“Procura da poesia”

“Minas não é palavra montanhosa, é palavra abissal” ( Drummond)

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Conversa com meu pai poético mineiro, meu velho Drummond

Itabirano de aço, o senhor sabe que quem lhe escreve é alguém de sangue do Doce, do morto-vivo rio das nossas Minas.

Dito isso, quero lhe fazer algumas reclamações, alguns agradecimentos e alguns pedidos também.

De sua lira mineiro-carioca, trouxe algumas prendas: essa cabeça erguida- não baixa- esse sangue nos olhos, não o aço nas veias; trouxe um ar praiano difuso porque prefiro o mato, o rio, as águas doces de origem e a gente simples.

Não fiz farmácia, como o senhor, e ainda não conheço Itabira do Mato Dentro ou seria Conceição do Mato Dentro. Bebo versos e prosa drummoniana faz mais de 50 anos e estou cada dia mais embriagada dela.

Com o chegar dos anos, aprendi com prosas e versos que cabotinismo não vale a pena, literal nem metafórica. Minha pena, hoje tecla, é obscenamente nua e crua, sem maquiagens.

Reclamo, pois, de sua dureza durante alguma poesia que me fez enxergar, sem óculos de lentes de cores suaves, a vida, o país, o amor. Isso me tornou mais ácida e apimentada do que alguns gostariam de me saborear. Sou pouco dada a docilidades de ocasião para obter benefícios materiais ou afetivos.

Agradeço seu ponto de vista, já na idade última de sua existência, a iluminar com faróis altos as picadas das estradas, a necessidade de se saber fazer escolhas, de se valorizar verdadeiramente o que tem valor e a forma de amar. O ” Amor começa tarde”, não é pai-lírico ? Compreendo a dimensão de seu verso.

Então, lhe faço alguns pedidos, não sei se a seu alcance atendê-los. Limpa os rios de Minas, o nosso Doce e os amigos seus que correm para o mar. Limpa os corações de aço das más ações em nome de seu prazer único, de seu benefício único, de seu lucro único. Traz fé e esperança e para isso traz força de luta.

Sou carioca, filha e neta de mineiros. Vivi nos mares do Rio, de Salvador, de Santos … entretanto, encontro no meu jardim mineiro razão para cuidar das árvores, das flores e para poder, de vez em quando, ir encontrar o rio. Doce.

Abraço apertado, mas não saudoso, que lhe tenho todos os versos, meu pai. Enquanto isso ouço seus conselhos.

Odonir

PROCURA DA POESIA

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças versos com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isto ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intacta.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

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AMOR E SEU TEMPO

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, o amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.

Texto: Odonir Oliveira

Poemas de Drummond: “Poesia completa”. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002.

1º Vídeo: Canal Rhugles Daniel

2º Vídeo: Canal café na mesa

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Pra sonhar … ainda

OUVIR HISTÓRIAS

Gosto de ouvir histórias. Aprendo sentimentos, ouço borbulhas diferentes das minhas. Acato opiniões, sem querer impor ou seduzir os outros com as minhas.

A par disso, aprendi por aí o que é auto-estima. Vejo muitas pessoas que se arrastam literalmente aos pés de outras, implorando um carinho, uma atenção, umas poucas palavras… tamanha a sua baixa auto-estima. Percebo que quanto maior a superioridade apresentada no varejo, maior é a inferioridade revelada em si mesmo no atacado.

Assim, constato isso entre elementos de uma família, em componentes de um grupo qualquer (igreja, clube, partido político, associação de classe), entre uma mulher e um homem … muitas são as ações às quais a baixa auto-estima conduz. Muitas dessas pessoas sequer percebem que estão nesse patamar de mendicância- sabe-se que cada um está em um estágio de evolução comportamental, social, afetiva etc., pois. Mas é flagrante o contentamento de alguns com migalhas jogadas ao chão, qual pedrinhas de joão e maria a serem seguidas.

Todos têm um valor único, intransferível, cabe conhecer qual é … e seguir. A meu ver, não se trata de ser humilde, altruísta ou generoso. Até porque muitas vezes esses atributos são pequenas máscaras, disfarces nos seres humanos.Todos temos raiva, temos momentos de ira até, somos egoístas e lutamos, de verdade, para sermos felizes. Não importa quanto tempo isso vai durar ou se vai se modificar depois.

Confesso que muitas vezes sinto-me envergonhada com certas posturas nos seres humanos. Nesses momentos não consigo ter a celebrada compaixão budista. Tenho vontade de sacudir pelos ombros joões, sebastiões e beneditas e fazê-los acordar. Mas cada um tem seu tempo para amadurecer e seguir. Até eu mesma também.

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PRA SONHAR

Há um sinal
bate o sino
celebra um ombro
celebra dua mãos roçantes
celebra um olhar sem olhos
celebra um beijo sem lábios
 
Alcança um nariz largo
alcança um peito nu
alcança uma melodia
alcança o verbo.
 
Sem máscaras seguir
Sem migalhas seguir
Sem flashes seguir

 

AFETOS

sentires
estares
conheceres
tocares
beberes
sonhares
dançares
voares
sobrevoares
pousares

 

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Texto e versos: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos: Canal: Jenecine

Viagens de trem

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UM  SÁBADO E UM RIO
“Clareia a manhã, é o dia marcado na margem do rio. Um trem ruma ao largo do rio. Um céu se abre em plumas e faíscas ao curso do rio. Umas ilhas de areia no curso, uma ponte, uma estação, outra estação. O sol se abre maior, a tepidez das águas de longe escorre pelos vidros do vagão. Imagens conhecidas desconhecidas congeladas nas telas das retinas eclipsadas por marchas de trilhos. O rio gêmeo ao trem segue em pedras, seixos, plumas e, no céu, nuvens quentes perseguem os vagões, qual anjos de guarda a encaminhar fadas e tapetes voadores em naus de velas e ventos eclipsados de dor. Que cheguem rios, lagos, lagoas perpassando ramais secos e caminhos férteis por águas mínimas de flores campestres e árvores nativas. Não há tempos tardios, sempre é cedo que o dia começa e estará ao meio. Nenhum traço de chuva, tempestade, raio, trovão. O rio corre. O trem corre. A manhã corre. O dia ao meio chegando. A hora seguinte no rumo, no sumo, no prumo, na água corrente, na vida corrente, no cavalo encilhado, galopando serras de viúvas, de moças solteiras, de virgens em transe. O rio costeiro, a tralha na garupa do cavalo baio acompanhando o tropeiro de olhar incomum serranamente contemplativo. Rio que vive, que segue, que escorre, rio que vai, rio que encontra o mar ainda que tarde.”

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O MAIOR TREM DO MUNDO

O maior trem do mundo
Leva minha terra
Para a Alemanha
Leva minha terra
Para o Canadá
Leva minha terra
Para o Japão

O maior trem do mundo
Puxado por cinco locomotivas a óleo diesel
Engatadas geminadas desembestadas
Leva meu tempo, minha infância, minha vida
Triturada em 163 vagões de minério e destruição
O maior trem do mundo
Transporta a coisa mínima do mundo
Meu coração itabirano

Lá vai o trem maior do mundo
Vai serpenteando, vai sumindo
E um dia, eu sei não voltará
Pois nem terra nem coração existem mais.

Carlos Drummond de Andrade

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COMPANHEIROS DE VIAGEM

Nos dias de lúgubre cenário, há sempre quem nos faça companhia.
Há rostos, mãos, vozes, risos e ouvidos a nos velar as falas.
No banco, ao lado, na entrada, na saída, no percurso,
há sempre alguém sentado anonimamente.
Como querubins e serafins, colorem de humanidade nosso trajeto
São asas farfalhantes e desconhecidas que nos impulsionam ao desembarque.
Trocam-se confidências, revelam-se segredos, pedem-se conselhos
Depois, cada um desce do trem na estação pretendida
E a viagem continua.
Há sempre um companheiro na nossa viagem.

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TRILHOS

Andar nos trilhos
Trilhar caminhos
Dormentes acordando sentidos
encruzilhadas eternas
apitos que cortam uma noite que não termina
vozes segredadas entre dentes
vozes felizes por conquistas perseguidas ferrenhamente
idas vindas voltas encontros desencontros separações
bancos nas estações, repletos de ouvidos secretos e bocas atormentadas
Trens fazem anúncios sempre.
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VARANDAS
passa boi passa boiada
um monte
uma cerca
uma invernada.
passa boi passa boiada
um açude, um aceno
um olhar até onde pude.
apito aviso
apito grito
apito choro
apito lembranças
apito conversas
apito promessas
apito chegadas
apito despedidas.
um túnel esgarçando em mim
uma luz no fim começo
no fim travessia
no fim revelação.

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Texto e versos: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

1º Vídeo: Canal cubebossanova

2º Vídeo: Canal Isabel Pedro

3º Vídeo: Canal Peter Gomes

 

Sorriso de criança

O sorriso de uma criança ilumina o mundo inteiro.

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UMA JOANINHA-FADINHA CHAMADA PIETRA

Naquele principado havia uma princesa que recebera um aviso, logo ao se casar com o príncipe

“O casal receberá de presente uma joaninha –fadinha “.

Como seria aquilo- pensavam- e imaginavam quão belo seria aquele serzinho que esperavam.

A princesa-mãe conversava com os pássaros, com as árvores, as flores para que lhe desvendassem aquele mistério. Coisa de princesa-mãe curiosa!

Naquele dia recebeu o primeiro sinal. A joaninha-fadinha seria parecida com essa menininha. Só que colorida.

O tempo foi passando, passando e chegou o dia da entrega do presente.

A princesa-mãe e o príncipe-pai agora eram só sorrisos. Foi quando abriram certo pacote contendo  uma roupinha- que logo vestiram na menina- e também  um bilhete.

AOS PAIS DA JOANINHA-FADINHA:

“ Notícia enviada do céu:
anjos em suas trombetas anunciam:
“Acaba de descer, num tapete voador,
colorido por arcanjos e querubins,
perfumada por bálsamos de lavandas
saborizada por frutas doces,
uma menininha.
Dar-se-á a ela o nome de Pietra
que é pedra, começo,origem, início
E sobre seu nome, qual disse Jesus a Pedro,
“És pedra, e sobre seu nome se erguerá a minha Igreja”
Pois Pietra erguerá a vida, a alegria e o encontro no mundo.
Chegue , Pietra, que há muito forró à tua espera, menina.”

A partir dali foram surgindo os poderes mágicos da fadinha Pietra.

Ela usava sua fascinante roupagem de joaninha para realizar seus atos mágicos. Ia com seu sorrisinho de vara de condão encantando a todos por onde passava.

Às vezes punha-se a pensar, a pensar … sobre as coisas mais divertidas do mundo

Gostava de imaginar a cara dos pais, tios e avós ao verem seu sorrisinho novo. Para isso usava seus acessórios mais intrigantes:

a peruca cheia de poderes

os óculos de enxergar sentimentos

o par de meias de provocar gargalhadas, igualzinho ao da princesa-mãe

Depois de tantos toques de magia, e tanto cansaço, caía no sono a joaninha-fadinha. E rezava, em seus sonhos, por todos os que conhecia e pelos que ainda iria um dia conhecer. Afinal ela era Pietra.

A fadinha foi crescendo e, algumas  vezes, nesses sonhos  teve que enfrentar grandes perigos.

Sendo logo salva pela princesa-mãe.

Ou então aparecia seu  tio- príncipe  que, usando sua super-força Crtl C, defendia a joaninha-fadinha e sua prima, uma linda princesinha também.

E assim, foi vivendo muitas outras aventuras junto com seus amiguinhos do reino encantado.

E era observadora a fadinha !

Parece que lia pensamentos …  sentimentos nas pessoas.

Vestia seu Pretinho Básico e lá ia ela fazer alegrias novas por aí

Algumas vezes tocava, com seu sorriso de condão, alguém que estivera triste pouco antes e logo-logo conseguia provocar nele uma boa gargalhada.

E tamanho era seu poder de encantamento de fadinha, que com pequenos grãos de areia produzia magias inimagináveis!

Seu sorriso mágico fazia estrelinhas resplandescerem em olhos tristes, zangados ou desesperançosos até.

Até que um dia, a princesa-mãe percebeu esse verdadeiro e mágico poder de sua joaninha. Correu a contar para o príncipe-pai, cheia de felicidade.

E eles então entenderam que o bilhete enviado na caixinha, no dia da chegada de Pietra, dizia a mais pura verdade.

Um ano se passara e agora era dia de se comemorar tantas mágicas, tantos encantamentos trazidos pela joaninha-fadinha Pietra.

Tudo foi enfeitado.

E um belo bolo confeitado com açúcares, vindos diretamente do céu, encantou aquela linda festa de fadinhas, príncipes e princesas.

E todos cantaram felizes então

aquela linda canção !

O sorriso de uma criança ilumina o mundo inteiro.

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Texto: Odonir Oliveira

Vídeo: Canal Odonir Oliveira

Dedicado à linda menina Pietra, com todo o meu amor de tia.

A morte drenando todas as energias

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LUNA

Ah, minha linda companheira fiel,
não te abatas assim,
aceita meu amor até o fim.
Come,
toma os remédios,
aceita meu afagos, meus carinhos …
Abra os olhinhos,
ria pra mim como sempre.
Quem há de caminhar comigo pelas manhãs assim como você?
Você e sua fidelidade.
Dá-me forças, minha Luna.
Sem ti minhas energias, poucas, se esvaem.
Bebe a poção do meu amor único.
Acode-me, Luna.
Permanece, Luna.
Resiste comigo.
Alimenta-me, Luna.
Dá-me remédios, Luna.
Fica, Luna !

 

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ROTEIRO DE AMOR

Quando vi minha cadelinha, meio vira-lata meio Border Collie, para ser adotada, ela estava com pelos ralos nas 4 patinhas e quase nenhum, no rabinho. Apenas dois meses de vida e abandonada, com toda a sua turma de irmãozinhos, em uma caixa. Os machos já haviam ido logo. As duas fêmeas, ninguém as quisera, porque fêmeas, sabem né, têm cio, sangram, cruzam, procriam, amamentam e por aí vão os desditos de ser … fêmea! A escolha do nome deve-se ao filme La Luna.

Sua maninha foi adotada por meu irmão caçula que a levou para o Rio. Não sem antes as vacinarmos. Aprendi a vacinar animais, faz mais de 30 anos.Vermifugamos ambas, cuidamos de suas dermatites com atenção e as encaminhamos para seus novos lares.

Luna sempre foi dengosa e, porque linda, obtinha tudo que queria.

Eu já tinha outra cadela, a Menina, adulta, que não se sabe bem por quê contraiu sarna negra pouco tempo depois, vindo a falecer.

Luna não entendia a falta da mais velha. Procurava-a sempre.

Desde cedo acostumou-se a ficar em cima de cadeiras para nos alcançar. Tinha a fibra de desejar atingir o nível de estatura humana, penso eu.

Luna sempre foi uma companheira e tanto. Já faz 12 anos. Percebe alegrias, reconhece tristezas, oferece seu corpo para que eu o acarinhe para eu ficar mais alegre e não propriamente ela. Conversa comigo, responde em aus e ais com precisão. Aprendi a entender seus pedidos por latidos, e ela sabe me convencer bem.

Adora frutas todas e cascas de melão, de maçãs (mais do que maçãs). E crianças. Detesta gente de uniforme (carteiros, recolhedores de lixo, policiais etc. etc.)

Vez ou outra voltam seus problemas de pele. Eu os trato. Outras vezes são as verrugas- que agora pela idade insistem em causar coceiras terríveis nela. Aprendeu a receber vacina na boa. Não gosta de pílulas. Tenho que camuflá-las em bolinhas de carne, ou de frutas.

Luna caminha comigo todas as manhãs. Quando podemos vamos à tarde de novo. Escolhe caminhos. Gosta de determinado tipo de matinho. Adora que eu me sente no tronco de árvore tombado  na rua, em frente a uns montes verdinhos. Sabe que é pra ficar quietinha ali comigo, cheirando mato e observando os passarinhos e as maritacas. Aprendeu por aqui a fazer isso.

Minha companheira é fiel, muito fiel. Não sei se conseguiria um humano tão fiel a mim como Luna. Creio que não.

Não é cachorra de ficar dentro de casa. Tem seu canto, ficamos juntas- eu lendo na rede, ela refestelada embaixo dela a meus pés.

Independente, pode ficar por alguns dias sem ninguém: dê a ela água, comida e um ossinho para diversão e pra matar saudades, ah, ela aceita.

Volto da rua, volto de viagem, Luna é o que se pode chamar de afeto múltiplo. Gosta de beijo entre as orelhas, de carinho na barriga e que lhe cubra à noite, falando-lhe “Boa noite, Luna“.

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Minha companheira pode não ter nada de tão diferente dos e das de vocês, mas pra mim ela é DEMAIS !

Texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal Tiffanyar1

 

 

 

“Mundo, mundo, vasto mundo …”

 

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RAZÃO & EMOÇÃO

Ele não tem razão
ele não tem emoção
ele não tem respeito ou consideração.
 
A noite de lua
testemunha
a manhã de sol
desmascara
da independência, a dependência evidente
da liberdade, a geminada interferência
da escolha, a canastrice infringente da prisão.
 
Nada é tudo
tudo é nada
sufocou, amorteceu, narcotizou
do elo-laço, ora uma corrente com cadeado
a obsessão, a cegueira, o entorpecimento.

 

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(Inspirado no poeta Gregório de Matos, José Miguel Wisnik compôs “Mortal loucura”, que ilustra a trilha sonora da novela “Velho Chico” na voz de Maria Bethânia. O single produzido por Marcio Arantes (baixo e guitarras) conta com a luxuosa participação dos músicos Siba (rabeca), Guilherme Kastrup (percussão) e Paulinho Dalfin (viola caipira), acaba de ser lançado, em primeira mão, em todas as plataformas digitais.)

Poesia: Odonir Oliveira

1º Vídeo: Canal Julipopoca1001

2º, 3º Vídeos: Canal Biscoito Fino

Professor, ontem e hoje; haverá amanhã?

Rio de Janeiro- aqui fez-se a transformação da aluna em professora

OBSESSÃO 

Sou obsessiva.
Sou obsessiva sim.
Tenho ideia fixa de justiça
Tenho ideia fixa de comprometimento.
Tenho ideia fixa de educação
Tenho ideia fixa de doação e entrega.
 
Não tenho receio de dor.
Não tenho medo de envolvimento.
Não tenho pavor de amor.
 
Minha obsessão por ensinar
seja a miúdos, maduros, graúdos
passa pelo ato de amar.
 
Não restrinjam minhas ações.
Não desprezem minhas veredas.
Não me imponham o silêncio covarde.
Não me limitem os braços e as pernas.
Não me amordacem o verbo.
 
Defendo meus aprendizes
como felina parida.
Não mexam com eles.
Não os ignorem
Não os maltratem.
Não os desprezem.
 
Somos raízes, mas também somos sementes.

 

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 1972- Primeiro ano de ofício- Aclimação- São Paulo

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1978-Santos-SP

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(E no verso)

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1987- Granja Viana- São Paulo- Escola Chácara Crescer

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1992- São Paulo- CEFAM- magistério- Escola Estadual Dr. Edmundo de Carvalho- Lapa

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1996- São Paulo- Morumbi- Colégio Galileu Galileu

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1999- São Paulo- Com alunos da Escola Municipal Rui Bloem- Jardim Santo Elias – com ViLLAS-BÔAS

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1999-Escola Municipal Rui Bloem- Jardim Santo Elias- São Paulo

Dia do Professor, vamos comemorar a data sim, por que não?

Este é um post homenagem.

Quero reverenciar minhas queridas professoras do primário, meus professores do ginásio e do curso normal no Rio de Janeiro e depois os outros todos do cursinho pré-vestibular e da USP, já em São Paulo.

Além de Paulo Freire, Rubem Alves, Tião Rocha, Freinet, José Pacheco e meus colegas, que batalharam em salas de aulas, muito mais do que os 25 ou os 30 anos obrigatórios por lei, antes de se aposentar.

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PROFESSORA, ESSA MULHER

Como um presságio, seu mestre mandou:
“Toda mulher deveria ser professora para poder ajudar na educação dos filhos mais tarde”
Faremos tudo que seu mestre mandar.
Até a página dois, querido mestre.
 
Trabalhadora, trabalhadeira,
segue a mulher no caminho das escolas, dos alunos,
com sua varinha de condão.
Magias retiradas de tapetes mágicos e cartolas de coelhos sábios,
cantarolando melodias de bruxas do bem,
disparando saberes e sabores de seus mestres gregos,
qual um desses seres brotados das páginas
de seus ensinadores livros encantados.
 
Corre por avenidas, estradas, sobe ladeiras, escadas
entrega mensagens de anjos, serafins e querubins aos infantes meninos
que bebem suas artes, palavras e mágicas
como fossem verdades únicas,
quando não passam de pequeninas estrelas
a brilhar, algum dia, nos céus.

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(2002- Bilhete afetivo no verso de uma foto de lua cheia no céu escuro- aluna da Escola Municipal Euclides Custódio da Silveira, Parque São Domingos, São Paulo)

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 2002- Professores da Escola Municipal Euclides da Silveira, Parque São Domingos, São Paulo

 

AGRADEÇO A MEUS COMPANHEIROS DE OFÍCIO TUDO QUE APRENDI

Muito mais do que às páginas de teoria  que li.

Nos anos de 1970, Freinet era meu pai pedagógico, e eu companheira do mimeógrafo registrando os textos coletivos de meus meninos pequenos; compilando os resultados das aulas-passeio, mais tarde chamadas de estudos do meio. Ali, muitos professores mais experientes, mais estudiosos da teoria e mais politizados do que eu foram meus mestres no fazer.

Mais tarde, era eu a mestra dos mais jovens.Tive alunos que se tornaram famosos nas artes, no empreendorismo, no trabalho voluntário e outros tantos famosos nas suas tarefas diárias e socialmente importantes também.

Gosto quando me param em algum lugar e me perguntam, “Você não é a Odonir? Foi minha professora em ...”.  Sinto-me uma pop star.

Meus filhos me dizem que tenho um vício em ensinar e que estou sempre dando aulas a alguém… mas gosto de poder elogiar quem me vendeu bem os frios no mercado, o taxista em sua civilidade etc. etc.

Reclamações dos filhos sempre houve: “É a pessoa que mais corrige redações e provas na vida, nunca vi!”

Sempre gostei de ir a festas de aniversário, primeira comunhão etc. de meus alunos. Achava gostoso, ora. Meus filhos reclamavam.

Ah, quero mesmo é ser leve como uma garça. Não sei se ainda será possível, posto que sou ardida como pimenta, bem sei.

Tentarei, todavia.

Professora Odonir

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PALAVRA DO COLEGA EDUCADOR

” O professor pode ser comparado metaforicamente a Odisseu, o herói grego, ou Ulisses como ficou conhecido pela tradução latina, personagem central da obra A Odisseia, de Homero. Ulisses, ao voltar para casa, após passar 10 anos na Guerra de Troia, leva mais 10 anos para vencer os obstáculos e as intempéries do mar. Só um herói, pela coragem, astúcia e por sua capacidade estratégica poderia vencer esses obstáculos, nesse caso, Ulisses. No mundo grego, o herói clássico desempenha o papel de modelo a ser seguido, aquele que é capaz de superar todos os obstáculos, alcançar seus objetivos, ainda que isso possa custar a própria vida, como, por exemplo, ocorreu com Aquiles, outro herói incomparável. Quantos Ulisses, quantos Aquiles, quantos heróis-educadores existem nessa vasta terra chamada Brasil? “

Em: Os desafios de Ser Professor na Pátria Educadora, de Luiz Claudio Tonchis, em seu blog no GGN, 2015.

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Aqui reproduzo o bilhetinho que recebi de um aluno, no meio da aula de literatura, em  Santos, em 1978, período noturno, no Colégio do Carmo, na Ponta da Praia. Guardo-o como um ramalhete de flores não perecíveis.

“Oh, pássaro sussurrante que cicias
Aos meus tímpanos literatos episódios
Onde se confundem tramas, famas
Aventuras, romances, amores e ódios.
 
No esvoaçante farfalhar das tuas asas
Mistérios mil a mim descortinas
E faz brilhar, com muito mais calor e luz
Dos meus tristes olhos, as meninas”

Luiz Carlos Marques- 3º H

 

Dedicado a todos aqueles que ensinam. E gostam de ensinar.

(Muitos dos meus ex-alunos estão hoje, como meus amigos, no Facebook e gostarão  de relembrar essas épocas todas. Tenho lá alunos desde 1977 até 2003. Beijos, meninos)

Poemas e textos de Odonir Oliveira
Fotos de arquivo pessoal
 
1º Vídeo: Canal  Palavra Cantada Oficial
2º Vídeo: Canal vanyvany25
3º Vídeo: Canal Aprendiz
4º Vídeo Canal Marisa Cavalcanti
5º Vídeo: Canal Zemarcos Taveira