Já faz 5 anos … categorias

DE CATEGORIA

Quando iniciei esse blog, havia perdido outro, onde era bastante lida (uma rasteira daquelas cruéis que a vida nos dá ). Meu filho ( formado na área de sistemas de informação, da ciência da computação), conhecedor dos meus objetivos ao escrever ”para o mundo” e sabedor de meus parcos recursos e conhecimentos na área, tratou de criar algo simples e de fácil manuseio. Sabia que eu queria texto escrito, imagens e músicas. Orientou-me a manter a mediação (porque a Internet é cruel). Minha filha, publicitária, prática, objetiva e nada saudosista, advertiu-me que o segmento/ categoria POESIA não era vertical e sim, horizontal, ou seja, atenderia àqueles que já se interessavam por POESIA. Não tivesse expectativa de ser bastante lida – como acontecia no blog anterior (com um público leitor de jornalismo político, por exemplo).

Acontece que jamais quis publicar livros, vender livros. A publicidade que salta por aqui, nos celulares, é ação comercial do WordPress, nada tem a ver comigo. Sou péssima vendedora. Não sou, nem sei vender. Nada. Costumo dizer que meus produtos são caros demais, quase inacessíveis a mãos várias. Desprezo grana. Vivo do que possa me trazer prazer, alegrias e crescimento. Apenas o suficiente então.

CATEGORIAS DO BLOG

Revendo as postagens desde dezembro de 2015, consigo agora, separá-las por categorias. Às vezes, com dificuldade, posto que se misturam e, como eu, são complexas e não se excluem.

POESIAS: predominam, até porque são de mãos que sentem

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/category/poesias/

CRÔNICAS: dizem respeito a algo mais cotidiano, atual e relevante

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/category/cronicas/

PAISAGEM EXTERNA – NATUREZA: tenho predileção por flores, rios, matas, estrelas, lua, sol e me motivam a escrever

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/category/paisagem-externa-natureza/

#TBT: lembranças a partir de fotos e imagens que mergulham a memória na escrita ou vice-versa

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/category/tbt/

CHICO BUARQUE: poemas e textos nos quais me misturo ao escritor e compositor durante mais de 50 anos

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/category/chico-buarque/

ESCUTADOR DE HISTÓRIAS DE AMOR: há um narrador que procede a oitivas das narrativas alheias

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/category/escutador-de-historias-de-amor/

ESCUTADORA DE HISTÓRIAS DE MULHERES: há uma narradora que ouve as narrativas femininas, nem sempre de amor

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/category/escutadora-de-historias-de-mulheres/

HISTÓRIAS DE CERTO REALISMO FANTÁSTICO: aqui as narrativas são tão inacreditáveis, que beiram o fantástico

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/category/historias-de-certo-realismo-fantastico/

CLUBINHO DA LEITURA DE BARBACENA: atividades e fotos que registram meu trabalho voluntário com crianças na cidade, nos anos de 2014 a 2017

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/category/clubinho-da-leitura-de-barbacena/

TRABALHOS REALIZADOS COM ALUNOS: relatos, em sequências didáticas, de minhas atividades docentes, com processos e produtos

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/category/trabalhos-realizados-com-alunos/

PROFESSORES SEMPRE: textos que registram emoções e sensações vividas por professores

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/category/professores-sempre/

SEM CATEGORIA: são os produtos escritos de difícil enquadramento em categorias

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/category/sem-categoria/

Leia também, ”SOBRE” o blog: https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/sobre/

Texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal Odonir Oliveira

Janela discreta

LUAU

terra firme
canoa silente
em serenata
líricos coaxares
murmúrios solitários
ruídos de pirilampos
tantos
corredeira de rio
frio
ventos leves
febre
dó ré mi fá
estrela lume
halo da lua
halo de gente
sol lá si
sós

MULHERES APAIXONADAS

Durante alguns anos, observei pessoas e, principalmente em terapias reichianas em grupo, pude conhecer muitas histórias de amor. Sempre me interessei mais, e guardei na memória, as das mulheres – por motivos de identificação ou por oposição. Gostava de tentar compreender aquilo que narravam, visualizar os episódios e até sentir o que haviam sentido. Enfim, sempre fui solidária àquelas histórias, nunca critiquei suas ações ou não-ações, sei que nessas coisas de amor, quem ridiculariza o outro é, no mínimo cabotino; quando não, cruel.

Assim, quando estou ouvindo uma canção ou até lavando a louça, me vem a imagem daquela mulher e da situação vivida. Lembro, reflito, às vezes com outro olhar … e quero escrever aquilo.

SANGUE

pulsando lateja
correndo percorre
fervendo explode
muitas vezes
muitas vezes
muitas vezes
ele e eu
eu e ele
ele e eu
eu e ele
veias dilatadas pulsando
veias quentes gritando
veias dele sobre
veias dela sobre
transfusão
transfiguração
rios vermelhos
tempestades vermelhas
sem afluentes
desaguando num mar

JANELA DISCRETA – I- ”FENÊTRE”

Cíntia era assim.

– Eu? Homem nenhum faz de mim o que quiser. Vou lá, pego, mato e como, hahaha, duvida?
– Mas parece que ele tá com a outra, todo mundo tá vendo, Cíntia.
– Tá nada. Ganho fácil. Eu sei do que esse tipo de homem gosta. Ela não tem isso, não. Sabe a ” Jennifer” da música, então? Ganho, fico, não tem pra ela não. Porque os direitos são iguais. Homem e mulher, sexo, cerveja, cigarro, gargalhadas, quer melhor? Nenhum zé resiste, neguinha.
– Vai se apaixonar pelo zé, hem?
– Eu? É zé, igual a todos os outros da praia, da quadra, do samba, do forró. Entendo de homem e sei o que é bom. Eles precisam de mim e eu deles, o combinado não é caro, minha santa.

Cíntia sabia do que estava falando. Brincava bem. Jogava em várias posições e não cometia falta, nem cobrava … pênaltis. Fez tá feito. Gozava com gosto em campo. Era mulher gol. Valorizava sexo casual, sem relacionamento, sem namoro. Dizia que os caras pareciam gostar disso, mas que, na verdade, queriam era a caça. Amoleciam, bambeavam sem a caça.

Começou a ver que o zé pensava como ela. Pensava só ou agia também ?

Resultado: no atacado a casual, a free; no varejo, ah, no varejo cedeu.

Caiu de joelhos pelo zé. Não desgrudava mais dele, mensagens, viagens, aproximação cheia de artifícios e joguinhos. O pessoal do forró nem fechava muito com aquilo. E dizia pra ela. Mas estava cega. ”Quem me ama me aceita assim vida loka como sou. Se não gostar, pode ir embora”. Era assim a Cíntia.

RITMO

saiu à tardinha
no metrô o olhar dele já a seguia
na entrada um odor de Dionísio
um copo vazio
um copo cheio
a vez, a voz, a música esperada
o salão cheio
a pista cheia
a dança sem ele
os braços, as coxas, os pés
a dança com ele
o encaixe, o encontro, o suporte
suas mãos envolvidas na cintura dela
giros, ritmo, risos, cor,
mesmos
olhos fechados dele
olhos fechados dela
quem é ele
quem é ela
dançam
riem, giram, envolvem-se
dançam
nela a música
nele a música
dançam
riem, fluem, voam
dançam

JANELA DISCRETA – II – ”FINESTRA”

Quem nunca?

Conheceu o ruivo e fugiu dele. Era uma cafa de marca. Convencia até freira a morder hóstia, digamos assim. Era mentiroso demais. Rei dos álibis, dos disfarces, das encrencas mal resolvidas. Negava sempre, página zero do manual do cafa, sabe como, né. Era um donjuan canhestro, se achando a última bolacha do pacote, o rei da cocada preta. Mulher pra ele não fazia diferença, isto é, caía na rede era peixe. Preferia as que não haviam tido filhos, por motivos óbvios, dizia. A carne era mais macia, mais estreita, mais saborosa.

Conquistou, com disfarces, a moça do apartamento exatamente embaixo do dele. Rodeou, ela resistiu. Encenou, ela resistiu, fez a dança do acasalamento em serenata, ela resistiu.
Valdete, a Dete, a Detinha, era dura, conhecia aquele tipo de homem. Se quisesse, entraria na jogada por desejo seu, mas que conhecia, conhecia.
Era carioca folgadão, chegava com aquele papo de ”se tiver teia de aranha, a gente tira’‘, ‘‘vem se deleitar na macaxeira do zé aqui”, ”vem pra felicidade”. Papo cafa mesmo.
E acontece que jogava ao mesmo tempo com várias. E, sem distinção, fosse quem fosse, indo ao seu encontro ” receberia dele a maior assistência’‘. Era aquele tipo de homem que, já desinteressado, costuma dizer ”Eu não te mereço, você vai encontrar alguém que te ame’‘ e que quando sabe que a mulher já está com outro, logo diz ”que bom pra ela, e assim vai parar de me perseguir

A Dete foi na dele. Apaixonou-se. Ele já estava com a Val, uma outra, engatilhada, a ponto de bala. Ela não sabia. A Dete perdia pra Val em alguns quesitos.
O zé gostoso deu de debochar de Dete, ironizar seu amor, suas buscas por ele. Algo assim como se fosse um dono de harém.” quem nunca … teve uma apaixonada correndo atrás? ”, costumava comentar com outros, quando tinha plateia.
Nunca teve irmã. Nunca teve sobrinhas.
Mais tarde teve duas filhas.

CORPOS

nus
eram uns
nus
eram outros
sem nomes
sem restos
sem rostos
sem máscaras
sem mitos
sem metas
sem mesmos

tronco membros cabeça
membros tronco cabeça

tronco e membros
membros e tronco

sinfonias

JANELA DISCRETA – III – ”WINDOW”

Jéssica conheceu aquele rapaz pela Internet. Site de relacionamento? Nada. Rede social. Era de outra cidade. Encantou-se com ele.

– Tia, já chega minha mãe, você também não. E daí, gente, gosto dele, corro atrás mesmo. Se eu não fizer assim, tem outra que vai fazer.

-Mas pôs silicone nos seios por que, Jéssica? Não gostava deles, incomodavam, está se sentindo mais feliz, precisava mudar seu corpo?

-Nunca liguei pra isso, tia, mas homem gosta de seios maiores, é exigente, entendeu? Toda mulher mexe nisso. Aqui em casa todo mundo tem seios pequenos, somos magras, pernas finas, é de família. Não ia conseguir me dar bem com nenhum companheiro desse jeito, tia. Aí resolvi logo isso.

-E com esse rapaz da rede social, está se dando bem? Ele valoriza você? Reconhece esse seu esforço de deixar tudo aqui, amigos, programas que você fazia e ir pra lá ficar com ele?

-Acho que sim, né, se não nem me recebia lá. Mas também não dou mole, vou atrás mesmo. Caso contrário tem quem ocupe o vácuo. Hoje tudo é assim.

– Ele quer só diversão, isso satisfaz você? Foi pra isso que você abriu mão de todo o resto? O contrato entre vocês é só esse? Não está barato demais, não? Pra você?

-Os tempos são esses, tia, vocês não compreendem. A gente fica junto, viaja, dança, bebe, transa, ri, namora e tá valendo. Quando eu não estiver com ele, não quero saber. Liberdade.

-Mas você também age como ele? Tem outros namorados? Vejo é você indo sempre pra ficar com ele.

-Não, não fico com outros. Mas ele até pensa que eu fico. Feminismo, tia, já ouviu falar? A gente é empoderada, faz o que quiser, vai aonde quiser.

-O amor de vocês é curioso, né Jéssica.

-Se não fosse assim, não existiria, tia.

JANELA DISCRETA – IV – ”窓 (MADO)”

Bairro da Liberdade. Sampa. Trabalhava lá. Morava no bairro vizinho. Escritório.

Nos ônibus, no metrô, tudo quanto era homem vivia querendo alguma coisa com ela. Praga ! Não sabia por quê, mas não aguentava mais aquilo. Era assim que Suzette relatava às amigas do grupo de terapia bioenergética a sua cruz com os homens. As outras se divertiam dizendo que achavam que ela fazia caretas e por isso provocava aquelas reações nos homens.

Suzette vivia lendo alguma coisa na condução. O quê? Ah, o Jornal do Metrô, um folheto de propaganda, uma revistinha de pedidos da Natura. Alheia sempre ao entorno, blasée.

Naquela manhã desceu na estação do metrô e … foi seguida. O homem a observava de perto e viu quando entrou no prédio. Depois foi obter as informações sobre Suzette, inclusive seu nome e o horário em que deixaria o escritório – o porteiro do pequeno edifício fora camarada até.

No fim da tarde, o homem estava à sua espera. Pediu para conversar, se apresentou e contou que havia sido enfeitiçado por ela. Suzette se assustou um pouco. Um pouco. Depois ouviu tudo. Fez ar de superioridade e considerou encontrar-se com ele em outro dia.

A insistência do homem não rendia muito. Era daquele tipo que gostava de falar umas tolices, umas sacanagens sem propósito, achando que seduziam, excitavam etc. Ela era mulher para muitos talheres, ao contrário, via naquilo muita vulgaridade, cantada comezinha, sabe como é? Quando saía com ele, no carro importado, cheio de acessórios, não dava a mínima para o motor, o estofamento, a parafernália de som e imagem. Apenas ia. Era tudo muito, muito comum.

Na terapia, continuava a reclamar da perseguição dos homens pelos caminhos. O terapeuta chegara a perguntar a todas se não seria pelo ar blasée de Suzette. Homem adorava ser desprezado? Gostava de investir e de insistir na conquista? Seria isso?

JANELA DISCRETA – V- ””FINESTRA”

– Encontrou com ele ontem na pracinha? 
– Encontrei nada. Vi de longe. Nem parece aquele homem lindo com quem tive meu filho. Fui andando e não falei nada. Fiquei observando. Sabe um cara grosseirão … não sei como as pessoas se transformam daquele jeito. Já pensou se eu tivesse ficado com ele, nossa, foi livramento minha filha, foi livramento. No começo não entendi assim, mas depois, sim.
– Como foi que você engravidou, Lena, isso já não acontecia na nossa época.
– Ele vinha de São Paulo nos feriados, depois nos fins de semana e aí, a relação foi ficando mais constante. Eu tomava pílula, mas tinha que ficar escondendo da minha mãe, sabe né. Esquecia de tomar.
– Mas e ele não tinha como evitar? Só você?
– Ah, nos anos 70 quem tinha que evitar gravidez era a mulher, os caras não tinham nada com isso. Só perguntavam se a gente estava tomando pílula e pronto. Ninguém usava preservativo não. A tal história da bala com papel, lembra?
– Mas não usavam nunca, você acha?
– Usavam sim, senão as fabricantes não fariam mais, né. Eles usavam com as prostitutas, na zona, nos bordéis e para se protegerem das doenças, sífilis, etc. Em casa, com as esposas, era um filho atrás do outro. Minha mãe teve 8, duas gêmeas.
– Mas quando você falou que estava grávida, o que ele fez?
– Disse que ia pensar, voltou pra São Paulo. Eu fiquei com aquela reação dele em mim. Não era garotinha, né, mais de 30 anos. Todo mundo achava que eu tinha engravidado porque quis. E não era.
– Mas dizem que no inconsciente, a mulher engravida porque deseja ser mãe, sente falta disso e acolhe a fecundação. Os psicanalistas analisam assim.
– Pode até ser, mas ele contou pra mãe dele lá em São Paulo, que mandou me chamar. E eu fui. Ela disse que receberia o neto com amor, mesmo se seu filho não o assumisse. Mas deu nome e tudo. Só não casamos. Casou com outra, mais tarde.
– Ah, agora entendi porque você se dá tão bem com a família dele até hoje e seu filho, já um adulto, também.
– Foi assim. Eu posso dizer que amei muito o pai do meu filho. Mas quando ele se afastou no momento mais necessário, aquilo morreu em mim. Mesmo depois, quando meu filho foi crescendo, indo sempre lá pra casa da avó, das tias, mesmo assim, aquele homem ficou muito pequeno pra mim. Meu filho é importante; ele, não.
– Depois, você não teve ninguém mais, Lena?
– Muita gente. Danço, bebo, beijo, abraço, transo e tiau. Nunca mais me liguei a nenhum homem. Não que eu não quisesse. Mas não consegui. Não brota mais amor em mim pra me fixar em alguém, entendeu?
– Foi o tempo o responsável?
– Não sei. Não me abri mais para sentir o que sentia por ele. Sou outra. Fui vivendo assim. Agora já tenho até minha netinha. Linda. Mas continuo dançando, abraçando, beijando. Vou indo.
– Vamos ao ”Pilequinho” um dia desses? Lembra das batidas deliciosas de lá? Eu adorava a de abacaxi com vinho, e você a de pêssego, né. Vamos?
– Claro, adoro, vamos sim.

JANELA DISCRETA – V – ”OKHO”

Olhos de tigre.

Bagunçou tudo. Revirou suas gavetas. Falou alto com decisão. Falou baixinho em seu ouvido. Entregou-lhe prosa e perfume do novo, de novo. Entornou seu vinho. Sujou a toalha da mesa. Adorou a lasanha. Entrou com pés sujos. Trocou a música da vitrola. Dançou rock. Atirou cabelos molhados de louro e cinza, bem no meio do quarto. Falou verdades e mentiras com a mesma graça. Dourou o amanhecer. Enluarou as noites e as madrugadas. Citou e discutiu Nietzsche com sedução. Cantou em inglês. Ensinou Pink Floyd em carne e osso. Sabotou seus fracassos. Ludibriou suas certezas. Pintou seus olhos de gatinho. Passou-lhe o batom vermelho- madrugada. Cortou seus cabelos à máquina zero. Salgou-lhe língua, mamilos, umbigo e ardores. Caminhou de mansinho para não acordar o amor dormindo ali. Acordou o amor dormindo ali com mordidas de mel. Sapateou seus medos com afagos, toques, começos e fins. Escreveu frases de mel e fel no papel. Caminhou cedo, correu ao meio-dia, caminhou às tardes na autoestrada, abriu o portão ao anoitecer. Esteve sempre presente na terra, no fogo, na água e no ar. Foi nuvem que desceu naquela barraca de camping. Dançou o tango de sua pátria em sua pátria. Falou em castelhano em seu ouvido bêbado de paixão. Caminhou de mãos dadas provocando inveja em olhares azedos. Ensinou o desafio, a raiva, o grito, a pressa, o alívio. Foi gaivota, canário, sabiá. Leu seu corpo em todas as línguas. Escreveu em inglês, de propósito, para provocar leitura em suas línguas todas. Riu, riu muito, gargalhou alegrias e riscos de vida e de morte em um só gozo. Homem, escorregou suores dos pés à cabeça. Menino, inverteu a vida até seu último minuto.

Zé, homem-menino, eternamente nas nuvens. Morto ou vivo, assim.

ποιητής , poietés

Ah, pudesse eu, imitando deuses,
ser palavra criadora
ser a que produz, a que fabrica e confecciona.
Sou uma operária na poesia.
Já avisei a Safo que não serei ela.
Já me expliquei com Teógnis, aristocrata,
sou plebeia, filha de fresador ferramenteiro,
não sei de lutas políticas o suficiente.
Já me entendi com Anacreonte, que pouco sei ser satírica
em versos de vinho e de amor.
Sou o que me fizeram.
Sou daqueles que me influenciaram.
Sou sombra deles, irremediavelmente

JANELA DISCRETA – VI – ”παράθυρο”

Noite de lua … não olhou a lua lá fora. O e-mail a tirara do chão. “Saudades”. Por que tão mexida assim, agora, depois de tantos anos! O conteúdo, o pedido delicado, a menção suave a ela, por que tão mexida assim, meu Deus?

Amor de sua vida. Primeiro amor de carne e pele de sua vida. Por que tão mexida assim? Lembrou que ele gostava de mar, era de São Paulo, sem mar. Amar. Aquela barba grande, aquela literatura toda, aquela bolsa de couro repleta de livros, aqueles 10 anos a mais dele, aqueles jantares nos bandejões regados a James Dean, juventude transviada, On the Road, Kerouac, Jules e Jim, Maysa, ah Maysa, Sartre e Simone de Beauvoir, Mário de Andrade, a ditadura militar. Tantos encontros fortuitos, tantas caminhadas de mãos dadas pelas noites, tantas sessões de cinema, pré-estreias.  Que estímulo à leitura, que vontade de ler todo o Sartre pra poder discutir sobre aquilo com ele, que vontade de conhecer Pessoa tão melhor. Passeios de dentro, passeios por dentro.

Por que tão mexida assim agora … “Saudades”. Valorização de palavras escritas, de lirismos uns e outros. Estrada conhecida, familiares, amigos, destinos ..“Saudades”.

Tempo, inimigo cruel de corpos, de projetos, de trajetórias. “Saudades”. 45 anos depois, umas fotos, uns elogios, um reconhecer de carne e osso, um aroma de gente que se conhece, que sabe o valor de si e do outro. “Saudades”. Umas sensíveis observações, uma seleção das histórias preferidas. Olhares pelo retrovisor. Tudo caminha, evolui, se espraia …

Que acaso misterioso é esse que faz uma palavra ganhar tanto sentido. “Saudades”.

Textos e poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Fotos retiradas da Internet : 1-5-7

Vídeos:

1- Canal PedroProgresso

2 e 3- Canal gipsykingsVEVO (canções enviadas por meu filho para começarmos bem o dia; renderam)

A História

SENTIDO HISTÓRICO

Quer saber
que conhecer
quer viver
caminha por estas ladeiras
observa as patas dos cavalos da história
enxerga as colunas e os pórticos das igrejas
namora os alpendres das moradas
alisa os encantos barrocos
ouve as vozes sufocadas por movimentos debelados
adentra as cadeias públicas
bebe a bebida da terra
come a comida da terra
escuta as histórias da terra
sonha os sonhos dos sertões
reza suas procissões eternas
reconhece Brasil por aqui.
E volta.
Ou então fica para sempre.

CONFIDÊNCIAS A MINEIROS

Nesse século dezoito, nas pedras em que vivo,
correm notícias ao pé do ouvido
são encontros secretos de vontades rebeldes
são encontros secretos de amores proibidos
percorro becos e vielas
salto calçadas em ritmo lépido
contorno esquinas
atravesso pontes
salto muros

Ali está ele
lá estão também eles.
Há luz na morada de uns
Há espera nas derramas dos outros

Tenho ouro em mim.

SONHOS DOCES

Há um pé solto que insinua passos a seguir
há um aparelho que comunica as notícias ruins mais do que as boas
há um relógio que marca o tempo implacável
há um tom de memória
de filme
de passado
de sonho
república mineira
no hoje que me acorda tantas lembranças.

TERRA MINEIRA

Toda toada enterra
um topo
um trono
um teto.
Todo terreno tanto
semeia um pomo
um botão
um perfume
um sabor
um tempo.
Vivenda do sobrenome
vivenda de ares e ventos
vivenda de céu coalhado de estrelas
vivenda fértil
vivenda da vinda
vivenda da volta
vivenda semeada.
Toda toada encerra
um ponto
um pouso
um corpo.

A NAMORADEIRA

Encontro ali o bordado da mãe para o enxoval
à frente o pote de pedra sabão
para a banha que a avó derretia.
Natália bordava e crochetava
lindos paninhos
que ora encontro sob caldeirões, chaleiras …
escorre da boca um lirismo sem comparação em mim

A MÃE E AS FILHAS

Ao lado da mãe passam a roupa as filhas
ao lado da mãe cozinham em caldeirões as filhas
ao lado da mãe costuram também as filhas
ao lado da mãe rezam os terços as filhas
ao lado da mãe seguem Adalgisa e Itália

Natália as observa.

CONFIDÊNCIAS MINEIRAS

Há sempre aquele pedaço de terra te esperando
há sempre aquele céu de estrelas à mão
há sempre aquelas estradas a te estender caminhos
há sempre aquele prosear a te aguardar pra contar
há sempre aquele teu sangue mesmo a correr nas veias
há sempre uma cantata a ser ouvida ainda
há sempre um colo semelhante a te esperar
há sempre um ar frio e um vento nos becos a te arrodear
há sempre um café de brasa, um polvilho de brasa, uma linguiça pendurada …
há sempre um cheiro de lenha queimando num fogão da memória.
Há que retornar sempre.

RETÁBULOS

Sagrados aros
altares expostos
falares repostos
ouvires devotos.

Minas serras
Minas terras
Minas entranhas
Minas estradas
Minas, mineiros guardiões.
Minas, mineiros paixões.

Um dedo, um sonho, um medo
Uma rebelião.
Uma porta
Uma retorta
Um arco
Uma janela composta
Um olhar distante
Montanhas em tela.

Inspiração
Entrega
Expiação.

AULAS DE VIDA

Se um professor ou uma professora apresentar um objeto que não seja comum, atual, corriqueiro, cotidiano e pedir a seus alunos que imaginem o que seja, para que serve etc. estará despertando neles uma série de atividades mentais como levantamento de hipóteses, comparações, acesso a uma memória subjetiva e mais, assim o processo de aprendizagem será muito mais rico e concreto do que apenas a leitura de um texto para memorização.

Assim também, ao exibir um filme de época, uma cena, uma tela, ao se discutir um padrão de comportamento pertinente a um grupo social, a um período, um século, uma década , estará proporcionando a reflexão sobre a forma como viviam e o que pensavam aqueles ali observados. Muito mais eficaz do que se basear em uma única visão da história – geralmente a que foi contada e ficou registrada por um dos lados apenas.

E isso se faz com crianças até bem pequenas. Por exemplo, ao ver uma máquina de escrever, um menino de 6 anos verbalizou que era um objeto muito moderno porque era um teclado que tinha impressora. E olhando um toca-discos não sabia nem do que se tratava. Imagine com um aparelho de fax.

HISTÓRIA DAS MENTALIDADES

Foi de um dos fundadores da Escola dos Annales, Febvre (1878-1956), que nasceu um dos mais importantes ramos da historiografia do século XX, a história das mentalidades.

Segundo Febvre, havia camadas do desenvolvimento histórico da humanidade que não sofriam transformações rápidas e nítidas como outras. Assim, por exemplo, as estruturas políticas e sociais seriam as primeiras nas quais se poderia verificar mudanças substantivas, enquanto certos comportamentos e formas de pensamento demorariam significativamente mais para sofrer alterações.

Dessa forma, pensamentos, ideias, ideologias, segmentos morais, atmosferas de compreensão científica, entre outros, estariam dentro da esfera das mentalidades, isto é, formas duradouras de pensamento que caracterizam longos espaços de tempo. Parte dos fundamentos da psicologia moderna, desenvolvida na virada do século XIX para o século XX, ajudou Febvre a assentar suas teses sobre a história das mentalidades.”

In, O que é história das mentalidades: https://www.historiadomundo.com.br/curiosidades/o-que-historia-das-mentalidades.htm

HISTÓRIA DO COTIDIANO

 História do Cotidiano, corrente nascida na França na década de 1960 e que é cada vez mais valorizada. A proposta é simples: enxergar a realidade sob a perspectiva das pessoas comuns e das práticas, hábitos e rituais que caracterizam o dia-a-dia delas, tirando o foco dos grandes nomes e acontecimentos políticos e econômicos e voltando-o para a riqueza que está próxima de todos, impregnada pela aparente banalidade do cotidiano. Investigar, por exemplo, como os cidadãos viviam, namoravam, noivavam e casavam, moravam, se divertiam, eram educados, nasciam e morriam.

Para Eliete Toledo, autora de livros didáticos, a grande vantagem dessa abordagem é que ela envolve muito mais os alunos, principalmente os menores, funcionando como um facilitador para questões menos palpáveis, como a política e a economia: “Fica fácil chegar a esses temas — que não fazem parte do universo deles — quando partimos de algo familiar.”

Além disso, essa é a melhor forma de mostrar que a História é feita por todas as pessoas, em todos os momentos da vida — não apenas quando uns poucos participam de feitos extraordinários. “Esse viés consolida o estudo dos grupos anônimos (operários, crianças, quilombolas…), iluminando aspectos da vida deles que até então não eram vistos”, diz a historiadora Mary Del Priori.

In, O que é a história das mentalidades

https://www.historiadomundo.com.br/curiosidades/o-que-historia-das-mentalidades.htm

Leia também: A história foi escrita pela mão branca

https://www.brasil247.com/blog/a-historia-foi-escrita-pela-mao-branca?fbclid=IwAR1F80588oLU21CZip9lnmQ3_t6CDfD_YJRSO8FbEu9jfKIRkPxmHXOoNoA

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal: (meu ”museum”)

Vídeo: Canal Insomnia

Valor às amizades

Eu só faço um trabalho, quando tem amizade”– Milton Nascimento

Documentário “Sobre Amigos e Canções” que conta a história do movimento musical mineiro Clube da Esquina. Produzido como trabalho final do curso de Jornalismo da PUC-SP, o filme superou expectativas e foi exibido na TV Cultura e em diversos festivais e mostras. As diretoras entrevistaram e acompanharam, durante todo um ano, músicos como Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes, Wagner Tiso, Toninho Horta e outros.

Além das histórias contadas pelos protagonistas do movimento, o documentário é recheado com um material de pesquisa rico em imagens históricas.

Direção e Roteiro: Bel Mercês e Leticia Gimenez

Edição: Thais Cortez Apoio: TV PUC / TV Cultura

Vídeo: Canal Mistérios do Espaço e os Americanos Banda Morta

Fotos de arquivo pessoal

Primeiros passos

AQUARELÁVEIS

sim, na infância
gostava da onda
quebrando sobre mim
uma vez, duas vezes, cem vezes
– Saia daí, menina, as conchinhas virão até aqui


sim, na juventude
adorava estar ao sal ao sol
bronzear-me seduzir encantar
pele morena cabelos longos revoltos
– Cuidado, garota, sol assim faz mal, mar assim também


sim, na maturidade
bebi do sal, do sol, do mar
tanto quanto pude
tanto quanto quis
tudo nele gozei


sim, hoje
procuro o mar a amar
a beber meditação
a sonhar cores e tons
em dias e horas outras
em recantos e cantos tardios
aí sim, eu e ele estamos
só nós

MARES E MARÉS

Nunca tive intenções de mar.
Mulher de águas salgadas,
nasci e convivi com elas
por sempre.

Nos anos em que ainda me empinava
a cauda e o mastro era grande e rijo,
naveguei por marés e areias
de Rio, Santos, Salvador, Itaparica…

Vivi de mar.
Tive riscas de sal na pele ao fim das tardes
cabelos longos que ventavam meu rosto ressecado
por desejos realizados, paixões de sol.

Nunca tive intenções de mar
Nem tampouco de alto-mar.
No Pacífico, gelado e salgadíssimo,
quase sucumbi em um bote pesqueiro, de domingo sagrado.
Albatrozes chegavam-nos aos braços como peixinhos de aquário
a sugar seus alimentos e nosso sossego.

Nunca tive intenções de mar.
Nunca quis sugar nada de seu.
Nunca sorvi mais do que seu quebrar de ondas nos ouvidos
seu movimento de entrega e recolho
pelas manhãs, às tardes,
sentada nas pedras do Farol de Itapuã,
caminhando pela praia de areias pesadas,
namorando distâncias de horizontes imaginados.

Nunca tive intenções de mar.
Em menina, não quis nadar nunca.
Sequer aprender.
Meu encantamento com o mar
é o de quem sabe o que é o mar
e com ele não tem
sequer uma intenção.

ACHADOS E PERDIDOS

Azul
Complexo
De matizes muitos.
A descobrir-se
Inquietações
Sombras molduras, ranhuras de profundidade.
Idade prêmio troféu
Céu

Dores sabores refletores de sinos
Audíveis por ouvidos únicos
Sensíveis aos afrescos de capelas de sangue e cicatrizes
De festas fétidas de pudores singulares.

Vulgaridades expostas
Particularidades repostas.
Estradas de ir e de continuar indo
Sem chegadas
Sem estações
Sem portos
Sem píer sequer.

Rios de águas muitas
Rios de águas poucas
Rios de céus enluarados.
Nuvens emoldurando rumos.
Rumos emoldurando caminhadas.

NO TEMPO

era quase tarde
ali ela apenas
sem ele
com ele
era quase tarde
ali apenas ela
um sino plangente
uma pétala de flor
umas folhas ao chão
era quase tarde
ali ela apenas
sem ele
com ele
uma música interna
um fulgor interno
uma carícia de vento frio na pele
ali apenas ela
sem ele
com ele
era quase tarde
ali

REFÚGIO SECULAR

Quando desavisadamente
o céu mineiro quer me ensinar
bate forte em mim
bate forte na memória do real vivido.

Então fujo
Então me escondo
Então me deixo dormitar
no colo das montanhas
nas pedras do penar
no alvorecer, no entardecer
do desenho das montanhas.

Somos apenas nós
elas e eu
segredando verdades
acolhendo súplicas
curando feridas sempre abertas.

Se há alegrias … Tiradentes.
Se há tristezas … Tiradentes.

Somos confidentes,
secularmente.

MULHER DE OUTONOS

Calem-me aqueles que conseguirem.
Não vai ser fácil.
Aprendi a escrever com letras maiúsculas o de dentro de mim.
Não consigo mais esquecer como se faz.

Beiro as últimas estações de uma existência
Delas colho flores nas primaveras
Recolho folhas secas e murchas nos outonos.
Ensandeço e ardo nos verões
Quedo semimorta de cansaço nos invernos de meu sofrer.

Não quero mais amores que já tive.
Não quero mais emoções que já vivi.
Não quero mais dores que já senti.
Não aceito mais meios, terços e quartos.
Gosto de inteiros, cheios, amplos e grandes.
De tudo que estiver comigo
seja o que for
seja quem for.

Sou mulher.
Estou nos outonos de mim.
Faltam-me poucos meios-dias e meias-noites
Assim desejo-os inteiros.
Nada pela metade.
Ainda que só eu mesma é que saiba
o que é inteiro e o que é apenas metade.

EM FRENTE

Há que se atravessar a pinguela
Há que se fazer a travessia
Há que se olhar em frente
Há que se olhar o céu
Há que se olhar a natureza
Há que se olhar a vida pulsando
Há que agradecer a vida pulsando
o sol que tudo vivifica
Há que se fazer travessias

RECOLHIMENTOS

Fui recolher, varrer, limpar
não consegui
a beleza me reteve
a paleta de cores me deteve
apaixonada
fiquei ali
sentei ali
agradeci ali
paraíso possível
paraíso sensível
paraíso indizível
não atirarei suas cores fora
não retirarei suas cores de mim
não expurgarei seus tons de meu jardim
que restem
que fiquem
que coloram as manhãs
que deslumbrem as tardes
que enterneçam as noites

POSTOS DE ABASTECIMENTO

Há instantes em que nos sugam até o espírito
Há fases em que nos vampirizam todas as emoções suaves
Há momentos de tamanha crueldade e desprezo a nos anular
Há voltas que destilam revoltas em corações esmigalhados
Há vazios perfurantes de facas sangrentas sobre nossa voz
Há que se abastecer os dias e as noites
Há que se beber do vinho tinto dos sorrisos
Há que se saber ler a si mesmo sem as leituras alheias
Há que se manter de pé mesmo após as rasteiras vis
Há que se abastecer de vida
com amigos
com flores e cantos
com risadas compartilhadas
Há de haver postos de abastecimento em nós.

OLHARES PERFUMADOS

Avistamo-nos
da porta ao balcão
um farol de décadas
era ou não era você
era
Uns gracejos de hoje
outros gracejos de ontem
atualizações de percursos idos
revisitações de fatos e feitos
atualizações de sonhos idos
atualizações de sonhos abandonados
em curso o curso das horas que chegam
em curso o curso das décadas que se foram
um fraterno olhar para trás
um fraterno olhar à frente
uma timidez de menino
uma ousadia de menina
risos verdadeiros
sem máscaras, disfarces, nem seduções de ocasião
recordações de sexagenários amigos
recordações de gente da mesma aldeia

INTOLERÂNCIAS

Não tolero mais
hipocrisias, cabotinismos
Não tolero mais
injustiças, descartes, desmontes
Não tolero mais
rapapés, tapinhas nas costas
Não tolero mais
escapismos, fugas, realinhamentos
Não tolero mais
nenhum tipo de disfarce no jogo social
Não tolero mais
o discurso do falso desconhecimento
Não tolero mais
o efeito manada
a manipulação generalizada
Não tolero mais
o que tolerava
quando mais jovem
quando mais ingênua
quando mais crédula.

PISANDO EM TERRA FIRME

Quanto vale um abraço de carne e pele?
Quanto vale sentir-se segura nos braços de alguém?
Quanto vale ver-se forte e reconhecida?
Quando vale pisar em terra firme?
Quanto vale estar entre gente do mesmo berço?
Quanto vale sentir o cheiro da sua aldeia de novo?
Quanto vale estar exalando carinhos?
Quanto vale falar e ser entendida?
Quanto vale estar distante de fingimentos oportunos?
Quanto vale não se sentir afogada em mar traiçoeiro?
Quanto vale dar e receber afagos em dobro?
Só estando em terra firme.

CHEGANDO AO FIM

Nada importam cascas e capa
Nada importam tecidos e chapéus
Nada importam apupos e rapapés
Essencial é a alegria
Essencial é a simplicidade
Essencial é a cumplicidade.
Essencial é a bondade.
Os bolsos seguirão sem moedas
As mãos seguirão sem anéis
Os ombros seguirão sem afagos
As pernas seguirão sem apoios.
As últimas estações
não podem ser vias sacras.
As últimas estações devem ser leves, francas e ternas.
Se a vida é um sopro,
há que se encontrar
quem a assopre com ternura.

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal Biscoito Fino

Laços e enlaces

LAÇOS

a moça, o moço
a flor, o ícaro
terra e céus
ícaro pousa suas asas em terra
flor voa nas nuvens de ícaro
brincam, rodam, dançam
embaraçam-se nos laços
fluem nas nuvens
desenham nas nuvens
pousam em terra
enlaçam-se
acreditam em seus laços
riem, dançam
amam
a moça, o ícaro
céus e terras
enlace

CUMPLICIDADES

amor
é fogo
que arde
cedo
beija-abraça
acompanha
vibra
cúmplice-parceiro
saudável
saudoso
doente
dolorido
forte-enfraquecido
amor
é fogo
que arde
tarde
enraizado
florido-frutificado
adocicado-irado
tratado
perto-longe
dentro-fora
nas veias
na saliva
no gozo
no grito
no rito
infinito
amor
é fogo
que arde

Dedicado aos dois jovens de 20 e poucos anos que acreditaram em seu amor e construíram uma linda parceria com ele. Salve Lu e Ju. Sigam sempre lembrando como vocês eram nesse momento. Beijos.

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal Solange Menezes

''Cacos de vida no chão''

CERTAS CANÇÕES

Certas canções que ouço
Cabem tão dentro de mim
Que perguntar carece:
“Como não fui eu que fiz?!”
Certa emoção me alcança
Corta-me a alma sem dor
Certas canções me chegam,
Como se fosse o amor
Contos da água e do fogo
Cacos de vida no chão
Cartas do sonho do povo
E o coração do cantor
Vida e mais vida ou ferida,
Chuva, outono ou mar,
Carvão e giz, abrigo,
Gesto molhado no olhar
Calor, que invade, arde, queima

Encoraja, amor
Que invade, arde, carece de cantar
Calor que invade, arde, queima
Encoraja, amor
Que invade, arde, carece de cantar…

(Tunai)

PORTO SEGURO

terceiro ano
colegiais
feriados de outubro
passeio de formatura
a pulseirinha crachá

outromundo, meo
outra realidade
virtual nada
real, meo
as danças coletivas
quase nus
os passeios coletivos
os passeios em duplas
o perdido
os achados
a areia branquinha
o sol cedinho
a água limpinha
o mar-amar chama
o mar-amar excita
o mar-amar seduz
nus
o perdido
os achados
a lua redonda
no céu
no mar
as canções
nas danças atadas
o mar-amar
outromundo, meo

RONDA NOTURNA

estaciona o carro
pensa nela
pensa neles
pensa e sente
senta
ouve o violão
o buteco
a cerveja
as cervejas
pensa nela
pensa neles
pensa e sente
sozinho com tanta gente
outras mesas cantam
a pinga
as alegrias
soltam nas vozes
petiscam delícias
petiscam saudades
pensa nela
pensa neles
pensa e sente
sai
vaga pelos outros bares
pensa nela
pensa neles
pensa e sente
olhares uns
olhares outros
um riso, um guizo
outras-outros
pensa nela
pensa neles
pensa e sente

segue a ronda

CADERNO DE RASCUNHO

sílabas suaves
perfumam manhãs
embriagam acordes de pássaros insistentes
sílabas suaves
escrevem palavras assim-assado
nas páginas de um caderno na memória

palavras aos ventos
brincam, dançam, murmuram
palavras aos ventos
colorem as tardes comuns
palavras aos ventos
correm no esconde-esconde noturno

frases ingênuas
anunciam sentires
desenham sabores sensuais
frases ingênuas
oferecem boninas, rosas, violetas
entregam cestas de perfumes especiais

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos

1- Canal Lilith Aldreycka

2- Canal Babado Novo

3- Canal So Musica Boa

4- Canal Moacir Simpatia