Um caso de simples engenharia

15823487_1217812404976966_4569333963358424636_n

Style: "Neutral"

ENGENHEIROS

Aprisionado em suas correntes, Rogério seguiria a carreira da engenharia. Apoiado pela mãe que o desejava engenheiro, doutor, e casado com uma engenheira, doutora. Bom em números, contas e cálculos, Rogério sofreu com as matérias nos primeiros anos da faculdade, os famigerados Cálculo I e II, os complexos caminhos da Resistência dos Materiais… Não podia repetir semestres, perder notas, ir mal nas provas finais, todas as pressões ali, materializando a engenharia do futuro, do seu futuro.

Para pagar seus estudos, começou a dar aulas de eletrônica, à noite, num curso colegial técnico. Assim, eram aulas sobre circuitos elétricos às noites, matérias de suas disciplinas de engenharia aos dias, estradas, idas e voltas. A sensibilidade aprisionada, o gosto por belezas estéticas soterrado pela busca incessante de um futuro promissor que nem dele brotara, mas da mãe, da sociedade, de outras determinantes sem variáveis. Cálculo integral e certeiro na edificação de plataformas super valorizadas e mais. Seguia Rogério, de olhar doce, muito delicado com todos, amante dos Beatles e dos Rolling Stones.

b7u3svvceaaxlwi

O irmão, um pouco mais novo, era o preferido das mulheres. Bonito, grandão, 3 centímetros a menos que 2 metros. Também cursando engenharia. Também seguindo os ditames maternos, porém mais alegre, cheio de amigos, bebedor de cerveja, o engraçado, o extrovertido, o belíssimo jogador de basquete. Paulo fascinava a todas pelo seu ar malandro doce, tinha músculo de abraçador e era doce, fixado em mamas, grandes mamas, tinha mais garotas que o irmão mais velho.

Deu-se um encontro interessante certa noite, numa mostra na galeria de artes da cidade praiana. Paulo conheceu Sílvia que expunha seus trabalhos ali. Agradou-se na vernissage, primeiro, de suas coxas grossas e de suas mamas grandes. Devorou-a com os olhos e saboreou seu corpo de cima, de onde estava. Sílvia não mediria mais que 1 metro e 60. De cima ainda mais, foi até o mezzanino e de lá passou a aspirá-la como flor. Acompanhou todos os seus movimentos, todas as suas explicações aos interessados pelas obras, algumas figurativas, outras bastante geométricas, outras ainda, construtivistas. Sílvia era eclética e gostava de experimentações. Paulo percebeu isso ao proceder a leitura de seu estilo. Teria algumas questões a lhe fazer, encantara-se, por exemplo, com a matemática das telas, o espaço geométrico exposto, a desconcertante eliminação da lógica, a falta de proporcionalidade, enfim, queria ouvir sua voz, beber suas palavras. E só para ele.44fcff5c231b1c7bda60f3d7f7d8b5ca-artsy-photos-shadows

Ao final da abertura da mostra, aproximou-se e parou na frente dela. Aquele homem forte, enorme, quase uma ameaça à sua integridade física, mexeu com ela. Foram terminar aquele seminário sobre arte no bar do hotel, onde Sílvia se hospedara. E de lá, no quarto. Tocou em suas coxas com o desejo de um marchand, analisou a textura de suas mamas como o mais crítico dos críticos da arte assimétrica. Tudo volúpia, tudo prazer, tudo visão, tato, olfato, audição, paladar. Nenhum quadro dela seria tão eficiente para aquele prazer estético.

Encontraram-se algumas vezes mais. Ela montou uma pequena galeria ali na cidade, devido à boa repercussão de sua mostra, e Paulo viajou com seu time de basquete para uma temporada no norte e nordeste do país. Ela ficou com seus quadros.

15032858_1161972300560977_4497556063071245678_n

Um mês depois,  sábado à tarde, foi Rogério que esteve na galeria. Com toda a sua gentileza, todo o seu tato, encantou Sílvia. Foram dançar.  Apenas dançaram, beijos e identidades descobertas e as primeiras senhas de contato. Ela parecia desejar mais do que o corpo físico de Rogério. Ele investigou os desejos dela, mas sensivelmente reconheceu, a tempo, a dança de sedução dos passarinhos nas flores e voejou ao redor.

A engenharia de cada encontro era formidável. Férias de verão, cidade praieira repleta de atrações e novidades. Cada noite uma viagem, uma rota, um rumo. Encantava-o ouvi-la naqueles tamancos de couro cru, naqueles saiões coloridos, os cabelos até os ombros, meio revoltos e leves,  brincos enormes, olhos risonhos e indagadores. É a nossa continuidade. Era bom estar ali com ela. Era e foi. Muito bom.12079534_907556242669252_7999612828949703280_n

Ao encontrar-se de novo com o irmão, recém-chegado do campeonato de basquete com o time da universidade, contou-lhe sobre Sílvia. Paulo disse que a conhecera. Sabendo da viagem que fariam para o carnaval que se aproximava, apenas lamentou  Puxa, cara, podia ser eu, hem. 

A história da engenharia desses encontros se construiu durante temporadas inteiras. Havia ali um admiração recíproca que sustentava o produto de cada um. Ela, com sua arte e ele com sua engenharia. Muitas e muitas vezes ela o fortaleceu, homem frágil completamente influenciado pela mãe.

Durante uma certa temporada,  a senhora mãe dos engenheiros, com seu jeitinho, arranjara uma namorada, uma engenheira química, para Rogério. Aconteceu então uma conversa definitiva entre Sílvia e ela. Sílvia lhe dissera Você gosta dele, faça-o feliz. Concretize seu amor, que você vem adiando há muito tempo. Isso não o manterá preso a você. Ame-o. Caso contrário, voltarei a vê-lo, como agora, e não apenas como amigos. A moça, de família portuguesa como a da mãe de Rogério, agradeceu a conversa e foi-se. Concretizou seu encontro físico com ele.

Não ficaram juntos. A geometria não era aquela, a química não deu liga, o aquecimento do cuprum não segurou a liga.

misha-gordin9

Rogério e Sílvia ainda mantiveram por alguns anos sua engenharia azeitada, sem cálculos, sem medições, apenas naquela continuidade, com suas senhas de contato descobertas e deliciadas continuadamente.

Texto: Odonir Oliveira
Fotos: Misha Gordin

Fotografia conceitual de Misha Gordin

“Aponto a minha objetiva para fora, em direção ao mundo que me rodeia, ou aponto-a para dentro, para mim mesmo? Devo fotografar a realidade existente ou criar o meu próprio mundo, verossímil ainda que inexistente?”

1º Vídeo: Canal Alexandre Ribeiro
2º e 3º Vídeos: Canal beegees

 

Anúncios

“Quem não gosta de samba bom sujeito não é”

escucho-historias-de-amor-g-jpg_604x0

NUNCA DIGA NUNCA

Pode me ouvir? Quero te falar de um louco amor, pode ouvir?

Posso. Comece do começo ou de onde quiser. Se eu não entender, te perguntarei, ok.

Conheci Sérgio numa festa na casa geminada à minha, num churrasco de família. Eu era nova ali, tinha  resolvido comparecer por cortesia, para poder estreitar meus laços de vizinhança etc. Ele ouvia sentado os sambas que colocavam pra tocar. Meus vizinhos eram uns negros animados, coloridos em família, bebiam muita cerveja e faziam churrasco a qualquer hora e por qualquer razão. Eram pessoas bem simples, o dono da casa tinha uma oficina mecânica,  4 filhos pequenos e esposa, que trabalhava em escritório. Sérgio era cunhado da minha vizinha. Um homem claro, de cabelos grandes, desalinhados e cacheados, pai atento, cortava cada pedacinho de carne, bem pequenininho, pra dar aos 3 filhos pequenos. Meu vizinho me tirou pra dançar, salientando que eu não devia gostar de samba, pelas músicas que eles ouviam tocando na minha casa. Contou  que ali era casa de gente simples, alegre, bebedora de cerveja e pinga, e bem família. Falei pouco, bebi a cerveja, de garrafa que eu gosto assim, e comi a carne. Conversei com as irmãs da dona da casa,  a sogra, as crianças e dancei um pouco.

Sérgio não me chamou a atenção. Achei-o meio submisso, caladão, talvez com certo medo da mulher. Creio que foi isso. Apenas o jeito paternal dele me atraiu. Seu cuidado penteando as filhas, colocando agasalho nelas, levando o pequeno pra dormir no quarto da tia, isso me chamou a atenção sim.

Tempos se passaram e a cada sábado à noite chegava a família toda para os churrascos. Eu via tudo da janela do meu sobrado. Vinham sogra,  irmãs,  cunhados, as crianças, amigos, era muita festa. Nunca mais fui até lá. Gostava de ouvir outras músicas, ler meus livros, assistir a uns filmes. Até que um dia meu carro teve um caos qualquer e o levei à oficina do meu vizinho, recomendação da mulher dele. O marido cuidaria de tudo pra mim.

Chegando lá, enquanto cuidavam do carro, percebi Sérgio trabalhando, recebendo carros etc. trabalhava ali, portanto. Cumprimentou-me e senti que escondia com a estopa as mãos de graxa. Contou-me que fazia um bico ali com o cunhado, era mais um trabalho de registro de entrada, serviços, pagamentos; tinha sido responsável pelo departamento pessoal de construtoras etc. agora sem emprego, estava ali até aparecer alguma coisa. Percebi que não estava à vontade com aquela conversa ou comigo, não sei. Algo nele sinalizou interesse por mim. Éramos muito diferentes. A conversa emperrava. Achava indelicado fazê-lo se sentir constrangido. Gostava de samba, de partido alto, sambava miudinho na ponta do sapato e rodava com as parceiras. Detestava sertanejo, dizia que era música de corno.

E você gostou dele?

Bem, era um homem atraente, mas muito mal informado, meio magoado, frustrado, sem ação. Naquele dia, a oficina fecharia na hora do almoço. O dono, meu vizinho, convidou umas amigas e fomos a um barzinho desses que aos sábados têm música ao vivo, feijoada, batidas, cerveja e dança. Logo rolou o pagode, muitos casais … Dancei com ele. E foi aí, que ao segurar minhas mãos, colocar as dele no meu corpo, senti que me atraía. E muito. Fiquei preocupada com a situação, o cunhado, aquelas moças. Mas a situação caminhou muito. Dançamos, bebemos, dançamos, bebemos. Meu vizinho quis sair dali. Em carros diferentes, fomos nos conhecer em corpo, ritmo e paraíso.

Depois daquela tarde, tudo se complicou porque o corpo chamava, e a cabeça, fora do corpo, gilhotinada do corpo, repelia aquele homem. Não quis mais ver. Não quis mais saber. Não quis mais encontrar. Não foi possível. Era convidada para as festinhas, inclusive na casa dele. Como não ir? Dançava com ele na casa dele, na presença da sogra, da mulher, das cunhadas, das crianças. Não podia continuar aquilo daquela forma. Havia uma sedução, quase sedação naqueles passos trocados por nós.

E ele aceitava isso bem? Estava bem com a mulher?  

samba-de-gafieira-visualhunt-1024x680

Não se sentia bem não. Brigavam muito. Ela o menosprezava por estar sem emprego. Chegava a humilhá-lo. Era ele quem cuidava dos filhos, cozinhava, servia de motorista, mas tudo sem parceria, quase como que compensando o fato de estar sem levar o suficiente pra casa. Além do mais, comentava isso em rodinhas, na frente dele. Cheguei a me levantar certa vez por alguns comentários dela. Para fugir disso, Sérgio bebia seus rabos-de-galo, sua pinga de sempre, suas cervejas , pra seguir em frente.

Até que disse a ela que iam se separar. Ela não fez muito caso, a princípio. Ele que saísse. A dor da separação dos filhos era enorme. Sérgio iria voltar para a casa da mãe, que já vivia com sua irmã e duas crianças.

Nesse momento quis vir morar comigo. Não, não podia aceitar ser transformada em refúgio para ele. Tentei explicar-lhe, comentando como os terapeutas viam essas questões etc. Ele dizia que eu pensava muito, analisava muito todas as coisas. Acabávamos sempre entre fogo e paixão porque essa era a cor das nossas vidas ali. Sérgio adorava AGEPÊ.

Isso durou quanto tempo?

Ficamos juntos por mais de um ano, com certas consequências ainda mais duradouras. Sua mulher descobrira por amigas a situação toda. Eu preferia que ele tivesse contado a ela, adequadamente, tudo aquilo. Assim, como ocorreu, foi pior. Sabia que sofreriam bem mais, tanto ela quanto ele. Começou a perguntar-lhe, então, se eu iria sustentá-lo, já que não tinha emprego, se eu era boa de cama, se gostava da comida que eu fazia, essas coisas que fazem todas as mulheres.

Quando neguei a vinda dele pra viver comigo, sabia que não daria mais certo nada daquilo. Não era homem pra viver comigo, pra partilhar tempos e espaços. Não era. Sofri muito porque minha pele havia ficado com ele. Meu sentido racional tinha ido com ele. Minha vontade de dançar e cantar samba tinha se pulverizado no momento de sua saída.

Ele voltou para a família.

Por isso, jamais repeti uma frase sequer em que categoricamente dissesse NUNCA a algo. Sérgio levou todos os meus nuncas com ele. Não sei se me arrependo, não sei.

Foi assim, obrigada por me ouvir.

Adeus.

Volte quando quiser.

Texto: Odonir Oliveira

1º Vídeo: Canal luciano hortencio

2º Vídeo: Canal fatima brito

3º , 4º e 5º Vídeos: Canal Vangodias

 

Histórias de amor: O filho da mãe

eros-jacques-louis-david-1024x778

Arrasado, Caetano resolveu não mais amar. Fora a última vez. Daqui pra frente iria pegar geral. Nada de se dedicar a uma garota apenas. Estimava estar sendo passado pra trás, logo ele que havia se atirado inteiro naquele relacionamento. Era tão jovem ainda, 29 anos, e já tão desencantado.

Célia, sua mãe, nascida em 47, leu, estudou, trabalhou muito, era conhecedora de gente como ninguém. Célia observava tudo e se preocupava com aquela decepção amorosa do filho, temendo que não saísse mais do fundo daquele poço. Sofrer era salutar, recuperar-se era obrigatório. Não desejava para ele aquela cicatriz irremovível. Precisava interferir como mãe, educadora, responsável por sua formação. Orientava tanta gente, por que não o saberia com o seu Caetano? Tentaria.

A cada noite, ou melhor, a cada madrugada Caetano chegava embriagado, muitas vezes acompanhado, a se perder de sua razão de viver. Bebeu muito, em seguida buscou outras fugas de si, daquele seu antes subjetivo modo de ser. Agora era pegar geral, não se dedicava à garota alguma. Saía com uma, voltava com outra. Infeliz por dentro e por fora, idem.

Mãe de duas moças mais velhas que o rapaz, Célia repensava a educação que dera aos três. Seria a melhor, seria o respeito ao ser humano algo que não se encontrava mais na praça; as moças e os rapazes daquele tempo seriam tão diversos dos de sua juventude  no interior; metrópoles produzem  comportamentos diferenciados mesmo, exigem posturas mais contemporâneas ao seu tempo, aos seus iguais. Estaria ali como uma antagonista da modernidade, estaria impotente para ajudar seus filhos porque diacrônica demais? Não sabia mais.

Pensava e tomava algumas atitudes. Sozinha, estava difícil interferir em tudo aquilo. Convocou o pai. Vivendo em uma cidade distante, viesse assumir aquelo processo junto com ela. Veio. Achou tudo natural. Coisa de rapaz. Conversou com o filho, quase sendo conivente com suas ações. Quase. Atribuiu as apreensões, com os desvios, a excessos de preocupação de mães. Foi embora no mesmo dia, o avião sairia às 18.

Numas madrugadas, Célia ia ao quarto do rapaz e via sua cama vazia. Em outras, estava lá jogado, vestido, às vezes até com tênis nos pés, apagado, amortecido, sofrido, amargurado. Saía sem ser notada. Vez ou outra tirava-lhe os tênis. Nem sempre. Mãe tem limites que não se pode nem entender.

Naquela manhã combinou com ele que deveria ir morar sozinho, assumir sua vida. Seria sua fiadora no novo apartamento, mas que deveria assumir geral, pagar suas contas, não faltar ao trabalho, parar com aqueles excessos e entender que amores são doídos mesmo, uns vêm, outros vão, a vida segue. Caetano deveria reger sua vida dali em diante. A batuta estava em suas próprias mãos e não nas dela mais. Era muito jovem, tinha a vida toda á sua frente, meu Deus!

Célia amargou uma saudade imensa. Todas as preocupações com seu caçula, alimentação, doença, sofrimento, falta de grana … tudo sofreu de forma maiúscula, mas suportou.

Caetano fez mais cursos, especializou-se, montou um espaço ligado a terapias de corpo. Célia o apoiou com orientação, espaço físico – chegou a mudar-se para que ali onde morava fosse criado um centro holístico. Caetano passou a trabalhar com uma das irmãs, ergueu-se, pegou geral nas mãos e nos pés a trilha da sua vida.

Caetano era filho da mãe, ora !

 

Texto: Odonir Oliveira

Imagem: Jacques Louis David, Pinterest

Vídeo: Canal Joana Ziller

Histórias de amor: 45 anos depois …

25

Noite de lua … não olhou a lua lá fora. O e-mail a tirara do chão. “Saudades”. Por que tão mexida assim, agora, depois de tantos anos! O conteúdo, o pedido delicado, a menção suave a ela, por que tão mexida assim, meu Deus?

Amor de sua vida. Primeiro amor de carne e pele de sua vida. Por que tão mexida assim? Lembrou que ele gostava de mar, era de São Paulo, sem mar. Amar. Aquela barba grande, aquela literatura toda, aquela bolsa de couro repleta de livros, aqueles 10 anos a mais dele, aqueles jantares nos bandejões regados a James Dean, juventude transviada, On the Road, Kerouac, Jules e Jim, Maysa, ah Maysa, Sartre e Simone de Beauvoir, Mário de Andrade, a ditadura militar. Tantos encontros fortuitos, tantas caminhadas de mãos dadas pelas noites, tantas sessões de cinema, pré-estreias.  Que estímulo à leitura, que vontade de ler todo o Sartre pra poder discutir sobre aquilo com ele, que vontade de conhecer Pessoa tão melhor. Passeios de dentro, passeios por dentro.

21911110_355748164853105_107991223171547136_n

Por que tão mexida assim agora … “Saudades”. Valorização de palavras escritas, de lirismos uns e outros. Estrada conhecida, familiares, amigos, destinos ..“Saudades”.

Tempo, inimigo cruel de corpos, de projetos, de trajetórias. “Saudades”. 45 anos depois, umas fotos, uns elogios, um reconhecer de carne e osso, um aroma de gente que se conhece, que sabe o valor de si e do outro. “Saudades”. Umas sensíveis observações, uma seleção das histórias preferidas. Olhares pelo retrovisor. Tudo caminha, evolui, se espraia …

Que acaso misterioso é esse que faz uma palavra ganhar tanto sentido. “Saudades”.

Também eu tenho saudades de mim, como ouvi nessa narrativa. Também eu.

Texto: Odonir Oliveira

Vídeo: Canal daou007

Natal: Sexagenárias também amam

 

bolo-de-casamento-com-noivinhos-3

[Sororidade significa a aliança feminina baseada no apoio mútuo, na solidariedade, empatia e força. A sororidade é importante para o feminismo porque representa a união entre as mulheres em prol da busca pela igualdade de gênero e da conquista do seu espaço na sociedade. A sororidade é importante ainda porque é através do olhar e comportamento amigável e solidário entre as mulheres e da união entre elas que a busca pelos direitos iguais e pelo fim de seu rebaixamento na sociedade ganha grandes proporções e atinge cada vez mais mulheres]

http://www.significando.com.br/sororidade/

RECADO AO LEITOR

[Todos os personagens e situações dessa postagem são reais, tanto os da narrativa quanto os das canções de meu colega de USP, nos anos de 1970, Luiz Tatit ]

Dias  antes do Natal, eu seguia de carro em direção à casa de meu amigo, escritor de livros infanto-juvenis, para lhe entregar um lindo CD de poemas de Adélia Prado. Era meu presente de Natal. No carro, antes das compras de fim de ano, ia meu filho pré-adolescente. Parei na frente da casa, abri o portão, com um belo jardim, e me apresentei à mulher dele, a quem eu só conhecia por telefonemas.

Quando lhe disse que procurava por ele, me informou que meu amigo não morava mais ali. Desabou a chorar convulsivamente. No portão. Sem nenhuma reserva, sem nenhum constrangimento. Desabou. Abracei-a, não perguntei nada a ela. Apenas a ouvi. No portão mesmo, 3 dias antes do Natal. Tamanha era sua dor, que quase precisei de sedação para ouvi-la, assim tão de pertinho. O CD, queimava em minhas mãos, em um pacote festivo e com cartão de Natal. Não sabia se o escondia, se voltava pro carro e avisava meu filho que tivesse paciência e me aguardasse, não sabia de nada, apenas me atingia uma dor, uma espada sangrando no dela e no meu peito.

Casados há mais de 30 anos, com 3 filhos adultos, todos encaminhados, separavam-se. Sempre companheiros, estiveram juntos enquanto ele iniciava seus primeiros escritos, mambembando de escola em escola, divulgando seus livros. Os dois ligados às letras, construíram seu patrimônio intelectual, sentimental, material. Todas as dedicatórias de livros a ela e aos filhos, dois meninos e uma menina. A cumplicidade política, a cumplicidade de ideais, a cumplicidade nas deficiências, nas carências, nas incompletudes. Cumplicidades sempre. Ela o admirava, ela o impulsionava, ela o aplaudia a cada lançamento de livro. Antes ainda, sempre fora sua primeira e mais crítica leitora. Separavam-se agora. De maneira cruel, quase fatal.

Ela, com quase 60 anos, se reconstruiria de que jeito, em um país, em uma sociedade, que valoriza apenas a forma, o conteúdo expele-se. Ainda mais para muitos homens que depois dos 60 desejam quem lhes faça flamular as bandeiras, quase já tão a meio-pau. Ela era só naufrágio, tormenta, desencanto. Comparava-se à nova mulher, com uns 15 anos a menos e sangrava.

Tornamo-nos amigas. Mesmo. Noites e noites eu a ouvia ao telefone, com a maior compaixão possível, entendendo suas dores e jamais dando-lhe quaisquer conselhos. Ouvia e alguma vez lhe fazia uma pergunta ou outra. Procurava deixá-la à vontade para desabafar, sem constrangimentos, porque sabia – sabia mesmo – o quanto doía aquela dor. Ela sofria ao saber que estariam juntos naqueles momentos em que conversávamos, imaginava quão mais jovem, bonita e leve era a parceira de então … uma hemorragia constante.

Convidada por ele para um evento em uma escola infantil, no fim do ano seguinte, compareci. Apresentou-me à mulher, discretamente, sem dar-lhe os créditos devidos. Observei-a bem, analisei-a bem e, sem querer fazer julgamento precoce, consegui entender o que movera meu menos amigo agora a ir buscar esta outra mulher. Era uma questão muito clara.

Quanto à amiga que fizera no portão daquele Natal do ano anterior, tornamo-nos amigas do peito, por anos, até quando reencontrou um ex-namorado de juventude, filho de portugueses, e foi dar aulas e viver com ele em um país africano. Não tive mais notícias dela. Isso já faz mais de 15 anos.

O CD de Adélia Prado …  ah, esse lhe dei na mesma hora, naquele portão. Era dela o presente. Não dele mais.

Salve às mulheres que se dão de corpo e alma a um amor, sexagenárias ou não. E Natal é amor.

7e0daa2706c2d3658e508439733c77f5

Texto: Odonir Oliveira

1º e 2º Vídeos: Canal LuizTatit

3º Video: Canal Roberto de Souza Matos Filho

Natal: Uma festa de fim de ano

SAM_8944

A semana inteira havia sido de atropelos. O cunhado com um câncer que voltara. O filho do amigo que sumira sem deixar rumo. A família da família do ex- marido pressionando para que os filhos dela fossem para ceia de Natal lá. O jantar que preparava para o namorado estava quase ficando para o dia 27 ou 29 ou até mais pra frente, que tudo se encaminhava para um terremoto ou um maremoto, dependendo de onde saísse o tal jantar.

Verônica era um vulcão de atividades pré- natalinas. Gostava de reunião, mas sem confusão entre familiares. Gostava do pernil assado um pouco apimentado, que a ex-segunda–sogra é que sabia fazer. Entretanto a ex-primeira-sogra se gabava da bacalhoada portuguesa legítima e inteiramente aprovada por convivas até de além-mar. Isso estava ficando muito difícil. Conciliações de novas configurações familiares eram quase impossíveis. A não ser que a hipocrisia fantasiada de espírito natalino ousasse fazer pouso ali, e tudo estaria resolvido. Mas hipocrisias, mesmo com maçã na boca do porquinho à pururuca, não faziam seu gênero.

Sem festa então. Mas e os filhos? Ensinaram-lhe que precisavam conviver com tios, primos, avôs, avós, padrinhos, madrinhas e dar os ossinhos para os cães ao final. Aprendera assim. Como responder a tantas expectativas agora? O cenário era o mesmo, porém convivas já não o eram mais. Que fazer para obter aplausos ao final? Rir o sorriso de véspera, cheio de sacolas de presentes, às vezes equivocados… “meu ex-primeiro-sogro sempre gostou de livros de arte”… “Ih, Verônica, mais um, ele não tem olhado nem os antigos… é só pra juntar poeira”- lembrava-se do último Natal. A ex-segunda-sogra, só delicadezas aparentes, dera-lhe dois beijinhos no ano anterior e reclamara que o presente tinha a cor que ela menos gostava. Terríveis lembranças. Agradar a quem… por quê?

Quase hora da ceia de 2015, as casas das redondezas sempre cheias de parentes e de sons característicos de Natal anunciavam um rito de alegria, assada de véspera, com vozes alteradas de álcool e doses de talentosos e portentosos olhares de estamos aqui outra vez, que bom ainda estarmos vivos, que bom que você veio, trouxe o que te pedi, ponha os presentinhos na árvore, o amigo-secreto já, já começa. No elevador do prédio gestos mais amáveis entre os moradores, olhares de enlevo datados, toques de mãos e braços datados  Roupas novas, sapatos e sandálias novas, atitudes novas.

Pelas ruas, andando-se a pé, o mesmo do mesmo. O espírito natalino acompanhava Verônica. Pensou que tudo isso era muito bom. Gostava. Mas e depois? No dia 26 tudo voltaria ao mesmo. Tudo voltaria ao espírito não natalino. Um mar de hipocrisias borrifado por almas e mentes. Quisera fosse diferente.

Voltou a casa. Telefonou para os pais de seus filhos. Aguardou que chegassem.

Cumprimentou-os pelo Natal, colocou nas mãos de cada um as sacolas de presentes. Beijou Marcos e Eliana, já pré-adolescentes e se despediu.

Voltou ao jardim e de lá telefonou para o namorado. Ceia de Natal, então.

SAM_8953

Texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

1º Vídeo: Canal Taís Marinho

2º Vídeo: Canal Luciano Re

 

Emergências emocionais

Conheceram-se em situação de emergência emocional. Crise de saúde física ou emocional? Vai saber…

Do momento do encontro inicial ao clímax do contato, houve perdas e danos, risos e sufocamentos gástricos, engasgos incontidos, soluços intermitentes, isquemias transitórias, enxaquecas e, por fim, vômito em jato. Tudo com o quê apenas a saúde não poderia contar.Vai saber…

Remédios eram aquelas conversas intermináveis pelas telas, fosse sobre a conjuntura nacional sobre a internacional; desabafos de temática cotidiana, o emprego, o carro batido, a dor na família, uma perda aqui um dano ali, uma torcida acolá. Uma música ontem, um filme hoje , uma série amanhã, compartilhados via tela em emergência existencial. Coincidências de “toques de cotovelos cibernéticos”, etéreos, aéreos, em nuvem. Vai saber …

pino2bdaeni2b2528562529

Tudo novo, mesmo que conhecidos em carne e osso, em tela encontravam-se, assim, pelos botecos webianos. Os produtos, as alegrias, a vontade de rir … Freud explica, quase querendo fazer uma selfie de almas.

Os hábitos diferentes, os gostos diferentes, as trajetórias diferentes. Tudo igual. Vai saber

… “ Gente é pra viver não pra morrer de fome”, canta aquele que era um antes e agora já não se pode confiar muito nele, politicamente mais.
–  É mesmo, né.
– Gosta de jiló, já comeu com chuchu? E com pimenta?
– Nunca provei, sabor amargo.
– Vou ver se consigo uma boa receita, estas coisas têm segredos que os mais antigos conhecem bem, como altura do fogo, quantidade de água, tempo de cozimento, além da escolha do jiló ! …
–  Há, há, há, quanta sutileza pode ter o jiló, né. Preciso até ter cuidado ao cozinhá-lo, ao degustá-lo…
–  Comer jiló é para ..profissionais!..
Ao que parece você é uma neófita!…hahhahhahahha
Não pode ser muito nem pouco, não pode ser cozido demais nem de menos. Como vinho é preciso aprender a gostar do discreto amargor que acaba por lhe conferir um certo charme!…
Vamos ver se consigo o passo a passo!..
Diria que nem tudo que parece amargo é realmente amargo. Um discreto amargo pode dar um gosto especial a certos pratos.Para alguns amargo é doce e nos faria ver as diferenças do mais doce mais salgado mais ácido e, nem tanto amargo, como é a fama do jiló!
– Aguardo o passo-a-passo.
–  Amargo pode ser doce, como pimenta que pra uns arde e pra outros não.
– Maas …o nome desse sabor  é amargo mesmo? Há controvérsias.
– Isso veremos brevemente ! e mesmo as controvérsias são as faces da mesma moeda!..Reagiu…tem a ver!…Não existe reação sem motivos.O que não tem importância não gera reação!.. Interpretá-las é FREUD.

Sabia que aquela pessoa interessante que conhecera há alguns meses era … era atraente. Era atraente conversar com ela em palavras, sentia falta daquela conversa. Mas havia perigos perigosos naquilo também: metáforas e alegorias em profusão, onomatopeias pouco reveladoras dos sentidos verdadeiros, pressupostos unilaterais ou bilaterais. Vai saber …

pino20daeni20041

Correr riscos, ainda que etéreos, implicava viver aquele discurso cheio de exclamações, vírgulas, pontos de interrogação. Tudo muito novo, ainda que de nuances tão conhecidas. No suporte, na plataforma diferente mas revelando emoções tão conhecidas, tão experimentadas. Sabe-se como começa, como caminha… e como terminaria. Teria de haver um término, uma finalidade em tudo aquilo. Ou não?

Embora haja ansiedades desveladas, prazerosas, elas também podem ser mais complexas do que aparentam.

Seres humanos são cheios de complexidades, quando deviam viver apenas.

As músicas enviadas e recebidas, o compartilhar de mensagens sobre partidos políticos, panelaços, coxinhas, terceirização, Lava Jato permeando sílabas, figuras de linguagem e trocadalhos recheados de humor. Tudo em cima do ponto, na mosca tal e qual em um e noutro.

Fôlego para mais quantas partidas? Para mais quantas chegadas?

O choque de realidade como um tapa na cara; nada daquilo existiu? Talvez nada daquilo tivesse existido.

Medo de abrir nova pasta, novo arquivo.

Salvos na nuvem, entretanto.

Deletem-se todos os e-mails, até prova em contrário.

Perigos perigosos desvelam-se a partir de um enter.

Ficar com um sentimento nas mãos.

Essas telas são muito perigosas mesmo.

Vai saber.

luminosidade_das_telas_de_computador_influi_na_qualidade_do_sono_h__2013-02-18113312

Leia também:

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2017/12/17/natal-encontros-tramados-encontros-tracados/

 

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2017/06/09/so-nos-resta-viver/

 

Texto: Odonir Oliveira

Imagens do pintor Pino Daeni

1º Vídeo: Canal: MaestroCanale

2º Vídeo: Canal:  max26111000