A estação

SONY DSC

” Na pequena e charmosa cidade que fica no sopé da montanha que acolhe o mosteiro há uma secular estação de trem. Estávamos, eu e o Loureiro, o elegante sapateiro amante dos vinhos e dos livros, sentados em um antigo banco de madeira à espera de sua sobrinha, que a pedido da mãe, uma das irmãs do artesão, passaria alguns dias com o tio, na tentativa de ajudá-la a dissolver a angústia que a abatia. Era muito cedo e o sol ainda não ganhara força para afastar o frio da madrugada. Percebi que ele estava encantado com todo aquele movimento de chegadas e partidas, típico de qualquer estação. Antes que eu lhe indagasse sobre o assunto, surgiu a sua sobrinha. Era uma moça na casa dos trinta anos. Muito bonita, porém, bastante abatida. Eles trocaram um abraço forte, como fazem os que se amam ao se encontrarem. Fomos apresentados e ela foi muito gentil. A jovem disse que precisava de um café, pois não conseguira dormir bem no vagão. Fomos a uma cafeteria ali mesmo. Quando a simpática garçonete colocou sobre a mesa as canecas fumegantes acompanhadas de pão quente com o delicioso queijo da região, a sobrinha abriu o coração. Lamentou que a vida tinha virado ao avesso.

Ela estava de férias. Trabalhava em uma famosa grife italiana de roupas e acessórios femininos, mundialmente conhecida. O ambiente no trabalho andava péssimo; muita disputa interna, nem sempre digna, por mais espaço e notoriedade, além de muita discórdia entre todos da equipe do seu setor. Fora isto, não sentia mais no namorado a vontade e a alegria sinceras de estar ao seu lado. Como se não bastasse, o pai se encontrava em coma terminal, reflexo da doença que o acometia há anos. Por fim, confessou que embora sempre tivesse amado a vida, viver daquele jeito não mais a interessava. Faltavam-lhe forças para prosseguir.

O sapateiro mordeu o sanduíche, lambeu os beiços, bebericou o café. Como se não tivesse pressa para escolher a melhor palavra, apontou a plataforma com o queixo por detrás da janela e disse: “Uma vez por dia, todos os dias, esta estação recebe e despacha muitas pessoas. Venho aqui há anos e quando vejo duas pessoas se abraçando, muitas vezes chorando, nunca sei se é pela alegria da partida ou da chegada”. A moça interrompeu para lembrar que podia ser de tristeza, uma vez que a partida nem sempre é desejada. Loureiro a fitou com doçura nos olhos e explicou: “Todas as vezes em que há tristeza pelo simples fato de alguém seguir o seu rumo, significa que existe algo de errado dentro da gente. Os espíritos livres encaram a partida com sabedoria e amor, por isto, com alegria”. Deu uma pequena pausa para tornar a beber um gole de café e continuou o raciocínio: “Não falo apenas da partida de pessoas queridas para outras cidades ou esferas, mas de empregos, coisas, amores, ideias e comportamentos. Somos condicionados a ter o controle de nossas vidas; contudo, por erro de cálculo passamos boa parte do tempo na tentativa de dominar as situações externas que nos envolvem, justo aquelas sobre as quais quase não temos qualquer ingerência, esquecendo de cuidar da única parte na qual temos poder: cada um sobre si mesmo. Mudamos a realidade na medida que modificamos as nossas escolhas; apenas no exercício da liberdade encontraremos a plenitude e a paz”.

“As nossas escolhas nos concedem o poder da vida. Aprimorar as escolhas é o verdadeiro processo de libertação do ser. Asas ou algemas se definem na medida em que entendemos as razões e os sentimentos que movimentam cada decisão. Tristeza ou incômodo na partida sinalizam a possibilidade de apego, egoísmo ou tentativa frustrada de dominação”.

“Adiar a partida é prolongar a dor. Deixe ir, tudo e todos. Isto é essencial para quem quer aprender a voar”.

Continue lendo aqui: http://yoskhaz.com/pt/2017/02/03/a-estacao/

Vídeo: Canal Classical Music Only

ίππους , cavalo grego

ίππους 

Nessas últimas jornadas com gregos e troianos,
tenho a companhia de um equino pensador
Ele olha, sente, analisa, reflete,
ausente do repertório pregresso-perverso,
contempla.
 
Meu híppus mágico
me viaja e eu nele
por longes
por lagos, montanhas e oceanos.
 
Por nunca está apartado, negligente, disperso.
Cavalga-me leve
cavalga-me brisa
cavalga-me vento.

 

sam_3068CAVALO DE TROIA

Helena uma, Helena outra
Páris um, Páris outro
rapto de vidas, de sonhos, de amores
Presente de grego embalado por canções
supostamente inocentes
supostamente aleatórias
supostamente blasé.
 
Helena sempre desejou Páris
Helena cabotina, Helena heroína, Helena felina
Helena capitulou
Helena entregou-se docilmente a Páris.
Helena renegou Menelau.
Helena encaminhou a guerra.
Aquiles e Heitor, mortos.
Helena tombou muitos nessa batalha.
Helena deixou mazelas eternas
Helena deitou feridas históricas, mitológicas.
Ulisses, com seu cavalo,
patrocinou a vitória.

sam_3066sam_3067sam_3065

ANDO NUA

Ando nua por essas ruas
asfaltadas por letras e números
filtrando dos raios solares
um pouco apenas.
 
Fico ali estática
como um símbolo
um risco
uma interrogação.
 
Todos ali.
E eu, nua.

 

SAM_5313

ZEUS, O CAVALO MINEIRO

A Tiradentes me acolhe em seus braços
perambulo trôpega por seus becos
com meus motes e temas.
Nada me consola, nada me refaz,
hoje nem montanhas, nem nuvens, nem céu profano …
Sou corpo, sou voz, sou Eros muitos,
Zeus me bloqueia o ir,
Zeus me ensina seu nome.
Quem teria me mandado esse Zeus, cavalo mineiro?
Quero seguir
 
Zeus me fita
Zeus me recita odes e ódios
as de uns e os de outros.
Sou greco-mineira  de corpo e versos.
Sou a que tem que seguir ?
 
Zeus, me diz !

 

SAM_5314

Coincidências mitológicas: “A senhora quer passear com o Zeus?” “Como, quem é Zeus?” “É esse cavalo aqui, quer passear com ele? “- De um cocheiro em Tiradentes, MG.

 

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

1º Vídeo: Canal  Big dreamers never sleep

2º Vídeo: Canal Claudio Santana

3º Vídeo: Canal rj2145

Poetas em par

15540674_1555156044501524_3268938464755939185_o

PAR

Eu quero é te botar banca
Botar pilha
Ser teu par
De quadrilha
Teu par de lençol
Eu quero
é ser tua ilha
tua areia
Ser sereia
Teu mar
Teu anzol

Em troca só peço
todo santo dia
Tua companhia
Pra olhar o por-do-sol

Eu quero é cair no baile
ser tua trilha
Teu rouxinol
Tua poesia
Teu girassol
Eu quero tua alegria, tua teia
Ser tua ceia, teu ar
Teu farol

Em troca só peço
todo santo dia
Tua companhia
Pra olhar o por-do-sol

E que da gente a vida seja um dia de calor
leve, sem nostalgia, só bom humor
Beijo no pescoço, dinheiro no bolso e amor

Em troca só peço
todo santo dia
Tua companhia
Pra olhar o por-do-sol

Todo dia teu par de lençol
Tua companhia, meu lugar ao sol
Alegria ser teu anzol
Tua armadilha
Teu par de lençol

14258191_1456588847691578_1207476565450094413_o
262316_237969649553510_7625792_n
Vídeo: Canal Bruna Caram
Fotos: Luiz de Campos Júnior

Das mortes

ONTEM MORRI MAIS UMA VEZ

Cada vez que morre uma parte de mim
em alguém
vai com ele o sangue que corria em minhas veias
o compêndio de histórias nossas
os diálogos que tivemos
as expressões de seu rosto
o tom de sua voz particular
seus gostos e desejos.
 
Cada vez que morre uma parte de mim
em alguém,
leva embora consigo o comigo com ele
 aquela sua vontade realizada
aquela sua vontade não realizada
o que guardamos de nós
os mistérios revelados
os mistérios pouco revelados
os mistérios nunca revelados.
 
Cada vez que morre uma parte de mim
em alguém,
olhando-o assim morto, exangue,
não acredito que esteja morto,
consigo ainda vê-lo respirar,
 o tronco inspira e expira
com ele uma indefinição,
levemente me entrego a pensar
levemente me entrego a não pensar
 
Sinto.
 
De que valeriam todas as suas ações anteriores
se morreria assim, como agora.
De que valeriam todas aquelas histórias, ideias, escritos, orações
se morreria assim, como agora.
De que valeriam todas as suas interpretações do mundo interno e externo
se morreria assim, como agora.
 
Sinto.
 
Cada vez que morre uma parte de mim
em alguém,
Fico com isso sem entendimento.
Meu ilimitado poder de reflexão
limita-se,
não é capaz de compreender
por  que alguém morre.
 
Por que alguém morre ?!

 

Poema: Odonir Oliveira

1º Vídeo: Canal gelitube

2º Vídeo: Canal Odonir Oliveira

E, por falar em amor…

38471_g_1285704941392

O AMOR POR DÉCADAS E DÉCADAS

Sou de uma geração- de mulheres- que cultivou o amor cortês porque aprendeu que esse era o mais importante.

Tivemos muitos exemplos vivenciados por casais casados ou não, por relações conflituosas, por envolvimentos fora dos padrões estabelecidos pelas instituições sociais, por encontros enlouquecidos de paixão, gerando energia negativa ou destrutiva, desembocando em medo… sim medo do mal maior, do perder-se sem poder retornar à tona para respirar depois.

O sentimento amoroso entre amigos, parentes … vai ensinando aos poucos o amar. Entretanto é na relação entre casais que ocorre a completude. Tanto se estudou, tanto se teorizou, analisou, poetizou sobre o amor, que parece já ser o suficiente.

Ocorre que nos modificamos com o tempo, as experiências vividas e o sentido de amor também se modifica. É impossível querer sentir o que se sentia aos 15, 20, 30 anos, quando já se tem o dobro dessa idade. Assim, entendo que pares com idades muito diferentes acabam tendo repertório muito diferente. Uns dirão que é bom, pois que renova, atualiza o parceiro. Mas e a bagagem de experiências vividas? Como não sentir a distância entre gerações? A não ser que isso não tenha nenhuma importância para o par ou que contornem isso com grande sabedoria.

Outro aspecto a se considerar é a inegável relação que há no desejo masculino- quase sempre desenhado com velocidade pela aparência física de um corpo ou de gestos sensuais. Há uma diferença de ritmo entre homens e mulheres, em razão sim de inúmeros processos físicos, culturais, sociais e até religiosos, contudo é impossível negar isso. Somos produto de nossas influências e, a não ser que finjamos ser como o outro quer que sejamos, isso é determinante nas relações.

Há pessoas que consideram apenas a energia física como componente primordial. Ter o outro ser dentro de si é o que determina a fruição do amor. E muitos se encontram porque ambos comungam dessa mesma convicção. Como em um acordo tácito, o amor físico é suficiente.

38469_g_1285703464977

Somos seres humanos, gostamos de exercer nossas capacidades sensíveis, não só as que envolvem visão, audição, paladar, olfato e tato. Há tantas outras que provocam nossa sensibilidade, nossa emoção estética – aprendidas, despertadas ou não.

Observo relações entre pares que considero de submissão, de falta de auto-estima de um dos elementos, de humilhações constantes, de permissividade aviltante e até de violência emocional, ainda que não física. No entanto, os pares se comprazem com aquilo, brigam, fazem as pazes, brigam novamente, humilham-se mutuamente …. num roteiro cruel de filme de quinta. Mas seguem e creem que se amam. Devem se amar.

Outras vezes acompanho casamentos brancos que duram 40, 50 anos, nos quais pelo menos um dos parceiros abriu mão de viver sua vida conjugal- quando não ambos. Acreditam, muitos deles, que a amizade nascida com a convivência, a cumplicidade advinda do conhecimento mútuo estabeleceu um relicário de intimidades, que seria impossível dissociar uma vida da do outro. Devem se amar.

Como nunca antes, constato a subjetividade no conceito de amor, de prazer, que há em cada um de nós. Tudo muito fugaz, veloz, descartável. Muito do que aprendi, e vivenciei , hoje é considerado pieguismo, baboseira, romantismo cor-de-rosa, projeção … Na verdade vejo que os pares têm manifestado, cada dia mais, um grande medo de se perder pelo amor- para o bem ou para o mal. Ninguém quer sentir insegurança, insatisfação, ciúme, ansiedade… ninguém quer sentir dor – de nenhum tipo – há uma analgesia disseminada em todos, e a possibilidade de descarte iminente anula o que poderia existir e de outras maneiras.

Com os mais jovens essa sensação de insatisfação, de incompletude é fatal. Desilusões vão calcificando dos ossos à pele, sem contudo terem concretizado um sentimento de AMOR. Fica-se com a frustração nas mãos como fosse um saco de papel bem grande, mas cheio de nada. As consequências disso, somadas, são terríveis. Há um descrédito de tudo, de todos e de todas.

Aquele amor que se divulga em murais do Facebook, onde se repetem à exaustão conceitos de amor feliz, correspondido, se faz sofrer não vale … isso dito e repetido vai criando uma sensação adesiva de fato consumado que raramente se verá superada.

Amar é chorar sim, ter ciúme sim, imaginar que o par está com outro e sentir a dor disso, é repetir e se perguntar muitas vezes por que não com você, por que não deu certo, por que você não é tão jovem, tão bonito, tão alto, tão magro como o outro? E sofrer, penar mesmo. Amar é chorar vendo aquela cena de filme, que você acha que o roteirista conheceu sua trajetória; é ouvir aquela sequência no Youtube, no Spotify, sentir-se a pior das criaturas, lamentar ter conhecido tal pessoa, ter apostado no sentimento com ela, sofrer e chorar muito. Amar é ficar por horas bebendo com amigos e contando, ou não, do amor complicado; é ficar muito tempo ao telefone ou num sofá descrevendo o parceiro de seu amor para chegados.

No meu entendimento, quando alguém ridiculariza esse processo em outros é porque realmente nunca foi fundo no poço do sentir. Ou foi uma vez e depois jamais chegou sequer perto do balde que poderia levá-lo de novo até lá. Imunidade demais mata. Inocuidade demais congela. Defesa demais aniquila. Proteção demais isola.

O amor tem muitos mistérios. Claro que cada um sabe do seu. Mas é preciso embrenhar-se nele, definitivamente, para que de verdade se possa dizer do amor que se teve.

17799190_10154351283217805_3121867240716070962_n

17800194_432434497104546_4041435254719637639_n

Texto: Odonir Oliveira

Imagens: as 2 primeiras do pintor Pino Daeni

1º Vídeo: Canal ferdinandus1983

2º Vídeo: Canal Flakey Foont

3º Vídeo: Canal Gilberto Gil

4º Vídeo: Canal  Flakey Foont

Clubinho da leitura: “Quem pode pode”

” Quem pode pode. Palavra de rei não volta atrás”

raposa

O casamento da raposa

As crianças ouviram a história, depois fizeram o reconto reproduzindo bordões, recriando falas e encenando a ação ouvida.

Hoje foi a bela explicação para casamento com chuva e sol, “O casamento da raposa”

Adoram abrir a mala de fantasias e adereços para reinventar seus personagens, às vezes apenas um símbolo, um óculos, um cinto, um colete, uma tiara, um véu… para eles é o céu.

Ao final gostam de desfilar, como nas passarelas mesmo, e de recriar os nomes de suas personagens… e SÃO NOMES SEMPRE DIVERTIDÍSSIMOS.

o-leao-da-receita-federal-nao-passa-de-uma-raposa17834747_432166427131353_8766804943382206162_olion-794962_128017854721_432166597131336_1430057838839185425_o17493044_432166750464654_4353188317487863690_o17835001_432166923797970_4715089675476290422_o17436292_432167000464629_1584192280201701203_o17835039_432167133797949_2134956030241614287_o17834324_432167217131274_2739430855913597715_o17835164_432167510464578_5771165480279007405_o17855528_432167707131225_4925110533172281645_oraposa

O Clubinho da leitura de Barbacena é um projeto de trabalho voluntário que realizo com crianças e adolescentes – antes apenas do meu bairro, agora recebendo os de outros bairros também. Passei a realizá-lo aos sábados para contemplar mais leitores. Os pais também levam livros para casa. Fazemos atividades nas quais pretendo ser MEDIADORA de leitura. Lemos, declamamos versos, representamos histórias lidas em casa ou em alguma atividade do Clubinho, desenhamos e pintamos com aquarela, fazemos personagens de massinha, nos caracterizamos como as personagens das histórias, jogamos bola, peteca, jogo da velha, sempre contextualizando as atividades de leitura do dia.

Fotos das crianças: arquivo pessoal

1º Vídeo: Canal luciano hortencio

2º Vídeo: Canal Abílio Neto

Dona Augustinha, leve como passarinha

“Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas – é de poesia que estão falando.”

“A voz de um passarinho me recita” – Manoel de Barros

17799101_1272814966166007_1271738757746299441_n

PASSARINHAS

Gosto da matutagem falada
de sua sonoridade
de sua expressividade
rústica, singela, sagrada
Dona Augustinha tem pássaro no dizer
adora uma prosa
Cheguei, vem prosear
causos e causos
ri-se, desfia o passado
explica que seu passarinho voou
“mas não manou ainda não”
O que é manar, dona Augustinha?
“é que não tava acostumado a ficar assim
co’o zotro, agora demora pra manar”
Olho
ela olha
Caladas.
Irrompe analisando cada um dos canarinhos,
desfolhando-se da árvore frente a nós,
“aquele é fiutinho ainda, ó só”
Olho
ela olha.
Mais de meia hora sendo passarinhas
ela e eu.

 

17799430_1272003632913807_4358267607487917773_n

Dona Augustinha passarinhando à minha prima Angélica a conversa de um dia antes comigo

DANÇARINA MENINA

Com muito mais de sete décadas de roça
com muito mais de sete décadas de sustos e atropelos
Dona Augustinha cultiva verduras, frutas, risos e bailes.
Domingos sagrados
pelas manhãs e pelas noites.
Dança acompanheirada de amigas
sacratíssimamente
infalivelmente.
Dança.

 

Dona Augustinha

mioke-5

BENDITAS ALMAS

Benditas as conversas de passarinhos
Benditos os que ouvem os passarinhos
Benditos os que permanecem imóveis frente a passarinhos
Benditos aqueles que têm colorido nas mãos,
qual seus companheirinhos,
salpicando-lhes alimento
em horas combinadas do dia.
Benditos os que veem bicos, asas, penas e voos
como mais que bicos, asas, penas e voos.
Benditos os escolhidos pelos passarinhos
para serem seus semelhantes,
quase iguais.

Passarinhos-Angélica

“Por viver muitos anos dentro do mato
Moda ave
O menino pegou um olhar de pássaro –
Contraiu visão fontana.
Por forma que ele enxergava as coisas
Por igual
como os pássaros enxergam.” 

Manoel de Barros

 

Poemas: Odonir Oliveira

Fotos do arquivo pessoal de Maria Angélica Ferreira

1º Vídeo: Canal Alexandre Zioli Fernandes

2º Vídeo: Arquivo pessoal Maria Angélica Ferreira – via Facebook

 

 

Tiradentes, a cidade mineira

17546695_428621027485893_1665548311473458751_o
17635397_428616770819652_5779115298990239986_o

SER MONTANHA

Daqui onde estive sempre
ouço um chamado
o pensamento no alto
o coração no vale.
 
Daqui onde estive sempre
um recorte de pedra e verdes
uma moldura de roxos e verdes
uma redoma em esplendor
um perfume de incenso e mirra
 
Em ouro um pecado
a ser redimido
um perdão sagrado
uma contrição insuspeita
uma conversa entre sinos de igrejas internas
uma oração latejante feito ímã em aço
nesse aço que me devora.
17620201_428612160820113_6124640498867133240_o
17758209_428610454153617_2022075124302712747_o
17637135_428623577485638_297945641641030551_o

CONFIDÊNCIAS A MINEIROS

Nesse século dezoito, nas pedras em que vivo,
correm notícias ao pé do ouvido
são encontros secretos de vontades rebeldes
são encontros secretos de amores proibidos
percorro becos e vielas
salto calçadas em ritmo lépido
contorno esquinas
atravesso pontes
salto muros
 
Ali está ele
lá estão também eles.
Há luz na morada de uns
Há espera nas derramas dos outros
 
Tenho ouro em mim.
17620244_428623147485681_6395514132526000072_o
17546831_428620604152602_2689350758410964609_o
17492808_428620440819285_7291235482307522844_o
17620515_428622814152381_1419714549939505683_o
17546947_428620474152615_2221355928376271048_o
17758581_428619857486010_7891897767376798274_o

REFÚGIO SECULAR

Quando desavisadamente
o céu mineiro quer me ensinar
bate forte em mim
bate forte na memória do real vivido.
 
Então fujo
Então me escondo
Então me deixo dormitar
no colo das montanhas
nas pedras do penar
no alvorecer, no entardecer
do desenho das montanhas.
 
Somos apenas nós
elas e eu
segredando verdades
acolhendo súplicas
curando feridas sempre abertas.
 
Se há alegrias … Tiradentes.
Se há tristezas … Tiradentes.
 
Somos confidentes,
secularmente.
17795820_429161464098516_1412598294675959752_n

Leia também:

Alferes Tiradentes, ”Minas são muitas”, sabia?

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2020/04/21/alferes-tiradentes-minas-sao-muitas-sabia/

Projeto realizado com alunos: Encontra-me em Vila Rica, por favor

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2016/03/13/encontra-me-em-vila-rica-por-favor/

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal – Tiradentes, abril de 2017

1º Vídeo: Canal Fellipe Eduardo

 2º Vídeo : Canal A Música de Milton Nascimento

 3º Vídeo : Canal TMusicaCanal

Oníricas

38474b_bc4f570d419d4a03bb6a520deb6f20ed

tumblr_nbb67x3iya1qeju05o1_1280

VIAJANTES

uma taça cheia
de vinho
tinto
goles lentos
goles gentis
goles parceiros
uma taça de vinho
vazia
uma taça de vinho
cheia
goles uns
goles outros
Dioniso, braços abertos
Διόνυσος,
Baco presente
presente do inconsciente
pensamento ausente
sonho sonho sonho
percurso de lua e estrelas
caminhos estreitos
Dioniso de braços abertos
Διόνυσος,
lua farol
estrelas estrelas estrelas
entrega.

0847f7d6785712e4a452286cf6de2225

ÊXTASE

Tocam a campainha. Quem seria naquele momento tão especial. Não poderia abrir a porta naqueles trajes, com aquela expressão inequívoca no rosto, descendo-lhe dos olhos à boca qual um derramamento incontrolável.

Era ele que lhe entregava sofregamente um toque na nuca, um gesto suave no cotovelo, um ralar de suspiros anteriores. Era ele. E agora ter que abrir a porta assim de repente.

Por que interromper aquele ritual quase fluido de sonhadora presença? Por que quebrar o par mágico da situação inesperada com um toque de campainha? Por que deixar de auscultar-lhe o peito e saber-lhe a respiração? Por que  desgrudar-se do onírico, da ideia, da sensação suprema?

Ora, atender a campainha. Quem poderia trazer notícia melhor, quem poderia derramar-lhe outros embevecimentos? Quem no roçar de pelos saberia adivinhar seus excessos e devaneios naquele momento em evolução? Quem no emudecimento das explicações estaria ali fora a tocar aquela campainha? Não importava quem fosse, seria menor. Seria pior. Seria insuficiente.

Do meio do corredor até ao sofá, ouviu uma, duas, três vezes a campainha. Resolveu não deixar entrar ali  nada que fosse inferior a ele em si mesma.  O bônus reiterava o prazer, a satisfação com a visita etérea do corpo moreno e retilíneo a lhe pressionar todos os músculos.

Quem poderia ser melhor que aquilo que sentia em seu corpo naquele instante?

A insignificância de se estar com.

Além, a plenitude da ideia, o apreço pela invenção, a graça pela fantasia. Elementos complexos e sem o filtro da razão.

Que tocasse a campainha mil vezes que do sonho não sairia por nada.

Depois de algum tempo, olha pela janela e descobre que fora ele, o cavaleiro da fantasia, que estivera ali tocando duas, três vezes a campainha.

Poema e texto: Odonir Oliveira

Imagens retiradas da Internet

1º Vídeo: Canal Acervo Vinil

2º Vídeo: Canal Dabliú Discos

Telefone

sam_4754

LIGAÇÕES

Aguarda telefonemas
espera convites
anseia por encontros
aspira beijos, frases, toques
 
O telefone toca
Ouve a voz
sabe que ele fala com ela
sabe que ele fala para ela
pergunta
responde
conta
 
Ouve a voz
Saboreia a voz
Dispara seu coração
Acalma seu coração
Sabe que ele fala para ela
Sabe que ele fala com ela.

2925263fa895bc71357c7c415a9951d8

OCUPADO

Distantes
telefonemas difíceis
ausência de vozes
ausência de corpos
tentativas frustradas
 
Ocupado
Desligado
Enguiçado
Dedo no disco
disco na vitrola
vitrola no corpo
corpos distantes
vozes distantes
 
Ligações incompletas
desejos interrompidos
Mudez eterna
nudez eterna
surdez eterna.
 
Ligações inconclusas
gestos inconclusos
falas difusas
sentimentos intermitentes

s_mlb_v_o_f_188157074_6656

TELEFONE, MEU AMOR

Não sabe escrever mensagens
não sabe mandar torpedos
não aderiu ao zap unânime
 
É falha
é folha
é flor
é fruto
tem sementes.
 
Não mente
silente
buscou antes
procurou antes
indagou antes
explicou antes
arriscou antes
telefone congestionado
ligação interrompida
mensagem não enviada
caixa-postal cheia
 
Esse telefone não grava recados.
Telefone
 
Aceitam-se ligações.

telefone-fax-panasonic-d_nq_np_712201-mlb20284045457_042015-f

Poemas: Odonir Oliveira

Imagens retiradas da Internet

1º Vídeo: Canal Alfredo Pessoa

2º Vídeo: Canal Manny

3º vídeo: Canal rogeriotom3

4º Vídeo: Canal  Som Nostalgia. Nando