Como se aprende a amar

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DE: Odonir

PARA: Leitores

Das conversas triviais entre primos e amigos, nascem reflexões, sentimentos abissais, trocas de cumplicidade e, sobretudo, conhecimento sobre o ser humano.

Tudo que li, estudei de psicologia do comportamento, da sexualidade … fica miúdo frente a grandeza da exposição inteira do outro frente a nós mesmos. E vice-versa.

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Durante anos em escolas fiz, em equipe, aconselhamentos a pais de crianças e adolescentes. Ouvi muito e orientei também. Uma das formas de se iniciar a prática do afeto em crianças é ensiná-los a cuidar. Sim, a cuidar de uma plantinha, de um aquário, de um animalzinho… tratar dele, alimentá-lo, acarinhá-lo, promover seu bem-estar … Lembro quando foi criado um brinquedinho eletrônico, o Tamagotchi, para ensinar as crianças a terem responsabilidades com ele, caso contrário morreria. Na época, nós educadores refletimos sobre a necessidade de se criar algo tão artificial para ensinar amor, cuidados etc. Muitos pais não queriam animais por serem trabalhosos, prenderem a família em casa, entre outras argumentações. Fato é que não se queria ter nenhuma responsabilidade adulta por aquilo que cativavam, digamos assim. Modelos esdrúxulos de ser e viver.

O egocentrismo, natural na primeira infância e até na segunda, e a inconsequência e onipotência dos adolescentes muitas vezes os fazem ter sérias dificuldades para lidar com o amor. É claro que receber afeto, carinho, atenção e cuidados pode desencadear amor e fazê-los retribuir. Mas nem sempre apenas isso é suficiente. É preciso ensinar e dar exemplos efetivos do que é cuidar do outro: de um parente mais velho, de um amigo, de um ser vivo animal ou vegetal e do responsabilizar-se por seu bem-estar. O produto desse encaminhamento de afetos é sempre favorável e prepara o ser humano para os diversos tipos de amor aos quais se entregarão mais tarde. Já dizia o poeta Drummond “Amar se aprende amando”.37699-252c252ckooooooooooo

Percebo a dificuldade de algumas pessoas de lidar com afeto por um animal, um cão, um gato … Muitas escolheram não ter filhos, não têm plantas em casa e admiram-se da dedicação que outras mantém por animais. Ouço e analiso as razões desse tipo de comportamento, claramente explícito. Há certo egocentrismo e certa inconsequência em algumas pessoas, talvez marcas de momentos anteriores que não tenham sido vividos de forma mais altruísta. Embora seus discursos sejam muito interessantes até, percebe-se alguma fraqueza quanto a dar e receber afeto. Afirma-se que mulheres são mais cuidadoras, mais afetivas (por modelos etc.) que homens, mas nem sempre é assim que constato. Há certo culto à sua própria beleza, ao seu próprio bem-estar, ao seu próprio prazer (talvez reflexo de décadas de submissão etc.) em parcela grande de mulheres também. Assim, concluo que isso não seja relativo a um gênero, mas a seres humanos que não tenham exercitado, em momentos iniciais, o cuidar.

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Desenvolver a sensibilidade é tão importante como se alimentar. A poesia, a literatura são alimentos essenciais para quem se deseja humano, solidário, altruísta. É só se deixar levar por elas.

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Texto: Odonir Oliveira

1º Vídeo: Canal Piano Brasileiro

2º Vídeo: Facebook, postado por My Future Someone

Dizendo versos

 

Por que dizer, ler seus próprios versos? Certa vaidade, certo preciosismo de propriedade, certo encanto narcísico?

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Não sei de todos os poetas, mas de alguns deles. Drummond, por exemplo, acreditava que devia dizer, ler seus versos, apenas. Concordo com ele. Quando declamamos nossos próprios versos já inserimos neles certa interpretação, certa linha de sentimentos, de sensações.

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Por outro lado, há poemas que nasceram para serem declamados, foram escritos para serem ditos em tom altissonante, como os versos condoreiros de Castro Alves , prontos para seduzirem a quem os ouvia nas campanhas abolicionistas em saraus, nas ruas …

Fato é que atores interpretam, dão passos além dos que havíamos dado ao saborear, namorar um belo poema. Eles sim fazem o que seu ofício lhes ensinou a fazer; não os poetas, creio eu.

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O suporte para poesia é qualquer um: poste, guardanapo, lata, parede, faixa, serenata, tela tecnológica, papel, livro. Costumo fazer uma sutil diferença entre poema e poesia, contudo. Pra mim poema é um produto concreto, nascido de letras e frases. Já poesia é um processo abstrato de se enxergar a vida, cada coisa ao nosso redor: um nascer do dia, um desabrochar de flor, um riso de criança, um carinho do animalzinho, as nuvens coreografando danças nos céus … poesia vai além. É ela que distingue os seres sensíveis de outros para quem ela não tem nenhum valor. E isso nada tem a ver com instrução, estudo. Tem a ver com sensibilidade, com espírito afável a dar e receber, creio eu. Sensibilidade se desenvolve, se aperfeiçoa também.

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A vida com poesia é muito maior.

Há um ano criei um canal no Youtube onde leio meus poemas. Não tem intenção monetizadora nem nada. Jamais quis sequer publicar um livro, não seria agora que gostaria de vender meus escritos então. Lá acrescento imagens e trilha sonora aos poemas. Por que faço assim? Porque sempre vivi acompanhada de música, até bem antes de aprender a ler e escrever. Gosto de concretizar imageticamente o que escrevi. E há algumas possibilidades de recepção dos vídeos: fechar os olhos e só ouvir os versos e  a trilha sonora, retirar a música e apenas ver as imagens e ler os versos … ou recebê-los como os editei.

Canal Odonir Oliveira

https://www.youtube.com/channel/UCjD6ZiLlJOgDu5-lupIiWGw

Se há prazer em escrever, há também prazer em se ler versos. Os nossos e os de outros poetas. É como se fizéssemos contato com eles, como se tivessem assoprado plumas ao vento, e nós houvéssemos conseguido recuperar algumas delas.

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Texto: Odonir Oliveira

Imagens retiradas da Internet

Fotos de arquivo pessoal

1º Vídeo: CaetanoVelosoVEVO

2º Vídeo: Canal Odonir Oliveira

 

 

Velhice, doce velhice

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Ao vermos nossos filhos crescidos, encaminhados em suas vidas, resolvemos “Vamos morrer na nossa terra”. É claro que não se tratava de um convite para a morte, mas sim para usufruirmos da qualidade de vida que sempre desejamos, mesmo estando vivendo em metrópoles. Era escolha, opção. Poderíamos ter renovado nossos passaportes, ido visitar nossa filha e seu cãozinho em Toronto, no Canadá, termos ido bater pernas pelas cidadezinhas portuguesas e espanholas que tanto adoramos. Não. Voltamos para o cheiro de terra que conhecemos. Enquanto temos pernas e desejos… vamos nos beijando e beijando o mundo.

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Gosto de sentir a terra em minhas mãos, vê-las ásperas mesmo, não ligo. Gosto de ver as flores se embonitarem para nós e os passarinhos livres ao nosso redor. Somos como eles, só não podemos voar. Não como eles o fazem. Voamos em nossa riqueza de ser e estar onde queríamos e há tanto tempo.

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Cato miudezas pelo chão como diamantes; cato sementinhas como brilhantes; cato flores e frutos como estrelas. Sei que a noite fará a temperatura baixar, uma certa nostalgia de nossas infâncias e juventudes chegar. Sentamos e narramos um ao outro o que ainda não conhecemos um do outro. É um prazer !

Depois ficamos mudos, um livro, um som do entardecer, do anoitecer, uma noite escura, uma noite de lua. Seguimos.

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Nossa porta permanece meio aberta à natureza, vez por outra visitam-nos um pássaro, uns insetos … vamos aprendendo a ser parte dessa comunidade natural.sam_1161

Faço doces. De mamão, de abóbora, de cidra, de laranja em calda, doce de leite, bolo de fubá cremoso ou com erva-doce. SAM_5545

Há quem diga que a velhice limita demais o viver. Não pensamos assim e, porque somos cúmplices, seguimos não pensando em ruínas, mas na beleza do tempo que nos resta para amar e sermos únicos um para o outro, porque semelhantes e coniventes com nosso presente mais do que com nosso passado e nosso futuro. Não somos pessoas em ruínas, em demolição, como as casas que vemos pelas ruas daqui.

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Somos vida e gostamos de poder escolher a simplicidade, conversar com as pessoas que sempre viveram por aqui; aprendemos muito com elas, desde a linguagem, as expressões, quanto o proceder, o respeito, a quietude. Faz bem estar aqui.

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Sinto muito a falta dele, quando se ausenta por qualquer motivo. Sinto falta de ouvir as canções que põe para tocar, das sugestões de leituras que me propõe, do seu cuidado com nossas árvores e flores e, sobretudo, sinto sabê-lo tão longe de mim. Na verdade, já há muito entreguei meu viver a ele, por livre e espontânea vontade. Ele sabe.

Nosso ser e estar é parceiro.

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EU E MEU VELHO

Quase sempre

acordamos juntos,

tomamos café, cada um do jeito que mais gosta,

vamos aos canteiros de flores,

vamos à horta,

tratamos das galinhas e dos patos 

Quase sempre

rimos de nossas imperfeições,

gargalhamos de nossos prejuízos etários,

sentamos e descansamos ouvindo nossos bolerões embaixo da mangueira.

Quando há mangas, chupamos umas tantas, mas sem facas, mordendo a fruta.

Aí, sem mais nem menos, acho meu velho tão sensual mordendo mangas !

Chego mais perto, rimos, nos tocamos, nos beijamos.

Quase sempre

lemos poesias, ficção, ouvimo-nos um ao outro como música

nem sempre suave,

nem sempre terna,

nem sempre pacífica.

Nós dois somos a música.

(Barbacena,  agosto de 2016)

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Texto e poesia: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal (última imagem, do filme “Bob and Rose”, retirada da Internet)

1º Vídeo: Canal rsinatra (Egberto Gismonti – 8-string guitar, piano, wood flutes, voice
Naná Vasconcelos – percussion, berimbau, corpo, voice)

2º Vídeo: Canal Odonir Oliveira

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DEDICATÓRIA

Post dedicado à Tereza e Fredmil, que conheço desde os anos 90 em SP. Fizeram há mais de uma década a opção por sair da cidade para viver em outra, menor, e vivem companheiros por lá. Nessa semana fizeram 55 anos de casados. Louvo seu amor e sua parceria. Felicidade e muita saúde para os dois, viu.

A cabocla Tereza

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CABOCLA TEREZA
Lá no alto da montanha
Numa casinha estranha
Toda feita de sapê
Parei numa noite a cavalo
Pra mór de dois estalos
Que ouvi lá dentro bate
Apeei com muito jeito
Ouvi um gemido perfeito
Uma voz cheia de dor:
“Vancê, Tereza, descansa
Jurei de fazer a vingança
Pra morte do meu amor”
Pela réstia da janela
Por uma luzinha amarela
De um lampião quase apagando
Vi uma cabocla no chão
E um cabra tinha na mão
Uma arma alumiando
Virei meu cavalo a galope
Risquei de espora e chicote
Sangrei a anca do tar
Desci a montanha abaixo
Galopando meu macho
O seu doutô fui chamar
Vortamo lá pra montanha
Naquela casinha estranha
Eu e mais seu doutô
Topemo o cabra assustado
Que chamou nóis prum lado
E a sua história contou
“Há tempo eu fiz um ranchinho
Pra minha cabocla morá
Pois era ali nosso ninho
Bem longe deste lugar.
No arto lá da montanha
Perto da luz do luar
Vivi um ano feliz
Sem nunca isso esperá
E muito tempo passou
Pensando em ser tão feliz
Mas a Tereza, doutor,
Felicidade não quis.
O meu sonho nesse oiá
Paguei caro meu amor
Pra mór de outro caboclo
Meu rancho ela abandonou.
Senti meu sangue fervê
Jurei a Tereza matá
O meu alazão arriei
E ela eu vô percurá.
Agora já me vinguei
É esse o fim de um amor
Esta cabocla eu matei
É a minha história, dotor.
(De João Pacífico e Raul Torres )

 

 

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TEREZA, UMA CABOCLA ROMÂNTICA 

“Viver é muito perigoso” (G. Rosa)

Era Tereza a morena cabocla mais feminina da região. Gostava de ouvir as modas nas rodas de noites, sentados irmãos, a parentada e os violeiros rasgando dores e saudades das amadas, das terras distantes, das esperanças perdidas, das traições de amigos, de mulheres … Tereza apreciava cada moda daquelas e era alimento pras suas carências e prazeres.

Deu que ali entre todos os que paravam na venda do seu Neco, agradou em demasia de um quase índio quase negro, meio assim de olhar matreiro e risada alta, voz de cantador. Tocava pouco da viola, menos ainda da rabeca, mas cantava. E inventava. Era bão de invencionices o tal. Pedia acompanhamento, “um dó maior”, “um si menor”, como se de muito entendesse ou tivesse estudado de cancionices. Era matreiro. Matreiro e bonito. Bonito e encantador de olhares também. Agradou de Tereza como nem. Agradou de suas pernas grossas, desde meninota eram assim. Agradou de seus seios fartos e empinados. Agradou de seu cabelo ondulado castanho-escuro e do seu olhar romântico pros versos que cantava nas noites de varanda, lá  no seu Neco.

Fez que fez, dedicou que dedicou, com olhares e sorrisos, versos a ela, que Tereza entregou-se. Foi dele e de mais nenhum outro que vinha por aquelas bandas a se entornar  viola pra ela. Disse pra cada amiga que tinha dono agora. Ele era seu. Nome não sabia, que todos o chamavam de Goiano apenas. Imaginava que fosse das bandas de Goiás então.

Passou a esperar por ele. Passou a gostar dele num tanto, que quem via achava que já houvera lhe dado os beijos, os abraços, os seios, as coxas e o ventre pra serem degustados a dois. Nonada. A Tereza era de matutar num tanto e esperou que ele se entregasse, falasse cara a cara o que dela queria, como é que seriam, pra onde é que iriam, se tudo ficaria daquele jeito mesmo – que bão era um tanto tamém. Aguardou.

Goiano, sempre  pelas corrutelas e querências da vida, num vinha nem ia, empacava. Tereza querendo ir e vir, ir e vir,  Goiano preferindo as casas de tolerância das vielas de vento forte, se abrigando em bocas alheias, cantando modas e tocando um nada de viola. Ora num cabaré, ora num lupanar, outra hora num bordel mais perfumado, dançando boleros e cochichando safadezas nas orelhas das mulheres amaciadas pelas estradas. Não havia uma zona dos entremeios em que Goiano nunca tivesse deitado em colcha de cetim grená. Era doido por pinga de qualidade, por boleros e permanências curtas. Gostava da alta rotatividade das picadas, das veredas e dos caminhos esquerdos da bandidagem parceira.

De costume assim enfileirado, o homem moreno acaboclado sentia falta por alguma vez de rever Tereza, de dedicar certo olhar religioso a ela, mas nunca deixava claro suas intenções, fossem quais. Não dava torcer nem braço, nem mão, nem boca, nem corpo pra Tereza se afeiçoar. Media distância, como se a moça fosse reservada pra um seiquê qualquer de pouco esclarecimento na sua cachola e no seu apaixonamento insistente.

Foi assim que foi.

Foi que Tereza amava aqueles braços de poesia e invencionices de rir e de chorar também.

Foi mesmo assim que um dia, levou Tereza pra dijunto dele, mas separado, de certeza.

Abandonava Tereza e ficava dias sem aparecer nem pra dar conta de um angu com feijão e couve, nem pra uma noite de suor com ela, nem mais pra uma viola, daquelas que tinham endoidecido Tereza antesmente. Foi ficando Tereza e seus doces olhos castanhos. Restando, restando.

Numa noite, chegou Goiano sem notícia dada antes.

Pegou Tereza e um cavaleiro tocando viola na sala pra ela. Era como se estivessem grudados de imã no olhar.

Matou.

(E mais não conto que conheci a cabocla Tereza e sei que sucedeu mesmo assim essa história)

Texto: Odonir Oliveira

Imagens de arquivo pessoal

Vídeo: Canal Kaio Diêgo Costa

Emergências emocionais

 

Conheceram-se em situação de emergência emocional. Crise de saúde física ou emocional? Vai saber…

Do momento do encontro inicial ao clímax do contato, houve perdas e danos, risos e sufocamentos gástricos, engasgos incontidos, soluços intermitentes, isquemias transitórias, enxaquecas e, por fim, vômito em jato. Tudo com o quê apenas a saúde não poderia contar.Vai saber…

Remédios eram aquelas conversas intermináveis pelas telas, fosse sobre a conjuntura nacional sobre a internacional; desabafos de temática cotidiana, o emprego, o carro batido, a dor na família, uma perda aqui um dano ali, uma torcida acolá. Uma música ontem, um filme hoje , uma série amanhã, compartilhados via tela em emergência existencial. Coincidências de “toques de cotovelos cibernéticos”, etéreos, aéreos, em nuvem. Vai saber …

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Tudo novo, mesmo que conhecidos em carne e osso, em tela encontravam-se, assim, pelos botecos webianos. Os produtos, as alegrias, a vontade de rir … Freud explica, quase querendo fazer uma selfie de almas.

Os hábitos diferentes, os gostos diferentes, as trajetórias diferentes. Tudo igual. Vai saber … “Gente é pra viver não pra morrer de fome”, canta aquele que era um antes e agora já não se pode confiar nele politicamente mais. 

–  É mesmo, né.                                                                                                                                                                        

– Gosta de jiló, já comeu com chuchu? E com pimenta?

– Nunca provei, sabor amargo.  

– Vou ver se consigo uma boa receita, estas coisas têm segredos que os mais antigos conhecem bem, como altura do fogo, quantidade de água, tempo de cozimento, além da escolha do jiló ! …

  Há, há, há, quanta sutileza pode ter o jiló, né. Preciso até ter cuidado ao cozinhá-lo, ao degustá-lo…

–  Comer jiló é para ..profissionais!..

Ao que parece você é uma neófita!…hahhahhahahha

Não pode ser muito nem pouco, não pode ser cozido demais nem de menos. Como vinho é preciso aprender a gostar do discreto amargor que acaba por lhe conferir um certo charme!…

Vamos ver se consigo o passo a passo!..

Diria que nem tudo que parece amargo é realmente amargo. Um discreto amargo pode dar um gosto especial a certos pratos.Para alguns amargo é doce e nos faria ver as diferenças do mais doce mais salgado mais ácido e, nem tanto amargo, como é a fama do jiló!

– Aguardo o passo-a-passo.

–  Amargo pode ser doce, como pimenta que pra uns arde e pra outros não.                                –  Maas,  o nome desse sabor é amargo mesmo? Há controvérsias.

– Isso veremos brevemente ! e mesmo as controvérsias são as faces da mesma moeda!..Reagiu…tem a ver!…Não existe reação sem motivos.O que não tem importância não gera reação!.. Interpretá-las é FREUD.

Sabia que aquela pessoa interessante que conhecera há alguns meses era … era atraente. Era atraente conversar com ela em palavras, sentia falta daquela conversa. Mas havia perigos perigosos naquilo também: metáforas e alegorias em profusão, onomatopeias pouco reveladoras dos sentidos verdadeiros, pressupostos unilaterais ou bilaterais. Vai saber …

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Correr riscos, ainda que etéreos, implicava viver aquele discurso cheio de exclamações, vírgulas, pontos de interrogação. Tudo muito novo, ainda que de nuances tão conhecidas. No suporte, na plataforma diferente mas revelando emoções tão conhecidas, tão experimentadas. Sabe-se como começa, como caminha… e como terminaria. Teria de haver um término, uma finalidade em tudo aquilo. Ou não?

Embora haja ansiedades desveladas, prazerosas, elas também podem ser mais complexas do que aparentam.

Seres humanos são cheios de complexidades, quando deviam viver apenas.

As músicas enviadas e recebidas, o compartilhar de mensagens sobre partidos políticos, panelaços, coxinhas, terceirização, Lava Jato permeando sílabas, figuras de linguagem e trocadalhos recheados de humor. Tudo em cima do ponto, na mosca tal e qual em um e noutro.

Fôlego para mais quantas partidas? Para mais quantas chegadas?

O choque de realidade como um tapa na cara; nada daquilo existiu? Talvez nada daquilo tivesse existido.

Medo de abrir nova pasta, novo arquivo.

Salvos na nuvem, entretanto.

Deletem-se todos os e-mails, até prova em contrário.

Perigos perigosos desvelam-se a partir de um enter.

Ficar com um sentimento nas mãos.

Essas telas são muito perigosas mesmo.

Vai saber.

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Leia também:

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2016/09/26/carta-aberta/

 

Texto: Odonir Oliveira

Imagens do pintor Pino Daeni

1º Vídeo: Canal: MaestroCanale

2º Vídeo: Canal:  max26111000    

“Tu pisavas nos astros distraída”

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CHÃO DE ESTRELAS

Caminho pela Avenida Paulista, em São Paulo, encontro um chão de versos que se estende feito onda quebrando na praia. Causa-me impacto ter que pisar em versos. Versos em chão de giz. Não consigo ir em frente. Pareceria uma heresia, uma profanação. Quem estende versos sob nossos pés merece no mínimo ser lido, degustado, inspirado como perfume de flor.

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Paro, leio, espero. Quem me acompanha no passeio, me conhecendo, para, fotografa, espera também.

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Observo que há pessoas que tropeçam literalmente nos versos e os saltam, os evitam, como se versos viessem alterar seu sentir, sua rota a seguir. Há outros que se desculpam. Há os que reclamam, com uma rabanada no ar, terem que proceder a um desvio de rumo na calçada. Todas essas reações, de fato, são esboços do que a poesia pode causar em alguém: saboreio, medo, surpresa, emoção, enfrentamento … há um ramalhete de sensações que nascem da absorção da poesia. Cada um beberá do desejo que tiver em si, cada um sorverá a paixão que carregar em si, cada um mastigará o soco que uns versos lhe darão, cada um se embrenhará, a seu modo, pelos sentidos tantos que certas palavras organizadas de uma certa forma o lerão. Sim, porque as poesias nos leem. Não o contrário. Nos leem porque bebem em nossas experiências daquilo mais sensível que guardamos em nós.

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Converso com Luciano A. e lhe pergunto se quer um editor ou quer ser lido. Responde-me que já faz poemas há muitos anos e quer ser publicado, viver com o produto de seu trabalho. É uma reivindicação justa. Analiso um pouco os versos que ele passa a ler de um caderno universitário pra mim. Escolhe aqueles que acha que gostarei mais. Avalio como professora de literatura ou como leitora apenas? Opto pela sensibilidade. Diz que rima para dar maior ritmo e musicalidade a seus versos, gosta de escrever sobre determinados temas. Percebo que tem vocabulário amplo e é bastante emocional. Avalio e lhe digo que sua poesia é bastante acessível e que muitos gostarão dela, mesmo os pouco iniciados em leitura de poemas.

Revelo que também escrevo poemas. Dou-lhe meus endereços, do blog e do Youtube porque também ele me deu o seu.

Por fim, saio daquela conversa, em uma tarde de sábado, como se levitasse ou voasse num tapete mágico e, sob ele, algo misterioso me conduzisse levemente. Creio que eram versos.

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Manacás abraçam postes na cinzenta cidade bandeirante a fim de colori-la e perfumá-la de um certo lirismo.

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Mais à frente, na tumultuada e abarrotada calçada, um rapazinho tocava violino. Era o fundo musical que faltava para ladrilhar com pedrinhas de brilhante a avenida, e o amor por ela passar.

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Texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

1º Vídeo: Canal maiaangelo

2º Vídeo: Canal ArquivoRaíssaAmaral

3º Vídeo: Canal WH2music   

 

Facebook do poeta em busca de um editor: http://www.facebook.com/lucianoapoeta

Identidades amorosas

UMA SEMANA SÓ DE AMORES

Roberto Freire, psiquiatra e criador da Somaterapia, costumava discordar de datas compulsoriamente combinadas para se festejar algum relacionamento, como Dia das Mães, dos Pais e, em especial o Dia dos Namorados. Tudo criado e patrocinado pelo comércio, pelas vendas. E como vende-se amor !

Quando começo um trabalho terapêutico, vou logo dizendo ao cliente que não entendo absolutamente nada de amor. Com 50 anos de vida e de amor apaixonado, com 25 anos de clínica amorosa e apaixonada, aprendi muita coisa, mesmo, sobre a vida e o ser humano, mas absolutamente nada a respeito do que possa ser o amor e como funciona. […] Então como é que nós, psicólogos e psiquiatras, podemos exercer nosso ofício sem entender a essência e o funcionamento do amor, se é com isso que lidamos efetiva e frequentemente em nossa vida pessoal e na de nossos clientes? 

Foi justamente quando perdi minha pretensão de onisciência e onipotência em relação ao amor, que me humanizei como terapeuta, e pude realmente exercer meu ofício. Porque descobri que amar é um mistério que só é bom se continua mistério. Porque percebi que amar é uma coisa que se sente mas não se entende, e que se a gente entende para de sentir. Ou seja, o amor a gente só entende quando ainda não sentiu, só compreende quando deixou de sentir. E a melhor receita para acabar um amor é intelectualizá-lo, explicá-lo de outra maneira que não seja a poética e a musical que, na verdade, não explicam nada, só pulsam, como o próprio amor”

(“Entre o Amor e a neurose eu fico com os dois”, em VIVA EU, VIVA TU, VIVA O RABO DO TATU, Roberto Freire, p. 141, 142, Ed, Símbolo, 3ª edição, SP, 1977)

 

IDENTIDADES AMOROSAS

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DOCE É O AMOR

O que é isso,

que apelido tem

que codinome tem

que alcunha tem

que diminutivo tem

que sinônimo tem

que antônimo tem

que química tem

que receituário tem

que disfarces tem

que fantasias tem

que lemas tem

que contraindicações tem

que efeitos colaterais tem

que desenganos tem

que tropeços tem

que feridas tem

que encantos tem

que sedução tem

que encaixes tem

que desassossegos tem ?

Doce é o amor ?

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 ENAMORAR-SE 

Sempre fui conselheira dos adolescentes sobre essas questões de amor, paixão, enamoramentos etc. etc. Sempre quiseram saber o que eu pensava, como agiria, o que faria se …. Costumava responder que era bacana que “eles” próprios sentissem- em primeiro lugar- depois que elaborassem um pouco aqueles sentires, tentassem descobrir o porquê de tal ou tais pessoas serem tão importantes, tão necessárias em suas vidas e até mesmo que motivos os levavam a pinçar aqueles entre tantos outros.

Por que os aconselhava assim? Porque pelas estradas da vida pude entender um pouco mais desse sentimento ou dessa ação de ENAMORAR-SE. Ouvi muitos relatos de amigos, em terapias de grupo ou em momentos de confidências etc. etc. Pude, então, sair de mim e levitar por, ou com, sentires alheios também.

Não há que se ter medo. Roberto Freire, terapeuta reichiano, afirmava – e escreveu um livro com esse título –  AME e DÊ VEXAME . Acredito que existam correspondências internas que sejam mais importantes e, aliadas às de corpo, pele e cheiros transfigurem o que em nós provoca o enamoramento.

É claro que com a mudança de idades, há alterações nisso. Não se permanece com as mesmas intenções dos adolescentes, nem dos jovens. Tornamo-nos mais criteriosos, seletivos e efetivos em nossas escolhas. Entretanto, há um componente, quase ingrediente, nessa receita nada receita que também vem com a idade, é o receio da dor, do sofrimento, a lembrança do que já ocorreu anteriormente. E é inevitável, saiba-se.

Arriscar-se, aproximar-se, buscar, ouvir o sim ou o não, ou o talvez, demandam CORAGEM, nem sempre existente nas pessoas.

Enamorar-se é uma competência que muitos perdem com o tempo. E outros nunca sequer conheceram. É pena.

 

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INSEGUROS

Meninos e meninas se beijando de olhos abertos na porta da escola

Plateias diárias para o espetáculo

Mãos bobas e tontas aguardando esconderijos

Saudade do outro após dez minutos de separação

Vontade de contar ao outro tudo,

as mínimas banalidades.

Desejo de cabeça, tronco e membros.

Fogo aceso de apaixonamentos.

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PURIFICAÇÃO DE SER

É quando abro meus entres

a ti

é que inundas com teus líquidos

a mim,

lavando-me entranhas

apagando monstros de filamentos doloridos

encharcando-me de perfumes de mato água e chão

exorcizando fantasmas de meus músculos sangrentos

encachoeirando minhas carnes nas espumas de tuas águas.

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ENAMOREM-SE, MENINOS !

Moços e moças, enamorem-se.

A existência sem enamoramentos é parca

A caminhada sem paixões é ínfima

A trajetória sem amores é cinzenta

Estar na vida sem doar-se e dar-se ao amor é medíocre e vão.

Enamorem-se até os últimos momentos de suas existências.

É o enamorar-se que nos torna mais humanos e doces com nossos semelhantes 

Abençoado é aquele que ama e se deixa amar .

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Texto e poemas: Odonir Oliveira

Imagens retiradas da Internet

1º Vídeo: Canal sensatez    

2º Vídeo: Canal luciano hortencio

3º Vídeo: Canal Gustavo Cunha

 

DEDICATÓRIA: À amiga Angelita Obst, leitora diária do meu blog, comentarista e parceira contra o analfabetismo político e a falta de sensibilidade de tanta gente por esses Brasis todos.

 

Leia também:

“Amores são sempre amáveis” https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2017/06/05/amores-serao-sempre-amaveis/

Caixinha de música 

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2017/06/06/caixinha-de-musica/

O amor natural

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2017/06/07/o-amor-natural/

O medo de amar

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Só nos resta viver

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Em estado de poesia

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2017/06/09/__trashed-2/

No corpo, o espírito

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2017/06/10/no-corpo-o-espirito/

O que dizer do amor?

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2017/06/10/o-que-dizer-do-amor/