Casa de marimbondo

CASA SEM DONO, CASA DE MARIMBONDO

Dizem por aí que quem usa cuida. Pode ser. Mas em casa de poeta, marimbondo pode ser fatal.
Estando mais de 50 dias distante de jardins, galos e quintais, com 5 asas partidas, sem poder voar, confiando em mãos alheias, não em mãos que sentem, mãos de poeta, negligenciando – a contragosto – flores e passarinhos, a surpresa.

Deu que habitantes alados, sem terra, sem teto invadiram a propriedade. Com propriedade. Seria? Trata-se de recanto encantado, repleto de vermelhos e rosa, verdes-refúgio e éden de canarinhos, bem-te-vis, sabiás, beija-flores, maritacas e poeta.

Não fora autorizada nenhuma edificação, tampouco o habite-se de marimbondos ali.

Devidamente documentada a morada invasora no primeiro pé de mexerica, considerou-se a hipótese de não reprimir a colônia. No entanto, passaram a se achar os donos do pedaço. E poeta, quando começa a voar de novo, bate asas, reapropria-se de seu território e escreve.

Ao namorar suas plantinhas, conversar com suas rosinhas, encantar-se com as palmas cor de cenoura, todas elas sedutoras, reparou no voo do beija-flor ao redor delas. Permaneceu poeta ao encantar-se com aquele bater de asinhas tão apaixonadamente terno. Foi aí que – por ciúme ou crueldade – um marimbondo desceu de seu apartamento  e, num átimo, picou a poeta. Em seguida vieram todos os demais moradores e vilmente trataram de picar seus versos e seu lirismo.

Poetas são seres lentos, doem-se muito por agruras, vilezas, injustiças e sofrimentos alheios, o que dirá por seus próprios.

Tentando evadir-se, a poeta, ainda sem poder voar totalmente, que com asas adoecidas, vê-se picada em várias partes do corpo, nas mãos, no rosto. Dores demais, inchaços, vermelhidões.

Recorre ao doutor que lhe dá as orientações, de maneira virtual, e ri.

O anjo da guarda da poeta havia entregue sua carta de demissão, alegando trabalho escravo ‘’Ninguém dá conta de tanto serviço. Em 11 meses, essa poeta me deu mais trabalho que a Academia de Letras inteirinha, incluindo-se os imortais já mortais. Não suporto mais’’

 A poeta ouviu tudo e pediu que ele reconsiderasse.

Ardida, queimando em verso e prosa, ajeitava com a mão direita tijolinhos de gel congelados, dispostos em um embornal, qual uma mochila, sobre as costas, enquanto que com a mão esquerda congelava as demais picadas do rosto. De asas ainda quebradas, em convalescença, suportava tudo porque sabia que passaria, ah, iria passar, teria que passar.

No dia seguinte, a saga dos homens que vieram para exterminar o condomínio dos invasores de quintais alheios. Foram necessários 3 homens diferentes, cada um cheio de delicadezas e respeito com o jardim e as flores da poeta – que sabiam ter de ser assim. Mas, um deu continuidade ao serviço do outro e, por fim, chegou a termo a desocupação.

Como tudo tem seu lado bom, a poeta sentada no banco do jardim, na tarde, admira a beleza da correria, da brincadeira de pique-esconde das maritacas pelas árvores e telhados. Mas … surge o visitante mais ilustre de todos, ao som do canto dos bem-te-vis, surge ele, o tucano. Lindo, menino, formoso, fascinante.

A poeta vive onde há 2 bosques, um em cada extremidade da rua, portanto personagens alados desfilam o dia inteiro por ali.

Filhos – em cidade distante, e em país no outro hemisfério – se apavoram com mais essa peleja entre o perigo e a poeta. Afirmam que a escritora vivera um halloween nas Gerais.

Pois então …  já ela crê que o anjo da guarda tenha reconsiderado o pedido de demissão.

Texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal bboxerz

Chico, o meu Camões

CHICO, CHIQUINHO

Viveste antes de mim as ruas do Rio
nove anos antes
te conheci depois
quando eu já sabia ler
quando chegaram os festivais da canção
quando guria despertava para as paixões
teus olhos, tua presumida timidez
tudo era sonho em ti
fui aprendendo a ler o mundo
tua ajuda foi imprescindível
seguimos

CHICO, CIDADÃO BRASILEIRO

menina-moça tola, alienada, romântica
Chico vai dando os tons
é poesia
é fantasia
é país
é nação
vai poetizando o ar
musicalizando os tempos
vai com a lírica feminina
vai com a lírica da democracia
vai com as mãos dadas a nós
aqui
na Itália
o amor pela companheira
as parcerias com os amigos
as dores e fragilidades humanas
em si, em nós
seguimos

CHICO, AMOR CONTEMPORÂNEO

Homem explícito
homem verdadeiro
um amor de cada vez
pai de seu tempo
avô de seu tempo
companheiro dos parceiros
companheiro das parceiras
coerente com seu discurso
amoroso
político
social
democrático
Chico romancista
Chico teatrólogo
Chico autor infantil
Chico das trilhas sonoras inesquecíveis
filmes, espetáculos de dança
musicais, óperas
Chico operário
Pedro Pedreiro da cultura nacional
na Construção, sempre como se fosse a última
leitor admirável
lançando cantores, músicos
Chico, um ser humano
maior que Fernando Pessoa
maior que Camões …

Em tempo: Lembro-me de um episódio em que Chico caminhando na praia, como gosta de fazer sempre, bermuda, camiseta e boné, foi interpelado de forma ”veemente” e insistente por uma mulher que gritava pra ele frases de plateia assediadora. Respondeu, mais ou menos assim, me respeite, moça, sou um senhor de idade. O que demonstra que sabe viver de forma coerente com a idade que tem.

Outra vez, minha amiga voltava ao Brasil e no aeroporto ficou frente a frente com Chico no balcão de um café. Apenas cumprimentou-o, sem alarde, sem exageros, sem selfie, porque Chico merece respeito por sua obra e por sua vida.

Leia mais em: O Tempo e Chico Buarque

https://www.revistacontinente.com.br/edicoes/221/o-tempo-e-chico-buarque-1?fbclid=IwAR2R-5Uu-lB0FM8Evt7dhhcqgIV33J9By-_Gt_9lSYyTG91rI0UWbMuiY90

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos da Internet

Vídeos:

1- Canal Thekel49

2- Facebook de Odonir Araújo

Sobre Chico leia aqui no blog:

Chico Buarque e as mulheres de si

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2016/03/20/chico-buarque-as-mulheres-de-si/

Chico Buarque, muito obrigada

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2018/06/19/chico-buarque-muito-obrigada/

Chico, por isso te amo

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2017/07/28/chico-buarque-por-isso-te-amo/

Chico Buarque, um ser totalmente explícito

https://jornalggn.com.br/blog/odonir-oliveira/chico-buarque-um-ser-totalmente-explicito

Fragrâncias

ACEPÇÕES

cheiro de manga
aroma de abacaxi
perfume de pernas
essência de amor
odor de sinais
eflúvio de bocas
emanação de cores,
bálsamo contra desencantos
fragrância de vida

OLHARES

repousa em mim
a luz do sol
a sombra da tarde
o perfume das minhas rosas
repousa em mim
a franqueza do ser
a dignidade do existir
repousa em mim
a carícia do vento da serra
o sol quente da altitude
repousa em mim
a paz da fraternidade
a luta pela igualdade
repousam em mim
os verdes, os amarelos, os rosas, os vermelhos
sou planta

BENDITAS ALMAS

Benditas as conversas de passarinhos
Benditos os que ouvem os passarinhos
Benditos os que permanecem imóveis frente a passarinhos
Benditos aqueles que têm colorido nas mãos,
qual seus companheirinhos,
salpicando-lhes alimento
em horas combinadas do dia.
Benditos os que veem bicos, asas, penas e voos
como mais que bicos, asas, penas e voos.
Benditos os escolhidos pelos passarinhos
para serem seus semelhantes,
quase iguais.

SILÊNCIOS EXTERNOS

tudo em meio a bem-te-vis
sinfonias que dialogam
cores que saltitam
frente a frente
olho, reparo, vejo
quieta sinto
quieta penso
quieta apaixonada estou
quieta apaixonada fico
olhos fechados
perfumes ao redor
alecrim, tomilho, rosas
flores de laranjeiras, de romãs, de pitangas
frente a frente
sinto
estou
fico

MEU QUINTAL

meus pássaros cúmplices
meus pássaros cúmplices
me trouxeram as sementes
me enfeitaram o quintal
árvores que vi crescer
árvores que vi brilharem
árvores
árvores
árvores
belezas que vi resplandecerem
no meu quintal
pertinho de mim
chegando juntinho de mim
árvores que semeei
árvores que encontrei
flores que chegaram
sem que eu pudesse
por elas nada fazer
nada impedir
nada coibir
só vê-las em seu florescer

POSTOS DE ABASTECIMENTO

Há instantes em que nos sugam até o espírito
Há fases em que nos vampirizam todas as emoções suaves
Há momentos de tamanha crueldade e desprezo a nos anular
Há voltas que destilam revoltas em corações esmigalhados
Há vazios perfurantes de facas sangrentas sobre nossa voz
Há que se abastecer os dias e as noites
Há que se beber do vinho tinto dos sorrisos
Há que se saber ler a si mesmo sem as leituras alheias
Há que se manter de pé mesmo após as rasteiras vis
Há que se abastecer de vida
com amigos
com flores e cantos
com risadas compartilhadas
Há de haver postos de abastecimento em nós.

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal: flores dos meus jardins

Fátima Guedes é uma cantora e compositora a quem admiro desde os anos de 1970. Encantam-me seus versos, seu timbre, seu eu-lírico. A quem ainda não a conhece, encante-se com suas canções no Youtube.

Vídeos:

1 e 4- Canal Fátima Guedes – Tópico

2- Canal cattease

3- Canal misterjohnfortal

Morro velho

MORRO VELHO

o dono, a dona
o filho dos donos
o capataz
os peões
a criançada colhendo
a criançada carregando
a criançada ali
de janeiro a janeiro
de domingo a domingo
pode ser assim?
pode continuar assim?
sem fim?

SEMEADURA

não sei
nunca soube
não pude
nunca pude
não leio
não escrevo
não compreendo
nunca fui
nunca pude
não sei

FAZENDA ESPERANÇA

PRESENTE FUTURO

5 da tarde
caminho de volta
barrigas cheias de livros
barrigas cheias de esportes
barrigas cheias de músicas
barrigas cheias de narrativas
cansaço no corpo
cansaço das travessias
corpo reage com esperança
corpo reage com energia
corpo reage com alegria
dormir
sonhar
presente futuro de seres humanos
semeaduras de afeto
semeaduras de atenção
semeaduras de cuidados

presente germinando amorosidades

SÍTIO SOLIDARIEDADE

BONS FRUTOS

Enem
e, nem, também
aditivas
mas, porém, todavia, contudo
adversativas
o bem
o mal
o bom
o mau
vai, segue, luta, resiste
união, agrupamentos, intenções
semelhantes
meninos e meninas
rapazes e moças
Enem
vai
seu rumo promete
sua meta na seta
reta
união, agrupamentos, intenções
vai, segue, luta, resiste
vai ser técnico
pode ser
vai ser mestre
pode ser
vai ser pesquisador
pode ser
vai ser doutor
pode ser

VIVENDA DOS OLIVEIRA

FLORAÇÃO

Na rota, um porto
Na reta, um ponto
insípido inóspito infértil
No tronco, uns galhos
Nos galhos umas folhas
secas opacas estéreis
Alma no trajeto
Curvas no caminho amargo
Gotas de perfumes
Pingos de cores
Chuvas de flores
fertilidade, sedução
produção
Poesia
Caminhos doces então.

O mestre Paulo Freire ensina a força do trabalho e as diferenças sociais.

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal Dubas Musica

Vídeo do Facebook publicado por Pense é grátis

A fadinha encantadora

SE ESSA RUA FOSSE MINHA …

Ah, se fosse, princesinha
ah, se fosse
eu penteava seus cabelinhos
bem devagarinho
eu ia lhe emprestar todos os meus versos
meus colares, meus anéis, minhas pulseiras
minhas pedras, minhas conchas, meus livrinhos
Ah, se fosse, princesinha
ah, se fosse
eu ia ler historinhas e poemas
noite e dia, dia e noite pra você
eu ia expurgar qualquer dor, machucado, gripe, tosse
Ah, se fosse, princesinha
ah, se fosse
eu ia assoprar pra bem longe
todas as mazelas, todo o ódio e rancor circundantes
eu ia assoprar pra bem perto, bem pertinho
todas as alegrias, todos os risos, todas as gargalhadas
todas as estrelinhas, todas as borboletas, todas as joaninhas
Ah, se fosse, princesinha
ah, se fosse minha !

Bendita seja, menina-fadinha !

Texto: Odonir Oliveira

Foto de arquivo pessoal

Vídeo: Canal Odonir Oliveira

Meritocracias

CAMINHOS E ROTEIROS

segue, vai, ruma
magistério no estadual
integral com mínimo salário
estuda
segue, vai, ruma
seis irmãos
vão
sábado-domingo vende
pipoca, cachorro-quente
em frente ao estádio
lotado
a mãe, os irmãos
vendem
segue, vai, ruma
aulas da semana
mana
pauliceia desvairada
trem, ônibus, canelas
grana pouca
viaja nos sonhos
dorme no trem
que vai e vem
subúrbio que nem
formatura, troféu dos céus
falta cascalho pra FUVEST
salva pelo ENEM
segue, vai, ruma
facul privada
financiada
noturno
no contra-turno trampa
com a meninadinha
é fadinha
escolinha na favela
concurso público
professora, pedagoga
segue, vai, ruma
tudo é duro
tudo é árduo
tudo é garra
age

sabe na pele
sente na pele
sem discurso
age

COM A ESTRELA NA TESTA

bronze de cidade maravilhosa
ri, segue, ri, segue
enfeita a paisagem
todos querem
todos notam
todos seguem
doutora pediatra
consultório particular
zona sul
engajada nas passeatas
gritos nos cortejos políticos
ap. de frente pra Lagoa
ri, segue, ri, segue
democrata
socialista
republicana
chora com as crianças carentes
soluça com as injustiças
cristã sem igreja, cristã
escolas particulares
viagens ao exterior
heranças dos pais
ap. de frente pra Lagoa
democrata
socialista
republicana
sem clinicar na favela
sem doar de seu
vota certo
desfila nas procissões políticas pela orla
ri, segue, ri, segue
democrata
socialista
republicana

Salve Eunices, Mônicas, Célias e tantas.

Salve Dr. Mauro , mauromutum, médico de família do Posto de Saúde, sem consultório particular, ”internacionalmente” reconhecido no bairro do Carmo. (Por seus méritos, recebeu de presente de Luís Nassif, um livro com aquela bela dedicatória e entregue pelas crianças do Clubinho da Leitura, em 2015).

Leia também: ”Quem tem mais mérito? É preciso ver a largada”

https://rodrigohubnermendes.blogosfera.uol.com.br/2019/10/22/a-linha-de-largada/

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal (São Paulo e Rio de Janeiro, Minas Gerais)

Vídeos:

1- Canal Emicida

2- Canal Gabriele Oliverio

“O sertão é dentro da gente”

Depoimento de Marcos sobre ”Os Caminhos do Sertão- caminhada coletiva pelos sertão de G.Rosa”, em julho de 2019

Cheiro rosa de poeira

Ainda penso sobre o peso colorido das poeiras daquele chão. O cheiro que o ar transportava e levava, o calor intenso que exalava da terra e dos corpos que seguiam em uma espécie de romaria rumo a uma terra prometida e já de posse tomada. As pessoas, de diversos credos, tamanhos, papéis sociais e vontades, portavam um cajado de bambu que se transmutava no corpo equestre, cuja cabeça era encoberta por fios de lã entrelaçados para coroá-lo. Por um instante, pensava no velho e bom Rosa ao ver, do alto, a cena dos tais peregrinos: talvez, deliciava-se com boas gargalhadas ao dizer que sua obra, na verdade, era apenas para ser lida; talvez, já encantado, via com os olhos marejados a intensidade do movimento dos passos de pés machucados e das almas sedentas em sertão plenas. Entendia que naquele universo onde reinam os interiores pessoal e da nação, nada pode se desejar, porque, de fato acontece. Desde a pequena vontade de comer pipoca até o refrescar a garganta com um geladinho de fruta do cerrado: passos a frente, o milho em forma de noiva, ganhava no gergelim da rapadura de Seu Raimundo, sabor igual e, ao descer a ladeira sobre os cascalhos e sob o sol escaldante, meninos com cor de jambo traziam em suas caixas térmicas porções mágicas congeladas para saborear. Sim. Nada pode se desejar. Ou, melhor, pode, sim!

É que o sertão é terra de desejo e de medo, porque lá não há máscaras. Ele é assim. Ama-se ou se odeia. Não há meio termo nem tempo para delongas e des-verdades. Há, sim, outro tempo. O tempo dele, de seus povos, de seus frutos, de seus sóis e luas que se confundem. A cadência está em outra lógica que transcende à da ciência, da religião, das previsibilidades. O encontro com o “miolo” do real. Tudo é muito tudo, sabe? Intensidade, poderia ser outro nome. Intensidade que se potencializa no mistério. Não há como descrevê-lo sem recorrer às falas de Riobaldo ou de Miguilim… Isso porque, diferente do segredo, o mistério não se encerra: contempla-se. O segredo, descobre-se, desvela-se, decifra-se. O mistério, não. Está na ordem de outra linguagem que, provavelmente, por conta da nossa imperfeição humana, utiliza-se de várias linguagens para poder chegar até a nós.

Então, ouvem-se gritos e cheiram-se olores perdidos nos galhos imaginários de um cerrado real repleto do simbólico. Como aquilo que “une”, o simbolé convive com o diabolé que separa. Este último que empresta o seu prefixo para aquele que está no meio do redemoinho (diá+bo) ou para aquele (aquela) que era a “neblina dos olhos” do jagunço protagonista (diá+dorim). É o que é e não é. É a força do “exu” que é o sim onde deve ser o não e vice-versa: força de vida, da potência, da instabilidade, do caos que gera ou pode gerar o cosmos. O exu que emprestou seu nome para apelidar tantos caminhantes que, ora surpresos, não se davam conta da força que tem a palavra.

Palavra dita e não escrita; desenhada, falada, cantada. Cantada ao som do toque de um cantil que, de forma mágica, tornou-se tambor. E que, ao ritmo do carnaval das ruas de Salvador, ajudou a dar passos mais esquecidos de dor nos areais, cascalhos, vegetação rasteiras, chão batido. Foram momentos mágicos de transformação e de transmutação. O suor dos corpos era fruto do bailar coreográfico somado aos risos e vozes de um povo que sonha e que canta; que grita e que chora ao mesmo tempo. Um povo que caminha. E que não recusa a travessia por ter elegido a busca… Sim!

Um espaço desorganizadamente organizado para confundir, onde um dos guias que detinha a maior precisão de tempo e espaço, possuía, fisicamente, deficiência visual. Como pode um guia “sem ver bem”, guiar pelas sendas, sobretudo noturnas, caminhantes desorientados? A resposta está na própria travessia: não só ele guiou como ensinou a guiar. Os seus olhos eram outros. A pedagogia da “guiança” foi uma das muitas que surgiram nesses dias de travessia.

Nessa mesma ordem, trago à memória a cena de médicos sendo tratados por homens sem ter estudado medicina. Psicólogos usando o chão como divã ao dividir suas dores e anseios com outros sem formação semelhante.

Fotógrafos se deixando fotografar pelas lentes de aprendizes… Sacerdotes sendo “rezados” por leigos… Foram vários momentos de inversão de uma lógica dominante de poder e de status, possibilitando ver, entender e pensar a vida de outra forma. De outras formas. É possível. É, verossivelmente, possível. Constata-se. Há uma mística do caminhar que é revolucionária. Passo-a-passo com constância e respeitando o ritmo pessoal e coletivo. Já sabíamos que “ninguém solta a mão de ninguém” e aprendemos que “ninguém pisa na bolha de ninguém”. Caminhando ou dançando uma quadrilha junina improvisada ou nas cantorias dos reisados. E, ninguém pisou: ao contrário, cuidou. Sarou. Com pomadas ou com lágrimas. Com os passos dos pés ou nos assentos dos carros de apoio. Todos chegaram. Todas chegaram. Descidas e subidas, pedregulhos e areias.

Poeira e veredas. Ah! As veredas.. com seus imponentes e elegantes buritis que sinalizavam ali ter água. Água cor de Oxum de temperatura gélida que massageava os pés brasis. Vi juntarem-se aos leitos delas, lágrimas de uma caminhante que dizia ter lido o Rosa em preto e branco e que, agora, o faz em “3D”. É o “Rosa no Rosa”.

Ah! Tantos sonhos reforçados em balões coloridos imaginários que subiam e ficavam juntos às estrelas daquele mar de areia do fim de tarde, onde vimos uma amazona sem precedentes, com cabelos ao vento, galopar sutil e fortemente sob o lombo de um cavalo. Ela atravessava portais e nos convidava a isso também. Seguia os passos do disseminador de enigmas que, com o chapéu de vaqueiro e um olhar-olho, via mais que todo mundo: era o Mestre dos Magos que, com seu abrir-e-fechar portais, nos aprisionou para sempre no mundo do nosso interior de busca e de travessia. Ele aparecia e sumia “do nada”. Como, “do nada”, a trupe encantada nos surpreendia, ora na vereda, ora no chão de terra vermelha, com performances que, por uns minutos nos tiravam do “real”, colocando-nos num tapete mágico de sonhos e de reflexões e, quando o último grão de areia da ampulheta caia, tiravam-nos o tal suporte e nos devolviam ao chão e, descaradamente, dizia: “boa em pratos e copos plásticos como aqueles das merendas da minha infância no povoado do Km 100 travessia!”. Ainda me perco nos sabores das comidas servidas na Bahia, no canto dos pássaros antes das quatro da manhã ou do galo que “diza” uma frase obscena; no prateado das madeixas da Vó Geralda ou nas lágrimas do valente Jorge; no romper de Seu Agemiro e de Bergues ou nos roseanos versos cortantes declamados por Elsinho; na figura de uma sacerdotiza medieval de Fernanda, na altivez e doçura de Gabi ou no sorriso e lágrimas de Alice, seguidos pelos tons doces da flauta de Gustavo. No olhar de Paulo que me fez ir às lágrimas muitas vezes ao pensar sobre o meu “ver” nesse/desse mundo. Olha. Preciso parar um pouco de escrever, porque aqui, a travessia continua, sabe?

Da janela da minha cidade-feitiço, vejo prédios altos e o mar no horizonte. Aqui, também, há ser-tões. Aqui, nesse terreno é o meu escolhido para continuar a dar os passos. Sim. Parece que estava lá no Monte Tabor e que, agora, foi necessário, literalmente, desarmar as tendas e descer. Aqui, há muito o que caminhar. Mas, esse peso colorido daquela poeira não me larga. E não quero que isso aconteça. Quero estar com ele tatuado para sempre na pele da minha alma. Aliás, já lá estava: foram retoques feitos para garantir a sua existência e permanência, porque, de fato, a travessia é uma necessidade. Sinto que é possível, embora ser desafiador, vivenciar a magia desses dias aqui onde estou. Para isso, “vamos precisar de todo mundo” e seguir rumo ao rosáceo universo do ser-tão.

Marcos Cajaíba,

Salvador, Cidade-Feitiço, 19 de julho de 2019

Texto: Marcos Cajaíba

Fotos de arquivo pessoal: recantos e encantos das Gerais

Vídeos:

1- Canal Grupo Nhabuzim – Tema

2- Canal Danilo de Oliveira Azevedo (2012)

Leia também:

Guimarães Rosa, mire e veja

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”A colheita é comum, mas o capinar é sozinho”

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‘Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”

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”O senhor sabe o que é silêncio é a gente demais”

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Na terceira margem do rio: a de dentro

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2017/08/02/na-terceira-margem-do-rio-a-de-dentro/

Presentes, presença, alegrias

QUEDA

a escada, o risco, a força
o tombo
as pontas espetos nas asas
5 asas verdadeiras e falsas
dilaceradas
o pavor, a dor, os gritos assustadores
quem socorre
quem busca ajuda
quem ampara
quem está quem fica quem acompanha
o pavor, a dor, os gritos horríveis
o tapete voador sobre ruas trepidantes
massacre de ossos
estilhaços de nervos
urros insanos
a sedação
quem está quem fica quem acompanha
a madrugada de morfina
era só o começo
5 asas verdadeiras e falsas
esmigalhadas
a imobilidade
a dependência física
o medo emocional
dor, dor, dor
a morte fraterna na hora seguinte
o mundo podre ao redor
todas as energias negativas e perversas
emanadas por invejas, torpezas, perversidades
sangre hemorragicamente
depois grite
gema
chore dependurada no abismo em seguida
fique sem sua companheira fiel logo depois
sinta o veneno que sai daquela boca
a quem quiser sorvê-lo como verdades absolutas
sofra
sangre
vomite
grite
se desespere e por fim morra
se não você, quem estiver
em você
com você
Mas a sororidade luta com as espadas do BEM
e SALVA

SUPORTE

traz a água
traz a roupa
traz o doce
traz as flores
molha os canteiros
deita na cama
embala o sono
lava o corpo
enxuga as peles
perfuma os sonhos
cobre de atenções
faz vigília com mezinhas tantas
confere o calor do corpo
chama o doutor
assiste na madrugada
sabe do bom
sabe do bem
canta parabéns
enfeita a mesa
busca a medicação
aquece o coração
enfeita de orquídeas o ser
enfeita de músicas o estar
ora de mãos dadas
a roda do bem
combatendo o mal
sororidade de fato
afetos de direito

HUMANO

caminha
encontra, atende, ampara, acolhe
reparte, acarinha, ouve
socorre, ensina, auxilia
doa-se, pertence, assemelha-se
sofre, chora, cura
alegra, ri, cura-se
bebe em comunhão
come em comunhão
ama em comunhão

ser comum
ser coletivo
ser humano

DOAÇÃO

doa-ação
não se doa
doe ação
faça, aconteça, integre-se
junte-se, misture-se, reparta-se
mire, olhe, enxergue

seja um
seja dez
seja mil
seja um
sejam dez
sejam mil

doar não é dar
doar é ser
HUMANO

OFERTÓRIO

ora com as mãos
mãos que sentem
mãos de afeto
embrulha
enlaça o laço da fartura
semeia livros
semeia cores
age
reparte
retribui
ora com as mãos
então, faz

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal Piano Brasileiro