Drummond, 31 de outubro de 1902

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EM CONSIDERAÇÃO

Licença, meu poeta.

Chego assim de cabeça baixa

os tempos são insuportáveis

os tempos são insustentáveis

os tempos são dramáticos

Há gente se escondendo das redes sociais

é medo

há gente gritando baixo

é medo

há gente falando menos

é medo

Não sou nenhuma menina

a sorrir sempre

brincar sempre

cantar sempre

Tenho anos e anos

vividos

sangrados

sentidos

Todos os sentidos estão em mim

não perdi nenhum

ainda.

Há flores sim

Há náuseas maiores ainda

Meu tempo é feio

Meu tempo é escuro

Meu tempo é desumano.

Meu tempo é fraco de amor

Meu tempo é fraco de amores.

Sem metáforas, sem comparações

Linguagem objetiva, clara, direta

Lirismo sem asas e cores

Lirismo de canhões e armadilhas

Aprendi a ler suas letras

nas linhas, nas entrelinhas

Continuo lendo suas comunicações

por tambor

por nuvens

em borras de café.

Deixarei de escrever aqui.

Deixarei de me expor ao mundo assim.

Quando mais tarde me procure quem sabe

alguma cor nova, algum perfume invulgar

torno aqui, ali, acolá

sempre sem fingir

pois que um poeta não é um fingidor.

Abraços rimados.

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Poesia: Odonir Oliveira

Lições de flores e passarinhos

Aprendendo sempre com meu pai lírico Carlos Drummond de Andrade

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MARITACAS

são dez da manhã
ouço sons alucinantes no caminho
vão aumentando aumentando aumentando
enquanto sigo
parecem sirenes despertando silêncios internos
são cigarras que gritam aos ouvidos surdos
é domingo
tem sol

são quatro da tarde
sento quieta no banco do quintal
ouço acordos de maritacas protestando
muito muito muito
não consigo me mexer, nem fotografar
chegam outras e outras
do muro pulam para as laranjeiras
matracam matracam matracam
tento ler sua conversa
são letras sinceras
tento imitá-las reproduzir seus sons
procuram a intrusa e silenciam
silencio então
não admitem estrangeiros, incomuns
continuam seus planos de voo
vou e voo
é segunda-feira
cai a tarde

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PALMAS

sumiram durante mais de um ano
sumiram das superfícies
sumiram dos nossos olhos
sumiram
recolheram-se
hibernaram
pensavam talvez
refletiam talvez
planejavam suas estratégias talvez

mas agora estão nas superfícies
estão lindas firmes coletivas
em cachos, ramos
suas batatas se espalhavam sem que notássemos
suas raízes se fincavam sem que víssemos
são muitas pelos caminhos
há terrenos inteiros repletos delas
há terras sem donos cheias delas
há quintais ao abandono cheios delas

palmas
mais palmas
são elas colorindo os horizontes
ensinando que não haviam desaparecido
estavam germinando
beleza
colorido
encantamento
são muitas muitas muitas

DOMINGOS MEUS

Perguntam-me “como você aguenta morar numa cidade tão pequena assim, tão sem atrativos?”

Saio a caminhar com Luna, minha companheira fiel, que cega, persegue, percebe cheiros e gostos e sons.
De costas, ouço uma corrida. Penso ser de uma criança pelas chineladas no chão. Vejo que um dos meninos do Clubinho tocara a campainha da casa do amigo e velozmente se escondera numa beiradinha de casa mais à frente.
Outro menino sai da casa, grita pelo primeiro. Eu, cúmplice. Viro-me levemente a não demonstrar ali qualquer traição àquela brincadeira.
O outro sai a procurar o que se escondia. Encontram-se. Riem. Saem correndo rua abaixo um atrás do outro. Gargalham.

Depois um outro é que passa zunindo na bicicleta, pergunto-lhe se não vai ver os jogos da Copa do Mundo na TV, ” eu não, vou andar de bicicleta, tiau”.

Volto pra casa com a Luna.
E ainda me perguntam “como você aguenta …”

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Poemas e texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1-Canal Dudu Lima Trio

2- Grande Lata-Facebook

Curtida

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Parabéns por receber um total de 1.000 curtidas em Poesias de Mãos que Sentem.

Curtição

Isso é uma curtição!

Caramba, mas que curtição, hem!

Sabia que eu te curto pra caramba!

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MÃOS DADAS
Drummond

Não serei o poeta de um mundo caduco
Também não cantarei o mundo futuro
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças
Entre eles, considero a enorme realidade
O presente é tão grande, não nos afastemos
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história
Não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida
Não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes
A vida presente

Obrigada a todas e todos pela companhia nas manhãs, tardes e noites. Em especial aos outros blogueiros – que só deles são registradas as ” 1000 curtidas”.

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Tela  no estilo de  Picasso retirada da Internet

Vídeo: Canal Alfredo Pessoa

Jardim Encantamento

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Eram anos de chumbo. Fervilhavam grupos que se escolhia por afinidade como a família em que gostaríamos de ter nascido, fervilhava um desejo enorme de liberdade, de se reinventar individualmente, coletivamente, em recriar a sociedade, o modo de viver.

Tínhamos os mais novos vinte e poucos anos e os mais velhos uns trinta e poucos. Eram artistas plásticos, pintores em especial, psicólogos, médicos, professores, músicos. Vivíamos em Santos, São Paulo, já comunitariamente, apenas em casas diferentes e exercendo nossas atividades profissionais, nossos ofícios. Ali se deu um ajuntamento de ânimas, no momento em que Caetano lançava o seu LP “Muito” ; Milton, “O Clube da Esquina“; Chico, tanta coisa linda. Estávamos efervescentes, acreditávamos no toque físico, nos abraços, beijos, afagos múltiplos e num amor que livremente germinava entre todos. Era 1977. Era alegria em todas as noites, abraçados no grande colchão com colcha de retalhos em que nos abraçávamos e aguardávamos lendo, estudando, vivendo a liberdade que desejávamos para nosso país, depois de tantos anos de arbítrio. Não consumíamos drogas. Nossa droga era o AMOR. Um AMOR DIFERENTE daquele que achávamos fosse amor antes.

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Vivíamos- veja bem- vivíamos no Farol de Itapuã. As ruas sem nome. As casas sim tinham nomes, em lugar de numeração. A nossa casa chamava-se VILA DA PEDRA, nome escrito num belo galão de tinta e fixado no muro. Meus amigos artistas plásticos capricharam na pintura alusiva ao nome da nossa morada. Esse era o nosso endereço postal ”VILA DA PEDRA, JARDIM ENCANTAMENTO, FAROL DE ITAPUÃ, Salvador, BA ”.

Por décadas, acalentei desejos de SER e de ESTAR. Deixei-os para o final. Depois dos 60. O que tenho feito nos últimos anos. Quero todas as escolhas, definitivas. Quero todas as ações, definitivas. Quero todas as emoções, definitivas. Quero todos os sentimentos, definitivos. Porque meus valores NÃO MUDARÃO MAIS. Sei o que quero, por que quero, onde quero, com quem quero. Tudo, definitivo.

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JARDIM

Aro a terra
afofo a terra
sujo as unhas
marco os dedos
firo as mãos
mãos que sentem
faço jardins de amores-perfeitos
faço jardineiras de palmeirinhas
subo-desço escadas à sacada
cidade grande
faço jardins de amores-perfeitos
sou terra preta adubada
estou semeando
estou nas estações
estou aguardando as tardes
estou aguardando noites
estou jardim

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ENCANTAMENTO

Aro a terra
afofo a terra
sujo as unhas
marco os dedos
firo as mãos
mãos que sentem
cidade- mato pequena vivenda
faço jardins de rosas
sei de seus tempos de floração
faço canteiros de ervas aromáticas
recolho flores
fascino-me com as azaleias
colho frutos em galhos
enfeito-me com as buganvílias
faço jardins de encantamentos
sou terra vermelha
sou escolha de presente
sou estação de florações
sou eu as tardes
sou eu as noites
Sou jardim
Sou encantamento
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Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal Samba

 

Leia:

https://universa.uol.com.br/noticias/redacao/2018/10/19/mulheres-com-mais-de-40-contam-que-e-possivel-ser-feliz-sozinha.htm

 

Todas as Estrelas

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VIROU ESTRELA

Para crianças, ele virou estrelinha
Para românticos, amar é ouvir estrelas
Para sonhadores, olha-se os céus
nutrem-se de esperanças.
Aquela ali é meu pai; a outra, minha mãe
aquela outra é meu irmão ao lado de meu sobrinho
Essa constelação é de meus avós, tios e tias
Essa aqui vem com Drummond, Rubem Alves, Paulo Freire, Santos Dumont,
Cesar Lattes, Suassuna, Darci Ribeiro, Sérgio Buarque, Villas-Bôas , Roberto Freire
Tem a outra bem ali com Chiquinha Gonzaga, Villa- Lobos, Cartola, Patativa, Vinícius, Tom,Elis, Melodia, Gonzaguinha, Mestre Môa

Como brilham as estrelas nos céus dos Brasis !
Nas estradas, entre essas minhas montanhas,
chego a tocá-las todas
chego a ouvi-las todas
chego a tê-las todas em mim.

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SORRISO DE ESTRELA

É quando no desespero de mim,
que encontro a ti
sorrindo repetidas vezes
com passos ouvidos
em reflexos mínimos
em espaços imprevisíveis
em momentos inesperados.

É quando miro estrelas
que encontro
teu lume no delas
tua silhueta na delas
teu dorso incomum no brilho delas.

É quando escurece
que estrelas em ramalhetes
te trazem a mim,
e em ti permaneço
pousada no céu.

DA ESTRELA

Noite escura,
opacidade imensidão esperas
diáfanos ventos brisas sopram sonatas
O sono impele ao sonho contumaz.

Impacto,
brilho luz cor movimento
suaves alimentos sopram lirismo
O sonho seduz ao lume da estrela.

De tantas ali ora expostas
Só ela incita àquela descoberta fugaz.

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CONVERSA COM ESTRELAS

Só, somente assim ser.
Acalanto de sossegos ninando aspirações.
Respostas ternas para enigmas ocultados.

Confissões em cantos únicos
súplicas, apelos, inquietações.
Aquiescendo dores inconfessáveis
segredos indizíveis
amores inexplicáveis.

Oráculos de almas em conflito.
Estrelas,
dos mistérios
à luz.

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A CULPA É DAS ESTRELAS

Você lua
rua
nua
noite
dança,
Baco.

Eu estrela
dupla
culpa
multa
luta,
Dioniso

Lua nua
Estrela nua.

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Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos

1- Canal Thiago Nunes

2- Canal luciano hortencio

Medievais

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CANTIGA

Ó serra de meus tormentos
que trazes de novas de meu cavaleiro?
Aqui arde a tarde em sortilégios
Aqui dorme a noite em sacrifícios

Ó serra de meus tormentos
que trazes de novas de meu cavaleiro?
Aqui trago lança colorida
Aqui tenho aromas e perfumes

Ó serra de meus tormentos
que trazes de novas de meu cavaleiro?
Aqui cavaleira sou
Aqui tropeço levanto em lances de dor

Ó serra de meus tormentos
que trazes de novas de meu cavaleiro?
Aqui vagueiam nuvens desenhos de um cantador
Aqui passeiam sonhos de encantos e sabor

Ó serra de meus tormentos
que trazes de novas de meu cavaleiro?

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ESTIVESTE I

Vieste
da garupa de um alazão de aço
paraste
desceste
com tua marcante capa preta
com teu inconfundível escudo nas mãos
imprimiste tua marca
no chão, no ar, no portal
querubins e serafins te reconheceram
querubins e serafins entregaram tua imagem
querubins e serafins carregaram tua mensagem
sempre souberam nos longes
tu estiveste
tu viste
tu voltaste.
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ESTIVESTE II
flutuaste por nuvens eternas
flutuaste por pastos etéreos
apascentaste o gado novo
acalentaste em teu úmido útero
as sementes desse porvir
acalentaste em teu corpo tépido
o soro procriador
foste até lá
a tê-lo em si
uma vez
duas vezes
três vezes
nos portões ocres
entregaste tua pele a tatuar-se
ao anjo de ti
depois mais tantas e tantas outras vezes
montaste em nuvens agalopadas
enviando sinais
tu estiveste
tu viste
tu voltaste.

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OLHARES

repousa em mim
a luz do sol
a sombra da tarde
o perfume das minhas rosas
repousa em mim
a franqueza do ser
a dignidade do existir
repousa em mim
a carícia do vento da serra
o sol quente da altitude
repousa em mim
a paz da fraternidade
a luta pela igualdade
repousam em mim
os verdes, os amarelos, os rosas, os vermelhos
sou planta
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Rios, Riobaldo

Ela não é ela
ela é uma
ela não tem corpo
só palavras em voz outra
só companhia quimera ilusão
ela não é ela
ela é uma
sem possuí-la
sem senti-la
sem vê-la
ela não é ela
ela é uma
ela é minha refém no escuro das noites
ela é minha cúmplice na clareza dos dias
ela não é ela
ela é uma.
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Dias, Diadorim

Ele é ele
ele não é um
cavalga trota campeia
silencia esvoaça some
Ele é ele
ele não é um
No corpo-sonho
na garupa-nuvem
no dia -Diadorim
Ele é ele
ele não é um
Acorrentada em asas de destino
percebe Diadorim a vereda
segue persegue sua natureza
porque sabe
Ele é ele
ele não é um.

 

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ARDE A TARDE

esteve sempre ali
esteve sempre silente
com mãos vivas e pele quente
esteve sempre ali
esteve sempre no verde
com pernas maduras e pés ardentes
esteve sempre ali
com grutas incandescentes e acalentadoras
esteve sempre ali
esteve sempre no verde
nunca musa, esfinge, vestal
esteve sempre ali
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Poesias: Odonir Oliveira
Fotos de arquivo pessoal: recantos de Minas Gerais
Vídeo: Canal Pimalves