Do meu maior amor

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O AMOR QUE VAI E VEM

– -Não sei se devo contar. Pode me ouvir? Tenho certo temor de contar.

-Pois fale. Faço apenas o papel de oráculo. Sabe o que é um oráculo?

-Acho que sei sim. Mas temo ser ridícula. Uma mulher da minha idade. Mais de 60. Não sei.

-Fale, por favor.

-Amo um homem que nunca toquei. Quer dizer, sei mais dele que de mim, talvez. É um amor impossível, cheio de impedimentos. Parece uma nuvem que se modifica a cada vento, a cada hora. Não sei se me compreende.

-De certo que sim. O amor é inconstante, inseguro, disforme, inatingível, muitas vezes. Fale do seu.

-Bebi um tanto de vodca, com sabor de fruta, sabe, porque vodca pura é um horror. Vim aqui porque estão em mim. Peguei metrô pra não bater o carro, né. Sempre o vi sentado aí e tinha curiosidade de sentar aqui também. É um amor assim no ar, sabe. Nunca me quis, acho que me acha velha, feia, alquebrada para seus desejos de macho, entende?Então, recolho-me assim, quieta, sem tocá-lo, sem sentir seu cheiro, sem saber seu gosto. Acho melhor. Nunca me desejou. Nunca quis me ver. Nunca me buscou. Nunca sonhou comigo de carne e osso. Ah, bobagem, acho que vou embora. Essa vodca me faz muito mais mulher do que sou, do que consigo suportar. E ele vem inteirinho. De pulseira na mão esquerda e na direita, com a camisa preta de sempre, com os cordões no peito. Não tem pelos. Tem rosto com marcas de vida. Sabe quando um homem viveu e ficou desenhado de marcas? Ah, sei lá, acho que estou bêbada. Demais até.

-Fale, conte do seu amor.

-É isso mesmo. É o ”meu” amor. Só meu. Não lido bem com rejeição, sabe. Sinto-me a pior das criaturas. Quero me esconder, ficar quieta, sem falar com ninguém. Calada. Muda.  Por isso está sendo tão difícil falar aqui. É porque não conheço você e nunca mais vai me ver, senão não estaria sentada aqui, lhe falando essas minhas coisas todas, sabia. Acho que é a vodca.

-Mas por que você pensa isso dele?

-Porque sim. Nunca me procurou, nem pra conversar sobre o nada. Sabe aquela conversa sobre tempo chuvoso ou ensolarado no elevador, nem pra isso. Certeza. De mim quer distância. E por mais que eu queira falar com ele, isso me retalha. Em tiras. Sangrando.

-Mas já tentou, pelo menos.

-Algumas vezes. Não atende a telefonemas, nem a correios. É cruel, sabe. Mas queria contar isso pra alguém que não fosse gente conhecida. Assim, gente estranha, como você.

-Que planos tem então, com relação a ele?

-Apenas tentar sentir, entender por que ele rasgou a minha vida desse jeito? Tento isso faz tempo. Um dia entenderei. Sofro mais do que com todos os amores juntos, de toda a minha vida. Perdoe tanta conversa desconexa, por favor. Deve ser a vodca, né. Obrigada.

-Volte quando quiser.

Texto: Odonir Oliveira

Vídeo: Canal Sandro M. Silva

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Amor é pra quem ama

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CASOS DE AMOR I

Olhou aquele homem pela primeira vez. Era estranho, grosseiro, rude, debochador, inquieto e estranho.

Nada nele lhe agradava em princípio. Ironizava mulheres apaixonadas, declaradamente apaixonadas, devolvia agressões verbais aos afagos e carinhos. Nada nele continuava a lhe agradar.

Cris estava acostumada a delicadezas de diversas espécies -palavras, lembranças, telefonemas, flores e graças masculinas. E femininas também.

Sempre fora grande amiga de homens, trocava com eles passes e fazia gols de tabelinha. Eram muito mais engraçados, muito mais diretos, muito mais sinceros até. Nunca entravam em competição, camuflada de amizade. Quando era era e pronto. Gostava mais dos homens.

Cris era professora de inglês. Naquele momento, ensinava num curso especializado para engenheiros, técnicos que chegavam ao Brasil para trabalhar nas multinacionais. Grande parte era de orientais. No bairro da Liberdade, em São Paulo, conheceu Toninho caipira, como era chamado pelos amigos da turma, do partido, do boteco pertinho da Consolação. Cris o achara , na verdade, um grosso. Gostava daquelas piadas pouco engraçadas, sempre falando de mulheres como carne de açougue. Chegaram a ter sérios embates. Ele dizia que se ela não gostava das piadas era porque não gostava de sexo e mais. Cris o derrubava em argumentações. Derrubava porque não permitia apelações rasteiras etc. e, sem isso, ele ficava de pernas quebradas. Os amigos riam dos acalorados embates e torciam por ela sempre.

Cris era amiga dos homens, torcia por eles, os aconselhava como mulher, quase sempre fazendo com que se colocassem no lugar das mulheres das quais reclamavam cotidianamente, fossem casos, namoradas, esposas, irmãs, quaisquer delas. Algumas companheiras de seus amigos por vezes sentiam ciúmes de tanto papo, tanto discurso, mas depois percebiam que não se tratava de briga por macho. Se havia algo por que Cris tinha ojeriza era briga por macho. Não entrava em bola dividida jamais. E em respeito às mulheres. Até seus amigos homens a criticavam por isso, mas era categórica, não brigo por homem algum, se está com ela, que fique bem com ela, o que tem que ser é honesto, declarar que tem uma outra pessoa, que curte aquela pessoa etc. nada de prolongar dores e desafetos. 

A  clareza de Cris era atraente não se podia negar. E mulheres a admiravam, com um pouquinho de inveja, sabia-se. E os homens a desejavam, ora se não. Mas era dura de roer.

Toninho caipira telefonou pra ela, mesmo estando  em férias, distante, em casa dos pais. Aquilo era um tanto estranho, Toninho, assim daquela forma, mostrando-se. Encantou-se quando lhe citou e pediu que ouvisse o tema de Casablanca e mais outras coisas.

Ficaram juntos por um ano e pouco. Quem os via notava que não eram mais aqueles rivais dos bons tempos. Ele ainda trazia as características do caipira de Casa Branca etc. mas sussurrava nos ouvidos de Cris Como foi que seu ex-marido perdeu uma mulher dessa, meu Deus. Cris ria e gostava dele.

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CASOS DE AMOR II

Guida era o apelido carinhoso de Margarida, uma mulher pequenininha, magrinha, de cabelos encaracolados e muito insegura. Não saía pra comprar nada sem uma companhia. Estava sempre precisando da opinião de alguém pra lhe confirmar se o vestido lhe ficara bem, se valia comprá- lo etc. Se, sozinha, era capturada pelas lojistas que lhe empurravam não aquilo que havia pedido, mas o mais caro, o que ninguém ousaria comprar etc. Virgínia a acompanhava e já ia respondendo às vendedoras Mas não tem esse aqui que está na vitrine não? Quando lhe respondiam Não, mas temos esse outro da coleção desse ano, veja. Virgínia respondia Não me importo com coleção, não coleciono roupas, queria aquele da vitrine por aquele preço, se não tem devem tirar da vitrine, né. E saíam. Guida se admirava da coragem de Virgínia. Alguns poderiam até considerar arrogância. Não era. Era segurança daquilo que queria, como queria e por quanto.

Faziam um par e tanto. Só encrencavam quando disputavam o amor dos dois amigos com quem viviam na comunidade à beira-mar. Uma corria pra arrumar as camas à noite, colocar o espiral contra pernilongos, a moringa com água. Quando a outra chegava e via, pronto, já era motivo de discórdia. Competiam pelo amor dos dois como se fosse por esposos amados. Eram, de verdade, amados. Os quatro eram amados. Elas por elas. E eles por eles. Viviam assim.

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Textos: Odonir Oliveira

Imagens: Fotografias de grafites do inglês Banksy

1- Mobile Lovers

2- (?)

3- Balloon Girl

Um caso de simples engenharia

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Style: "Neutral"

ENGENHEIROS

Aprisionado em suas correntes, Rogério seguiria a carreira da engenharia. Apoiado pela mãe que o desejava engenheiro, doutor, e casado com uma engenheira, doutora. Bom em números, contas e cálculos, Rogério sofreu com as matérias nos primeiros anos da faculdade, os famigerados Cálculo I e II, os complexos caminhos da Resistência dos Materiais… Não podia repetir semestres, perder notas, ir mal nas provas finais, todas as pressões ali, materializando a engenharia do futuro, do seu futuro.

Para pagar seus estudos, começou a dar aulas de eletrônica, à noite, num curso colegial técnico. Assim, eram aulas sobre circuitos elétricos às noites, matérias de suas disciplinas de engenharia aos dias, estradas, idas e voltas. A sensibilidade aprisionada, o gosto por belezas estéticas soterrado pela busca incessante de um futuro promissor que nem dele brotara, mas da mãe, da sociedade, de outras determinantes sem variáveis. Cálculo integral e certeiro na edificação de plataformas super valorizadas e mais. Seguia Rogério, de olhar doce, muito delicado com todos, amante dos Beatles e dos Rolling Stones.

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O irmão, um pouco mais novo, era o preferido das mulheres. Bonito, grandão, 3 centímetros a menos que 2 metros. Também cursando engenharia. Também seguindo os ditames maternos, porém mais alegre, cheio de amigos, bebedor de cerveja, o engraçado, o extrovertido, o belíssimo jogador de basquete. Paulo fascinava a todas pelo seu ar malandro doce, tinha músculo de abraçador e era doce, fixado em mamas, grandes mamas, tinha mais garotas que o irmão mais velho.

Deu-se um encontro interessante certa noite, numa mostra na galeria de artes da cidade praiana. Paulo conheceu Sílvia que expunha seus trabalhos ali. Agradou-se na vernissage, primeiro, de suas coxas grossas e de suas mamas grandes. Devorou-a com os olhos e saboreou seu corpo de cima, de onde estava. Sílvia não mediria mais que 1 metro e 60. De cima ainda mais, foi até o mezzanino e de lá passou a aspirá-la como flor. Acompanhou todos os seus movimentos, todas as suas explicações aos interessados pelas obras, algumas figurativas, outras bastante geométricas, outras ainda, construtivistas. Sílvia era eclética e gostava de experimentações. Paulo percebeu isso ao proceder a leitura de seu estilo. Teria algumas questões a lhe fazer, encantara-se, por exemplo, com a matemática das telas, o espaço geométrico exposto, a desconcertante eliminação da lógica, a falta de proporcionalidade, enfim, queria ouvir sua voz, beber suas palavras. E só para ele.44fcff5c231b1c7bda60f3d7f7d8b5ca-artsy-photos-shadows

Ao final da abertura da mostra, aproximou-se e parou na frente dela. Aquele homem forte, enorme, quase uma ameaça à sua integridade física, mexeu com ela. Foram terminar aquele seminário sobre arte no bar do hotel, onde Sílvia se hospedara. E de lá, no quarto. Tocou em suas coxas com o desejo de um marchand, analisou a textura de suas mamas como o mais crítico dos críticos da arte assimétrica. Tudo volúpia, tudo prazer, tudo visão, tato, olfato, audição, paladar. Nenhum quadro dela seria tão eficiente para aquele prazer estético.

Encontraram-se algumas vezes mais. Ela montou uma pequena galeria ali na cidade, devido à boa repercussão de sua mostra, e Paulo viajou com seu time de basquete para uma temporada no norte e nordeste do país. Ela ficou com seus quadros.

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Um mês depois,  sábado à tarde, foi Rogério que esteve na galeria. Com toda a sua gentileza, todo o seu tato, encantou Sílvia. Foram dançar.  Apenas dançaram, beijos e identidades descobertas e as primeiras senhas de contato. Ela parecia desejar mais do que o corpo físico de Rogério. Ele investigou os desejos dela, mas sensivelmente reconheceu, a tempo, a dança de sedução dos passarinhos nas flores e voejou ao redor.

A engenharia de cada encontro era formidável. Férias de verão, cidade praieira repleta de atrações e novidades. Cada noite uma viagem, uma rota, um rumo. Encantava-o ouvi-la naqueles tamancos de couro cru, naqueles saiões coloridos, os cabelos até os ombros, meio revoltos e leves,  brincos enormes, olhos risonhos e indagadores. É a nossa continuidade. Era bom estar ali com ela. Era e foi. Muito bom.12079534_907556242669252_7999612828949703280_n

Ao encontrar-se de novo com o irmão, recém-chegado do campeonato de basquete com o time da universidade, contou-lhe sobre Sílvia. Paulo disse que a conhecera. Sabendo da viagem que fariam para o carnaval que se aproximava, apenas lamentou  Puxa, cara, podia ser eu, hem. 

A história da engenharia desses encontros se construiu durante temporadas inteiras. Havia ali um admiração recíproca que sustentava o produto de cada um. Ela, com sua arte e ele com sua engenharia. Muitas e muitas vezes ela o fortaleceu, homem frágil completamente influenciado pela mãe.

Durante uma certa temporada,  a senhora mãe dos engenheiros, com seu jeitinho, arranjara uma namorada, uma engenheira química, para Rogério. Aconteceu então uma conversa definitiva entre Sílvia e ela. Sílvia lhe dissera Você gosta dele, faça-o feliz. Concretize seu amor, que você vem adiando há muito tempo. Isso não o manterá preso a você. Ame-o. Caso contrário, voltarei a vê-lo, como agora, e não apenas como amigos. A moça, de família portuguesa como a da mãe de Rogério, agradeceu a conversa e foi-se. Concretizou seu encontro físico com ele.

Não ficaram juntos. A geometria não era aquela, a química não deu liga, o aquecimento do cuprum não segurou a liga.

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Rogério e Sílvia ainda mantiveram por alguns anos sua engenharia azeitada, sem cálculos, sem medições, apenas naquela continuidade, com suas senhas de contato descobertas e deliciadas continuadamente.

Texto: Odonir Oliveira
Fotos: Misha Gordin

Fotografia conceitual de Misha Gordin

“Aponto a minha objetiva para fora, em direção ao mundo que me rodeia, ou aponto-a para dentro, para mim mesmo? Devo fotografar a realidade existente ou criar o meu próprio mundo, verossímil ainda que inexistente?”

1º Vídeo: Canal Alexandre Ribeiro
2º e 3º Vídeos: Canal beegees

 

“Quem não gosta de samba bom sujeito não é”

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NUNCA DIGA NUNCA

Pode me ouvir? Quero te falar de um louco amor, pode ouvir?

Posso. Comece do começo ou de onde quiser. Se eu não entender, te perguntarei, ok.

Conheci Sérgio numa festa na casa geminada à minha, num churrasco de família. Eu era nova ali, tinha  resolvido comparecer por cortesia, para poder estreitar meus laços de vizinhança etc. Ele ouvia sentado os sambas que colocavam pra tocar. Meus vizinhos eram uns negros animados, coloridos em família, bebiam muita cerveja e faziam churrasco a qualquer hora e por qualquer razão. Eram pessoas bem simples, o dono da casa tinha uma oficina mecânica,  4 filhos pequenos e esposa, que trabalhava em escritório. Sérgio era cunhado da minha vizinha. Um homem claro, de cabelos grandes, desalinhados e cacheados, pai atento, cortava cada pedacinho de carne, bem pequenininho, pra dar aos 3 filhos pequenos. Meu vizinho me tirou pra dançar, salientando que eu não devia gostar de samba, pelas músicas que eles ouviam tocando na minha casa. Contou  que ali era casa de gente simples, alegre, bebedora de cerveja e pinga, e bem família. Falei pouco, bebi a cerveja, de garrafa que eu gosto assim, e comi a carne. Conversei com as irmãs da dona da casa,  a sogra, as crianças e dancei um pouco.

Sérgio não me chamou a atenção. Achei-o meio submisso, caladão, talvez com certo medo da mulher. Creio que foi isso. Apenas o jeito paternal dele me atraiu. Seu cuidado penteando as filhas, colocando agasalho nelas, levando o pequeno pra dormir no quarto da tia, isso me chamou a atenção sim.

Tempos se passaram e a cada sábado à noite chegava a família toda para os churrascos. Eu via tudo da janela do meu sobrado. Vinham sogra,  irmãs,  cunhados, as crianças, amigos, era muita festa. Nunca mais fui até lá. Gostava de ouvir outras músicas, ler meus livros, assistir a uns filmes. Até que um dia meu carro teve um caos qualquer e o levei à oficina do meu vizinho, recomendação da mulher dele. O marido cuidaria de tudo pra mim.

Chegando lá, enquanto cuidavam do carro, percebi Sérgio trabalhando, recebendo carros etc. trabalhava ali, portanto. Cumprimentou-me e senti que escondia com a estopa as mãos de graxa. Contou-me que fazia um bico ali com o cunhado, era mais um trabalho de registro de entrada, serviços, pagamentos; tinha sido responsável pelo departamento pessoal de construtoras etc. agora sem emprego, estava ali até aparecer alguma coisa. Percebi que não estava à vontade com aquela conversa ou comigo, não sei. Algo nele sinalizou interesse por mim. Éramos muito diferentes. A conversa emperrava. Achava indelicado fazê-lo se sentir constrangido. Gostava de samba, de partido alto, sambava miudinho na ponta do sapato e rodava com as parceiras. Detestava sertanejo, dizia que era música de corno.

E você gostou dele?

Bem, era um homem atraente, mas muito mal informado, meio magoado, frustrado, sem ação. Naquele dia, a oficina fecharia na hora do almoço. O dono, meu vizinho, convidou umas amigas e fomos a um barzinho desses que aos sábados têm música ao vivo, feijoada, batidas, cerveja e dança. Logo rolou o pagode, muitos casais … Dancei com ele. E foi aí, que ao segurar minhas mãos, colocar as dele no meu corpo, senti que me atraía. E muito. Fiquei preocupada com a situação, o cunhado, aquelas moças. Mas a situação caminhou muito. Dançamos, bebemos, dançamos, bebemos. Meu vizinho quis sair dali. Em carros diferentes, fomos nos conhecer em corpo, ritmo e paraíso.

Depois daquela tarde, tudo se complicou porque o corpo chamava, e a cabeça, fora do corpo, gilhotinada do corpo, repelia aquele homem. Não quis mais ver. Não quis mais saber. Não quis mais encontrar. Não foi possível. Era convidada para as festinhas, inclusive na casa dele. Como não ir? Dançava com ele na casa dele, na presença da sogra, da mulher, das cunhadas, das crianças. Não podia continuar aquilo daquela forma. Havia uma sedução, quase sedação naqueles passos trocados por nós.

E ele aceitava isso bem? Estava bem com a mulher?  

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Não se sentia bem não. Brigavam muito. Ela o menosprezava por estar sem emprego. Chegava a humilhá-lo. Era ele quem cuidava dos filhos, cozinhava, servia de motorista, mas tudo sem parceria, quase como que compensando o fato de estar sem levar o suficiente pra casa. Além do mais, comentava isso em rodinhas, na frente dele. Cheguei a me levantar certa vez por alguns comentários dela. Para fugir disso, Sérgio bebia seus rabos-de-galo, sua pinga de sempre, suas cervejas , pra seguir em frente.

Até que disse a ela que iam se separar. Ela não fez muito caso, a princípio. Ele que saísse. A dor da separação dos filhos era enorme. Sérgio iria voltar para a casa da mãe, que já vivia com sua irmã e duas crianças.

Nesse momento quis vir morar comigo. Não, não podia aceitar ser transformada em refúgio para ele. Tentei explicar-lhe, comentando como os terapeutas viam essas questões etc. Ele dizia que eu pensava muito, analisava muito todas as coisas. Acabávamos sempre entre fogo e paixão porque essa era a cor das nossas vidas ali. Sérgio adorava AGEPÊ.

Isso durou quanto tempo?

Ficamos juntos por mais de um ano, com certas consequências ainda mais duradouras. Sua mulher descobrira por amigas a situação toda. Eu preferia que ele tivesse contado a ela, adequadamente, tudo aquilo. Assim, como ocorreu, foi pior. Sabia que sofreriam bem mais, tanto ela quanto ele. Começou a perguntar-lhe, então, se eu iria sustentá-lo, já que não tinha emprego, se eu era boa de cama, se gostava da comida que eu fazia, essas coisas que fazem todas as mulheres.

Quando neguei a vinda dele pra viver comigo, sabia que não daria mais certo nada daquilo. Não era homem pra viver comigo, pra partilhar tempos e espaços. Não era. Sofri muito porque minha pele havia ficado com ele. Meu sentido racional tinha ido com ele. Minha vontade de dançar e cantar samba tinha se pulverizado no momento de sua saída.

Ele voltou para a família.

Por isso, jamais repeti uma frase sequer em que categoricamente dissesse NUNCA a algo. Sérgio levou todos os meus nuncas com ele. Não sei se me arrependo, não sei.

Foi assim, obrigada por me ouvir.

Adeus.

Volte quando quiser.

Texto: Odonir Oliveira

1º Vídeo: Canal luciano hortencio

2º Vídeo: Canal fatima brito

3º , 4º e 5º Vídeos: Canal Vangodias

 

Histórias de amor: O filho da mãe

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Arrasado, Caetano resolveu não mais amar. Fora a última vez. Daqui pra frente iria pegar geral. Nada de se dedicar a uma garota apenas. Estimava estar sendo passado pra trás, logo ele que havia se atirado inteiro naquele relacionamento. Era tão jovem ainda, 29 anos, e já tão desencantado.

Célia, sua mãe, nascida em 47, leu, estudou, trabalhou muito, era conhecedora de gente como ninguém. Célia observava tudo e se preocupava com aquela decepção amorosa do filho, temendo que não saísse mais do fundo daquele poço. Sofrer era salutar, recuperar-se era obrigatório. Não desejava para ele aquela cicatriz irremovível. Precisava interferir como mãe, educadora, responsável por sua formação. Orientava tanta gente, por que não o saberia com o seu Caetano? Tentaria.

A cada noite, ou melhor, a cada madrugada Caetano chegava embriagado, muitas vezes acompanhado, a se perder de sua razão de viver. Bebeu muito, em seguida buscou outras fugas de si, daquele seu antes subjetivo modo de ser. Agora era pegar geral, não se dedicava à garota alguma. Saía com uma, voltava com outra. Infeliz por dentro e por fora, idem.

Mãe de duas moças mais velhas que o rapaz, Célia repensava a educação que dera aos três. Seria a melhor, seria o respeito ao ser humano algo que não se encontrava mais na praça; as moças e os rapazes daquele tempo seriam tão diversos dos de sua juventude  no interior; metrópoles produzem  comportamentos diferenciados mesmo, exigem posturas mais contemporâneas ao seu tempo, aos seus iguais. Estaria ali como uma antagonista da modernidade, estaria impotente para ajudar seus filhos porque diacrônica demais? Não sabia mais.

Pensava e tomava algumas atitudes. Sozinha, estava difícil interferir em tudo aquilo. Convocou o pai. Vivendo em uma cidade distante, viesse assumir aquelo processo junto com ela. Veio. Achou tudo natural. Coisa de rapaz. Conversou com o filho, quase sendo conivente com suas ações. Quase. Atribuiu as apreensões, com os desvios, a excessos de preocupação de mães. Foi embora no mesmo dia, o avião sairia às 18.

Numas madrugadas, Célia ia ao quarto do rapaz e via sua cama vazia. Em outras, estava lá jogado, vestido, às vezes até com tênis nos pés, apagado, amortecido, sofrido, amargurado. Saía sem ser notada. Vez ou outra tirava-lhe os tênis. Nem sempre. Mãe tem limites que não se pode nem entender.

Naquela manhã combinou com ele que deveria ir morar sozinho, assumir sua vida. Seria sua fiadora no novo apartamento, mas que deveria assumir geral, pagar suas contas, não faltar ao trabalho, parar com aqueles excessos e entender que amores são doídos mesmo, uns vêm, outros vão, a vida segue. Caetano deveria reger sua vida dali em diante. A batuta estava em suas próprias mãos e não nas dela mais. Era muito jovem, tinha a vida toda á sua frente, meu Deus!

Célia amargou uma saudade imensa. Todas as preocupações com seu caçula, alimentação, doença, sofrimento, falta de grana … tudo sofreu de forma maiúscula, mas suportou.

Caetano fez mais cursos, especializou-se, montou um espaço ligado a terapias de corpo. Célia o apoiou com orientação, espaço físico – chegou a mudar-se para que ali onde morava fosse criado um centro holístico. Caetano passou a trabalhar com uma das irmãs, ergueu-se, pegou geral nas mãos e nos pés a trilha da sua vida.

Caetano era filho da mãe, ora !

 

Texto: Odonir Oliveira

Imagem: Jacques Louis David, Pinterest

Vídeo: Canal Joana Ziller

Histórias de amor: 45 anos depois …

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Noite de lua … não olhou a lua lá fora. O e-mail a tirara do chão. “Saudades”. Por que tão mexida assim, agora, depois de tantos anos! O conteúdo, o pedido delicado, a menção suave a ela, por que tão mexida assim, meu Deus?

Amor de sua vida. Primeiro amor de carne e pele de sua vida. Por que tão mexida assim? Lembrou que ele gostava de mar, era de São Paulo, sem mar. Amar. Aquela barba grande, aquela literatura toda, aquela bolsa de couro repleta de livros, aqueles 10 anos a mais dele, aqueles jantares nos bandejões regados a James Dean, juventude transviada, On the Road, Kerouac, Jules e Jim, Maysa, ah Maysa, Sartre e Simone de Beauvoir, Mário de Andrade, a ditadura militar. Tantos encontros fortuitos, tantas caminhadas de mãos dadas pelas noites, tantas sessões de cinema, pré-estreias.  Que estímulo à leitura, que vontade de ler todo o Sartre pra poder discutir sobre aquilo com ele, que vontade de conhecer Pessoa tão melhor. Passeios de dentro, passeios por dentro.

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Por que tão mexida assim agora … “Saudades”. Valorização de palavras escritas, de lirismos uns e outros. Estrada conhecida, familiares, amigos, destinos ..“Saudades”.

Tempo, inimigo cruel de corpos, de projetos, de trajetórias. “Saudades”. 45 anos depois, umas fotos, uns elogios, um reconhecer de carne e osso, um aroma de gente que se conhece, que sabe o valor de si e do outro. “Saudades”. Umas sensíveis observações, uma seleção das histórias preferidas. Olhares pelo retrovisor. Tudo caminha, evolui, se espraia …

Que acaso misterioso é esse que faz uma palavra ganhar tanto sentido. “Saudades”.

Também eu tenho saudades de mim, como ouvi nessa narrativa. Também eu.

Texto: Odonir Oliveira

Vídeo: Canal daou007

Natal: Sexagenárias também amam

 

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[Sororidade significa a aliança feminina baseada no apoio mútuo, na solidariedade, empatia e força. A sororidade é importante para o feminismo porque representa a união entre as mulheres em prol da busca pela igualdade de gênero e da conquista do seu espaço na sociedade. A sororidade é importante ainda porque é através do olhar e comportamento amigável e solidário entre as mulheres e da união entre elas que a busca pelos direitos iguais e pelo fim de seu rebaixamento na sociedade ganha grandes proporções e atinge cada vez mais mulheres]

http://www.significando.com.br/sororidade/

RECADO AO LEITOR

[Todos os personagens e situações dessa postagem são reais, tanto os da narrativa quanto os das canções de meu colega de USP, nos anos de 1970, Luiz Tatit ]

Dias  antes do Natal, eu seguia de carro em direção à casa de meu amigo, escritor de livros infanto-juvenis, para lhe entregar um lindo CD de poemas de Adélia Prado. Era meu presente de Natal. No carro, antes das compras de fim de ano, ia meu filho pré-adolescente. Parei na frente da casa, abri o portão, com um belo jardim, e me apresentei à mulher dele, a quem eu só conhecia por telefonemas.

Quando lhe disse que procurava por ele, me informou que meu amigo não morava mais ali. Desabou a chorar convulsivamente. No portão. Sem nenhuma reserva, sem nenhum constrangimento. Desabou. Abracei-a, não perguntei nada a ela. Apenas a ouvi. No portão mesmo, 3 dias antes do Natal. Tamanha era sua dor, que quase precisei de sedação para ouvi-la, assim tão de pertinho. O CD, queimava em minhas mãos, em um pacote festivo e com cartão de Natal. Não sabia se o escondia, se voltava pro carro e avisava meu filho que tivesse paciência e me aguardasse, não sabia de nada, apenas me atingia uma dor, uma espada sangrando no dela e no meu peito.

Casados há mais de 30 anos, com 3 filhos adultos, todos encaminhados, separavam-se. Sempre companheiros, estiveram juntos enquanto ele iniciava seus primeiros escritos, mambembando de escola em escola, divulgando seus livros. Os dois ligados às letras, construíram seu patrimônio intelectual, sentimental, material. Todas as dedicatórias de livros a ela e aos filhos, dois meninos e uma menina. A cumplicidade política, a cumplicidade de ideais, a cumplicidade nas deficiências, nas carências, nas incompletudes. Cumplicidades sempre. Ela o admirava, ela o impulsionava, ela o aplaudia a cada lançamento de livro. Antes ainda, sempre fora sua primeira e mais crítica leitora. Separavam-se agora. De maneira cruel, quase fatal.

Ela, com quase 60 anos, se reconstruiria de que jeito, em um país, em uma sociedade, que valoriza apenas a forma, o conteúdo expele-se. Ainda mais para muitos homens que depois dos 60 desejam quem lhes faça flamular as bandeiras, quase já tão a meio-pau. Ela era só naufrágio, tormenta, desencanto. Comparava-se à nova mulher, com uns 15 anos a menos e sangrava.

Tornamo-nos amigas. Mesmo. Noites e noites eu a ouvia ao telefone, com a maior compaixão possível, entendendo suas dores e jamais dando-lhe quaisquer conselhos. Ouvia e alguma vez lhe fazia uma pergunta ou outra. Procurava deixá-la à vontade para desabafar, sem constrangimentos, porque sabia – sabia mesmo – o quanto doía aquela dor. Ela sofria ao saber que estariam juntos naqueles momentos em que conversávamos, imaginava quão mais jovem, bonita e leve era a parceira de então … uma hemorragia constante.

Convidada por ele para um evento em uma escola infantil, no fim do ano seguinte, compareci. Apresentou-me à mulher, discretamente, sem dar-lhe os créditos devidos. Observei-a bem, analisei-a bem e, sem querer fazer julgamento precoce, consegui entender o que movera meu menos amigo agora a ir buscar esta outra mulher. Era uma questão muito clara.

Quanto à amiga que fizera no portão daquele Natal do ano anterior, tornamo-nos amigas do peito, por anos, até quando reencontrou um ex-namorado de juventude, filho de portugueses, e foi dar aulas e viver com ele em um país africano. Não tive mais notícias dela. Isso já faz mais de 15 anos.

O CD de Adélia Prado …  ah, esse lhe dei na mesma hora, naquele portão. Era dela o presente. Não dele mais.

Salve às mulheres que se dão de corpo e alma a um amor, sexagenárias ou não. E Natal é amor.

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Texto: Odonir Oliveira

1º e 2º Vídeos: Canal LuizTatit

3º Video: Canal Roberto de Souza Matos Filho