A menina do mundo

UM FILHO HOMEM

Haveria de rasgar meu ventre

com a força de seus ombros

com foguetes de dores de parto

com o aroma do amor vivido,

intensamente,

incandescentemente,

irresistivelmente.

Viria de minhas entranhas,

na comunidade em Itapuã

aconchegado por muitas mãos

qual uma sinfonia

o filho homem ansiado,

desde cedinho com os bonecos de brincar.

Veio menina,

fruta de meu ventre,

dedo na boca

olhos verdes de marcianos.

Veio menina,

meu sonho de amamentar, de aninhar no colo, de beijar, de abraçar,

de me continuar.

Veio menina.

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Canal: TMusicaCanal

carla-e-iougurte

Canal: Odonir Oliveira

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NÃO CHORE, MINHA CRIANÇA

Pudesse a mãe que lhe deu luz

tirar-lhe todas as dores

todas as mágoas

todos os arranhões e injúrias no porvir.

Pudesse a mãe que lhe deu luz

curar todas as suas gripes e tosses,

mesmo antes de aparecerem,

todas as suas coceiras e machucadelas

dos tombos inevitáveis.

Pudesse a mãe que lhe deu luz 

eternizar todos os cães que tivemos

para que com eles fizesse elos de correntes de felicidade.

Pudesse a mãe que lhe deu luz

lhe dar asas ainda mais amplas e velozes

para que pudesse você

ir conhecendo o mundo

como já o faz.

Voe, filha,

voe e pouse nessas terras geladas, em que tanto deseja aportar.

Leve seu fiel escudeiro.

Seja sempre um pássaro que vê de cima horizontes.

Canal: cubebossanova

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A LENDA

Conta a lenda que a Terra já havia se encantado pelo Sol por três estações completas,

quando de seu cio apaixonado fez nascer Ela.

Branca, de olhos verdes miúdos, brotara do ventre –mãe , gineceu de amor,

mais do androceu de estames polinizadores

subvertendo

hora a hora,

dia a dia,

mês a mês,

as regras ,

as da natureza prevalecendo sobre as sociais.

Brotou.

Cresceu.

Da terra-mãe, Ela estendeu suas raízes aos solos mais próximos e aos mais distantes,

Percorreu cidades: primeiro as próximas,

depois outras no mesmo hemisfério,

depois ainda,

estendeu mais suas raízes

e ao outro hemisfério.

Virou, Ela, cidadã do mundo,

visitou o solo em que brotara, numa bahia de todos os santos,

floresceu nas praias tropicais,

sofreu com o frio do ártico,

esticou pernas pelas metrópoles do império,

enredou-se com focas e leões- marinhos,

viu na aurora boreal estrelas de tão perto,

que era como se as pegasse com as mãos.

Flor, fruto, semente de amor que se aspergiu para o mundo

num sopro da natureza

como devem ser todos aqueles que ventre-mãe e androceu-pai fazem vivificar pela terra.

Porém trinta e seis voltas já deu no Sol a Terra

e a flor em suas raízes continua se estendendo

se estendendo…

se estendendo …

É o milagre da criação que se reproduz a cada vez.

(Com todo o meu amor, para minha filha Carla)

 

Versos: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal.

O charme

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OLHOS JUVENIS

Quando se é criança, adolescente, as proporções são quase sempre dilatadas. Imagina-se tudo enorme, de uma grandiosidade incomparável. A rua de casa é muito comprida, o caminho até a escola, idem. O bairro em que se vive é infinitamente grande… tudo assim.

A casa-lar então, parece gigante. Tudo fica enormizado por dentro e por fora. As sensações são ampliadas ao máximo e assim se eternizam na gente.

Quando, anos depois, retornamos àqueles mesmos lugares, àqueles mesmos episódios, aos sabores de infância e aos perfumes que nos pulverizaram tantos momentos, descobrimos, para nossa surpresa e até para nossa tristeza, essa realidade impensável. Nada era daquele jeito que se havia guardado na memória afetiva.

Em visita a Belo Horizonte, em novembro, encontrei na Pampulha muito da infância-adolescência das férias que ali passei.

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Entre as graças e o charme disso, achei na Pampulha os coquinhos de meus anos de alegria no Rio. Por eles, caí de um morrinho, quebrei a perna em 3 lugares e fiquei de molho por uns meses. O sabor deles estava na minha boca como quando tinha os 12 anos do acidente.

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Tratei logo de atirar um ao chão de asfalto, correr para alcançá-lo e saborear aquela imagem de infância. Esqueci que o fazíamos sentados, com um porção deles no chão, e, escarrapachados, os quebrávamos com martelo ou até paralelepípedos soltos dos calçamentos. Grudava nos dentes, principalmente na parte interna, tínhamos que passar a língua muitas e muitas vezes para desagarrarem. Depois quebrávamos a amêndoa que havia dentro para comermos os dois coquinhos brancos que ficavam lá.Sabor de festa eterna.

Dessa vez não tive aquela sensação. Aquela, igual à de antes. Tive muita dificuldade pra quebrar a amêndoa, ela fugia de mim, ri muito disso. Eu, em casa, perseguindo um coquinho pequenino que escapulia várias vezes de meu martelo.

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Tanta alegoria há em comer coquinhos nessa vida, Fernando Pessoa ! Mais do que comer chocolates.

Na verdade, hoje desejo a vida, apenas, sem mistificação. Os coquinhos pelos quais atirei minha vida na estrada cheia de carros , a ponto de ser atropelada, e, chorando, caminhei noturna e solitariamente por ela, apenas para sentir o mesmo ar de um Iguaçu qualquer, não poderia ser o mesmo que o daquele sabor antes deliciado, lentamente, língua sobre lábios, dentes e perfume … dos meus coquinhos da infância.

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Voltei de BH , como quem volta de um túnel que leva nada a lugar algum. Voltei como fui, pela auto-estrada, não por ferrovia. O trem ficou de lado, em paralelo. E paralelas são linhas que jamais se encontram, sabe-se bem.

Vou saboreando os coquinhos-metáfora, aos poucos, lambendo as feridas que me fizeram na boca, nas gengivas, nos dentes.

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A idade torna tudo mais profundo. Retornar aos caminhos percorridos só mesmo para saber que são aqueles os que não se quer percorrer mais. Só para isso.

 

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Texto: Odonir Oliveira

Fotos: Arquivo pessoal

Vídeo: Canal  Hoodoo You Love?

Poética prejudicial

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ANAMNÉSE

abre o ontem

desilusões, oikós

desilusões, ergasía

desilusões, agápi.

 

entrega doação confiança

dor no peito, medo

solidão cerração

nuvens nuvens nuvens

medo

chuveiro, gritos, dores

medo

sonhos torpor medo

engasgo, vômito

ar rarefeito rarefeito rarefeito

sufocamento

explosão

Ninguém

razão, chicote em punho

emoção, flores em ramalhete

Solução imprevisível.

Canal: Hayden Clement

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Canal: rezniknow

 

ANÁLISE

bebe vinho

bebe ontem

bebe desilusões, oikós

bebe desilusões, ergasía 

bebe desilusões, agápi

 

kefáli enorme

“Me interesso apenas por seus poemas”

soma, desprezado

 

Cabeça sem corpo

vagando na imensidão

Valoração de corpóreos êxtases outros,

jamais sorvidos na taça da bandeja vermelha.

 

ânthropos não vê omorfiá, palatável, em lirismos

gynaika é érossoma, nada de psichí .

Platão não ensinou ler oráculos.

 

Maus-tratos, ofensas, afrontas

revelações cruéis

escárnios de ocasião

depreciação pública

comparação pública

explicitação pública

defenestração clara.

Desumanidade.

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SÍNTESE

não mais Minas

não mais crianças

não mais horas

não mais rosas

não mais rios matos cachoeiras

o céu é nuvem nuvem nuvem

o ar é rarefeito rarefeito rarefeito

o toque é mistificação

a melodia é não mais

a imagem é não mais.

 

Àquela fêmina, chance

Aquela fêmina é “doce” onça de saboreio insubstituível.

Todos amam, todos querem, todos chamam de “my love”.

No sertão, Love Story

Na rua, Love Story

Na chuva, Love Story

Numa casinha de sapé, Love Story.

Desfecho de análise,

amortecimento

adormecimento

adoecimento

Dor final.

Canal: marius b

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Versos: Odonir Oliveira

Imagens do pintor russo Andre Kohn

Em tempo: Recebo uma complementação a esse post. Acrescento aqui, então.

Canal: Chico Cesar

 

Uma canção amiga

Amiga Isa,

Mesmo estando aí nos EUA, você comparece aqui em meu blog, diariamente. Sei disso. Portanto, não nos separamos.

Quando em 1968, fui embora para o Grajaú e três anos depois para São Paulo, jamais imaginaria tudo que nos aconteceria nesses anos todos.

Canal: Geraldo Ribeiro Júnior

Sua casa, a de número 2, ficava em frente à minha. Espelho da minha morada, lembro-me de seu alpendre que, diferente do meu, não tinha os móveis de ferro. Era vazio para que, depois do almoço, pudéssemos sentar ali no chão e conversarmos, sonharmos com o futuro de nós. Tenho em mim tudo que a minha memória afetiva coa. Lembro-me do Tejo, bravo cão que ficava no jardim lateral esquerdo da casa. Assustava espantando quem quisesse chegar mais perto. Todos tínhamos medo do Tejo, um pastor zangado, para nós.

Dona Nadege foi nossa professora alfabetizadora na Escola do Círculo Operário: “A Cartilha que eu queria”. Lembra ?

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Como não lembrar de dona Iva, linda mulher, de fala doce, que fazia bolos de tabuleiros às tardes, cheirosos, que eu ia comer com prazer. Depois Sessão da Tarde.

E como éramos estudiosas, não é? Você sempre escreveu bem, tinha letra graciosa, era educada, suave como dona Iva.

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Isaías, o Dedé, era excelente aluno. Sempre estivemos entre os primeiros no Barão de Mauá. Até para concorrermos ao discurso de orador na formatura do ginásio, fomos companheiros. Eu escrevera um texto meio meloso, triste até (porque naquele ano nos separaríamos, a FNM fora vendida e os nossos pais indenizados etc.). Já ele fora mais objetivo, mais masculino nas palavras. Venceu e foi o orador dos formandos de 1968.

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Só fui vencer, aos 18, 3 anos depois, com meu discurso de formatura do curso normal. Para padrinho convidei meu querido professor Josemar Contage, primeiro amor, desde os 13 anos. Ele foi, Isa, me deu de presente um lindo anel de professora e disse que eu já era uma mulher, estava muito diferente. Elogiou meu discurso, minha beca, meu capelo, símbolos daquela formatura. Nunca mais o vi. Faleceu anos depois. Há um colégio estadual em Petrópolis em sua homenagem.Creio que você não sabia dessas marcas em mim, não é ?

Nossos pais oriundos de outros estados, hábitos diferentes de um Brasil antigo, que não existe mais. O seu, maranhense; o meu, mineiro. Trabalhadores metalúrgicos que entravam às sete e saíam às dezessete, quando não faziam serão para receberem um pouco mais em seus salários e poderem cuidar mais e melhor de suas famílias. A minha com 5 filhos, pai e mãe. A sua com 3 filhos, pai e mãe.

Você se recorda do terreno enorme atrás da minha casa? Quantas e quantas bananeiras, goiabeiras, mangueiras, laranjeiras de doces limas e seletas de primeira. Ainda havia nossas galinhas, patos, uma cabritinha e sua filhinha, além dos cachorros que aportavam por lá.

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A banda marcial do Barão de Mauá, na fanfarra, eu tocava flautinha com todo o empenho. Saia branca de pregas, camisa branca, boina branca, colete azul céu, sapatos e polainas pretas. Uma honra pertencer à banda do seu Joel.

O Cine FNM, a que a moçada ia aos domingos, depois da missa das nove. Depois era o almoço domingueiro, andar de bicicleta, conversar na varanda, ouvir música na frente da casa da Cristina, na vitrolinha do Gilberto- o Betinho. Não me esqueço de um detalhe.

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Isa, lembra de onde comprávamos leite, pão, carne, doces …  ? No Mercado. Ali também eu comprava giz pra poder brincar de escola, escrevendo no quadro-negro que meu pai havia feito pra mim, no seu “barracão” de ferramentas. Lembre-se, meu  pai era fresador ferramenteiro, né.

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A aventura mais atrevida que vivemos, eu, você e o Dedé foi em 1965. Depois de retornarmos do colégio em Petrópolis, fomos “escalar morrinho” e entramos no quintal do Paulo e do Zé Luiz, pelo morro. Lá havia esses deliciosos coquinhos, madurinhos, num saco de aniagem, lembra, né. Não havia ninguém na casa deles.

Escorreguei, caí de lá, quebrei a tíbia, o calcanhar e o perônio. Vocês, morrendo de medo, me pediam “não conte que a gente estava aqui fazendo essa arte”. Em seguida, me socorreram. Eu ia pulando com um pé só, o esquerdo quebrado suspenso e com muita dor. Era dia 13 de outubro. O mano mais velho aniversariava. Foram quase 3 meses imobilizada: gesso, coceiras, sem poder ir a aulas em Petrópolis etc. Depois de tudo, o medo de pisar no chão e quebrar tudo de novo. Memórias subjetivas coadas pela emoção.

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Sabe, durante a mocidade eu acreditava que o mais importante era ser independente. Pagar minhas contas, ser responsável por minhas escolhas profissionais, emocionais, sociais, políticas … não sabia nada de feminismo ainda. Mas hoje penso que aquela vontade que eu tinha de morar sozinha, voltar do supermercado com pacotes de compras pagos por mim mesma, casa arrumada do meu jeito, moradia no lugar que eu escolhesse era o melhor feminismo que podia desejar. Década de 1970. Escolhas decisivas, encontros inesquecíveis, aprendizagens eternas.

Tivemos filhos eu e você. Têm quase a mesma idade. Você tornou-se avó há poucos meses, de gêmeos, abençoada, veja só.

Quando a vejo com seu companheiro, fico tão feliz,  Isa. Sabe por quê? Porque aquela casa de número 2, onde você morava com dona Iva, seu Isaías, Dedé e Ivanildo foram um espelho delicioso para mim. Hoje sei mais ainda.

Canal: cjportela

Amiga Isa, estimei sempre passar meus últimos anos muito tempo no mato, escrevendo, olhando os rios, o nascer e o por-do-sol, encantando-me com as estrelas e a lua, ah a lua emoldurando meus umbrais de dores, mágoas, solidões e tristezas. Sonhei, em madura, poder escrever, escrever, até quando minhas mãos, meus dedos permitissem. Sonhei encontrar um porto, um pouso incomum, invulgar, estrangeiro a tantos outros já ancorados.Sonhei com um Brasil mais justo, mais humano, mais independente.

Hoje, não nego que meus sonhos eram sonhos apenas, coisa daquela menina tonta e iludida dos anos sessenta na FNM. Vejo quase tudo fugir-me das mãos, dos dedos. Então ainda me sobram o céu, as flores, a terra e uns tantos outros sonhos.

Beijo você como se estivéssemos abraçadas, sentindo uma o coração da outra, até ficarmos sem fôlego, como quando brincávamos de pique-bandeira e corríamos muito, muito, muito …

Odô

Dedicatória: Para Isa, as flores que tínhamos pelos caminhos, na Avenida Principal.

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Nós, todos negros brasileiros…

Poetas, jornalistas, educadores, formadores de opinião. Quem somos? Quem está nessa luta? Ainda.

Não tenho pele negra, mas tenho numa pele a alma dos injustiçados, aviltados, depreciados, desmerecidos e sofridos, dentro de mim. Por isso, talvez, não seja de leveza constatável, apreciável e saboreável, como são as frutas leves da estação.

Tenho as dores de muitos em mim.

Não somos negros.

Somos brasileiros.

Não tenho a pele negra. Por quê? Não interessa. Meu avô paterno tinha. Meu avô materno não tinha.

Dane-se isso.

Sou negra. Sou brasileira.

Canal: Max Fonseca

SOLANO TRINDADE

CANTO DOS PALMARES (trechos)

Ainda sou poeta
meu poema
levanta os meus irmãos.
Minhas amadas
se preparam para a luta,
os tambores
não são mais pacíficos
até as palmeiras
têm amor à liberdade.

POEMA AUTOBIOGRÁFICO

Quando eu nasci,
Meu pai batia sola,
Minha mana pisava milho no pilão,
Para o angu das manhãs…
Portanto eu venho da massa,
Eu sou um trabalhador…
Ouvi o ritmo das máquinas,
E o borbulhar das caldeiras…
Obedeci ao chamado das sirenes…
Morei num mucambo do “”Bode””,
E hoje moro num barraco na Saúde…
Não mudei nada…
OLORUM ÈKE

Olorum Ekê
Olorum Ekê
Eu sou poeta do povo
Olorum Ekê
A minha bandeira
É de cor de sangue
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Da cor da revolução
Olorum Ekê
Meus avós foram escravos
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Eu ainda escravo sou
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Os meus filhos não serão
Olorum Ekê
Olorum Ekê

(Olorum Ekê: “povo do Santo forte”, termo Iorubá.)

NEM SÓ DE POESIA VIVE O POETA 

Nem só de poesia vive o poeta
há o “fim do mês”
o agasalho
a farmácia
a pinga
o tempo ruim, com chuva
alguém nos olhando
policialescamente
De vez em quando
um pouco de poesia
uma conta atrasada
um cobrador exigente
um trabalho mal pago
uma fome
um discurso à moda Ruy
E às vezes uma mulher fazendo carinho
Hoje a lua não é mais dos poetas
Hoje a lua é dos astronautas.”
(poema inédito até 2008, quando foi revelado por sua filha Raquel)

GRAVATA COLORIDA

Quando eu tiver bastante pão
para meus filhos
para minha amada
pros meus amigos
e pros meus vizinhos
quando eu tiver
livros para ler
então eu comprarei
uma gravata colorida
larga
bonita
e darei um laço perfeito
e ficarei mostrando
a minha gravata colorida
a todos os que gostam
de gente engravatada…

Canal: Max Fonseca

JOSÉ DO PATROCÍNIO

José Carlos do Patrocínio era filho de uma escrava alforriada e do cônego João Monteiro. Aos 14 anos deixou a fazenda da família para tentar a vida no Rio de Janeiro, onde chegou a ingressar na Escola de Medicina. Ao fim de alguns anos, porém, abandonou o curso e formou-se em farmácia, em 1874.

Ainda estudante , fundou uma revista mensal, “Os Ferrões”, onde começou a revelar seu talento como polemista que o tornaria famoso. Em 1877, ingressou na redação de “A Gazeta de Notícias”, onde escreveu diversos artigos de propaganda abolicionista.

Em 1881, com dinheiro emprestado pelo sogro, adquiriu a “Gazeta da Tarde”, à frente da qual permaneceu por seis anos. Neste jornal, deu início à campanha abolicionista. Em 1887, fundou a “Cidade do Rio”, onde intensificou os ataques à política escravocrata.

Não se limitou a lutar apenas por escrito pelo abolicionismo. Realizou conferências públicas, ajudou a fuga de muitos escravos, organizou núcleos abolicionistas, militando ativamente até o triunfo da causa, em 13 de maio de 1888.

Seu prestígio imenso durante os últimos anos do Império decaiu após a proclamação da República, quando passou a lutar por um programa liberal. Acabou afastado da vida pública. Seu jornal, “Cidade do Rio de Janeiro”, foi interditado e ele deportado para Cucuí, no Amazonas, sob a acusação de ter participado de uma revolta contra o governo de Floriano Peixoto.

Libertado pouco tempo depois, afastou-se da vida pública, colaborando esporadicamente na imprensa. Nos últimos anos de vida interessou-se pela navegação aérea, chegando a construir um aeróstato denominado Santa Cruz.

Patrocínio também escreveu obras de ficção, mas sem a repercussão nem o talento do jornalista. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira de no. 21, que tinha Joaquim Serra como patrono.

JOAQUIM NABUCO

As ideias abolicionistas tiveram ampla penetração na sociedade brasileira a partir da década de 1870, conquistando políticos como Joaquim Nabuco, poetas como Castro Alves e artistas gráficos como Angelo Agostini. Agostini fundou diversas publicações – entre elas, a “Revista Illustrada” , que atacavam as elites escravocratas. Na edição, a capa da revista comemora a promulgação da Lei Áurea.

CASTRO ALVES

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O chamado Poeta dos Escravos, com sua poesia altissonante, exerceu seu ofício em prol da extinção da barbárie da escravidão.

ANDRÉ REBOUÇAS

O engenheiro André Rebouças, em retrato pintado por Rodolfo Bernardelli. Rebouças se engajou na campanha abolicionista e ajudou a criar a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão, ao lado de Joaquim Nabuco, José do Patrocínio e outros. Participou também da Confederação Abolicionista e redigiu os estatutos da Associação Central Emancipadora.

LUÍS GAMA

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Como advogado, Luís Gama (foto) conseguiu libertar mais de 500 escravos. Desenvolveu também uma intensa atividade abolicionista no jornalismo. Ao lado de Angelo Agostini, fundou o jornal satírico “Diabo Coxo”, pioneiro da imprensa humorística no Brasil

CONTRASTES

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Isabel Cristina Leopoldina Augusta Miguela Gabriela Rafaela Gonzaga de Orléans e Bragança era o nome completo da princesa Isabel, depois de seu casamento com                 Gaston d´Orléans, o conde d´Eu .

O apoio de Dom Pedro 2º ao abolicionismo desagradou os escravocratas, aproximando-os do movimento republicano e contribuindo para o fim do Império. A ideia republicana passava a simbolizar, para os fazendeiros, a possibilidade de manter seus privilégios ameaçados pelo reformismo dos abolicionistas monárquicos.

Canal: Túlio Villaça

DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

O geógrafo e filósofo Milton Santos fala sobre o papel do Dia da Consciência Negra.

Post originalmente publicado em: http://jornalggn.com.br/blog/odonir-oliveira/nos-todos-negros-brasileiros

Cronicamente viável …

O que é uma crônica?

” Crônica é uma narrativa histórica que expõe os fatos seguindo uma ordem cronológica. A palavra crônica deriva do grego “chronos” que significa “tempo”. Nos jornais e revistas, a crônica é uma narração curta escrita pelo mesmo autor e publicada em uma seção habitual do periódico, na qual são relatados fatos do cotidiano e outros assuntos relacionados a arte, esporte, ciência etc.

Os cronistas procuram descrever os eventos relatados na crônica de acordo com a sua própria visão crítica dos fatos, muitas vezes através de frases dirigidas ao leitor, como se estivesse estabelecendo um diálogo. Alguns tipos de crônicas são a jornalística, humorística, histórica, descritiva, narrativa, dissertativa, poética e lírica. Uma crônica relata acontecimentos de forma cronológica e várias obras da literatura são designadas com esse nome, como por exemplo: Crônica de um Amor Louco (de Charles Bukowski) e Crônica de uma Morte Anunciada (da autoria de Gabriel García Márquez).” 

https://www.significados.com.br/cronica/

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CRONICAMENTE VIÁVEL

Em tempos de “copiou e colou”, de discursos de outros sendo apropriados, em toda web, ter discurso próprio é bastante relevante.

Alguns criticam a atitude de se narrar sua própria vida nas telas, acreditando tratar-se do culto ao próprio umbigo etc. Entretanto, o que fizeram durante suas existências os poetas, os cronistas, cancionistas se não traduzirem por palavras suas emoções e experiências de vida?

Assim também os artistas plásticos, pintores, entre outros criativos; convivendo diariamente com dois pintores, numa comunidade em que morávamos no Farol de Itapuã, Bahia, na década de setenta, pude  acompanhar seus processos de criação, desde a ideia até a inserção das molduras em suas telas.

A imagem para mim é muito importante. Escrever sobre algo que vi é muito mais gratificante do que elaborar teses e regras de comportamento sobre os seres, humanos ou não. Mas qual imagem?

Qual a imagem da velhice ? É, porque quando temos mais de sessenta anos estamos na velhice sim. Rotulada ou não, trata-se da velhice.

Tenho observado bastante imaturidade. Vejo isso- imagens são importantes- mulheres querendo ter muito menos idade que a que têm, tingindo cabelos exaustivamente, submetendo-se a dolorosos procedimentos estéticos, frequentando academias compulsivamente, bronzeando-se, vestindo roupas inadequadas ao seu tipo físico e idade. Não há aqui preconceitos expostos, mas trata-se de bom senso, discernimento e até de dignidade. Por que querer ter em si uma imagem diferente, não correspondente à dos anos que se viveu? A quem estariam querendo ludibriar? A si mesmas, à sociedade, ao homem que desejam, ou conquistaram, e pretendem com o corpo mantê-lo subjugado àquela imagem que apresentam?

O valor da imagem nos seres humanos, em meu entender, deveria ser a do comportamento desse ser. Como ele se revela em diversas situações, como vive em seu cotidiano social etc.

Em tempos de imagem para consumo externo, esquecem-se daquela de consumo interno. É tudo muito muito aparente apenas.

Falo de homens também, obviamente. Por terem a libido completamente resultante do visual, perderam-se nesse labirinto, nessa armadilha. Rápidos, necessitam de peles lisinhas, cabelos macios, beleza feminina para oferecer aos amigos e conhecidos como os de sua posse e, assim, comprovarem seu poder de conquista e sedução- afinal quem conseguiu obter uma mulher linda, jovem, esbelta, e mantê-la consigo só pode mesmo ser muito bom- acreditam, às vezes até inconscientemente (apesar de eu duvidar um pouco disso) .

Sempre fui muito reflexiva, mesmo quando jovem já o era. Via lirismo e poesia – sem ser o das palavras – nas coisas, nas atitudes individuais e coletivas. Aquilo ficava amadurecendo em mim, quase num processo de decantação. Depois dos quarenta, comecei a coar meus quereres, meus sentires, meus desejares. Só guardei comigo o que de muito, muito significativo ficou nas peneiras que usei para isso.

Hoje valorizo apenas o que consegue passar por meus coadores e peneiras, porque me tornei muito seletiva.E disso não abro mão.

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Gosto demais das pinturas de Andre Kohn, artista impressionista russo.

Aqui uma “galeria” de suas belezas. Cronicamente viáveis.

Canal: Quim Graça                                             Música: “Take This Waltz”, Leonard Cohen

 

CERTO MENINO

Media-se por competições

Estimava-se por reflexo em espelhos

Divertia-se com os desafios

Era um, mas era bem outro

Gostava de duelar

Gostava de vencer os duelos

Adorava exibir os troféus

Seduzia-se por ser sempre o vencedor.

Era um homem, mas era apenas um menino.

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MULHER FÁCIL

Não sou fácil,

saiba disso.

Não sou fácil de saboreio nas coxas

não sou fácil de conversas paralelas

não sou fácil de verbos banais

não sou fácil de meios termos meias entradas,

rápidas saídas

não sou fácil de sair da dança do samba do tango.

Não sou fácil de entregar pacotes prontos

embalados em papel de seda de maçãs.

Não sou fácil de ler de ver de ter de me ter

assim separado, ou junto.

Não sou fácil sem hora senhora,

sou sem ouros e pedras falsas

sou de moles e duros de meios e fins.

Não sou fácil em ventre e membros

Não sou fácil de peles e gostos

Não sou fácil de descascar cortar chupar e engolir.

Sou de digestão difícil

Sou ácida nas bases

Sou base nos doces.

Sou sal nas unhas.

Não sou fácil

Saiba disso.

Rejeito fáceis, fósseis e fôssemos.

Canal: Rafael Martins – Elis Regina canta Corsário em um programa de 1976 para a Rede       Bandeirantes. Arranjos Originais

Texto e versos: Odonir Oliveira

Rio de Janeiro aqui

O RIO E EU

uma luz

uma cor

uma vez

uma voz

uma morenice irmã

um sabor de sal

um sabor de picolé de abacaxi

um sabor de cachorro-quente

um sabor de sundae

um sabor de desejo …

Canal: Roberto Rosset

 

CARIOCA

Nasci nesse chão

andei nesse chão

cresci nesse chão

voei desse chão.

Chão que permanece em mim.

Fui carioca

fui paulistana

fui baiana

fui mineira

sou brasileira.

Canal: Darci Severo

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ESTRADAS PRÓDIGAS

rodas rolam

rotas rodam

rumos rasgam

riscos rasgam

risos ressoam

raios repercutem

ruas rodeiam

ritos rasos

ruga rima

raiva rima

rio rima

Rio rima

rodas rolam

Canal: Thiago Berrêdo

Versos: Odonir Oliveira