Drummond, 31 de outubro de 1902

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EM CONSIDERAÇÃO

Licença, meu poeta.

Chego assim de cabeça baixa

os tempos são insuportáveis

os tempos são insustentáveis

os tempos são dramáticos

Há gente se escondendo das redes sociais

é medo

há gente gritando baixo

é medo

há gente falando menos

é medo

Não sou nenhuma menina

a sorrir sempre

brincar sempre

cantar sempre

Tenho anos e anos

vividos

sangrados

sentidos

Todos os sentidos estão em mim

não perdi nenhum

ainda.

Há flores sim

Há náuseas maiores ainda

Meu tempo é feio

Meu tempo é escuro

Meu tempo é desumano.

Meu tempo é fraco de amor

Meu tempo é fraco de amores.

Sem metáforas, sem comparações

Linguagem objetiva, clara, direta

Lirismo sem asas e cores

Lirismo de canhões e armadilhas

Aprendi a ler suas letras

nas linhas, nas entrelinhas

Continuo lendo suas comunicações

por tambor

por nuvens

em borras de café.

Deixarei de escrever aqui.

Deixarei de me expor ao mundo assim.

Quando mais tarde me procure quem sabe

alguma cor nova, algum perfume invulgar

torno aqui, ali, acolá

sempre sem fingir

pois que um poeta não é um fingidor.

Abraços rimados.

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Poesia: Odonir Oliveira

Lições de flores e passarinhos

Aprendendo sempre com meu pai lírico Carlos Drummond de Andrade

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MARITACAS

são dez da manhã
ouço sons alucinantes no caminho
vão aumentando aumentando aumentando
enquanto sigo
parecem sirenes despertando silêncios internos
são cigarras que gritam aos ouvidos surdos
é domingo
tem sol

são quatro da tarde
sento quieta no banco do quintal
ouço acordos de maritacas protestando
muito muito muito
não consigo me mexer, nem fotografar
chegam outras e outras
do muro pulam para as laranjeiras
matracam matracam matracam
tento ler sua conversa
são letras sinceras
tento imitá-las reproduzir seus sons
procuram a intrusa e silenciam
silencio então
não admitem estrangeiros, incomuns
continuam seus planos de voo
vou e voo
é segunda-feira
cai a tarde

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PALMAS

sumiram durante mais de um ano
sumiram das superfícies
sumiram dos nossos olhos
sumiram
recolheram-se
hibernaram
pensavam talvez
refletiam talvez
planejavam suas estratégias talvez

mas agora estão nas superfícies
estão lindas firmes coletivas
em cachos, ramos
suas batatas se espalhavam sem que notássemos
suas raízes se fincavam sem que víssemos
são muitas pelos caminhos
há terrenos inteiros repletos delas
há terras sem donos cheias delas
há quintais ao abandono cheios delas

palmas
mais palmas
são elas colorindo os horizontes
ensinando que não haviam desaparecido
estavam germinando
beleza
colorido
encantamento
são muitas muitas muitas

DOMINGOS MEUS

Perguntam-me “como você aguenta morar numa cidade tão pequena assim, tão sem atrativos?”

Saio a caminhar com Luna, minha companheira fiel, que cega, persegue, percebe cheiros e gostos e sons.
De costas, ouço uma corrida. Penso ser de uma criança pelas chineladas no chão. Vejo que um dos meninos do Clubinho tocara a campainha da casa do amigo e velozmente se escondera numa beiradinha de casa mais à frente.
Outro menino sai da casa, grita pelo primeiro. Eu, cúmplice. Viro-me levemente a não demonstrar ali qualquer traição àquela brincadeira.
O outro sai a procurar o que se escondia. Encontram-se. Riem. Saem correndo rua abaixo um atrás do outro. Gargalham.

Depois um outro é que passa zunindo na bicicleta, pergunto-lhe se não vai ver os jogos da Copa do Mundo na TV, ” eu não, vou andar de bicicleta, tiau”.

Volto pra casa com a Luna.
E ainda me perguntam “como você aguenta …”

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Poemas e texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1-Canal Dudu Lima Trio

2- Grande Lata-Facebook

Curtida

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Parabéns por receber um total de 1.000 curtidas em Poesias de Mãos que Sentem.

Curtição

Isso é uma curtição!

Caramba, mas que curtição, hem!

Sabia que eu te curto pra caramba!

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MÃOS DADAS
Drummond

Não serei o poeta de um mundo caduco
Também não cantarei o mundo futuro
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças
Entre eles, considero a enorme realidade
O presente é tão grande, não nos afastemos
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história
Não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida
Não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes
A vida presente

Obrigada a todas e todos pela companhia nas manhãs, tardes e noites. Em especial aos outros blogueiros – que só deles são registradas as ” 1000 curtidas”.

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Tela  no estilo de  Picasso retirada da Internet

Vídeo: Canal Alfredo Pessoa

Jardim Encantamento

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Eram anos de chumbo. Fervilhavam grupos que se escolhia por afinidade como a família em que gostaríamos de ter nascido, fervilhava um desejo enorme de liberdade, de se reinventar individualmente, coletivamente, em recriar a sociedade, o modo de viver.

Tínhamos os mais novos vinte e poucos anos e os mais velhos uns trinta e poucos. Eram artistas plásticos, pintores em especial, psicólogos, médicos, professores, músicos. Vivíamos em Santos, São Paulo, já comunitariamente, apenas em casas diferentes e exercendo nossas atividades profissionais, nossos ofícios. Ali se deu um ajuntamento de ânimas, no momento em que Caetano lançava o seu LP “Muito” ; Milton, “O Clube da Esquina“; Chico, tanta coisa linda. Estávamos efervescentes, acreditávamos no toque físico, nos abraços, beijos, afagos múltiplos e num amor que livremente germinava entre todos. Era 1977. Era alegria em todas as noites, abraçados no grande colchão com colcha de retalhos em que nos abraçávamos e aguardávamos lendo, estudando, vivendo a liberdade que desejávamos para nosso país, depois de tantos anos de arbítrio. Não consumíamos drogas. Nossa droga era o AMOR. Um AMOR DIFERENTE daquele que achávamos fosse amor antes.

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Vivíamos- veja bem- vivíamos no Farol de Itapuã. As ruas sem nome. As casas sim tinham nomes, em lugar de numeração. A nossa casa chamava-se VILA DA PEDRA, nome escrito num belo galão de tinta e fixado no muro. Meus amigos artistas plásticos capricharam na pintura alusiva ao nome da nossa morada. Esse era o nosso endereço postal ”VILA DA PEDRA, JARDIM ENCANTAMENTO, FAROL DE ITAPUÃ, Salvador, BA ”.

Por décadas, acalentei desejos de SER e de ESTAR. Deixei-os para o final. Depois dos 60. O que tenho feito nos últimos anos. Quero todas as escolhas, definitivas. Quero todas as ações, definitivas. Quero todas as emoções, definitivas. Quero todos os sentimentos, definitivos. Porque meus valores NÃO MUDARÃO MAIS. Sei o que quero, por que quero, onde quero, com quem quero. Tudo, definitivo.

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JARDIM

Aro a terra
afofo a terra
sujo as unhas
marco os dedos
firo as mãos
mãos que sentem
faço jardins de amores-perfeitos
faço jardineiras de palmeirinhas
subo-desço escadas à sacada
cidade grande
faço jardins de amores-perfeitos
sou terra preta adubada
estou semeando
estou nas estações
estou aguardando as tardes
estou aguardando noites
estou jardim

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ENCANTAMENTO

Aro a terra
afofo a terra
sujo as unhas
marco os dedos
firo as mãos
mãos que sentem
cidade- mato pequena vivenda
faço jardins de rosas
sei de seus tempos de floração
faço canteiros de ervas aromáticas
recolho flores
fascino-me com as azaleias
colho frutos em galhos
enfeito-me com as buganvílias
faço jardins de encantamentos
sou terra vermelha
sou escolha de presente
sou estação de florações
sou eu as tardes
sou eu as noites
Sou jardim
Sou encantamento
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Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal Samba

 

Leia:

https://universa.uol.com.br/noticias/redacao/2018/10/19/mulheres-com-mais-de-40-contam-que-e-possivel-ser-feliz-sozinha.htm

 

Todas as Estrelas

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VIROU ESTRELA

Para crianças, ele virou estrelinha
Para românticos, amar é ouvir estrelas
Para sonhadores, olha-se os céus
nutrem-se de esperanças.
Aquela ali é meu pai; a outra, minha mãe
aquela outra é meu irmão ao lado de meu sobrinho
Essa constelação é de meus avós, tios e tias
Essa aqui vem com Drummond, Rubem Alves, Paulo Freire, Santos Dumont,
Cesar Lattes, Suassuna, Darci Ribeiro, Sérgio Buarque, Villas-Bôas , Roberto Freire
Tem a outra bem ali com Chiquinha Gonzaga, Villa- Lobos, Cartola, Patativa, Vinícius, Tom,Elis, Melodia, Gonzaguinha, Mestre Môa

Como brilham as estrelas nos céus dos Brasis !
Nas estradas, entre essas minhas montanhas,
chego a tocá-las todas
chego a ouvi-las todas
chego a tê-las todas em mim.

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SORRISO DE ESTRELA

É quando no desespero de mim,
que encontro a ti
sorrindo repetidas vezes
com passos ouvidos
em reflexos mínimos
em espaços imprevisíveis
em momentos inesperados.

É quando miro estrelas
que encontro
teu lume no delas
tua silhueta na delas
teu dorso incomum no brilho delas.

É quando escurece
que estrelas em ramalhetes
te trazem a mim,
e em ti permaneço
pousada no céu.

DA ESTRELA

Noite escura,
opacidade imensidão esperas
diáfanos ventos brisas sopram sonatas
O sono impele ao sonho contumaz.

Impacto,
brilho luz cor movimento
suaves alimentos sopram lirismo
O sonho seduz ao lume da estrela.

De tantas ali ora expostas
Só ela incita àquela descoberta fugaz.

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CONVERSA COM ESTRELAS

Só, somente assim ser.
Acalanto de sossegos ninando aspirações.
Respostas ternas para enigmas ocultados.

Confissões em cantos únicos
súplicas, apelos, inquietações.
Aquiescendo dores inconfessáveis
segredos indizíveis
amores inexplicáveis.

Oráculos de almas em conflito.
Estrelas,
dos mistérios
à luz.

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A CULPA É DAS ESTRELAS

Você lua
rua
nua
noite
dança,
Baco.

Eu estrela
dupla
culpa
multa
luta,
Dioniso

Lua nua
Estrela nua.

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Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos

1- Canal Thiago Nunes

2- Canal luciano hortencio

Medievais

 

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CANTIGA

Ó serra de meus tormentos
que trazes de novas de meu cavaleiro?
Aqui arde a tarde em sortilégios
Aqui dorme a noite em sacrifícios

Ó serra de meus tormentos
que trazes de novas de meu cavaleiro?
Aqui trago lança colorida
Aqui tenho aromas e perfumes

Ó serra de meus tormentos
que trazes de novas de meu cavaleiro?
Aqui cavaleira sou
Aqui tropeço levanto em lances de dor

Ó serra de meus tormentos
que trazes de novas de meu cavaleiro?
Aqui vagueiam nuvens desenhos de um cantador
Aqui passeiam sonhos de encantos e sabor

Ó serra de meus tormentos
que trazes de novas de meu cavaleiro?

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ESTIVESTE I

 
Vieste
da garupa de um alazão de aço
paraste
desceste
com tua marcante capa preta
com teu inconfundível escudo nas mãos
imprimiste tua marca
no chão, no ar, no portal
querubins e serafins te reconheceram
querubins e serafins entregaram tua imagem
querubins e serafins carregaram tua mensagem
sempre souberam nos longes
tu estiveste
tu viste
tu voltaste.
 
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ESTIVESTE II
 
 
 
flutuaste por nuvens eternas
flutuaste por pastos etéreos
apascentaste o gado novo
acalentaste em teu úmido útero
as sementes desse porvir
acalentaste em teu corpo tépido
o soro procriador
foste até lá
a tê-lo em si
uma vez
duas vezes
três vezes
nos portões ocres
entregaste tua pele a tatuar-se
ao anjo de ti
depois mais tantas e tantas outras vezes
montaste em nuvens agalopadas
enviando sinais
 
tu estiveste
tu viste
tu voltaste.
 

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OLHARES

repousa em mim
a luz do sol
a sombra da tarde
o perfume das minhas rosas
repousa em mim
a franqueza do ser
a dignidade do existir
repousa em mim
a carícia do vento da serra
o sol quente da altitude
repousa em mim
a paz da fraternidade
a luta pela igualdade
repousam em mim
os verdes, os amarelos, os rosas, os vermelhos
sou planta
 
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Rios, Riobaldo

Ela não é ela
ela é uma
ela não tem corpo
só palavras em voz outra
só companhia quimera ilusão
ela não é ela
ela é uma
sem possuí-la
sem senti-la
sem vê-la
ela não é ela
ela é uma
ela é minha refém no escuro das noites
ela é minha cúmplice na clareza dos dias
ela não é ela
ela é uma.
 
 
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Dias, Diadorim

Ele é ele
ele não é um
cavalga trota campeia
silencia esvoaça some
 
Ele é ele
ele não é um
 
No corpo-sonho
na garupa-nuvem
no dia -Diadorim
 
Ele é ele
ele não é um
 
Acorrentada em asas de destino
percebe Diadorim a vereda
segue persegue sua natureza
porque sabe
 
Ele é ele
ele não é um.
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ARDE A TARDE

esteve sempre ali
esteve sempre silente
com mãos vivas e pele quente
esteve sempre ali
esteve sempre no verde
com pernas maduras e pés ardentes
esteve sempre ali
com grutas incandescentes e acalentadoras
esteve sempre ali
esteve sempre no verde
nunca musa, esfinge, vestal
esteve sempre ali
 
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Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal: recantos de Minas Gerais

Vídeos: Canal Odonir Oliveira

Professores, seres escolhidos, jamais a distância

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PROFESSORA, ESSA MULHER

Como um presságio, seu mestre mandou:
Toda mulher deveria ser professora para poder ajudar na educação dos filhos mais tarde
Faremos tudo que seu mestre mandar.
Até a página dois, querido mestre.

Trabalhadora, trabalhadeira,
segue a mulher no caminho das escolas, dos alunos,
com sua varinha de condão.
Magias retiradas de tapetes mágicos e cartolas de coelhos sábios,
cantarolando melodias de bruxas do bem,
disparando saberes e sabores de seus mestres gregos,
qual um desses seres brotados das páginas
de seus ensinadores livros encantados.

Corre por avenidas, estradas, sobe ladeiras, escadas
entrega mensagens de anjos, serafins e querubins aos infantes meninos
que bebem suas artes, palavras e mágicas
como fossem verdades únicas,
quando não passam de pequeninas estrelas
a brilhar, algum dia, nos céus.

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OBSESSÃO

Sou obsessiva.
Sou obsessiva sim.
Tenho ideia fixa de justiça
Tenho ideia fixa de comprometimento.
Tenho ideia fixa de educação
Tenho ideia fixa de doação e entrega.

Não tenho receio de dor.
Não tenho medo de envolvimento.
Não tenho pavor de amor.

Minha obsessão por ensinar
seja a miúdos, maduros, graúdos
passa pelo ato de amar.

Não restrinjam minhas ações.
Não desprezem minhas veredas.

Somos raízes, mas também somos sementes.

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A ALUNA

Reza a lenda que a menina de 4 aninhos estava sentada no peniquinho, a mãe se distraiu e ela sumiu. Foi encontrada na casa do fim da rua com uma bisnaga de pão, enorme, em papel de embrulho numa das mãozinhas. Na outra, tinha um caderno do irmão mais velho e um lápis. ‘’Vim estudar com a senhora, dona Neuza. Eu também quero ir pra escola e aprender a ler’’. A mãe a encontrou, puxou seu vestidinho, ainda suspenso, levou-a para casa e lhe explicou que no início do ano iria para a escola.

Foi aos 5 anos e meio e aprendeu a ler. Não frequentou o jardim de infância na escola particular das freiras, mas fez o pré-primário na Escola do Círculo Operário, mantida pelo Sindicato dos Metalúrgicos até então. Foi alfabetizada por Dona Nadege, uma senhora aplicada em seu ofício. Lembra-se sempre das provinhas, das exposições de trabalhos abertas à comunidade. Tudo um primor mesmo.

Só no fim do ano seguinte iria para a 1ª série da Escola Santo Antonio, pública, mantida pela FNM,  com aulas de artes, piano, balé, canto orfeônico, banda marcial, ginástica e muito mais. As professoras vinham de longe, em ônibus especiais da FNM trazidas às vilas operárias

Assim foi que se apaixonou por sua professora Dona Therezinha Novaes Tostes, uma graça de mestra, sempre bem penteada (morava num prédio que tinha um salão embaixo – contara – por isso sempre com aquele coque de mechas pontual). Que professora era ela! Carinhosa, abraçava os alunos, cantava, desenhava, ria com seus meninos – afetos singulares eram os dela. Inesquecíveis, portanto.

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Depois, no 4º ano, apaixonou-se por Dona Aurora Rodrigues e foi tanto e tanto, que quis ir passar um fim de semana na casa dela. Foi mais de uma vez. Era distante. A mãe relutando, iria incomodar a mestra e tal. Chamava a professora de madrinha, pois queria que a crismasse. Dona  Aurora dava notas e vistos nos cadernos com AR – lembra-se bem. Primeira vez, era num pensionato que a professora morava, dormiu num beliche, tudo novidade. Até a falta de luz, comum naqueles tempos de racionamento de energia, era magia para jantarem numa mesa grande à luz de velas, ordinariamente poético. Meses depois, a professora, nascida no Espírito Santo e sem parentes ali, passou a morar num apartamento com mais uma amiga. A menina foi. A mestra tinha namorado. Foram os 3 ao cinema. O namorado comprou-lhe balas porque a menina não parava de prestar atenção no casal. Ciúmes, talvez, coisa de quem ama os outros, no caso a professora, madrinha fada do coração. Tantas experiências maiores de afeto, atenção, descobertas. Inesquecível, portanto.

Josemar Contage, professor de Ciências, primeiro amor da adolescência, 12 anos mais velho. 24 anos de experiência e a mocinha, deslumbrada por ele. Sempre afetuoso, preocupado com os alunos, participando das atividades extra-classe. Por isso, arrecadação de dinheiro para sua festa de aniversário, bolo, docinhos, refrigerantes, discurso, presente. Ufa, o que não faz o amor, mistura de admiração e reconhecimento. Anos mais tarde foi seu padrinho de formatura do curso normal. Já era mulher feita, embora menina-menina. Inesquecível, portanto.

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Antonio Cândido, José Miguel Wisnik, Décio Almeida Prado, Nelly Novaes Coelho, João Luiz Lafetá, Davi Arrigucci, Duílio Colombini, Neide Smolka, Haiganuch Sarian, Jaime Bruna e tantos outros na concretagem das edificações do conhecimento, ensinando a pesquisar, a usar de criticidade com as leituras, a comparar, a duvidar, a debater, a argumentar.

Tanto fez e se faz imprescindível a presença dos PROFESSORES em nossas vidas. Sim, porque temos muitas vidas diferentes a cada fase de nossa trajetória.

PROFESSORES são seres iluminados quer por seu CONHECIMENTO, quer por sua AFETIVIDADE, quer por sua PRESENÇA. E sem dúvida alguma, por tudo isso junto. Jamais poderão ser substituídos por máquinas, por maior que possa ser o repertório de informação que elas retenham. É preciso transformar informação em conhecimento. E isso só se faz pelo canal do AFETO, da ATENÇÃO, na INTERAÇÃO PROFESSOR-ALUNO.

Obrigada, queridos mestres!

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Leia também:

Professor, ontem e hoje; haverá amanhã?

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2016/10/15/professor-ontem-e-hoje-havera-amanha/

Caso se interesse: Há do lado direito outras categorias ligadas à EDUCAÇÃO:

Trabalhos realizados com alunos

Professores sempre

Clubinho da Leitura de Barbacena

Poesias e texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1- Canal Flip – Festa Literária Internacional de Paraty

2- Canal MANDABRAZA Moacir

Crianças: Zinho e Dandara, afeto e cia.

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EU, NÓS

Se ando e enxergo, maravilho-me
Se paro e contemplo, pulso
Se ardo em sensações, vivo.
Se estou numa fala num gesto num sorriso, continuo.
Se toco a dor humana, emano
Se acarinho a terra vermelha, sou.
Se tenho compaixão, ajo.
Se tenho ainda a emoção, levito.
Se ando e enxergo, maravilho-me

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DOAÇÃO

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não se doa
doe ação
faça, aconteça, integre-se
junte-se, misture-se, reparta-se
mire, olhe, enxergue
seja um
seja dez
seja mil
seja um
sejam dez
sejam mil
doar não é dar
doar é ser
HUMANO

ESTRADAS, RAMAIS, CAMINHOS

Aquele menino Zinho vinha com a avó para mais um dia de trabalho como doméstica, na casa do paraíso baiano. Tinha um ano e meio. O pai do menino havia sido morto por assaltantes enquanto fazia seu trabalho de vigia em uma construção civil à noite. A mãe o entregara para o pai, logo depois de nascido e desaparecera na vida. A avó passara a ter sua guarda então. Por isso não podia trabalhar mais no restaurante de comida baiana, precisava levar Zinho com ela. Assim começou a cozinhar em casa de família, o menino junto.

Era simpático demais. Encantou a todos da casa, uma comunidade de médicos, psicólogo, artista plástico, pedagogas. Passaram a lhe dar afeto e companhia, de tal forma que, risonho, aprendera a dançar com o grupo todo, a cantar e a gostar de ouvir histórias. Ficou filho da casa. Quando tiveram que se mudar para outro estado, a avó concedeu-lhes outra guarda porque o menino quis ir, e ela estava muito doente. Foi e teve excelente educação, cultura e afetos múltiplos. Uns tempos depois, foram com ele visitar a avó que estava muito mal, e ela agradeceu-lhes tudo que sempre fizeram por Zinho. Logo depois morreu.

O grupo de pais e mães de Zinho, sentiam que ele precisava de irmão, ou de irmã. Assim, ao voltarem para a Bahia, foram ao Juizado. Seu desejo era adotar uma criança. Seu colo estava repleto de amor. Aguardaram os procedimentos e quando foram chamados eram só alegria.

Uma menininha, ainda mais negra que Zinho, pequenininha, estava lá. Tinha poucos meses. Havia sido encontrada na beira da estrada Rio-Bahia, enrolada num cobertorzinho. Encantaram-se com ela. E logo foi possível adotá-la.

Registraram-na. Era já a Dandara. Cresceu com afeto e companhia, numa família com muitos membros e configurando uma nova forma de se amar e de se constituir. Cresceu. Às vezes, pelas madrugadas, levantava e ia, no escuro mesmo, à geladeira devorar tudo que poderia ser devorado. Outras vezes sentadinha, quietinha, enquanto todos conversavam, começava a chorar sem motivo algum, necessitando afagos, abraços, beijos e colo. Dandara sempre foi assim. Zinho era mais velho uns 6 anos e a protegia, cuidava dela, um amor lindo de irmãos.

Durante anos, a família, assim configurada, com pais e mães, todos bem claros, loiros, e até de olhos azuis, tinham que ser firmes em reuniões escolares, em grupos com vizinhos e em outras situações, posto que bem diferentes das duas crianças.

Zinho e Dandara viraram adultos. Zinho tornou-se um competente DJ. Dandara formou-se na área de hotelaria, casou, engravidou e foi abençoada com gêmeos: dois lindos meninos. São a alegria daquele montão de avós, de tios. São a felicidade. Todos com tons diferentes de pele , características físicas diferentes e um AMOR MAIOR.

 

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Poesias e crônica: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal aviencloud

 

Crianças: Francisca Stefane

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HUMANO

caminha
encontra, atende, ampara, acolhe
reparte, acarinha, ouve
socorre, ensina, auxilia
doa-se, pertence, assemelha-se
sofre, chora, cura
alegra, ri, cura-se
bebe em comunhão
come em comunhão
ama em comunhão
ser comum
ser coletivo
ser humano

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SONHOS

Sendo assim menina falante, galante qual minhas meninas,
também eu, sonho como elas.
Sendo assim aventureira e valente como meus meninos,
também eu, sonho como eles
Sendo assim livre, criativa e desafiadora como todos eles,
também eu, me permito ser feliz como eles.

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JUNTANDO PEDAÇOS

Estão indo para escola municipal. Raphael tem 10 anos e Francisca Stefane, 12. Manda o irmão entrar, enquanto vai comprar balas e chicletes na vendinha de garagem, pelas grades, em frente à escola. O menino segue. Ela, não.

Não lhe chamassem de Francisca, odiava o seu primeiro nome; na chamada já na primeira aula advertia os professores me chame de Stefane. Era uma garotinha meio ressabiada, falava pouco, mas tinha em si uma certa agressividade gratuita com professores e colegas. E usava batom. Quase muda na escola passara há poucas semanas a faltar nas aulas.

Os professores com menor número de aulas semanais nem se davam conta de suas ausências, mas quem ia mais vezes à classe passou a notar sua falta constante, até em avaliações, apresentações de trabalhos em grupos … Comunicou à coordenação e à direção. Será que a família sabia das faltas, porque o irmão mais novo não era faltoso e de nada estava sabendo, informou quando perguntado.

Pela experiência, professores pressentiam que ali havia um problema. E dos graves.

A mãe foi chamada. Disse o pai é muito rígido, evangélico, Deus me livre se souber disso. Contou também que todos os dias dava um dinheirinho a ela pra comprar doces e balas, como fazia com o filho mais novo e voltavam juntos da escola. Onde então Stefane está indo e gastando o dinheiro, quis saber.

Ficou combinado que ela se responsabilizaria pela filha, descobriria onde estava indo e a traria de volta à escola, caso contrário o Conselho Tutelar é que cuidaria da questão, porque já fora acionado, inclusive.

Dessa forma, a mãe teve que agir, sob pena de se ver interpelada pelo Conselho Tutelar. A direção da escola se manteve firme, bem como os professores.

A mãe então seguiu a menina. Ela usava o dinheiro recebido para pagar a passagem de ônibus. Ia, todas as tardes, a uma casa onde funcionava uma zona de meretrício. As mulheres lá, semi-nuas, a deixavam entrar, e ela lavava louça, limpava o chão, tudo para pagar o que pedira Eu quero ver os homens transarem com vocês. E via. Tinha prazer naquilo – respondeu à mãe que narrou sem muitos detalhes à diretora a sequência dos fatos investigados por ela. Ou fora a diretora da escola que achou mais ético não revelar todos os pormenores aos professores.

Francisca Stefane voltou para a escola uns meses depois, mas já havia perdido o ano.

A menina tinha apenas 12 anos.

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RECADO: Cada um enfrenta as dores sociais a seu modo: uns matam, uns morrem, uns gozam a vida –  mas gritam nas redes sociais – uns cantam, outros versejam …

Viva, viva Roger Waters em turnê pelo Brasil. Valeu !

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Poesias e crônica: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal Luís felipe Lamberti