Outra Semana de Arte Moderna, 1996

A REFLEXÃO SOBRE A PRÁTICA E A PRÁTICA DAS REFLEXÕES

Li isso há tanto tempo, mais de 30 anos, que já me esqueci de quem cunhou esse lema. Perdão, portanto. Acredito nisso como bandeira. Se a professora e o professor tiverem que levantar da cama, todas as manhãs, para serem repetidores de aulas iguais ou semelhantes a outras e outras sempre, estará condenado ao insuportável. Adoecerá e se afastará de seu ofício. A motivação criadora é o motor do seu trabalho. Toda arte é assim. O que criarei hoje, como meu público alvo receberá meu trabalho, que bem terei feito a ele, qual o papel social do que eu faço … são questões que devem nortear nossos amanheceres. Caso contrário não suportaremos toda a gama de adversidades que se apresentam a nós em nossas escolas advindas dos alunos, de seus pais, da direção da escola, dos governantes, da sociedade em geral. É preciso acreditar em seu ofício. É preciso “seduzir” seus parceiros de trabalho nas escolas, a comunidade escolar, enfim, trazer mais elos para sua corrente eficaz. Sozinhos nos tornamos muito vulneráveis a desmandos de poder, quase sempre na própria escola, demissões, exonerações e outras violências – venham de escolas públicas ou privadas.

Nada de seguir apostilas, livros, apenas. Tudo muito esquematizado, pasteurizado, sem levar em conta o diferencial de seu grupo de alunos. Arrisque-se, planeje, leia, estude e confie. Vai dar certo, dentro dos objetivos a que você se propôs. Às vezes, aos olhos de outros, pode parecer que não tenha dado certo. Confie.

Muitos dos projetos realizados nas escolas públicas, depois ganham nuances semelhantes nas escolas privadas. E vice-versa. Servem de experiência, de bagagem para o aprimoramento do fazer pedagógico.

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Villa-Lobos participou da Semana de Arte Moderna de 1922 apresentando-se em três dias com três diferentes espetáculos:

dia 13 dia 15 dia 17
Segunda Sonata O Ginete do Pierrozinho Terceiro Trio
Segundo Trio Festim Pagão Historietas: Lune de OctobreVoilà la VieJe Vis Sans RetardCar vite s’écoule la vie
Valsa mística (simples coletânea) Solidão Segunda Sonata
Rondante (simples coletânea) Cascavel Camponesa cantadeira (suíte floral)
A Fiandeira Terceiro Quarteto Num Berço Encantado (simples coletânea)
Danças Africanas Dança Inferugnal e Quatuor (com coro feminino)

A SEMANA DE ARTE MODERNA (REVISITADA EM 1996)

Estamos em São Paulo, capital. O bairro é o Morumbi, no Colégio Galileu Galilei. O projeto se realiza com os dois 3ºs anos do nível médio.

Temos alunos desinteressados em ler, alunos que preferem esportes, alunos que estudam música e compõem, alunos que gostam de artes plásticas – desenho, esculturas, alunos que só se interessam pelos vestibulares no fim do ano e alunos que adoram ler. Vamos juntar seus gostos, suas capacidades, suas supostas inabilidades, seus interesses, seus prazeres e semear. Semear uns nos outros. Comecemos então.

NOS DEGRAUS DO THEATRO MUNICIPAL

1º DEGRAU: Semeando desiquilíbrios 

  • Ouvindo peças de Villa Lobos ( menores e depois maiores). Desenhando ao sabor das obras; trocando impressões; socializando prazeres e críticas. (Audição de CDs)
  • Pesquisando quem foi o maestro, obras, participação dele em um evento cultural da cidade a SEMANA DE ARTE MODERNA DE 1922

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2º DEGRAU: Semeando descobertas

  • Pesquisa e “namoro” de obras de artistas plásticos anteriores e posteriores à Semana. (Anita Malfatti. Tarsilla do Amaral, Victor Brecheret, Di Cavalcanti)
  • Recriação de obras em guache, aquarela, em óleo, em argila). Trabalhos criados individual e/ ou coletivamente no período da tarde, após as aulas, com minha monitoria)

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3º DEGRAU: Semeando leituras

  • Pesquisas sobre a Semana de Arte Moderna de 1922; roda de leitura; discussões sobre as repercussões da Semana, sobre a reação do público e das elites da cidade de São Paulo.
  • Leitura de poemas; ensaio das leituras; proposta nascida nos alunos Vamos encenar a Semana pra todo mundo conhecer tudo isso. Inclusive pra pais e outros alunos do colégio.
  • Ensaios recorrentes de apupos, vaias, declamações, nas escadarias de entrada do Colégio Galileu Galilei – releitura das escadarias do Theatro Municipal de São Paulo.

Muitos alunos já conheciam o Theatro Municipal. (O que me levou a pensar em um outro projeto, levando crianças e adolescentes de escolas públicas a conhecer e a assistir récitas de grupos de música de  câmara e de canto lírico, anos mais tarde ali).

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4º DEGRAU: Semeando modernismos

  • Criação de poesias com as estruturas livres semeadas pelos modernistas, ácidas, críticas ao formalismo poético.
  • Leitura do texto de Monteiro Lobato Paranoia ou Mistificação , que fazia duras críticas à Mostra de Anita Malfatti; reflexão sobre a chegada do novo, do oxigênio cultural. Comparação com páginas de Lima Barreto, contos gauchescos de Simão Lopes Neto.
  • Saboreio do conceito de Antropofagia nas artes plásticas e na literatura.

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MUITOS DEGRAUS: A presentação de 3 dias de SEMANA DE ARTE MODERNA

2ª feira, 4ª feira, 6ª feira

PÚBLICO: 

  • Comunidade escolar – pais, alunos, funcionários, diretores
  • Chefe de Gabinete da Secretária de Cultura da Cidade de São Paulo:  Elton Cardoso
  • Diretora de Bibliotecas Públicas da Secretária de Cultura da Cidade de São Paulo – SCBP
  • Diretora de Bibliotecas Infanto-Juvenis da Secretária de Cultura da Cidade de São Paulo -SCBINJ

NOTA: Esse projeto foi amplamente documentado – processo e produto – pelo Colégio Galileu Galilei. Fotos e vídeos permaneceram no colégio, portanto.

Muitas vezes o apresentei em congressos de educação em atividades para outros professores pelo país.

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Os Sapos
Enfunando os papos, 
Saem da penumbra, 
Aos pulos, os sapos. 
A luz os deslumbra.

Em ronco que aterra, 
Berra o sapo-boi: 
– “Meu pai foi à guerra!” 
– “Não foi!” – “Foi!” – “Não foi!”.

O sapo-tanoeiro, 
Parnasiano aguado, 
Diz: – “Meu cancioneiro
É bem martelado.

Vede como primo 
Em comer os hiatos! 
Que arte! E nunca rimo 
Os termos cognatos.

O meu verso é bom 
Frumento sem joio. 
Faço rimas com 
Consoantes de apoio.

Vai por cinquüenta anos 
Que lhes dei a norma: 
Reduzi sem danos 
A fôrmas a forma.

Clame a saparia 
Em críticas céticas:
Não há mais poesia, 
Mas há artes poéticas…”

Urra o sapo-boi: 
– “Meu pai foi rei!”- “Foi!” 
– “Não foi!” – “Foi!” – “Não foi!”.

Brada em um assomo 
O sapo-tanoeiro: 
– A grande arte é como 
Lavor de joalheiro.

Ou bem de estatuário. 
Tudo quanto é belo, 
Tudo quanto é vário, 
Canta no martelo”.

Outros, sapos-pipas 
(Um mal em si cabe), 
Falam pelas tripas, 
– “Sei!” – “Não sabe!” – “Sabe!”.

Longe dessa grita, 
Lá onde mais densa 
A noite infinita 
Veste a sombra imensa;

Lá, fugido ao mundo, 
Sem glória, sem fé, 
No perau profundo 
E solitário, é

Que soluças tu, 
Transido de frio, 
Sapo-cururu 
Da beira do rio…

– “Meu pai foi rei!”- “Foi!”
– “Não foi!” – “Foi!” – “Não foi!”.
 
Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
– A grande arte é como
Lavor de joalheiro.
 
Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo”.
 
Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas,
– “Sei!” – “Não sabe!” – “Sabe!”.
 
Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Veste a sombra imensa;
 
Lá, fugido ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é
 
Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio…
 

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Declamação do poema Os Sapos, de Manuel Bandeira (ao som de Sapo Cururu, de M. de Andrade, flauta doce, por duas alunas)

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Foto que revisitou a famosa dos modernistas, nas escadarias do Saguão de entrada do Theatro Municipal.

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Muitas vezes, durante os anos posteriores, encontrei esses meus alunos e tenho deles as mais gratas avaliações sobre esse maravilhoso trabalho.

Texto e projeto: Odonir Oliveira

A partir do comentário de Christine Jz, no projeto realizado anos antes, decidi registrá-lo aqui.

E esses alunos são os mesmos que 5 anos antes realizaram o projeto UM ENCONTRO MARCADO COM FERNANDO, citado por ela.

Leia aqui:

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2018/03/25/um-encontro-marcado-com-fernando/

Fotos de arquivo pessoal

1º Vídeo: Canal Pauta Brasileira

Villa-Lobos – Anna Stella Schic (1973) Simples coletânea, W134 (1917-19)
0:00 : I. Valsa Mística
1:41 : II. Num Berço Encantado
5:09 : III. Rodante
Paintings : RODOLFO AMOEDO
2º Vídeo: Canal Carlos Tobi
Faixa nº5
CD: Opus Clássico, 2013
Música: Heitor Villa-Lobos
Letra: Hermínio Bello de Carvalho

Voz: Ithamara Koorax
Violão: Rodrigo Lima
Xilogravura (“Frágil”): Anna Carolina Albernaz

 

3º Vídeo: Canal CassicalMusicTVHD
Bachianas Brasileiras No. 1 Heitor Villa-Lobos – Bachianas Brasileiras, No. 1 Complete Scored for orchestra of cellos (1930):
Heitor Villa Lobos Bachianas Brasileiras, No. 1, – orchestra of cellos.
01 – Bachianas Brasileiras, No. 1 for ‘an orchestra of cellos’ (1930), I. Introduction – Embolada
02 – Bachianas Brasileiras, No. 1 for ‘an orchestra of cellos’ (1930), II. Preludio – Modinha
03 – Bachianas Brasileiras, No. 1 for ‘an orchestra of cellos’ (1930), III. Fuga – Conversa (Conversation)
Heitor Villa-Lobos (Portuguese pronunciation: [ejˌtoʁ ˌvilɐ lobus]; March 5, 1887 — November 17, 1959)

 

Essas últimas obras do 3º vídeo são posteriores à Semana de Arte Moderna. Acrescentei-as aqui por serem, como eu, fruto desse momento.

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O fazer poético: fornadas de poesias

 

POETAÇÃO:  FORNADAS DE POESIAS – professores

Durante anos levei meus cursos para professores de muitas cidades, em diversos estados. Quando o tema era ensinar a fruição de poesia, não raro, ouvia que ler poesias era difícil, que “entender” poesias era um mistério e escrever poesias, nem pensar. Como, então, ensinar a fruição de poesias aos alunos, se eles, seus mestres, não haviam degustado poesias, bebido poesias, se embriagado com poesias?

Quase sempre começava pelo gozo de ler poesias para os professores – quase sempre mulheres presentes – entonação, variações de leitura e tom de voz para a mesma poesia etc. Depois, vinha o lúdico: dançar poesia, cantar poesia, desenhar e pintar poesia. Depois ainda, ler sob a forma de jogral e por fim a leitura em voz alta, individual, da poesia escolhida.

Observação significativa: Ler poesia não é simples. É preciso seguir a pontuação dos versos, seu encadeamento e quase nunca terminam ao final da linha. Quando há o enjambement, não se deve respeitar as fronteiras dos sintagmas (um termo do sintagma fica no verso anterior e o restante no verso seguinte) não podendo ser lido com a habitual pausa descendente no final, e sim com entonação ascendente, que indica continuação da frase, e com uma pausa mais curta ou sem pausa. (Até professores apresentavam incompreensão dessas estruturas e liam poemas erroneamente em meus cursos. Havia que ensinar-lhes, portanto).

Quase sempre, na parte da tarde, experimentávamos “fazer poesias“. Depois, as reuníamos em um livrinho de poemas, que eu já levava espiralado com folhas em branco para serem escritas com lirismo pelos professores do curso. E ilustradas. A sensação era incrível, no sentido real do termo. Não acreditavam poder ter escrito aqueles poemas. E havia poemas concretos, sonoros, com rima e sem rima, sonetos, quadrinhas, havia uma variedade prazerosa de lirismo naquelas fornadas – com as de pães que se assam de uma vez só. Eram pães e poesia alimentando os professores com suas capacidades descobertas. Entendia eu que assim pudessem levar aqueles procedimentos a seus alunos e o gosto pela fruição de poesias permanecesse em uns e em outros.

POETAÇÃO:  FORNADAS DE POESIAS – alunos

As 3 turmas das sextas séries (os sétimos anos) já haviam sido minhas no ano anterior e permaneceriam no ano seguinte. Sempre gostei de acompanhar turmas e desenvolver projetos de trabalho a longo prazo, 3, 4 anos. Como também sempre preferi aulas duplas, as interrupções eram menores e o rendimento superior. Aulas de 45, 50 minutos são insuficientes para projetos de descoberta e construção do conhecimento, penso eu. Eles, os alunos, sempre reclamavam quando, ao final das duas aulas, tínhamos que interromper o que estávamos fazendo.

Já eram leitores de poesia – de prosa também- mas de poesia em especial. Escola pública, Municipal em SP. Sentados em grupos de 5 recebiam livros de poesias e iam trocando entre si, anotando nos cadernos os nomes dos poemas de que mais haviam gostado, os nomes dos poetas, às vezes um breve comentário e muitos até copiavam o preferido. Quando não tínhamos tantos livros de poesias – os 35, 38 necessários, eu lhes oferecia poemas avulsos, que extraía de páginas de livros didáticos sem recuperação, ou dos que eu recebia de editoras para divulgação. (Usei pouco os livros didáticos que recebiam do governo, apenas aquilo que fazia sentido dentro do projeto pedagógico que desenvolvia com eles).Recortava os poemas, colava-os em papel cartão – mais resistente – e os envolvia em plástico, encapando-os para maior durabilidade (Por sugestão de uma colega de ofício, passei a usar o plástico transparente para batatas, cebola …  dos supermercados. Quando faltam recursos aos professores, mas sobra-lhes empenho, tudo se resolve).

Bonito era vê-los falar com a maior intimidade “Aí nesse grupo tem mais da Cecília. Tem do Drummond. E do Bandeira?” Os poetas estariam radiantes em se saber assim tão cotidianos na vida dos meninos. Curioso é que nunca perguntavam se o poeta estava vivo, onde nascera etc. creio que o que lhes importava era a poesia em si. E gostavam de letras de música, poéticas, também. Às vezes, ouvíamos um CD ou outro com as letras lidas anteriormente. Enfim, lambuzavam-de de poesia. Dava gosto terminar aquela sequência de aulas.

Gostava de emprestar a eles livros de poesias. Desafiava-os a abrir em qualquer página e ler uma sequência de 3, 4. Depois parar ou ir dormir. (Havia pais que reclamavam – imaginem – de eu pedir que lessem antes de dormir, alegavam que não tinham abajures, dormiam no mesmo quarto com outros irmãos e a luz acesa … questões reais, portanto). Eu insistia. E nas devoluções lhes perguntava, um a um, quais foram as situações em que leram, onde, quando… tudo isso tornava a poesia uma companheira, ora, como a bola, por exemplo.

Quando recebi da editora, em casa, um belo calendário de parede com 12 fotos em preto e branco com o tema AMIZADE, achei que cada mês daquele, assim associado a uma imagem, provocaria nos meninos e meninas uma emoção estética diferente. Aqui conservei as pequenas apenas. Mas cada uma dessas representava um mês e era grande.

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Levei-as para as 3 classes e conversamos muito sobre cada uma. Um a um foi escolhendo sobre qual escreveria. Primeiro fizeram uma narrativa. Meninos e meninas gostam, têm mais facilidade, com a prosa. Dali caminhamos para o lirismo: substantivos significativos nas narrativas, adjetivos, o que poderia rimar com o quê – gostam de rimas, creio que o ritmo leva a musicalidade a eles etc. – começaram a escrever os poemas, ler para os colegas e ilustrar cada um deles.

Montamos belíssimos paineis pelos corredores da escola com as imagens e os poemas sobre a AMIZADE. Cerca de 130 poemas. Importante sair da sala fechada, favorecer a leitura de outros, tornar-se lido por outros, ouvir os comentários de professores, diretor, colegas, afinal a POESIA É LIVRE E LIBERTADORA.

Depois guardei as cópias comigo e as reuni aqui:

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Adendo: Antes disso, em 1992, no Colégio Galileu Galilei, no Morumbi,SP, em uma Feira Cultural, criamos uma casa, com fornadas de poesias, literalmente. Os poemas estavam enrolados, dispostos em uma assadeira, no forno aberto de um fogão de 4 bocas – quem desejasse “comer poesia”, poderia levá-las consigo e matar sua fome – de poesia. Todas criadas pelos alunos das 6ªs séries, durante o ano. A casa tinha poesia em tudo. Eram forma e conteúdo: o relógio de parede tinha poesia sobre relógio, tempo; a embalagem de pizza sobre alimentação; o sofá, a geladeira, o aparelho de som, e todos os elementos remetiam à forma e ao conteúdo. Na entrada lia-se MORADA DA POESIA.

É não é bacana fazer isso? Aventure-se com seus alunos.

Post dedicado a minha inesquecível aluna Camila Condini,  adolescente arrojada,  representou muito bem o papel de uma personagem, bem mais experiente que ela, ao som de Mania de você, da Rita Lee, numa peça de teatro na Escola Chácara Crescer, Granja Viana, SP, aos 12 aninhos. Salve, salve, menina-mãe !

Texto: Odonir Oliveira
Fotos de arquivo pessoal
Vídeo: Canal slyellow2 Music
Veja também outros Trabalhos realizados com alunos (categoria à direita)

 

Lição número um: cidadania

Recado ao Poeta
Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro

Vai, porque a tua missão é de paz
Ser poeta é difícil demais
Pra que querer um coração normal?
Um dia vai te compreender

Olha só, como a rua parece chamar
E essa lua, esse amigo, esse bar
E peço a Deus que nada mude mais
Não faz dos teus os meus rivais

E se couber explicação real
É que o poeta é o coração geral
Por isso fique aqui onde teu samba está
Que toda cidade quer cantar

VOCÊ JÁ FEZ CIDADANIA HOJE ?

Tenho certo desprezo por discursos sem ação. De qualquer um, seja do político, do engajado de rede social ou do cidadão – que não é cidadão –  faz pose de cidadão. Mas não age no cotidiano, em sua área de atuação, na rua em que vive ou em qualquer segmento social. Tem apenas discurso, é cidadão até a página 2. Na verdade, vive desacreditando do ser humano, dizendo que a espécie deveria ser extinta porque não tem mais solução etc. Depois desse discurso, retorna à sua diversão, aos seus passeios e distrações. Desprezo isso. A hipocrisia social é ainda pior que a pessoal. Pior porque disfarça, ilude, mas na hora do fazer é pífia, quando não é nula mesmo.

Aprendi, em família e depois estudando, a agir. Tenho – como muitos companheiros de luta que conheci, e me ensinaram – uma prática cidadã cotidianamente. Sem gracinhas em redes sociais, piadinhas, deboches. Isso é imaturidade e já passei da idade (e do peso) de ficar nisso. Ajo, enquanto posso, e assim me sinto menos conivente, sem cabotinismos ou hipocrisias. Cada um deve AGIR.

Não pretendo “dar bengala a cego” também. Nem recitar regras. São declarações de ação, todavia. Por quê? Porque ando saturada pelas palavras vazias que ouço diariamente pelas ruas.

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Em 1997, conheci o “Projeto Reciclázaro”, na V. Romana, Lapa, SP. O padre Celso tirava, então, da Praça Cornélia, bêbados, alcoólicos, dependentes químicos em geral, moradores de rua e os integrava ao trabalho de reciclagem, recolhimento, separação, e com isso obteve junto a todo o bairro – e aos vizinhos – grande receptividade, inclusive mantendo um consultório dentário, com dentistas voluntários, e a casa que acolhia mães com Aids, “dependentes” e seus filhos. Para lá levávamos roupas de cama, utensílios, brinquedos e tudo o mais. O Projeto cresceu bastante, motivou outros tantos. Nós, moradores, não esperávamos os “catadores” em casa não. Levávamos em nossos carros o que pretendíamos doar, inclusive roupas, sapatos, cobertores, livros e cadernos, porque alguns voltaram a estudar. Não era fácil porque sempre se exigiu endereço para matriculas. Mas agora o tinham, no centro da cidade, lá dormiam etc. na Rua do Gasômetro. Nesses muitos anos, o Projeto diversificou-se e cresceu bastante.

Sede

Praça Alfredo Weiszflog, 37 – Vila Romana
CEP 05045-050 – São Paulo/SP
Fone: (11) 3871-5972

A sede da Associação Reciclázaro funciona em uma casa no bairro da Vila Romana, onde abriga os setores de comunicação, administrativo, nota fiscal paulista, recursos humanos e coordenação geral.

http://www.reciclazaro.org.br

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PROJETO FOME ZERO

Início da década de 2000, março, os alunos receberam o material escolar distribuído pela Prefeitura de São Paulo. Pela primeira vez vinha numa bela sacola, como aquelas das papelarias famosas ou das lojas de shopping. Ali dentro havia cadernos universitários, lápis de cores, giz de cera, dicionário, canetas, lápis pretos, borrachas, régua, transferidor. Ah, uma beleza! Eles recebiam aquilo e se encantavam. Nas sacolas dos menores, das séries iniciais ainda havia outros materiais pertinentes ao seu trabalho cotidiano nas aulas. Era um encantamento receber aquilo tudo e cheirar cada caderno novo, abrir as caixas de lápis de cores, folhear o dicionário. Parecia que uma fada madrinha havia deixado ali o material de cada um. Os olhos embevecidos, comoção total. Pura poesia.

Ao término das aulas, enquanto caminhavam pelas ruas, dando mãos aos irmãos menores, carregando suas sacolas e as deles, pulavam, cantavam, riam, pareciam ter vindo das compras, pareciam ser como os outros meninos que estavam acostumados a sair das papelarias com os pais, depois de terem escolhido os materiais escolares que desejavam, os mais caros , os mais bonitos. Mas eles sempre foram iguais a quaisquer outros meninos ! Não seria o poder de compra que os diferenciaria. Não no que dependesse de mim.

No dia seguinte conclamei meus colegas professores a desenvolvermos um projeto para ressignificar aquelas mudanças que vinham ocorrendo na escola municipal: a distribuição do material escolar, as peruas que levavam e traziam os alunos de lugares um pouco mais distantes, as refeições oferecidas nos 3 períodos com arroz, feijão, carne, salada e frutas de sobremesa. ( Já recebiam a lata de leite em pó antes, e livros do governo federal – agora também ofertados ao nível médio e à EJA ( educação de jovens e adultos). Elaboramos e demos encaminhamento a um projeto que esclarecia o custo daquilo tudo, de onde vinham os recursos para aquelas aquisições, de como cuidar do material recebido, como encapá-lo, cuidar dele etc. Para isso foi necessário ensinar, sentar com eles, encapar com eles, criar etiquetas, capas personalizadas, talvez o rosto de um ídolo, talvez um poema, talvez o símbolo da disciplina, da matéria que o caderno abrigaria …

Os cálculos de quanto custavam os 2 uniformes de inverno e os de verão – que receberam também. Logo depois o custo do passe estudantil a que tinham direito e assim por diante. Projeto envolvendo muitas disciplinas escolares e a valorização do que recebiam. Conscientização de todo investimento em EDUCAÇÃO. Assim, quando mais tarde quisessem lhes arrancar aquilo a que tinham direito – direito adquirido – soubessem eles reivindicar, lutar mesmo pelo que buscavam.

DISTRIBUIÇÃO DE ALIMENTOS AOS NECESSITADOS

Depois da leitura da coleção de livros sobre Cidadania, de Edson Gabriel Garcia, algumas ações foram propostas: montar caixas com alimentos em cestas básicas para a população necessitada. Integravam-se assim à Campanha FOME ZERO, idealizada pelo grande Betinho. Integramos nossas ações a ações mais amplas e cidadãs, portanto. Encaminhamos à Sub-prefeitura Regional da Lapa, ao sub-prefeito, na presença do autor Edson G. Garcia e com cobertura do Jornal da Lapa.

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PROJETO “Da boca pra dentro & da boca pra fora”

Relatando a prática:

Histórico

Naqueles dias de 2003, soubemos que havia meninas nossas alunas começando a fumar para permanecerem magras porque se achavam gordinhas e não queriam ser assim; os padrões estéticos vigentes as conduziam a essa postura. Bullying. O que fazer ? Discursos apenas não adiantariam. Então foi necessária ação pedagógica e social.

Esse trabalho, realizado com as duas sextas séries da Escola Municipal Desembargador Euclides Custódio da Silveira, no Parque São Domingos, SP,

veio em continuidade ao desenvolvido no ano anterior, pois haviam sido também meus alunos em 2002. O planejamento por ciclo é bom porque permite a continuidade de objetivos, de sequências didáticas e o acompanhamento de competências e habilidades a serem desenvolvidas.

Intenções gerais

A preocupação com a proficiência da leitura sempre demarcou nosso trabalho, pois acredito que a leitura é capaz de inserir ou resgatar os indivíduos em sua cidadania, assim, foram priorizadas todas as ações que visassem ao desenvolvimento dessa competência.

Outro demarcador foi sempre a produção de textos (tanto orais quanto escritos) a partir das leituras.

Temos observado, nos últimos tempos, o aumento das exigências sociais quanto à participação ativa do indivíduo na sociedade comunicando-se, informando-se, posicionando-se com clareza, com criticidade e de maneira construtiva nas mais variadas situações do cotidiano.  Era preciso, então, fazer com que meus alunos se tornassem agentes de seu conhecimento e sentir que estavam aprendendo e compreendendo “as coisas do mundo”: as de dentro e as de fora da escola. Ler precisava ser muito mais do que apenas decodificar sílabas, palavras, frases e orações. Era preciso reconhecer as intenções de quem escreve, reconhecer-se nas leituras realizadas, selecionar, escolher, utilizar-se de todas para aprender mais, para se informar, para se divertir. Dessa forma, percorremos um caminho repleto de situações de aprendizagem que nos conduzissem efetivamente a esses objetivos. Usamos para isso três das cinco aulas semanais.

Iniciando o caminho

O trabalho começou com a ida à Mostra “Os Guerreiros de Xi’an e os Tesouros da Cidade Proibida”. Preparamos leituras de obras e enciclopédias que tratavam do tema, bem como a de jornais sobre a Exposição. Ao chegarem ao Prédio da Oca, no Parque do Ibirapuera, sentiram a importância de já possuírem informações sobre o tema. No retorno, demonstraram isso preparando murais para o coletivo da Escola, acrescentando outras informações que haviam adquirido lendo e vendo a Mostra.

Leituras com diferentes objetivos

O passo seguinte foi a retirada de livros da sala de leitura e da biblioteca circulante de classe. Essa seleção deu-se a critério dos alunos – leitura por prazer – prosa: (crônicas, contos, novelas, romances, diário), poesia (de todos os níveis e épocas), teatro. A justificativa de cada um para a escolha das leituras deu-se de forma oral e os motivos variavam desde uma sinopse interessante, a uma capa ou título curiosos e até mesmo pelo simples número de páginas. Nas devoluções das leituras, os alunos iam relatando se estavam gostando ou não daquilo que liam e também aprenderam a justificar por que a seus colegas. Vez por outra eu interferia acrescentando alguma pergunta, suscitando alguma comparação entre personagens, obras, gêneros etc. ensinando a pensar sobre o que haviam lido, porque é preciso ensinar, é preciso trabalhar estratégias e motivá-los à leitura.

Fizeram várias atividades relacionadas às obras lidas: desenho de personagens, (da forma que as concebiam), modificações de capítulos e, por fim, uma ficha para montagem de um painel, onde escreviam os nomes das obras, o de seus autores, das editoras, criavam uma ilustração sugestiva e registravam opinião crítica sobre elas. O objetivo era socializar para toda a Escola tais opiniões, com o propósito, inclusive,

de sugerir possíveis leituras. (Estavam acostumados a essas práticas, pois em 2002 havíamos realizado grandes projetos de leitura: no primeiro semestre a partir de uma obra completa “A menina que descobriu o Brasil”, de Ilka B. Laurito; no segundo, havíamos trabalhado com as Coleções do Programa) “Literatura em minha casa”,

de forma bastante interessante e criativa – e explorado os diversos gêneros que a Coleção apresentava. Tínhamos também a premiação do “Leitor do mês”, com três livros e um diploma ao(s) maior(es) leitor(es), além de placa na classe com seu nome e foto.

Integrando outros projetos

No mês de abril, iniciamos na Escola uma campanha sobre meio ambiente e passei a enfocar, nas aulas de Português, o ambiente em que vivemos na Escola, em casa, o micro que conduz ao macro ambiente. A “mascação” de chicletes durante as aulas, a forma inadequada de tratar os colegas, com apelidos e comentários preconceituosos e debochados já incomodavam a todos, meninas mais gordinhas, enfim, conviver estava se tornando muito difícil e conceitos como justiça, respeito e solidariedade se apresentavam quase ausentes. Mas para trabalhar valores eu necessitava de ações didáticas, gerar reflexão para depois transformá-la de novo em ação, com mudança de comportamento. Teria que ser muito mais do que discurso.

Assim, iniciamos uma pesquisa de identidade: confecção de fichas onde escreviam seus dados pessoais, gostos e preferências, anexando fotos etc. Depois “brincávamos” de adivinhar de quem seriam aqueles dados lidos por mim, para sentirem até que ponto já conheciam seus colegas. Acertaram bastante. Fizemos com as fichas um “Fichário da Amizade“.

No mês de maio trabalhamos com algumas letras do CD “Tribalistas”. Foram feitas discussões orais, ilustrações sobre o conteúdo das letras e, por fim, apresentamos, com performance, a música “Velha Infância”, no sábado, em evento comemorativo ao Dia das Mães.

O acontecimento 

No final do mês de maio, fui ao lançamento do livro “De cara com o espelho”, de Leonor Corrêa e me propus, já na noite de autógrafos, a elaborar um projeto de leitura a partir da obra – percebi que atenderia a nossos objetivos, tanto em relação ao tema (crônicas que tratam de problemas decorrentes de atitudes preconceituosas, de forma bem-humorada) quanto aos propósitos de leitura. A partir daquele momento “vendi a ideia” a meus alunos, que já tinham ouvido falar da obra na tevê, e o trabalho se iniciou.

Atividades desenvolvidas

Leitura compartilhada das crônicas, recriação de algumas, leituras de textos informativos complementares de artigos do Folhateen, da Revista da Folha de São Paulo, pesquisas em sites da internet, provas escritas, criação de folhetos de divulgação de hábitos saudáveis de alimentação, criação de bonecos (personagens), contação de histórias para alunos de terceiras e quartas séries (gravadas em vídeo), auto-avaliações, gravação em fita cassete de um rap sobre o tema e leitura com os pais foram algumas das atividades desenvolvidas e saboreadas por nós.  E todas leituras proficientes!

Justificativas

Nossa Escola fica em um bairro de classe média e a população que frequenta as

aulas inclui, já faz uns dez anos, grande parte das crianças e adolescentes  que viviam em sub-moradias, embaixo do Viaduto Anhanguera, em barracas de lona , agora  substituídas, em mutirão, por casas de blocos ou madeira, mas no mesmo lugar. No início do ano letivo percebi que grande parte dos alunos se “mostrava invisível”, não eram agentes de seu conhecimento, eram apenas receptores. Nada propunham, nada discutiam, nada influenciavam. Ir à escola fazia parte. E só. Não possuem livros, nem tampouco pais ou vizinhos que leiam para eles, pois muitos são semi – analfabetos ou analfabetos funcionais. Às vezes está na Escola sua única oportunidade. Qualquer uma. Também frequentam as aulas alunos recém-chegados de escolas particulares. Valores e culturas muito diferentes. Às vezes ausência de valores. A Escola surge como possibilidade de construção, de reconstrução da cidadania. Precisavam ser desafiados.

Nas duas sextas séries temos 70 alunos. Destes, seis ainda soletravam as palavras, compreendiam parcialmente o que liam e apresentavam bloqueio para iniciar leituras. Outros tantos ainda não pontuavam e perdiam o sentido global do trecho lido. Havia um grupo que lia sem essas imperfeições, mas não fazia ligações com o contexto ou interpretava o que lia. Alguns poucos já liam com proficiência.  Para atender a todos os alunos, e àqueles em especial, vem sendo desenvolvido um trabalho em Oficinas de ortografia e produção de texto em sala de aula. A Escola tem apresentado como meta pedagógica nos últimos anos a alfabetização em todas as áreas e séries e é nesse contexto que os Projetos de Leitura que desenvolvo se inserem. (Como também o projeto de “Leitura de Revistas Recreio por uma semana”, desenvolvida com eles em 2002).

Gostam muito que se leia para eles. Agora, gostam de ler também. Torna-se necessário, entretanto, continuar a ensiná-los a ler com proficiência.

Objetivos do trabalho

– Ressignificar a participação dos alunos nos eventos da Escola.

-Ter respeito pelos trabalhos apresentados pelos colegas;

-Reconhecer e respeitar as formas de expressão e os valores dos outros e defender os próprios;

-Saber distinguir os diferentes níveis e tipos de meios de comunicação;

-Ter interesse pelo ato de aprender.

-Saber utilizar e valorizar as diferentes fontes de informação (livros, textos, fotocópias, visitas, entrevistas, estudos de meio);

-Conscientizar-se de suas necessidades de aprendizagem;

-Saber realizar uma análise, em diferentes meios (oral: recado, aviso, mensagem publicitária, letra de música – escrita: jornal, revista, livro, folheto, receita, internet) dos usos e das formas de tratar a informação;

-Assumir o sentido funcional das diferentes linguagens de acordo com o seu contexto;

-Saber realizar a leitura de uma mensagem publicitária;

-Saber realizar a leitura de uma crônica e identificar as “possíveis intenções”

(o viés) de quem as escreveu;

– Ler em público, com clareza, pontuação e intencionalidade;

-Saber detectar a estrutura de uma informação e realizar sua síntese;

-Reforçar, frente ao tratamento da informação, o ponto de vista de quem a elaborou;

-Proceder mediante o que se aprendeu com as informações;

-Ter interesse pela boa redação e pela apresentação dos trabalhos escritos;

– Empenhar-se em escrever sem erros de ortografia;

-Ter consigo o material necessário para pesquisa, estudo ou registro dos trabalhos;

-Aprender a se organizar em casa, quanto às tarefas e trabalhos que se proponha a realizar;

-Apresentar comportamento integrado na realização de trabalhos em grupo;

-Assumir um senso reflexivo (os erros conduzem a acertos) que permita avaliar a qualidade de sua leitura oral e silenciosa;

-Assumir um senso reflexivo também no que se refere à qualidade de sua linguagem escrita.

Conteúdos curriculares trabalhados

Elementos da crônica (tempo, espaço, foco narrativo, personagens, tema, estrutura);

Elementos de um folheto de publicidade, linguagem, apresentação;

Elementos de um cartaz;

Elementos de um artigo de jornal ou revista; ponto de vista; público-alvo;

Pontuação do diálogo;

Conceito de pesquisa: coleta de informações, seleção e síntese;

Análise de personagens; adequação dos bonecos às características das personagens da obra lida;

Metodologias e procedimentos

(Anteriores à leitura do livro de Leonor Corrêa)

  • 1- Conversa em semicírculo sobre episódio de desrespeito a colegas ocorrido no corredor. Levantamento de idéias. Proposta de situações com mudança de papel (quem acusou agora defende, quem defendeu, acusa etc.). Fechamento da atividade com proposta de reflexão.

2-Proposta de conhecer uma outra civilização e cultura diferentes da Ocidental (a propósito das “chamadas” do Fantástico, da Rede Globo, sobre a Cidade Proibida dos chineses. Intenção: alunos com atitude reflexiva e questionadora do mundo (valorização de todos os pontos de partida, a análise da relação entre eles e o possível confronto de idéias distintas).

  • 3 – Início das leituras : Pesquisa. Orientações: Observar os seguintes passos:

– coletar dados (informações), fazer o tratamento dos dados, apresentar os dados, analisar os dados, fazer a discussão dos dados e interpretar esses dados (com a ajuda de algum referencial teórico).

3- Leitura dos textos informativos xerocopiados:”Os soldados de terracota” e

Moedas de formas surpreendentes”, (in Os Reinos Soterrados da China,     Coleção Civilizações Perdidas, Abril Coleções). Discussão de fonte, tipo de informação, descrição de processo, adjetivação. Registro de síntese das idéias. Ilustração do texto.

4- Ida à Mostra “Guerreiros de Xi’ an e Os Tesouros da Cidade Proibida”.

Orientação: registrar apenas o que entender, dar destaque ao que lhe parecer mais curioso, estranho, diferente etc.

      5- Atividade de discussão em classe: Em círculo, manifestar para a classe o que mais o marcou durante a Mostra.

Orientação: diferenciar fatos de opinião pessoal, socializar as informações.

6- Produção do painel: “Os Guerreiros de Xi’ an e Os Tesouros da Cidade Proibida”.

Orientação: Esclarecimento dos objetivos: montar um painel para socializar as informações, sob a forma de fatos e opiniões pessoais, em pequenos grupos. Comparar a forma de viver dos chineses com a nossa. Fazer ilustrações. Avaliar a validade de terem ido à Mostra; informar sobre fontes, coleta e seleção de informações; discutir e elaborar o roteiro de trabalho junto com os colegas; organizar a apresentação. Reescrever textos que apresentarem erros, após revisão.

7- Audição do CD “Tribalistas”.

Orientação: Ouvir as letras pré-escolhidas por eles. Ilustrar os temas tratados  enquanto acompanham letra e música. Confrontar idéias, acrescentar idéias em pequenos grupos e depois no grupo maior.

Votação: qual a música mais adequada a ser cantada na comemoração do Dia das Mães. Construção de painéis onde apenas adjetivos e locuções adjetivas caracterizariam as mães. Leitura de poemas, da nossa caixa de poemas, sobre o tema “mães”. Criação de poemas concretos e cartões – forma e conteúdo (por exemplo: cartão com formato de guarda-roupa e de uma gaveta saía o poema; ou com formato de uma TV ou de um celular etc.), personalizados para as mães. Montagem dos paineis. Apresentação no sábado. Entrega dos cartões. Gravação em vídeo.

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(Introdução do livro “De cara com o espelho”)

8- Apresentação e proposta de leitura do livro “De cara com o espelho”, de Leonor Corrêa, da Editora Moderna. Proposta aceita, após audição do prefácio escrito por Fausto Silva sobre a obra.

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Orientações: Adquirir o livro que conseguira com desconto de 30% para eles.

Iniciar a leitura do livro, em casa, pela crônica que desejassem.

Proposta de leitura e discussão oral da primeira crônica “Apaixonado por você mesmo”, (caracterização e comparação de personagens, papel do narrador, linguagem do narrador e dos personagens, tempo da narração, “problema apresentado” e “solução para o problema”).Conversa com os pais – e registro no caderno – sobre um fato que tenha acontecido com eles, em sua adolescência, e que os tenha marcado, de alguma forma. Não havendo necessidade de ser lido em classe, apenas aqueles que o desejassem.

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9- Leitura compartilhada (pelos alunos e por mim) da segunda crônica, “Pneu furado”.

Orientação: Criação de texto ilustrado, do tipo charge, com o título de A revolta dos pneus, onde estes se manifestariam contra esse tipo de preconceito que leva as pessoas a afirmarem que outras têm pneuzinhos etc.  

Reescrita de textos com erros. Montagem de painel. Socialização nas paredes dos corredores da Escola.

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10- Leitura do artigo “Brincadeiras de mau gosto” (“anti-bullying”), do caderno Folhateen da Folha de São Paulo.

Orientações: Estabelecer diferenças (estrutura, intenções etc.) entre tal tipo de texto de jornal e as duas crônicas lidas no livro. Discutir em duplas e apresentar ou acrescentar opiniões.

11-Leitura da crônica “A chata-feira da semana” por mim.

Orientações: Produção de texto: Reprodução escrita da crônica. Leitura dos textos reproduzidos para os componentes de seu pequeno grupo. Reescrita, quando necessária, de trechos que não tenham ficado claros a seus ouvintes.

Recriação, sob a forma de desenhos, dos problemas que a personagem principal, Marcela, teve que enfrentar e como os resolveu. Montar um painel com os trabalhos individuais.

12- Leitura de artigo “Todas as fomes”, da Revista da Folha de São Paulo.

Discussão do tema apresentado. Reconhecimento dos órgãos que participam do processo digestivo. Registro no caderno sob a forma de colagem do artigo.

Orientações: Registrar no caderno: qual o seu tipo de fome mais constante, em que momentos ou situações você sente mais vontade de comer?

Socialização das respostas, em painel, sem identificação dos nomes dos autores.

13- Leitura em casa da crônica “Tia Insulina”.

Orientação: Proposta de levantamento de questões e perguntas para serem esclarecidas. Leitura de textos na internet, na sala de informática, sobre o tema. Leitura de verbetes, em enciclopédias, em dicionários na sala de leitura. Pesquisa em mercados de listas e preços de produtos light e diet. Leitura de receitas saudáveis e análise do porquê.

14- Leitura dramatizada em classe da crônica “Vovó beleza pura”.

Orientações: Comparar todas as crônicas lidas (elementos da estrutura: tempo, espaço, foco narrativo, personagens, problema/conflito, solução/desfecho), em duplas e anotar tais comparações.

15- Leitura dramatizada em classe das crônicas “Bebezão” e “Família Spa”

Orientação: Proposta de recriação dos personagens que desejarem, sob a forma de bonecos (de pano, isopor, areia, papel marche ou outros), mantendo as características expostas nas crônicas.

Escolha de crônicas a serem recontadas aos alunos menores, do período da tarde, (3ªs e 4ªs séries). Votação para escolha dos contadores.

16- Produção de textos: Criação de folhetos na sala de informática.

Orientações: Criação de folhetos publicitários com recomendações a respeito de  alimentação e vida saudáveis, para distribuir aos colegas de outras classes, no caderno e depois no computador. Revisão de texto, utilizando banco de dados do computador e correção do colega com quem forma dupla. Ilustrar (usando paint, clip- art ).

Criação de livrinho com receitas saudáveis

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17- Pesquisando na internet, na sala de informática: Pesquisa para criação de cartazes informativos sobre origem e características das festas juninas no Brasil.

Orientações: Acessar um site de busca. Ler as informações a respeito dos

subtemas propostos (origem, comidas e bebidas, os santos juninos, o mastro, a quadrilha etc.). Selecionar as informações na coleta de dados. Anotar os elementos mais importantes (o quê, quem, onde, por quê, como). Produzir texto objetivo, claro e conciso, acompanhado de ilustração para ser lido no dia da festa junina na Escola. Preparar paineis com os cartazes.

18- Proposta de criação de música para o “Rap da revanche”, inserido no livro lido.

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Orientações: Ler com vagar palavra por palavra. Os grupos deverão dividir as linhas poéticas, versos, em versos melódicos, levando em conta o ritmo, de acordo com o sentido que desejarem obter. Criar pelo menos três versões diferentes. Gravação de fita cassete com todo o grupo de alunos, na sala de leitura.

19- Contação de histórias (das crônicas escolhidas), para os alunos das terceiras e quartas séries, na sala de leitura (atividade gravada em vídeo).

Orientações: Ler as crônicas escolhidas, de forma dramatizada (narrador e personagens), com expressividade, em tom de voz adequado. Apresentar os bonecos personagens aos alunos. Distribuir os folhetos publicitários com recomendações a respeito de alimentação e vida saudáveis.

20- “Professora, e a autora?” – Foi assim que uma aluna me chamou a atenção para o fato de não havermos ainda nos comunicado com ela, pois o fizéramos no ano anterior e tínhamos recebido a visita de Edson Gabriel Garcia (para ver os trabalhos realizados pelos alunos e conversar com eles).

Orientações: Desta vez, dadas pelos alunos: Mandar e-mails para a Rede TV, onde a autora apresentava um programa diário. Escreveram os e-mails no caderno, os reescreveram, obedecendo às necessidades: adequação da linguagem, tratamento, receptor, mensagem etc. e os enviamos: uns foram direto de suas casas, e outros, por não possuírem computador, enviados por mim (A Escola não possuía ainda endereço eletrônico).

21- Atividade de reflexão e avaliação: De cara com o espelho.

Orientações: Auto-avaliação a respeito do trabalho realizado com o livro lido (o que aprenderam, no que se modificaram etc.). Desenho de auto-retrato, olhando-se no espelho, em sala de aula.

Observação:

. As estratégias e os recursos utilizados foram expostos no relato acima.

Avaliação ou da vontade de registrar isso tudo para sempre

Dos resultados esperados aos obtidos:

Os alunos envolveram-se com as atividades propostas e produziram bastante.  A leitura proficiente foi atingida por 75% dos alunos e o restante está em processo. O conceito de leitura como forma de informação, conhecimento, divertimento foi absorvido por todos. Durante as discussões e as atividades escritas, manifestaram reconhecimento e respeito às formas de expressão aos valores dos outros e defesa de seus próprios. Ampliaram o interesse pelo ato de aprender. Na utilização das fontes de informação demonstraram valorizar cada uma delas. Durante o processo, foi ampliada a conscientização de suas necessidades de aprendizagem e modificou-se ainda mais a postura dos alunos frente a seus erros, caminho para acertos. Os trabalhos encontram-se registrados em nosso “Livro do ano”, com fotos, avaliações, auto-avaliações e produções dos alunos – como em 2002. O trabalho teve suas primeiras floradas. Precisa ser retomado, no segundo semestre, por exemplo, trabalhando-se com outros tipos de textos, com outras estruturas, com a apreciação de discursos orais, regionais, poéticos e outros, com um trabalho ainda mais dedicado à formação dos grupos e dos valores de convivência. Mas já caminhamos bastante.

Continuando esse trabalho, pretendo trazer mais para perto ainda os pais, que participaram timidamente durante esse semestre (tenho relatos escritos por  alguns).

O trabalho teve suas primeiras floradas. Precisa ser retomado, no segundo semestre, por exemplo, trabalhando-se com outros tipos de textos, com outras estruturas, com a apreciação de discursos orais, regionais, poéticos e outros, com um trabalho ainda mais dedicado à formação dos grupos e à retomada dos valores de convivência. Mas já caminhamos bastante. Como diz nosso grande poeta Drummond, “tenho palavras em mim buscando canal”. Quero possibilitar canais.

Avalio como “saborosíssimo” o trabalho desenvolvido com as sextas séries nesse semestre. Pude realizar com eles alguns objetivos, procedimentos e estratégias de leitura de grande relevância para o processo de seu desenvolvimento. E foi bom, muito bom. Completei trinta anos de magistérioCostumo dizer que falo de dentro. De dentro das salas de aula das escolas particulares e públicas onde tenho vivido. Orgulho-me de minhas leituras e de minha carreira. Afinal, que profissão semeia estrelas de todos os tipos, cores e formas e depois, com o passar dos anos, vai reencontrando-as de novo, adultas, de cores ainda mais belas, e as recolhe em ramalhetes?

Recursos utilizados

. 20 computadores em rede, conectados à internet e impressora da sala de informática;

. filmadora, máquina fotográfica, gravador e aparelho de CD;

. livros da sala de leitura e da biblioteca circulante de classe;

. jornais e revistas.

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Bibliografia utilizada com os alunos

Corrêa, Leonor, De cara com o espelho, S. Paulo: Moderna, 2003

Góis, Antonio, Fernanda Mena e Guilherme Werneck, Brincadeiras de mau gosto,

     In, Folhateen, Folha de São Paulo, 09/06/2003.

Macedo, Luciana, Todas as fomes, in Revista da Folha, 09/02/2003

Enciclopédia Larousse Cultural, Nova Fronteira

         Os Reinos Soterrados da China, Col. Civilizações Perdidas, Abril Coleções.

Novo Dicionário Básico da Língua Portuguesa. Folha/Aurélio, Folha de São

Paulo.

sites: www. festajunina.com.br

http://www.festajunina.com.br/suafesta.htm

 

Bibliografia consultada

Davis, Claudia e outros, Ofício do Professor, v. 3,4, 8, São Paulo:

Fundação Victor Civita,2002.

Batista, Antonio G. Batista e Ana Maria de O . Galvão (orgs.) Leitura:

    práticas, impressos, letramentos, Belo Horizonte: Autêntica, 2002.

Kleiman, Ângela.Oficina de leitura: teoria e prática, 9ª ed. Campinas:

    Pontes, 2002.

Neves, Iara B. e outros (orgs.) Ler e escrever – compromisso de todas

      as áreas,3ª edição, Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 2000.

Charmeux, Eveline, Aprender a ler: vencendo o fracasso, 4ª ed.

      São Paulo:Cortez, 1998.

Kleiman, Ângela B. e Sílvia E. Moraes, Leitura e interdisciplinaridade,

   Campinas:Mercado das Letras, 1999.

Kleiman, Ângela,Texto e leitor: Aspectos Cognitivos da Leitura, 4ª ed.

Campinas: Pontes, 1995.

Solé, Isabel, Estratégias de leitura, P. Alegre, ArtMed, 1998

Elaboração: Odonir Oliveira – 2003

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Texto: Odonir Oliveira

1º Vídeo: Canal Rodrigo Castro de Mendonça

2º Vídeo: Canal bruno oliveira

Conversas de quem gosta de ensinar

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Bendito seja aquele que sabe ENCANTAR pelo que ENSINA.

Professor idealizador da Escola da Ponte em Portugal sua experiência como educador e pesquisador o levou a formatar uma metodologia alternativa que foi capaz de criar uma escola sem aulas, turmas ou provas; o sucesso de seu modelo de ensino que vem sendo inspiração mundial há 40 anos revolucionou o papel de Portugal no cenário da pedagogia mundial; é reconhecido internacionalmente como a maior referência em termos de inovação em educação.”

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Conheci José Pacheco, fazendo o curso sobre a Escola da Ponte, antes de conhecê-lo pessoalmente. Digo isso porque conheci seus professores, seus alunos, seus projetos de ensinagem e aprendizagem e sua visão de mundo.

Tempos se passaram, José Pacheco veio viver no Brasil, e aí o conheci, gente de carne e osso, um homem mais ou menos da minha idade e com a mesma visão de mundo que a minha.

Foi então que pude tocar nele, abraçá-lo e dizer-lhe, quase sem palavras, tudo que sempre quis lhe dizer.

Na vida há raízes de homens. Sei bem que as há.

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TIÃO ROCHA e o CPCD

Quando o conheci aqui na Estação Ponto de Partida, em Barbacena, MG, agradeci a ele o quanto tinha aprendido com tudo que ele sempre produziu e confessei que eu tinha muito orgulho de ser uma brasileira como ele também é. Os abraços fraternais que nos demos foram muito significativos.

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Fotos de arquivo pessoal

 

1º Vídeo: Canal TEDx Talks
2º Vídeo: Canal Odonir Oliveira
3º e 4º Vídeos: Canal cpcdbhz

Mais em: 

TIÃO ROCHA: http://www.cpcd.org.br/tiao-rocha/

JOSÉ PACHECO: http://biblioo.info/jose-francisco/

 

 

 

Um encontro marcado com Fernando

Professor é aquele que mesmo em momentos de diversão, deleite, encontra ali um vínculo, um  link a ser feito também com seu ofício de ensinar.

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Conheci pessoalmente Fernando Sabino numa noite de outubro de 1991. Fui assistir a uma mesa-redonda da qual  ele participava, em São Paulo. Ao final, ficamos conversando, autografou seu último livro que eu havia levado e foi mineiramente o contador de “causos”, que eu previa.

Contei a ele o trabalho que estava desenvolvendo com meus alunos do Colégio Galileu Galilei, nas sextas séries. Conforme eu lhe contava, seus olhos ficavam cada vez mais atentos. Pediu que lhe mandasse alguma coisa deles pra ele ler. Dando-me seu endereço e telefone em Ipanema, no Rio. Enviei as cartas dos meninos e meninas; nelas eles contavam do que mais haviam gostado no livro lido, faziam perguntas e mais algumas meninices tantas. Fernando respondeu uma por uma e mandou para o colégio.

O livro lido era o lindo O menino no espelho.

A SEDUÇÃO

No ano seguinte, as cartas enviadas pelo autor Fernando Sabino foram o start para as novas turmas de sextas séries também quererem ler a obra. “Que livro legal é esse, né, Odonir, o autor até responde a gente. Também quero ler”.” Eu também. “.”Eu também.”

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Então vamos fazer de um limão vários jarros de limonada, por que não?

LEITURAS INICIAIS

Iniciamos com o texto “Menino”. Lemos as frases e pedi que marcassem apenas aquelas que seus pais diziam para eles. Foi muito bacana. Houve quem marcasse poucas e quem tivesse assinalado muitas. Rimos, e concluíram que uns eram bem mais “levados” do que outros. Coisas que a infância vai perfumando, como poesia.

MENINO

Menino, vem pra dentro, olha o sereno! Vai lavar essa mão. Já escovou os dentes? Toma a benção a seu pai. Já pra cama!

Onde aprendeu isso menino? – coisa mais feia. Toma modos. Hoje você fica sem sobremesa. Onde é que você estava? Agora chega, menino, tenha santa paciência.

De quem você gosta mais, do papai ou da mamãe? Isso, assim que eu gosto: menino educado, obediente. Está vendo? É só a gente falar. Desce daí, menino! Me prega cada susto…para com isso! Joga isso fora. Uma boa surra dava jeito nisso. Que é que você andou arranjando? Quem te ensinou esses modos? Passe pra dentro. Isso não é gente para ficar andando com você.

Avise seu pai que o jantar tá na mesa. Você prometeu, tem de cumprir. Que é que você vai ser quando crescer? Não, chega: você já repetiu duas vezes. Por que você está quieto aí? Alguma coisa está tramando…não anda descalço, já disse! – vai calçar o sapato. Já tomou remédio? Tem de comer tudo, você tá virando um palito. Quantas vezes já te disse para não mexer aqui? Esse barulho, menino! – teu pai tá dormindo. Para com essa correria dentro de casa, vai brincar lá fora. Você vai acabar caindo daí. Pede licença a seu pai primeiro. Isso é maneira de responder à sua irmã? Se não fizer, fica de castigo. Segura o garfo direito. Põe a camisa pra dentro da calça. Fica perguntando, tudo você quer saber! Isso é conversa de gente grande. Depois eu te dou. Depois eu deixo. Depois eu te levo. Depois eu conto. Agora não, depois!

Deixa seu pai descansar – ele está cansado, trabalhou o dia todo. Você precisa ser muito bonzinho com ele, meu filho. Ele gosta tanto de você. Tudo que ele faz é para seu bem. Olha aí, vestiu essa roupa agorinha mesmo, já está toda suja. Fez seus deveres? Você vai chegar atrasado. Chora não filhinho, mamãe está aqui com você. Nosso Senhor não vai deixar doer mais.

Quando você for grande, você também vai poder. Já disse que não, e não, e não! Ah, é assim? – pois você vai ver só quando seu pai chegar. Não fale de boca cheia. Junta a comida no meio do prato. Por causa disso é preciso gritar? Seja homem. Você ainda é muito pequeno pra saber essas coisas. Mamãe tem muito orgulho de você. Cale essa boca! Você precisa cortar esse cabelo.

Sorvete não pode, você tá resfriado. Não sei como você tem coragem de fazer assim com sua mãe. Se você comer agora, depois não janta. Assim você se machuca. Deixa de fita. Um menino desse tamanho, que é que os outros hão de dizer? Você queria que fizessem o mesmo com você? Continua assim que eu te dou umas palmadas. Pensa que a gente tem dinheiro pra jogar fora? Toma juízo menino!

Ganhou agora mesmo e já acabou de quebrar. Que é que você vai querer no dia de seus anos? Agora não, depois, tenho mais o que fazer. Não fica triste não, depois mamãe te dá outro. Você teve saudades de mim? Vou contar só mais uma, tá na hora de dormir. Vem que a mamãe te leva pra caminha. Mamãe te ama, viu! Dá um beijo aqui. Dorme com Deus meu filho!

SABINO CRIANÇA

Pedi que fizessem o mesmo com seus pais. Agora seriam eles a reconhecer as frases mais usadas com o filho. E pedi que os pais lhe dessem outro título (Na verdade, fora sugestão de uma aluna. “Odonir, esse título do Fernando Sabino e muito bobo; você já ensinou a não dar título bobinho pros nossos textos, né”). Queria que as meninas e os meninos  fortalecessem o conceito e a arte de se dar títulos, ideia central, certa inovação a despertar interesse em quem vai ler etc. Essa interação com a família é de suma importância, posto que integra a família com a escola, ensina o que se ensina por lá, ou até mesmo propicia aos pais se lembrarem do quão meninos já foram. Tudo alegria.

Faz muitos anos, entretanto me recordo de alguns títulos – talvez pela criatividade dos pais – “The mamas and the papas“, “Mãe é tudo igual”, “Criança é graça”, ” A arte  de ser pai de aluno de uma professora crítica”. Cada um leu o “seu” e aí deram outros. Foram votados os mais interessantes etc.

“SEMEANDO INFÂNCIA”

Nas próximas aulas, propus que narrassem a aventura ou o fato mais antigo de suas infâncias, aquele de que se lembrassem. Sentados em grupos de 4, começaram a lembrar e ir contando aos parceiros. Eu caminhava pelos grupos, aqui-ali mediando os relatos orais, orientando datação, localização, envolvidos na trama, desfecho etc. Depois eles próprios haviam aprendido e faziam uns com os outros. Votaram no mais interessante, mais arriscado, mais terrível de cada grupo. Depois foram à frente da classe narrar as aventuras vividas. Foi muito interessante notar quantos adjetivos, quanta expressividade havia ali naqueles relatos. Relatos orais na escola, língua oral, devolver o discurso para os meninos –  fundamentais a quem aprende e a quem ensina.

Ah, narrei o meu também. Professores devem se juntar aos alunos, sendo com eles também um aprendiz. Lembrei meu aniversário de 5 anos, com bolo de roda- gigante, bonequinhas vestidas nas cadeirinhas e docinhos de moranguinhos, deliciosos, tudo feito por minha mãe lá em Xerém, RJ. Eles adoraram.

PRODUÇÃO DE TEXTO

Pedi que agora escrevessem a sua aventura. Leram para os parceiros do grupo. Aproveitei e fiz rodízio entre os integrantes. É muito importante diversificar. A convivência de alunos com mais dificuldade de escrita e outros com bastante facilidade– sendo mediadores, os ajudando- ensina a tolerância, a solidariedade e estimula a competência– creio eu.

Produziram. Na hora em que foram ler, um menino fez a observação régia “Seu texto quando você contou era bem mais legal que agora que você leu”. Refleti com eles os porquês dessa observação. Fui encaminhando a discussão para que percebessem a distância que havia- tradicionalmente- entre a norma culta falada e a escrita e que podiam conhecer ambas e usá-las como desejassem, quando preferissem ou fosse necessário etc. A famosa adequação da linguagem à situação de uso.

NOTA DE CONTEXTUALIZAÇÃO

Cumpre lembrar que esses meninos e meninas não tinham mais de 12 anos. Idade em que se é bastante criança ainda, mas se nega isso ao extremo. Meninos só gostam de meninos, reproduzem comportamentos masculinos clichê, difundidos há décadas, e meninas também reproduzem as feminices todas. Há um confronto enorme de ideias, de sentimentos entre eles, chegando até a algum tipo de violência – física ou velada. A crueldade se espalha como perfume. Prefiro tirar deles o perfume. Sempre. Portanto,  é preciso ensinar-lhes a lidar com sentimentos como ódio, raiva, agressão – naturais – mas transformando-os. E arte, criatividade é o “canal”, porque tem como matéria-prima os afetos, as sensações.

Foram feitas várias edições. E foi porque eu corrigi, com caneta vermelha? NÃO. Os leitores, o público leitor ao qual se destinavam aqueles textos é que deveria opinar. Passaram a fazer as críticas por escrito, em bilhetinhos, que eram presos por clips e entregues ao escritor. “Acho que tem muitas palavras repetidas”. “O final ficou sem graça.” “O título já conta tudo.” ” Tem muita troca de letras.” “Gostei, achei bem interessante. ” “Melhore a pontuação, tá faltando vírgula demais aí” etc.

Por fim, pedi que reescrevessem os textos e os ilustrassem com desenhos, colagens, o que fosse pertinente às aventuras vividas.

Ah, virou livro, né. Lindos livros até com grãos de feijão e de arroz, simulando uma narrativa ligada a um prato de sopa puxado pela toalha da mesa e derrubado na cabeça da menina; outro narrou o dia em que se perdeu na CEASA; outro a neve de onde havia morado e o frio sentido. Tantas narrativas da infância.

Lemos Drummond, então.

Lembrança do mundo antigo

Clara passeava no jardim com as crianças.
O céu era verde sobre o gramado,
a água era dourada sob as pontes,
outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados,
o guarda-civil sorria, passavam bicicletas,
a menina pisou a relva para pegar um pássaro,
o mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era
tranqüilo em redor de Clara.
As crianças olhavam para o céu: não era proibido.
A boca, o nariz, os olhos estavam abertos. Não havia perigo.
Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insetos.
Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas,
esperava cartas que custavam a chegar,
nem sempre podia usar vestido novo. Mas passeava
[no jardim, pela manhã!!!
Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!!

APERFEIÇOANDO LEITURAS

Começamos a ler crônicas. Usando a Coleção Pra Gostar de Ler, v. 1,2,3,4. No início de cada um dos volumes lidos há um tipo de biografia: fotobiografia, auto biografia, biografia …

Depois das biografias e de terem aprendido muito sobre FERNANDO SABINO, propus a leitura de O menino no espelho, então.

 

Pareciam íntimos do autor. Sabiam que era botafoguense roxo, tocava bateria, o nome de todas as suas obras, que fora nadador campeão, quase profissional, que morava em Ipanema e que era “amigo da Odonir”.  Facilitava, é ou não é?

Foram lendo capítulo a capítulo, de várias maneiras. Havia dias em que fazíamos leitura compartilhada em classe, outras vezes dramatizavam o capítulo lido em casa. Ilustravam os capítulos, reescreviam alguns finais etc. A obra traz histórias quase independentes umas das outras, com o fio condutor do personagem Fernando e seu duplo Odnanref. Chegaram a fazer seus auto-retratos, atribuindo a eles seus nomes ao contrário também. O meu, por exemplo, ficou Rinodo. Só alegria. Poesia inoculada em todos.

Digo alegria porque CRIAR é mágico. O professor que levanta cedo e não se sente autor, criador do seu trabalho está condenado a ser um ” dador de aulas”, triste dele. É preciso ENCANTAR-SE para também ENCANTAR – penso eu.

O HAPPENING

Telefonei do colégio para contar ao “meu amigo” Fernando o trabalho. Mas mal comecei a falar,  ele me disse que estaria dali a 2 semanas em São Paulo – iria assistir a um show da filha Verônica Sabino – e queria conhecer “minhas meninas e meus meninos”. Não precisava me preocupar com nada, com passagem hospedagem porque ele estaria indo de qualquer maneira para o show.  Adorei. Contei às crianças. Preparamos um happening para abraçá-lo – ora, ora.

Fizeram muitos cartazes – sob a forma de placas – que iriam carregar nas mãos com tudo aquilo que sabiam dele, desde ser botafoguense, ser mineiro, nadador, até baterista. Pintamos faixas com os nomes dos personagens e mensagens deles para o autor. Uns meninos se caracterizaram como os personagens do livro. Havia uma bateria num palquinho e a banda dos alunos do colegial a postos.

Pais e funcionários do Colégio Galileu Galilei presentes .

A CHEGADA

O motorista o trouxe, e eu fui buscá-lo na entrada que tinha uma escadaria da portaria até o pátio. Ele me beijou e logo foi dizendo “Olha, eu sei que essa criançada é muito tímida. Pega um mais desinibido, e ele me faz uma pergunta. Dali eu emendo e vou falando solto. Não gosto desse negócio de palestra não. E eles são pequenos, né. Pode ser?”

Nada disse, aliás, acho que falei que seria assim.

Quando entrou no pátio, a banda tocou o hino do Botafogo. As crianças, mais de 100, o aplaudiram, levantaram os cartazes. Juro, pensei que ele fosse ter um problema de saúde ali, tamanha a sua emoção. Ia andando no palco, lendo os cartazes, gesticulando, ouvindo o hino, aplaudindo os meninos. Um ESPETÁCULO INENARRÁVEL aqui, podem crer. Tanto que me lembro tão bem dele até hoje.

Contou muitas situações vividas por ele, a mudança do nome para Fernando Sabino, sugerida por Mário de Andrade, sua relação com a natação, (narrada em O Encontro Marcado) com sua infância e que as histórias do livro eram todas verdadeiras, mostrando, inclusive,  o canivetinho vermelho – que dá nome a um dos capítulos da obra. Autografou todos os livros das crianças e um para minha filha também.

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Depois me pediu para levar TODOS OS CARTAZES para o Rio. Queria tê-los com ele para nunca mais esquecer aquele dia em São Paulo. Adoramos.

Terminou tocando bateria, um solo de jazz, que disse adorar. Mas já sabíamos.

AVALIAÇÃO E RESGATE

A auto avaliação dos alunos foi excelente. Muitos passaram a GOSTAR DE LER ali, dessacralizando um autor, tornando-o de carne e osso. Assim eles próprios dali pra frente poderiam ser escritores também. Publicados ou não.

Também leram quase a obra completa de F. Sabino, nos anos seguintes.

Na verdade, alguns estão por aí hoje escrevendo, e muito bem. Vez ou outra encontro com algum na “nuvem”.

Apresentei esse trabalho em alguns Congressos de Educação com o título de “Um encontro com Fernando”. Na oportunidade havia vídeo, fotos e muitos dos trabalhos realizados pelos alunos – que ficaram com o Colégio, todavia.

Trabalhos de meus alunos são sagrados, não me desfaço deles. Até porque há quem possa se inspirar neles para seguir seus próprios ramais e caminhos, não é mesmo?

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DURAÇÃO: cerca de 60 dias
MATERIAL: livros, criatividade, energia, boa-vontade
ANO: 1992
Colégio Galileu Galilei, SP

 

Observações: 1- O filme mostrado no trailer O menino no espelho é de 2014 . Uma sugestão é depois de lida a obra, assistirem ao filme e compararem a linguagem de Fernando Sabino à do filme, por exemplo.

2 – Fernando Sabino morreu em 2004. Encontrei ex-alunos, na época, que lamentavam sua morte como a de alguém de sua família. E era.

No fim tudo dá certo, e se não deu certo é porque ainda não chegou ao fim”, Fernando Sabino, em “No fim dá certo”, crônicas, Record, 1998

Texto: Odonir Oliveira
Foto de arquivo pessoal
1º Vídeo: Canal Cinesystem Cinemas
2º Vídeo: Canal Baiana Salvador
3º Vídeo: Canal Odonir Oliveira
Leia também outros trabalhos realizados com alunos aqui:
Categoria à direita: “Trabalhos realizados com alunos”
por-favor/

 

 

A lírica camoniana na visão feminina,1990

DIA DA POESIA? POESIA NÃO TEM DIA. POESIA É TODO DIA

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CAMÕES, O AMADOR

Como mocinhas de 15 anos poderiam entender sonetos de Luís Vaz de Camões, depois de 500 anos? E ainda virem a gostar de ler poesias,  serem capazes de transformar aquela sintaxe clássica dos sonetos camonianos em entendimento, degustação, apreciação e prazer? Como eu, sua professora, poderia fazer germinar essas sementes?

FAZENDO NASCER O DESEJO

Curso de magistério, CEFAM da Escola Estadual Experimental Dr. Edmundo de Carvalho, Vila Romana, São Paulo, duas turmas de 35 alunas iniciam seus estudos de literatura. Era preciso ensinar a elas o gosto por ler, encantá-las, pois só assim fariam o mesmo com seus futuros alunos. Idade de namoros, flertes, iniciações amorosas. Então… vamos de Vinícius de Moraes. E vamos falar de amores !

RODA DE CONVERSA

Discussão sobre a letra da canção, sua poesia, os versos, o eu-lírico masculino ou feminino, a concepção de amor do poeta, semelhante ou diferente das delas ? Tantas perguntas fornecendo matéria-prima para entender não só os sonetos de V. de Moraes, mas depois os de Camões.

Uma das turmas era mais irrequieta, mais dinâmica, mas menos reflexiva e aplicada. Entretanto, adoravam desafios, desafiou bastou. A outra, bem mais dedicada e amadurecida.

Só possuíamos os meus 2 exemplares com os sonetos camonianos. Fizemos muitas cópias, e sentadas em grupos de 4, começaram a ler os sonetos. Pedi que escolhessem os seus preferidos, fossem trocando  sonetos e ideias.  Achavam difícil a linguagem, a sintaxe contorcida, diferente da norma culta a que estavam acostumadas, até mesmo na escrita de outros poetas. Fomos indo.

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Propus-lhes um desafio: que pesquisassem sobre a vida de Camões e de Vinícius de Moraes, procurassem pontos comuns em ambos, mesmo com 5 séculos de diferença. Quem eram aqueles homens, onde viveram, o que escreveram, como viveram e morreram. Tratava-se de ensinar a pesquisar, a fazer uma pesquisa orientada, portanto.

A retomada das pesquisas foi muito interessante e debatida em roda de conversa. Uma delas disse que Vinícius havia recebido o espírito do Camões, parecia ter reencarnado no poetinha. Rimos e propus que desenhassem essa tal metamorfose de um em outro. Começavam a entender as características do lirismo. Os desenhos ficaram geniais e os afixamos no mural.

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Nos últimos anos do século XX, a imagem tinha tomado a vez e a voz da comunicação, poemas concretos, vídeo clipes …  atraíam as jovens, gostavam de ver e de criar também.

Na sequência propus a leitura dos poemas escolhidos, mas em casa, num fim de semana.

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Transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;
não tenho, logo, mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
pois consigo tal alma está ligada.

Mas esta linda e pura semideia,
que, como um acidente em seu sujeito,
assim como a alma minha se conforma,

está no pensamento como ideia:
[e] o vivo e puro amor de que sou feito,
como a matéria simples busca a forma.

NAMORANDO CAMÕES

A tarefa era ler o poema escolhido para várias pessoas, para o namorado, o pai, a mãe, o vizinho, o irmão, a avó, o porteiro, o zelador, o rapaz da cantina … O objetivo era sentir a reação dos ouvintes, apurar as leituras e, talvez, já conseguir caminhos de interpretação. O que seu namorado achou, sua mãe compreendeu, seu vizinho quis saber de quem era o poema- perguntas simples para afinar a música, digamos assim.

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A função social da leitura de Camões ampliou-se muito, mas muito mesmo. A diretora da escola foi convocada para falar sobre, as pedagogas, outros professores, enfim, Camões circulou na área. E bastante. O resultado foi uma grande mobilização sobre o tópico e familiarização com o poeta. Sabiam muito sobre ele agora.

ESCREVENDO AS BIOGRAFIAS

Criação de texto coletivo e criativo com a biografia de Camões (cada turma fez a sua produção)

Se as penas com que Amor tão mal me trata
Permitirem que eu tanto viva delas,
Que veja escuro o lume das estrelas,
Em cuja vista o meu se acende e mata;
 
E se o tempo, que tudo desbarata
Secar as frescas rosas sem colhê-las,
Mostrando a linda cor das tranças belas
Mudada de ouro fino em bela prata;
 
Vereis, Senhora, então também mudado
O pensamento e aspereza vossa,
Quando não sirva já sua mudança.
 
Suspirareis então pelo passado,
Em tempo quando executar-se possa
Em vosso arrepender minha vingança.

 

O QUEBRA-CABEÇAS DOS TEMAS CAMONIANOS

As imagens iriam ajudar. Expliquei que haveria plantões individuais comigo para que discutíssemos qual a melhor representação gráfica, o desenho – colorido ou não – do soneto “de cada uma” . Propus que fizessem em papel vegetal e que a interpretação escrita pudesse ser lida por baixo do desenho, que estaria, portanto, sobreposto a ela – camadas de interpretação. Então, seriam duas formas de interpretação: a visual e a escrita.

Datilografaram os poemas sobre os desenhos em papel vegetal e também as curtas interpretações sobre eles. O objetivo era a síntese interpretativa e não um texto longo. Transformaríamos o conjunto dos poemas em um livro. Cada turma elaboraria capa interessante, índice, acrescentaríamos a biografia e os desenhos e interpretações. Mas … como fazer um índice … por ordem alfabética– propôs alguém. Não aceitei, pois que tinha um objetivo chegar aos temas camonianos ( Isso é muito simples de se “estudar” em apostilas e livros didáticos – sabe-se – sob a forma de itens, com exemplos prontos, sem descobertas, sem criatividade, sem interpretação, sem nada. Os alunos decoram para a prova e acabou. Não aprendem a fruição dos poemas, nada).

Desafiei-as a começarem a falar – veja, oralmente – sobre o que conversáramos nos plantões,  sabia que iriam reconhecer intersecções entre os temas dos poemas de umas e de outras. Começamos, e na lousa, foram escrevendo as ocorrências. Chegaram aos temas, talvez não com as palavras da crítica literária, mas chegaram. A decodificação fui fazendo junto: a fugacidade do tempo, amor platônico, amor libertador, morte, perda do amor, a existência humana, beleza, amor não correspondido, conflito, conversa com o amor, amor submisso, sonho e saudade da amada … Virou  índice.

APRESENTAÇÃO DOS LIVROS DE POEMAS

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Minha introdução

Índice por temas e os nomes dos poemas e as páginas

Biografia de Camões

Poemas e interpretações

SARAU LÍTERO-MUSICAL

Declamação dos poemas (acompanhadas por violão ou piano, com caracterização das alunas)

Plateia: pais, colegas e professores

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A capa do trabalho de uma das turmas, a da direita, ” Uma releitura da lírica camoniana”,  deteriorou-se porque era feita também em papel vegetal, o livro vinha enrolado nela, qual um pergaminho, e fechado com um lacre. Anos depois a refiz de forma simplificada, apenas para conservá-lo melhor.

DURAÇÃO DO TRABALHO: cerca de 4 semanas

2º ano de magistério- Nível Médio

 

Minha introdução

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BIOGRAFIA DE CAMÕES

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ALGUNS POEMAS E INTERPRETAÇÕES

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OBS:   Muito se falou ali sobre amor, namoros, concepções amorosas, dor, perdas etc. Esse é um dos projetos e sequência didática de que mais me orgulho. Primeiro, porque realizado em uma escola pública, estadual, com menos recursos materiais do que outras do ensino privado. Entretanto, com professores dedicados a um trabalho coletivo e respeitando a individualidade das alunas. Segundo, porque saber ler e interpretar textos – não só os escritos, mas discursos vários – é fundamental para qualquer cidadão. E obter cultura enriquece, depois disso não há retrocessos.

Durante uma década pude apresentar esse trabalho em congressos e cursos, concretizando a ideia de que jovens podem gostar de ler, saborear poemas etc. Muitos dos problemas da educação não são de aprendizagem, mas de “ensinagem“- penso eu. Guardei por 28 anos esse material comigo, sobrevivendo a diversas mudanças de residências e de estados.  Algumas imagens estão muito clarinhas, desgastadas por manipulações e pela ação do tempo. Mas trabalhos de meus alunos são sagrados, não me desfaço deles. Até porque há quem possa se inspirar neles para seguir seus próprios ramais e caminhos, não é mesmo?

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Leia também outros trabalhos realizados com alunos aqui:
Categoria à direita: “Trabalhos realizados com alunos”
Um encontro marcado com Fernando

 

Camões, o amador https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2017/08/03/camoes-o-amador/

Encontra-me em Vila Rica

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2016/03/13/encontra-me-em-vila-rica-por-favor/

De crianças e nuvens

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2017/07/11/de-criancas-e-nuvens/

Texto: Odonir Oliveira
Fotos de arquivo pessoal
Vídeos:
1. Canal Trilha Sonora de Novelas Vol. 2
2. Canal Pekutuf
3. Canal Antonie Briano
4. Canal Jo Martins

 

Semana da criança: uma menina especial

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GESTAÇÃO

Meses no de dentro
meses no tato interno
meses no cuidado seu e dela
além de todos
além de tudo.
Anúncio notícia aviso
chegada próxima
vinda ansiada
vinda celebrada
vinda proclamada
uma estrela pousaria em seu colo
uma estrela se aninharia em seu aconchego.

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VIDA

Chega quieta
chega  e fica
mama e fica
dorme e fica
acorda e fica.
Correm as águas dos rios
mudam-se as luas
a estrela quieta
a estrela em repouso
a estrela distante.
A análise, especial
A síntese, especial
O luto paterno
O luto materno
Doce pele, doces cabelos, doces amores
A luta materna
A luta paterna
O olhar distante, inconsútil, sem nuances
O gesto inerte, impensável, incompreensível
O vago, o trôpego, o ímpar
A caminhada estendida aos pés de todos.

 

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GERMINAÇÃO

afeto e companhia
toques sorrisos confeitos confetes
semeadura nutrição ternura
atenção percepção semente
ninho aconchego carinho
amor amor amor
estradas de cores
estradas de movimentos
estradas de melodias
estradas em harmonia
olhares
sentires
ficares
Arte
Encanto com a arte
Encanto com o belo
Encanto enquanto arte
Alicerces apoios aplausos
Arte
Germinação
Flor em botão
Especial

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DANÇA

sedução atenção
encantamento
concentração
improvisação criação intenção
dança ritmo rumo
corpo alma corpo intenção ação sedução
sedução ação intenção corpo alma corpo
luz cor movimento
encantamento
luz movimento luz movimento
concentração
aplausos
salvação
análise, uma estrela
síntese, uma menina especial.

 

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Nota pertinente: Durante os primeiros 4 anos de minha docência em S. Paulo, lecionei para crianças especiais. Eu era um pouco mais velha que eles, uns 10 anos. Aprendi, com eles, a arte de ensinar. Todos com diferentes dificuldades – naquele momento ainda não se falava em TDAH,  nem em muito do que se sabe hoje. Eram considerados pelos psiquiatras e psicólogos como crianças DCM – com disfunção cerebral mínima. Fato é que aprendiam por canais de afetividade e de conhecimento que muitas vezes ainda não entendíamos à luz das matrizes teóricas. Aprendiam, relacionavam-se entre seus pares e amavam ARTE. ARTE salva. ARTE prevê, antecipa questões individuais e sociais. A ARTE não rotula, não aprisiona, não etiqueta. Assim, foi com eles que eu, ainda bem jovem, aprendi que se ensina e se aprende ao mesmo tempo. Foi graças aos meus meninos e meninas dos anos 70 que pude exercer meu ofício respeitando individualidades, as diferenças nas formas de se aprender e, principalmente, que todo o conhecimento passa pelo canal da afetividade.

 

Poemas: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

1º Vídeo: Canal motet ( sanem ucar )

2º Vídeo: Canal  JB Jazz Blues House The Club

3º Vídeo:  Canal GrupoCorpoOficial