''O alpendre'', Regina Pereira

O alpendre
Regina Pereira

Bati palmas no portão. Era um tempo sem campainhas. Mas, célere, o tempo das campainhas se foi também. (É tempo dos implacáveis interfones.) Pensando bem, não bati essas palmas. Os portões estavam sempre abertos pros alpendres. Neles havia um banco, uma cadeira de balanço, uma saudação, um sorriso calmo, um cipó de lágrimas-de-cristo escalando uma coluna. No alpendre da memória ela está sempre lá, Buda caipira. Roliça no vestido roxo de florezinhas, eternamente Semana Santa, o cigarro de palha meio pitado atrás da orelha, um coque de ralos cabelos brancos, os olhos verdes, esmeraldas fechadas, ouvindo profundamente uma musga que elegia uma casinha lá no pé da serra (seu Éden) com manacás, lilases como seu traje. Sua fala mansa e afetuosa, seu tempo, onde todos eram cumadre e cumpadre. Ela dominava o segredo das rezas, pra cobreiro, pra impingem, pra mau-olhado, pra espinhela caída. Campeava, no seu jardim, que cheirava arruda e fedegoso, a erva que curaria todos os nossos males. Não sei por que eu acreditava piamente que, enquanto ela vivesse, haveria claridade no meu mundo, a claridade dos dias azuis de maio, no máximo com céu de carneirinhos. Bem que eu queria, mas ela não era minha avó. Era só a vizinha a quem amei na infância, a quem minha mãe (sem muito pra dar) franciscanamente doava meio litro de leite de nossa vaca Guaraína, que ela buscava pacientemente, todo dia, na leiteira amassada, sem cabo. Elvira Ximenes do Prado não se despediu de mim, e como seus contemporâneos agonizou uns dias no balão de oxigênio da Santa Casa de Misericórdia de Guaxupé e virou eternamente a vó postiça sentada pra sempre pra sempre pra sempre pra sempre no meu alpendre do ar. De vez em quando ainda arrisco a bater palmas no portão, quem sabe ela só tenha entrado um pouquinho, pra não apanhar um golpe de ar, quem sabe?

Minha amiga Heloísa Ramos, há mais de 30 anos, me trouxe a página de Regina Pereira no Facebook e, faz alguns dias, me presenteou com esse texto dela. Fui à fonte, imediatamente, que gosto de ler e aprender. Regina escreve muito bem, com emoção. Suas escritas fazem companhia a gente, sabe como é?

VERSOS ÍNTIMOS

Nem tudo que escrevo entrego.
Há versos que guardo.
Há versos que são presentes únicos a cofres únicos.
Há versos que me aturdem sem trégua.
Há versos que andam comigo por passeios matinais.
Há versos intrusos que engasgam meu sentir como pedras nas picadas estreitas.
Há versos que colidem com meu ir e vir de chicote e rédeas.
Há versos que não serão escritos.
Há versos que não serão lidos.
Há versos impublicáveis.
De minha intimidade gozam poucos.
Bem poucos.
Talvez apenas os versos.

PLUMAS AOS VENTOS

Costumo recomendar a quem gosta do exercício da escrita que leia. E revise o que escrever. Hoje o editor de texto ajuda bastante. É fato que quem se serve de um celular, muitas vezes erra citações de nomes próprios de compositores, de canções, de obras literárias, de títulos de poemas … assim, rever o que se escreveu é saudável.

Leio vários blogueiros, principalmente os que espalham seus versos pelos caminhos, pelas nuvens – alguns bem jovens, iniciantes – não se preocupem com rimas, às vezes forçam a forma e depreciam o conteúdo. Escrevam, as imagens do inconsciente, elas pululam da gente de uma maneira que nem nós as percebemos. Rimas dão ritmo aos poemas, conferem certa musicalidade aos versos, e quem as aprecia deve usá-las. Mas há as rimas internas também, no meio dos versos e não apenas no final deles. As imagens metafóricas, as comparações são material para os poemas. Mas não a matéria. Matéria é vivência, é alegria, dor, conflito, amargura, revolta … tanta coisa. Caso contrário tudo resultará falso, artificial.

Nos blogueiros mais novos, algumas vezes leio as angústias de desejarem parar de escrever por não poderem se manter através daquilo que escrevem. Tenho o hábito de perguntar se querem vender o que escrevem ou serem lidos. Porque é preciso exercício. Uma coisa pode ser consequência natural da outra. Ou não. Somos lidos, bastante elogiados por amigos, familiares em geral, por pessoas que não se baseiam em critérios estéticos, que não se preocupam com a forma – até por nem estarem preparados para isso. Comentam o conteúdo apenas, a mensagem dos poemas. E, por não conseguirem, talvez, escrever algo como aquilo que leram, admiram-se, aplaudem etc. É válido. Não ocorre isso com editoras, não se tenha como meta vender versos em livros, publicar, ver seus livros distribuídos por livrarias, bancas de jornais ou até pela Internet. A não ser que o poeta custeie sua obra, por certa vaidade de título e capa, noite de autógrafos etc. Poesia é prazer. De se escrever e de se ler.

Os poetas brasileiros – e escritores em geral – nunca sobreviveram pela venda de seus livros. Muitos até hoje, já muito premiados, publicados no exterior, vivem da venda de direitos autorais para filmes, séries etc. e de palestras que proferem mundo afora. A porcentagem que cada livro vendido lhes rende é mínima. Há editoras, inclusive, que contratualmente remuneram autores durante um tempo pré-estabelecido, enquanto escrevem, e depois ficam com todos os valores sobre as vendas dos exemplares.

Mesmo autores muito reconhecidos, adquiridos em grandes tiragens por bibliotecas, prefeituras, estados são submetidos a uma editoria, que acontece em diversas fases: desde uma primeira leitura critica, feita por um especialista em literatura e colaborador, até chegar ao editor-chefe daquele segmento na editora. Todos. Todos mesmo.

Sugiro sempre que leiam. Gosta de crônicas, leia crônicas. E poemas. Gosta de contos, leia contos. E poemas. Cordel para os que queiram a naturalidade, a inventividade. Gosta de romances, leia pequenos romances, adquira fôlego de leitura, vocabulário, ritmo, bagagem e continue escrevendo. E poemas. Não adianta apenas ler Leminski e querer escrever como ele. Leia vários. Não escreva de forma muito hermética, em cofres, que só você ou quem inspirou aquilo vá absorver, possa abrir. Amplie imagens, abra os cofres para que outros se vejam ali também, tragam suas chaves de absorção. Não use seus versos para mandar recados pontuais, para fazer pregão. Use e abuse de muitas chaves. Deixe que muitos, ao lerem seus versos, viajem neles. Não gourmetize seus poemas, portanto.

Inovar, libertar-se de cânones poéticos só acontece quando a gente já se libertou na vida. Os inventivos cordelistas cresceram absorvendo literatura oral, musicalidade e possuem repertório individual e coletivo também.

E aí, você escreve para quê? Por quê?

Eu, por exemplo, escrevo para me expressar. Assopro o que escrevo ao vento, na nuvem, aqui, ali, acolá. Ser lida é consequência.

Abraços parceiros e, sobretudo, cúmplices.

Leia meu post ”Somos trovadores … urbanos” https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2017/06/23/somos-trovadores-urbanos/

Poesia e texto: Odonir Oliveira

Facebook da Regina Pereira: https://www.facebook.com/regina.veredas.5680

Vídeo: Canal Instrumental Sesc Brasil

Da terra aos céus

VINDE E AMPARAI

poetas me ouvem
assinam meus suspiros todos
cravam flechas nas chagas abertas
espremem a purulência de meus desvãos
poetas me escrevem
eu respondo a cada um
como posso
como consigo

E sigo

JARDIM

Aro a terra
afofo a terra
sujo as unhas
marco os dedos
firo as mãos
mãos que sentem
faço jardins de amores-perfeitos
faço jardineiras de palmeirinhas
subo-desço escadas à sacada
cidade grande
faço jardins de amores-perfeitos
sou terra preta adubada
estou semeando
estou nas estações
estou aguardando as tardes
estou aguardando noites
estou jardim

TERRA

a sofisticação do viver
é terra
é semente
é raiz
é folha verde
é flor
é fruto
é folha amarelada
é folha murcha
é folha outra
é cor outra
é cheiro outro
é flor outra
de cor outra
de perfume outro
é fruto de novo
é sabor de novo
é saber novo
é escorrer pelos dedos
é lamber os dedos
é melar as mãos
é ter mãos
para a sofisticação do viver

ENCANTAMENTO

Aro a terra
afofo a terra
sujo as unhas
marco os dedos
firo as mãos
mãos que sentem
cidade-mato pequena vivenda
faço jardins de rosas
sei de seus tempos de floração
faço canteiros de ervas aromáticas
recolho flores
fascino-me com as azaleias
colho frutos em galhos
enfeito-me com as buganvílias
faço jardins de encantamentos
sou terra vermelha
sou escolha de presente
sou estação de florações
sou eu as tardes
sou eu as noites
Sou jardim
Sou encantamento

MEU QUINTAL

meus pássaros cúmplices
meus pássaros cúmplices
me trouxeram as sementes
me enfeitaram o quintal
árvores que vi crescer
árvores que vi brilharem
árvores
árvores
árvores
belezas que vi resplandecer
no meu quintal
pertinho de mim
chegando juntinho de mim
árvores que semeei
árvores que encontrei
flores que chegaram
sem que eu pudesse
por elas nada fazer
nada impedir
nada coibir
só vê-las em seu resplandecer

DOCE NA BOCA

faço doces como quem pinta
faço doces como quem dança e canta
faço doces como quem faz versos
faço doces como quem faz amor

seleciono as frutas
escolho as mais doces e coloridas
sinto seu cheiro com um gozo especial
cozinho seu sabor em banho-maria
em tachos, gamelas
perfumo cadinhos de especiarias sensuais
a cada colherada
mexo devagar
aguardo apurar
provo paladares
antes
depois
faço doces como quem faz amor

ESTAR FELIZ

Feliz, assim
Feliz assado
Feliz instante
Feliz momento
Feliz comendo
Feliz bebendo
Feliz cantando
Feliz chorando
Feliz dando
Feliz recebendo
Feliz sendo
Feliz estando
Feliz com
Feliz sem
Feliz dentro
Feliz fora
Feliz de pé
Feliz deitado
Feliz junto
Feliz separado
Feliz instante
Feliz momento.

Leia também:

Prazeres doces

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2019/02/28/prazeres-doces/

Aromas e lembranças

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2018/09/26/aromas-e-lembrancas/

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal: meu quintal

Vídeos:

1- Canal ITALIANS DO .IT BETTER

2- Canal Marco Samuel

Doce mistério da vida

INFÂNCIAS

alegria
presentes
presenças
esperas, suspiros
presépio, orações, cantigas
hora esperada
sininho que bate
figura bonachona de vermelho e branco
conversas, risos, surpresas
admiração, agradecimentos
sorrisos sagrados
alegria incomparável

ESPERA

o laço, a fita, a foto, o filho
a vinda, a estrada, a entrada
fora do útero, fora da proteção
agora a caixa, a máscara, a espera
o cheiro menino
o cheiro franzino
o cheiro pequenino
a ternura na espera
a ternura no esmero
a ternura de vê-lo
a suprema vontade de tê-lo
nos braços
na pele
no calor do seu amor
saudável, sonoro, suave
de volta
à ternura antiga

SONHOS

Sendo assim menina falante, galante qual minhas meninas,
também eu, sonho como elas.
Sendo assim aventureira e valente como meus meninos,
também eu, sonho como eles
Sendo assim livre, criativa e desafiadora como todos eles,
também eu, me permito ser feliz como eles.

DAS ESTRADAS DE SOL

As carinhas de sonho
Os rostinhos de magia
As páginas de vidas a serem escritas
Elas todas me sacodem
Elas todas fazem abrir os cofres de desconfortos
Suas falas em seus jogos simbólicos
Suas graças em seu modo de existir
perfumam
tingem de muitas cores
cada amanhecer
cada entardecer

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de Tiago Sermarini

Vídeos:

1- Canal professorclodomar

2- Canal Biscoito Fino

José

ALTO-FALANTES NA PRAÇA

Berenice viajava no vagão 12. Era sua primeira viagem de trem. Teria ido de avião, pelo menos num trecho do percurso mas, convencida por amigos, iria encontrá-los … de trem. Recomendaram tanto, já que estaria apenas no início das férias, haveria tempo, que fizesse aquela longa viagem até eles.

Tudo lindo, rios, matas, montes, flores, passeios feitos, sentada, com ar condicionado, restaurante, lanchonete, bons banheiros. Encantada.

De repente, fogo na mata, incêndio mesmo. Trem seguiria até a próxima estação e esperaria que debelassem o fogaréu. Horas e horas. Opções seriam pernoitar na cidadezinha, seguir de ônibus ou permanecer na estação bucólica onde aguardavam. Havia café, lanchonete, banheiros e bancos. Bancos.

Berenice optou – surpreendentemente – por um banco da estação. Sem saber por quê. Sentou-se, abriu a grande mochila e continuou sua leitura do livro de memórias. Confiava em sua opção. O trem seguiria, não seria necessário o pernoite na cidadezinha. Nem quis conhecê-la. Quase todos foram.

Conheceu, então, José que se sentou ali, calado, observador, com um livro de poemas de Neruda nas mãos, sem ler. Olhou para ela, interrogativo. Começaram a conversar. Falou da família, da mãe, das belezas do país, de gente, de valores. Berenice encantou-se com ele. Seria mesmo José o seu nome, seria casado, a qual cidade estaria indo, fazer o quê? Aquilo tudo que lhe contou seriam verdades? Em certo momento chegou a afirmar que o que procurava nas mulheres novinhas eram apenas os feromônios, mas era mais seletivo, valorizava tantas outras coisas numa mulher etc. Foram horas de conversa, de bom humor, de piadas, de trocadilhos, de presença de espírito, Berenice continuou encantada. Mas que homem é esse, meu Deus? Duas covinhas, a pele de índio, o nariz de negro, a graça incomum. Que homem é esse? – continuava se perguntando.

Problemas contornados, tráfego restabelecido, horas e horas de bagagens comuns. Berenice já conhecia José havia décadas? A saber.

José despediu-se. Desceu na estação a que se destinara. Ela anotou o nome da estação. Chegando ao encontro dos amigos, narrou tudo aquilo. As versões dadas pelo casal ao fato ocorrido iam desde predestinação, karma, até ilusão de ótica, cansaço, sonho, delírio. Riram muito da história de Berenice por semanas.

José, manifeste-se, apareça, sejamos amigos, ficou algo sem entendimento? Por favor, conversemos mais. Era assim que Berenice passou a tentar encontrar sua ilusão de ótica, depois daquele dia. Anunciava em jornais das cidades vizinhas, dedicava canções nas rádios locais, em programas noturnos e, por fim, passou a dizer suas mensagens nos alto-falantes das praças da cidadezinha onde descera José, e em outras ao redor. Por três vezes foi até a tal cidade, mas temia ser inconveniente, cometer qualquer invasão de privacidade.

Concluiu que José – seria esse o seu nome mesmo – era um homem casado, comprometido, enrolado, sem poder se envolver com mulher alguma mais. Ficassem amigos, então.

Algum dia outras estações poderão ser visitadas, exploradas, conhecidas – avaliava Berenice que nunca mais fez aquele percurso. Entendeu que ”José” fizera outras escolhas e respeitava aquilo.

COMPANHEIROS DE VIAGEM

Nos dias de lúgubre cenário, há sempre quem nos faça companhia.
Há rostos, mãos, vozes, risos e ouvidos a nos velar as falas.
No banco, ao lado, na entrada, na saída, no percurso,
há sempre alguém sentado anonimamente.
Como querubins e serafins, colorem de humanidade nosso trajeto
São asas farfalhantes e desconhecidas que nos impulsionam ao desembarque.
Trocam-se confidências, revelam-se segredos, pedem-se conselhos
Depois, cada um desce do trem na estação pretendida
E a viagem continua.
Há sempre um companheiro na nossa viagem.

VARANDAS

passa boi passa boiada
um monte
uma cerca
uma invernada.
passa boi passa boiada
um açude, um aceno
um olhar até onde pude.
apito aviso
apito grito
apito choro
apito lembranças
apito conversas
apito promessas
apito chegadas
apito despedidas.
um túnel esgarçando em mim
uma luz no fim começo
no fim travessia
no fim revelação.

VAGÕES

Há como um compasso aberto
no traçado de certas rotas.
Toca-se ao extremo a superfície
apoia-se a ponta seca nos dormentes
eriçam-se os cordeiros
empina-se a fornalha
queima-se um fogo eterno
por bancos, poltronas , estribos, trilhos.
Vagões vagueiam por espaços etéreos
de estradas verticais qual pássaros audazes.
Há como uma geometria desconexa de espelho,
imagens se opõem ainda que as mesmas.
Há um mistério no sussurro lamento
do apito de um trem.

ENCONTROS

Ama-se o amor
Ama-se a busca do outro em si mesmo
Ama-se um acordo de pensamento que batiza encontros
Ama-se um gesto, um riso, um toque, um olhar
Ama-se um jeito, um comportamento, uma capacidade
Ama-se um cheiro, uma seiva, uma pele.

INVERNOS

Quantos invernos cumprirão uma existência?
Quantos dias de chuva e de bonança comporão uma existência?
Quantas luas serão suficientes para um grito de êxtase e felicidade?
Quantas raivas, dúvidas, indecisões e tropeços antecederão um beijo?
Quantas falsas interpretações dos sinais emitidos pelos ventos,
quantas incorretas leituras de sinais de fumaça,
quantas incompreensíveis decodificações de letras e números
quantas indecifráveis frases serão culpadas
por improváveis leituras de estrelas?

MÃOS DO DESTINO

Que traçado é este, destino, que insistes em me fazer trilhar?
Por que me fizeste acreditar na leitura de minha mão?
Como conseguiste aspergir de morenice essas minhas noites de luar?
Quando estaria mais perto a estrela que me sorria e tão alto luzia ?
Que rota é essa de ramais tortuosos que me estendes sem termo ou chegada?
Responde, destino, que não suporto mais ter que desvendar-te !

Texto e poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal: Viagens de trem por RJ, SP e MG

Vídeo: Canal VADO VADUSKA

Ensinar e aprender: o maior amor

BLOCO DOS FAMINTOS

fome
ignorância
seleção cruel
hipocrisias
benesses
ortodoxias
sociologias torpes.
Crescer o bolo
depois repartir.
Mobral, madureza,
por décadas
seca
nomadismos
exílios
marginalização
discriminação
por séculos.
Céu sem estrelas.

BLOCO “NUNCA NA HISTÓRIA DESSE PAÍS ”

Um filho teu não foge à luta,
empunha bandeiras,
entoa cânticos hinos loas
distribui esperanças
vence o medo.
Vencem os medos.
carne feijão arroz ovo leite
luz água cisternas
mães assistidas
as bolsas das famílias celebradas
escola para todos
informática
inglês natação teatro
física em laboratórios
bibliotecas computadores,
moto-contínuo
universidades públicas gratuitas.
Viagens de ônibus …
Viagens de avião …
Geladeira fogão máquina de lavar
Televisão moderna
Celulares iguais aos dos patrões.
Banda larga.
Filhos nas universidades como os dos patrões.
Bloco dos sem dentes de Darcy,
bloco dos com dentes e dotes agora.

À LUTA !

Ei você aí que tem
Ei você aí que viu
Ei você aí que recebeu
Ouve um lamento
Ouve um pedido
Ouve um direito.
Ei você aí que sabe
Ei você aí que usufruiu
Ei você aí que possui
Ouve um desejo
Ouve um sonho
Ouve uma vontade.
As paredes e os muros
deveriam ser etéreos apenas.

VÊM APRENDER, MENINOS

chega, conhece
aprende
pergunta
dialoga
pergunta
responde
confronta
explica
reflete
pergunta
discute
argumenta
ouve
aprende.
Faz !

COMUNHÃO

bebe verso
come letra
sorve número
mastiga a história
namora a ciência
acorda com a geografia
aprecia a letra e a música
desenha a geometria dos sons e dos signos
encanta-te com as descobertas todas os dias
porque todo dia tem um futuro novo pra você.

UNIDOS ESCOLA DA RESISTÊNCIA

Eles não desistem
Eles não entregam
Eles não aceitam
Eles não acatam
Atacam.
Vigílias nos blocos duros?
Vigília nos blocos dos famintos.
Vigília nos blocos dos solidários.
Vigiai.
Sempre.

Pedro, em Barbacena

ENSINAR É APRENDER

Meu filho vive me dizendo ” Mãe, para de dar aula, mãe, em todo lugar você tá sempre dando aula, contando alguma coisa da sua vida, do que já viveu. As pessoas não acreditam, mãe, acham que você tá mentindo, exagerando, que tá se exibindo; não falam na hora, mas pensam e comentam depois. Você atrai inveja, raiva, para com isso”.

Pedro tem um pouco de razão sim. Mas … não paro não. E não paro porque existe sempre uma relação dialógica em meu discurso. Tenho meu lugar de fala, é claro, mas ouço, aprendo, aceito réplicas, acato tréplicas. Vivi assim sempre e me assusta, assusta mesmo a falta de posicionamento social, político, emocional de tanta gente. Coragem, pessoal. O dito popular ensina ”Quem fala o que quer ouve o que não quer”. Ouço sempre, até o que não quero, mas fico sabendo o que o outro pensa, principalmente por suas atitudes. Meu pai dizia que devíamos ser claros (explícitos, transparentes), assim todo mundo saberia quem a gente era, com quem estava lidando. E depois, deveríamos também aguentar as consequências da nossa clareza. Acho que tenho ido nesse caminho. E conheço muita gente assim também. Beijo, meu filho amado.

Leia também o Rubem Alves falar sobre esse tema:

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal – cidade de Barbacena, MG

Vídeos:

1- Canal Sandro M. Silva

2- Canal Poder360

3- Canal Leonardo Fernandes

Terras de Minas, cidades educadoras

TERRA DE MINAS

Que bondade tem o garoto mineiro que ajuda a carregar embrulhos, mesmo sem precisão…
Que prosaico é aquele “cê bobo” ao final das frases coloquiais …
Que vontade é essa de ficar sentado na praça a tocar causos e prosas até o entardecer…
Que permissivo é esse tom de confidência de quem jamais nos viu antes …
Que adocicado é esse olhar de matutagem espalhado pelas calçadas …
Que coisa caseira é essa que me enternece de água os olhos …
Talvez seja encontro de sangue mineiro com sangue mineiro.
Talvez seja um ponto de vista repleto de montanhas .
Talvez seja essa vontade de encontrar o que uma vez se perdeu em mim.

REFLEXÕES SOBRE UMA CIDADE EDUCADORA

Desde que conheci as cidades históricas mineiras, bem menores que as do Rio de Janeiro, me perguntava sobre os porquês de os moradores, os locais, NÃO tomarem nas mãos o seu conhecimento de raiz, suas histórias, seus saberes e sabores e NÃO espalharem isso tudo aos visitantes. Fui aprofundando minhas reflexões. Entrevistando os responsáveis pela organização da CULTURA, tendo prosas com moradores, observando, visitando, formulando minhas hipóteses. NÃO são teses, mas hipóteses.

Como pode uma cidade como Tiradentes, que sedia uma Mostra de Cinema nacional da maior importância, exibindo curtas e longas-metragens, vários em lançamento mundial, como pode esse berço da cultura mineira e nacional não ser contemplada com um cinema? Não falo de um espaço cult, de salas Vip, de cinematecas para público diferenciado. Falo de cinema, da necessidade de se criar o hábito de ir ao cinema, falo de formação de público. Falo de DEMOCRATIZAÇÃO DA CULTURA, integralmente. (Isso acontece em outras tantas cidades e não só nas mineiras. Não daria lucro abrir um cinema numa cidade pequena?)

Informam-me que SESC e SENAI/ FIEMG cuidam disso no Espaço Cine-teatro, com sessões aos finais de semana, há exibições para escolas, inclusive. A curadoria seleciona filmes que tenham a ver com a temática dos eventos que estejam acontecendo na cidade, durante o ano. Entendo a proposta do espaço, válida e enriquecedora também.

Namoro a ideia de uma CIDADE EDUCADORA, inclusiva, que traga os locais para dentro da festa. E nisso, a Mostra de Cinema tem feito bonito, com apresentações da Banda de Tiradentes abrindo a Mostra, com o Cortejo da Arte que contempla os grupos de tradições locais, incluindo circo e teatro, que resistem na cena de Tiradentes – só para citar algumas das ações.

As mesas-redondas, os seminários são de a gente se lambuzar com eles, como doce de leite e queijo Canastra – quanto aprendemos ali todos os anos. Muita gente que faz cinema, ligada às artes em geral, vem do Brasil inteiro para a Mostra. Muitos mineiros inundam a cidade, artistas e técnicos que fazem, literalmente, cinema, de chinelos e bermudas, colorem as ladeiras e as pedras da cidade.

Ouso querer ainda mais, a inserção da comunidade local não apenas como ”consumidora” de arte, observadora, mas fazedora de arte – porque todos têm muito a contar. A frequência à sala do Cine-teatro – informam-me – é bem pequena, pelos da terra. Consideram não terem roupa para aquilo ‘‘com que roupa eu vou” a um lugar assim … já ouvi isso pelas Gerais, em relação às missas em Igrejas de porte maior, históricas etc. Coisa de mineiro? Não sei. ”Minas são muitas”. Mas há que se intervir nisso. Dar nas mãos do mineiro o que é dos mineiros, devolver-lhe voz e vez para se adonarem do que é seu.

Não me canso de parar visitantes, muitas vezes mineiros, e lhes contar um pouco daquilo que estão conhecendo e de semear neles o prazer das abelhas e o encantamento das borboletas, educando-os e seduzindo-os aos olhares, aos saberes e sabores de ali.

Não se defende, não se preserva, nem se valoriza aquilo que não se conhece.

E o nome desse país é BRASIL.

Banda Ramalho, de Tiradentes

A METÁFORA DO CESTO DE BAMBU

Era de tardezinha. Caminhando e cantando … por dentro a alegria de tanta gente consumindo cultura pelas ruas, pelos espaços culturais, visitando belezas do artesanato mineiro, saboreando aqueles quitutes todos das Gerais, tudo tem perfume de festa, de alegria

Seguindo em frente com uma sacolinha, dentro dela água mineral com gás, ouço o ambulante parado na ponte me solicitando que lhe compre água. Respondo que tenho uma na sacolinha e sigo, lentamente, cansada de subir e descer ladeiras de pedras, ainda úmidas da tromba d’água do dia anterior, mas cheias de sol, por fim.

Na ponte o senhor, bem mais velho, reclama de não ter vendido nada dos cestos que carregava; ao que o vendedor de água lhe diz que parasse de reclamar, que ia conseguir vender.

Não resisti. Voltei e perguntei preço. ”De 20 faço por 15, quero é vender, senhora”. Comprei, reforcei a positividade para as vendas, dei-lhe algumas dicas de enriquecimento para seu pregão, para sua fala, e reafirmei que iria vender mais. Agradeceu, emocionado. Segui.

Hoje, em casa, reciclando o que já tinha, enfeitei sua cestinha e aprendi, mais outra vez, com essa metáfora da ”Tiradentes, amante sensual”

Post dedicado ao mineiro de Ponte Nova, falecido dia 26, TUNAI, José Antônio de Freitas Mucci. Irmão de João Bosco, e um dos meus compositores favoritos. Obrigada, cara.

Também aos mortos pelas chuvas, em Minas Gerais.

Tiradentes olha a rua; eu olho Tiradentes pela vidraça

Poesia: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1- Canal Odonir Oliveira

2- Canal Remo Luz

Tiradentes, amante sensual

CONVERSA DE GENTE-RIO

curvas sinuosas
sinestesias de prazer
mútuo
muito
flor-perfume
água-barca
água-balsa
conversa de gente-rio
pétalas de enlaces
gente-rio
abraço-beijo
olho-boca
mãos-pés
gente-rio
o esvoaçar de falas alheias
o borboletear de sons profanos
conversa de gente-rio
enlace de fluidos
musa-anjos
terra-pedra
água de rio
eu gente, tu rio
eu rio, tu gente

REFÚGIO SECULAR

Quando desavisadamente
o céu mineiro quer me ensinar
bate forte em mim
bate forte na memória do real vivido.

Então fujo
Então me escondo
Então me deixo dormitar
no colo das montanhas
nas pedras do penar
no alvorecer, no entardecer
do desenho das montanhas.

Somos apenas nós
elas e eu
segredando verdades
acolhendo súplicas
curando feridas sempre abertas.

Se há alegrias … Tiradentes.
Se há tristezas … Tiradentes.

Somos confidentes,
secularmente.

CANTOS DE ACORDAR

coral de galos confidentes
chamam é dia do batizado
herói alferes sussurra nos ouvidos
palavras de ordem
o tempo já se faz tarde
a hora de novo se apresenta tardia
confabulam-se conselhos
proseio mineiro de raízes libertárias
a Serra de São José acorda o sol
as aves acordam as borboletas
as borboletas bailam para os rios
os rios semeiam as terras
o tempo já se faz tarde
as gentes todas cheiram o café pelas vielas
a cultura do prosaico falador no banco da praça
de que família você é
as linhagens de sangue mineiro
conferidas
antes da confiança maior
montes fazem elevar o sentir
sentidos de prazer
sentidos de fé

Banda Ramalho, de Tiradentes

Sobre a cidade histórica TIRADENTES, em Minas Gerais, leia também:

”Eu já estou com o pé nessa estrada …”

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2020/01/25/eu-ja-estou-com-o-pe-nessa-estrada/

Tiradentes, a cidade mineira

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2017/04/04/tiradentes-a-cidade-mineira/

21 de abril, do povo brasileiro

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2016/04/22/21-de-abril-do-povo-brasileiro/

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos: Facebook Odonir Araujo