A História

SENTIDO HISTÓRICO

Quer saber
que conhecer
quer viver
caminha por estas ladeiras
observa as patas dos cavalos da história
enxerga as colunas e os pórticos das igrejas
namora os alpendres das moradas
alisa os encantos barrocos
ouve as vozes sufocadas por movimentos debelados
adentra as cadeias públicas
bebe a bebida da terra
come a comida da terra
escuta as histórias da terra
sonha os sonhos dos sertões
reza suas procissões eternas
reconhece Brasil por aqui.
E volta.
Ou então fica para sempre.

CONFIDÊNCIAS A MINEIROS

Nesse século dezoito, nas pedras em que vivo,
correm notícias ao pé do ouvido
são encontros secretos de vontades rebeldes
são encontros secretos de amores proibidos
percorro becos e vielas
salto calçadas em ritmo lépido
contorno esquinas
atravesso pontes
salto muros

Ali está ele
lá estão também eles.
Há luz na morada de uns
Há espera nas derramas dos outros

Tenho ouro em mim.

SONHOS DOCES

Há um pé solto que insinua passos a seguir
há um aparelho que comunica as notícias ruins mais do que as boas
há um relógio que marca o tempo implacável
há um tom de memória
de filme
de passado
de sonho
república mineira
no hoje que me acorda tantas lembranças.

TERRA MINEIRA

Toda toada enterra
um topo
um trono
um teto.
Todo terreno tanto
semeia um pomo
um botão
um perfume
um sabor
um tempo.
Vivenda do sobrenome
vivenda de ares e ventos
vivenda de céu coalhado de estrelas
vivenda fértil
vivenda da vinda
vivenda da volta
vivenda semeada.
Toda toada encerra
um ponto
um pouso
um corpo.

A NAMORADEIRA

Encontro ali o bordado da mãe para o enxoval
à frente o pote de pedra sabão
para a banha que a avó derretia.
Natália bordava e crochetava
lindos paninhos
que ora encontro sob caldeirões, chaleiras …
escorre da boca um lirismo sem comparação em mim

A MÃE E AS FILHAS

Ao lado da mãe passam a roupa as filhas
ao lado da mãe cozinham em caldeirões as filhas
ao lado da mãe costuram também as filhas
ao lado da mãe rezam os terços as filhas
ao lado da mãe seguem Adalgisa e Itália

Natália as observa.

CONFIDÊNCIAS MINEIRAS

Há sempre aquele pedaço de terra te esperando
há sempre aquele céu de estrelas à mão
há sempre aquelas estradas a te estender caminhos
há sempre aquele prosear a te aguardar pra contar
há sempre aquele teu sangue mesmo a correr nas veias
há sempre uma cantata a ser ouvida ainda
há sempre um colo semelhante a te esperar
há sempre um ar frio e um vento nos becos a te arrodear
há sempre um café de brasa, um polvilho de brasa, uma linguiça pendurada …
há sempre um cheiro de lenha queimando num fogão da memória.
Há que retornar sempre.

RETÁBULOS

Sagrados aros
altares expostos
falares repostos
ouvires devotos.

Minas serras
Minas terras
Minas entranhas
Minas estradas
Minas, mineiros guardiões.
Minas, mineiros paixões.

Um dedo, um sonho, um medo
Uma rebelião.
Uma porta
Uma retorta
Um arco
Uma janela composta
Um olhar distante
Montanhas em tela.

Inspiração
Entrega
Expiação.

AULAS DE VIDA

Se um professor ou uma professora apresentar um objeto que não seja comum, atual, corriqueiro, cotidiano e pedir a seus alunos que imaginem o que seja, para que serve etc. estará despertando neles uma série de atividades mentais como levantamento de hipóteses, comparações, acesso a uma memória subjetiva e mais, assim o processo de aprendizagem será muito mais rico e concreto do que apenas a leitura de um texto para memorização.

Assim também, ao exibir um filme de época, uma cena, uma tela, ao se discutir um padrão de comportamento pertinente a um grupo social, a um período, um século, uma década , estará proporcionando a reflexão sobre a forma como viviam e o que pensavam aqueles ali observados. Muito mais eficaz do que se basear em uma única visão da história – geralmente a que foi contada e ficou registrada por um dos lados apenas.

E isso se faz com crianças até bem pequenas. Por exemplo, ao ver uma máquina de escrever, um menino de 6 anos verbalizou que era um objeto muito moderno porque era um teclado que tinha impressora. E olhando um toca-discos não sabia nem do que se tratava. Imagine com um aparelho de fax.

HISTÓRIA DAS MENTALIDADES

Foi de um dos fundadores da Escola dos Annales, Febvre (1878-1956), que nasceu um dos mais importantes ramos da historiografia do século XX, a história das mentalidades.

Segundo Febvre, havia camadas do desenvolvimento histórico da humanidade que não sofriam transformações rápidas e nítidas como outras. Assim, por exemplo, as estruturas políticas e sociais seriam as primeiras nas quais se poderia verificar mudanças substantivas, enquanto certos comportamentos e formas de pensamento demorariam significativamente mais para sofrer alterações.

Dessa forma, pensamentos, ideias, ideologias, segmentos morais, atmosferas de compreensão científica, entre outros, estariam dentro da esfera das mentalidades, isto é, formas duradouras de pensamento que caracterizam longos espaços de tempo. Parte dos fundamentos da psicologia moderna, desenvolvida na virada do século XIX para o século XX, ajudou Febvre a assentar suas teses sobre a história das mentalidades.”

In, O que é história das mentalidades: https://www.historiadomundo.com.br/curiosidades/o-que-historia-das-mentalidades.htm

HISTÓRIA DO COTIDIANO

 História do Cotidiano, corrente nascida na França na década de 1960 e que é cada vez mais valorizada. A proposta é simples: enxergar a realidade sob a perspectiva das pessoas comuns e das práticas, hábitos e rituais que caracterizam o dia-a-dia delas, tirando o foco dos grandes nomes e acontecimentos políticos e econômicos e voltando-o para a riqueza que está próxima de todos, impregnada pela aparente banalidade do cotidiano. Investigar, por exemplo, como os cidadãos viviam, namoravam, noivavam e casavam, moravam, se divertiam, eram educados, nasciam e morriam.

Para Eliete Toledo, autora de livros didáticos, a grande vantagem dessa abordagem é que ela envolve muito mais os alunos, principalmente os menores, funcionando como um facilitador para questões menos palpáveis, como a política e a economia: “Fica fácil chegar a esses temas — que não fazem parte do universo deles — quando partimos de algo familiar.”

Além disso, essa é a melhor forma de mostrar que a História é feita por todas as pessoas, em todos os momentos da vida — não apenas quando uns poucos participam de feitos extraordinários. “Esse viés consolida o estudo dos grupos anônimos (operários, crianças, quilombolas…), iluminando aspectos da vida deles que até então não eram vistos”, diz a historiadora Mary Del Priori.

In, O que é a história das mentalidades

https://www.historiadomundo.com.br/curiosidades/o-que-historia-das-mentalidades.htm

Leia também: A história foi escrita pela mão branca

https://www.brasil247.com/blog/a-historia-foi-escrita-pela-mao-branca?fbclid=IwAR1F80588oLU21CZip9lnmQ3_t6CDfD_YJRSO8FbEu9jfKIRkPxmHXOoNoA

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal: (meu ”museum”)

Vídeo: Canal Insomnia

A gramática da poesia: aulas em cápsulas de lirismo

Como foram suas aulas de português na escola?

Teriam sido as eternas decorações das conjugações dos verbos – em particular dos pronominais, defectivos e anômalos?

Teriam sido a decoração, com duplo sentido, das regras de acentuação, da lista de substantivos coletivos, dos plurais de substantivos compostos, do emprego do hífen e do trema, da colocação dos pronomes nas orações? Hoje quase tudo fossilizado pela gramática do português brasileiro contemporâneo !

Ou você ficou estudando por uma década as funções sintáticas todas, as orações coordenadas, subordinadas, as reduzidas, sem reduzi-las ao seu verdadeiro lugar: escravas do nosso escrever.

Tudo se move; nada é imovível – diria o teórico que eu já esqueci o nome,  mas fiquei com sua fala nas mãos para usá- la a gosto . Porque as regras da gramática do português escrito são receitas, como as de bolo, as da etiqueta social, as do doutor da medicina: devem ser consultadas, usadas apenas em caso de necessidade, de precisão e, por isso, devem ser conhecidas, jamais servirem de NORMAS a serem obedecidas sem discussão, insubordinação, intromissão, irreverência.

Nossos grandes Guimarães Rosa, Manoel de Barros, Mário de Andrade e os poetas mais recalcitrantes e “modernos” recriaram seus falares e dizeres porque a língua é doce e cruel, é delgada e grossa como nossos intestinos, portanto há que se mastigá-la até o último grãozinho para degustá-la com prazer. E só assim lambuzar-se dele e nele.

As aulas de língua jamais poderiam ser e estar separadas das de literatura, bem brasileiras, dessas de a gente reconhecer pelo cheiro, nas ruas, pelo gosto nas calçadas, pelo tato nos bares, dessas também de se encontrar e ser encontrado nelas.

As aulas de português deveriam ser, de uma forma ou de outra, pequenas doses de lirismo, drágeas de encantamento por ler, por escrever, por entender o lido e o escrito, para se poder ir longe com esses ensinamentos. Bem mais longe!

AULA DE PORTUGUÊS
Carlos Drummond de Andrade

A linguagem
na ponta da língua,
tão fácil de falar
e de entender.

A linguagem
na superfície estrelada de letras,
sabe lá o que ela quer dizer?

Professor Carlos Góis, ele é quem sabe,
e vai desmatando
o amazonas de minha ignorância.
Figuras de gramática, esquipáticas,
atropelam-me, aturdem-me, sequestram-me.

Já esqueci a língua em que comia,
em que pedia para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua entrecortada
do namoro com a prima.

O português são dois; o outro, mistério.

Livro de meu pai Plácido, com capa recuperada por mim. Drummond nasceu em 1902, em Conceição do Mato Dentro (Itabira), e meu pai em 1918, em Alto Rio Doce; ambos estudaram em Minas Geraes, nos livros do professor Carlos Góes.

Então … vamos ver um pouco de poesia concreta hoje !?

A CHUVA
Arnaldo Antunes

A chuva derrubou as pontes. A chuva transbordou os rios.
A chuva molhou os transeuntes. A chuva encharcou as
praças. A chuva enferrujou as máquinas. A chuva enfureceu
as marés. A chuva e seu cheiro de terra. A chuva com sua
cabeleira. A chuva esburacou as pedras. A chuva alagou a
favela. A chuva de canivetes. A chuva enxugou a sede. A
chuva anoiteceu de tarde. A chuva e seu brilho prateado. A
chuva de retas paralelas sobre a terra curva. A chuva
destroçou os guarda-chuvas. A chuva durou muitos dias. A
chuva apagou o incêndio. A chuva caiu. A chuva
derramou-se. A chuva murmurou meu nome. A chuva ligou o
pára-brisa. A chuva acendeu os faróis. A chuva tocou a
sirene. A chuva com a sua crina. A chuva encheu a piscina.
A chuva com as gotas grossas. A chuva de pingos pretos.
A chuva açoitando as plantas. A chuva senhora da lama. A
chuva sem pena. A chuva apenas. A chuva empenou os
móveis. A chuva amarelou os livros. A chuva corroeu as
cercas. A chuva e seu baque seco. A chuva e seu ruído de
vidro. A chuva inchou o brejo. A chuva pingou pelo teto. A
chuva multiplicando insetos. A chuva sobre os varais. A
chuva derrubando raios. A chuva acabou a luz. A chuva
molhou os cigarros. A chuva mijou no telhado. A chuva
regou o gramado. A chuva arrepiou os poros. A chuva fez
muitas poças. A chuva secou ao sol.

Mas … se depois fizéssemos essa poesia de Drummond conversar com A Chuva, de Arnaldo Antunes . Uma conversa assim … sobre o mesmo tema ?

CASO PLUVIOSO

A chuva me irritava. Até que um dia
descobri que Maria é que chovia.

A chuva era Maria. E cada pingo
de Maria ensopava o meu domingo.

E meus ossos molhando, me deixava
como terra que a chuva lavra e lava.

Eu era todo barro, sem verdura…
Maria, chuvosíssima criatura!

Ela chovia em mim, em cada gesto,
pensamento, desejo, sono, e o resto.

Era chuva fininha e chuva grossa,
matinal e noturna, ativa…Nossa!

Não me chovas, Maria, mais que o justo
chuvisco de um momento, apenas susto.

Não me inundes de teu líquido plasma,
não sejas tão aquático fantasma!

Eu lhe dizia em vão – pois que Maria
quanto mais eu rogava, mais chovia.

E chuveirando atroz em meu caminho,
o deixava banhado em triste vinho,

que não aquece, pois água de chuva
mosto é de cinza, não de boa uva.

Chuvadeira Maria, chuvadonha,
chuvinhenta, chuvil, pluvimedonha!

Eu lhe gritava: Pára! e ela chovendo,
poças dágua gelada ia tecendo.

Choveu tanto Maria em minha casa
que a correnteza forte criou asa

e um rio se formou, ou mar, não sei,
sei apenas que nele me afundei.

E se comparássemos e se pintássemos e bordássemos com esses versos, suas estruturas linguísticas, suas imagens, seu sentido próprio e seu sentido figurado e se   …

Olhe que belíssima música para se criar uma narrativa a partir dela.

Pode ser em quadrinhos – por conta dos marcadores de tempo (1ª manhã, 2ª manhã … ), com movimentação, até com recursos do Youtube

Pode ser criado um texto explicativo referencial apontando os motivos para o acontecimento do fato principal.

E até um texto instrucional com regras objetivas para se evitar o fato principal.

Além das ilustrações em painéis, com subtítulos etc. etc.

Pronominais

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro.

Oswald de Andrade ANDRADE, O. Obras completas, Volumes 6-7. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972.

E que negócio é esse de “Beija eu”, hem?

Vamos aprender isso com música… e ver se é isso mesmo? Arnaldo Antunes conta a história dessa letra e surpreende quem acreditava em algo diferente, até por conta da leitura de Marisa Monte. Obra aberta, minha gente, cada um traz a sua chave.

Aula de sintaxe

A norma culta ensina que nada de Beija eu, hem. Beija-me, ok. Mas e na fala? Existe a norma culta oral e a norma culta escrita também. Não castigue seus alunos, ensine-lhes isso. A língua é viva, mutante, cheia de variantes linguísticas regionais, sociais, jargões de grupos etc. Não engesse a língua, por favor.

A língua é assim como … um traje, sabe como é? Um traje que você usa de acordo com as situações, os lugares, as funções. Ah, às vezes se torna necessário transgredir as normas linguísticas também, viu. Principalmente na fala e na escrita criativas, nos versos, nas narrativas, nos discursos orais …

Deu ruim, professora, chegou o Adoniran e veio com a Elis, quebiadéisso?

Vamos respeitar o que eles estão cantando.

É português também, moçada.

LENDO NA NATUREZA

Minha moçadinha do Clubinho da Leitura de Barbacena, 2015

Camões chegou reclamando de Vinícius. Diz que é um plagiador.

Será?

Vamos com os adolescentes para debaixo das árvores dos coqueiros ou dos laranjais e, aristotelicamente, discutir esse tema, aos moldes do Tião Rocha, com seus meninos de Araçuaí, em MG.

VAMOS LÁ ?

SONETO DO AMOR TOTAL

Amo-te tanto, meu amor… não cante
O humano coração com mais verdade…
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude

Vinícius de Moraes
Em Antologia Poética.


ALMA MINHA GENTIL QUE TE PARTISTE

Alma minha gentil que partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma coisa a dor que me ficou
Da mágua, sem remédio, de perder-te.

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te
Quão cedo de meus olhos te levou.

Luís de Camões
Em Sonetos de Camões, Cultrix.

Já pensou em questionar, filosoficamente, em uma fábula o emprego e as diversas formas de se grafar por que, por quê, porque, porquê…. então, senta que lá vem história aí.

E de autoria de aluno, hem. 

Os porquês do porquinho, de Clóvis Sanchez

Aconteceu na Grécia !

Era uma vez um jovem porquinho, belo e bom, muito pequenino, cuja vida foi dedicada à procura dos porquês da floresta. Tal porquinho, incansável em sua busca, passava o dia percorrendo matas, cavernas e savanas perguntando aos bichos e aos insetos que encontrava pelo caminho todos os tipos de porquês que lhes viessem à cabeça.

 – Por que você tem listras pretas se os cavalos não as têm ? – perguntava gentilmente o porquinho às zebras.

– Pernas compridas por quê, se outros pássaros não as têm? – indagava às seriemas, de forma perspicaz.

– Por que isso? Por que aquilo?

Era um festival de porquês, dia após dia, ano após ano, sem que ele encontrasse respostas adequadas aos seus questionamentos de porquinho.

Por exemplo, sempre que se deparava com uma abelha trabalhando arduamente, ele perguntava por quê. E a pergunta era sempre a mesma:

– Saberias, por acaso, por que fazes o mel, oh querida abelhinha?

E a abelha, com seus conhecimentos de abelha, sempre respondia assim ao porquê:

– Fabrico o mel porque tenho que alimentar a colmeia.

Mas a resposta das abelhas não o satisfazia, porque eram os ursos os maiores beneficiados com aquela atividade.

– Alguma coisa deve estar muito errada, porque eram os ursões que ficavam com quase todo o mel, sem ter produzido um pingo.- pensava o porquinho.

Então, valente como os porquinhos de sua época, seguia pela floresta à procura de ursões, fortes e poderosos, ansioso por que eles soubessem a resposta. Quando encontrava um, perguntava:

 – Senhor, grande e esperto ursão, poderias me dizer a razão e solucionar o porquê da questão?

E alguns ursos, mais exibidos, até tentavam responder, porque de mel eles entendiam muito, mas sobre trabalho… as respostas eram sempre do senso comum de ursão e não resolviam a questão.

– Elas fabricam o mel porque ele é muito gostoso. – diziam uns.

 – Elas o fabricam porque o mel é delicioso. – diziam outros. Havia aqueles que se limitavam a olhar feio e, ainda, aqueles que até ameaçavam o pobre porquinho e iam embora, sem dizer por quê. Apesar disso, o porquinho seguia em frente.

 Um dia – porque toda história tem um dia especial – o porquinho encontrou um oráculo em seu caminho e resolveu elaborar o seu mais profundo porquê. Afinal, oráculo é para essas coisas. Então, ele perguntou com sua voz fininha, mas de modo firme e sonoro

– Por que existo?

Houve um profundo silêncio na floresta e o porquinho pensou que aquele porquê nunca seria respondido, afinal.

Mas de repente, o oráculo falou, estrondosamente, porque era oráculo.

– Procure o Sr. Leão, rei da floresta, e pergunte a ele por que você existe. Só ele lhe dará uma resposta adequada.

Então, feliz, animado e saltitante, lá se foi o porquinho à casa do grande e sábio rei da floresta, carregando o seu também grande e sábio porquê.

Ao chegar à casa do leão, o porquinho bateu à porta e, quando foi atendido por sua realeza, tratou logo de lascar o seu porquê mais precioso:

 – Sr. Leão, rei dos reis, sábio dos sábios, poderia Vossa Alteza me dizer por que existo?

 E o leão, porque era leão, respondeu mais que depressa.

Nhac.

Porque é o  fim da história!

Já pensou saborear esses versos com os meninos e recriá-los de muitas maneiras; criar narrativas a partir deles; criar vídeos com os celulares, declamando os versos e voar … voar … voar !

O apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios

Manoel de Barros

Em  Memórias inventadas para crianças, Ed. Planeta, p.13

E… pontuação para quê, hem?

Antes de ler Machado de Assis, que tal “roçar a língua de Luís de Camões”?

FAÇA A MOÇADA PENSAR E POR ISSO PONTUAR CONSCIENTEMENTE, EXPRESSIVAMENTE. Vamos lá.

A HERANÇA

Um homem rico estando muito mal de saúde, pediu que lhe trouxessem papel e tinta.
Escreveu o seguinte:
 

“Deixo meus bens à minha irmã não a meu sobrinho jamais será paga a conta do padeiro nada dou aos pobres”

Deu o último suspiro antes de ter podido fazer a pontuação. A quem, afinal, deixava sua fortuna?”

Eram apenas quatro os citados.
No dia seguinte, ao receberem o papel, cada um dos citados deu ao texto a pontuação e a interpretação que lhe favorecia.

E você aí, quer ser desafiado?

Então, reescreva o texto pontuando da mesma forma que os outros interessados na herança. Depois vamos conversar sobre isso. Que tal?

– O sobrinho fez a seguinte pontuação: ……………………………………………….

– A irmã chegou em seguida e o pontuou assim: ………………………………..

– O padeiro pediu cópia do original e o deixou dessa forma: ………………………

– A notícia se espalhou pelas redondezas e um sabido homem representando os pobres deixou o texto desse jeito: ………………………………..

Que tal a leitura de “Morte e vida Severina “?

Namorar bastante o texto, ouvir as músicas do Chico, contextualizar a obra, a  região, os valores implícitos e explícitos e depois encenar trechos do maravilhoso poema épico, de João Cabral de Melo Neto.

FUNERAL DE UM LAVRADOR (MORTE E VIDA SEVERINA)
Chico Buarque

Esta cova em que estás, com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida

É de bom tamanho, nem largo, nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio

Não é cova grande, é cova medida
É a terra que querias ver dividida

É uma cova grande pra teu pouco defunto
Mas estarás mais ancho que estavas no mundo

É uma cova grande pra teu defunto parco
Porém mais que no mundo, te sentirás largo

É uma cova grande pra tua carne pouca
Mas à terra dada não se abre a boca

É a conta menor que tiraste em vida

É a parte que te cabe deste latifúndio

(É a terra que querias ver dividida)

Saramago em momentos. Por que não aproveitá-los?

“Cada um de nós vê o mundo com os olhos que tem, e os olhos veem o que querem, os olhos fazem a diversidade do mundo e fabricam as maravilhas, ainda que sejam de pedra, e altas proas, ainda que sejam de ilusão.” José Saramago

NOTAS FUNDAMENTAIS:

Paulo Freire não alfabetizava pelo método da silabação, nem pelo fonético. Acreditava que as palavras deveriam vir inteirinhas, palavras-tema, palavras estas que encontrassem sentido, significado no REAL VIVIDO pelos aprendentes. Sabia ele que EDUCAÇÃO tem a ver com afeto. Assim a palavra TIJOLO para os operários da construção civil, por exemplo, vinha carregada de significados. Dali partia-se para a sua inserção no mundo letrado.

Quem não possuir o REAL VIVIDO, concreto, jamais poderá se inserir na REALIDADE BRASILEIRA, literalmente, e continuará (apesar de haver concluído cursos superiores até), a escrever com erros de ortografia, de concordância, de inadequação vocabular etc. – aquilo que vulgarmente, chulamente, se classifica apenas como ‘‘erros de português’‘ por aí.

Leia, no link ”Categorias”, outros trabalhos realizados com alunos.

Post publicado no GGN, em 2015

A gramática da poesia: aulas em cápsulas de lirismo, por Odonir Oliveira

Texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1- Facebook de Odonir Araujo

2- Canal Vangodias

3- Canal Jonathan Pereira

4- Canal Adoniran Barbosa

4- Canal Milena Barbosa

6- Canal Caetano Veloso

7- Canal Centro de Memória Sindical Música e Trabalho

8- Canal Vinicius Vinicius

Maria Márcia, a professora baiana

Em 1988, como leitora crítica da Editora Melhoramentos, elaborei a ficha de leitura/trabalho para essa belíssima obra de Marcus Accioly. Foi quando aprendi o que sei sobre cordel.

SERTÃO BAIANO

A 1244 km de São Paulo, a professora de ensino fundamental Maria Márcia, lê na Revista Nova Escola, material didático elaborado por mim. Consegue o endereço da Escola Municipal onde eu trabalhava e me envia uma carta. Sim, por correios. Estamos em 2001.

A cidade onde ela vivia em 2001 era Macaúbas, na beiradinha do rio São Francisco, na Bahia. Lecionava na área rural, para turmas multi-seriadas, ou seja, vários anos de ensino na mesma classe. Escrevia contando da sua carência, do trabalho que gostaria de fazer se tivesse mais recursos.
Falava em recursos materiais, visto que só contava com um quadro-negro riscado, giz e apagador. Lecionava em Escola Municipal como eu, naquele ano de 2001. Pedia, curiosamente, indicações didáticas para trabalhar cordel com seus meninos. Reparei logo que ela sabia o que queria. Queria ensinar mais o de sua gente para sua gente. Sensibilizei-me, portanto.

Expus aos meus alunos do 8º ano a situação e li a carta da professora que apontava uma quantidade de dificuldades em seus meninos para ler e escrever. Assim, fizemos um trato: iríamos preparar materiais pedagógicos para enviar a eles. Pesquisaram bastante e criaram diversos tipos de jogos para que ela trabalhasse problemas de ortografia com seus meninos: jogos da memória, dominó, caça-palavras, quebra-cabeças, palavras cruzadas foram alguns de que me recordo. Todos bem embalados em saquinhos de TNT, com muitos desenhos e muita criatividade. Tornaram-se CÚMPLICES de Maria Márcia no processo ensino-aprendizagem. E, enquanto preparavam tais materiais, iam aprendendo também. Tornaram-se mestres e aprendizes, pegando o conhecimento, literalmente, com as mãos.

Depois, preparamos fichas e fichas com poemas dos mais diversos autores e no verso suas biografias. Consegui um bom número de livros em editoras, como doação para professores, e juntei-os aos meus, que lhe enviamos. Para cada obra, havia uma sequência didática a ser desenvolvida, no sentido de ensinar Maria Márcia a semear a fruição da leitura na garotada. E, claro, o trabalho a ser feito com cordel e o livro Guriatã, um cordel para menino, de Marcus Accioly. Mandei-lhe uma sapateira para que colocasse os livros e pudesse ser socializada para as outras salas também. Sugeri que fosse mudando as obras para oferecer a eles diversidade e novidades.

Por fim, escreveram cartas para mandarmos junto com as duas caixas repletas de material, via correios, à Maria Márcia, em Macaúbas, na Bahia. Nas cartas pedi que narrassem como nascera a ideia de fazer o material, como fora o processo de construção, o que haviam aprendido com aquilo durante mais de um mês etc.

Fui a uma agência dos correios e enviei as duas grandes caixas. O prazer que senti nisso não sei se consigo retratar aqui, passados tantos anos. Mas posso contar a vocês que, umas semanas depois, recebemos na escola a resposta, com fotos de todos, de Maria Márcia, da irmã de Maria Márcia que também era professora ali, dos alunos felizes, lendo, jogando, aprendendo.

Maria Márcia mandava agradecer e pedia para me chamar de sua ”fada-madrinha”. Contava que estava grávida do segundo filho e que ela e a irmã haviam resolvido cursar faculdade de pedagogia – à distância- porque em Macaúbas, nem próximo dali, havia qualquer faculdade. Fez. Fizeram. Ajudei-a, anos depois com seu TCC, sobre ”As casas de farinha”. Durante anos nos falamos, quando ela ia à cidade e, em lan houses, me mandava e-mails. Certa vez até me telefonou de lá. Queria ouvir a voz de sua fada-madrinha – imaginem. Perguntou-me se eu gostava de farinha de tapioca, porque me mandaria, junto com um presente feito por ela e pela irmã. Disse-lhe que guardasse a tapioca para o dia que viesse a São Paulo e ela mesma me prepararia as suas delícias. Mandou-me, então, um conjunto de panos bordados por elas, formando oito joguinhos americanos com guardanapos. Adorei. E foram eles que hoje me fizeram lembrar de Maria Márcia, de Macaúbas, BA.

EU, NÓS

Se ando e enxergo, maravilho-me
Se paro e contemplo, pulso
Se ardo em sensações, vivo.
Se estou numa fala num gesto num sorriso, continuo.
Se toco a dor humana, emano
Se acarinho a terra vermelha, sou.
Se tenho compaixão, ajo.
Se tenho ainda a emoção, levito.
Se ando e enxergo, maravilho-me.

PROFESSORA, ESSA MULHER

Como um presságio, seu mestre mandou:
“Toda mulher deveria ser professora para poder ajudar na educação dos filhos mais tarde”
Faremos tudo que seu mestre mandar.
Até a página dois, querido mestre.
Trabalhadora, trabalhadeira,
segue a mulher no caminho das escolas, dos alunos,
com sua varinha de condão.
Magias retiradas de tapetes mágicos e cartolas de coelhos sábios,
cantarolando melodias de bruxas do bem,
disparando saberes e sabores de seus mestres gregos,
qual um desses seres brotados das páginas
de seus ensinadores livros encantados.
Corre por avenidas, estradas, sobe ladeiras, escadas
entrega mensagens de anjos, serafins e querubins aos infantes meninos
que bebem suas artes, palavras e mágicas
como fossem verdades únicas,
quando não passam de pequeninas estrelas
a brilhar, algum dia, nos céus.

DEDICATÓRIA: Aos profissionais da EDUCAÇÃO que acolhem todos os dias meninos, meninas, jovens e adultos para semear neles mais do que o conhecimento. Beijos e abraços parceiros aos professores, às merendeiras e a todos da ESCOLA ESTADUAL RAUL BRASIL, em Suzano, SP.

Poesias e texto: Odonir Oliveira

Imagens da Internet

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1- Canal cleber santos

2- Canal Caetano Veloso

Cerimônias de casamentos

1940

NÚPCIAS

Noivos
primeira vez
uma vergonha fóssil
um medo intenso
um vestido branco puro de vida
um paletó e uma gravata nus
um sim a ele
um sim a ela
promessas, juramentos, pactos
vidas que seguirão por estradas e tempos
mais sonhos
menos sonhos
mais cumprimentos
mais bolo e mais doces
presentes no presente
festa, fotos, recordações

1944
1945
1950

FESTA DE CASAMENTO

O casal
Os padrinhos
Os convidados
Os vizinhos.
Gente boa
gente bonita
gente alegre
gente colorida.
Risos às fartas
Comida às fartas
Música às fartas
Nas bodas na serra
Nas bodas na nuvem.
Bodas no salão
A dança
das pernas
dos braços.
Os abraços
no ritmo
no prato
no copo.
No vestido branco
que símbolo!
Na madureza
que ensino!
Rico casamento encantador
Uma celebração de amor.

1968
1976
1976

CASAMENTOS & CASAMENTOS

Na década de 1990, desenvolvi um trabalho com alunos de 8ºs anos sobre as cerimônias de casamento. Começamos com fotografias. Traziam de casa as fotos de avós, tios, pais, e íamos analisando trajes, bolos, convidados, igrejas ou não, e conversando sobre o tema. Depois escreveram textos narrativos e poéticos sobre as fotos, que ficaram coladas em caderno de desenho espiral, com seus respectivos textos, em um álbum. Com capas criativas e diferenciadas.

Foi muito gratificante aprenderem também a analisar certidões de casamento, a compreenderem que alguns pais não haviam se casado no civil, nem no religioso, a conhecer e aceitar diferenças. Outro aspecto foi em relação ao significado do casamento, no início do século XX, e antes disso, como eram escolhidos os maridos para as filhas e que, naqueles casos, ”o amor nascia com a convivência e depois do casamento”. Estranharam, principalmente as meninas que cultivavam em si o amor cortês, o amor romântico. Puderam ver como as sociedades se modificam e as razões disso. Casamento como um contrato social, uma sociedade, com 2 sócios e mais tarde uma construção de amor, parceria e companheirismo – como se estima que seja hoje.

Pessoalmente, não vou a cerimônias de casamento faz mais de 20 anos. Elas se tornaram uma festa qualquer. Os itens que antecedem ao evento são de deixar qualquer pessoa sensata estarrecida. Chega-se a fazer um blog/ site que vai reportando a vida pregressa do casal, fartamente ilustrada, e pedem-se colaborações em dinheiro para viagens etc. As listas de presentes de chá de panela, chá bar, e as de casamento são detalhadíssimas, especificadas por valores, em grandes lojas de presentes, e para serem adquiridos lá. Entregam, inclusive. As festas de casamento são coordenadas por cerimonialistas, meses e meses antes. No momento do evento, a noiva troca de roupa mais de uma vez, tem o momento da dança ensaiada previamente com o pai, depois com o noivo e depois com os amigos. Tudo coreografado e bastante treinado. As filmagens são verdadeiros acontecimentos, quase em busca de um prêmio de cinema. Sem falar na sequência do menu – seja de dia ou de noite. Muitos pratos, o quente, o frio, depois o bolo, os doces, indo até o café da manhã, com chocolates, carolinas etc. Ufa, que trabalheira. Quantos gastos, meu Deus.

Alguém poderá dizer que trata-se da realização de um sonho, muitas vezes dos pais, mais do que dos noivos até. Comprometem-se em dívidas, desgastam-se, mas ”realizam seus sonhos”. Cabe avaliar se tudo isso é mesmo manifestação de comunhão entre as pessoas envolvidas, principalmente entre os que estão se casando. Se for, que sejam felizes.

P.S DOS SIGNIFICADOS: Nos anos setenta, novinha, com menos de 20 anos, fui a uma casa de shows em Copacabana, no Rio, com dois casais de amigos casados. No meio do show, luzes quase apagadas, uma moça começou a se insinuar de leve, mas começou a se fazer deleitosa para o marido de minha amiga. E foi crescendo, crescendo, crescendo o assédio. Ele a ignorava. Eu, já não suportava mais aquilo e comentei com minha amiga, o que ela estava achando da situação ali desagradavelmente exposta, se não tinha ciúme, raiva, ou coisa assim – tratava-se de uma bela mulher, que sabia que sua beleza a fazia crescer junto aos homens, percebia-se. Ao que ela me respondeu ”O Giba não gosta desse tipo de mulher. Não é disso que ele gosta. Fique tranquila”. Nunca mais me esqueci dessa afirmação dela. Convém ressaltar que estão juntos até hoje, faz mais de 40 anos, e por quê? Porque parceiros, cúmplices e repletos de identidades construídas durante seus anos de namoro e de casamento. Você pode me perguntar ”Mas será que não tiveram algum, alguns casos fora do casamento?” Não sei. Podem ter tido. Mas são tão parceiros, que na saúde e nas doenças – e já passaram por muitas – sempre contaram um com o outro. Salve, salve, Sílvia e Giba !

EU E MEU VELHO

Quase sempre
acordamos juntos,
tomamos café, cada um do jeito que mais gosta,
vamos aos canteiros de flores,
vamos à horta,
tratamos das galinhas e dos patos
Quase sempre
rimos de nossas imperfeições,
gargalhamos de nossos prejuízos etários,
sentamos e descansamos ouvindo nossos bolerões embaixo da mangueira.
Quando há mangas, chupamos umas tantas, mas sem facas, mordendo a fruta.
Aí, sem mais nem menos, acho meu velho tão sensual mordendo mangas !
Chego mais perto, rimos, nos tocamos, nos beijamos.
Quase sempre
lemos poesias, ficção, ouvimo-nos um ao outro como música
nem sempre suave,
nem sempre terna,
nem sempre pacífica.
Nós dois somos a música.

Poesias e texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1- Canal Do Si SOM Casamentos
2- Canal Odonir Oliveira

Sonhos revisitados, 30 anos depois

VENTOS QUENTES

Há uma bruma que me faz sorrir

é um prazer um tanto virtude
costurando lembranças quentes
por dentro de mim
Estou eu cheia de viço e desejos
gestando em mim
gestando em outros
vida
esperanças
rotas
rumos
projeções de futuros
confiança

Há uma bruma que me faz sorrir.

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NA ALDEIA DE CARAPICUÍBA

História do país,  índios, bandeiras, rumo ao ouro e às pedras preciosas  das Minas Gerais. Seguem os bandeirantes, laçando índios ao seu domínio, arrebatando-os de seus domínios.

Séculos nos separam desses desbravadores, escravizadores de índios. Liberdade, liberdades me atraem, me empurram, me impelem a chegar ali, desbravar aquele terreno marcado e fincar minha bandeira. A da educação.

Minha geração de educadores pensava em ir para as trincheiras sempre. Nossa militância era na ponta. Estudávamos, fazíamos especializações, mas não almejávamos mestrados e doutorados, carreira acadêmica. Isso começou muito depois de nós. Saíamos para o campo de batalha, a lutar junto aos nossos meninos e meninas nas escolas. Isso sim era imprescindível.

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OBSESSÃO

Sou obsessiva.
Sou obsessiva sim.
Tenho ideia fixa de justiça
Tenho ideia fixa de comprometimento.
Tenho ideia fixa de educação
Tenho ideia fixa de doação e entrega.
Não tenho receio de dor.
Não tenho medo de envolvimento.
Não tenho pavor de amor.
Minha obsessão por ensinar
seja a miúdos, maduros, graúdos
passa pelo ato de amar.
Não restrinjam minhas ações.
Não desprezem minhas veredas.
Não me imponham o silêncio covarde.
Não me limitem os braços e as pernas.
Não me amordacem o verbo.
Defendo meus aprendizes
como felina parida.
Não mexam com eles.
Não os ignorem
Não os maltratem.
Não os desprezem.
Somos raízes, mas também somos sementes.

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E.E.P.G. DA ALDEIA DE CARAPICUÍBA, SP- 1988

Em 1987, morando na Granja Viana escolhi, por concurso, a Escola Estadual de Primeiro Grau da Aldeia de Carapicuíba. Comentava-se por lá que a escola fora construída sobre cemitério indígena.

Alunos filhos de nordestinos, famílias muito pobres e sem instrução. Escola quase sem recursos, sem murais, sem aparelhos de TV e vídeo. Livros de literatura, sem serem lidos, sem catalogação – temiam que se extraviassem nas mãos dos alunos – empilhados numa saleta junto com o estoque de material de limpeza e de outros. Passei a me responsabilizar pelos livros, por seu  uso em salas de aula e por sua catalogação inclusive. Pensando em uma biblioteca circulante, quente, que viesse a ser aquecida pelas mãos dos alunos.

Em 1988, escrevi uma proposta à Direção e, em seguida, à Delegacia de Ensino de Carapicuíba e Itapevi, expondo a necessidade de criarmos já na 4ª série (5º ano hoje), aulas com professoras diferentes, por disciplinas, como as teriam a partir da 5ª série, facilitando a transição e a adaptação. Procurei ser bastante convincente nas justificativas  então – até porque isso já acontecia em escolas privadas etc. Foi aprovada. Assim, coube a mim lecionar Língua Portuguesa para as  três 4ªs séries. Além disso tinha aulas na 6ª  e 7ª séries na mesma escola.

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Contando com o reconhecimento da diretora ao meu trabalho, pude apresentá-lo em encontros na Secretária do Estado da Educação e, por fim, ter minhas aulas como as escolhidas para o Projeto Ipê de Língua Portuguesa do ano de 1988, pelo governo do estado de SP – que seria gravado e editado pela equipe da TV Cultura e apresentado para toda a rede estadual de ensino, dentro de encontros e discussões com professores e equipes da educação, durante um ano. Posteriormente também pela TVE.

Depois disso, gravamos outros programas para a TV Cultura sobre lições de casa e temas diversos. Meus alunos se sentiam muito importantes ao se verem em uma rede de televisão. E mais do que isso por se saberem agentes do próprio conhecimento.

Graças a isso, depois, consegui ônibus que nos levasse à Bienal do Livro, em São Paulo. Lá, encontraram-se com Ziraldo que recebeu todas as suas cartinhas e levou com ele vários livrinhos escritos e autografados pelos alunos, em resposta ao seu Flicts.

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Revendo os vídeos, me alegro com a dinâmica das aulas, alunos lendo, alunos cantando, alunos escrevendo, alunos críticos e me encanto com isso tudo, de novo.

É importante frisar que estávamos em 1988, e que muitos dos procedimentos pedagógicos expostos talvez já sejam até bem comuns em escolas públicas Brasil afora.

Mas … talvez, ainda não.

E  é nesse momento que me pergunto onde estariam aqueles alunos, como seguiram suas vidas, todos agora com mais de 40 anos. Teriam continuado seus estudos, chegado a um curso técnico, a uma faculdade ? Onde estariam meus meninos do ano de 1988?

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Aqui está o PROJETO IPÊ de 1988, recuperado e editado, nesses 3 vídeos. Apresento-lhes, então, os meus meninos.

4ª série (5º ano)

6ª série (7º ano)

7ª série (8º ano)

Poesia e texto: Odonir Oliveira

Foto retirada da Internet: Aldeia de Carapicuíba, SP

Vídeos:

1- Canal Orquestra Sanfonica de São Paulo

2 , 3 e 4 – Canal Odonir Oliveira (reeditados a partir de gravação em VHS).

”Dá-me um mote que eu te darei 100 livros infantis”- 1993

 

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ESPANTALHOS

No tempo das sementes
o jardineiro fiel
espanta perigos e ameaças
Na vigília incessante
adornado com palha
empalhado fielmente
é guardião
da vida pujante

No tempo das máquinas
não há guardiões
fossilizados
vilipendiados
aposentados
queimados pelos tempos
os espantalhos
fenecem
sem conseguir
impedir a ação tóxica
das máquinas
dos homens

 

Mote

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1 LIT Estrofe que antecede um poema, cujo conteúdo é desenvolvido na composição poética; moto.
2 LIT Citação colocada no início de um livro, de uma peça de teatro etc., que representa o tema escolhido pelo autor a ser desenvolvido na sua obra; moto.
3 Proposição que se quer desenvolver.
4 Aquilo que constitui um lema de vida.
5 ANT Frase de efeito que caracterizava um ideal, usada pelos cavaleiros ao participarem de ações de risco.
6 HERÁLD, ANT Palavra que era usada pelos cavaleiros como divisa nos brasões ou bandeiras; moto.

http://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/mote/

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POESIA FAZ BEM

1993

Jovens de 11 e 12 anos da sexta série do Colégio Galileu Galilei, inquietos, vivazes, precisando de desafios, encontram-se na fase das implicâncias dos meninos com as meninas, do contato físico exagerado, dos esbarrões e sopapos entre meninos. Estão cheios de energia ali, sem saber se já são adolescentes ou se preferem ser crianças. Vamos ao trabalho, então.

 

APRESENTANDO O MOTE

Leitura da poesia. Discussão do tema da poesia (poucos haviam visto um espantalho, a não ser em filmes, desenhos), do que falava etc.

ESPANTALHO

Olá, espantalho!
que fazes aí?
 
Espanto os pardais
daqui e dali.
 
Não te sentes triste
no mesmo lugar?
 
É o meu destino,
não posso mudar.
 
Espantalho, espantalho,
não fales assim,
 
Deixas-me tão triste
por ti e por mim…
(Maria Cândida Mendonça)

 

DESENVOLVENDO O MOTE
”Nossa, mas por que ela fala com o espantalho”
”Só pode ser uma menina, né, e bobinha, bem pequena, nunca vi falar com espantalho”
”Por que fala tudo com tu, é diferente, né. Não deve ser daqui do Brasil não”
“A menina fica triste porque o espantalho fica sempre parado, é por isso?”
PESQUISANDO CAMINHOS, ENCAMINHANDO RESPOSTAS
 Estudando variantes linguísticas e regionalismos no Brasil e em Portugal .
Que idade teria o eu lírico? É menino ou menina?
Onde estão?
A personagem vive ali, está acostumada com o espantalho? Onde podemos encontrar essas respostas? Ah, na poesia.
DECISÕES DE ADEQUAÇÃO AO PÚBLICO LEITOR
Já que esse poema é muuito infantil. Vamos escrever histórias para o público infantil, então ? É, porque esses autores já não são mais crianças. Mas podem escrever e ler suas histórias para crianças. Por que não?
DECISÕES SOBRE O MATERIAL A SER UTILIZADO NA CONFECÇÃO DOS LIVROS ”INFANTIS”
Leitura e manuseio de livrinhos infantis nos mais diversos formatos e confeccionados de diferentes materiais.
Apreciação da linguagem e do conteúdo tratado nos livrinhos.
Leitura em voz alta, dramatizada, das historinhas infantis.
Avaliação dos colegas das leituras feitas, com parecer oral e escrito sobre qualidades e aspectos que precisavam melhorar.
CRIAÇÃO DE HISTÓRIAS INFANTIS COM O POEMA COMO MOTE 
Pauta
Onde se passará sua história; quem estará conversando com o espantalho; por que a personagem estaria ali; o que acontecerá com os dois; haverá outras personagens na narrativa; como terminará …
Leitura em grupos.
Avaliação dos colegas das leituras feitas, com parecer oral e escrito sobre qualidades e aspectos que precisam melhorar.
Refacção dos textos tendo em vista vocabulário utilizado, pontuação expressiva, descrição de ambiente e de personagens, começo, meio e fim. Levando em consideração o público a que se destinam na contação de histórias que viria em seguida.
CONFECÇÃO DOS LIVRINHOS INFANTIS
Materiais sensoriais diversos, desde grãos a objetos, compondo as páginas e a capa.

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A INTERAÇÃO COM AS CRIANÇAS DA EDUCAÇÃO INFANTIL
Uma manhã inteira de manuseio dos livrinhos em varais, de explicações, de respostas aos menores.
CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS
Grupos de crianças da educação infantil se reuniam, sentados no chão, ao redor dos autores e ouviam as histórias.
Leitura expressiva, interações, tudo no melhor estilo ”contando para os pequenos.”
A FESTA
”Comes e bebes” e dança.
AVALIAÇÃO COLETIVA E RESGATE DO PROCESSO
Adolescentes, normalmente, ficam mais inibidos quando estão sendo filmados. Temem algum tipo de incorreção, de ”mico” – hoje até virariam memes nas redes – por isso no vídeo aparecem meio inibidos ao falar. Além do mais, essa avaliação se deu alguns dias após a contação de histórias – o que foi bom, porque puderam amadurecer mais as emoções vividas naquele outro dia.
Ocorre que tudo é muito vivo em escolas, não é mesmo? Então … haviam recebido sonora e severa bronca de um coordenador ou de alguém da direção (não me recordo de quem, nem o motivo), por algum tipo de comportamento inadequado minutos antes dessa gravação já agendada. Daí as carinhas tensas, certo tom severo nos olhares … enfim, essa professora aqui, resfriada e febril, teve que fazer a conversa fluir. Escola é isso, todo dia um desafio diferente.

 

1995

Revisão  do processo de construção das histórias e criação dos livros infantis. Emoções revisitadas 3 anos depois. Inclusive porque havia alunos que ingressaram para o nível médio, sem terem vivenciado os mesmos caminhos que seus colegas.

DEDICATÓRIA
Post dedicado aos meus meninos, todos hoje com mais de 36 anos, espalhados pelo Brasil e pelo mundo.
Salve Mariana Nassif, Nina Furnari e todos.
Foi tão bom rever nossa caminhada, meus jovens !
Grande beijo da Odonir
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Texto e poesia: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

  1. Canal Biscoito Fino

2. e 3.  Canal Odonir Oliveira (reeditados a partir de gravação em VHS)

 

 

 

 

 

Contos de mistério, viagens de trem

Essa ”maratona didática” foi realizada com alunos de 6ªs séries, (7º ano) do ensino fundamental da EMEF Rui Bloem, em São Paulo, em 1998.

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DESAFIO

A partir da imagem de um trem maria-fumaça com o número 353, contei-lhes que ali, naquela viagem, havia acontecido algo misterioso. O que poderia ter sido? Um crime, um grande assalto, um acidente … o que cada um teria a contar sobre o trem 353?

Percebi que gostavam muito de contos de mistério (e de filmes de mistério também). Então me propus a ensinar-lhes como fazê-los.

Depois surgiu a ideia de criarmos livros e fazermos sessões de contação das histórias, em ambiente preparado para que isso acontecesse. Sala com cortinas pretas, repleta de cartazes de filmes de mistério e de terror, objetos sinistros e caracterização de personagens.

Aqui está a sequência didática que percorri e que poderá ajudar os professores.

Bom trabalho.

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Como escrever contos de mistério

Conteúdo(s)

– Elementos da narrativa;
– estrutura da narrativa
– escolhas para esse tipo de texto: advérbios e tempos verbais, léxico específico (relacionado com o clima de suspense);
– leitura de contos de suspense
– apresentação oral dos contos com boa dicção, entonação e tom de voz audível.

Ano

Tempo estimado

Aproximadamente 15 aulas

Material necessário

– Cópias do texto Conto de Mistério, de Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto).
– Vários exemplares de livros de contos de mistério.
– Filme de mistério para ser assistido em classe.
– Caderno para produção de texto, em suas várias fases ou versões.
– Retroprojetor, monitor de computador ou lousa para reflexão e refacção de textos de forma coletiva.
– Mural ou varal para exposição dos textos dos alunos.
– Materiais diversos para montagem da sala de contação de histórias de mistério.
– Sala com cenografia para contação das histórias de mistério e suspense.

Desenvolvimento

1ª etapa

Introdução

 

Verificamos, em produções de alunos, dificuldades para escreverem textos com sequência narrativa, elementos de conflito, caracterização de personagens, clímax da história e, principalmente, desfechos coerentes com o processo narrativo desenvolvido.
Muitas vezes possuem ideias incríveis para produzir narrativas, mas por lhes faltar orientação específica para escrever aquele tipo de texto, o fazem com qualidade aquém daquela que poderiam apresentar.

Na habilidade para escrever podem-se distinguir duas dimensões: o processo mental que se percorre para escrever e o resultado desse processo: o texto já construído. No processo global de construção escrita, distinguimos os processos parciais: planejamento, transcrição, edição e revisão. Essa sequência didática visa a trabalhar com os alunos a estrutura e a forma linguística que caracterizam esse tipo de texto.

Assim, reforçar as fases do processo de composição escrita: a fase do planejamento (geração do conteúdo de ideias, organização e estruturação desse conteúdo e determinação dos objetivos para ao ato da composição: público formato; a fase da tradução ou transcrição das ideias pensadas para uma forma linguística e a fase da revisão, onde se avalia o texto de acordo com o planejado e se faz revisão e correção do produzido.
Objetivos 
Fornecer orientação específica aos alunos para escreverem seus contos de mistério.

Converse com os alunos sobre contos, histórias e filmes de mistério. Procure levantar com eles que elementos existem nesses gêneros. Anote o que disserem na lousa ou em uma folha de papel pardo, que ficará exposta na classe, durante todas as aulas.

Em seguida leia o Conto de mistério, de Stanislaw Ponte Preta, até o trecho ”Saiu então sozinho, caminhando rente às paredes do beco. Quando alcançou uma rua mais clara, assoviou para um táxi que passava e mandou tocar a toda pressa para determinado endereço”. , portanto, não leia o desfecho.

Utilize a técnica de predição de leitura, pergunte-lhes o que o personagem teria ido buscar naquele lugar. Anote na lousa as ideias e sempre questione a coerência destas com os elementos desenvolvidos no texto até ali.

Na sequência, entregue-lhes o texto impresso e deixe que descubram do que se tratava. Surgirão perguntas sobre o porquê do mistério ser um quilo de feijão. Levante com eles, o que poderia estar acontecendo para o personagem ter passado por tanto suspense para obter aquele simples quilo de feijão. Compare com outros produtos escassos e a dificuldade para obtê-los etc. Por fim, avalie com eles quem chegou mais próximo do desfecho ou se algum aluno descobriu o mistério. Não se esqueça de salientar que a novidade, o elemento surpresa, estava justamente no inesperado- elemento típico dos contos de mistério.

Proponha que leiam para seus pais e amigos em casa, mantendo o mesmo procedimento, sem o desfecho, para que possam saborear com outras pessoas o que sentiram em classe. Assim, também, estarão trabalhando sua leitura em voz alta, que é um dos objetivos da leitura.

2ª etapa

Faça uma avaliação das opiniões dos ouvintes de casa. Compare com eles se estas coincidiram com as de seus colegas de classe. Sempre aparece uma ou outra novidade, o que enriquece o campo das ideias.

Retome o texto e comece a destacar com eles os elementos linguísticos que construíram o mistério no conto. Destaque as descrições, para isso levante os adjetivos especiais, soturnos, que foram usados para caracterizar as personagens e os objetos em cena; saliente os advérbios de modo e as descrições das ações onde foram usados períodos curtos, quase sempre orações coordenadas; repare também a quase ausência de diálogos e o emprego dos verbos no pretérito (perfeito, imperfeito).

Faça um inventário do léxico pertinente a esse tipo de texto (substantivos: crime, pistas, álibi, suspeitos, vítimas, acusados, cúmplices, prisão, condenação, sequestro, rapto de alguns verbos, advérbios; adjetivos) , facilitando-lhes a aquisição de repertório. Registre todas as sugestões e as deixe expostas no papel pardo na classe.

Na sequência, comece a trabalhar os elementos e a estrutura do conto:

Uma narrativa deve elucidar os acontecimentos, respondendo às seguintes perguntas essenciais:

O QUÊ? – o(s) fato(s) que determina(m) a história;
QUEM? – a personagem ou personagens;
COMO? – o enredo, o modo como se tecem os fatos;
ONDE? – o lugar ou lugares da ocorrência
QUANDO? – o momento ou momentos em que se passam os fatos;
POR QUÊ? – a causa do acontecimento

A estrutura de um conto pode ser a seguinte:
Uma situação inicial onde se expõe o assunto, o lugar ou a ação que vai acontecer. A complicação ou o problema que vai se apresentando gradativamente. O clímax que a complicação elevada ao máximo de suspense. E o desfecho que soluciona ou tenta solucionar o problema.

Proponha que delimitem (na medida do possível, pois nem todos os contos seguem rigorosamente a mesma estrutura) tais elementos linguísticos e de estrutura da narrativa no conto lido. Esse procedimento é importantíssimo para que vivenciem realmente, na prática de leitura, os elementos essenciais a esse gênero.

Lembre a eles os dois tipos de foco narrativo (narradores) que costumam fazer parte dos contos de mistério: em primeira pessoa (narrador personagem ou participante da ação) e narrador em terceira pessoa (observador ou onisciente: que tudo viu, tudo sabe e expõe pensamentos e sentimentos das personagens).

Para casa, peça que leiam um conto de mistério para comentar na aula seguinte. Sugira alguns, se possível imprima outros e socialize entre eles; se não for possível fazê-lo em casa, que se faça em classe.

 

3ª etapa

A discussão hoje será sobre como criar o suspense – A partir das leituras feitas em casa, levante formas de suspense encontradas nas leituras. Haverá histórias de crimes, de roubos, de fatos estranhos, de aventuras extraterrestres etc. Converse sobre o nível de suspense de cada um desses textos e como foi conseguido.
Depois registre isso na lousa, enquanto os alunos o farão em seus cadernos:

Como criar o suspense?
Crie frases que sugiram apenas, provoque no leitor a vontade de querer saber o que vai acontecer depois.

Dê margem a se pensar em vários suspeitos, com vários fatos combinados com ações que despistem o leitor. Trabalhe com muitas pistas: umas falsas e outras verdadeiras.
Use palavras, vocabulário específico para criar suspense: adjetivos expressivos, exagerados; advérbios de modo, de lugar, de tempo que acrescentem circunstâncias especiais às ações.
Trabalhe com verbos no pretérito (perfeito, imperfeito ou mais-que-perfeiro)
Use as palavras- chave com frequência e ênfase.
Esconda do leitor determinados detalhes.
Crie um desfecho inusitado, surpreendente.

 

4ª etapa

Proponha que eles escrevam contos de mistério para publicar.
Nesse momento é preciso discutir dois determinantes: público e formato.

Peça que escolham para quem irão escrever, o formato de seus textos e o suporte onde serão publicados.

Sugira:
Para quem você irá escrever seu texto: para uma revista dirigida ao público jovem, para o jornal da escola, para um painel no pátio da escola para a seção literária de uma revista, para um concurso de contos, para uma antologia de contos de mistério, para ser lido para uma platéia, para ser editado com ilustrações em um livro.

Em que formato você irá escrever: em folha sulfite, em colunas, como texto de jornal e revista, em folha bem grande para um painel, seu texto será interrompido por ilustrações de cenas ou outros. Peça que tomem essas decisões porque delas dependerá o produto final: o conto de mistério. Em seguida faça exercícios com o caráter de oficina de contos. Pode trazê-los em lâminas para retroprojetor, ou em arquivos para usarem os computadores, ou impressos.

Reescreva o texto

Complete as lacunas com as palavras ou expressões do quadro, acrescentando emoções e sentimentos a ele.

Foi uma cena ……………………. Entramos no quintal vagarosamente e para não espantar nem uma nem outra, mas ficamos …………………. Desmentindo o dito popular ‘vivem como cão e gato’, a visão era ……………………… Dentro da casinha, deitadas estavam a …………………… dobermann preta, de dentes afiados, espalhada no chão e a gatinha vira-lata toda branquinha com sua orelha cinza ………………, mamando em uma das tetas da outra, como filhote. Não se mexiam, como em um ………………… espetáculo a não ser modificado. Restou-nos ficar ali ………………………, contemplando aquele ………………. momento de satisfação.

raro- de muita delicadeza- extasiados- inesquecível- temida- maravilhados- inconfundível- magnífico

 

Reescreva o texto

Substitua os espaços pelos advérbios ou locuções abaixo para expressar um clima de suspense.

Era …………………., vinha caminhando para casa, ……………………………., chovia uma garoa fina e gelada. ………………………………, olhei para o lado esquerdo e vi ………………., algo me pareceu uma trouxa de roupa, um saco de lixo. …………………., ……………….., …………………………………., fui me aproximando …………………………….., para não ser surpreendido.
E se fosse um bicho estranho que ……………………………. avançasse sobre mim?

perto da praça vazia- repentinamente – lentamente – sem fazer barulho – sorrateiramente- junto a um orelhão- rente às paredes dos prédios- muito tarde- sem pressa

 

5ª etapa

Escolha um bom filme de suspense e assista com os alunos. (os que foram baseados nas obras de Agatha Christie são bons para retomar os elementos dos contos de mistério).
Ao final, promova uma discussão a respeito dos elementos de uma história de mistério presentes no roteiro, nomes de personagens, espaços cênicos, cores etc.

 

6ª etapa

Proponha que escrevam o conto de mistério a partir do que foi planejado:

Dicas

– Escreva seu texto a partir do que você planejou.
– Você já deve ter escolhido o público para o qual irá escrever.
– Considere esse público na hora de elaborar seu texto.
– Não se esqueça da estrutura do conto.
– Procure usar palavras para criar emoção e suspense como as usadas na oficina.
– Dê um título ao seu texto.

 

7ª etapa

Edição de texto – Sentados em quartetos, os alunos lerão os contos de seus colegas. Após fazerem isso registrarão sua avaliação em uma pequena ficha que será entregue ao autor. Nela estarão registrados alguns aspectos e inclusive sugestões para melhorar a edição dos textos.

Essa atividade também pode ser feita em Word e com cada aluno ou dupla em um computador.

Modelo de ficha de avaliação

Foi muito suficiente pouco (ou nada)?
O texto apresentou a estrutura de um conto?
Narrou o fato, quando aconteceu, com quem aconteceu e como aconteceu?
Você acha que ele conseguiu criar emoção, suspense?
Usou para isso os adjetivos nas descrições, verbos e advérbios adequados?

Sugestões ao autor:

Nome do leitor:

O professor deve acompanhar essa atividade andando pelas carteiras, auxiliando nas avaliações, contemporizando falas e sugestões. Lembre a eles a questão do público a quem se destinam os textos e em que formato cada um vai ser editado.

Como tarefa de casa , peça que façam a revisão de seus contos, usando para isso as tabelas de avaliação e as sugestões dos leitores. Nesse momento os autores já serão capazes de formular novos objetivos para o processo de construção.

Nessa revisão deverão proceder às seguintes operações: avaliar o planejado e ajustá-lo de imediato; modificar o texto escrito em dois aspectos avaliando o resultado em função dos objetivos (público, formato), e avaliação da coerência do conteúdo, em função do esquema textual. Por fim revisão e correção de acordo com os resultados dessa avaliação.

Crie um roteiro de observações gerais.

Sugestões

Aspectos gramaticais
Observe os itens abaixo:
Verifique a ortografia . O dicionário vai ajudá-lo e vai lhe oferecer sinônimos para evitar algumas repetições de termos sem necessidade.
Depois revise a pontuação; cuide para que fique bastante expressiva.
Passe o conto a limpo, no formato que você escolheu.

 

Importante:O professor pode criar pautas de correção a partir de aspectos gramaticais, ortográficos e de pontuação já trabalhados com a classe. Além disso, deve desempenhar também a função de leitor. Ao ler os textos dos alunos, poderá fazer observações a respeito dos conteúdos trabalhados durante o processo de produção dos contos. Deve evitar, assim, ser apenas um corretor e sim, um leitor.

 

8ª etapa

Atividades complementares – Socialização dos textos – Todo texto deve ter uma função social, portanto, esta sugestão atende a essa função.  Momento de preparação para exposição dos textos (em painel, em livros, em antologias etc.) para leitura expressiva dos textos. Os alunos, em grupos, devem planejar e executar a cenografia, a decoração da sala de contos de mistério, se usarão trajes como contadores das histórias etc. quando isso acontecerá e como preparar uma leitura expressiva desses contos para a platéia. Dê sugestões para fortalecer a atividade, professor.

 

9ª etapa

Preparação da leitura expressiva dos contos – Os alunos devem ler os contos para seus pares. Na preparação, acompanhados do professor, devem refazer entonações, pausas, dar ênfase a frases de suspense, entre outros detalhes.

 

10ª etapa

Apresentação dos contos para alunos de outras turmas da escola, para pais e amigos.

Avaliação

A avaliação se dará em cada etapa do processo de criação dos contos. O professor acompanhará os alunos nas atividades cotidianas, reforçando a realização de um plano de texto, de uma pré-redação, da preparação e da edição dos textos. Outro aspecto a ser observado deve ser o desenvolvimento da capacidade de leitura, de percepção de inadequações e de correção de textos próprios e alheios, visando à clareza, objetividade e coerência. A evolução dos alunos nas atividades propostas deve ser compartilhada com eles.

BIBLIOGRAFIA

JOLIBERT, Josette, Formando Crianças Produtoras de Textos, P. Alegre:Artes Médicas,1994

KAUFMAM, Ana Maria e M. Elena Rodriguez, Escola, leitura e produção de textos, Porto Alegre: Artes Médicas,1995

MATA, Francisco Salvador, Como Prevenir as Dificuldades na Expressão Escrita, Porto Alegre: Artes Médicas, 2003

PORTO, Sérgio (Stanislaw Ponte Preta) Conto de Mistério, http://www.casadobruxo.com.br PORTO, Sérgio, (Stanislaw Ponte Preta) Testemunha Tranquila In: Dois amigos e um chato. São Paulo: Moderna, 2006. p. 24-25

Coleção Para Gostar de Ler v. 12 Histórias de Detetives- vários autores- São Paulo: Ática, 1998

 

LEIA TAMBÉM : Projeto realizado com os mesmos alunos, no ano seguinte, 1999

”Encontra-me em Vila Rica, por favor”

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2016/03/13/encontra-me-em-vila-rica-por-favor/

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Texto elaborado por Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Imagens da Internet

Vídeo: Canal: Sem Stress