Ser e parecer ser

SER OU NÃO SER
o jeito parece ser
o ser engana
a fala parece ser
o ser engana
o meio parece ser
o ser engana
a moldura parece ser
o ser engana
o retrato parece ser
o ser engana
a aparência parece ser
o ser engana
a essência parece ser
o ser engana
o território parece ser
o ser engana
caipira parece ser
o ser engana

AVARANDADO
A taça de Dioniso me impele.
Não estou aqui.
Vou. Vou. Vou.
Olho, olho, olho.
Sinto, sinto, sinto.
Não tiro poesias das coisas.
Amo as coisas e elas tornam-se poesia.
Amo formigas e formigueiros, imagine.
Amo casas e telhados coloniais.
Amo cães e flores de todas as variedades.
Amo cachoeiras, rios, cascatas e chuva.
Amo sol, lua e estrelas.
Amo trens e estações vazias.
Amo música sem palavras e silêncio.
Amo risos de crianças e perfumes de amor.
Talvez por isso seja tão confessional e comum o que escrevo
porque as coisas sobre as quais versejo
estão prosaicamente aqui, ali, em qualquer lugar.
Não tiro poesia das coisas.
Amo as coisas e elas tornam-se poesia.

LÍNGUA E LINGUAGEM

Na década de 1980 começaram a chegar às escolas – com atraso de pelo menos uma década – os estudos de sociolinguística, as variantes linguísticas, o respeito aos falares etc. Até então, nas aulas de Português – disciplina -ensinava-se muito mais a gramática: as construções sintáticas e morfológicas do português escrito e em norma culta, o aceito socialmente etc. Sabe-se que ”o português” são muitos (já ensinava Drummond com “o português são dois’‘, em seu poema ”Aula de Português”). Esse ensino de NORMAS gramaticais, segundo a história da educação, advinha do ensino religioso que primava por pregar padrões clássicos de leituras, de condutas etc. Tudo seguindo norma única. Os colégios jesuítas disseminaram em terras brasileiras esses ensinamentos. Era o ensino para OS ESCOLHIDOS, para alguns. Os outros … continuariam analfabetos, serviçais, braçais etc.

Quando a universalização do ensino se deu (como ainda acontece hoje no Brasil inteiro) predominaram as ESCOLAS PÚBLICAS. Ainda assim, destinavam-se a poucos. Era mais fácil se ensinar a decorar regras gramaticais da norma culta a quem já as usava em casa. Alunos vinham de famílias com livros em seus lares, com experiência de cultura formal etc. Só iam para ESCOLAS PARTICULARES aqueles cujos pais preferiam o ensino religioso ou os que não ”conseguiam acompanhar” o ENSINO PÚBLICO – porque eram reprovados por anos seguidos. As ESCOLAS PARTICULARES, não-religiosas, ditas leigas, abraçavam ”alunos de classe média e média alta considerados ”problemas” para escolas públicas (por vezes, sendo até expulsos/jubilados dessas instituições).

Em um quadro, de universalização das ESCOLAS PÚBLICAS, seriam evidentes as diferenças entre as línguas orais e escritas dos alunos. Ensinar uma gramática de normas e regras cultas tornou-se desafio enorme – quase como colocar um pé 40 num sapato 36, um canhoto escrever com a mão direita, um pato voar bem alto etc. Passou-se a ter de entender a linguagem que traziam, as culturas que traziam e a respeitar-se tudo isso. Era preciso ensinar a ”ser poliglota na sua língua”, conhecer para saber usá-la em situações que solicitavam certo código linguístico – para isso seria necessário que os professores também se adequassem, mudassem paradigmas. (Resistências enormes: ”Tenho que desaprender’, já vi, né’, ”Então é pra baixar o nível, né?”) – Na verdade, medo do ”novo”, de ter de estudar, de ter de se confrontar com a realidade social do país, de ter de SER PROFESSOR (A)/ EDUCADOR (A).

É imprescindível trabalhar-se com a oralidade dos alunos em sala de aula. A mescla é saudável. Aprendi muito com meus ”meninos”. Nunca me esqueço de quando era professora de Sala de Leitura, em SP, numa aula noturna, com alunos de supletivo – hoje EAD – e comecei uma aula com a música do Chico ”Pivete”. Foram ouvindo, fui tirando deles o que achavam, do que o poeta falava etc. (Tinha acabado de acontecer o massacre do Carandiru) – a escola ficava na periferia da zona oeste da cidade, com gente bem humilde no bairro.

Percebi que interagiam pouco, meio tímidos. Interrompi a canção, perguntei o que gostavam de ouvir. Resposta unânime: RAP. Os MCs eram seus ídolos. Pedi que trouxessem as letras, cantaríamos e eles me ensinariam aquilo tudo, porque eu conhecia pouco. ”Eu tiro as cópias, professora, lá no Xerox que eu trabalho”. ”Eu trago os CDs.” ”Eu também”. Animação total.

Na semana seguinte – as aulas na Sala de Leitura eram semanais, com empréstimos etc. – me apresentaram o RAP, os campeonatos, dançaram HIP HOP, e eu fiz ”do limão muita limonada”, comparando com ‘Pivete”, e ”O meu Guri” do Chico, a diferença entre as linguagens etc. Depois fomos para a ”pixação”, o graffiti, primeiro no papel kraft, com desenho de tijolos e com os graffitis em giz de cera sobre os tijolos. Depois, ah, depois, eles grafitaram coisas belíssimas nos muros da escola – com a sedução da diretora à causa. E num sábado, à luz do sol: participativos, vibrantes, criativos e conhecedores de seus direitos, de seus deveres … e de Chico Buarque também. Daí para as poesias de autores populares, regionais, leitura dos regionalistas etc. foi ”sopa no mel”. E dá-lhe RAP.

Observação do mestre Graciliano Ramos que, ao se referir à arte de Cândido Portinari, dizia que ela morava dentro dele próprio. “Arte é sangue, é carne. Além disso não há nada. As nossas personagens são pedaços de nós mesmos, só podemos expor o que somos.”

PERTINÊNCIA: Havia escrito esse post alguns dias atrás e hoje assisti a uma live no 247, com o Zé Miguel Wisnik , meu ex-professor na USP. Coincidentemente, falávamos das mesmas coisas.

Poesia e texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1- Canal Felipe José

2- Canal Caetano Veloso

3- Canal Elza Soares

E, nem, mas também: adições

“Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas” – Guimarães Rosa

BONS FRUTOS

Enem
e, nem, também
aditivas
mas, porém, todavia, contudo
adversativas
o bem
o mal
o bom
o mau
vai, segue, luta, resiste
união, agrupamentos, intenções
semelhantes
meninos e meninas
rapazes e moças
Enem
vai
seu rumo promete
sua meta na seta
reta
união, agrupamentos, intenções
vai, segue, luta, resiste
vai ser técnico
pode ser
vai ser mestre
pode ser
vai ser pesquisador
pode ser
vai ser doutor
pode ser

Escola Agrícola ”Diaulas Abreu” (1910) – hoje Escola Agrotécnica Federal de Barbacena – onde meu pai estudou até 1938

UNS E OUTROS

5 da manhã
café puro
pão velho na chapa
quente

acorda um
acorda o outro
acorda a outra

seguem
caminham todas as picadas, pinguelas, estradas
seguem
no horizonte um ponto
no porto um norte
no firmamento uma luz
fim do túnel
começo da vida
escola, amigos, professores
pertencimentos

Grupo Escolar ”Bias Fortes”, Barbacena, MG – com mais de 100 anos – onde minha mãe estudou
Escola Santo Antonio (ESA), RJ. pública – mantida pela FNM, – onde cursei o primário, até 1964

PRESENTE FUTURO

5 da tarde
caminho de volta
barrigas cheias de livros
barrigas cheias de esportes
barrigas cheias de músicas
barrigas cheias de narrativas
cansaço no corpo
cansaço das travessias
corpo reage com esperança
corpo reage com energia
corpo reage com alegria
dormir
sonhar
presente futuro de seres humanos
semeaduras de afeto
semeaduras de atenção
semeaduras de cuidados

presente germinando amorosidades
futuro frutificando estrelas.

Colégio Estadual Barão de Mauá, RJ – onde cursei o ginásio, até 1968
Colégio da Companhia de Maria, onde cursei o Normal e me formei em 1971

CAMINHOS E ROTEIROS

segue, vai, ruma
magistério no estadual
integral com mínimo salário
estuda
segue, vai, ruma
seis irmãos
vão
sábado-domingo vende
pipoca, cachorro-quente
em frente ao estádio
lotado
a mãe, os irmãos
vendem
segue, vai, ruma
aulas da semana
mana
pauliceia desvairada
trem, ônibus, canelas
grana pouca
viaja nos sonhos
dorme no trem
que vai e vem
subúrbio que nem
formatura, troféu dos céus
falta cascalho pra FUVEST
salva pelo ENEM
segue, vai, ruma
facul privada
financiada
noturno
no contra-turno trampa
com a meninadinha
é fadinha
escolinha na favela
concurso público
professora, pedagoga
segue, vai, ruma
tudo é duro
tudo é árduo
tudo é garra
age

sabe na pele
sente na pele
sem discurso
age

Universidade de São Paulo – USP- Cidade Universitária – onde cursei bacharelado e licenciatura de 1973 a 1977

ESCOLAS EM MINAS GERAIS

Escola Municipal Pe. João Borges Quintão, Marliéria, MG
Escola Municipal ”Cel. Felício Miranda”, Jaguaraçu, MG

TEMAS DAS REDAÇÕES DO ENEM
2018 – Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet
2017 – Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil
2016 (2ª aplicação) – Caminhos para combater o racismo no Brasil
2016 (1ª aplicação) – Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil
2015 – A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira
2014 – Publicidade infantil em questão no Brasil
2013 – Efeitos da implantação da Lei Seca no Brasil
2012 – Movimento Imigratório para o Brasil no século XXI
2011 – Viver em rede no século 21: os limites entre o público e o privado
2010 – O trabalho na construção da dignidade humana
2009 – O indivíduo frente à ética nacional
2008 – Como preservar a floresta Amazônica: suspender imediatamente o desmatamento; dar incentivo financeiros a proprietários que deixarem de desmatar; ou aumentar a fiscalização e aplicar multas a quem desmatar
2007 – O desafio de se conviver com as diferenças
2006 – O poder de transformação da leitura
2005 – O trabalho infantil na sociedade Brasileira
2004 – Como garantir a liberdade de informação e evitar abusos nos meios de comunicação
2003 – A violência na sociedade brasileira: como mudar as regras desse jogo
2002 – O direito de votar: como fazer dessa conquista um meio para promover as transformações sociais que o Brasil necessita?
2001 – Desenvolvimento e preservação ambiental: como conciliar os interesses em conflito?
2000 – Direitos da criança e do adolescente: como enfrentar esse desafio nacional
1999 – Cidadania e participação social
1998 – Viver e aprender

COMPETÊNCIAS AVALIADAS
Competência I: demonstrar domínio da norma culta da língua portuguesa
Competência II: compreender a proposta de redação e aplicar conceitos das várias áreas de conhecimento para desenvolver o tema, dentro dos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo
Competência III: selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista
Competência IV: demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a construção da argumentação
Competência V: elaborar proposta de solução para o problema abordado, mostrando respeito aos valores humanos e considerando a diversidade sociocultural

EU E O ENEM

Fui corretora de redações do ENEM, em seus anos iniciais. Foram 3 anos de bastante experiência. O exame ainda era apenas Exame de Avaliação do Ensino Médio e não vestibular para ingresso em Universidades Federais. Ao contrário, faculdades privadas deixavam de ter custos com seus vestibulares e já aceitavam os resultados do ENEM. Aliado a isso, empresas usavam as avaliações do exame para admissão e contratação de funcionários de nível médio. Enfim, a finalidade, de certa forma, se via desviada daquela que havia dado origem ao exame.

Jovens e adultos jovens egressos de colégios privados não deram, nesse tempo, importância ao ENEM. Quem fazia o exame eram, em enorme maioria, alunos de colégios públicos. Os resultados individuais e por escola não retornavam aos domicílios escolares e, assim, não se percebiam melhoras nem em políticas públicas, nem em intervenções nas estruturas curriculares existentes.

Durante 3 anos corrigi cerca de 5 mil redações. Percebia em certos corretores – a correção era presencial – certo desprestígio aos ”alunos”. Alguns ridicularizam o que haviam lido etc. – o que era proibido e muito recomendado nos treinamentos antes das correções. Havia muitos mestres e doutores, muito jovens, com certos conhecimentos acadêmicos, mas sem experiência em salas de aula – principalmente em colégios públicos.Criaram na Internet as famosas PÉROLAS DO ENEM. Todas repletas de inverdades, visto que o exame não tinha (nem tem) questões abertas que admitissem aquelas respostas, nem sequer aquelas ”piadas” poderiam dizer respeito a qualquer tema das redações – uma crueldade e um desserviço ao ENEM.

Se havia quem devesse merecer nossa solidariedade, compaixão e ação, esses seriam os jovens que escreviam aquelas redações. Havia momentos em que eu percebia que muitos não sabiam nem o que era um texto argumentativo, qual a sua estrutura, a linguagem culta a ser usada, não tinham vocabulário pertinente ao tema, e muitos erros de ortografia de concordância etc. Ficava pensando vontade de sentar esse menino aqui do meu lado e ensinar a ele, caramba. Mas nem mesmo os professores deles sabiam como desenvolver temas dissertativos como os propostos, como iriam lhes ensinar, então.

Quando os resultados começaram a voltar para os domicílios escolares, os pais de alunos de escolas privadas começaram a pressionar as instituições de ensino. Muitas passaram a exibir faixas na frente das escolas com os resultados positivos de seus discentes e até a seduzir com pontos na média os alunos que fizessem o ENEM, incentivavam os melhores a isso. Portanto, outro desvio de função daquele da origem do exame.

Corrigíamos 100 redações em 4 horas, durante 1 mês inteiro, inclusive aos sábados, com turmas de corretores em manhã, tarde e noite. Cada redação era avaliada por 2 corretores – sem que um soubesse as notas atribuídas às 5 competências pelo outro, caso houvesse discrepâncias, o computador requisitava 3ª correção – tudo isso depois de supervisores acompanhando seus grupos de corretores, nas salas de correção, pedindo que se revissem algumas notas etc. Tudo com grande seriedade e responsabilidade.

No 1º ano do governo Lula, fizemos uma avaliação na qual sugeríamos que o dinheiro público envolvido ali fosse revertido para melhorias efetivas ao ensino público – médio e fundamental e que o ENEM pudesse se tornar vestibular para as Universidades Federais. Os estudos demoraram um tempo. Mas logo depois isso aconteceu. Algumas Federais não aceitaram. Queriam manter sua seleção tradicional etc. Ano a ano foram sendo feitas alterações. Várias foram aceitando, até algumas Estaduais.

Ao mesmo tempo em que corrigia o ENEM, por 3 anos, participei da banca de seleção para premiação, pela Editora Abril, do PROFESSOR NOTA DEZ (hoje EDUCADOR NOTA DEZ). Pude ler trabalhos e projetos de língua portuguesa, leitura e literatura desenvolvidos por professores em escolas de nível fundamental e médio por todo o Brasil. Com isso, estive com docentes e discentes nas mãos durante esses 3 anos.

Resolvi, nos anos seguintes, fazer capacitações para professores das redes públicas de ensino por todo o país. Por consequência, também, escolas privadas requisitavam meu trabalho. Foi o que pude fazer, depois de ter me aposentado das salas de aula, em 2003.

O ano letivo não corresponde ao ano de calendário. Tome-se o exemplo das Universidades Federais que, por paralisações e greves, têm ano a ano mexido em seus períodos. Terminam anos letivos em meio de semestres etc. Portanto, em 2020, o ENEM deve ser, constitucionalmente, adiado. É cruel submeter jovens e jovens adultos que – por natureza social cruel – já têm condições diferentes de ensino-aprendizagem, a um prova, sem terem tido aulas. Os mais favorecidos possuem celulares com banda larga ampla, veem vídeos, fazem vídeos neles etc. Os meninos mais pobres não têm Internet, ”bebem” bandas alheias etc. não possuem espaço adequado em suas casas para estudo, nem livros, nem interação educadora com os pais e o conhecimento.

ENEM adiado já!

LOUVAÇÕES

Louvo, louvo sim
se os miseráveis de amor não sabem
agradecer
contemplar
interiorizar-se
se os pobres de espírito não conseguem
beber o sol
rir das gotas de chuva
esfregar-se no orvalho
acordar de seus mundos pequenos
Louvo, louvo sim
se os incapazes de amar
rejubilam-se com instantes apenas
sem conhecerem
a alegria da luz da fé
o gozo das vidas plenas
a graça das cachoeiras solitárias
se os ímpios de fraternidades
não se compadecem das dores de irmãos
sem nada fazerem para impedi-las
sem nenhum ato de coragem
sem um minúsculo sussurro de carinhos
Louvo, louvo sim
as graças das orações ouvidas pelos ares
de norte a sul
de leste a oeste
dos cânticos e correntes de fé
dos cânticos e correntes de harmonia
Louvo, louvo sim
a força que os pios de coração
dispararam de suas gargantas
entoaram em seus hinos
coloriram com suas esperanças
perfumaram com suas fragrâncias de rosas

Obrigada
O universo conspira para o BEM.
Louvo, louvo sim.

Há sol. Mas estou sombra
A sombra assombra
Assombram a sombra
Há sol. Mas estou sombra
O ”mar” veio até mim e, na areia da calçada em frente, deixou ali, restando, uma porção de conchinhas. Recolhi-as, uai.
Quem disse que em Minas não tem ”mar”?
EPCAR- Escola Preparatória de Cadetes do Ar, Barbacena, MG (imagem capturada do trem de carga)

Poesias e texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal (2ª e 3ª fotos retiradas da Internet)

Vídeos:

1- Canal erasmocarlosbr

2- Facebook de Odonir Araujo

3- 5- Canal Gonzaguinha – Tema

4- Facebook de Elton Belo

Escolas vivas, 2020

OBSESSÃO

Sou obsessiva.
Sou obsessiva sim.
Tenho ideia fixa de justiça
Tenho ideia fixa de comprometimento.
Tenho ideia fixa de educação
Tenho ideia fixa de doação e entrega.
Não tenho receio de dor.
Não tenho medo de envolvimento.
Não tenho pavor de amor.
Minha obsessão por ensinar
seja a miúdos, maduros, graúdos
passa pelo ato de amar.
Não restrinjam minhas ações.
Não desprezem minhas veredas.
Não me imponham o silêncio covarde.
Não me limitem os braços e as pernas.
Não me amordacem o verbo.
Defendo meus aprendizes
como felina parida.
Não mexam com eles.
Não os ignorem
Não os maltratem.
Não os desprezem.
Somos raízes, mas também somos sementes.

PROFESSORES SEMPRE

Quem é professor e professora
tem um vício diferente daqueles das demais pessoas
está no respirar a carência de ensinar
a saciação de, em se dando, aprazeirar-se
ser e estar ensinando
mesmo a si mesmo
mesmo sem salas de aulas
mesmo em ágoras não ágoras …

Para sempre.

CONTEMPORANEIDADE

Tenho lido, desde o começo do isolamento social, queixas nas redes sociais em relação à falta de escolas abertas. São pais de crianças pequenas, adolescentes e professores que manifestam suas experiências. Mas é preciso refletir sobre isso.

Muitos pais sempre entenderam ESCOLA como depósito de crianças, alívio para poderem trabalhar, local seguro para deixarem seus filhos e até ambientes necessários a fim de poderem preservar seu próprio espaço, sua vida pessoal, sem as crianças. É preciso então refletir sobre esses CONCEITOS. Propõe-se que reflitam sobre o que seja CONVIVÊNCIA SOCIAL, RESPEITO A REGRAS SOCIAIS, COMPARTILHAMENTO DE APRENDIZAGENS, EXPERIÊNCIAS COLETIVAS e muito mais. Qualquer adulto estaria habilitado a exercer a função de EDUCADOR em um ambiente escolar? O que é preciso se SABER para tanto? Os pais estão preparados para isso e aquilo?

Já os adolescentes de ensino fundamental e médio sempre valorizaram demais O SOCIAL NAS ESCOLAS – ainda que já se utilizassem exageradamente das tecnologias e das redes sociais. Tenho lido que estão detestando as aulas através das ferramentas tecnológicas. Não compreendem, tornam-se distraídos, evitam ao máximo as aulas etc. Parece-me que sentem enormemente a falta de seus amigos de escola, de professores e até de ir e voltar de lá. É preciso então refletir sobre esses CONCEITOS. O que é INTERAÇÃO SOCIAL? A gente aprende apenas com as máquinas? É importante discutir com outras pessoas um CONTEÚDO, um FILME, um FATO POLÍTICO, SOCIAL/HISTÓRICO e ouvir sua opinião, seus ARGUMENTOS sobre aquilo? Piaget, Vygotsky e outros sempre apontaram que o CONHECIMENTO se dá na relação entre o SUJEITO DA APRENDIZAGEM, o AMBIENTE – interação social – e o PRÓPRIO CONTEÚDO. (Vi durante mais 30 anos de salas de aulas, alunos afirmarem que seus colegas sabiam explicar melhor certos CONTEÚDOS que determinados professores. Há uma questão de linguagem/afetividade etc. que ajuda a entender isso.)

Professores, meus companheiros de luta, vêm enfrentando grandes problemas para elaborar aulas atraentes, visuais, que façam com que seus alunos se sintam participantes, interajam, cumpram as tarefas propostas etc. Sentem-se, de certa forma, vigiados por pais, colegas, coordenadores, diretores, sem poderem exercer sua FUNÇÃO DE ENSINAR da mesma forma a que estavam acostumados. Há também a queixa da DEMANDA EXAUSTIVA de muito mais horas e dias de trabalho envolvidos – principalmente por aqueles que LECIONAM EM VÁRIAS ESCOLAS – com requisitos diferentes, demandas da clientela, cobranças sobre vestibulares, perda de qualidade, perda do ano letivo etc. É preciso então refletir sobre esses CONCEITOS.

Colegas, parem um pouco e pensem se as demandas tecnológicas são as que realmente estão incomodando mais? Se forem elas, com o TEMPO tudo vai se resolvendo, irão aprendendo e cabe às ESCOLAS darem aos mestres o SUPORTE necessário a isso. Não aceitem escravizar-se também, imponham limites. Caso seja mais que isso, pensem em como as AULAS PRESENCIAIS aconteciam e procurem alterar aquilo que ANTES JÁ NÃO ERA SATISFATÓRIO nem a vocês, nem aos seus alunos. Caminhem.

ESTAMOS TENTANDO SOBREVIVER FÍSICA E ESPIRITUALMENTE A ESSE MOMENTO HISTÓRICO E SOCIAL. Todos nós.

À LUTA

Ei você aí que tem
Ei você aí que viu
Ei você aí que recebeu
Ouve um lamento
Ouve um pedido
Ouve um direito.

Ei você aí que sabe
Ei você aí que usufruiu
Ei você aí que possui

Ouve um desejo
Ouve um sonho
Ouve uma vontade.

As paredes e os muros
deveriam ser etéreos apenas.

VÊM APRENDER, MENINOS

chega, conhece
aprende
pergunta
dialoga
pergunta
responde
confronta
explica
reflete
pergunta
discute
argumenta
ouve
aprende.

Faz !

COMUNHÃO

bebe verso
come letra
sorve número
mastiga a história
namora a ciência
acorda com a geografia
aprecia a letra e a música
desenha a geometria dos sons e dos signos
encanta-te com as descobertas todas os dias
porque todo dia tem um futuro novo pra você.

Leia aqui:

Coronavírus: sem merenda nem assistência, ensino público remoto frustra estudantes e deixa famílias desamparadas

https://oglobo.globo.com/sociedade/coronavirus/coronavirus-sem-merenda-nem-assistencia-ensino-publico-remoto-frustra-estudantes-deixa-familias-desamparadas-1-24386337

  • Caso se interesse, aqui no blog há outras 3 categorias ligadas à EDUCAÇÃO (que podem, inclusive, ajudar nas aulas em 2020)

Trabalhos realizados com alunos

Clubinho da Leitura de Barbacena

Professores sempre

Poesias e texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos: Canal Christian Dunker

A gramática da poesia: aulas em cápsulas de lirismo

Como foram suas aulas de português na escola?

Teriam sido as eternas decorações das conjugações dos verbos – em particular dos pronominais, defectivos e anômalos?

Teriam sido a decoração, com duplo sentido, das regras de acentuação, da lista de substantivos coletivos, dos plurais de substantivos compostos, do emprego do hífen e do trema, da colocação dos pronomes nas orações? Hoje quase tudo fossilizado pela gramática do português brasileiro contemporâneo !

Ou você ficou estudando por uma década as funções sintáticas todas, as orações coordenadas, subordinadas, as reduzidas, sem reduzi-las ao seu verdadeiro lugar: escravas do nosso escrever.

Tudo se move; nada é imovível – diria o teórico que eu já esqueci o nome,  mas fiquei com sua fala nas mãos para usá- la a gosto . Porque as regras da gramática do português escrito são receitas, como as de bolo, as da etiqueta social, as do doutor da medicina: devem ser consultadas, usadas apenas em caso de necessidade, de precisão e, por isso, devem ser conhecidas, jamais servirem de NORMAS a serem obedecidas sem discussão, insubordinação, intromissão, irreverência.

Nossos grandes Guimarães Rosa, Manoel de Barros, Mário de Andrade e os poetas mais recalcitrantes e “modernos” recriaram seus falares e dizeres porque a língua é doce e cruel, é delgada e grossa como nossos intestinos, portanto há que se mastigá-la até o último grãozinho para degustá-la com prazer. E só assim lambuzar-se dele e nele.

As aulas de língua jamais poderiam ser e estar separadas das de literatura, bem brasileiras, dessas de a gente reconhecer pelo cheiro, nas ruas, pelo gosto nas calçadas, pelo tato nos bares, dessas também de se encontrar e ser encontrado nelas.

As aulas de português deveriam ser, de uma forma ou de outra, pequenas doses de lirismo, drágeas de encantamento por ler, por escrever, por entender o lido e o escrito, para se poder ir longe com esses ensinamentos. Bem mais longe!

AULA DE PORTUGUÊS
Carlos Drummond de Andrade

A linguagem
na ponta da língua,
tão fácil de falar
e de entender.

A linguagem
na superfície estrelada de letras,
sabe lá o que ela quer dizer?

Professor Carlos Góis, ele é quem sabe,
e vai desmatando
o amazonas de minha ignorância.
Figuras de gramática, esquipáticas,
atropelam-me, aturdem-me, sequestram-me.

Já esqueci a língua em que comia,
em que pedia para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua entrecortada
do namoro com a prima.

O português são dois; o outro, mistério.

Livro de meu pai Plácido, com capa recuperada por mim. Drummond nasceu em 1902, em Conceição do Mato Dentro (Itabira), e meu pai em 1918, em Alto Rio Doce; ambos estudaram em Minas Geraes, nos livros do professor Carlos Góes.

Então … vamos ver um pouco de poesia concreta hoje !?

A CHUVA
Arnaldo Antunes

A chuva derrubou as pontes. A chuva transbordou os rios.
A chuva molhou os transeuntes. A chuva encharcou as
praças. A chuva enferrujou as máquinas. A chuva enfureceu
as marés. A chuva e seu cheiro de terra. A chuva com sua
cabeleira. A chuva esburacou as pedras. A chuva alagou a
favela. A chuva de canivetes. A chuva enxugou a sede. A
chuva anoiteceu de tarde. A chuva e seu brilho prateado. A
chuva de retas paralelas sobre a terra curva. A chuva
destroçou os guarda-chuvas. A chuva durou muitos dias. A
chuva apagou o incêndio. A chuva caiu. A chuva
derramou-se. A chuva murmurou meu nome. A chuva ligou o
pára-brisa. A chuva acendeu os faróis. A chuva tocou a
sirene. A chuva com a sua crina. A chuva encheu a piscina.
A chuva com as gotas grossas. A chuva de pingos pretos.
A chuva açoitando as plantas. A chuva senhora da lama. A
chuva sem pena. A chuva apenas. A chuva empenou os
móveis. A chuva amarelou os livros. A chuva corroeu as
cercas. A chuva e seu baque seco. A chuva e seu ruído de
vidro. A chuva inchou o brejo. A chuva pingou pelo teto. A
chuva multiplicando insetos. A chuva sobre os varais. A
chuva derrubando raios. A chuva acabou a luz. A chuva
molhou os cigarros. A chuva mijou no telhado. A chuva
regou o gramado. A chuva arrepiou os poros. A chuva fez
muitas poças. A chuva secou ao sol.

Mas … se depois fizéssemos essa poesia de Drummond conversar com A Chuva, de Arnaldo Antunes . Uma conversa assim … sobre o mesmo tema ?

CASO PLUVIOSO

A chuva me irritava. Até que um dia
descobri que Maria é que chovia.

A chuva era Maria. E cada pingo
de Maria ensopava o meu domingo.

E meus ossos molhando, me deixava
como terra que a chuva lavra e lava.

Eu era todo barro, sem verdura…
Maria, chuvosíssima criatura!

Ela chovia em mim, em cada gesto,
pensamento, desejo, sono, e o resto.

Era chuva fininha e chuva grossa,
matinal e noturna, ativa…Nossa!

Não me chovas, Maria, mais que o justo
chuvisco de um momento, apenas susto.

Não me inundes de teu líquido plasma,
não sejas tão aquático fantasma!

Eu lhe dizia em vão – pois que Maria
quanto mais eu rogava, mais chovia.

E chuveirando atroz em meu caminho,
o deixava banhado em triste vinho,

que não aquece, pois água de chuva
mosto é de cinza, não de boa uva.

Chuvadeira Maria, chuvadonha,
chuvinhenta, chuvil, pluvimedonha!

Eu lhe gritava: Pára! e ela chovendo,
poças dágua gelada ia tecendo.

Choveu tanto Maria em minha casa
que a correnteza forte criou asa

e um rio se formou, ou mar, não sei,
sei apenas que nele me afundei.

E se comparássemos e se pintássemos e bordássemos com esses versos, suas estruturas linguísticas, suas imagens, seu sentido próprio e seu sentido figurado e se   …

Olhe que belíssima música para se criar uma narrativa a partir dela.

Pode ser em quadrinhos – por conta dos marcadores de tempo (1ª manhã, 2ª manhã … ), com movimentação, até com recursos do Youtube

Pode ser criado um texto explicativo referencial apontando os motivos para o acontecimento do fato principal.

E até um texto instrucional com regras objetivas para se evitar o fato principal.

Além das ilustrações em painéis, com subtítulos etc. etc.

Pronominais

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro.

Oswald de Andrade ANDRADE, O. Obras completas, Volumes 6-7. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972.

E que negócio é esse de “Beija eu”, hem?

Vamos aprender isso com música… e ver se é isso mesmo? Arnaldo Antunes conta a história dessa letra e surpreende quem acreditava em algo diferente, até por conta da leitura de Marisa Monte. Obra aberta, minha gente, cada um traz a sua chave.

Aula de sintaxe

A norma culta ensina que nada de Beija eu, hem. Beija-me, ok. Mas e na fala? Existe a norma culta oral e a norma culta escrita também. Não castigue seus alunos, ensine-lhes isso. A língua é viva, mutante, cheia de variantes linguísticas regionais, sociais, jargões de grupos etc. Não engesse a língua, por favor.

A língua é assim como … um traje, sabe como é? Um traje que você usa de acordo com as situações, os lugares, as funções. Ah, às vezes se torna necessário transgredir as normas linguísticas também, viu. Principalmente na fala e na escrita criativas, nos versos, nas narrativas, nos discursos orais …

Deu ruim, professora, chegou o Adoniran e veio com a Elis, quebiadéisso?

Vamos respeitar o que eles estão cantando.

É português também, moçada.

LENDO NA NATUREZA

Minha moçadinha do Clubinho da Leitura de Barbacena, 2015

Camões chegou reclamando de Vinícius. Diz que é um plagiador.

Será?

Vamos com os adolescentes para debaixo das árvores dos coqueiros ou dos laranjais e, aristotelicamente, discutir esse tema, aos moldes do Tião Rocha, com seus meninos de Araçuaí, em MG.

VAMOS LÁ ?

SONETO DO AMOR TOTAL

Amo-te tanto, meu amor… não cante
O humano coração com mais verdade…
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude

Vinícius de Moraes
Em Antologia Poética.


ALMA MINHA GENTIL QUE TE PARTISTE

Alma minha gentil que partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma coisa a dor que me ficou
Da mágua, sem remédio, de perder-te.

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te
Quão cedo de meus olhos te levou.

Luís de Camões
Em Sonetos de Camões, Cultrix.

Já pensou em questionar, filosoficamente, em uma fábula o emprego e as diversas formas de se grafar por que, por quê, porque, porquê…. então, senta que lá vem história aí.

E de autoria de aluno, hem. 

Os porquês do porquinho, de Clóvis Sanchez

Aconteceu na Grécia !

Era uma vez um jovem porquinho, belo e bom, muito pequenino, cuja vida foi dedicada à procura dos porquês da floresta. Tal porquinho, incansável em sua busca, passava o dia percorrendo matas, cavernas e savanas perguntando aos bichos e aos insetos que encontrava pelo caminho todos os tipos de porquês que lhes viessem à cabeça.

 – Por que você tem listras pretas se os cavalos não as têm ? – perguntava gentilmente o porquinho às zebras.

– Pernas compridas por quê, se outros pássaros não as têm? – indagava às seriemas, de forma perspicaz.

– Por que isso? Por que aquilo?

Era um festival de porquês, dia após dia, ano após ano, sem que ele encontrasse respostas adequadas aos seus questionamentos de porquinho.

Por exemplo, sempre que se deparava com uma abelha trabalhando arduamente, ele perguntava por quê. E a pergunta era sempre a mesma:

– Saberias, por acaso, por que fazes o mel, oh querida abelhinha?

E a abelha, com seus conhecimentos de abelha, sempre respondia assim ao porquê:

– Fabrico o mel porque tenho que alimentar a colmeia.

Mas a resposta das abelhas não o satisfazia, porque eram os ursos os maiores beneficiados com aquela atividade.

– Alguma coisa deve estar muito errada, porque eram os ursões que ficavam com quase todo o mel, sem ter produzido um pingo.- pensava o porquinho.

Então, valente como os porquinhos de sua época, seguia pela floresta à procura de ursões, fortes e poderosos, ansioso por que eles soubessem a resposta. Quando encontrava um, perguntava:

 – Senhor, grande e esperto ursão, poderias me dizer a razão e solucionar o porquê da questão?

E alguns ursos, mais exibidos, até tentavam responder, porque de mel eles entendiam muito, mas sobre trabalho… as respostas eram sempre do senso comum de ursão e não resolviam a questão.

– Elas fabricam o mel porque ele é muito gostoso. – diziam uns.

 – Elas o fabricam porque o mel é delicioso. – diziam outros. Havia aqueles que se limitavam a olhar feio e, ainda, aqueles que até ameaçavam o pobre porquinho e iam embora, sem dizer por quê. Apesar disso, o porquinho seguia em frente.

 Um dia – porque toda história tem um dia especial – o porquinho encontrou um oráculo em seu caminho e resolveu elaborar o seu mais profundo porquê. Afinal, oráculo é para essas coisas. Então, ele perguntou com sua voz fininha, mas de modo firme e sonoro

– Por que existo?

Houve um profundo silêncio na floresta e o porquinho pensou que aquele porquê nunca seria respondido, afinal.

Mas de repente, o oráculo falou, estrondosamente, porque era oráculo.

– Procure o Sr. Leão, rei da floresta, e pergunte a ele por que você existe. Só ele lhe dará uma resposta adequada.

Então, feliz, animado e saltitante, lá se foi o porquinho à casa do grande e sábio rei da floresta, carregando o seu também grande e sábio porquê.

Ao chegar à casa do leão, o porquinho bateu à porta e, quando foi atendido por sua realeza, tratou logo de lascar o seu porquê mais precioso:

 – Sr. Leão, rei dos reis, sábio dos sábios, poderia Vossa Alteza me dizer por que existo?

 E o leão, porque era leão, respondeu mais que depressa.

Nhac.

Porque é o  fim da história!

Já pensou saborear esses versos com os meninos e recriá-los de muitas maneiras; criar narrativas a partir deles; criar vídeos com os celulares, declamando os versos e voar … voar … voar !

O apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios

Manoel de Barros

Em  Memórias inventadas para crianças, Ed. Planeta, p.13

E… pontuação para quê, hem?

Antes de ler Machado de Assis, que tal “roçar a língua de Luís de Camões”?

FAÇA A MOÇADA PENSAR E POR ISSO PONTUAR CONSCIENTEMENTE, EXPRESSIVAMENTE. Vamos lá.

A HERANÇA

Um homem rico estando muito mal de saúde, pediu que lhe trouxessem papel e tinta.
Escreveu o seguinte:
 

“Deixo meus bens à minha irmã não a meu sobrinho jamais será paga a conta do padeiro nada dou aos pobres”

Deu o último suspiro antes de ter podido fazer a pontuação. A quem, afinal, deixava sua fortuna?”

Eram apenas quatro os citados.
No dia seguinte, ao receberem o papel, cada um dos citados deu ao texto a pontuação e a interpretação que lhe favorecia.

E você aí, quer ser desafiado?

Então, reescreva o texto pontuando da mesma forma que os outros interessados na herança. Depois vamos conversar sobre isso. Que tal?

– O sobrinho fez a seguinte pontuação: ……………………………………………….

– A irmã chegou em seguida e o pontuou assim: ………………………………..

– O padeiro pediu cópia do original e o deixou dessa forma: ………………………

– A notícia se espalhou pelas redondezas e um sabido homem representando os pobres deixou o texto desse jeito: ………………………………..

Que tal a leitura de “Morte e vida Severina “?

Namorar bastante o texto, ouvir as músicas do Chico, contextualizar a obra, a  região, os valores implícitos e explícitos e depois encenar trechos do maravilhoso poema épico, de João Cabral de Melo Neto.

FUNERAL DE UM LAVRADOR (MORTE E VIDA SEVERINA)
Chico Buarque

Esta cova em que estás, com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida

É de bom tamanho, nem largo, nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio

Não é cova grande, é cova medida
É a terra que querias ver dividida

É uma cova grande pra teu pouco defunto
Mas estarás mais ancho que estavas no mundo

É uma cova grande pra teu defunto parco
Porém mais que no mundo, te sentirás largo

É uma cova grande pra tua carne pouca
Mas à terra dada não se abre a boca

É a conta menor que tiraste em vida

É a parte que te cabe deste latifúndio

(É a terra que querias ver dividida)

Saramago em momentos. Por que não aproveitá-los?

“Cada um de nós vê o mundo com os olhos que tem, e os olhos veem o que querem, os olhos fazem a diversidade do mundo e fabricam as maravilhas, ainda que sejam de pedra, e altas proas, ainda que sejam de ilusão.” José Saramago

NOTAS FUNDAMENTAIS:

Paulo Freire não alfabetizava pelo método da silabação, nem pelo fonético. Acreditava que as palavras deveriam vir inteirinhas, palavras-tema, palavras estas que encontrassem sentido, significado no REAL VIVIDO pelos aprendentes. Sabia ele que EDUCAÇÃO tem a ver com afeto. Assim a palavra TIJOLO para os operários da construção civil, por exemplo, vinha carregada de significados. Dali partia-se para a sua inserção no mundo letrado.

Quem não possuir o REAL VIVIDO, concreto, jamais poderá se inserir na REALIDADE BRASILEIRA, literalmente, e continuará (apesar de haver concluído cursos superiores até), a escrever com erros de ortografia, de concordância, de inadequação vocabular etc. – aquilo que vulgarmente, chulamente, se classifica apenas como ‘‘erros de português’‘ por aí.

Leia, no link ”Categorias”, outros trabalhos realizados com alunos.

Post publicado no GGN, em 2015

A gramática da poesia: aulas em cápsulas de lirismo, por Odonir Oliveira

Texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1- Facebook de Odonir Araujo

2- Canal Vangodias

3- Canal Jonathan Pereira

4- Canal Adoniran Barbosa

4- Canal Milena Barbosa

6- Canal Caetano Veloso

7- Canal Centro de Memória Sindical Música e Trabalho

8- Canal Vinicius Vinicius

Educação: compromisso

PROFESSORES SEMPRE

Quem é professor e professora
tem um vício diferente daqueles das demais pessoas
está no respirar a carência de ensinar
a saciação de, em se dando, aprazeirar-se
ser e estar ensinando
mesmo a si mesmo
mesmo sem salas de aulas
mesmo em ágoras não ágoras …

Para sempre.

ENSINO DE TODAS AS ESPÉCIES

Como os gregos ensinavam? A Paidéia era compromisso, discussão, aquisição de conhecimentos e … compromisso. O que se ensina, como se ensina, a quem se ensina, tudo implica compromisso, seriedade, verdades.

Durante mais de 30 anos estive pelas salas de aula de ensino fundamental – nas de 1º ciclo – depois nas de 2º ciclo, mais tarde no nível médio, em cursinhos pré-vestibulares, nos cursos preparatórios para ingresso em colégios militares e também em cursos para professores de todos os níveis de ensino e já formados. Vi de quase tudo nessas 3 décadas. Acertei mais do que errei, acredito. Mas nunca me faltou compromisso com horários, planejamentos, execuções de trabalhos, avaliações minhas e dos educandos. Faltas, tive bem poucas. Quando eram necessárias, deixava material pronto para ser aplicado aos alunos e ainda combinava com eles como seriam feitos, esclarecia o porquê da minha ausência etc. Respeito ao processo educacional. Tive bem poucos casos de indisciplina e conto nos dedos das mãos quantos alunos tive que retirar de sala de aula, em 30 anos. Friso que eu e outros colegas de profissão com os quais trabalhei tínhamos o mesmo comprometimento.

Acredito assim que devam ser levados a sério os procedimentos dos professores, em todos os níveis de ensino, sejam em instituições privadas ou públicas. Amigas, professoras de Universidades Federais, narram a falta de seriedade de certos colegas seus quanto ao cumprimento das 40 horas, em dedicação exclusiva – embora já exerçam dessas apenas 8 a 10 h com aulas – em relação aos projetos de pesquisa nos quais se encontram envolvidos, ausência da cidade em que exercem seu ofício no período, fazendo combinados com os alunos – mesmo tratando-se de cursos presenciais – e muito mais. Ocorre que surgem denúncias e passam a enfrentar processos administrativos, avaliados por grupos de docentes de outras Universidades Federais, de outros estados, sob pena de sofrerem punições por sua postura pouco ética no exercício do magistério.

Fico pensando nos salários vergonhosos dos professores de ensino fundamental e médio pelo Brasil, e em sua garra ao defender seus alunos, a melhoria das escolas, o envolvimento dos pais no processo ensino-aprendizagem, na carência de recursos que manifestam, quase sempre, e mesmo assim, ali presentes, todos os dias, no mesmo horário, sem abdicar de suas responsabilidades, cumprindo suas obrigações corajosamente.

MÚSICA EM NOSSOS OUVIDOS

No final da década de noventa, fui convidada a desenvolver projetos culturais com escolas públicas de São Paulo a fim de que viessem a usufruir, a frequentar equipamentos públicos como teatros, salas de concertos, Theatro Municipal. Em meio ao trabalho, fui conduzida a ser coordenadora pedagógica de uma escola pública de música. O cargo chamava-se ”assistente artístico”. Havia denúncias de que professores, todos pertencentes às melhores orquestras sinfônicas da cidade, não cumpriam as 30 horas pelas quais recebiam, nem prestavam assistência aos alunos em plantões, ensaios etc. Foi bastante difícil interferir nesse vício, pois até cartões de ponto eram ”batidos” por colegas, secretários, funcionários, uns pelos outros. Ao invés das aulas a que deveriam estar presentes, viajavam, apresentavam-se em concertos em outras cidades, estados, sem informarem, pedirem autorização, legalmente, ao órgão responsável. Muitas vezes davam aulas em conservatórios particulares naqueles mesmos horários. E ainda recebiam muitos adicionais para indumentária, por exibições etc.

Quando quis motivá-los a fazerem mais apresentações com seus alunos – em noites, para a coletividade, ou em escolas públicas ou as trazendo para as exibições, resistiam alegando que não faziam nem questão de receber os adicionais por tais exibições ”porque o Imposto de Renda levava tudo”. Ou seja, nada a ver com o pedagógico.

Quando propus escrevermos nos ”programas das audições” além das obras, na última capa, informações culturais sobre os grandes mestres autores das obras a serem executadas ou adicionar poemas do período medieval, barroco, renascentista, romântico, revoltaram-se literalmente, em motim mesmo, alegando que ali deveria constar apenas o nome deles e um mini-curriculum, seus créditos, portanto. Não havia neles qualquer intenção em socializar conhecimentos etc. Até o nome de uma audição de percussão, à qual intitulei ”BARULHINHO BOM”, fazendo referência ao
último disco de Marisa Monte e, assim, gerando um atrativo para o comparecimento do público, foi rejeitado sumariamente. Não tinham o menor compromisso com as plateias, com a necessidade de formação de público, nada. Não cumpriam nem sua obrigação mínima. Hoje muitos estão aí nas melhores orquestras brasileiras, outros já faleceram e os de canto lírico, os vejo fazendo bastante sucesso. Seus alunos cresceram por si mesmos. Empenho daqueles famosos artistas músicos, vi muito pouco por lá.

Logo, precisei abandonar o cargo e ficar apenas com o projeto envolvendo a ida dos alunos das escolas públicas ao teatro etc. Em seguida, voltei para as salas de aula. Porque lá eu era senhora do meu trabalho, dona do meu compromisso e via sempre nos alunos muito reconhecimento e desenvolvimento.

Poesia e texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1- Canal ConselhoEscolar

2- Canal Paul Barton

3- Canal Yo-Yo Ma

4- Canal MatarazzoTreinamento

Maria Márcia, a professora baiana

Em 1988, como leitora crítica da Editora Melhoramentos, elaborei a ficha de leitura/trabalho para essa belíssima obra de Marcus Accioly. Foi quando aprendi o que sei sobre cordel.

SERTÃO BAIANO

A 1244 km de São Paulo, a professora de ensino fundamental Maria Márcia, lê na Revista Nova Escola, material didático elaborado por mim. Consegue o endereço da Escola Municipal onde eu trabalhava e me envia uma carta. Sim, por correios. Estamos em 2001.

A cidade onde ela vivia em 2001 era Macaúbas, na beiradinha do rio São Francisco, na Bahia. Lecionava na área rural, para turmas multi-seriadas, ou seja, vários anos de ensino na mesma classe. Escrevia contando da sua carência, do trabalho que gostaria de fazer se tivesse mais recursos.
Falava em recursos materiais, visto que só contava com um quadro-negro riscado, giz e apagador. Lecionava em Escola Municipal como eu, naquele ano de 2001. Pedia, curiosamente, indicações didáticas para trabalhar cordel com seus meninos. Reparei logo que ela sabia o que queria. Queria ensinar mais o de sua gente para sua gente. Sensibilizei-me, portanto.

Expus aos meus alunos do 8º ano a situação e li a carta da professora que apontava uma quantidade de dificuldades em seus meninos para ler e escrever. Assim, fizemos um trato: iríamos preparar materiais pedagógicos para enviar a eles. Pesquisaram bastante e criaram diversos tipos de jogos para que ela trabalhasse problemas de ortografia com seus meninos: jogos da memória, dominó, caça-palavras, quebra-cabeças, palavras cruzadas foram alguns de que me recordo. Todos bem embalados em saquinhos de TNT, com muitos desenhos e muita criatividade. Tornaram-se CÚMPLICES de Maria Márcia no processo ensino-aprendizagem. E, enquanto preparavam tais materiais, iam aprendendo também. Tornaram-se mestres e aprendizes, pegando o conhecimento, literalmente, com as mãos.

Depois, preparamos fichas e fichas com poemas dos mais diversos autores e no verso suas biografias. Consegui um bom número de livros em editoras, como doação para professores, e juntei-os aos meus, que lhe enviamos. Para cada obra, havia uma sequência didática a ser desenvolvida, no sentido de ensinar Maria Márcia a semear a fruição da leitura na garotada. E, claro, o trabalho a ser feito com cordel e o livro Guriatã, um cordel para menino, de Marcus Accioly. Mandei-lhe uma sapateira para que colocasse os livros e pudesse ser socializada para as outras salas também. Sugeri que fosse mudando as obras para oferecer a eles diversidade e novidades.

Por fim, escreveram cartas para mandarmos junto com as duas caixas repletas de material, via correios, à Maria Márcia, em Macaúbas, na Bahia. Nas cartas pedi que narrassem como nascera a ideia de fazer o material, como fora o processo de construção, o que haviam aprendido com aquilo durante mais de um mês etc.

Fui a uma agência dos correios e enviei as duas grandes caixas. O prazer que senti nisso não sei se consigo retratar aqui, passados tantos anos. Mas posso contar a vocês que, umas semanas depois, recebemos na escola a resposta, com fotos de todos, de Maria Márcia, da irmã de Maria Márcia que também era professora ali, dos alunos felizes, lendo, jogando, aprendendo.

Maria Márcia mandava agradecer e pedia para me chamar de sua ”fada-madrinha”. Contava que estava grávida do segundo filho e que ela e a irmã haviam resolvido cursar faculdade de pedagogia – à distância- porque em Macaúbas, nem próximo dali, havia qualquer faculdade. Fez. Fizeram. Ajudei-a, anos depois com seu TCC, sobre ”As casas de farinha”. Durante anos nos falamos, quando ela ia à cidade e, em lan houses, me mandava e-mails. Certa vez até me telefonou de lá. Queria ouvir a voz de sua fada-madrinha – imaginem. Perguntou-me se eu gostava de farinha de tapioca, porque me mandaria, junto com um presente feito por ela e pela irmã. Disse-lhe que guardasse a tapioca para o dia que viesse a São Paulo e ela mesma me prepararia as suas delícias. Mandou-me, então, um conjunto de panos bordados por elas, formando oito joguinhos americanos com guardanapos. Adorei. E foram eles que hoje me fizeram lembrar de Maria Márcia, de Macaúbas, BA.

EU, NÓS

Se ando e enxergo, maravilho-me
Se paro e contemplo, pulso
Se ardo em sensações, vivo.
Se estou numa fala num gesto num sorriso, continuo.
Se toco a dor humana, emano
Se acarinho a terra vermelha, sou.
Se tenho compaixão, ajo.
Se tenho ainda a emoção, levito.
Se ando e enxergo, maravilho-me.

PROFESSORA, ESSA MULHER

Como um presságio, seu mestre mandou:
“Toda mulher deveria ser professora para poder ajudar na educação dos filhos mais tarde”
Faremos tudo que seu mestre mandar.
Até a página dois, querido mestre.
Trabalhadora, trabalhadeira,
segue a mulher no caminho das escolas, dos alunos,
com sua varinha de condão.
Magias retiradas de tapetes mágicos e cartolas de coelhos sábios,
cantarolando melodias de bruxas do bem,
disparando saberes e sabores de seus mestres gregos,
qual um desses seres brotados das páginas
de seus ensinadores livros encantados.
Corre por avenidas, estradas, sobe ladeiras, escadas
entrega mensagens de anjos, serafins e querubins aos infantes meninos
que bebem suas artes, palavras e mágicas
como fossem verdades únicas,
quando não passam de pequeninas estrelas
a brilhar, algum dia, nos céus.

DEDICATÓRIA: Aos profissionais da EDUCAÇÃO que acolhem todos os dias meninos, meninas, jovens e adultos para semear neles mais do que o conhecimento. Beijos e abraços parceiros aos professores, às merendeiras e a todos da ESCOLA ESTADUAL RAUL BRASIL, em Suzano, SP.

Poesias e texto: Odonir Oliveira

Imagens da Internet

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1- Canal cleber santos

2- Canal Caetano Veloso

Professores, seres escolhidos, jamais a distância

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PROFESSORA, ESSA MULHER

Como um presságio, seu mestre mandou:
Toda mulher deveria ser professora para poder ajudar na educação dos filhos mais tarde
Faremos tudo que seu mestre mandar.
Até a página dois, querido mestre.

Trabalhadora, trabalhadeira,
segue a mulher no caminho das escolas, dos alunos,
com sua varinha de condão.
Magias retiradas de tapetes mágicos e cartolas de coelhos sábios,
cantarolando melodias de bruxas do bem,
disparando saberes e sabores de seus mestres gregos,
qual um desses seres brotados das páginas
de seus ensinadores livros encantados.

Corre por avenidas, estradas, sobe ladeiras, escadas
entrega mensagens de anjos, serafins e querubins aos infantes meninos
que bebem suas artes, palavras e mágicas
como fossem verdades únicas,
quando não passam de pequeninas estrelas
a brilhar, algum dia, nos céus.

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OBSESSÃO

Sou obsessiva.
Sou obsessiva sim.
Tenho ideia fixa de justiça
Tenho ideia fixa de comprometimento.
Tenho ideia fixa de educação
Tenho ideia fixa de doação e entrega.

Não tenho receio de dor.
Não tenho medo de envolvimento.
Não tenho pavor de amor.

Minha obsessão por ensinar
seja a miúdos, maduros, graúdos
passa pelo ato de amar.

Não restrinjam minhas ações.
Não desprezem minhas veredas.

Somos raízes, mas também somos sementes.

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A ALUNA

Reza a lenda que a menina de 4 aninhos estava sentada no peniquinho, a mãe se distraiu e ela sumiu. Foi encontrada na casa do fim da rua com uma bisnaga de pão, enorme, em papel de embrulho numa das mãozinhas. Na outra, tinha um caderno do irmão mais velho e um lápis. ‘’Vim estudar com a senhora, dona Neuza. Eu também quero ir pra escola e aprender a ler’’. A mãe a encontrou, puxou seu vestidinho, ainda suspenso, levou-a para casa e lhe explicou que no início do ano iria para a escola.

Foi aos 5 anos e meio e aprendeu a ler. Não frequentou o jardim de infância na escola particular das freiras, mas fez o pré-primário na Escola do Círculo Operário, mantida pelo Sindicato dos Metalúrgicos até então. Foi alfabetizada por Dona Nadege, uma senhora aplicada em seu ofício. Lembra-se sempre das provinhas, das exposições de trabalhos abertas à comunidade. Tudo um primor mesmo.

Só no fim do ano seguinte iria para a 1ª série da Escola Santo Antonio, pública, mantida pela FNM,  com aulas de artes, piano, balé, canto orfeônico, banda marcial, ginástica e muito mais. As professoras vinham de longe, em ônibus especiais da FNM trazidas às vilas operárias

Assim foi que se apaixonou por sua professora Dona Therezinha Novaes Tostes, uma graça de mestra, sempre bem penteada (morava num prédio que tinha um salão embaixo – contara – por isso sempre com aquele coque de mechas pontual). Que professora era ela! Carinhosa, abraçava os alunos, cantava, desenhava, ria com seus meninos – afetos singulares eram os dela. Inesquecíveis, portanto.

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Depois, no 4º ano, apaixonou-se por Dona Aurora Rodrigues e foi tanto e tanto, que quis ir passar um fim de semana na casa dela. Foi mais de uma vez. Era distante. A mãe relutando, iria incomodar a mestra e tal. Chamava a professora de madrinha, pois queria que a crismasse. Dona  Aurora dava notas e vistos nos cadernos com AR – lembra-se bem. Primeira vez, era num pensionato que a professora morava, dormiu num beliche, tudo novidade. Até a falta de luz, comum naqueles tempos de racionamento de energia, era magia para jantarem numa mesa grande à luz de velas, ordinariamente poético. Meses depois, a professora, nascida no Espírito Santo e sem parentes ali, passou a morar num apartamento com mais uma amiga. A menina foi. A mestra tinha namorado. Foram os 3 ao cinema. O namorado comprou-lhe balas porque a menina não parava de prestar atenção no casal. Ciúmes, talvez, coisa de quem ama os outros, no caso a professora, madrinha fada do coração. Tantas experiências maiores de afeto, atenção, descobertas. Inesquecível, portanto.

Josemar Contage, professor de Ciências, primeiro amor da adolescência, 12 anos mais velho. 24 anos de experiência e a mocinha, deslumbrada por ele. Sempre afetuoso, preocupado com os alunos, participando das atividades extra-classe. Por isso, arrecadação de dinheiro para sua festa de aniversário, bolo, docinhos, refrigerantes, discurso, presente. Ufa, o que não faz o amor, mistura de admiração e reconhecimento. Anos mais tarde foi seu padrinho de formatura do curso normal. Já era mulher feita, embora menina-menina. Inesquecível, portanto.

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Antonio Cândido, José Miguel Wisnik, Décio Almeida Prado, Nelly Novaes Coelho, João Luiz Lafetá, Davi Arrigucci, Duílio Colombini, Neide Smolka, Haiganuch Sarian, Jaime Bruna e tantos outros na concretagem das edificações do conhecimento, ensinando a pesquisar, a usar de criticidade com as leituras, a comparar, a duvidar, a debater, a argumentar.

Tanto fez e se faz imprescindível a presença dos PROFESSORES em nossas vidas. Sim, porque temos muitas vidas diferentes a cada fase de nossa trajetória.

PROFESSORES são seres iluminados quer por seu CONHECIMENTO, quer por sua AFETIVIDADE, quer por sua PRESENÇA. E sem dúvida alguma, por tudo isso junto. Jamais poderão ser substituídos por máquinas, por maior que possa ser o repertório de informação que elas retenham. É preciso transformar informação em conhecimento. E isso só se faz pelo canal do AFETO, da ATENÇÃO, na INTERAÇÃO PROFESSOR-ALUNO.

Obrigada, queridos mestres!

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Leia também:

Professor, ontem e hoje; haverá amanhã?

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2016/10/15/professor-ontem-e-hoje-havera-amanha/

Caso se interesse: Há do lado direito outras categorias ligadas à EDUCAÇÃO:

Trabalhos realizados com alunos

Professores sempre

Clubinho da Leitura de Barbacena

Poesias e texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1- Canal Flip – Festa Literária Internacional de Paraty

2- Canal MANDABRAZA Moacir

Sonhos revisitados, 30 anos depois

VENTOS QUENTES

Há uma bruma que me faz sorrir

é um prazer um tanto virtude
costurando lembranças quentes
por dentro de mim
Estou eu cheia de viço e desejos
gestando em mim
gestando em outros
vida
esperanças
rotas
rumos
projeções de futuros
confiança

Há uma bruma que me faz sorrir.

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NA ALDEIA DE CARAPICUÍBA

História do país,  índios, bandeiras, rumo ao ouro e às pedras preciosas  das Minas Gerais. Seguem os bandeirantes, laçando índios ao seu domínio, arrebatando-os de seus domínios.

Séculos nos separam desses desbravadores, escravizadores de índios. Liberdade, liberdades me atraem, me empurram, me impelem a chegar ali, desbravar aquele terreno marcado e fincar minha bandeira. A da educação.

Minha geração de educadores pensava em ir para as trincheiras sempre. Nossa militância era na ponta. Estudávamos, fazíamos especializações, mas não almejávamos mestrados e doutorados, carreira acadêmica. Isso começou muito depois de nós. Saíamos para o campo de batalha, a lutar junto aos nossos meninos e meninas nas escolas. Isso sim era imprescindível.

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OBSESSÃO

Sou obsessiva.
Sou obsessiva sim.
Tenho ideia fixa de justiça
Tenho ideia fixa de comprometimento.
Tenho ideia fixa de educação
Tenho ideia fixa de doação e entrega.
Não tenho receio de dor.
Não tenho medo de envolvimento.
Não tenho pavor de amor.
Minha obsessão por ensinar
seja a miúdos, maduros, graúdos
passa pelo ato de amar.
Não restrinjam minhas ações.
Não desprezem minhas veredas.
Não me imponham o silêncio covarde.
Não me limitem os braços e as pernas.
Não me amordacem o verbo.
Defendo meus aprendizes
como felina parida.
Não mexam com eles.
Não os ignorem
Não os maltratem.
Não os desprezem.
Somos raízes, mas também somos sementes.

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E.E.P.G. DA ALDEIA DE CARAPICUÍBA, SP- 1988

Em 1987, morando na Granja Viana escolhi, por concurso, a Escola Estadual de Primeiro Grau da Aldeia de Carapicuíba. Comentava-se por lá que a escola fora construída sobre cemitério indígena.

Alunos filhos de nordestinos, famílias muito pobres e sem instrução. Escola quase sem recursos, sem murais, sem aparelhos de TV e vídeo. Livros de literatura, sem serem lidos, sem catalogação – temiam que se extraviassem nas mãos dos alunos – empilhados numa saleta junto com o estoque de material de limpeza e de outros. Passei a me responsabilizar pelos livros, por seu  uso em salas de aula e por sua catalogação inclusive. Pensando em uma biblioteca circulante, quente, que viesse a ser aquecida pelas mãos dos alunos.

Em 1988, escrevi uma proposta à Direção e, em seguida, à Delegacia de Ensino de Carapicuíba e Itapevi, expondo a necessidade de criarmos já na 4ª série (5º ano hoje), aulas com professoras diferentes, por disciplinas, como as teriam a partir da 5ª série, facilitando a transição e a adaptação. Procurei ser bastante convincente nas justificativas  então – até porque isso já acontecia em escolas privadas etc. Foi aprovada. Assim, coube a mim lecionar Língua Portuguesa para as  três 4ªs séries. Além disso tinha aulas na 6ª  e 7ª séries na mesma escola.

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Contando com o reconhecimento da diretora ao meu trabalho, pude apresentá-lo em encontros na Secretária do Estado da Educação e, por fim, ter minhas aulas como as escolhidas para o Projeto Ipê de Língua Portuguesa do ano de 1988, pelo governo do estado de SP – que seria gravado e editado pela equipe da TV Cultura e apresentado para toda a rede estadual de ensino, dentro de encontros e discussões com professores e equipes da educação, durante um ano. Posteriormente também pela TVE.

Depois disso, gravamos outros programas para a TV Cultura sobre lições de casa e temas diversos. Meus alunos se sentiam muito importantes ao se verem em uma rede de televisão. E mais do que isso por se saberem agentes do próprio conhecimento.

Graças a isso, depois, consegui ônibus que nos levasse à Bienal do Livro, em São Paulo. Lá, encontraram-se com Ziraldo que recebeu todas as suas cartinhas e levou com ele vários livrinhos escritos e autografados pelos alunos, em resposta ao seu Flicts.

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Revendo os vídeos, me alegro com a dinâmica das aulas, alunos lendo, alunos cantando, alunos escrevendo, alunos críticos e me encanto com isso tudo, de novo.

É importante frisar que estávamos em 1988, e que muitos dos procedimentos pedagógicos expostos talvez já sejam até bem comuns em escolas públicas Brasil afora.

Mas … talvez, ainda não.

E  é nesse momento que me pergunto onde estariam aqueles alunos, como seguiram suas vidas, todos agora com mais de 40 anos. Teriam continuado seus estudos, chegado a um curso técnico, a uma faculdade ? Onde estariam meus meninos do ano de 1988?

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Aqui está o PROJETO IPÊ de 1988, recuperado e editado, nesses 3 vídeos. Apresento-lhes, então, os meus meninos.

4ª série (5º ano)

6ª série (7º ano)

7ª série (8º ano)

Poesia e texto: Odonir Oliveira

Foto retirada da Internet: Aldeia de Carapicuíba, SP

Vídeos:

1- Canal Orquestra Sanfonica de São Paulo

2 , 3 e 4 – Canal Odonir Oliveira (reeditados a partir de gravação em VHS).

”Dá-me um mote que eu te darei 100 livros infantis”- 1993

 

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ESPANTALHOS

No tempo das sementes
o jardineiro fiel
espanta perigos e ameaças
Na vigília incessante
adornado com palha
empalhado fielmente
é guardião
da vida pujante

No tempo das máquinas
não há guardiões
fossilizados
vilipendiados
aposentados
queimados pelos tempos
os espantalhos
fenecem
sem conseguir
impedir a ação tóxica
das máquinas
dos homens

 

Mote

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1 LIT Estrofe que antecede um poema, cujo conteúdo é desenvolvido na composição poética; moto.
2 LIT Citação colocada no início de um livro, de uma peça de teatro etc., que representa o tema escolhido pelo autor a ser desenvolvido na sua obra; moto.
3 Proposição que se quer desenvolver.
4 Aquilo que constitui um lema de vida.
5 ANT Frase de efeito que caracterizava um ideal, usada pelos cavaleiros ao participarem de ações de risco.
6 HERÁLD, ANT Palavra que era usada pelos cavaleiros como divisa nos brasões ou bandeiras; moto.

http://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/mote/

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POESIA FAZ BEM

1993

Jovens de 11 e 12 anos da sexta série do Colégio Galileu Galilei, inquietos, vivazes, precisando de desafios, encontram-se na fase das implicâncias dos meninos com as meninas, do contato físico exagerado, dos esbarrões e sopapos entre meninos. Estão cheios de energia ali, sem saber se já são adolescentes ou se preferem ser crianças. Vamos ao trabalho, então.

 

APRESENTANDO O MOTE

Leitura da poesia. Discussão do tema da poesia (poucos haviam visto um espantalho, a não ser em filmes, desenhos), do que falava etc.

ESPANTALHO

Olá, espantalho!
que fazes aí?
 
Espanto os pardais
daqui e dali.
 
Não te sentes triste
no mesmo lugar?
 
É o meu destino,
não posso mudar.
 
Espantalho, espantalho,
não fales assim,
 
Deixas-me tão triste
por ti e por mim…
(Maria Cândida Mendonça)

 

DESENVOLVENDO O MOTE
”Nossa, mas por que ela fala com o espantalho”
”Só pode ser uma menina, né, e bobinha, bem pequena, nunca vi falar com espantalho”
”Por que fala tudo com tu, é diferente, né. Não deve ser daqui do Brasil não”
“A menina fica triste porque o espantalho fica sempre parado, é por isso?”
PESQUISANDO CAMINHOS, ENCAMINHANDO RESPOSTAS
 Estudando variantes linguísticas e regionalismos no Brasil e em Portugal .
Que idade teria o eu lírico? É menino ou menina?
Onde estão?
A personagem vive ali, está acostumada com o espantalho? Onde podemos encontrar essas respostas? Ah, na poesia.
DECISÕES DE ADEQUAÇÃO AO PÚBLICO LEITOR
Já que esse poema é muuito infantil. Vamos escrever histórias para o público infantil, então ? É, porque esses autores já não são mais crianças. Mas podem escrever e ler suas histórias para crianças. Por que não?
DECISÕES SOBRE O MATERIAL A SER UTILIZADO NA CONFECÇÃO DOS LIVROS ”INFANTIS”
Leitura e manuseio de livrinhos infantis nos mais diversos formatos e confeccionados de diferentes materiais.
Apreciação da linguagem e do conteúdo tratado nos livrinhos.
Leitura em voz alta, dramatizada, das historinhas infantis.
Avaliação dos colegas das leituras feitas, com parecer oral e escrito sobre qualidades e aspectos que precisavam melhorar.
CRIAÇÃO DE HISTÓRIAS INFANTIS COM O POEMA COMO MOTE 
Pauta
Onde se passará sua história; quem estará conversando com o espantalho; por que a personagem estaria ali; o que acontecerá com os dois; haverá outras personagens na narrativa; como terminará …
Leitura em grupos.
Avaliação dos colegas das leituras feitas, com parecer oral e escrito sobre qualidades e aspectos que precisam melhorar.
Refacção dos textos tendo em vista vocabulário utilizado, pontuação expressiva, descrição de ambiente e de personagens, começo, meio e fim. Levando em consideração o público a que se destinam na contação de histórias que viria em seguida.
CONFECÇÃO DOS LIVRINHOS INFANTIS
Materiais sensoriais diversos, desde grãos a objetos, compondo as páginas e a capa.

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A INTERAÇÃO COM AS CRIANÇAS DA EDUCAÇÃO INFANTIL
Uma manhã inteira de manuseio dos livrinhos em varais, de explicações, de respostas aos menores.
CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS
Grupos de crianças da educação infantil se reuniam, sentados no chão, ao redor dos autores e ouviam as histórias.
Leitura expressiva, interações, tudo no melhor estilo ”contando para os pequenos.”
A FESTA
”Comes e bebes” e dança.
AVALIAÇÃO COLETIVA E RESGATE DO PROCESSO
Adolescentes, normalmente, ficam mais inibidos quando estão sendo filmados. Temem algum tipo de incorreção, de ”mico” – hoje até virariam memes nas redes – por isso no vídeo aparecem meio inibidos ao falar. Além do mais, essa avaliação se deu alguns dias após a contação de histórias – o que foi bom, porque puderam amadurecer mais as emoções vividas naquele outro dia.
Ocorre que tudo é muito vivo em escolas, não é mesmo? Então … haviam recebido sonora e severa bronca de um coordenador ou de alguém da direção (não me recordo de quem, nem o motivo), por algum tipo de comportamento inadequado minutos antes dessa gravação já agendada. Daí as carinhas tensas, certo tom severo nos olhares … enfim, essa professora aqui, resfriada e febril, teve que fazer a conversa fluir. Escola é isso, todo dia um desafio diferente.

 

1995

Revisão  do processo de construção das histórias e criação dos livros infantis. Emoções revisitadas 3 anos depois. Inclusive porque havia alunos que ingressaram para o nível médio, sem terem vivenciado os mesmos caminhos que seus colegas.

DEDICATÓRIA
Post dedicado aos meus meninos, todos hoje com mais de 36 anos, espalhados pelo Brasil e pelo mundo.
Salve Mariana Nassif, Nina Furnari e todos.
Foi tão bom rever nossa caminhada, meus jovens !
Grande beijo da Odonir
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Texto e poesia: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

  1. Canal Biscoito Fino

2. e 3.  Canal Odonir Oliveira (reeditados a partir de gravação em VHS)

 

 

 

 

 

Para sempre

PROFESSORES SEMPRE

Quem é professor e professora
tem um vício diferente daqueles das demais pessoas
está no respirar a carência de ensinar
a saciação de, em se dando, aprazeirar-se
ser e estar ensinando
mesmo a si mesmo
mesmo sem salas de aulas
mesmo em ágoras não ágoras …

Para sempre.

HISTÓRIAS DE ALUNOS – I

 

Naquela noite a aula transcorria calma. A professora Vera ensinava classes gramaticais e seu uso adequado na escrita de textos, concordância verbal e nominal.

Os alunos, todos adultos no curso de suplência, haviam trabalhado desde bem cedinho. Frequentavam o curso de adultos, no ensino privado, pago pela empresa em que trabalhavam, visando a um acréscimo em seus salários – quem concluísse o ensino fundamental teria aumento em seus rendimentos. Isso os movia. Eram homens, em geral eletricistas, que lidavam com corrente elétrica e riscos durante todos os dias, o dia todo, retornando para suas casas ao fim das noites, depois de pegarem muitos tipos de meios de transporte. Chegavam mortos de cansaço em seus bairros dormitórios, na periferia da cidade, portanto.

Ele era um negro magro alto, mais de um metro e oitenta, falava pouco, observava e admirava a professora Vera. Percebia-se isso quando ela caminhava pela sala, que tinha degraus de madeira, separando as fileiras com as cadeiras de braço onde os alunos sentavam. Aliás, todos a tratavam com enorme cortesia, com certa devoção até. Sentia-se que o afeto entre eles era recíproco. Como não valorizar aquela turma tão guerreira na luta do viver. Seria impossível.

As aulas precisavam ter afetividade. Sabe-se que o aprender passa pelo canal do afeto. Não há como ser diferente. Passa pelo interesse que o mestre, o professor demonstra por seus aprendizes, sejam quem forem, que idades tiverem. Ali todos, muito senhores, alguns já avós até, tinham um envergonhado jeito de se sentar nas cadeiras, como a pedir desculpas a todo instante pela defasagem de conhecimentos, de tempo de escolaridade etc. Eram assim, portanto havia que se reverter aquilo, fomentando sua autoestima, valorizando sua iniciativa de querer voltar a estudar etc. Assim Vera buscava fazer. E eles confiavam nela.

No meio da aula, quase nove da noite, o grandão desmaia, caindo, tombando pra frente, provocando um enorme estrondo. Havia na turma uma única senhora, avó, que se matriculara e fora aceita na turma deles. Ela pagava seu curso. Foi ela que o socorreu em princípio porque conhecia a sua história. Deu-lhe uma maçã, um sanduíche e um copo d’água.

Terminada a aula depois das dez da noite, todos se foram. Ela contou à professora que o nosso grandão saía de casa às cinco da manhã, tinha mulher e três filhos pequenos. Almoçava na empresa às onze e só ia comer de novo quase à meia-noite, em casa, com a mulher. Por isso desmaiara. De fome.

Um homem, pai de família, semi-analfabeto, que comia assim tão mal, meu Deus, e ainda encontrava forças pra continuar lutando, buscando aprender, buscando melhorar seu salário.

Ser professora enriqueceu muito a vida de Vera.

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OBSESSÃO 

Sou obsessiva.
Sou obsessiva sim.
Tenho ideia fixa de justiça
Tenho ideia fixa de comprometimento.
Tenho ideia fixa de educação
Tenho ideia fixa de doação e entrega.
Não tenho receio de dor.
Não tenho medo de envolvimento.
Não tenho pavor de amor.
Minha obsessão por ensinar
seja a miúdos, maduros, graúdos
passa pelo ato de amar.
Não restrinjam minhas ações.
Não desprezem minhas veredas.
Não me imponham o silêncio covarde.
Não me limitem os braços e as pernas.
Não me amordacem o verbo.
Defendo meus aprendizes
como felina parida.
Não mexam com eles.
Não os ignorem
Não os maltratem.
Não os desprezem.
Somos raízes, mas também somos sementes.
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HISTÓRIAS DE ALUNOS – II
A turma tinha 40 alunos. O rapazinho Raimundo tinha quatorze anos quando o resto dos colegas não passavam dos dez . Quarta série do ensino fundamental, último ano do antigo primário. Defasagem etária e de conhecimento acadêmico. Raimundo havia chegado da Paraíba pra viver com o irmão mais velho ali naquele município. Rivaldo, o irmão, trabalhava como segurança em uma grande loja de departamentos do shopping na cidade vizinha, de modo que Raimundo cuidava do barraco em que moravam, sem banheiro, apenas um comum a todos os outros barracos. Era um cortiço, nos moldes do século XIX, portanto. Não tinha pia, nada individual. Tudo para todos. Seu barraco contava com 2 cômodos: uma sala e um quarto. Pequenos, bem pequenos. Era alugado. Para viver ali viera Raimundo, da Paraíba. Seu irmão mandara buscá-lo para poder estudar, trabalhar e prosperar. Assim como ele, acreditava.
Na sala de aula, ao ler, era ridicularizado, pelo sotaque nordestino, pela modulação da voz, por tudo afinal. Gostava de usar um chapeuzinho coco e se sentir seguro sob ele. Assim era.
A garotada passou a rir dele, depois, veladamente. Não era admitido nenhum deboche em sala de aula e dona Marisa, como estavam acostumados a chamar, não tolerava quaisquer discriminações. Para fazê-lo grande, como de fato era, passou a dar-lhe destaque nas aulas e pedir sua ajuda, a dividir com ele quase um jeito adulto de dialogar. Raimundo foi-se sentindo grande, como de fato era.
Gostava de cantar, tinha experiência de vida lá na Paraíba, e muito a contribuir para a narrativa cotidiana da garotada que era dali mesmo. Tinha histórias a contar, tinha vocabulário a repartir, tinha músicas para cantar. E assim foi.
Marisa passou a elogiar cada experiência relatada por ele aos colegas, a perguntar se já haviam visto algo parecido, se tinham conhecimento de alguém que houvesse vivido aquilo também, e assim foi. Passou a ser uma espécie de símbolo da turma. Todos o respeitavam, agora, pelo seu diferencial, por aquilo que tinha a lhes enriquecer. Passaram a compreender as diferenças e a riqueza de um país continente como o Brasil.
Naquela manhã, Marisa andava nauseada, começo de gravidez, e sonolenta.  Na conversa sobre um texto que citava comidas típicas de determinadas regiões, Raimundo mencionou a todos que sabia cozinhar. E bem. Todos, surpresos. Assim, combinou que a professora iria almoçar na casa dele. Só que havia de ser depois do recebimento do salário do irmão, pra poder melhorar o tal almoço. Combinaram.
Raimundo morava no mesmo quarteirão da escola, num amontoado de auto-construção, sem reboco ou enfeites. Marisa foi, morrendo de medo de enjoar, e o rapazinho pensar tratar-se de qualquer desfeita ao seu almoço. Mas não enjoou.
Tinha até refrigerante, Itubaína, que ele correu a buscar no buteco, porque não tinham geladeira. Tinha salada gostosa, arroz, feijão, carne de porco cozida, farofa, e até fruta. Tudo saboroso, quentinho. Comeu com o prato na mão, sentada na cama, porque não havia mesa ali. A TV ligada no programa da Xuxa, e Raimundo cheio de orgulho por a sua querida professora estar almoçando ali, coisa que nunca fizera na casa de nenhum outro aluno.
O rapaz cresceu. Passou a ser muito respeitado. Ainda mais depois de ter seus dotes culinários enaltecidos por Marisa. Passou até a ser alvo de interesse de meninas maiores de outras turmas. Estava resgatada a autoestima de Raimundo. Ele era grande. Sempre fora.
Ser professora enriqueceu muito a vida de Marisa.
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AGRADEÇO A MEUS COMPANHEIROS DE OFÍCIO TUDO QUE APRENDI

Muito mais do que às páginas de teoria  que li, eu lhes agradeço.

Nos anos de 1970, Freinet era meu pai pedagógico, e eu companheira do mimeógrafo registrando os textos coletivos de meus meninos pequenos; compilando os resultados das aulas-passeio, mais tarde chamadas de estudos do meio. Ali, muitos professores mais experientes, mais estudiosos da teoria e mais politizados do que eu foram meus mestres no fazer.

Mais tarde, era eu a mestra dos mais jovens.Tive alunos que se tornaram famosos nas artes, no empreendorismo, no trabalho voluntário e outros tantos famosos nas suas tarefas diárias e socialmente importantes também.

Gosto quando me param em algum lugar e me perguntam, “Você não é a Odonir? Foi minha professora em ...”.  Sinto-me uma pop star.

Meus filhos me dizem que tenho um vício em ensinar e que estou sempre dando aulas a alguém… mas gosto de poder elogiar quem me vendeu bem os frios no mercado, o taxista em sua civilidade etc. etc.

Reclamações dos filhos sempre houve: “É a pessoa que mais corrige redações e provas na vida, nunca vi!”

Sempre gostei de ir a festas de aniversário, primeira comunhão etc. de meus alunos. Achava gostoso, ora. Meus filhos reclamavam.

Ah, quero mesmo é ser leve como uma garça. Não sei se ainda será possível, posto que sou ardida como pimenta, bem sei.

Tentarei, todavia.

Professora Odonir

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Poesias e narrativas: Odonir Oliveira

Fotos retiradas da Internet

2ª foto: POL- ParatyOnLine.com

Última foto do jardim da minha casa

Vídeos:

  1. Canal mongchilde
  2. Canal adrianeegil

Leia: Eunice, rosa negra

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2018/03/15/eunice-rosa-negra/

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