Nojo, asco, repulsa …

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HIPÓCRITAS, INJUSTOS
 
morrer na véspera
verter até a última gota de sangue
seu merda
seus merdas
tenho punhos erguidos
tenho braços erguidos
não cedi
não cedo
não me calarão
não me derrubarão
hipocrisias a rodo
testemunhos falsos
pistas falsas
disfarces, máscaras, ludibrios
quanta vileza travestida de exatidão
quanta farsa ao espalhar as migalhas de pão
não me neutralize
não me arrefeça
não me adoce
sou farejadora de canalhas
sou farejadora de mascarados
sou farejadora de cúmplices
sou unhas na pele
sou boca e dentes na pele
sou  loba esfaimada
não me atenuem fomes legítimas
não me acarinhem com cantigas de ninar
não sou feromônios apenas
nunca fui feromônios apenas
nunca serei feromônios apenas
sou fêmea parida e belicosa
verdadeira
não visto peles enganosas
quero justiça
quero justiça
quero justiça
até a última gota de sangue
 
cuspo em suas máscaras, hipócritas
escarro sobre seu território podre
vomito em cima de vocês
tenho nojo de suas couraças
seu merda
seus merdas.
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POETAS E RISCOS

Poetas são entes que assumem riscos
que se esfolam nas alegrias,
como um simples botão de romã,
que acham bonito um sorriso do cão vadio que os segue.
Vadias ideias rendem versos toscos,
sem polimento,
apenas versos.
A uns serão potes repletos de significados
ocultos
transfeitos
transversos.
A outros serão mensagens concretas de tapas e socos
porque a crueza dos dias assim os fez.
Nada pode incomodar tanto quanto versos.
E aliviar também.
Principalmente a quem os escreve
a quem os regurgita,
a quem os devolve como lírica,
sem nada pedir.
Plumas a quem os ler.
E, eventualmente, a quem os possuir como seus.

ACHADOS E PERDIDOS

Não me segurem
não me acudam
não me acalmem.
Minha boca escorre catarro vermelho
visgo
estrato de alma podre de fel
charco de ferida biliosa
amargor de pus em traqueia.
Não me afaguem
não me toquem acordes de violinos ou de acordeons
esse tango é noite
essa mordaça é fina.
Grito, grito e grito.
A boca é minha.
A purulência é minha.
O estupor é meu.
Os dentes que marcam a pele são meus.
O contrato que reproduz a ferida é mal cheiroso e meu.
É dor, é rasgo, é contágio.
Não há mais tempo para rotatórias.
Não há mais espaços para benfeitorias ou rapapés.
O osso roído, a carne exposta, o tumor revelado.
Fétido.
Ludibrioso.
Panaceico
Patético.
É escárnio, é troça, é truque, é fosso, é falso.
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GRITO DE PAVOR

Minha pele em chagas
Meu tronco em dor
Quem me socorre?
Quem me vivifica?
Quem me reanima?
Minha casca em chagas
Meu dorso lancetado
Meu colo esvaziado
Quem me socorre?
Meu útero semimorto
Minhas folhas sobreviventes
Meu de dentro se esvaindo
Meu de fora resistindo.
Quem me socorre?
Um fogo de fora
apagando
um fogo de dentro.
Quem me socorre?
Quem me vivifica?
Quem me reanima?
Um broto.
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DAS DORES

Das Dores
pinga dores lágrimas e lamentos.
Das Dores
verte sangue pus fedores.
Das Dores
amarga manhãs tardes noites
na clausura de subidas e descidas
em companhia solene de anjos, serafins e querubins.
Das Dores
entrega sua lira aos deuses
na esperança de que pousem em sua janela,
devolvendo-lhe luz, cor e o perfume dos dias.
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MULHER DE OUTONOS

Calem-me aqueles que conseguirem.
Não vai ser fácil.
Aprendi a escrever com letras maiúsculas o de dentro de mim.
Não consigo mais esquecer como se faz.

Beiro as últimas estações de uma existência
Delas colho flores nas primaveras
Recolho folhas secas e murchas nos outonos.
Ensandeço e ardo nos verões
Quedo semimorta de cansaço nos invernos de meu sofrer.

Não quero mais amores que já tive.
Não quero mais emoções que já vivi.
Não quero mais dores que já senti.
Não aceito mais meios, terços e quartos.
Gosto de inteiros, cheios, amplos e grandes.
De tudo que estiver comigo
seja o que for
seja quem for.

Sou mulher.
Estou nos outonos de mim.
Faltam-me poucos meios-dias e meias-noites
Assim desejo-os inteiros.
Nada pela metade.
Ainda que só eu mesma é que saiba
o que é inteiro e o que é apenas metade

 

Poesias: Odonir Oliveira
Fotos de arquivo pessoal- Museu da Loucura, Barbacena, MG
1º Vídeo: Canal Mauro Senise
2º Vídeo: Canal Odonir Oliveira
3º Vídeo: Canal Priscilla Araujo

 

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Histórias de Minas, seu Teco

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Em maio de 2017, escrevi sobre meu primeiro encontro com seu Teco:

“Seu Teco me leva pela mão a conhecer suas preciosidades da horta. Surpreende-me ser como o meu velho pai, que se vivo estivesse completaria, nesse mesmo 7 de maio, os seus 99 anos. Seu Teco é um Plácido pai revivido então. Vê que me encanto fotografando seus caquizeiros repletos de frutos e me carrega pela mão. Vai narrando seu prazer quando sai do restaurante e vai pro fundo, pra horta, ficar com suas plantações. Diz que volta outro. Vai falando aquela poesia lírica toda nos meus ouvidos, como fosse um personagem roseano caído de uma página de um Sagarana ou de um Grande Sertão daqueles. Ficamos ali por muito. Gostou de me ouvir contar onde eu vivia antes e por que estava agora por aqui, fez perguntas, elogiou minhas escolhas e me encheu de presentes: muitas mexericas, que fomos eu e ele pegando nos pés repletos, chuchus de 3 qualidades diferentes, cebolinhas, goiabas grandonas, maracujás, e, disfarçando um instante, me trouxe uma bela abóbora – sequinha, viu- que de tão pesada carregou-a para mim o tempo inteiro.

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A refeição de comida caipira, à vontade, feita no fogão à lenha,  apenas vinte reais, era saborosa e fresca – como gosto. Muitos turistas no caminho entre BH e o Rio param por ali só pra levar, em si, os céus em caldos e caldas da dona Aparecida e do seu Teco.

Continuamos nossa prosa, fotografei mais, muito mais e segui pela estrada.

Seu Teco deve ter descido de uma estrela de noite e ficado ali me esperando, só pode ter sido assim. Quase desisto de ir embora, de tão carregada da energia telúrica com a qual me abastecera.”

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Depois disso, voltei e o encontrei debilitado, desidratado, deprimido, sem coragem nem força para se levantar da cama. Fui ao seu quarto, com dona Aparecida, levamos uma conversa suave, sem tocar em doença. Prometi voltar e desejei vê-lo forte, cuidando da horta tão rica e bela. Quis telefonar para saber dele, mas com essa envergonhada postura de gente que vem da cidade e teme constranger os outros, não o fiz.

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Fui até ele, por fim.

Sentei, esperei que começassem a colocar panelas e caldeirões no fogão de lenha, no salão de refeições, para que cada um se servisse à vontade, e tudo se mantivesse quentinho. Perguntei por ele. Foi avisado. Veio logo e sentou-se para o nosso proseado de sempre. Quem me acompanhava sabia que pergunto pouco, ouço mais do que falo. Dois homens da mesa ao lado, interferiam na nossa conversa, por terem percebido meu interesse pelas histórias mineiras de seu Teco e quiseram protagonizar o bate-papo. Sei dar um corte preciso em entrões, galanteadores, exibicionistas contumazes. Fiz isso. Estava ali pra me deliciar com aqueles quitutes, hum, o quiabo com carne moída estava mais gostoso que tudo. O macarrão, com pouco molho vermelho, até o torresmo, sequinho, saboroso. Sem falar nos doces de figo, de leite, de cidra, de goiaba e o queijinho branco. Tudo de primeira linha, com tempero de mãe, de avó. De sonhar mesmo.16507897_562617267419601_3742626132457015636_n

Principiei perguntando a ele pela saúde. Narrou um pouco a trajetória de exames e internações, os remédios e disse que estava melhorando. Desanimado pra cuidar lá da horta, mato grande, muito cansaço. Mas que mesmo assim, as goiabeiras estavam carregadas, os pés de romã e que as outras frutas aguardavam o tempo delas de frutificarem. Quando lá estive, na primeira vez, estavam muito lindas todas elas. Depois quando esteve doente, só fiquei com ele, sem ir ver as plantações, de que tanto gosto.

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Contou-me que bebeu muito, durante muitos anos. Havia parado fazia 18 anos. Bebia pelos bares, pelos armazéns, se o dono do local dizia que ia fechar, não apavorava não, pegava a garrafa de pinga e ficava do lado de fora. Mas continuava bebendo. Quando voltava pra casa na jumentinha, vinha que vinha caído. Ao cuidar da horta, levava a garrafa, enterrava a mardita dentro de um pote com água e só deixava a beiradinha pra fora. E ia assim o dia todo.

Agora acha que beber não tá certo, faz mal; o médico mandou parar de beber e de fumar, bastou. Pergunto-lhe por que as pessoas bebem. Ele não entende e diz que não é porque mulher não quis mais que o homem bebe, isso é bobagem. Não me quis … ou eu arranjo outra ou deixo pra lá. Não me quer, não me quer. Também eu era treteiro, assim bebia e gostava de contá vantagem. Era isso.

Insisto na razão pela qual se bebe tanto, era pelo sabor, por exemplo? A surpresa geral, não fala mais dele, mas passa a falar de uma terceira pessoa, um companheiro do passado – como se desejasse também compreender os porquês a partir dos motivos de outro. Conta-me que havia um, cita nome, que não aceitava tira-gosto com a pinga. Corta o efeito da pinga. Não como, quando bebo não- dizia o tal. Era como um remédio que perde o efeito se …

Aproveito a carona e sugiro se era pelo sabor, pelo efeito … ele diz que pelo sabor não era não. A pinga dá mais disposição. Como assim? Assim, uma coisa que você não tinha coragem de fazer, você faz com a pinga, por exemplo, entra num córrego perigoso e nem dá fé daquilo. Insisto se a bebida faz a vida ficar diferente, ficar melhor, era isso? É isso. Agora, minha mulher não gostava que eu bebesse não. Também, já pensou a mulher deitar na cama com um homem fedendo à pinga. Ela não aguenta, né.

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Como foi que o seu Teco começou a beber? O pai bebia muito, mas nunca me deu copo na mão, não. Dizia a bebida tá aqui, se quiser beber, mas te dar no copo eu não dou.

Trabalhando nas roças, ganhou casa do patrão. Aqui seu Zé, quero casar, preciso de casa pra morar. Eu te dou. Veja quanto fica que eu te dou o dinheiro. Naquela época me deu 30 conto, seria uns 30 mil hoje. É aqui onde eu construí. Sempre vivi aqui. O terreno aí pra trás com o riozinho, a horta, foi tudo junto que ele me deu e eu levantei a casa, eu e meu primo.

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Admiro. Pergunto se ele acredita nisso que quem faz o bem acaba prosperando, vivendo bem etc. Ah, é isso mesmo. Quando alguém vem me pedi uma ajuda aqui e tá no meu alcance, eu posso fazê, eu faço, fico numa satisfação danada. Analisando aqui, acho que a gente não deve brigar com ninguém, a gente vai descobrindo, conversando com um com outro, que a gente é tudo irmão mesmo. Não deve brigar não. Uma hora o outro pode te servi também. Por isso tem que ajudá os outro.

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Os dois homens da mesa ao lado intervém, querem dar seus exemplos, gente mais jovem, dois irmãos, um de vinte e poucos anos e o outro de menos de quarenta. Bebem conhaque e cerveja. Vermelhões já. Ouço e corto pro seu Teco de novo. Lembro a ele o quanto se parece com meu pai e lhe revelo que conheci em Santana do Paraíso um outro homem ainda mais parecido com meu pai, mais moreno de pele como ele, de roça, plantador de horta etc. Ele me diz num disse que a gente é tudo irmão. Aí, lá longe, achou ele.

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Converso com dona Aparecida sobre a saúde dele, peço pra ir ver o que gosto tanto. Avisa que está tudo sem capinar, frutas feias etc. sem os cuidados do seu Teco. Despedidas.

Adentro ao paraíso de onde aquele anjo me faz tão bem sempre.

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TERRA DE MINAS

Que bondade tem o garoto mineiro que ajuda a carregar embrulhos,
mesmo sem precisão …
Que prosaico é aquele “cê bobo” ao final das frases coloquiais …
Que vontade é essa de ficar sentado na praça a tocar causos e prosas até o entardecer…
Que permissivo é esse tom de confidência de quem jamais nos viu antes …
Que adocicado é esse olhar de matutagem espalhado pelas calçadas …
Que coisa caseira é essa que me enternece de água os olhos …
Talvez seja encontro de sangue mineiro com sangue mineiro.
Talvez seja um ponto de vista repleto de montanhas .
Talvez seja essa vontade de encontrar o que uma vez se perdeu em mim.

 

Texto e poesia: Odonir Oliveira
Fotos de arquivo pessoal
1º Vídeo: Canal Piano Brasileiro
2º Vídeo: Canal Odonir Oliveira

Guimarães Rosa, mire e veja

 

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RETALHOS DE ROSA

“O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando.”

“Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou — amigo — é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é.”

“O mundo é mágico.
As pessoas não morrem, ficam encantadas.”

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“Todo caminho da gente é resvaloso.
Mas também, cair não prejudica demais – a gente levanta, a gente sobe, a gente volta!…
O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem. Ser capaz de ficar alegre e mais alegre no meio da alegria, e ainda mais alegre no meio da tristeza…”

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“Sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o lugar. Viver é muito perigoso … Porque aprender a viver é que é o viver mesmo… Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e abaixa… O mais difícil não é um ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra.”

“-Adianta querer saber muita coisa? O senhor sabia, lá para cima – me disseram. Mas, de repente chegou neste sertão, viu tudo diverso diferente, o que nunca tinha visto. Sabença aprendida não adiantou para nada… Serviu algum?”

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“Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas.”

“Viver é um descuido prosseguido.
Mas quem é que sabe como?
Viver…
o senhor já sabe: viver é etcétera …”

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“A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que não se misturam. Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância. Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data.”

“Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniÃES ”

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“A colheita é comum, mas o capinar é sozinho.”

“Felicidade se acha é em horinhas de descuido. ”

“Infelicidade é uma questão de prefixo.”

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“Por esses longes todos eu passei, com pessoa minha no meu lado, a gente se querendo bem. O senhor sabe? Já tenteou sofrido o ar que é saudade? Diz-se que tem saudade de ideia e saudade de coração…”

“De sofrer e de amar, a gente não se desfaz.”

“O verdadeiro amor é um calafrio doce, um susto sem perigos.”

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“Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.”

“A culpa minha, maior, é meu costume de curiosidade
de coração. Isso de estimar os outros, muito ligeiro,
defeito esse que me entorpece.”

“É preciso sofrer depois de ter sofrido, e amar, e mais amar, depois de ter amado.”

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“Gostava dela, muito…Mais do que ele mesmo dizia, mais do que ele mesmo sabia, de maneira que a gente deve gostar. E tinha uma força grande, de amor calado, e uma paciência quente, cantada, para chamar pelo seu nome”.

“Deus nos dá pessoas e coisas,
para aprendermos a alegria…
Depois, retoma coisas e pessoas
para ver se já somos capazes da alegria
sozinhos…
Essa… a alegria que ele quer”

“Sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na ideia, querendo e ajudando, mas quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois.”

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“Se fosse só eu a chorar de amor, sorria…”

“Os outros eu conheci por acaso. Você eu encontrei porque era preciso.”

“Amor vem de amor. Digo. Em Diadorim, penso também – mas Diadorim é a minha neblina…”

“Talvez não devesse, não fosse direito ter por causa dele aquele doer, que põe e punge, de dó, desgosto e desengano.”

“Tem horas em que penso que a gente carecia, de repente, de acordar de alguma espécie de encanto.”

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“O senhor mire e veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam, verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra montão.”

“Quem elegeu a busca, não pode recusar a travessia…”

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“Narrei ao senhor. No que narrei, o senhor talvez até ache mais do que eu, a minha verdade. Fim que foi. Aqui, a estória se acabou. Aqui, a estória acabada. Aqui, a estória acaba.”

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Trechos de várias obras de Guimarães Rosa
Fotos de arquivo pessoal: recantos de Minas Gerais
Vídeo: Canal sergioeye1

Mãos que sentem

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O eu lírico

Quem escreve aqui tem o que dizer. Bebo dos autores a quem admiro e aplaudo os compositores que me embalam enquanto escrevo.

Sobre esse blog e sua motivação leia: https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/sobre/

O eu lírico de meus poemas é quase sempre um parceiro meu, alguém a quem dei ouvidos, uma imagem que me seduziu, uma causa à qual aderi, um ser a quem presto solidariedade … Cantar meu país e sua gente resgata um eu lírico telúrico, que muitas vezes chega a surpreender a mim mesma, quando termino de escrever.

Meus poemas são coloquiais e repletos de sentimentalidades. Não sei fazer diferente. Sobre isso leia: https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2016/08/27/deixa-me-ser-poesia/

E a prosa – gosto muito de prosa – na vida real, ouvir “causos”, perguntando pouco, talvez um quando e onde, me enriquecem demais. Tenho alguns escritos num tom de realismo fantástico, ainda não publicados aqui, qualquer dia os postarei.

Quem viveu com escritores, sabe que o que escrevem é a soma de seus discursos internos, mas também dos de outros. Quem desfruta da convivência com um escritor, com um poeta, e sabe de sua história, muitas vezes encontrará em suas palavras o real vivido e o imaginado, todos sabem que é assim. Um personagem é um terço de alguém conhecido, outro terço de outro e um terço imaginado. Por isso, qualquer semelhança com alguém conhecido não terá sido mera coincidência. Seres humanos variam pouco em sua essência. A moldura, o cenário, os adereços variam um pouco, mas a essência é sempre a mesma.

Evito escrever mediocridades, receitas de bolo, seja lá o que metaforicamente essa bobagem queira dizer. No entanto, haverá sempre quem achará que o que escrevo seja repleto de sentimentalidades, pieguices, tolices etc. Claro, isso é assim mesmo, e, em tempos de Internet, os discursos estão cada dia mais sem gentileza, respeito, atenção por aquilo que o outro cria, produz.

Fazer o quê? Pedir que quem escreve sob o efeito da raiva, do ódio, do álcool etc. espere a cabeça esfriar para não exalar tanto sentimento ruim. Acredito nas amorosidades. Sempre.

Leituras feitas por nós dependerão  do quão afáveis estivermos a elas, àqueles temas. Assim, poemas considerados como vibrante criação poética, versos que fluíam com limpidez, encantamento e sedução há algum tempo, noutro momento – porque estamos navegando em outras águas, experenciando novos projetos – podem ter sua leitura comprometida e serem desqualificados até. Como dizia Saramago: É a vida.

Escrevo o que quero, quando quero, aqui, nesse espaço que é meu. Leia quem desejar. Continuarei trazendo meu eu lírico na garupa comigo, desbravando minhas viagens pelo real vivido e pelo real imaginado.

Boas leituras por aqui, por aí ou por acolá.

Texto: Odonir Oliveira

1º Vídeo: Canal Gilles Gomes de Araujo Ferreira

2º Vídeo: Canal Memória

Histórias de amor: O filho da mãe

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Arrasado, Caetano resolveu não mais amar. Fora a última vez. Daqui pra frente iria pegar geral. Nada de se dedicar a uma garota apenas. Estimava estar sendo passado pra trás, logo ele que havia se atirado inteiro naquele relacionamento. Era tão jovem ainda, 29 anos, e já tão desencantado.

Célia, sua mãe, nascida em 47, leu, estudou, trabalhou muito, era conhecedora de gente como ninguém. Célia observava tudo e se preocupava com aquela decepção amorosa do filho, temendo que não saísse mais do fundo daquele poço. Sofrer era salutar, recuperar-se era obrigatório. Não desejava para ele aquela cicatriz irremovível. Precisava interferir como mãe, educadora, responsável por sua formação. Orientava tanta gente, por que não o saberia com o seu Caetano? Tentaria.

A cada noite, ou melhor, a cada madrugada Caetano chegava embriagado, muitas vezes acompanhado, a se perder de sua razão de viver. Bebeu muito, em seguida buscou outras fugas de si, daquele seu antes subjetivo modo de ser. Agora era pegar geral, não se dedicava à garota alguma. Saía com uma, voltava com outra. Infeliz por dentro e por fora, idem.

Mãe de duas moças mais velhas que o rapaz, Célia repensava a educação que dera aos três. Seria a melhor, seria o respeito ao ser humano algo que não se encontrava mais na praça; as moças e os rapazes daquele tempo seriam tão diversos dos de sua juventude  no interior; metrópoles produzem  comportamentos diferenciados mesmo, exigem posturas mais contemporâneas ao seu tempo, aos seus iguais. Estaria ali como uma antagonista da modernidade, estaria impotente para ajudar seus filhos porque diacrônica demais? Não sabia mais.

Pensava e tomava algumas atitudes. Sozinha, estava difícil interferir em tudo aquilo. Convocou o pai. Vivendo em uma cidade distante, viesse assumir aquelo processo junto com ela. Veio. Achou tudo natural. Coisa de rapaz. Conversou com o filho, quase sendo conivente com suas ações. Quase. Atribuiu as apreensões, com os desvios, a excessos de preocupação de mães. Foi embora no mesmo dia, o avião sairia às 18.

Numas madrugadas, Célia ia ao quarto do rapaz e via sua cama vazia. Em outras, estava lá jogado, vestido, às vezes até com tênis nos pés, apagado, amortecido, sofrido, amargurado. Saía sem ser notada. Vez ou outra tirava-lhe os tênis. Nem sempre. Mãe tem limites que não se pode nem entender.

Naquela manhã combinou com ele que deveria ir morar sozinho, assumir sua vida. Seria sua fiadora no novo apartamento, mas que deveria assumir geral, pagar suas contas, não faltar ao trabalho, parar com aqueles excessos e entender que amores são doídos mesmo, uns vêm, outros vão, a vida segue. Caetano deveria reger sua vida dali em diante. A batuta estava em suas próprias mãos e não nas dela mais. Era muito jovem, tinha a vida toda á sua frente, meu Deus!

Célia amargou uma saudade imensa. Todas as preocupações com seu caçula, alimentação, doença, sofrimento, falta de grana … tudo sofreu de forma maiúscula, mas suportou.

Caetano fez mais cursos, especializou-se, montou um espaço ligado a terapias de corpo. Célia o apoiou com orientação, espaço físico – chegou a mudar-se para que ali onde morava fosse criado um centro holístico. Caetano passou a trabalhar com uma das irmãs, ergueu-se, pegou geral nas mãos e nos pés a trilha da sua vida.

Caetano era filho da mãe, ora !

 

Texto: Odonir Oliveira

Imagem: Jacques Louis David, Pinterest

Vídeo: Canal Joana Ziller

Histórias de amor: 45 anos depois …

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Noite de lua … não olhou a lua lá fora. O e-mail a tirara do chão. “Saudades”. Por que tão mexida assim, agora, depois de tantos anos! O conteúdo, o pedido delicado, a menção suave a ela, por que tão mexida assim, meu Deus?

Amor de sua vida. Primeiro amor de carne e pele de sua vida. Por que tão mexida assim? Lembrou que ele gostava de mar, era de São Paulo, sem mar. Amar. Aquela barba grande, aquela literatura toda, aquela bolsa de couro repleta de livros, aqueles 10 anos a mais dele, aqueles jantares nos bandejões regados a James Dean, juventude transviada, On the Road, Kerouac, Jules e Jim, Maysa, ah Maysa, Sartre e Simone de Beauvoir, Mário de Andrade, a ditadura militar. Tantos encontros fortuitos, tantas caminhadas de mãos dadas pelas noites, tantas sessões de cinema, pré-estreias.  Que estímulo à leitura, que vontade de ler todo o Sartre pra poder discutir sobre aquilo com ele, que vontade de conhecer Pessoa tão melhor. Passeios de dentro, passeios por dentro.

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Por que tão mexida assim agora … “Saudades”. Valorização de palavras escritas, de lirismos uns e outros. Estrada conhecida, familiares, amigos, destinos ..“Saudades”.

Tempo, inimigo cruel de corpos, de projetos, de trajetórias. “Saudades”. 45 anos depois, umas fotos, uns elogios, um reconhecer de carne e osso, um aroma de gente que se conhece, que sabe o valor de si e do outro. “Saudades”. Umas sensíveis observações, uma seleção das histórias preferidas. Olhares pelo retrovisor. Tudo caminha, evolui, se espraia …

Que acaso misterioso é esse que faz uma palavra ganhar tanto sentido. “Saudades”.

Também eu tenho saudades de mim, como ouvi nessa narrativa. Também eu.

Texto: Odonir Oliveira

Vídeo: Canal daou007

Amar o mar

DE PELE

nasci no mar
cresci no mar
amei no mar
vivi no mar
caminhei nas areias
banhei-me nas ondas
lambuzei-me de sal
nasci no mar
cresci no mar

Niteroi3

AQUARELÁVEIS
sim, na infância
gostava da onda
quebrando sobre mim
uma vez, duas vezes, cem vezes
– Saia daí, menina, as conchinhas virão até aqui
sim, na juventude
adorava estar ao sal ao sol
bronzear-me seduzir encantar
pele morena cabelos longos revoltos
– Cuidado, garota, sol assim faz mal, mar assim também
sim, na maturidade
bebi do sal, do sol, do mar
tanto quanto pude
tanto quanto quis
tudo nele gozei
sim, hoje
procuro o mar a amar
a beber meditação
a sonhar cores e tons
em dias e horas outras
em recantos e cantos tardios
aí sim, eu e ele estamos
só nós

Niterói2

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MARES E MARÉS

Nunca tive intenções de mar.
Mulher de águas salgadas,
nasci e convivi com elas
por sempre.
Nos anos em que ainda me empinava
a cauda e o mastro era grande e rijo,
naveguei por marés e areias
de Rio, Santos, Salvador, Itaparica…
Vivi de mar.
Tive riscas de sal na pele ao fim das tardes
cabelos longos que ventavam meu rosto ressecado
por desejos realizados, paixões de sol.
Nunca tive intenções de mar
Nem tampouco de alto-mar.
No Pacífico, gelado e salgadíssimo,
quase sucumbi em um bote pesqueiro, de domingo sagrado.
Albatrozes chegavam-nos aos braços como peixinhos de aquário
a sugar seus alimentos e nosso sossego.
Nunca tive intenções de mar.
Nunca quis sugar nada de seu.
Nunca sorvi mais do que seu quebrar de ondas nos ouvidos
seu movimento de entrega e recolho
pelas manhãs, às tardes,
sentada nas pedras do Farol de Itapuã,
caminhando pela praia de areias pesadas,
namorando distâncias de horizontes imaginados.
Nunca tive intenções de mar.
Em menina, não quis nadar nunca.
Sequer aprender.
Meu encantamento com o mar
é o de quem sabe o que é o mar
e com ele não tem
sequer uma intenção.

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Poesias: Odonir Oliveira
Fotos de arquivo pessoal (última foto da Heloísa Ramos)
1º Vídeo: Canal Gravadora Galeão
2º Vídeo: Canal Lusafrica
3º Vídeo: Canal N Krumah Lawson Daku