Urgência, ousadia: poesia

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OUSADIAS

Com os dias passando, assim correndo,

há que se correr também,

há urgência em tudo.

 

Corro pra visitar aquelas cachoeiras nunca tocadas

corro para beber água gelada de serras amanhecidas

corro para falar “eu te amos” aos que nunca o ouviram de mim

corro para cozinhar delícias e, em comunhão, ofertar aos queridos aliados

corro para beber sabores que nunca experimentei por impossibilidades várias

corro para escrever letras, sílabas e linhas anoitecidas,

enquanto ainda consigo

andar

ver

falar

ler

respirar

me encantar.

Canal: leandro araújo

 

 

TERRA DE MINAS

Odonir Oliveira

 

Que bondade tem o garoto mineiro que ajuda a carregar embrulhos, mesmo sem precisão…

Que prosaico é aquele “cê bobo” ao final das frases coloquiais …

Que vontade é essa de ficar sentado na praça a tocar causos e prosas até o entardecer…

Que permissivo é esse tom de confidência de quem jamais nos viu antes …

Que adocicado é esse olhar de matutagem espalhado pelas calçadas …

Que coisa caseira é essa que me enternece de água os olhos …

Talvez seja encontro de sangue mineiro com sangue mineiro.

Talvez seja um ponto de vista repleto de montanhas .

Talvez seja essa vontade de encontrar o que uma vez se perdeu em mim.

Canal: Odonir Oliveira

 

FESTA NA ROÇA

Odonir Oliveira

 

O céu dormiu chovendo

acordou sorrindo.

Dia de festa na roça.

Café adoçado com rapadura.

Quitandas em potes

Bolo de milho, bolo de mandioca, doce de leite, queijo de casa.

Linguiças penduradas tinindo de frescas.

Um anguzinho mole, sem sal

pra ser comido com leite

” Dona Neuma me traz frango. E o quiabo fresquinho da horta, hem.”

Ouvem-se vozes ao longe.

Ouvem-se conversas de décadas, relembradas,

do primo de uns, dos tios de outros, da madrinha deles todos.

Quem morreu na semana passada? Quem casou? Quem nasceu?

Uns trazem as encomendas, outros trazem os braços e as mãos pra arrumação

Outros trazem as palavras na voz a um aconselhamento .

Risos doces e salgados de dança mineira no chão.

Canal: Odonir Oliveira

 

 

CIDADE

Odonir Oliveira

 

 Respirando o mesmo ar,

ouvindo o mesmo apito de trens

vendo escurecer as mesmas subidas e descidas

um desencontro de séculos.

 

Descaminhos de aço e flores.

Descaminhos de álcool e aromas

Descaminhos de dez caminhos sinuosos

 

 

Amanheceu

Entardeceu

Anoiteceu

 

Beija-flores e bem-te-vis

cumprimentaram maritacas e melros

Sanhaços beliscaram uns frescos sumos.

Recolheram-se no cedro em frente.

Encontros, desencontros, impedimentos, desmandos.

 

Sinas e sanhas, sagas e desdouros.

Mesmo ar

Mesmo céu

Mesmos trens …

Canal: Odonir Oliveira

 

 

Post dedicado aos meus companheiros de viagens Angélica e Jucélio- dois seres humanos que me emprestam pernas, braços, risos e colorido, em momentos em que eu nem sabia que havia. Obrigada, meus queridos, muito obrigada.

Águas derramadas …

CANCIONISTAS

Acordam

acendem

iluminam

acompanham

encantam

ecoam sílabas, frases …

Letras

ensaboam e enxaguam dores e mágoas.

Cancionistas, companheiros fiéis.

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Canal: Felipe Asevedo

VERSEJAR SEM LÁGRIMAS

 

Capaz de rir

capaz de gozar

capaz de flutuar

capaz de ouvir e ser ouvida

capaz de beber vinho e rir muito

capaz de ver o mar em noite calma

capaz de sentir vento quente nos cabelos

capaz de ver a linda lua cheia de inverno 

capaz de sentir o fascínio do olhar varão

capaz de ser feliz.

Canal: Neemias Santana

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Canal: Dilson Silva

      rio-de-janeiro-pop-art

  CARIOQUICES 

   Uma certa malandragem nativa

    um certo incerto bote de leão

    um copo, uma taça, um olhar felino.

    Uma certa rapidez sonora, tátil, palatal

     uma certa  corda-laço que enternece

     uma certa simplicidade cativante

     um tom prosaico de ironia

     um perdão quase tardio

     Cordato. 

    Másculo doce.

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Canal: cjportela

 

 Poemas: Odonir Oliveira

Imagens da POP ART, retiradas da Internet

Sobre os cancionistas, recomendo a obra de meu ex-colega de turma, na USP, Luiz Tatit: “O cancionista: composição de canções no Brasil”

Estudo da obra de onze entre os principais compositores populares brasileiros – Noel Rosa, Lamartine Babo, Ary Barroso, Dorival Caymmi, Lupicínio Rodrigues, Luiz Gonzaga, Tom Jobim, Roberto Carlos
Data da primeira publicação: 1995
Autor: Luiz Tatit

Muitos graus de separação …

Páris e Helena , Jacques-Louis David  (França, 1748 – 1825)

 

Temos acompanhado emoções à distância, cursos à distância, shows à distância …

Talvez não estivéssemos preparados para bons-dias, boas-tardes e boas-noites à distância. Fomos acostumados a olhar nos olhos uns dos outros, a sentir-lhes as emoções, e de todos os tipos.

A solidão das cidades mergulhou uma grande parte das pessoas em redes artificiais de contato, de afeto; conta-se tudo, ensina-se tudo, mostram-se todas as fotos de todos os lugares onde se esteve e até o mapa do local onde se está naquele exato instante.

Há de se convir que é estranho. Não emito juízo de valor ou crítica a isso, apenas constato que é estranho. Tornou-se muito diferente o estado de intimidade entre as pessoas… a ponto de não se ouvir nem mais a voz de seu interlocutor, escreve-se, mandam-se mensagens escritas, imagens, músicas, emoticons etc. etc. Alguns há que se incomodam até com chamadas telefônicas, não atendendo-as, por nada, mais.

Não sei onde estão as ânimas das pessoas. Tudo é um jogo virtual apenas. Não se pode fiar mais no que se lê, se vê e até no que se ouve nas telas.

Tempos difíceis demais de serem compreendidos por muitos de nós. Grandes enigmas aparecem por essa razão. Muitas confusões, diatribes e melancolias resultam desse estranho e novo jeito de ser. Nunca se saberá com quem se estará lidando. Talvez tudo faça parte de um jogo- novo também- onde se vivam papéis pré-estabelecidos, sem possibilidade de alteração: antagonistas sempre antagonistas, protagonistas sempre protagonistas, sem possibilidades de inversão de papéis, de rotação , como geralmente ocorre no mundo real. A visão maniqueísta gera um cansaço a quem participa desses círculos virtuais, dessas redes sociais …  Tudo é relativo, tudo é virtual, tudo é de brincadeira apenas.

Pode parecer bom não se responsabilizar por nada, não ter seus nomes revelados, seus locais de ação revelados…. esse anonimato conveniente é confortável e dissemina ainda mais a omissão, a desfaçatez e a falta de responsabilidade por palavras e atitudes. Tudo muito confortável.

Quem não sabe jogar não desce pro play– já li por aí.

Deve ser verdade.

Prefiro jogar à vera, contudo.

 

OUVINDO APENAS: DE PREFERÊNCIA DE OLHOS BEM FECHADOS OU BEM ABERTOS

Vídeos: Canal Odonir Oliveira

 

Casos e ocasos: descasos

             “Filosofia de Alcova” (1966), de René Magritte.

       
Caso do Vestido

Carlos Drummond de Andrade


Nossa mãe, o que é aquele
vestido, naquele prego?

Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou.

Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?

Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.

Nossa mãe, dizei depressa
que vestido é esse vestido.

Minhas filhas, mas o corpo
ficou frio e não o veste.

O vestido, nesse prego,
está morto, sossegado.

Nossa mãe, esse vestido
tanta renda, esse segredo!

Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca.

Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se.

E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós, 

se afastou de toda vida,
se fechou, se devorou,

chorou no prato de carne,
bebeu, brigou, me bateu,

me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe,

mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou.

Dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro, 

beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.

Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,

me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,

que tivesse paciência
e fosse dormir com ele…

Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos.

Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio.  Disfarcemos.

Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau.

Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.

E lhe roguei que aplacasse
de meu marido a vontade.

Eu não amo teu marido,
me falou ela se rindo.

Mas posso ficar com ele
se a senhora fizer gosto,

só pra lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem.

Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.

Olhei para a dona ruim,
os olhos dela gozavam.

O seu vestido de renda,
de colo mui devassado, 

mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.

Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei… disse que sim.

Sai pensando na morte,
mas a morte não chegava.

Andei pelas cinco ruas,
passei ponte, passei rio, 

visitei vossos parentes,
não comia, não falava,

tive uma febre terçã,
mas a morte não chegava.

Fiquei fora de perigo,
fiquei de cabeça branca,

perdi meus dentes, meus olhos,
costurei, lavei, fiz doce,

minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,

minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.

Vosso pais sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.

Um dia a dona soberba
me aparece já sem nada,

pobre, desfeita, mofina,
com sua trouxa na mão.

Dona, me disse baixinho,
não te dou vosso marido,

que não sei onde ele anda.
Mas te dou este vestido, 

última peça de luxo
que guardei como lembrança

daquele dia de cobra,
da maior humilhação.

Eu não tinha amor por ele,
ao depois amor pegou.

Mas então ele enjoado
confessou que só gostava

de mim como eu era dantes.
Me joguei a suas plantas,

fiz toda sorte de dengo,
no chão rocei minha cara,

me puxei pelos cabelos,
me lancei na correnteza,

me cortei de canivete,
me atirei no sumidouro,

bebi fel e gasolina,
rezei duzentas novenas,

dona, de nada valeu:
vosso marido sumiu.

Aqui trago minha roupa
que recorda meu malfeito

de ofender dona casada
pisando no seu orgulho.

Recebei esse vestido
e me dai vosso perdão.

Olhei para a cara dela,
quede os olhos cintilantes?

quede graça de sorriso,
quede colo de camélia?

quede aquela cinturinha
delgada como jeitosa?

quede pezinhos calçados
com sandálias de cetim?

Olhei muito para ela,
boca não disse palavra.

Peguei o vestido, pus
nesse prego da parede.

Ela se foi de mansinho
e já na ponta da estrada

vosso pai aparecia.
Olhou pra mim em silêncio,

mal reparou no vestido
e disse apenas: — Mulher,

põe mais um prato na mesa.
Eu fiz, ele se assentou,

comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,

comia meio de lado
e nem estava mais velho.

O barulho da comida
na boca, me acalentava,

me dava uma grande paz,
um sentimento esquisito

de que tudo foi um sonho,
vestido não há… nem nada.

Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada.

 
Texto extraído do livro “
Nova Reunião – 19 Livros de Poesia“, José Olympio Editora – 1985, pág. 157.

OCASO DE UM VESTIDO

De menina, perco-me nesses versos de poesia narrativa

Drummond, mineiro pai lírico de minhas entranhas, ressoa.

Como se fora eu cada uma das personagens do enredo,

a um tempo uma,

a outro tempo outra, outras.

Ouvi-lo. lendo seus versos

em voz rouquenha de homem idoso,

me leva a compreender, agora mais, que narrativa é essa.

Sei pouco da vida ainda.

De Drummond sei bastante porém.

DESCASO

Cuspiu na cara do trapo

Riu de sua barba mal feita cheia daquela saliva e do álcool

Mastigou três ou quatro palavras de desdém

Era o bastante

De pé sobre um corpo de joelhos,

o sapato salto agulha no peito em duelo,

riu,

gargalhou.

Saiu.

Foi-se para um sempre.

Poesias: Odonir Oliveira

Telas de André Kohn

1º Vídeo: Canal Analysexavier

2º Vídeo: Canal  TramaTV

Homens, esses estranhos

Canal: Odonir Oliveira

Música: “Wind Marching For Rain”, Puddle of Infinity
Imagens: Black /White/ Wood – Pinterest  //Mel Melissa Maurer – Instantes fotos ao álbum “NUde”

 

RAÍZES DE HOMENS

Há certos homens que têm caules vigorosos.
São eles que semeiam a terra
afagam sementes
exalam perfumes de flores
recolhem os frutos doces.
Há certos homens que encostam as mãos na terra
a fortificam com seus dedos ásperos
a revolvem com palmas ardentes
a fertilizam com braços seguros.

Há certos homens que têm raízes em lugar de pés,
fincam-se inexoravelmente.

 

 

CERTO MENINO

Media-se por competições

Estimava-se por reflexo em espelhos

Divertia-se com os desafios

Era um, mas era bem outro

Gostava de duelar

Gostava de vencer os duelos

Adorava exibir os troféus

Seduzia-se por ser sempre o vencedor.

Era um homem, mas era apenas um menino.

René Magritte

 

FAMÍLIA

Essencial

Família nas veias

Rostos semelhantes, vozes semelhantes, gostos semelhantes

Matilha de lobos de mesmo sobrenome

Quadrilha de danças particulares

Essencial

Elos indestrutíveis

Portos certos de almas incertas

Família essência, permanência, transcendência.

 

     CORPO

Quer corpo… que novidade !

Quer corpo … com que intensidade ?

Quer corpo …. sem girar o timão do barco na direção apontada pela bússola ?

Quer corpo … sem erguer copos de vinho a Dioniso ou Baco ?

Quer corpo … sem acariciar cabeça tronco membros ?

Quer corpo … com que intensidade ?

Quer corpo … que novidade !

Sebastian Eriksson

Rob Gonsalves

 

ENTRE O CÉU E A TERRA

O sertanista percorria mata e bebia poeira

era novidadeiro, noticioso, exemplar.

O sertanista colhia cestos de flores e frutos pelas picadas, veredas, cachoeiras

era estrangeiro, panorâmico, incomum.

O sertanista coloria cenários com suas narrativas

era encantador ao recortar montes, recordar ritmos, ensinar riachos.

O sertanista brincava de desenhar rotas, trajetos, picadas

era risonho, sorridente, feliz.

O sertanista bebeu vinagre, fel e rícino por muitas luas e perdeu-se.

Perdeu-se de si

Perdeu-se de seu sertão

Perdeu-se da poeira, dos montes, dos riachos.

O sertanista virou imagem congelada de si próprio.

O sertão continua no mesmo lugar.

Bridge in the forest II- Free Stock Photo

Poemas: Odonir Oliveira

Vídeos: Canal: Sesc em São Paulo

Músicas: Show que ocorreu no Teatro Anchieta do Sesc Consolação dia 11/01/2016
• site oficial: http://www.instrumentalsescbrasil.org.br
• assista aos shows ao vivo pelo http://facebook.com/sescsp

Botas de muitas léguas

 

ABOIO

Falo ou calo?

espero ou me atrevo?

Venham em meu socorro,

meus deuses e semideuses,

meu Drummond, meu Pessoa, meu Manoel ,

me deem a mão Cora, Adélia e Cecília,

venham, por favor, Guimarães, Clarice e Graciliano.

Falo ou calo?

espero ou me atrevo?

Acudam, com sua lira e sua fabulação, todos os meus magos, acudam.

Calcem-me suas botas de galgar píncaros, de beber mel e fel

Emprestem-me engenho e arte de Camões e Homero.

Corram que meu tempo expira e ainda tenho que ir.

Corram, emprestem-me suas botas.

“O par de botas”, Vincent van Gogh

Canal: JackStarkey57

 

PAR DE BOTAS

 

Calçam

Tiram

Levam

Lavam

Calçam

Tiram

Levam

Lavam

Cansaço.

 

Delicioso prazer.

“Sapatos”, Van Gogh

Canal: aroldo de souza silva

“As velhas botas”, Mazé Leite

René Magritte

 

O GATO DE BOTAS

 

Amigo felino,

ronronar de mios

roçar de pelos

eriçar de bigodes

enroscar de dorso

aprumar de rabo

umedecer de boca

desmaiar de fastio.

Canal: Luciano Rê

De certo, um leão …

LEÃO

Oh não!

Leão no meu coração ?!

Na certa é complicação.

Ruge para fora,

sussurra por dentro.

Amedronta o ambiente,

adocica pela janela,

floresce paisagens,

reflorestando espíritos das matas.

 

Leão no meu coração?!

Oh não !

Na certa é complicação.

Leão, rei das florestas,

faz sonatas

faz prelúdios

tece tramas idílicas em profusão.

 

Leão, leão

Na certa é complicação.

Ou não ?

Poesia:  Odonir Oliveira

Vídeo: Canal TheBeatlesVEVO

Imagens da internet