Semana da criança: o menino das cocadas

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JOÃO E OS IRMÃOS

Era magrinho, mais do que os garotos de sua idade. Depois dele a mãe, de forma surpreendente, teve gêmeos, 2 meninos. E depois mais uma menina. Todos quase da mesma idade, 3 e 4 anos de diferença entre João e a irmã mais nova.

O Pai ganhava pouco para tantas bocas, tantos pés, tantas calças, tantos sapatos, tantas urgências. Das urgências nasceram as cocadas. João era o mais velho, coube a ele, ainda garoto, levar o tabuleiro pelas ruas, aos vizinhos, às portas das escolas, à saída da fábrica.untitled-5

Enquanto seus amigos se divertiam das maneiras mais divertidas de se divertirem meninos, João trabalhava. E, por amor à família, não achava ruim não. Seguia. Às vezes uma parada desobediente e cheia de meninice o impelia a ser garoto como os demais. Ali conquistava a todos. Sempre teve discurso convincente de vendedor. Reconhecia em si tal habilidade. Quase que intuitivamente, reconhecia. E vendia todas as cocadas.

Os amigos por vezes sentiam certa pena de João, assim tão cheio de compromisso com as vendas, comentavam um isso e um aquilo, mas tudo passava, que João era muito gente boa.

2c775fd763c0a85187babb2c5440c63e-arte-popular-coelhoTinha lá os seus complexos e, conforme foi crescendo, no começo do contato com as garotas, pode-se perceber algum detalhe de superioridade manifesta, disfarce para uma inferioridade latente nele. Escrevia muito mal, ortografia impossível, letra ilegível, tudo em seus estudos denunciava uma idade inferior à que já tinha. Parara no tempo, do ponto de vista cognitivo. Como trabalhador ia em frente, muito além do que se poderia estimar para um rapazola como ele.e52aef6f678e6d1d98a9f786da3caa64meninocomcarneirocc3a2ndidoportinari28195429

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Muitas vezes, ao desejar assistir à televisão, ficava do lado de fora, aproveitando a janela aberta de algum vizinho, e contemplava aquele aparelho, que como outros tantos também, não tinha em casa. Cresceu olhando pelas frestas aquilo que achava merecer.

A gangorra da vida empurrava João para o comércio Comprou no Paraguai, em S. Paulo, comprou sem Nota Fiscal, deixou de emitir recibos nas vendas, negociou o que deu e o que pode. Trouxe os irmãos para trabalharem com ele. Enriqueceu. Comprou um diploma em uma faculdade particular. Adquiriu muitos imóveis, casou com rica filha de fazendeiros, teve 3 filhos, mandou-os estudar fora do país. Enriqueceu.

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Tornou-se esnobe, sem perceber que é, relatando seus bens, suas posses a todos e a todo momento. Exibe, em encontros com amigos de outros tempos, lindos carros importados, bens materiais e engata narrativas esdrúxulas frente a eles.

A Síndrome do Pânico, o medo de morrer a qualquer momento, a fobia de avião e o medo de assalto, de sequestro, o corroem dia e noite.

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Texto: Odonir Oliveira

Imagens: telas de Cândido Portinari (retiradas da Internet)

1º Vídeo: Canal  Andrés Treviño

2º Vídeo: Canal TheVideoJukeBox4 (clique no Youtube)

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Fé, esse condimento eterno

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objeto
do meu mais desesperado desejo
não seja aquilo
por quem ardo e não vejo
seja a estrela que me beija
oriente que me reja
azul amor beleza
faça qualquer coisa
mas pelo amor de deus
ou de nós dois
seja

Paulo Leminski, do livro “Caprichos e relaxos“, 1983.

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DISCURSO

é solidária

é solidário

é cristão

é cristã

tem humanidade

tem sororidade

é socialista

é hedonista

é comprade

é comadre

é parceiro

é parceira

verbo oral

verbo escrito

olhar piedoso

olhar cândido

voz doce

voz piedosa

discursos

máscaras

couraças

hipocrisias

filisteu, filisteia

Você é ?

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COMO ENXERGO O FACEBOOK

Sempre tive meu próprio discurso. Mas sempre li muito também. E fui aprendendo com o que lia. E vivia, certamente. Tenho minhas contradições, minhas idiossincrasias, meus medos e desesperos, como qualquer um.
Gosto de belezas, principalmente das ofertadas pela natureza. Assim, posto e adoro ver belezas naturais postadas por aqui. Aprecio também as criadas pelo Homem, mas bem menos.
Gosto de cozinhar e vez ou outra testo uma das milhares de receitas que postam – muitas não dão certo- foram photoshopadas pra ficarem belas etc.
De literatura, não preciso falar…. posto porque gosto e acredito que as pessoas devam ler literatura. Ao mesmo tempo sei que a grande maioria lê rapidamente tudo no celular, sem concentração, sem encantar-se com as belezas literárias ali apresentadas, além de nem terem iniciação para saborear o que leem- e NEM QUEREM TENTAR, pelo menos. Pena. Nossos autores brasileiros agradeceriam, pelo menos eles.
Além disso, tenho uma trajetória de conscientização política que me impele a ser contra o capital, a bens materiais apenas por possuí-los etc, dessa forma ME AVILTAM posturas contra os mais pobres ou menos favorecidos pela vida, e todo tipo de hipocrisia social.
NÃO ACEITO falar-se em DEUS e continuar sendo concentrador de riquezas, pedófilo, manipulador de fieis, crentes iludidos por uma FÉ que não é nem cristã nem não-cristã – de quaisquer religiões.
Se há realmente cristãos que sejam NO DIA A DIA, DE FORMA VERDADEIRA, SEM OBSTRUÇÃO DO ACESSO À MELHORIA DE VIDA de toda a humanidade, de todos os brasileiros.
Vivo no Brasil., NÃO vou sair daqui.
Vou morrer e ser cremada aqui, se Deus quiser.
Facebook DEVE SERVIR não apenas para diversão. Seria muito pouco para a tão alta penetração que possui.
Refletir não doi.

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Entranhas, noites, sussurros, segredos

histórias, cumplicidades, desvãos

Um leque, uma moeda, um retrato

um terço

um meio

um décimo de vidas

um centésimo de tristezas

um milésimo de revelações.

Revelações de últimos meses, de últimos dias e horas.

Confidências insuspeitáveis.

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É um ponto

é uma meta

é um rumo.

Persigo

sigo

avanço.

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Bato à porta,

que fechada, me permite contemplações

Bato à porta,

que inerte,

me permite reflexões.

Bato à porta,

que signo, me conduz a leituras internas.

Adentro o adro sagrado, profana que ainda sou.

Bato à porta.

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Luzes em penumbra

altares, sinos e santos

toalhas brancas, presépios, mistérios,

ritos de vida e de morte,

encontros domésticos, casuais, sacramentados,

flores brancas,

perfume de rosas, jasmins, camélias e cravos brancos

Silêncios sigilosos de evocações

Humanos, sagrados pecadores.

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Cruzeiro de joelhos

ainda que doam e sangrem feito penitência ignorada.

Cruzeiro do madeiro bento

Cruzeiro da Senhora do Carmo

respondendo por mim

entendendo a mim

respondendo a mim.

Cruzeiro cheio de luz dos dias frios de junho.

Minas escorrendo sempre por minhas veias.

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Poemas: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal: Igrejas de cidades mineiras

1ª imagem: Foto do Facebook de Hermes Prado Jr.

Vídeo: Canal anindya8q

Quando eu tiver sessenta e quatro …

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INVERNOS

Quantos invernos cumprirão uma existência?

Quantos dias de chuva e de bonança comporão uma existência?

 

Quantas luas serão suficientes para um grito de êxtase e felicidade?

Quantas raivas, dúvidas, indecisões e tropeços antecederão a um beijo?

 

Quantas falsas interpretações dos sinais emitidos pelos ventos,

quantas incorretas leituras de sinais de fumaça,

quantas incompreensíveis decodificações de letras e números

quantas indecifráveis frases serão culpadas

por improváveis leituras de estrelas?

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CHEGANDO AO FIM

Nada importam cascas e capas

Nada importam tecidos e chapéus

Nada importam apupos e rapapés

 

Essencial é a alegria

Essencial é a simplicidade

Essencial é a cumplicidade.

Essencial é a bondade.

 

Os bolsos seguirão sem moedas

As mãos seguirão sem aneis

Os ombros seguirão sem afagos

As pernas seguirão sem apoios.

 

As últimas estações

não podem ser vias sacras.

As últimas estações devem ser leves, francas e ternas.

 

Se a vida é um sopro,

há que se encontrar

quem a assopre com ternura.

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Poesias:  Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

1º Vídeo: Canal Violeiro do Sertão

2º Vídeo: Canal MonaLisa Twins

Plataformas

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NÃO HÁ MAIOR COVARDIA DO QUE ENCORAJAR ALGUÉM SEM AMAR

Fabrício Carpinejar

O amor do outro pode ser perigosa vaidade. Não há nada mais sádico do que encorajar a paixão de alguém quando você não sente o mesmo. Deseja apenas ver até onde vai. Brinca com a seriedade das intenções alheias. Percebe as cantadas e não corta na raiz, pois pretende embelezar o quarto com as rosas. Faz com que a pessoa entenda errada a mensagem intencionalmente. Não quer, não ama, não é o seu tipo, porém curte o prazer da bajulação. Gaba-se da perseguição apaixonada, das mensagens exageradas.

Poderia avisar que não está a fim e liberar a alma antes que seja tarde, antes de um envolvimento comprometedor. Só que exercita a megalomania, não renuncia a distração, aproveita-se da carência e da disponibilidade da companhia. Transforma o pretendente num estagiário de seus caprichos, um office-boy de suas ilusões, pedindo favores inúteis, sem lógica e sem emoção.

Não aceita apenas o flerte, os agrados e as juras, mas dá corda. Perversamente agradece o elogio fingindo não deduzir o interesse por detrás.

Gosta dos paparicos, é um passatempo ajudar na construção de uma idealização e depois destruí-la com um sopro

Desperta, impulsiona, sustenta a relação platônica com frases ambíguas, mesmo longe de qualquer frenesi.

Enquanto testemunha o circo de presentes e mimos, zomba do candidato com os amigos e amigas pelas costas. Faz com que seja um príncipe na privacidade e um bobo da corte publicamente. Age com duas caras: uma visível para manter a sedução (involuntária) e uma oculta (consciente) para troçar das investidas.

Você coloca uma venda na vítima para ela cair no precipício. É muita maldade a ausência de sinceridade desde o início, com o claro objetivo de gerar enganos e frustrações. Quem faz isso está prostituindo o amor, quem faz isso está se vingando de decepções antigas, quem faz isso possui um corredor vazio de museu na aorta.

O final previsível acentua o desastre. Quando ele ou ela se declarar, falar o “eu te amo” com os olhos ajoelhados, quando não restar mais chances de fingir, usará a frieza mais mórbida e dirá que é um engano, que houve o entendimento errado da aproximação e que gostaria que continuassem amigos.

Causar a dor de modo desnecessário é papel de covardes.

 14/8/2017

https://fabriciocarpinejar.blogosfera.uol.com.br/2017/08/14/nao-ha-maior-covardia-do-que-encorajar-alguem-sem-amar/

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DRUMI, NEGRINHO!

Odonir Oliveira

Saiu correndo do trabalho que aquilo era assédio da chefia.

“Onde já se viu uma oferta daquelas? Que que ele tava pensando”.

Não sabia bem ela se achava o chefe bonito apenas, ou gostoso, como se diz por aí. Sabia que fraco não era. Tinha pegada. Falava com aquele jeito cafajeste que a mulherada adora ouvir em certas horas e em horas certas. Estava, então, sem identificar se eram aquelas as horas certas ou as certas horas.

Mas tinha que manter a pose ali.

Um olho no doce outro no gato.

Explicando e desenhando: ao mesmo tempo que não gostava de conversa de sacanagem, nem de piadas escrotas – segundo ela – adorava um toquezinho leve de braços, que nem Machado de Assis os descreveria melhor. Aceitava uns olhares, umas brincadeiras assim levinhas, né, mas aceitava e dava uma corda… ou melhor, botava pilha, como se diz hoje também.

Agora, aquele assédio ali… não mesmo!

Ainda se fosse na salinha reservada do café onde suas pernas já haviam roçado as dele por baixo da mesa e, quando ficaram sozinhos, até uma ligeiríssima bolinação ocorrera… se fosse daquele jeito da outra vez até dava. Mas assim, de chofre?! Que safado!

Safada ela era também, que safadeza é de Deus, uma prima muito religiosa lhe ensinara meses antes. 

Pensou, pensou. E voltou lá depois das seis, quando só a chefia costumava ficar. Havia, entretanto, um copeiro, que guardava as últimas xícaras do dia.No que viu que a moça voltara, fez o sinal da cruz e caiu fora.

Assediando-se inteiros, incendiando-se inteiros …

– É, drumi neguinho, que já tá quase quase na hora da gente vortá pra trabaiá amanhã.

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1º Vídeo: Canal  Clara Capelo

2º Vídeo: Canal JONNY OLIVER

3º Vídeo: Canal João Pedro

4º Vídeo: Canal BATIKILIN BRASIL

(N)A terceira margem do rio: a de dentro

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– Pai, cadê o rio que tinha aqui, pai?!

– A lama varreu, filho, o ferro lambeu.

– Mas como foi isso, meu pai?!

– Filho, isso começou quando …. 

 

A TERCEIRA MARGEM DO RIO , Guimarães Rosa

” Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.

Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a ideia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.

 Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — “Cê vai, ocê fique, você nunca volte!” Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: — “Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?” Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.

Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para. estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, se reuniram, tomaram juntamente conselho.

Nossa mãe, vergonhosa, se portou com muita cordura; por isso, todos pensaram de nosso pai a razão em que não queriam falar: doideira. Só uns achavam o entanto de poder também ser pagamento de promessa; ou que, nosso pai, quem sabe, por escrúpulo de estar com alguma feia doença, que seja, a lepra, se desertava para outra sina de existir, perto e longe de sua família dele. As vozes das notícias se dando pelas certas pessoas — passadores, moradores das beiras, até do afastado da outra banda — descrevendo que nosso pai nunca se surgia a tomar terra, em ponto nem canto, de dia nem de noite, da forma como cursava no rio, solto solitariamente. Então, pois, nossa mãe e os aparentados nossos, assentaram: que o mantimento que tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e, ele, ou desembarcava e viajava s’embora, para jamais, o que ao menos se condizia mais correto, ou se arrependia, por uma vez, para casa.

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No que num engano. Eu mesmo cumpria de trazer para ele, cada dia, um tanto de comida furtada: a ideia que senti, logo na primeira noite, quando o pessoal nosso experimentou de acender fogueiras em beirada do rio, enquanto que, no alumiado delas, se rezava e se chamava. Depois, no seguinte, apareci, com rapadura, broa de pão, cacho de bananas. Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim, ele no ao-longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio. Me viu, não remou para cá, não fez sinal. Mostrei o de comer, depositei num oco de pedra do barranco, a salvo de bicho mexer e a seco de chuva e orvalho. Isso, que fiz, e refiz, sempre, tempos a fora. Surpresa que mais tarde tive: que nossa mãe sabia desse meu encargo, só se encobrindo de não saber; ela mesma deixava, facilitado, sobra de coisas, para o meu conseguir. Nossa mãe muito não se demonstrava.

Mandou vir o tio nosso, irmão dela, para auxiliar na fazenda e nos negócios. Mandou vir o mestre, para nós, os meninos. Incumbiu ao padre que um dia se revestisse, em praia de margem, para esconjurar e clamar a nosso pai o ‘dever de desistir da tristonha teima. De outra, por arranjo dela, para medo, vieram os dois soldados. Tudo o que não valeu de nada. Nosso pai passava ao largo, avistado ou diluso, cruzando na canoa, sem deixar ninguém se chegar à pega ou à fala. Mesmo quando foi, não faz muito, dos homens do jornal, que trouxeram a lancha e tencionavam tirar retrato dele, não venceram: nosso pai se desaparecia para a outra banda, aproava a canoa no brejão, de léguas, que há, por entre juncos e mato, e só ele conhecesse, a palmos, a escuridão, daquele.

A gente teve de se acostumar com aquilo. Às penas, que, com aquilo, a gente mesmo nunca se acostumou, em si, na verdade. Tiro por mim, que, no que queria, e no que não queria, só com nosso pai me achava: assunto que jogava para trás meus pensamentos. O severo que era, de não se entender, de maneira nenhuma, como ele aguentava. De dia e de noite, com sol ou aguaceiros, calor, sereno, e nas friagens terríveis de meio-do-ano, sem arrumo, só com o chapéu velho na cabeça, por todas as semanas, e meses, e os anos — sem fazer conta do se-ir do viver. Não pojava em nenhuma das duas beiras, nem nas ilhas e croas do rio, não pisou mais em chão nem capim. Por certo, ao menos, que, para dormir seu tanto, ele fizesse amarração da canoa, em alguma ponta-de-ilha, no esconso. Mas não armava um foguinho em praia, nem dispunha de sua luz feita, nunca mais riscou um fósforo. O que consumia de comer, era só um quase; mesmo do que a gente depositava, no entre as raízes da gameleira, ou na lapinha de pedra do barranco, ele recolhia pouco, nem o bastável. Não adoecia? E a constante força dos braços, para ter tento na canoa, resistido, mesmo na demasia das enchentes, no subimento, aí quando no lanço da correnteza enorme do rio tudo rola o perigoso, aqueles corpos de bichos mortos e paus-de-árvore descendo — de espanto de esbarro. E nunca falou mais palavra, com pessoa alguma. Nós, também, não falávamos mais nele. Só se pensava. Não, de nosso pai não se podia ter esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era só para se despertar de novo, de repente, com a memória, no passo de outros sobressaltos.

Minha irmã se casou; nossa mãe não quis festa. A gente imaginava nele, quando se comia uma comida mais gostosa; assim como, no gasalhado da noite, no desamparo dessas noites de muita chuva, fria, forte, nosso pai só com a mão e uma cabaça para ir esvaziando a canoa da água do temporal. Às vezes, algum conhecido nosso achava que eu ia ficando mais parecido com nosso pai. Mas eu sabia que ele agora virara cabeludo, barbudo, de unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pelos, com o aspecto de bicho, conforme quase nu, mesmo dispondo das peças de roupas que a gente de tempos em tempos fornecia.

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Nem queria saber de nós; não tinha afeto? Mas, por afeto mesmo, de respeito, sempre que às vezes me louvavam, por causa de algum meu bom procedimento, eu falava: — “Foi pai que um dia me ensinou a fazer assim…”; o que não era o certo, exato; mas, que era mentira por verdade. Sendo que, se ele não se lembrava mais, nem queria saber da gente, por que, então, não subia ou descia o rio, para outras paragens, longe, no não-encontrável? Só ele soubesse. Mas minha irmã teve menino, ela mesma entestou que queria mostrar para ele o neto. Viemos, todos, no barranco, foi num dia bonito, minha irmã de vestido branco, que tinha sido o do casamento, ela erguia nos braços a criancinha, o marido dela segurou, para defender os dois, o guarda-sol. A gente chamou, esperou. Nosso pai não apareceu. Minha irmã chorou, nós todos aí choramos, abraçados.

Minha irmã se mudou, com o marido, para longe daqui. Meu irmão resolveu e se foi, para uma cidade. Os tempos mudavam, no devagar depressa dos tempos. Nossa mãe terminou indo também, de uma vez, residir com minha irmã, ela estava envelhecida. Eu fiquei aqui, de resto. Eu nunca podia querer me casar. Eu permaneci, com as bagagens da vida. Nosso pai carecia de mim, eu sei — na vagação, no rio no ermo — sem dar razão de seu feito. Seja que, quando eu quis mesmo saber, e firme indaguei, me diz-que-disseram: que constava que nosso pai, alguma vez, tivesse revelado a explicação, ao homem que para ele aprontara a canoa. Mas, agora, esse homem já tinha morrido, ninguém soubesse, fizesse recordação, de nada mais. Só as falsas conversas, sem senso, como por ocasião, no começo, na vinda das primeiras cheias do rio, com chuvas que não estiavam, todos temeram o fim-do-mundo, diziam: que nosso pai fosse o avisado que nem Noé, que, por tanto, a canoa ele tinha antecipado; pois agora me entrelembro. Meu pai, eu não podia malsinar. E apontavam já em mim uns primeiros cabelos brancos.

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Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o rio — pondo perpétuo. Eu sofria já o começo de velhice — esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê? Devia de padecer demais. De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar do vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha tranqüilidade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse — se as coisas fossem outras. E fui tomando ideia.

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Sem fazer véspera. Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou, então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um lenço, para o aceno ser mais. Eu estava muito no meu sentido. Esperei. Ao por fim, ele apareceu, aí e lá, o vulto. Estava ali, sentado à popa. Estava ali, de grito. Chamei, umas quantas vezes. E falei, o que me urgia, jurado e declarado, tive que reforçar a voz: — “Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto… Agora, o senhor vem, não carece mais… O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!…” E, assim dizendo, meu coração bateu no compasso do mais certo.

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Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n’água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto — o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia… Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão.

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Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.”

Esse post pretende homenagear a atores como Renato TouzPin, que ainda acreditam no Brasil, na literatura brasileira e em seus artistas.

Nele há vídeos que denunciam a morte do rio Doce, em MG e no ES.

G. Rosa choraria, como o fizemos nós nos últimos anos.

 

Texto extraído do livro “Primeiras Estórias”, Editora Nova Fronteira – Rio de Janeiro, 1988, pág. 32

1º Vídeo: Canal LUBOR

Demais vídeos: Canal jnscam

Fotos de Renato TouzPin, do brilhante espetáculo “A terceira margem do rio: a de dentro”

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Serviço e contatos:

Cia. Teatral Letras de Rosa

http://touzpin.wixsite.com/aterceiramargemdorio 

Leia também: https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2016/12/29/a-colheita-e-comum-mas-o-capinar-e-sozinho-g-rosa/

 

“A criança é pai do homem”

Το παιδί είναι ο πατέρας του ανθρώπου. (William Wordsworth)

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” My heart leaps up when I behold
A rainbow in the sky:
So was it when my life began;
So is it now I am a man;
So be it when I shall grow old,
Or let me die!
The Child is father of the Man;
I could wish my days to be
Bound each to each by natural piety.

(“My Heart Leaps Up”, também conhecido como “the Rainbow”, 1802)

William Wordsworth (1770 – 1850)

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Fotos de arquivo pessoal – julho de 2017

1º Vídeo: Canal United Tribes

2º Vídeo: Canal TMusicaCanal

 

Porque amo teatro

O florescimento da tragédia no século V a.C. na Grécia, acompanhou o desenvolvimento do logos, do pensamento grego. Ésquilo, Sófocles e Eurípedes nos legaram os grandes mitos, as representações do humano em suas misérias e sua catarse, fomentando naturalmente a representação teatral. Depois a comédia  de Aristófanes veio para suavizar, porém acidamente, as encenações. O coro  era um personagem e não apenas um backing vocal, como nas bandas de música. Apenas homens eram atores, por isso usavam as máscaras, personasque não deixavam dúvidas sobre quem estava se expressando. Ler as tragédias gregas, diferentemente de se ler quaisquer outras peças teatrais, é ENCANTAR-SE. É ENCANTAR-SE por revolverem nossas mais profundas camadas do existir; estão centradas nas palavras, mais do que nas atuações – o que não ocorre com os demais textos teatrais. Shakespeare aproxima-se nisso dos gregos também.

A plateia lotava os festivais de verão, celebrando a colheita e, quase sempre, sabiam de cor os textos encenados, declamando junto com os atores. A catarse  coletiva purgava dores e sentires e revelava a função do teatro. Antonin Artaud, em seu O teatro e seu duplo, explora bem tais aspectos.

AS MÁSCARAS NO TEATRO GREGO

Ir ao teatro faz bem… tão bem quanto uma boa sessão de terapia, até porque é ARTE e ARTE exerce poder de magia sobre nós.

O Festival Nacional de Teatro de Barbacena vai fascinar plateias mineiras durante o período de 22 a 30 de julho.

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Contaremos aqui com grupos de outras cidades mineiras, como também com os de algumas cidades do Rio de Janeiro.

Acredito na formação de público como fundamental para qualquer apreciação cultural e artística. Havemos de ensinar a gostar, a saborear a arte, caso tenhamos como intenção verdadeira a valorização de nosso patrimônio e, consequentemente, de sua preservação.

Desenvolvi na cidade de São Paulo, com crianças e jovens, alguns projetos de formação de público para o teatro, para espetáculos de música popular e erudita, e obtivemos muitos bons resultados, saibam todos.

É preciso OFERECER CULTURA. A escolha de qual delas a  plateia preferirá é com ela. Mas é preciso ofertar CULTURA, e gratuitamente, inclusive.

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Ver aqui:

https://www.facebook.com/events/275607489569656/permalink/297782030685535/

Programação completa aqui: http://www.barbacenaonline.com.br/noticia/cultura/programacao-do-festival-nacional-de-teatro-em-barbacena

Vídeo Canal Felipe Ramos (Basta um dia, de Chico Buarque para o espetáculo Gota D’água, de 1977, baseado na tragédia grega Medeia, de Eurípedes).