“Tudo métrica e rima e nunca dor”

SEM MÉTRICA NEM RIMA

Ah, meu Bandeira,

que com pórticos, estandartes, bandeiras, flâmulas

percorres meu corpo

desde a infância

quando eu namorava teus versos,

tão simplesmente

tão dolorosamente

tão profundamente.

Hoje estou neles

como uma noite.

Também.

Odonir Oliveira

Profundamente

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes, cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam, errantes

Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.

*

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.

Texto extraído do livro “Antologia Poética – Manuel Bandeira”, Editora Nova Fronteira – Rio de Janeiro, 2001, pág. 81.

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     Canal: luciano hortencio

Vídeo “O Quereres”- Canal: Victor Carvalho

Fotos de arquivo pessoal

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Sonho de um sonho

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REPÚBLICA NOVA

frente à lâmpada mágica

imploro encontrar

imploro reencontrar

imploro reconhecer

três pedidos a serem atendidos docemente

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A NAMORADEIRA

Encontro ali o bordado da mãe para o enxoval

à frente o pote de pedra sabão

para a banha que a avó derretia.

Natália bordava e crochetava

lindos paninhos

que ora encontro sob caldeirões, chaleiras …

escorre da boca um lirismo sem comparação em mim

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A MÃE E AS FILHAS

Ao lado da mãe passam a roupa as filhas

ao lado da mãe cozinham em caldeirões as filhas

ao lado da mãe costuram também as filhas

ao lado da mãe rezam os terços as filhas

ao lado da mãe seguem Adalgisa e Itália

Natália as observa.

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SONHOS DOCES

Há um pé solto que insinua passos a seguir

há um aparelho que comunica as notícias ruins mais do que as boas

há um relógio que marca o tempo implacável

há um tom de memória

de filme

de passado

de sonho

república mineira

no hoje que me acorda tantas lembranças.

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VER TAMBÉM: Edgar Morin

http://www.revistapazes.com/se-voce-viver-poeticamente-encontrara-felicidade-edgar-morin/

Canal: Fronteiras do pensamento

Versos: Odonir Oliveira

Vídeo Canal BATUKILIN BRASIL

Fotos de arquivo pessoal

Crônica de saudades

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Li por aí – não sei onde nem quando – que não se deve ficar revendo fotos do que passou, relembrando momentos do passado com antepassados já falecidos, não se pode ser saudosista, sob pena de não se aproveitar o momento presente etc. Nunca fora saudosista quando mais jovem. Depois dos 50, passei a ser. Sinto-me bem, relembrando fatos e imagens do que aconteceu. Consigo me lembrar de cada objeto que recebi de lembrança, principalmente de alunos e amigos, de cada foto que manuseio, onde foi tirada, quando foi, com quem eu estava. Faz muito bem, ainda, poder me lembrar. Penso que logo não me lembrarei mais, por isso escrever sobre isso é tão significativo.

Só tem lembranças quem viveu aqueles momentos. Chico Buarque diz “Os momentos bons e as horas más / que a memória coa …” é uma imagem precisa: só terá sentido o que a memória coou, reteve, manteve …

Quantos instantes preciosos em nós- mesmo os que vivemos só nós mesmos, sem contá-los a ninguém- fazem valer uma existência: quando na infância recebemos um presente, uma presença, um gosto, um perfume, um toque… tudo da infância precisa ficar registrado, primeiro em nós, depois para os que virão depois de nós e o narrarão aos que virão depois deles. É a história sendo vivida, cotidianamente.16178590_393943494286980_948026649927301750_o

Tenho saudade de meus pais, já não consigo mais ouvir a voz de minha mãe; a de meu pai só em DVD que vejo, vejo pra olhar pra ele, ouvi-lo, fechar meus olhos … como se ele estivesse sorrindo, ainda aqui.

Tenho saudades de minhas ingenuidades e credulidades juvenis. Eram elas que mantinham erguidas minhas esperanças, de toda ordem: as pessoais, as profissionais, as políticas e sociais, as sentimentais… gosto de me lembrar de como fui. Sinto saudades daquela que fui.16143861_393943757620287_5443625045124524437_o

Tenho saudades dos meus amores, que sempre os amei em verso e prosa. O romantismo das histórias lidas em meus clássicos, as poesias demoradamente degustadas, as músicas que ouvi, desde garota na Rádio JB no Rio; depois, as da Eldorado em São Paulo, não existia FM ainda…. todas elas decalcaram minha vida, aos poucos.

Tenho saudade da leitura diária dos jornais, no Rio, quando menina; em São Paulo, quando universitária. Tenho saudade dos shows gratuitos a que compareci, principalmente os de MPB, nos anos 80, naquela cidade. As peças de teatro, as mostras de arte e cinema, quantas fizeram de mim o que sou… o cinema, tantas vezes na sessão da meia-noite, pré-estreias famosas ou outras, com diretores e atores participando dos debates.

Quanta saudade tenho dos comícios de que participei na Praça da Sé, com minha filha ainda em um canguru, amarrada a mim, mas junto, ali, presente. 15626228_393943474286982_5754687577430221753_o

Tenho saudade dos meus arroubos amorosos todos: jardins feitos com as próprias mãos, repletos de amores-perfeitos, faixas e cartazes pela casa inteira, coletânea de versos, jantares e afins em domicílio pra pintar os céus de lirismo. Tenho saudade de quem eu fui.

Tenho saudade do sentimento que me invadia quando de festas de aniversário surpresa, presentes feitos por alunos, flores recebidas, demonstrações de afetividade de quem quer que fosse.

Tenho enorme saudade do momento em que, por duas vezes fui mãe, de quando ouvi meus filhos me avisarem “chegamos, mãe” e os amamentei por meses e meses. Tenho saudade de suas tosses, de suas febres, dos  carinhos sublimes em mim. Tenho saudade da sensação de ouvi-los falar as primeiras palavrinhas e de quando conseguiram andar. Tenho saudade daquelas sensações todas. Tenho porque as saboreei da fruta ao caroço, como as mangas de que tanto gosto. Todo esses sabores ainda os tenho em mim.

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Tenho saudade de uma outra que eu era, de uma outra que acreditava muito em amanhãs. Hoje não  posso mais ser assim. Chego a me admirar da felicidade miúda que vejo em pessoas que desejam muito pouco da vida – a maioria delas por alienação política, social ou até por certa escolha. Não posso ser assim, porque minha história de vida não me fez nem me faz assim.

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Tenho saudades sim, gosto de ver fotografias e de lembrar quem fui e quem sou.

A vida é um sopro”.  Escrevo enquanto consigo lembrar.

 

 

Texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal: Light Bearer

Cortejo

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CORTEJO I

São eles

sigo o cortejo

bebo acordes

nada sei ler no que cantam

sei que sigo o cortejo

tenho doze anos

o sol insiste em vir

a lua de céu estrelado

o junho frio de estrelas piscantes

sigo o cortejo

são eles

espalham um perfume mágico

em meus ouvidos

são eles quatro

sigo o cortejo.

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CORTEJO II

Enamorada da lua

sou algodão pousado

sou um colchão de açúcares fluidos

sou leve sob

sou leve sobre

sou no séquito uma

sou um som em eco

tenho vinte e quatro anos

sou um acorde adocicado

sou um suspiro no crepúsculo

sou um grito ao alvorecer

sigo o cortejo.

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CORTEJO III

Incrédula de paisagens

olho o mato 

mudo-me para perto do mato

acordo no meio do mato e dos passarinhos

tenho trinta e quatro anos

um séquito como companhia

crianças como escolta

procissão de novidades

comitiva de sucesso profissional

ramalhetes, braçadas, brilho

estou no amanhecer

sigo o cortejo.

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CORTEJO IV

Sigo o mestre

faço o que o mestre mandar

sigo  e cortejo o mestre

cortejo sua chegada na livraria

cortejo seu gosto musical

cortejo seu espírito de porco

tenho sessenta anos

cortejo um novo horizonte

cortejo o entardecer da existência

cortejo o mato

cortejo as estrelas

cortejo os montes

cortejo sangue em derrama

cortejo vinho em copo 

cortejo céu de friagem

cortejo rosas e árvores 

abraço árvores

abraço rios

abraço becos e ruelas

nada de avenidas largas mais

nada de altaneiras edificações

nada de viadutos canhestros

sigo o cortejo.

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Poemas: Odonir Oliveira

Fotos de céus de São Paulo, por Luiz de Campos Jr

Vídeos: Canal Flaviano Silva

Apresentação da Orquestra Ouro Preto em concerto especial com músicas dos Beatles. Gravado na Casa da Ópera Teatro Municipal de Ouro Preto no dia 21 de dezembro de 2010. Regência do Maestro Rodrigo Toffolo, arranjos de Mateus Freire.

Acesse http://www.orquestraouropreto.com.br

Grafites de pele

MURAIS

Escrevi seus nomes

nos pelos internos

raspei seus sobrenomes todos

rasguei suas algemas grossas

derreti suas pedras de gelo seco

entornei tonéis de bile ao amanhecer

debulhei suas espigas com meus dedos vorazes

Sou eu nesse mural.

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POESIA PÚBLICA

Margeio as calçadas

são guias de água de sarjeta

entregues

escorridas

pútridas

cegas

mofadas

são rios de restos, de ratos, de rostos

Nos postes um lambe-lambe

de vísceras

de engasgos

de vômitos

de escuros penhores engolidos a seco.

Caixas, pacotes, teclas, sons

publicamente poéticos.

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RUPESTRES

Desafio teu pincel máquina

desafio teu rolo branco-creme

desafio teu sentir nada

desafio tua broxa-brocha  no viver

desafio tua mordaça

desafio tuas algemas

desafio teus clichês

desafio tua história dos vencedores

desafio tua guilhotina

desafio teu megafone

Sou garganta

sou dedos coloridos

sou mãos que marcam

sou mãos que sentem

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EM CARTAZ

Nunca

beijei

tua boca

nunca segurei

tuas mãos

nunca

bebi

no teu colo

nunca

sentei

no teu copo

nunca

colei

na tua pele

nunca

flagrei

tuas traições

nunca

vi

teus odores

nunca

lambi

tuas escaras

nunca

fui dentro e fora de ti

Nunca

é um advérbio de tempos !

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Poemas: Odonir Oliveira

Vídeos: Canal JB Jazz Blues House The Club

Grafites de Belo Horizonte, MG, em: https://www.facebook.com/grafitesbh

Textos de lambe-lambe em:  https://www.facebook.com/pichacoess/?pnref=story

Clubinho da leitura de Barbacena, integração e função social

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Canal Orquestra Ouro Preto

 

DURANTE OS ANOS DE 2014, 2015 e 2016, as crianças e pré-adolescentes do Clubinho da leitura viveram ações de integração com a comunidade. Algumas delas usufruindo de experiências e de equipamentos culturais e outras vezes cumprindo a tarefa de divulgação da importância da leitura e das diversas linguagens culturais pelo bairro do Carmo, em Barbacena, Minas Gerais.

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Em abril de 2014, poucos meses após o início das atividades do Clubinho da leitura, fizemos uma apresentação para os pais, em um lindo sábado de sol. Nesse dia eram as crianças que explicavam o que afinal era um Clubinho da leitura, por que recebera o nome de “Plácido José de Oliveira”, que ações eram desenvolvidas ali- para isso declamaram poesias com seus pais, fizeram história oral coletiva com o bonequinho verde, o Mineirinho, vestiram-se e desfilaram com suas fantasias, leram histórias para os convidados… Fiquei quase calada, porque eram eles os mestres de cerimônia naquela tarde.

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Em agosto de 2015, fomos juntos ao teatro na ESTAÇÃO PONTO DE PARTIDA, assistir ao espetáculo  de marionetes MUSICIRCUS, da Cia. Navegante. Nunca haviam ido a um teatro.

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PRODUZINDO TEXTOS DE AGRADECIMENTO POR DOAÇÕES DE LIVROS VINDAS DO RJ, SP, MG

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Canal: Estrela Leminski

ALGUMAS VEZES FOMOS AO CINEMA NO SHOPPING ASSISTIR A FILMES, ANDAR NA ESCADA ROLANTE E VER VITRINES TAMBÉM

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DIVULGANDO O CLUBINHO DA LEITURA NO POSTO DE SAÚDE DO BAIRRO. DISTRIBUIÇÃO DE FILIPETAS E EXPLICAÇÕES: “É de graça, viu “.

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FIZEMOS UMA CAMPANHA PELAS CASAS E PELAS LOJAS COMERCIAIS DIVULGANDO OS LIVROS QUE CADA UM HAVIA MAIS GOSTADO DE LER E O PORQUÊ

Levamos os livros e bandeirolas de publicidade de cada livro feitas por eles mesmos

FOMOS AO CIRCO

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FOMOS À “VIVENDA DOS OLIVEIRA”- nosso Clubinho de campo

LEVAMOS CONVIDADOS  PARA DECLAMAÇÃO DE POESIAS NA FESTA DAS CRIANÇAS

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E ainda tem muito mais pra relembrar..

Fotos de arquivo pessoal