Há belezas em todos os lugares

PAINEIRA

sagrada e bicentenária
resiste ao declive
resiste às histórias
resiste às mortes
emoldura corações sensíveis ao belo
aguardo meses para que se embeleze assim
tomo-a, então, para mim
passo por ela diariamente
sei que está lá
do alto tudo vê
do alto tudo sabe
faz-se muda
porque são os passarinhos que cantam para ela
faz-se imóvel
porque é o vento que a faz dançar
faz-se rija, severa e discreta
porque duzentos anos são duzentos anos
resiste aos homens
resiste aos tempos
resiste a tudo
só para eu poder encontrá-la 
ali no fim da minha rua
diariamente

FLORAÇÃO

Na rota, um porto
Na reta, um ponto
insípido inóspito infértil

No tronco, uns galhos
Nos galhos umas folhas
secas opacas estéreis

Alma no trajeto
Curvas no caminho amargo
Gotas de perfumes
Pingos de cores
Chuvas de flores
fertilidade, sedução
produção
Poesia
Caminhos doces então.

EMOÇÃO ESTÉTICA

Pre- lúdio
procura… encontro
tronco firme
beleza cor forma impacto
reentrâncias imperfeições
perfeição
olhos verticalmente embevecidos
tato majestosamente ativo

surpresa estética
ambição de posse
prazer repartido,
êxtase parcial

tronco árvore
posição de cruz
tronco galhos folhas atados
firmes eretos vibrantes

tocam-se
tocam-nos,
orgonicamente,
prazer estético
folhas galhos dançam

levemente
suavemente
ritmadamente
freneticamente
natural – mente
êxtase total.

LADO A LADO

gramínea nativa
purificando
enfeitando
decorando
alimentando

o ar que respiro
as matas em que piso
as casas que me acolhem
as estradas que me recebem

Não se dobra sozinha
Menos ainda em feixes

ar
terra
força
berço
união

Beleza !

É PRECISO TER PACIÊNCIA, DAR UM DESCONTO, QUANDO SE VIVE EM CIDADE PEQUENA

Saio pra fotografar a paineira, de 200 anos, do fim da minha rua, que está no auge de sua floração. Aí ouço:
– Vem da cidade, nunca viu árvore – dito pela mulher sentada numa oficina mecânica, puxando e jogando conversa fora com o mecânico.

Deve me ver de carro, sabe que vim de SP, sabe onde moro etc. Não a conheço. Penso se engulo seco, se respondo, se abaixo a cabeça, se finjo que não ouvi …

Costuma-se dizer que santo de casa não faz milagre ou que não se dá valor ao que se tem em casa. Sinto muito isso nas cidades maravilhosas que visito por Minas Gerais (mas deve ser assim em outros estados também).
Como incomoda quem é diferente, meu Deus. Parece ser um misto de inveja, com vaidade e desconhecimento, gerando muitas situações desagradáveis, cotidianamente.

Penso, enquanto continuo a fotografar e dou umas três respostas certeiras ao seu comentário de deboche. Ando bastante cansada de receber frases debochadas de pessoas variadas. Ela logo se desdiz – o que é bem típico por aqui – tenta consertar. Arremato com 2 ditados de minha mãe ”Quem fala o que quer ouve o que não quer ” e ”Não se mexe com quem está quieto”.

No mais, um bom tanque cheio de roupas pra lavar também faria bem.

Poesias e texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal: paineira bicentenária da minha rua

Vídeo: Canal jnscam

Cavalos encantadores

Cenas do filme The Horse Whisperer, 1998


Cavalos, equus, ίππους

aliso sua crina
seu dorso sua em minhas mãos
seu olhar agradecido
qual vaga-lume me enternece 
bruto por fora
encantador por dentro
gira o rabo de cavalo despenteado
abaixa a cabeça enorme até o chão
quase monto seu pescoço
quase abraço sua força
quase beijo-o por sedução
sê-lo, sela, fascinação
cavalo cavalo cavalo
equus, ίππους
passo, trote, galope
trilha, anunciação

Marliéria, MG
Barbacena, MG
Potreiro, Alfredo Vasconcelos

MANTRAS

Tenho uma relação forte com os animais. Já gostei muito de macaquinhos, sempre de cães e gatos. Mas sou fascinada por cavalos. Gosto de contemplá-los de pertinho. Olhos enormes, cabeça enorme, dorso apolíneo, patas e passos elegantes. Gosto do som deles, dos relinchos, passos, trotes até os galopes. Posso ficar vendo aquilo, encantada, por muito tempo. Gosto de falar com eles e de cantar mantras para eles deitarem e dormirem mesmo. Engraçado, mas é muito restaurador, cantar pra cavalo dormir. Parece aquilo que a gente faz quando vai ninar criança e acaba dormindo, sabe.

Aqui, quando há a EXPOSIÇÃO com criadores do país inteiro, gosto de ir à noitinha, visito as baias e vou namorando um a um. Hoje apresentam-se com crinas adornadas, são cheirosos e têm espaço suficiente para colocarem a cabeça para fora, serem acarinhados, beberem água nos cochos e deitarem pra dormir, com luz fraquinha. Aí é que entro a cantar mantras pra eles. Uma delícia, vê-los ir amolecendo, amolecendo, até deitarem totalmente com a cabeça no solo. Um amor. De repente, aqueles animais enormes se tornam filhotinhos de gatos, mansinhos, agradecidos. É mesmo encantador.

Assim foi com esse lindinho numa noite em Poços de Caldas.

Estando em Marliéria, em setembro de 2017, pude acompanhar uma cavalgada, primeiro da janela, depois indo atrás até a praça principal. Já havia seguido outra em Cruzília, em 1999, com os tropeiros da Fazenda Bela Cruz. Gosto da linguagem dos tropeiros, das patas dos cavalos no solo, dos apetrechos que carregam. Além da cantoria e das orações, ao final. Nessa de 2017, havia moçada jovem também – meninos e meninas. Era lua cheia.

Monumento ao tropeirismo mineiro – imagens em tamanho natural, Marliéria, MG

COMPANHEIROS PETRÚCHIO E JERÔNIMO

Sigo conversando com Jerônimo. Petrúchio sabe onde ir, Petrúchio merece uma fala carinhosa, um dengo, uma menção. Segue me conduzindo faceiro. Sobe pedras, ladeiras, becos. De repente empaca, quer ir mais não. Jerônimo então me tranquiliza: Uma vez ou outra faz isso, mas converso com ele, ele entende e segue. Assim foi. O cocheiro me conta a idade de Petrúchio e que em seus dias de folga, passa para vê-lo no pasto. Só de ouvir sua voz, vem correndo. Quase um cachorrinho de quintal – penso eu.

Cruzamos com outra charrete, Petrúchio para, quase acenando para o outro companheiro – como o fazem, buzinando, os caminhoneiros na estrada. Pergunto sobre maus tratos, abusos de horas de trabalho etc. quase uma advogada trabalhista dos equinos – digamos assim. Jerônimo explica-me sobre a fiscalização e sobre o número de horas e de anos que os cavalos devem trabalhar. Depois é aposentadoria. É o caso do nosso Petrúchio, quase pendurando as ferraduras. Não resisto a uma namoradinha. Ele me olha, eu o olho, Jerônimo ri daquilo. Levo com o animal um papo só nosso. Afinal, só quem ama é capaz de conversar com cavalos, não é mesmo?

Começa a chover. Vamos embora. Petrúchio entra no estacionamento, com britas, ai que perigo, pra me deixar na porta do carro. Despeço-me deles.

Petrúchio é meu novo amor em Tiradentes.

Petrúchio, Tiradentes, MG

ίππους

Nessas últimas jornadas com gregos e troianos,
tenho a companhia de um equino pensador
Ele olha, sente, analisa, reflete,
ausente do repertório pregresso-perverso,
contempla.

Meu híppus mágico
me viaja e eu nele
por longes
por lagos, montanhas e oceanos.

Por nunca está apartado, negligente, disperso.
Cavalga-me leve
cavalga-me brisa
cavalga-me vento.

Zeus, Tiradentes, MG

ZEUS, O CAVALO MINEIRO

A Tiradentes me acolhe em seus braços
perambulo trôpega por seus becos
com meus motes e temas.
Nada me consola, nada me refaz,
hoje nem montanhas, nem nuvens, nem céu profano …
Sou corpo, sou voz, sou Eros muitos,
Zeus me bloqueia o ir,
Zeus me ensina seu nome.
Quem teria me mandado esse Zeus, cavalo mineiro?
Quero seguir

Zeus me fita
Zeus me recita odes e ódios
as de uns e os de outros.
Sou greco-mineira de corpo e versos.
Sou a que tem que seguir ?

Zeus, me diz !

Em 1975, assisti à montagem teatral ”Equus’‘, de Peter Shaffer, em São Paulo. A curiosa história narra o tratamento de um rapaz por seu psicanalista por haver cegado 5 cavalos. Os animais o fascinavam enormemente. A direção era de Celso Nunes e me lembro bem de Ricardo Blat como o rapaz e de Regina Braga, em um dos seus primeiros papeis no teatro. Saí da plateia dominada por aquele fascínio que os cavalos exerciam sobre o rapaz.

Poesias e textos: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1- Canal Carolina Holanda

2- Canal jnscam

”Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu”

LADAINHA

minhas mãos não me obedecem
quero escrever palavras coloridas
tudo é lama
tudo é resto
tudo é destruição
tudo é crime
minha boca não me obedece
quero cantar uma canção de ninar
tudo é lama
tudo é resto
tudo é destruição
tudo é crime
minha pele quer sentir as gotículas do rio nas pedras
quero molhar meu rosto com mãos em concha
tudo é lama
tudo é resto
tudo é destruição
tudo é crime

HUMANO

caminha
encontra, atende, ampara, acolhe
reparte, acarinha, ouve
socorre, ensina, auxilia
doa-se, pertence, assemelha-se
sofre, chora, cura
alegra, ri, cura-se
bebe em comunhão
come em comunhão
ama em comunhão

ser comum
ser coletivo
ser humano

LAMA ASSASSINA

bruma sina
sem rima
lama assassina 
sem dó
tudo lama
lama humana
lama refugo
lama mortes
de novo
sem retorno
grana lama
grana lama
grana lama
sem dó
sem voz
sem vez
sem lei
sem rima
sozinhos
Brumadinho

DOAÇÃO

doa-ação
não se doa
doe ação
faça, aconteça, integre-se
junte-se, misture-se, reparta-se
mire, olhe, enxergue

seja um
seja dez
seja mil
seja um
sejam dez
sejam mil

doar não é dar
doar é ser
HUMANO

CORAÇÃO ESPATIFADO

Tenho meu coração em frangalhos hoje
Tenho meu peito carregado como a explodir
Tenho meu país em sangue a gangrenar
Tenho uma vontade enorme de deitar em seus braços e chorar
Compulsivamente. Convulsivamente.
De lhe pedir que negue que o que vejo é o real.
Tenho uma vontade imensa de buscar compreensão para o quê, sozinha, não consigo.
Sou pesar, ódio, reação e medo.
Nunca estive tão só em meu país !

VERMELHO

é sangue
é sangue de árvore
é sangue de ave
é sangue- veia
é sangue de ovas
é sangue de flor
é sangue torpor
é sangue pavor
é sangue grito- terror
vermelho sangue
doce rio vermelho exangue
em sua dor
em nossa dor.

EU, NÓS

Se ando e enxergo, maravilho-me
Se paro e contemplo, pulso
Se ardo em sensações, vivo.
Se estou numa fala num gesto num sorriso, continuo.
Se toco a dor humana, emano
Se acarinho a terra vermelha, sou.
Se tenho compaixão, ajo.
Se tenho ainda a emoção, levito.
Se ando e enxergo, maravilho-me

SOPRO DE MORTE

Morre-se em vida
Vive-se morrendo
O tempo é um vento
O vento é um sopro
A vida é um verso
Mas em que ritmo ?

DEDICATÓRIA: As rosas do meu canteiro são para todas e todos que perderam aqueles que amavam e sua história em Brumadinho, MG.

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal : Brumadinho, Córrego do Feijão, rio Paraopeba, MG

Vídeos:

1- Canal Alberto Nogueira

2- Canal Douglas Pawoski

3- Facebook de Odonir Araujo (Tiradentes, MG)

Neves

NEVANDO

Começou aos poucos
flocos, flocos, flocos
a menina admirada fez seu boneco de neve
adornado com maçãs vermelhas
qual num filme de infâncias tantas
admirava-se de ter flocos queimando-lhe a face
bebeu neve
comeu neve
respirou neve
caminhou na neve
marcou a neve
marcou-se de neve
Nevando
encantou-se com os esquilos
juntou nozes
deu nozes a eles
saudade de uma infância não vivida
lirismo gelado
protegido por sonhos
a menina brincou na neve
o cão caminhou na neve
poesia

IMAGEM RECORRENTE, A SOPA QUENTE

Desde menina, fulgura em mim a imagem recorrente do prato de sopa quente.
Filho reclama da conversa de tema recorrente
De novo isso, de novo isso.

São nevascas constantes
são ventos gelados
são ares glaciais
são abandonos na paisagem
são passos quase insuportáveis
são vezes e vozes eternas.

Socorro imperativo
murmúrios, gemidos
ranger de portas supostas
acesso a corações
acesso a corpos
acesso ao calor
acesso ao fogo
acesso a sopas quentes.

Da minha infância,
dos filmes em que vivi,
das narrativas que li,
o que são essas sopas quentes
o que são esse fogo e esse rescaldo
recorrentes correntes
nas neves de mim ?

O BANCO

Sentou-se ali no outono
encantou-se com o colorido das folhas no chão
Sentou-se ali na primavera e perfumou-se de flores
Sentou-se ali sempre
Agora os pés estão frios
Agora há marcas em si
O coração está gelado.
O banco coberto de neve.
Não está mais ali.

LONGE DAS NEVES

Nunca me senti atraída por neves. Não tenho aquele desejo de quem nasceu em país tropical e sonha em conhecer a neve, pisar na neve, se agasalhar para a neve. Nunca senti isso. (Como também nunca desejei apaixonadamente o mar, as praias – o que é muito comum em quem cresceu longe de mar)

No Chile e na Argentina, a Cordilheira dos Andes está sempre ali, a neve é eterna e está sempre a escorrer suas lágrimas num lamento latino. Vulcões com neve eterna também são mágicos de se ver. No entanto, estar na neve, andar na neve, patinar, esquiar jamais me despertaram qualquer atração. Acho a neve muito invasora. Talvez seja coisa de outra(s) vida(s). Gosto do sol tropical do meu país, das frutas que nele encontramos o ano inteiro e da cor e da textura que me fazem a pele.

Amo o meu país. O meu país é o Brasil.

Fechadura pelo lado de dentro da residência

Poesias e texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal: Toronto, Canadá

Vídeo: Canal Maureen712

Gregos

Jovem e velho

DOZE TRABALHOS AINDA MAIORES QUE OS DE HÉRCULES

Entrei para a FFLCH da USP em 1973. Cursaria Letras Clássicas, no período noturno. Lecionava para crianças nos períodos da manhã e da tarde. ( As crianças tinham de mim apenas 10, 12 anos de diferença). Eram necessários 132 créditos pelos semestres. O curso me conferiria bacharelado em língua e literatura gregas. A par disso, cursava língua portuguesa, literatura brasileira e portuguesa, linguística, teoria literária, que me confeririam bacharelado em língua portuguesa e literatura brasileira e portuguesa.

Durante o bacharelado ainda fiz 2 semestres de francês, 2 de italiano, 2 de latim, 2 de cultura chinesa e muito mais como matérias optativas.

O curso de português era baseado em leituras e leituras. Ninguém poderia achar que fosse aprender português ali na Letras. Estudávamos gramática histórica, gêneros de redação, as mais modernas teorias sobre sintaxe e mais. Provas sempre discursivas e trabalhos individuais. Nos últimos semestres, alguns em grupo e apresentação de seminários.

Já o curso de grego era grego, literalmente. A língua dificílima, aprendíamos o grego clássico. Naquela década, grego moderno só em Paris, onde muitos dos nossos mestres e doutores haviam estudado. O primeiro semestre de literatura grega nos contaminou logo com a TRAGÉDIA. Lemos todas, os filósofos e críticos que as abordavam, como Artaud, e mais. Sempre preferi Antígona e Medeia a todas as outras. Enquanto, em geral se prefere Édipo-Rei, Prometeu Acorrentado …
Sofria muito com as traduções. Uma professora de retórica, bem beletrista, nos conflitava ”Como vocês vêm fazer Letras sem o domínio de pelo menos mais 2 idiomas!’‘ Pois é. Muitos de nós trabalhávamos o dia inteiro, portanto o sábado era dia de visita à biblioteca da Letras, da História… até fecharem. Domingo, íamos para a Biblioteca Mário de Andrade, no centro da cidade, e ficávamos lá até fechar. Líamos, líamos, estudávamos, estudávamos.

Os cursos semestrais de literatura grega eram fascinantes. Tragédia, Epopeia (Homero), Oratória, Iconografia, Poesia Lírica, Mitologia, todos respaldados nas leituras dos helenistas franceses. As traduções? Dificílimas, do grego clássico para o português. Além da grafia, as declinações, os casos, muitas variantes e, sobretudo, a interpretação dos textos – que só se tornava clara se compreendíamos a cultura grega, o pensamento grego, os valores gregos. Assim, havia que se estudar. Muito.

Na Letras da USP, tive os melhores professores como Antonio Cândido, João Luiz Lafetá, José Miguel Wisnik, Décio Almeida Prado, Nelly Novaes Coelho, Haiganuch Sarian, Neide Smolka, David Arrigucci, Philippe Willemart e tantos mais.

Depois fiz mais 1 ano de licenciatura na Faculdade de Educação: leis, métodos, técnicas, recursos, como ensinar. Como Educação Física era obrigatória, fiz handebol na Faculdade de Educação Física (nunca fui adepta a esportes).

Nesses anos, quis muito conhecer a Grécia. Encanto-me com o mar e suas construções sobre pedras. Mas hoje não quero mais. Os vídeos e filmes a que assisti me colocaram dentro da cena. Não saio mais do meu país.

Colei grau numa cerimônia simples (nós da USP – anos de chumbo – não dávamos a mínima importância para formaturas, bailes e tais. E, depois de formados, íamos para as trincheiras, nada nos fascinava em mestrados, doutorados e carreiras acadêmicas. Íamos para as salas de aula, de preferência, para as públicas, socializar conhecimento e visão de mundo). Depois de anos, formada, ainda tinha sonhos com os créditos que precisaria obter, os documentos na secretaria etc. etc. Jamais me desfiz de meus livros. Gosto do tato nos livros, gosto de relembrar quando os li, em que situações – talvez por isso goste de presentear pessoas com livros, ainda que não os valorizem.

Já meus diplomas, eu os guardo com carinho. Não chego àquele preciosismo de enquadrá-los e exibi-los na parede, no entanto, é possível que peça para ser cremada com eles. Custaram-me muita luta, muitos dias e noites, anos e anos.

Depois de formada estudei ainda muito mais.

Como afirmava o companheiro de ofício, Paulo Freire ”o teu conhecimento ninguém te tira nunca mais”.

Painel na USP

ποιητής , poietés

Ah, pudesse eu, imitando deuses,
ser palavra criadora
ser a que produz, a que fabrica e confecciona.
Sou uma operária na poesia.
Já avisei a Safo que não serei ela.
Já me expliquei com Teógnis, aristocrata,
sou plebeia, filha de fresador ferramenteiro,
não sei de lutas políticas o suficiente.
Já me entendi com Anacreonte, que pouco sei ser satírica
em versos de vinho e de amor.
Sou o que me fizeram.
Sou daqueles que me influenciaram.
Sou sombra deles, irremediavelmente

Για να έχεις πολλούς φίλους είναι να μην έχεις κανένα. Ter muitos amigos é não ter nenhum – Aristóteles

Η φύση δεν κάνει τίποτα μάταια. A natureza não faz nada em vão . Aristóteles

No momento em que fiz contato com Zeus, no alto da colina, ele me respondeu, ventou, fez-se ouvir, me ouviu e depois se foi. Perceba na gravação.

Texto e poesia: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1- Canal M Cals

2- Canal MTeresaSoares

3- Facebook: Odonir Araujo (Tiradentes-26/1/2019)

O caos

CAOS SURREAL

alucinações sequenciais
tropeços intestinais
figadais
destemperos contumazes
clima fervente
fel nas bocas
asco nos olhos
ódios nos ouvidos
paz e bem
sem
paz e bem
ninguém tem
todo dia ele faz tudo sempre igual
de manhã
de tarde
de noite
a labuta filha da luta
o grito na garganta
a cusparada iminente
o escarro subsequente
o tiro no escuro
os presos nos muros
a violência seguinte
o corpo seguinte
os corpos seguintes
alucinações sequenciais
normais

O ser humano precisa amar a natureza

LAMA ASSASSINA

bruma sina
sem rima
lama assassina
sem dó
tudo lama
lama humana
lama refugo
lama mortes
de novo
sem retorno
grana lama
grana lama
grana lama
sem dó
sem voz
sem vez
sem lei
sem rima
sozinhos
Brumadinho

Brumadinho, MG

QUERO UM PAÍS NAÇÃO

Quero rios admiráveis
brasileiros amáveis
de dentes completos
com cultura acessível
beijos amistosos
abraços sinceros
sonhos realizáveis
desejos coletivos
alegrias sociais
barrigas cheias de letras
barrigas cheias de eletricidade
barrigas cheias de água potável
barrigas cheias de ruas saneadas e saudáveis
barrigas cheias de pensamentos e reflexões.
Quero gente dançando e reivindicando
Quero caminhadas e blocos de ritmos, em consagração
Quero jovens plenos de conhecimento e decisão
Quero irmãos vivendo com mais merecimento e menos sofrimento
Quero mais paz nas ruas, no campo, na lua.
Quero olhar o céu como quem já se vai
deixando um país nação
mais intenso a todos
os que nele ficarão.

Marliéria, MG


Marliéria, MG

BLOCO DURO

missa na catedral
corpo pendurado
corpo exilado
corpo seviciado
corpo sumido
corpo meu
corpo teu
corpo nosso
corpos nisso.
imagens distorcidas
vozes sufocadas
portas lacradas
estupor
angústia
fel
vinagre
dominicanos
dor.
bloco na rua
blocos nas ruas
vielas becos travessas
melodias amordaçadas
sonhos torturados
medos.

Poesias: Odonir Oliveira

Vídeos:

1- Facebook de Odonir Araújo

2- Canal Poder 360

Esculpindo palavras


UMA ESTRADA REAL

No rumo, na rota, no traço
uma estrada real sangra meus olhos.
Parto com Beatles a meu lado
ora cantam
ora apenas orquestrados
ora apenas sussurrados.

O sol ao meio
as nuvens na ponta do para-brisas
o vento de acordes doces.
No caminho, um aceno do pai na beira da estrada,
no outro lado, a mãe me sorri,
mais à frente vejo avôs e avós que me estendem as mãos.
No azul do céu mineiro uma seta desenhada cuidadosamente
por tios e tias como se preparassem uma festa de batizado.
Esse é meu torrão.
Essa é a minha vereda, a minha picada.
Estou entre os meus.
Tiradentes corre nas minhas veias.

PEDINDO ESTRADA

Paro, que gosto de respirar mato.
Paro, que gosto de beber ar de rio.
Paro, que nada pode ser mais sensual que nuvens de algodão doce no céu.
Paro, que gosto de ouvir o som do nada cortado pelo bucolismo de mim.
Paro, porque meu sonho, meu lirismo, minha rima pedem estrada.

MÁGICAS MÃOS

há letras aqui
há arte aqui
paro e sigo o perfume
tem aroma mágico
escreve o que ouve
são ditos populares
ensinamentos, recomendações
filosofa com as mãos
o baiano artesão.
Olho, me encanto, enxergo
nada falo, observo
ele se recorda de mim
de meses e meses atrás.
Lembra que a senhora me perguntou lá
como aprendi, como invento,
se crio ou se só faço o que me encomendam
?
Sim, como não lembrar.
Seriam as mesmas perguntas que lhe faria agora
Guardei-lhe a obra
não o rosto
guardei dele as mãos
as mãos que esculpem
as mãos que encantam
as mãos que sentem

AÇÕES

punhos
pulsos
palmas

linhas de passado presente futuro
tarsos metatarsos 
dedos de nós
unhas na pele 
riscando linhas outras
desejos suspiros convulsões

começos meios e fins
infinitos fins
infindáveis fins afins
de mãos que mexem
de mãos que cobrem
de mãos que conspiram
de mãos que apalpam
de mãos que gozam
o gozo de viver.

De suas mãos também vieram, coincidentemente, antes, em 2016, dois presentes: o livro e a Virgem.

TRAVESSIAS

Vivo assim, sempre em travessias.
São rios, lagos e pontes.
São ruas, avenidas e estradas.
Vivo transpondo, atravessando, indo, seguindo.
Não há paradeiros
Não há desembarques
Não há estações nem portos.
Estou sempre em trânsito.
Meu trem não é de pouso.
Meu trem é de carga.

Poesias: Odonir Oliveira

Imagens de arquivo pessoal

Vídeo: Canal danaaris