Perguntas e respostas: 2019

MULHER, DIARIAMENTE

Não está vendo ali?
É uma mulher.

Tem cheiro de mulher
Tem jinga de mulher
Tem sorriso visguento de mulher
Tem redondos e doces de mulher

Não está vendo ali?
É uma mulher.

Chora aos baldes como mulher
Ensina aos ventos e tempos como mulher
Arremata discursos com exclamações sem vírgulas como mulher
Cuida de seres animais, vegetais e humanos como mulher.

Não está vendo ali?
É uma mulher.

Enfeita o cenário
Compõe a moldura
Derrama tintas
E socorre feridas.

Não está vendo ali?
É uma mulher.

Depois de um encontro presencial com a escritora Marina Colasanti, em 2018 quando, em uma performance inteligente, fazia perguntas e ela mesma as respondia, e tendo assistido a um vídeo, no Youtube, com a última entrevista de Clarice Lispector, imaginei conceder uma entrevista a mim mesma. Afinal, todos temos o que dizer, sejamos escritores publicados e famosos ou não, não é mesmo?

Pergunta: Qual a trilha sonora da sua vida?

Resposta: Nessa ordem cronológica: Beatles, Roberto Carlos, Chico Buarque, Caetano,Villa Lobos e muitos eruditos medievais, renascentistas, barrocos …

P: Como foi seu processo de escrita, de criação, desde quando isso aconteceu?

R: Ah, desde os 10 anos fazia as redações da escola pra mim e pra mais uns 5 ou 6. E fui mudando o estilo na escrita, afinal as professoras não poderiam reconhecer meu jeito de escrever. Com isso, lucrei muito porque para um mesmo tema, eu criava diversos desenvolvimentos, era um exercício e tanto. E naquele momento, não tinha claro essa coisa de ”cola”, fraude escolar, nada disso. Gostava de ser lida, ser elogiada. A nota era o de menos. Às vezes as redações deles tinham notas superiores às escritas por mim, com meu ortônimo – digamos assim. Eu achava até divertido aquilo.

P: Qual a temática dos seus escritos? Prefere, acha mais simples, a poesia ou a prosa?

R: Não sei escrever mentindo. Escrever poesias não é simples, pelo menos pra mim. É preciso estar envolta em uma grande carga emotiva. A emoção estética é essencial para meus versos. Ela nasce, brota de um sentimento verdadeiro de amor, ódio, repulsa, compaixão, dor. Já a prosa flui mais naturalmente – creio que é porque eu seja muito faladeira, goste de prosear, coisa quase desaprendida atualmente. Percebo que ninguém quer falar mais, nem ao telefone. Só escrevendo, só resumindo, reduzindo tudo. Parece um tempo de esconderijos de todas as emoções, sensações. Meus temas dizem respeito àquilo que vivo e ao que vivem os que conheço ou conheci. Fabulo um pouco, por exemplo, quanto às características das personagens – muitas vezes colocando em uma as cores de muitas – mas escrevo de forma muito mais realista do que gostaria até.

P: Como assim, não gostaria de ser realista? Isso é um problema?

R: Ah, sim. ”Qualquer semelhança terá sido mera coincidência”, sabe? Pois é, às vezes os envolvidos se reconhecem no que escrevo e se surpreendem, ou não gostam ou ficam lisonjeados demais etc. Mas creio que faça parte. Todos aqueles que conviveram com cronistas, romancistas, poetas, acabarão se reconhecendo um pouco, ou muito, em seus escritos. Poderão até sentir-se musas inspiradoras de suas letras.

P: Sua inspiração está mais nos humanos ou na natureza, nos animais, nas pedras, nas nuvens … o que rende poesia e por quê?

R: Ah, gosto de gente. Mas de gente verdadeira no caráter, na explicitação de sua espécie. Seja um bom ou um mau caráter, mas transparente, sem cabotinismos, porque na verdade, a meu ver, não se expor revela medo, ou já haver sofrido experiências muito ruins ao ser explícito, ter sido ridicularizado, menosprezado etc. ou por não ter personalidade e viver se adaptando em forma e conteúdo aos ambientes aos habitats, por sobrevivência. Aí é muito ruim porque nunca se sabe com quem se está lidando, são muitas as máscaras. Faz lembrar aquele filme de Woody Allen, Zelig. Minha poesia nasce dos aspectos que vivencio, sejam eles com gente ou com a natureza.

P: Desses aspectos da natureza que são matéria-prima para sua poesia, quais os mais inspiradores?

R: Gosto de rios, lagos, cachoeiras e de mato. Também gosto de mar, mas como nasci, cresci e vivi em algumas cidades de mar, não me encanta mais. Do alto, gosto de olhar a imensidão do mar, mas não mais as praias repletas de turistas, ambulantes, gritarias. Já gostei disso, das turmas de amigos, das risadas, das cervejas e das caipirinhas à beira-mar. Hoje prefiro a tranquilidade dos bem-te-vis e das maritacas. Pra escrever quero solidão. Aliás dizem que todo poeta, escritor é solitário. Pode ser. Outra coisa, por temperamento, nunca pergunto a outros o que acharam do que escrevi, do que eu fiz. Não tenho esse interesse. Se alguém se manifesta, ouço, aceito, contesto, complemento, mas nunca tive essa necessidade de saber o que o outro está pensando de mim, do que escrevo. Porque escrevo e ponto. Creio que seja por isso.

P: Como vê os jovens escrevendo muito pelo twitter, pelas redes sociais em geral? Acredita que leiam também, na mesma proporção em que escrevem?

R: Vejo com certa tristeza a utilização de plataformas e ferramentas tão abrangentes estarem sendo sucateadas da forma que estão. Jovens leem pouco, gostam de mensagens curtas, de fácil digestão. E seguem o efeito manada, aí são compartilhadas as maiores torpezas, barbaridades, como verdades, como gracejos etc. Faz um tempo, uns 10 anos, entrei para o twitter, a fim de ler e observar seu conteúdo, temas, linguagens. Na época com apenas 140 caracteres. Dei um curso em SP sobre isso ”Do telegrama ao twitter, como estão escrevendo nossos alunos”. Depois não mais usei a tal rede social. Só leio alguns T e RT e estranho. Faz umas 2 semanas, uma jovem, filha de um primo, me alertou sobre um T. público e fui ler. A mocinha ridicularizava o amor de uma mulher por seu tio, debochando e mencionando uma carta que a tal mulher havia escrito, e ele nem sequer havia lido. E ria disso, escrevia abreviações de interjeições pouco delicadas etc. Priscila – que conhece a família e fora amiga de uma das moças quando aqui vivera – ficou chocada com o uso da vida alheia exposta daquela forma e, como sabe que me interesso por esses temas, me mostrou. É disso que tenho receio. Uma ferramenta, como o twitter, que pode ser usada para se ensinar a técnica do resumo, a mensagem mais sucinta, estar sendo usada para difamar e menosprezar pessoas. É muito sério. E a leitura tem ficado pra trás sim. Leem textos engraçados, memes, críticas e comentários sobre séries americanas e campanhas sociais de amplitude mundial, mas não leem o que precisariam, por exemplo.

P: O que precisariam ler hoje? Escreveriam melhor se lessem mais?

R: Ítalo Calvino tem um livro muito útil e claro ”Por que ler os clássicos?”, no qual expõe a necessidade de se ler quem escreveu sobre temas universais. É preciso, contudo, que haja sempre, ou pelo menos no início, um mediador de leitura. Isso propiciaria intervenção, discussão e progressos nas leituras. Clássicos fazem as pessoas crescerem, se humanizarem, tornam-nas mais verdadeiras, de carne e osso. Muitas vezes os exemplos a que os jovens estão sujeitos em família, na sociedade não são os mais úteis à sua formação. Quanto mais se lê, mais se compreende a vida, as relações entre as pessoas. Quem lê muito não necessariamente escreverá – há devoradores de livros que nunca quiseram escrever. Mas, seguramente, quem escreve bem leu muito. E há os intuitivos, os auto-didatas, que sem formação acadêmica – às vezes apenas semi-alfabetizados – produzem obras-primas de literatura, letras de canções, cordel. De tudo se vê.

P: Qual a sua rotina para escrever, em que períodos do dia, com que frequência? Vê-se obrigada a escrever?

R: Já houve épocas em que escrevia mais à noite. Hoje, prefiro as manhãs. Escrevo todos os dias. Guardo muita coisa. Escrevo só pra mim. Tempos depois se desejar, aí reescrevo, publico etc. Escrita é confessionário pra mim. Não costumo acumular mágoas, decepções a sete chaves. Abro o verbo na escrita ou na fala. As pessoas, em geral, não são assim. Engolem na frente e depois falam por trás e, na hipocrisia, vai-se vivendo socialmente. Confesso que sou meio difícil de ser engolida porque não compactuo com essa forma de conviver. Por aqui costumam me dizer ”Mas tem que ser assim, minha filha, todo mundo faz assim”. Discordo. Aí, escrevo. Por essa razão me vejo sim obrigada a escrever, caso contrário enlouqueceria rapidinho. Certa vez o mineiro Fernando Sabino me disse isso pessoalmente ”se não escrevesse, enlouqueceria, é a minha psicanálise”. Nunca pensei que viria a pensar exatamente igual. Mas penso.

P: O que traz mais motivação para escrever a felicidade ou a infelicidade? Dizem que ostras que sofrem, que têm areia, é que produzem pérolas, não é?

R: Não sei. Prefiro as felicidades. As alegrias são musas inspiradoras. Estar amando, ser amada, ser surpreendida por uma mensagem de amor, por uma atitude inesperada de amor, por um abraço apertado, por um poema, por um beijo na boca apaixonado são condimentos essenciais. Além do nascer e do poente do sol nas estradas, nos lagos e cachoeiras. As flores se abrindo, aos poucos, as árvores sem folhas e depois completamente escandalosas (como dizem por aqui), o galo que canta com o outro uma sinfonia completa todas as manhãs, a chuva que cai forte, o trem que apita 3 vezes ao dia, as maritacas e os bem-te-vis namorando auroras e crepúsculos, tudo isso é poético por excelência. Pelo menos pra mim.

P: Nunca pensou em publicar em livro o que escreve? Não seria melhor para ter tudo reunido em um só lugar, visto que seus escritos estão espalhados por muitos lugares?

R: Já pensei, nos anos de 1990. Trabalhava como leitora crítica de obras infantis e infanto-juvenis para uma editora, mas entendi o mecanismo de todas elas e desisti. Depois, quando escrevi coleção de didáticos de língua portuguesa para outra e percebi a forma de remuneração instaurada por elas, advinda de outras europeias, desisti. Fato é que gosto é de escrever. E, ocasionalmente, de ser lida. Ademais, enviei a um ”editor” todos os meus poemas em um pen-drive e os tive devolvidos via correio. De forma que não aspiro a ser publicada mais.

P: No momento, sente inspiração para escrever num país tão dilacerado como se encontra o nosso?

R: Pois é o que me salva. E o amor. A gente, depois dos 60, crê que não vai mais amar, né, mas ama. E é diferente. É pra sempre, é definitivo. Talvez porque o próprio destino escreva isso pra ser assim. Então, amar abastece a vida, os versos, a escrita. É MUITO BOM AMAR.

Poesia e texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal Música

”Viver não é preciso”

CARTAS DE NAVEGAÇÃO

Nos anos oitenta
em alto-mar segue a nau
enlouquece a nau
imprecisa
sem rota nem rumo
segue a nau
navegar é preciso
segue a nau
respira por aparelhos
sorve oxigênio das entranhas
viver é impreciso
preciso é viver
respira a sobrevivência
sorve oxigênio nas nuvens
anos e anos em alto-mar

EM OUTROS MARES

risca rabisca desenha esculpe
massa maleável
cores frescas
mapas de fácil navegação
mares arquetípicos 
com sal na pele
mares doces
ondas frescas
praia dourada
mares de retornos fáceis
sem acidentes 
com cartas náuticas favoráveis
navegação sob controle
viver é preciso
navegar é preciso
mar azul

PRECISÃO & IMPRECISÃO

cabelos molhados de cloro
ondulados e cacheados de meninices
bebe água de coco
ouve heavy metal
navega cavalga sabe
mares precisos
unhas no pescoço
dentes no umbigo
navega cavalga sabe
imprecisão de amanhãs
precisão nos hojes
navegar é preciso
viver é preciso
risos-gargalhadas
navegantes nas estrelas
navegantes em tempos e espaços
presente preciso
futuro impreciso
navegar

NECESSIDADE ~ PRECISÃO

olho ao redor
é pouco
olho com luneta
é longe
olho da gávea
mastro erguido
é mais distante
brinco de sonhar
é perto
roço toco vibro
estou nele
sobre ele
sob ele
com as mãos nele
com os lábios nele
com os dentes nele
com flor e nau
com mastro e flor
sinto cheiro de mar
sinto cheiro de amar
sinto a precisão em navegar
sinto a semelhança
necessidade e precisão
estou no leme
estou a bombordo
sou polpa e proa
sou casco
Estou aqui

Com os belos versos de Marina Lima, sigamos.
Para navegar pode existir certa precisão, certa exatidão. Mas VIVER não é exato. Nunca foi.

2019 será para OS FORTES.

Eu estou aqui, disposta a VIVÊ-LO, até porque pode ser o ÚLTIMO. Sempre PODE SER.

Poesias: Odonir Oliveira

Vídeos:

1- 3- Canal Israel Lee

2- Canal George Kaplan

4- Canal Joao Caiman

Todos os verdes

MEU QUINTAL

meus pássaros cúmplices
meus pássaros cúmplices
me trouxeram as sementes
me enfeitaram o quintal
árvores que vi crescer
árvores que vi brilharem
árvores
árvores
árvores
belezas que vi resplandecer
no meu quintal
pertinho de mim
chegando juntinho de mim
árvores que semeei
árvores que encontrei
flores que chegaram
sem que eu pudesse 
por elas nada fazer
nada impedir
nada coibir
só vê-las em seu resplandecer

COLEÇÃO DE PEDRAS

caminho olhando o chão
caminho sentindo os céus
caminho recolhendo pedras
pedras que encontro
pedras que escolho
pedras que me sustentam
sou edificação de cores várias
entorno minhas pedras rudes
acaricio cada uma
encantada com sua textura
agradecida por sua cor
extasiada com sua forma
tenho-as de minhas veredas
tenho-as de meu chão
tenho-as de minhas idas e vindas
sou pedra e mulher

BOCA VERMELHA

Resolvi pintar minha boca de vermelho
porque tenho cabelos despenteados
olhos tristes
sorrisos recolhidos
letras de frases benditas
letras de frases mal ditas
letras de frases escondidas

Resolvi pintar minha boca de vermelho
porque sou frágil como aquele tom
porque sou débil como aquele som
porque sou frasco vazio de aromas uns

Resolvi pintar minha boca de vermelho
porque sou uma e outra
encontro e perco
olho e não vejo
vejo sem olhar

Então, resolvi pintar minha boca de vermelho.

DIA DA CRIAÇÃO 

O chão a terra o céu
elementos primeiros
elementos sólidos
alimentos físicos.

A palavra a voz a vez
elementos seguintes
elementos consoantes
alimentos constantes.

A luz a cor a pele
do gosto do molho do dorso
encantamentos de elementos
encantamentos em tempos
encantamentos em espaços.
Passos

vozes internas em cores
vozes internas em versos

Poesias: Odonir Oliveira

Vídeos: Facebook de Odonir Araujo

(Não façam críticas aos vídeos de modesta produção, ok. São exercícios de aprendizagens, mas o que vale é a intenção. E essa é muito boa, eu garanto)

De bailarinas e anjos

BALLET

As aulas gratuitas na escola
a sapatilha e os oito anos
a música na vitrolinha
a professora ensina os passos
ponta, só mais tarde
magricela menina
ergue os bracinhos
faz cara séria e se esforça
quer dançar apenas
quer vestir-se de bailarina apenas
quer rodopiar apenas
a professora marca com palmas

Na festa de apresentação
aniversário da outra professora
a menina em vestido de crepom branco
arruma os bracinhos magros
estica as perninhas magras
prepara-se para o solo encenação
”Sobre as ondas”
a vitrolinha não funciona
a professora cheia de ternuras
não sabendo o que fazer
a menina bracinhos no alto
aguarda em plié
depois em tendu, em frappé
sem solução
as amiguinhas começam
a cantar a canção
a menina bailarina evolui
se esmera
era o seu jeté
um verdadeiro grand jeté

(Esses versos foram escritos há meses. Ocorre que não me recordava da música. Hoje cedo ao ouvi-la, soube que era ela, então)

Paróquia de Nossa Senhora das Graças, Xerém, RJ

ANJINHOS DE PROCISSÃO

Mãe mineira tem que ensinar a tradição. Se vai se vestir de anjinho, que seja como manda o figurino. Tem que ser de cetim branco com estrelinhas na cor de prata, bem como todos os outros bordados da túnica. Asas? Nada de papel crepom, tem que ser de penas de pato e de patos mineiros, ora se não.

Vestir-me de anjo era uma delícia. Não me lembro de meninos anjo. Não deveriam existir mesmo. Fato é que acompanhar as procissões, vestida de anjo era o máximo. Isso aos 8, 9 anos, entoando aqueles hinos todos, controlando a vela pra que não pingasse na mão (bobagem, era bacana que pingasse, pra ver o quanto cada um suportaria, em desafio). Tudo novidade.

Anjinhos em procissão de Ouro Preto, MG

Depois, em maio, era a vez da coroação de Nossa Senhora das Graças. Cada ano era uma quem a coroava. Eu não tinha mãe beata a influenciar nas escolhas, nunca a coroei. Mas bem que gostaria de ter coroado a mãe de Deus. Devagarinho, ao som do solo da Maria Clara, que tinha uma voz linda, e todos os anos era quem cantava. Bem que naquele tempo eu gostaria.

Poesia e texto: Odonir Oliveira

Imagens retiradas da Internet

Vídeos:

1- Canal jose carlos Mendona

2- Canal LojaLazer

3- Canal Totus Virgo Mariae

CONQUISTA III

Feliz aniversário com o WordPress.com!

Você registrou-se no WordPress.com há 3 anos!

Obrigado por nos escolher. Continue assim!

Flui a vida como água,
como água se renova.
Se a vida me foge, afago-a
em cada esperança nova.

Drummond

SALVE TODOS OS ENCONTROS E REENCONTROS PELA VIDA !

SIGAMOS NA VIDA !

Vídeo: Canal Bárbara Eugênia

Foto de arquivo pessoal

Amor até o nosso fim


E tem quem se admire de um amor assim.
Talvez porque NÃO saiba o que é amar



DO AMOR INCONDICIONAL

Amar uma animalzinho, cuidar dele quando é novinho, quando enfeita a sala, quando é de porte miúdo, quando tudo com ele vai bem é uma delícia. Cães, por exemplo, são tão agradecidos … dê-lhes água, comida, teto, carinho, atenção e serão de uma fidelidade incomum. Rosnam – e chegam a morder até – a tudo que ameace seus entes queridos. Seu olfato e sua audição são muito fieis. E sorriem também, porque cães sorriem de muitas formas, com as mandíbulas expondo dentes, com a língua esbaforida e pendente, com a cauda em rotação acelerada. Cães são ”o bicho”.

O sentido de amar é absorvente. Há quem critique o amor por um animalzinho. Declaram que aquilo tudo poderia estar sendo entregue a uma criança carente, a um ser humano, condenam gastos com veterinários, remédios, cuidados em geral. Há esses que se manifestem assim.

Cuidar de um cadela por 16 anos é um aprendizado constante. De todas as minhas, (sempre preferi adotar fêmeas, a gente se entende melhor) Luna é a que resiste mais tempo. Talvez porque eu tenha mais tempo agora a lhe dedicar, aposentada e tal. Talvez porque eu seja sua fada madrinha, que foi abandonada numa margem de estrada com seus irmãos e, colhidos por uma veterinária, expostos e postos para doação, cheios de problemas de pele etc. foram adotados. Os machos, todos os quiseram e os levaram. As duas fêmeas restaram. É, restaram. Eu e meu irmão carioca as quisemos. Levou de São Paulo a dele, depois de meus cuidados, vermifugação, vacinação etc. (Aprendi tudo isso com amigo veterinário, quando nos anos 80 tive duas cadelas que tiveram crias ao mesmo tempo: 11 filhotinhos; minha filha sempre amou animais, cães em especial. Mudou-se faz um tempo pro Canadá com seu whippet, no colo no avião). Luna está cega, diabética, teve todos os problemas dermatológicos resultantes das minhas viagens com ela e das diversas moradas em que estivemos nesses 16 anos. Aprendi tanto com ela !

Há dias em que, fraca, não consegue se erguer. Tenho que mantê-la de pé para que faça suas necessárias ações. Se mais forte, depois da ração especial e da insulina (aplico-lhe duas vezes ao dia), consegue descer escadas, ir pra rua, caminhar, cheirar, passear, sentir-se viva. Não consegue mais se defender, isso tenho que fazer por ela, visto que só percebe perigos pelo olfato próximo e por minhas expressões repetitivas, quase mantras, para sua orientação. Aprendi tanto com ela!

Ontem a lua cheia atraiu Luna
na madrugada foi ao quintal
de lá não conseguia se erguer
sussurrou uns reclamos
fui socorrê-la e trazê-la de volta
E o quintal era uma LUZ ENORME

Amar um animal pequetito, criança, saudável, todos querem, todos adotam, mas talvez não avaliem o que virá com o tempo: os cuidados, o acompanhamento, o conhecimento, o tempo envolvido. Amar é um aprendizado constante. Com gente também.
Aprendi tanto com ela !


Cena de Cría Cuervos, filme de 1976, dirigido por Carlos Saura

VISÃO OBTUSA E OBLÍQUA DO AMOR

Crianças e adolescentes podem sim ser cruéis. Talvez menos por sua própria responsabilidade, mas pelas ideias e exemplos que lhes são expostos, que lhes são apresentados como os melhores, mais produtivos etc.

Presenciei outro dia um escracho público, um deboche cruel de uma mocinha de uns 15, 16 anos a uma outra mulher. Embora fosse incitada a responder, preferi dizer que não tinha nada a acrescentar, naquele momento. Lido com adolescentes faz décadas, sei de sua onipotência, de seus exageros de julgamento e de seus sofrimentos por causas, por heróis, por ídolos etc. Sempre os orientei a respeitar o amor de outro por eles, transformar aquilo em amizade, quando não correspondido, e tudo o mais. Tudo isso muda, vem com a vivência de situações semelhantes ou, exatamente, iguais àquelas as quais criticaram, ironizaram, menosprezaram. Às vezes, lembram-se de suas ações anteriores e passam a reavaliar o que fizeram, se retratam. Outras vezes, não.

Vejo e leio jovenzinhas tão defensoras das causas feministas, solidárias aos animaizinhos, aos humanos de diversas identidades sexuais, mas apenas no discurso. Saibam, jovens, SOMOS NOSSAS INCOERÊNCIAS. Não acreditem fielmente em um lado apenas da história, das histórias que lhes contam a família, a igreja, as séries de TV. Vivam. E às mocinhas, NÃO debochem do amor de outras mulheres, apenas porque não é IDÊNTICO ao que vocês sentem por seus ficantes, peguetes, namoridos e crushs.  

Tudo tem seu tempo. Não reproduzam as ”verdades” ouvidas por adultos próximos e as exponham pra todo mundo ouvir, ler, sob pena de se tornarem ridícul@s. Criem as suas próprias. O deboche a um sentimento de AMOR de outros pode ser cruel e fatal. Não defendem tanto aqueles que sofrem bullying em escolas etc. – alguns chegando ao suicídio – pois então, cuidado, podem vocês estar sendo agentes do mesmo bullying social. Tenham compaixão do outro. Não é PENA. Compaixão é algo maior.

Sugestão a quem tem poucos anos de vivências, leiam. As obras literárias: romances, contos, poemas podem ensinar muito sobre os seres humanos, suas formas de amar, e fazer vocês jovens aprenderem a respeitar os sentimentos e as dores alheias. Filmes de Saura, Almodóvar e tantos outros ajudam também. É um exercício. O resto é onipotência, prepotência e falta de humanidade.

Amar é um aprendizado constante. Com gente também.
Aprendi tanto com a Luna !

Pra vocês, minhas amigas Angelita e Salete que passaram por perdas de seus animaizinhos recentemente.

Texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1- Canal Pancho Vertigem

2- Facebook de Odonir Araujo

Acervo de afetividades

TEMPOS DE DELICADEZAS I
O feijão e o sonho

Meu pai era o sonho, a utopia de um país melhor, das ações coletivas. Minha mãe era o feijão, o concreto.Tinha estilo a minha velha, falava palavras em francês (por influência das décadas em que viveu no Rio e lá se cultuava o francês), Gostava de fazer pratinhos especiais que copiava das receitas das revistas. Meu pai apreciava era o trivial mineiro mesmo, o resto era frivolidade.

Minha mãe acreditava que as filhas, em especial, tinham que estudar, trabalhar e não depender de dinheiro de homem. Queria muito ter podido continuar a estudar no Colégio Imaculada, de Barbacena, onde as filhas de gente de dinheiro continuaram. Meu avô tinha padaria. Minha mãe ajudava a entregar pães cedinho. Nas casas das moças que continuaram a estudar no Colégio Imaculada.
Dona Itália orgulhava-se de eu ter estudado na USP, nunca ter precisado de homem pra custear minha vida. Admirava quando eu voltava, em feriados e férias no Rio e lhe contava das peças de teatro que vi, dos shows a que assisti. Levei-a vez ou outra. Mas achava teatro ”muito realista”, preferia os filmes e as novelas ”os atores são muito mais bonitos lá, Doni”.
Certa vez, ao me ver em sua cadeira de balanço acarinhando e amamentando minha pequenina Carla, ficou parada olhando, foi pra cozinha, voltou e disse ”Cadê seus teatros, seus shows, sua USP, seus livros de literatura, hem? Tá igualzinha a mim, fazendo as mesmas coisas, babando na cria”.
Disse a ela que eu era ela, uma outra ela, mas era ela.

MÃE, EU SOU VOCÊ ?

“Quem quer ser outra deixa de ser uma, mãe?”
“Quem quer ser outra é sempre outra e uma, filha.”
Aquela mulher era uma onça.
Parindo cinco filhotes de parto natural
Amamentando-lhes bocas por toda sua vida
Lavando, passando, cozinhando, costurando
Mãe mais que mulher?
Mulher bem maior que apenas mãe.
Dos ditos, sempre bem ditos, a sabedoria herdada do pai-avô por ventos mineiros.
Com olhar arqueólogo de almas, um chiste, uma picardia.
Ferro nos braços, nas pernas, no peito.
Coração de manteiga derretida e esconderijo de sentimentos.
Onça, minha onça mineira, eu também sou você, mãe?
Sou?

TEMPOS DE DELICADEZAS II
A distribuição dos presentes

Durante a década de 80, quando minha filha Carla era bem pequena, já em novembro começávamos a ”sessão do desapego material”, o aprendizado da doação. Separávamos bonecas, arrumávamos as peças dos joguinhos, as roupinhas das bonecas, os enfeitinhos – tudo com o que ela já havia brincado muito e podia dar a outras crianças. Limpávamos as carinhas das bonecas, lavávamos os ursinhos de pelúcia, consertávamos caixas de jogos com durex. Era uma FESTA. Nada podia estar estragado, afinal as crianças iriam ter que brincar com aquilo.Depois fazíamos pacotes de presentes com celofane colorido, lindos laços e íamos acumulando.

Na semana do Natal, bem próximo da data, saíamos distribuindo às crianças de rua, em casas de alvenaria, próximas, por viadutos. Ela sentia as ”perdas”, mas aprendia o sentido de doar.Fizemos isso por anos. Colocávamos no porta-malas e íamos parando e tirando aos poucos. Distribuíamos da janela. E as crianças às vezes diziam ”vou chamar meu irmão.” Ao que eu respondia, ”volto já”. E ia mais pra frente e retornava pouco depois com outro presente.

Era Natal GRANDÃO mesmo. E eram eles que NOS PRESENTEAVAM.

Na década de 90, quando MINHA MÃE FOI FICAR COMIGO em SP, o Natal chegando, ela viu a minha arrumação. Os brinquedos agora eram MASCULINOS, meu filho aprendeu a fazer o mesmo.Ganhou certa vez um GRANDE POSTO DE GASOLINA, com muitos elementos, pecinhas etc. Doamos o posto GRANDÃO. Fizemos grande pacote com celofane amarelo, para que a criança que o recebesse visse o que era.

MINHA MÃE quis ir junto. Meu Pedro abriu mão de ir, e ela foi, do meu lado no carro. ”Deixa eu ir, Doni, sempre quis fazer uma coisa assim, deixa”. Era um pouco perigoso porque quase não andava, usava a bengala, tinha o Parkinson … Fomos à noitinha. Repetimos o mesmo ritual – da zona oeste à zona sul, ruas, esquinas, viadutos.

Era Natal GRANDÃO mesmo. E eram eles que NOS PRESENTEAVAM.

OFERECIMENTO 

Veio dali
de onde menos se tinha
o sentido de presente
o sentido do presente.

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AMAR


TEMPOS DE DELICADEZAS III
Acidentes de percurso e anjos da guarda

Chove muito. É NOITE.
Vou naquele instante por uma entrada sinuosa, íngreme, escorregadia. É uma subida de rampa, para chegar a um equipamento cultural.
À frente, um fusca azul – seria mesmo azul – desce com 2 mulheres, e eu subo. Não me permitem subir, vão me forçando a voltar de ré. Faço-lhes sinal. Nada. Sei que tenho a preferência. Subida. Não se importam, não me deixam espaço para manobras sequer, cada vez mais próximas. Do lado esquerdo, muro de pedras; lado direito, um barranco de mais de 3 metros, coberto por gramíneas. Não distinguo, é NOITE. Volto, volto, volto. Fico presa apenas pelas rodas da frente, dependurada; as gramíneas me seguram.
Elas passam e reclamam, me chamam de mal-educada. Vão embora.
Ninguém passa por ali. Mantenho o carro com o freio de mão e com o pé no freio.
Chove. Temo escorregar no barro vermelho e as gramíneas não me segurarem mais.
Chamo por meu pai, por minha mãe, enterrados não muito longe daquele barranco. Chamo e choro. Ninguém passa por ali. Quanto tempo suportarei, não sei. Minha perna treme, meus braços tremem. Choro, sem forças pra descer o vidro e gritar por socorro.
Passa um motociclista vindo da mata. ( É um anjo. Fui atendida). Fica estarrecido com o perigo de um possível capotamento. Sai em busca de ajuda.
Retorna, molhado, com 2 agentes de trânsito. Impossível o socorro. Só com os bombeiros. Mais de uma hora do ocorrido, chegam e pedem que me mantenha calma. Mas é impossível. Não tenho mais forças para continuar no carro. Um deles calça as 2 rodas da frente, me pede para afastar o banco, posiciona-se como se sentasse no meu colo e substitui meu pé no freio. Outros 2 me amparam a sair do carro. Ao todo 5 homens seguram o carro e 1 o amarra no dos bombeiros.
Guincham-no, retiram-no, recolocam-no na rua pra mim. Anotam meus dados, fotografam a placa etc. Cuidam em verificar se estou me sentindo bem.
Agradeço a todos os anjos, principalmente àquele que chegou de moto pra buscar salvamento. Digo que irei ao Corpo de Bombeiros me manifestar por escrito. Agradecem o reconhecimento e seguem.

Escrevo isso para meus amigos no Facebook. E eles voltam a crer nos seres humanos. Principalmente porque uma semana depois, tocam a campainha. Vou à sacada e encontro o bombeiro, que me substituiu no carro, querendo saber se eu passava bem. Quase não acreditei, porque era noite, e no estado de pânico em que eu estava, não gravei nada de rostos, cores, minutos. Mas ele, sim.

Anjos existem. Eu encontrei 6 nessa noite de dezembro. Só não viu quem não quis ver.


Textos e poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo:
Canal Orquestra Paulistana de Viola Caipira