sonho, com gritos, apupos, pra dentro da sua sala. Era o máximo mesmo.

Nas escolas começaram a acontecer os festivais internos, surgindo uma luzinha de liberdade extracurricular para criação de canções, execução de instrumentos, apresentação etc. Lembro que em 1969 eu iniciava o curso normal, no Grajaú, no Rio, e foi lá que aprendi a ler poemas de uma forma especial, não que isso fosse ensinado ou incentivado, mas era escolhida quase sempre para fazer as leituras nas missas e eventos do colégio de freiras. Foi aí que aprendi a pausar nas frases, a dar entonações em destaque etc. Com marcações mesmo, como no teatro.

E no festival em 1970, o Colégio da Companhia de Maria fervia. Só mocinhas, entre 15 e 18 anos, compondo letras, cantando em grupos, ensaiando, uma beleza de integração de talentos. Imitávamos no que podíamos os festivais da canção a que assistíamos. Até no cenário do palco havia um grande violão pintado em preto e branco ao fundo. Queríamos mesmo estar integradas àquilo que acontecia no país. Mas estávamos mesmo?

(Imagem: Nostalgia TV)

A ditadura militar, ali bem perto de onde estudávamos, comia corpos no quartel da Polícia Militar, na Tijuca. De nada sabíamos, pouco era informado em jornais ”sobre terroristas, assaltos a bancos feitos por terroristas, o fantasma do comunismo, bicho papão comedor de criancinhas” . Criava-se o terror, o medo. Lembro-me do dia da execução sumária de Marighella, por exemplo, pois estávamos nós, as mocinhas, em casa de uma das amigas para um trabalho em grupo, e ela nos contou. Eu nem supunha quem fosse tal personagem.

A TV Globo saía do ar à meia-noite sob a execução do Hino Nacional, com a imagem de uma Bandeira do Brasil tremulando, uma voz em off oferecia dados sobre o crescimento do país e ao final concluía assim “Brasil, nunca fomos tão felizes”. Todas as noites.

PERCURSOS, CURSOS, RECURSOS

Do que sabiam, arriscavam.
O que esperavam buscavam.
Certos errados, errados certos,
umas rotas enormes a percorrer-se.
Beijos, abraços e corpos
mel, fel, rostos

Marcas, sinais, cicatrizes, dores
Marcas, sinais, tatuagens, prazeres.
Vidas que desabrocham novas e lindas
Vidas que nos surpreendem, novos e lindos.
Sonhos que desaguam qual cachoeiras sobre nós.

Dançamos juntos,
dançamos de rosto colado,
dançamos trançando nossos corpos.
Eu levo, eu conduzo
Eu me deixo levar, eu me deixo conduzir.

Prazeres indescritíveis, na voz de uma poeta quase infantil.

A MOCINHA

acreditava em amanhãs
desconhecia os perigos
achava que o amor era maior que tudo
sonhava com um companheiro a quem admirasse
pensava em ser cidadã e atingir suas metas
conhecia seus desejos
achava que conhecia seus desejos
queria ser amada do jeito que era
suspirava com o amor

RELÓGIO ANACRÔNICO

Como se fosse possível,
badaladas de um marcador de anos
irrompem em mim, sem aviso ou possibilidade de defesa.
Bate as horas
Bate as meias-horas
Bate os minutos
Bate os segundos.
Meu coração é todo corda.
Fujo dele
Tampo os ouvidos
Prendo a respiração
Grito mais alto que suas badaladas
Mas é tudo em vão.
As badaladas fora do tempo
insistem em acordar meus sentidos
já há tanto, sonolentos,
já há tanto, adormecidos,
já há tanto, amarelecidos.
Quase mortos.

”A vida não se resume em festivais”- Geraldo Vandré, Festival Internacional da Canção, RJ, 1968


Tbt é uma gíria popular que significa throwback Thursday, e pode ser traduzida do inglês como quinta-feira do retorno ou quinta-feira do regresso. A gíria, simbolizada por #tbt, é utilizada pelos usuários de redes sociais como hashtag para marcar fotos que se refiram ao passado e/ou que deem saudades.

Texto e poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1- Canal RWR

2- Canal 6stringsmonk

3- Canal Paulo Henrique E. Rodrigues

4- Canal Edson Cerqueira Felix

Feminina

FRUTO DO MEU VENTRE

Noutras eras, eras
Eras um metatarso apenas
Eras uma íris semovente
Eras um lábio inferior
Eras um antebraço avulso
Eras um lóbulo sem par
Eras um mamilo improdutivo
Eras um ventre desempareado
Eras uma meia face de esperas
Eras um acordo tácito de solidão
Eras uma palma vez ou outra estendida
Eras um feixe de antessalas
Eras um sopro de noites sem luas
Eras um estrato de si em uma
Eras um compêndio de interrogações.
Eras canteiro a semear
porta a se abrir
porto a ancorar.

Deu-se a polinização
Deu-se ao beija-flor
Deu-se ao sol com lua, lua com sol
Encontraram-se e geraram um par
Depois o segundo.
A infinitude ensandeceu o corpo
A completude fez-se espírito.

Dois.
Três.
Quatro
Agora cinco.
Células de si mesmos.

Até sempre.

MULHER

Você é pai? Pai de menina? Sabe como lidar com ela? Os tempos vêm mudando, rapidamente. Ou lentamente? A gosto de quem sabe refletir.

Tenho filha e filho. Sei das duas experiências e observo, constato e reflito sobre o ser feminino (gente feminina) e o ser feminino (modo de agir feminino). Nem tudo é questão de geração, de educação machista. de ensino de prendas domésticas, de doutrinação para o ser feminino tornar-se esposa e mãe. Constato que não. Sobretudo, se a essência feminina não estiver sufocada, disfarçada, amordaçada e atualizada, para seguir os novos padrões estabelecidos (tal como lá, cá também).

Depois de ler e ouvir vários depoimentos pessoais e coletivos sobre os aspectos femininos, chego a algumas conclusões – não totalmente fechadas – que me permitem visualizar certas mudanças.

Como temos vivido numa sociedade do descartável, do efêmero, do circunstancial quase sempre, a entrega se tornou um bicho de sete cabeças, algo improvável, inoperante. Assim é que tenho lido mães jovens de 30 e alguns anos escrevendo livros para ”desmistificar a gravidez e a maternidade” e questões relativas a elas. Ora, como assim? Quem mistificava a maternidade? É preciso saber o que é ser MÃE (assim também como o que é ser PAI). Cuidar, acarinhar, fortalecer, semear não só a alimentação física, mas a moral, os valores, os sentimentos. Ora, ora, isso se faz com plantinhas, animaizinhos, com seres vivos em geral. É preciso ter responsabilidade sim. Não se pode viajar e abandonar as ”crias” a sua própria sorte. ”Não quero ter animal porque me prende muito. Não gosto de plantas porque exigem muitos cuidados, prendem muito a gente”. Opa, que ser é esse que só pensa em si mesmo, em seus prazeres, gozos e realizações pessoais? Como se pode desejar que eles pensem em conquistas sociais para todos, em bem-estar para todos, se não querem se responsabilizar nem por uma planta, um animal?

Sabe os vasinhos da janela, os canteiros, a roça, a criação? Então, é preciso molhar, cuidar, retirar folhas secas, alimentar a terra … e depois se encantar com o perfume das flores e dos frutos, a cor dos verdes, o som dos bichos todos e ver – ocasionalmente – um ou outro morrer. Não se pode querer apenas ter prazer, sem correr riscos, sem se responsabilizar por algo, sem gastar tempo com algo.

Se uma mulher entrou no rito da gestação, é necessário sentir as alegrias e os percalços desses meses, até porque maternidade é para sempre. Ora se não é.

Isso não tem nada a ver com ter sido criada para submissão, opressão etc. Ou tem?

Tenho visto mães homossexuais gerando filhos, encantando-se com a procriação – as duas como mulheres, em seus sentires; outras ocasiões uma delas mesmo como transexual masculina, mas guardando a vontade intrínseca de ser mãe. É claro que há mulheres que nunca desejaram ser mães, há que se aceitar isso como decisão individual. Portanto, é mister saber o que é ser feminina.

Mulher tem jeitos de ser bem diferentes dos homens. Quem quiser negar isso estará no mínimo sendo hipócrita – talvez o façam como forma de se impor, de crerem assim estar se fazendo respeitar, de se mostrarem agressivas, como viram tantas vezes os homens fazerem.

Mulher tem colo, tem vontade de aninhar em seu casulo os seres todos. Mulher quer ser respeitada nas diferenças de si. Mulher, de fato, não aceita ser ridicularizada por seu romantismo – quase inerente – por seu sexto sentido, por querer ser a galinha com seus pintinhos por perto – mesmo que não sejam apenas os seus – podem ser patinhos, peruzinhos, gansos, cisnes e outros bichos. Mulher é cuidadora, gosta de cozinhar, de cantar, de arrumar, de enfeitar, de se entregar. Seja a quem necessitar ou não.

MADRUGADA

Quem está aí?
Ah, é você.
Entre. Fique imóvel.
Mantenha as mãos para trás.
Ouça.
Sinta.
Veja.
Quem é essa mulher?
pimenta rícino fel sangue
Quem é essa mulher?
pedra pau cuspe veneno
Quem é essa mulher?
tango rima ritmo gozo.
Quem é essa mulher?
fogo ventre peito bunda
Quem é essa mulher?
vômito catarro urina suor
Quem é essa mulher?
céu-inferno manto sangrento
Quem é essa mulher?
ódio inveja rancor estupor
Quem é essa mulher?
Quem está aí?
Ah, é você.
Entre.
Ouça.
Sinta.
Veja.

Talvez desagrade a muitos, contudo costumo expressar em palavras, orais ou escritas, o que reflito e observo sobre fatos e situações.

Trecho do filme Feminices, de Domingos Oliveira

Poesias e texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1- Canal José Freitas

2- Canal Dedina Bernardelli

Nuvem cigana

“O poeta é como o príncipe das nuvens. As suas asas de gigante não o deixam caminhar”  – Charles Baudelaire

CARAVANAS

Olho por dentro
desertos
vazios íntimos
moradia oca
abismo antropofágico.

Invado em mim as revoltas
Invado em mim todas as injustiças
Invado em mim todas as exclusões
Invado em mim todos os descartes

Cuspo escarro vomito
Abro portas janelas horizontes
Evado de mim a dor
Evado de mim as dores
Evado de mim predileções vãs
por mistérios magias imantações chãs.

Olho para fora
Fora estará o alívio ou a consternação
Fora estará o apanágio ou o desespero
Fora estará a suavidade ou a consumição.

Estradas
Caminhos
Veredas
Invernadas

Caravanas, reflexão.

OS RIOS DAS MINHAS ALDEIAS

Aldeias, tive algumas. Sempre bebendo nelas as melhores águas de seus rios, lavando minhas lágrimas em suas margens. Aldeias, tive algumas. E aproveitei tudo nelas, raspando os tachos, lambendo os dedos. Até os fins. Em primeira pessoa, sem me omitir, sem fugir, recebendo todos os nãos possíveis e os sinais de sim. Aprendi a cair, sofrer muito, usar Belladona nas dores, arnica no físico, Ignácia amara no espírito e levantar, seguir.

Nos anos de 1982 e 1983, participei dos primeiros grupos de Somaterapia, do psiquiatra e psicoterapeuta Roberto Freire – já falecido. Terapia corporal, com muita energia, corpo, dança e música. Reich norteava nossos ramais e caminhos. Terapia com data para começar e terminar. E em grupo. Nada de muita falação e sim de muita interação física. Roberto costumava dizer que ”somos o nosso corpo”. Portanto, nada de amores distantes, falta de calor físico, abraços, carinhos, afagos e de beijos na boca. Assim, agíamos, assim fazíamos, assim existíamos.

Roberto costumava dizer que os homens, em geral, me amavam de um jeito completamente particular. Eles me viam só com uma cabeça ENORME, sem corpo, como se ele não existisse, por isso eu me transformava em musa inspiradora, vestal, ninfa, nenúfar. E isso aos 30 anos. Não aceitava tal observação e tinha enormes embates com ele. De fato, sempre tive muitos amigos homens, desde a adolescência. Creditava isso ao meu jeito pouco afeito a shoppings, mimimis e a outros traços consagrados, em geral, a mulheres. Isso os aproximava a mim. E só. Sempre gostei de ver a amizade entre homens etc. E até uma certa lealdade, pouco correta, nas falhas morais e éticas entre si. E aquilo era pouco visto entre mulheres, sempre muito, muito competitivas. E com máscaras, claro, ninguém compete com ninguém, somos todas amigas e tal.

Fizemos maratonas de vivas, em Visconde de Mauá, em Itatiaia, no Rio de Janeiro. Partíamos juntos, já desde os carros, com 4, 5 pessoas do grupo em um só carro de SP e de BH, pois Roberto tinha grupos lá, concomitantemente aos nossos em São Paulo. Ficávamos na Pousada Tiatiaim- sítio do psicoterapeuta. Era mesmo pra gente se misturar com a terra, com as águas gelaaaadas das cachoeiras, com o cheiro de gente, com a falta de eletricidade, com o fogo nas fogueiras e com silêncios. De 6ª feira a domingo, imersos em nós. Totalmente. Em corpo e espírito.

Havia um dia em que era vetado falarmos, nenhuma palavra. E fomos até o Pico do Itatiaia. O ar rarefeito, as dificuldades físicas, a falta de fala, tiradas todas as nossas bengalas, só a natureza em nossos corpos remexidos, suados, exercitando juntas, músculos, sentimentos pouco lógicos, sentindo, sentindo, sentindo. Meditar de cima, na subida, contornando pedras, trechos que deslizavam, sem palavras. Sabe lá o que é isso, sem dizer nada. Só sentindo.

Depois, ao final, banho gelado de cachoeira, gritos, catarses, prazeres, abraços, afagos, aprendizagens. Nas leituras em grupos, falava sobre a experiência vivida quem quisesse, sem opressão. Muitos permaneciam mudos, observando as falas dos companheiros, identificando-se, indo contra, mas sentindo, sem refrear sensações. Nenhuma delas.

Ali não era permitido o uso de drogas ilícitas. Só vinho, cerveja, pingas trazidas das Gerais e AMOR. Assim maiúsculo, que acredito ser a droga mais viciante que existe.

No dia da subida pelo rio até o tobogã, que ficava muito acima, era um coroamento do contato com terra, pedra, água, cachoeira. Roberto Freire ficava lá em cima, no tobogã, observando nossa subida por água, por pedras, até o prazer. Sim, o prazer de poder depois escorregar de lá de cima, feito criançada em dia de folga da escola, gazeteando as aulas, sei lá, bebendo orgasmos múltiplos no sentir. Muitos fugiam da subida, buscando acostamentos ao redor, via mata, não aguentavam aqueles obstáculos todos. Para alguns era muito difícil aquele enfrentamento. Covardia? Não, estavam em outro estágio ainda. Faziam outros atalhos, portanto.

Agora … sentir no corpo a dor de existir, o movimento em todos os órgãos internos, se revirando no corpo, brigando com os movimentos, brincando de gozar nas risadas, nos escorregões, nas quedas e raladas, uau, inesquecível mesmo.

Houve um instante em que, ao chegar lá em cima com meu amigo, disse ao Roberto que não escorregaria pelas pedras. Nunca soube nadar, nunca quis aprender sequer. Ele me impulsionou a ir, de leve me empurrou e fui. Afogada estava pelo volume de água que me envolvia, pensei rapidamente em minha filha criança que ficara com o pai em São Paulo e tive de subir à superfície. Meu amigo me buscou lá, me agarrou com vigor e me fez respirar, salva. Lindo. Inesquecível. Um desafio e tanto.

Os grupos, no fim da tarde, fizeram a leitura dessa expedição experimentando a natureza em seus corpos. Adoráveis recordações. A turma de BH retornou para as Gerais e nós para São Paulo.

Sei o que é sobreviver a naufrágios e gosto muito de quem é parceiro e me faz voltar a respirar. Sempre.

O sertão é do tamanho do mundo.”
“O sertão é sem lugar.”
“O sertão é uma espera enorme.”
“Sertão: estes seus vazios. O senhor vá. Alguma coisa, ainda encontra.”
“Sertão, – se diz -, o senhor querendo procurar, nunca não encontra. De repente, por si, quando a gente não espera, o sertão vem.”

Salve Rosa.

O João Guimarães.

Texto e poesia: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos: Canal: anindya8q