Choros e valsas

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NO BAR

Sozinho mastiga uns versos e uns torresmos sequinhos

pede a branquinha e ouve a música que toca

ouve a música interna que toca

mastiga uns versos internos

quase de cor.

O parceiro desconhecido senta ali

quer saber o que fala sozinho para si mesmo o outro.

Bebem pinga

bebem galhofas

bebem exageros

bebem mulheres

comem mulheres

de todos os tipos e jeitos

riem delas românticas, melosas, carentes

entregues a seus beijos e  abraços

Obedecem ao ritual

do falo imposto

do falo exposto

do macho imposto

do macho exposto.

Bebem.

Comem.

Alguém traz um banjo

A cidade fascina o banjo.

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CORAÇÃO TRAIÇOEIRO

Recordações espremem limão na pinga

Companheiros ouvintes de peito encharcado

Narram loucuras e entregas

“Eu abandonei tudo por ela

Saía da cidade, rodava mais de 500 quilômetros,

mas uma estrada no meio tem seu valor,

depois ela montava meu cavalo e galopava comigo por dias,

sem tirar,

sem reclamar

só prazer”.

Como num jogral afinado, o outro desfia

Vivi perdido por meses no meio do mato,

entre rio e mar,

caminhadas de só nós,

em pelos e mel,

abandonei trabalho, família, cidade,

mas valeu cada milhar de moedas deixado ali“.

Pinga e choro.

Alguém traz um cavaquinho, um violão

Bebem

Comem

Iguais

São iguais

MULHER, TEM MUITAS

O cavaquinho derrete as cordas

os dois se embebem de seus merecimentos

Nada de chorar por mulher

“Mulher, tem muitas”

Ouvem as notas agradecidas nos dedos do amigo de copo e bar

“Mãos que sentem”, diz um

“Mãos que machucam”, desabafa o outro.

Olham ao redor

Duas mulheres batucam o choro chorado na mesa

Duas mulheres cochicham suas dores e mágoas

Um pote de mágoas

de zumbis, cobras venenosas, julietas, medeias, jocastas

Doem suas dores nos copos esvaziados

outros copos

outras vozes

outras vezes

Bebem.

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CHORO MOTRIZ

Uma noite

outra noite

um rosto, um resto

uma rota

sem volta

sem farol, nem luz

uma noite

outra noite

“amanhã é outro  dia”

Bebe versos, mastiga pinga

uma noite

outra noite

outro rosto

outra noite

outro rosto …

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Poesias: Odonir Oliveira (esboço de roteiro poético para um filme, uma peça teatral)

Imagens retiradas da Internet

Vídeos: Canal Música

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Caminha, Dolores, caminha !

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POENTE

Todos correm

Apressados

A dança se inicia

Onde estaria meu par ?

 

Passos apressados!

Ritmo acelerado!

Que desse lado já dançam !

São muitos os pares !

 

Ajeito a boca

Com batom vermelho da cor do poente

Arrumo os cabelos curtos

Mas embaralhados

Por aquelas emoções.

 

Procuro

Procuro

Onde estaria meu par ?

 

Apresso a coreografia

Antes que ele se perca de mim.

Apresso

Apresso

Vislumbro-o ao longe, que longe !

 

Do outro lado do lago.

De lá, comigo não poderá dançar.

 

Aceno

Aceno

Ele me entende

e atravessa,

também ele,

coreografando passos,

o lago.

 

Agora sim ,

aqui perto,

corpo a corpo,

pele a pele,

nos engatamos no ritmo,

também.

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IN VINO, VERITAS 

Que Dioniso

chame Baco

refestelem-se nesse sofá

fazendo amor

com os carinhos

todos da embriaguês

 

de vida

PRAZER

Prazeres

degustando

os mistérios gozosos todos

 

inebriantes

ansiados

perseguidos

por muitos.

 

Pouco alcançados.

 

Gozo

Intenção

 Ação.

 

Água

Mato

Ondas eternas

Eternas ondas.

 

In vino, veritas?

Verás.

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FARÓIS

Na picada

caminha, Dolores

vai, Dolores

segue, Dolores

Tem lua

está nua

não olha para trás

em frente, Dolores

enfrente, Dolores

de frente, Dolores

No escuro

um muro

um furo

duro

não olha para trás

corre, Dolores

Tem lua

segue a lua, Dolores

um monte, uma pedra

chega, Dolores

recebe, Dolores

Os faróis, Dolores, os faróis

são olhos

são olhos, Dolores

São os olhos azuis ?

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Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal ( última foto retirada da Internet)

1º Vídeo: Canal Ibrahim Maalouf Official     

2º Vídeo: Canal  La Brebis Galeuse 13 

3º Vídeo: Canal Ibrahim Maalouf Official    

 

Helena, Helena, a bailarina menina

PEDACINHO DE CÉU

Maria Helena

bate ponto num céu cinzento

produz cresce segue luz

pedacinho de céu nos braços

pedacinho de céu nos espaços

vive vive cresce cresce

Helena

amplia horizontes

céus largos

céus sociais

céus de igualdade

céus de liberdade

Poços e possos

passos e possos

Poços, passos, Poços

pedacinho de céu insatisfatório

Lenita quer um céu inteiro

para mim

para ti

para nós

para todos.

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LENITA

Não sei o teu nome

e ainda que soubesse de nada me adiantaria.

 

De nada me adiantaria

ou nada acrescentaria além de saber-te leve

dançarina fluida,

diplomata

ouvinte

sabente

exultante.

 

De nada me adiantaria,

ou nada acrescentaria às tuas visitas cotidianas

aos respingos de risos

aos teus galanteios múltiplos e rotineiros.

 

De nada me adiantaria

ou nada acrescentaria além de tuas pegadas noturnas,

meio escondidas,

muitas vezes encontradas apenas nas manhãs seguintes.

 

De nada me adiantaria, nada mudaria

a não ser saber-te uma bailarina em menina,

e uma mulher,

a quem qualquer um quer.

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Foto de Luiz de Campos Júnior

Dedicado a minha amiga e leitora de manhãs, tardes e noites, Maria Helena Prado. Lê, comenta, acrescenta, faz companhia, ouve as sinfonias, enfim, uma COMPANHEIRA E TANTO.

 

Poesias: Odonir Oliveira

1º Vídeo: Canal ArquivoRaíssaAmaral

2º Vídeo: Canal luciano hortencio

3º Vídeo: Canal  N2010R

No colo do tempo: dona Geralda

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Anos noventa  … fatos vêm, vão, ficam.

Quando ainda lecionava diariamente para garotos e garotas, aos sábados levava meus cursos a escolas, a cidades, em São Paulo e fora do estado também. Eram cursos para professores. Ali compartilhava com eles teoria e prática. Fazíamos na prática aquilo que estávamos estudando, viam a viabilidade de execução do que lhes estava sendo proposto . Dessa forma, aprenderam a ler poemas, a fazer poemas, a ensinar gramática com significado de uso e não meramente como ponto ou tema que teria que ser ensinado. Discutíamos projetos a partir de literatura, de visitas a equipamentos culturais diversos: idas ao cinema, ao teatro, a um museu, às ruas, a construções históricas, enfim a cidade educadora polvilhava o ensino e a aprendizagem dos professores e, consequentemente, esperava-se que a de seus alunos também.

Nesses anos havia um ponto comercial próximo a minha casa na Vila Romana, em São Paulo, onde se faziam cópias de xerox. Eu batia ponto quase diariamente lá, com livros, imagens, material a ser copiado e distribuído em meus cursos: reproduções de trabalhos de alunos, encaminhamentos de sequências didáticas, poemas, páginas de romances, pinturas e obras de arte de artistas plásticos … assim, conheci dona Geralda. (Devo confessar que já se vão mais de 20 anos e quero crer que não fosse esse seu nome. Utilizo-o aqui como referência agora.)

Dona Geralda era mais velha que eu, já tinha netos e era responsável pelas cópias de xerox. Íamos conversando, enquanto ela copiava meu material, quase sempre extenso, permitindo longas conversas, desabafos, confissões por parte dela. Vez ou outra eu perguntava algo- a título apenas de gancho ou continuidade. Contou-me que não havia concluído o ginásio, era mãe e avó. Nada falou de marido. Tinha netos grandes já. Seu sonho maior era fazer uma faculdade, por isso continuava a ler. Perguntei-lhe o que lia. Respondeu com o nome de um livro. Como eu ainda não compreendesse, me disse que tinha apenas aquele livro- um romance- por isso o lia inúmeras vezes para não perder o hábito de ler ( para não esquecer que queria continuar seus estudos, enfim, para não perder o vínculo com a cultura, com o mundo da beleza, da arte, do sonho, da suavidade humana – entendi eu).

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Encantada com aquela varinha de condão de dona Geralda, contei sua história para meus garotos e garotas em aulas na escola privada e na escola municipal. Foi o bastante. Recebi doações de muitos livros. E a cada vez que ia até ela, levava-lhe um deles. Depois, dois. Ganhou muito a dona Geralda. Não só livros, mas um mundo inteiro pra desejar, pra sonhar, pra viver, pra ir buscar.

Uns meses depois, quando passeava com minha cachorra Menina e passava em frente ao seu ponto de xerox, chamou-me e contou-me que havia feito sua matrícula em uma escola municipal, no curso noturno, na suplência, pois queria continuar seus estudos. Tinha desistido da medicina, que era seu sonho de menina pobre. Agora queria estudar pedagogia e ensinar. Queria ensinar o quanto era importante estudar, ler, porque “os jovens de hoje não estão querendo saber de nada, viu”.

Disse à dona Geralda que ela já havia ensinado. Não só a meus alunos- aos quais contei sua garra e vontade de tomar o conhecimento nas mãos- mas a mim, a quem havia ensinado, um pouco mais, a acreditar, a ter esperança e que o novo sempre vem.

Ela já era uma PEDAGOGA, portanto.

 

Texto: Odonir Oliveira

Vídeos: Canal  petrhamsacz 

Imagem recorrente: a sopa quente

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IMAGEM RECORRENTE:  A SOPA QUENTE

 

Desde menina, fulgura em mim a imagem recorrente do prato de sopa quente.

Filho reclama da conversa de tema recorrente

De novo isso, de novo isso.

São nevascas constantes

são ventos gelados

são ares glaciais

são abandonos na paisagem

são passos quase insuportáveis

são vezes e vozes eternas.

 

Socorro imperativo

murmúrios, gemidos

ranger de portas supostas

acesso a corações

acesso a corpos

acesso ao calor

acesso ao fogo

acesso a sopas quentes.

 

Da minha infância

dos filmes em que  vivi

das narrativas que li

o que são essas sopas quentes

o que são esse fogo e esse rescaldo

recorrentes correntes

nas neves de mim ?

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Versos: Odonir Oliveira

Vídeo: Canal Aldo Patrana

Nos domínios do Dominó de Botequim

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Os deuses gregos pavimentam as picadas por onde caminho. Gosto de Dioniso, Dionísio, em particular. Parece que quando se apossa do continente em que repousam meus esgares e muxoxos traz conteúdo e néctares, literalmente dos deuses, a mim.

Assim é que adoro comer.Não tenho limitações quanto a isso. Experimento issos e aquilos de boca cheia. Sinto um PRAZER enorme no ato de comer. E não preciso de companhia para isso. É um prazer solitário que satisfaz muito também.Amigos de áureos tempos em Santos e Salvador se valiam da minha íntima relação com garçons para obterem benefícios e regalias de ocasião- digamos assim. Adoro um bom papo com garçom, atendentes de bar, em geral. Começo perguntando seu nome, oferecendo certa dignidade àqueles pedidos personalizados e à atenção que nos dedicam, quase sempre. Enfim, gosto de puxar histórias e de ouvir, quase até sem ter que perguntar. Só ouvir. E de pimenta da boa.

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Vez ou outra levo um livro pra esperar a preparação dos pedidos. O que causa espécie nos demais frequentadores. Quando não estou sozinha, converso e tal, mas levo também. E caipirinha – além do vinho que prefiro beber em casa, em companhia de versos- essa é de se lamber o copo. Gosto dos sabores. Por aqui, diferentemente de São Paulo, não esmagam os limões, dizem que amargam, fazem as caipirinhas com um toque mineiro que adocica a alma.E é nesse adocicar que Dioniso, Baco, chega, me cumprimenta, faz mesuras de quem já sabe de tudo e passa a desfilar como se fosse assim um mestre-sala para sua porta-bandeira.  Rodopia nas ações, amolece os sentires, entrega a malemolência ao corpo e diz a que veio. Ah, diz.

Dia desses fui comer camarões, casquinha de siri, moqueca de peixe e gostosuras muitas que aprendi a apreciar no Rio, depois em Santos, em Salvador e até em São Paulo por último.(Os veganos que me perdoem, mas adoro também um bom churrasco, sangrando mesmo, me delicio aos espetos e brasas.) Estando ali, lugar em que piso e fico várias vezes, puxei meu livro, comecei a ler, a saborear a primeira caipirinha. Logo chegou o pastel de camarão e depois a casquinha de siri, mineiramente no potinho de pedra. Delícias orquestradas por Baco, sei lá.

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A conversa com Elisângela, que me trouxe os pedidos, foi se aquecendo, no canto que preferi sem TV, que não reparto prazeres com qualquer emissora. Ela então foi-se acercando da leitura, querendo saber mais, perguntando…. Quando lhe disse que era amiga de Rui Daher, autor do livro, e lhe mostrei a dedicatória então, foi o ápice da satisfação. Dela e minha, que me encantei com o fato de ela gostar de ler etc. Queria comprar o livro. Disse que adorava caipirinha – como eu – e outras coisinhas mais.

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Fato é que sempre me encontro com sua filha Lohaine, 18 anos, amiga de infância, agora, mas nesse dia foi a mãe que fez as vezes de interlocutora. Foi Dioniso, concluo. Só Dioniso adivinha sentires e ficares, polvilha prazeres em extensão plena, adocica momentos e os eterniza.

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Foi Dioniso que pulverizou aqueles camarões, a mandioca, aipim, a casquinha de siri, o alho aromatizador, o pastel e a vida. Ainda que tarde.

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Post dedicado ao amigo Rui Daher, cientista social, especialista em agronegócios, colunista de Carta Capital e, principalmente ótimo cronista da vida. Salve, Rui !

Texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal Sesc em São Paulo