“A colheita é comum, mas o capinar é sozinho”, G. Rosa

“Conto ao senhor é o que eu sei e o senhor não sabe; 

mas principal quero contar é o que eu não sei se sei, 

e que pode ser que o senhor saiba.”

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O SERTÃO

“O senhor tolere, isto é o sertão.”

“O sertão está em toda a parte.”

“O sertão é dentro da gente.”

“O sertão é do tamanho do mundo.”

“O sertão é sem lugar.”

“O sertão é uma espera enorme.”

“O sertão não chama ninguém às claras; mais, porém, se esconde e acena.”

“O sertão não tem janelas, nem portas. E a regra é assim: ou o senhor bendito governa o sertão, ou o sertão maldito vos governa.”

“O sertão é confusão em grande demasiado sossego.”

“O sertão me produz, depois me engoliu, depois me cuspiu do quente da boca.”

“Sertão é isto o senhor sabe: tudo incerto, tudo certo.”

“Sertão é o penal, criminal. Sertão é onde homem tem de ter a dura nuca e mão quadrada.”

“No sertão, até enterro simples é festa.”

“Sertão: estes seus vazios. O senhor vá. Alguma coisa, ainda encontra.”

“Sertão, – se diz -, o senhor querendo procurar, nunca não encontra. De repente, por si, quando a gente não espera, o sertão vem.”

“Sertão: quem sabe dele é urubu, gavião, gaivota, esses pássaros: eles estão sempre no alto, apalpando ares com pendurado pé, com o olhar remedindo a alegria e as misérias todas.”

“Sertão. Sabe o senhor: sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar. Viver é muito perigoso…”

“O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães… O sertão está em toda a parte.”

“Sempre, nos gerais, é a pobreza, à tristeza. Uma tristeza que até alegra…”

“Sertão sempre. Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera.”

“A gente tem de sair do sertão! Mas só se sai do sertão é tomando conta dele a dentro.”

“Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e se abaixa. Mas que as curvas dos campos estendem sempre para mais longe. Ali envelhece vento. E os brabos bichos, do fundo dele.”

“Mas nós passávamos, feito flecha, feito fogo, feito faca.”

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“Sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado!”

DEUS

“Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo o rio… uma só para mim é pouca, talvez não me chegue.”

“O grande-sertão é a forte arma. Deus é um gatilho?”

“A força de Deus quando quer – moço! – me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho – assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se discutindo, se economiza.”

“Refiro ao senhor: um outro doutor, doutor rapaz, que explorava as pedras turmalinas no vale do Arassuaí, discorreu me dizendo que a vida da gente encarna e reencarna, por progresso próprio, mas que Deus não há. Estremeço. Como não ter Deus? Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo.”

“Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver.”

O DIABO

“Do vento. Do vento que vinha, rodopiado, Redemoinho: senhor sabe – a briga de ventos. Quando um esbarra com outro, e se enrolam, o doido do espetáculo.”

“Fosse lhe contar… Bem, o diabo regula seu estado preto, nas criaturas, nas mulheres, nos homens. Até: nas crianças – eu digo. Pois não ditado: menino – trem do diabo? E nos usos, nas plantas, nas águas, na terra, no vento… Estrumes. … O diabo na rua, no meio do redemoinho.”

“Por mim, tantos vi, que aprendi. Rincha-Mãe, Sangue-d’Outro, o Muitos-Beiços, o Rasga-em-Baixo, Faca-Fria, o Fancho-Bode, um Treciziano, o Azinhavre… o Hermógenes… Deles, punhadão.”

“Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem – ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum! – é o que digo.”

“E me inventei nesse gosto de especular idéia. O diabo existe e não existe. Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias.”

“Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é homem humano. Travessia.”

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AS GENTES

“Coração de gente — o escuro, escuros.”

“O que lembro, tenho.”

“Em Diadorim penso também. Mas Diadorim é minha neblina”

“Quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a idéia e o

sentir da gente.”

“Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem o perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.”

“O senhor não duvide – tem gente, neste aborrecido mundo, que matam só para ver alguém fazer careta… vem o pão, vem a mão, vem o cão.”

“O senhor saiba: eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente. Eu sou é eu mesmo. Diverjo de todo o mundo… Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.”

“Uma coisa é pôr ideias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias… Tanta gente – dá susto de saber – nenhum se sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza…”

“Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam.”

“Mire veja: o que é ruim, dentro da gente, a gente perverte sempre por arredar mais de si. Para isso é que o muito se fala?”

“As pessoas, e as coisas, não são de verdade! E de que é que, a miúde, a gente adverte incertas saudades? Será que, nós todos, as nossas almas já vendemos?”

“A colheita é comum, mas o capinar é sozinho.”

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AS VEREDAS

“O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.”

“Tem horas em que penso que a gente carecia, de repente, de acordar de alguma espécie de encanto.”

“Sozinho sou, sendo, de sozinho careço, sempre nas estreitas horas – isso procuro.”

“Eu careço que o bom seja bom e o ruim ruim, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero todos os pastos demarcados. Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado.”

“O rio não quer ir a nenhuma parte, ele quer é chegar a ser mais grosso, mais fundo.”

“Tempo que me mediu. Tempo? Se as pessoas esbarrassem, para pensar – tem uma coisa! -: eu vejo é puro tempo vindo de baixo, quieto mole, como a enchente duma água… Tempo é a vida da morte: imperfeição.”

“Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas”

“O senhor sabe o que silêncio é? É a gente mesmo, demais.”

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Guimarães Rosa
acendendo o pito na brasa do sertão
Minas Gerais, 1952
Foto por Eugênio Silva

 

OBSERVAÇÃO ROSEANA: Conheci, entrementes, um ator maravilhoso em cena (agora somos amigos no Facebook) que encarnou o filho em ” A terceira margem do rio: a de dentro ” – releitura do conto de Guimarães Rosa.

Fascinada com sua voz e vez em cena. O grande Rosa aplaudiria de pé.

Aqui estão fotos da apresentação e dados de seu grupo Cia. Teatral Letras de Rosa

http://touzpin.wixsite.com/aterceiramargemdorio

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1º Vídeo: Canal LUBOR

2º e 3º Vídeos: Canal jnscam

4º Video:Canal: jonioj

 

GUIMARAES ROSA, João. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956.

Disponível em PDF em: http://ow.ly/Bw2w301G34t

Coluna: Ipsis Litteris

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Post dedicado a esse homem TÃO DIFÍCIL DE SER VIVIDO, Guimarães Rosa. Quem poderia bebê-lo, encontrá-lo, segui-lo ? Quem conseguiria montar em seu cavalo e na garupa registrar tantas imagens e sons dos SERTÕES MINEIROS ? Quem ?

Leia também: https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2017/08/02/na-terceira-margem-do-rio-a-de-dentro/

Balanços

 

VENTOS ALÍSEOS

Lufadas generosas

massas de ar

na atmosfera

deslocamentos

alta pressão

aquecimento constante

latitude de trinta graus

hemisférios ambos

 

Rotação

deslocamentos

resfriamentos

baixa pressão

ventos contra-alíseos

na linha do equador

sem umidade

ar seco

inóspito.

 

Zonas tropicais

balanço positivo.

Zonas polares

balanço negativo.

Diferença térmica

na atmosfera

aquecimento desigual

movimentação das massas de ar

na atmosfera

circulação geral.

 

Ventos alíseos

lufadas generosas.

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Canal: Marco Galeotti

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CONCLUSÃO

Os impactos de amor não são poesia
(tentaram ser: aspiração noturna).
A memória infantil e o outono pobre
vazam no verso de nossa urna diurna.

Que é poesia, o belo? Não é poesia,
e o que não é poesia não tem fala.
Nem o mistério em si nem velhos nomes
poesia são: coxa, fúria, cabala.

Então, desanimamos. Adeus, tudo!
A mala pronta, o corpo desprendido,
resta a alegria de estar só, e mudo.

De que se formam nossos poemas? Onde?
Que sonho envenenado lhes responde,
se o poeta é um ressentido, e o mais são nuvens?

Carlos Drummond de Andrade, Grandes Sonetos da Nossa Língua, Ed. Nova Fronteira, p. 184

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Post dedicado aos meus fraternos LEITORES, visitantes ou seguidores. Obrigada por pegarem as plumas que assopro ao vento e as garrafas que atiro ao mar.

Poema: Odonir Oliveira

1º Vídeo: Canal: ecuapacífico

2º Vídeo: Canal: Ana Cláudia

3º Vídeo: Canal: osakafreesia

 

Muitos horizontes… belos horizontes

NOITES

Abre a página

abre a pele

abre a sinfonia

abre a imagem

abre-se cúmplice

Fecha os olhos 

Canal: professor rainold

AMPLIDÃO

Vem meu ar

vem meu céu

vem minha montanha

vem meu horizonte encontrado

vem meu horizonte perdido

vem meu belo horizonte

vem que por séculos

vislumbrei esse horizonte

Vem

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MIRANTE

Como pássaro livre voa

sobrevoa

asperge perfumes de asas e verdes

entorna um tonel inteirinho

de paisagens sedutoras

de leves toques

de sílabas interrompidas

semeia horizontes

semeia palavras umas

semeia palavras outras

semeia sentidos

semeia emoções

belos horizontes abertos ao porvir

belos horizontes ecoam 

em céu

terra

lagos

rios

trens

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Canal: Luísa Calvário

 

Versos: Odonir Oliveira

Fotos de Barbacena, MG, dezembro de 2016

Post dedicado ao meu amado filho Pedro.

Há um ano nasci aqui

Conquista do aniversário de 1 ano(s)

Feliz aniversário com o WordPress.com!
Você registrou-se no WordPress.com há um ano.
Obrigado por nos escolher. Continue assim!
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UMA IDEIA ANIVERSARIA
Minhas mãos sentem
mais que meus pés e meus braços
Minhas mãos sentem
mais que meus cotovelos, meus ombros
Minhas mãos sentem
mais que meu ventre e meu umbigo
Minhas mãos sentem
mais que meus lábios e meus olhos
Minhas mãos sentem mais
mais e mais
cada vez mais
enquanto me guiam por veredas emolduradas
de rios, barcos, árvores, trens, céus, flores e pássaros
Minhas mãos sentem
vertem lirismo
qual água cristalina
Minhas mãos sentem
incontrolavelmente
infinitamente.
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Recebi de presente de meu amado filho esse blog, no Natal passado.
Sabendo de meu estilo econômico, sem excessos  no atacado e no varejo, fez com que fosse simples, claro, fácil de ser manejado, manipulado, afinal era para mãos que sentem.  E, assim, ele me bastava. Minhas mãos operam muitas ações durante o dia, uma delas é colocar aqui uma fornada de versos e esperar ficarem dourados, qual pães-de-queijo.Quem os doura são vocês, meus leitores estimados.
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UM NATAL
Quando menina
nunca desejei ser bailarina.
Preferia lousa, giz e apagador.
De meias brancas,
novas,
de sapatinho branco,
novo,
íamos, família grande
pai, mãe, cinco filhos
cultivar nossas saudades
de avôs, avós, tios, primos
distantes
noutra cidade
noutro estado
noutras vidas.
Natal era enfeitar uma árvore com bolas de vidro
“Cuidado, não toque, que quebram”.
Natal era preparar uma comida diferente e aguardar presentes,
simples,
sempre entregues antecipadamente,
que meu pai não cultuava ritos estrangeiros, nem neve em árvore,
nem hipocrisias.
Natal era um dia como outro qualquer
porque por seus ensinamentos,
todos os dias são dias novos
de sapatos brancos e meias brancas
como os de um doce Natal.

     Canal: Antonio Carlos Bento
Versos: Odonir Oliveira

Encontros tardios

Canal: Odonir Oliveira

TARDE

A vidente avisara,

há décadas,

chegaria tarde.

 

Viria sem avisar

Absorveria dias, tardes e noites

Nada simples

Nada fácil

Nada certo.

 

A vidente advertira

Viria sem botas nem botes

Viria sem rosto, mãos, nem pés.

Viria sem planos nem rastros

Viria sem aroma nem cor

Viria sem quentes nem frios

Viria inconcebível, insuspeitável, impossível.

 

A vidente vaticinara

Era tarde.

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CONVERSA COM ELE

A máquina escreve o que gostaria de lhe dizer nos ouvidos,

em um de cada vez,

um mote

um tema

um verso

uma estrofe

um poema.

 

A máquina escreve como se falasse de minhas tormentas e dúvidas

o que não poderia gritar pelas noites vazias de ti

em meu teclado

em meu leito

em mim.

Canal: Antonio Bocaiúva

 

AMOR MEU

Quis o Fado

Que pisasses em minhas terras inconfidentes

e arrancasses todos os meus segredos

escondidos por séculos

todos os meus desejos cristalizados  na alma

todos as minhas resistências dos exílios de mim.

Foi o Fado que quis assim.

Canal: O Estrangeiro

Versos: Odonir Oliveira

Rotação e translação

MOVIMENTOS

Houve manhãs

houve noites

houve manhãs

houve noites

sóis

luas

sóis

luas

houve verdes

houve secas

houve chuvas

houve risos

houve gritos

houve lágrimas

houve chegadas

houve partidas

Um giro breve.

Um giro longo.

Um giro eterno.

Movimentos, movimentos, movimentos

 

Canal: Absolutely Gemini

ROTAÇÃO

Canal: Odonir Oliveira

FLORAÇÃO

Na rota, um porto
Na reta, um ponto
insípido inóspito infértil

No tronco, uns galhos
Nos galhos umas folhas
secas opacas estéreis

Alma no trajeto
Curvas no caminho amargo
Gotas de perfumes
Pingos de cores
Chuvas de flores
fertilidade,sedução
produção
Poesia
Caminhos doces então.

 

TRANSLAÇÃO

Canal: Odonir Oliveira

 

LER O MUNDO

bebo palavras
lambo ilustrações
sorvo metáforas, alegorias, hipérboles
de mim
de nós
de todos.

mastigo estrofes
degluto versos
sugo frases
chupo páginas

amo capas lombadas
devoro prefácios, sumários, epígrafes

Sou uma devoradora de livros
quase autofagia de meus mitos gregos
quase antropofagia de meus mestres poetas
quase dependência física de papéis escritos.

Essa sou eu.
Sei que é você.
Também.

 

COTIDIANAMENTE

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(Les Demoiselles d’Avignon, de Picasso)

 

PALAVRAS DE TUDO

Minha vida é feita de páginas.

Sem ler não concretizo voos

Sem ler não amanheço nem anoiteço,

e se entardeço

é porque sou em mim mesma um feixe de páginas

qual bambu

em touceiras

de difícil esfacelamento, destruição ou perda .

 

Quando de palavras me guarneço,

é com elas que me acasamato do mundo,

me resguardo das dores simples,

me afogo nas mais complexas,

irremediáveis e etéreas.

 

Palavras alimentam meu corpo,

atiçam meus desejos mais incompreensíveis,

sensorializam meu cotidiano mínimo,

transformando-o em rasantes sobre oceanos.

 

Versos: Odonir Oliveira

 

Mas afinal, o que é o Natal ?

OFERECIMENTO

Veio dali

de onde menos se tinha

o sentido de presente

o sentido do presente.

Repartir

compartilhar

doar-se

AMAR.

pirulito

 

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PAPAI NOEL TODOS OS DIAS

Quem se encarrega de doar-se dia após dia pode se intitular Papai Noel. A vida só faz sentido com AMOR.

Não precisamos de muitos sapatos, muitas bolsas, muitas roupas, muitos óculos, muitos biquinis, muitos amigos de copo e de bar para sermos felizes. O que se precisa, e muito, é de AMOR.

Conheci homens e mulheres, e até crianças, avessos ao mundo, briguentos, belicosos, até mesmo cruéis, mas que ao beberem um gole de AMOR se derretiam. Como varinha de condão, esse sentimento de ser amado tem o PODER maior de todos.

Canal: Joshua Norris

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Creio que o SER HUMANO, repleto de amorosidades, não possa festejar o infortúnio alheio, por exemplo a imagem da prisão de bandidos de qualquer espécie, políticos, estupradores, assassinos ou o regozijo com a dor de um possível oponente. Acredito que tais seres- uns e outros- chegaram àquele estágio de desumanidade porque faltou-lhes alguma qualidade de amor. Ninguém é assim porque é. As complexidades humanas são enormes.

Os suicidas que obtiveram êxito em sua ação o fizeram por absoluta falta de amor, de alguma qualidade de amor. Ninguém tira a própria vida sem razões, por mais niilista que se seja.

Doar-se implica saber o que se tem para oferecer, portanto reconhecer em si as próprias qualidades, seja um sorriso, um colo, um ouvido, um abraço, um beijo, um corpo.

Repartir é Natal.

Não se pode prescindir da doação. A festa, a ceia, a visita de parentes distantes, as despedidas- pode ter sido o último Natal– tudo isso tem que estar repleto de amorosidades. Caso contrário será apenas mais uma comemoração anual.

Por isso, penso no sentido de Natal diariamente, naquilo que faço doando de mim a alguém. O prazer único, o hedonismo, o aproveitar o momento esvaziam-se logo, caso não estejam recheados pelo sentido de amar. E há tantos que são incapazes de amar, ah meu Deus, como os há.

Imagens inesquecíveis de distribuição de brinquedos, bem embalados em papel celofane colorido, pelas ruas e viadutos da cidade, livros em caixas bonitas, panetones com cartões de felicidades…. entrega de animaizinhos a crianças que os desejavam muito e ensinar-lhes a cuidar deles,  apresentação de pequenas peças teatrais, grupos musicais em asilos de idosos, repartição de cestas básicas Fome Zero em comunidades carentes de pão e amor, recital de poesia em horário de almoço para operários da construção civil, aulas para quem quer saber mais em horário de almoço também ou após o expediente, criação de um clube de leitura para a comunidade, elaboração e execução de projeto de ida ao teatro- para quem jamais soube o que era teatro- e o brilho nos olhos de todos ELES ! E nos nossos.

Aprendi muito cedo o que era o Natal. Meu pai, metalúrgico e líder sindical, nos anos 60, ensinou-nos que “PRECISA ESTAR BOM PARA TODOS”. Nós estamos no meio desse TODOS aí, portanto é preciso desejar e agir na busca do BEM DE TODOS.

Conheci algumas pessoas da melhor qualidade que ao longo dos anos me fizeram acreditar que É POSSÍVEL O BEM COMUM. Fiz e faço o que posso na minha área de atuação.

O Natal, em seu sentido tradicional, enfeita-se a árvore, compram-se presentes, ceia-se etc. etc. perdeu há muito o significado para mim. Depois de filhos crescidos, quando não se esconde mais os presentes e diz-se a eles que foi Papai Noel que os deixou lá. Depois dessa fase, a festa natalina perde seu encanto.

Canal: André Rieu

Encanto mesmo era ver minha irmã, dez anos mais velha, enfeitar sozinha a nossa árvore, artificial, de Natal “Não mexa em nada, as bolas quebram, a ponteira quebra, a neve de fibra de vidro não é pra criança pegar; fique quieta olhando. Se quiser. Não toque em nada”. Assim aguardava, esperando ver acontecer, sem em nada tocar. Mas era mágico aquele ritual nos dezembros em mim. Depois, olhar Petrópolis toda enfeitada de Natal pelas ruas principais, as músicas cantadas em inglês, o barulho de sininhos tocando, os símbolos signos de um Natal americano-europeu nevavam em mim como sonho. Depois ainda, os filmes na TV, reproduzindo boas ações em épocas de Natal … ah, tudo isso tinha efeito de vara de condão sobre toda uma infância.

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Hoje, entendo que o sentido de nascer, de Natal, não pode ser aquele dos comerciais de televisão, nem apenas o dos filmes estrangeiros. Natal é hoje, amanhã, todo dia.

FELIZES NATAIS PRA VOCÊS, meus amigos.

2017 merece uma chance de nós.

Doemo-nos a ele. A eles.

Texto e versos: Odonir Oliveira