Guimarães Rosa, mire e veja

 

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RETALHOS DE ROSA

“O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando.”

“Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou — amigo — é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é.”

“O mundo é mágico.
As pessoas não morrem, ficam encantadas.”

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“Todo caminho da gente é resvaloso.
Mas também, cair não prejudica demais – a gente levanta, a gente sobe, a gente volta!…
O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem. Ser capaz de ficar alegre e mais alegre no meio da alegria, e ainda mais alegre no meio da tristeza…”

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“Sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o lugar. Viver é muito perigoso … Porque aprender a viver é que é o viver mesmo… Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e abaixa… O mais difícil não é um ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra.”

“-Adianta querer saber muita coisa? O senhor sabia, lá para cima – me disseram. Mas, de repente chegou neste sertão, viu tudo diverso diferente, o que nunca tinha visto. Sabença aprendida não adiantou para nada… Serviu algum?”

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“Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas.”

“Viver é um descuido prosseguido.
Mas quem é que sabe como?
Viver…
o senhor já sabe: viver é etcétera …”

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“A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que não se misturam. Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância. Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data.”

“Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniÃES ”

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“A colheita é comum, mas o capinar é sozinho.”

“Felicidade se acha é em horinhas de descuido. ”

“Infelicidade é uma questão de prefixo.”

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“Por esses longes todos eu passei, com pessoa minha no meu lado, a gente se querendo bem. O senhor sabe? Já tenteou sofrido o ar que é saudade? Diz-se que tem saudade de ideia e saudade de coração…”

“De sofrer e de amar, a gente não se desfaz.”

“O verdadeiro amor é um calafrio doce, um susto sem perigos.”

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“Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.”

“A culpa minha, maior, é meu costume de curiosidade
de coração. Isso de estimar os outros, muito ligeiro,
defeito esse que me entorpece.”

“É preciso sofrer depois de ter sofrido, e amar, e mais amar, depois de ter amado.”

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“Gostava dela, muito…Mais do que ele mesmo dizia, mais do que ele mesmo sabia, de maneira que a gente deve gostar. E tinha uma força grande, de amor calado, e uma paciência quente, cantada, para chamar pelo seu nome”.

“Deus nos dá pessoas e coisas,
para aprendermos a alegria…
Depois, retoma coisas e pessoas
para ver se já somos capazes da alegria
sozinhos…
Essa… a alegria que ele quer”

“Sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na ideia, querendo e ajudando, mas quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois.”

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“Se fosse só eu a chorar de amor, sorria…”

“Os outros eu conheci por acaso. Você eu encontrei porque era preciso.”

“Amor vem de amor. Digo. Em Diadorim, penso também – mas Diadorim é a minha neblina…”

“Talvez não devesse, não fosse direito ter por causa dele aquele doer, que põe e punge, de dó, desgosto e desengano.”

“Tem horas em que penso que a gente carecia, de repente, de acordar de alguma espécie de encanto.”

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“O senhor mire e veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam, verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra montão.”

“Quem elegeu a busca, não pode recusar a travessia…”

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“Narrei ao senhor. No que narrei, o senhor talvez até ache mais do que eu, a minha verdade. Fim que foi. Aqui, a estória se acabou. Aqui, a estória acabada. Aqui, a estória acaba.”

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Trechos de várias obras de Guimarães Rosa
Fotos de arquivo pessoal: recantos de Minas Gerais
Vídeo: Canal sergioeye1
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Mãos que sentem

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O eu lírico

Quem escreve aqui tem o que dizer. Bebo dos autores a quem admiro e aplaudo os compositores que me embalam enquanto escrevo.

Sobre esse blog e sua motivação leia: https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/sobre/

O eu lírico de meus poemas é quase sempre um parceiro meu, alguém a quem dei ouvidos, uma imagem que me seduziu, uma causa à qual aderi, um ser a quem presto solidariedade … Cantar meu país e sua gente resgata um eu lírico telúrico, que muitas vezes chega a surpreender a mim mesma, quando termino de escrever.

Meus poemas são coloquiais e repletos de sentimentalidades. Não sei fazer diferente. Sobre isso leia: https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2016/08/27/deixa-me-ser-poesia/

E a prosa – gosto muito de prosa – na vida real, ouvir “causos”, perguntando pouco, talvez um quando e onde, me enriquecem demais. Tenho alguns escritos num tom de realismo fantástico, ainda não publicados aqui, qualquer dia os postarei.

Quem viveu com escritores, sabe que o que escrevem é a soma de seus discursos internos, mas também dos de outros. Quem desfruta da convivência com um escritor, com um poeta, e sabe de sua história, muitas vezes encontrará em suas palavras o real vivido e o imaginado, todos sabem que é assim. Um personagem é um terço de alguém conhecido, outro terço de outro e um terço imaginado. Por isso, qualquer semelhança com alguém conhecido não terá sido mera coincidência. Seres humanos variam pouco em sua essência. A moldura, o cenário, os adereços variam um pouco, mas a essência é sempre a mesma.

Evito escrever mediocridades, receitas de bolo, seja lá o que metaforicamente essa bobagem queira dizer. No entanto, haverá sempre quem achará que o que escrevo seja repleto de sentimentalidades, pieguices, tolices etc. Claro, isso é assim mesmo, e, em tempos de Internet, os discursos estão cada dia mais sem gentileza, respeito, atenção por aquilo que o outro cria, produz.

Fazer o quê? Pedir que quem escreve sob o efeito da raiva, do ódio, do álcool etc. espere a cabeça esfriar para não exalar tanto sentimento ruim. Acredito nas amorosidades. Sempre.

Leituras feitas por nós dependerão  do quão afáveis estivermos a elas, àqueles temas. Assim, poemas considerados como vibrante criação poética, versos que fluíam com limpidez, encantamento e sedução há algum tempo, noutro momento – porque estamos navegando em outras águas, experenciando novos projetos – podem ter sua leitura comprometida e serem desqualificados até. Como dizia Saramago: É a vida.

Escrevo o que quero, quando quero, aqui, nesse espaço que é meu. Leia quem desejar. Continuarei trazendo meu eu lírico na garupa comigo, desbravando minhas viagens pelo real vivido e pelo real imaginado.

Boas leituras por aqui, por aí ou por acolá.

Texto: Odonir Oliveira

1º Vídeo: Canal Gilles Gomes de Araujo Ferreira

2º Vídeo: Canal Memória

Conquista

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POETAÇÃO
Não, não sou poeta de revoluções estéticas
porque não sou uma revolucionária mais.
Os anos vieram,
brinquei com eles,
brindei-os todos.
Hoje sou uma jardineira de rosas,
nos intervalos bebo versos,
mastigo pétalas,
danço com prazeres.
Não, não esperem de mim arroubos mais.
Escrevo o que escorre por meus dedos
o que sentem minhas mãos.
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SÃO DE MÃOS QUE SENTEM

 

Poesia: Odonir Oliveira

Foto de arquivo pessoal

Vídeo: Canal  OdracirOhnap

 

Natal: “Missa do galo”, Machado de Assis

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Missa do galo
Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos,
contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho
irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite.
A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora casado, em
primeiras núpcias, com uma de minhas primas. A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. Vivia tranqüilo, naquela casa assobradada da Rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas. Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez,
ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas
ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia, vestia-se, saía e só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um
eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e
dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio, com a existência da comborça; mas afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.


Boa Conceição! Chamavam-lhe “a santa”, e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os
esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos,
nem grandes lágrimas, nem grandes risos. No capítulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um harém, com as aparências salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar.
Naquela noite de Natal foi o escrivão ao teatro. Era pelos anos de 1861 ou 1862. Eu já
devia estar em Mangaratiba, em férias; mas fiquei até o Natal para ver “a missa do galo na Corte”. A família recolheu-se à hora do costume; eu meti-me na sala da frente, vestido e pronto. Dali passaria ao corredor da entrada e sairia sem acordar ninguém. Tinha três
chaves a porta; uma estava com o escrivão, eu levaria outra, a terceira ficava em casa.
— Mas, Sr. Nogueira, que fará você todo esse tempo? pergun-tou-me a mãe de Conceição.
— Leio, D. Inácia.
Tinha comigo um romance, Os Três Mosqueteiros, velha tradução creio do Jornal do
Comércio. Sentei-me à mesa que havia no centro da sala, e à luz de um candeeiro de
querosene, enquanto a casa dormia, trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D’Artagnan e fui-me às aventuras. Dentro em pouco estava completamente ébrio de Dumas. Os minutos voavam, ao contrário do que costumam fazer, quando são de espera; ouvi bater onze horas, mas quase sem dar por elas, um acaso. Entretanto, um pequeno rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura. Eram uns passos no corredor que ia da sala de visitas à de jantar;
levantei a cabeça; logo depois vi assomar à porta da sala o vulto de Conceição.
— Ainda não foi? perguntou ela.
— Não fui, parece que ainda não é meia-noite.
— Que paciência! 

Continue lendo aqui:

http://sanderlei.com.br/PDF/Machado-de-Assis/Machado-de-Assis-Missa-do-Galo.pdf

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Texto: Machado de Assis

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal luciano hortencio

Natal: “Natal na barca”, Lygia F. Telles

 

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NATAL NA BARCA
Lygia Fagundes Telles

Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor tudo era silêncio e treva. E que me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca, apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher com uma criança e eu.

O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um vizinho invisível e agora dormia. A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança enrolada em panos. Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.

Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e até aquele instante não me ocorrera dizer-lhe qualquer palavra. Nem combinava mesmo com uma barca tão despojada, tão sem artifícios, a ociosidade de um diálogo. Estávamos sós. E o melhor ainda era não fazer nada, não dizer nada, apenas olhar o sulco negro que a embarcação ia fazendo no rio.

Debrucei-me na grade de madeira carcomida. Acendi um cigarro. Ali estávamos os quatro, silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão. Contudo, estávamos vivos. E era Natal.

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A caixa de fósforos escapou-me das mãos e quase resvalou para o rio. Agachei-me para apanhá-la. Sentindo então alguns respingos no rosto, inclinei-me mais até mergulhar as pontas dos dedos na água.

— Tão gelada — estranhei, enxugando a mão.

— Mas de manhã é quente.

Voltei-me para a mulher que embalava a criança e me observava com um meio sorriso. Sentei-me no banco ao seu lado. Tinha belos olhos claros, extraordinariamente brilhantes. Reparei que suas roupas (pobres roupas puídas) tinham muito caráter, revestidas de uma certa dignidade.

— De manhã esse rio é quente — insistiu ela, me encarando.

— Quente?

— Quente e verde, tão verde que a primeira vez que lavei nele uma peça de roupa pensei que a roupa fosse sair esverdeada. É a primeira vez que vem por estas bandas?

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Desviei o olhar para o chão de largas tábuas gastas. E respondi com uma outra pergunta:

— Mas a senhora mora aqui perto?

— Em Lucena. Já tomei esta barca não sei quantas vezes, mas não esperava que justamente hoje…

A criança agitou-se, choramingando. A mulher apertou-a mais contra o peito. Cobriu-lhe a cabeça com o xale e pôs-se a niná-la com um brando movimento de cadeira de balanço. Suas mãos destacavam-se exaltadas sobre o xale preto, mas o rosto era sereno.

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— Seu filho?

— É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia ver um médico hoje mesmo. Ainda ontem ele estava bem mas piorou de repente. Uma febre, só febre… Mas Deus não vai me abandonar.

— É o caçula?

Levantou a cabeça com energia. O queixo agudo era altivo mas o olhar tinha a expressão doce.

— É o único. O meu primeiro morreu o ano passado. Subiu no muro, estava brincando de mágico quando de repente avisou, vou voar! E atirou-se. A queda não foi grande, o muro não era alto, mas caiu de tal jeito… Tinha pouco mais de quatro anos.

Joguei o cigarro na direção do rio e o toco bateu na grade, voltou e veio rolando aceso pelo chão. Alcancei-o com a ponta do sapato e fiquei a esfregá-lo devagar. Era preciso desviar o assunto para aquele filho que estava ali, doente, embora. Mas vivo.

— E esse? Que idade tem?

— Vai completar um ano. — E, noutro tom, inclinando a cabeça para o ombro: — Era um menino tão alegre. Tinha verdadeira mania com mágicas. Claro que não saía nada, mas era muito engraçado… A última mágica que fez foi perfeita, vou voar! disse abrindo os braços. E voou.

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Levantei-me. Eu queria ficar só naquela noite, sem lembranças, sem piedade. Mas os laços (os tais laços humanos) já ameaçavam me envolver. Conseguira evitá-los até aquele instante. E agora não tinha forças para rompê-los.

— Seu marido está à sua espera?

— Meu marido me abandonou.

Sentei-me e tive vontade de rir. Incrível. Fora uma loucura fazer a primeira pergunta porque agora não podia mais parar, ah! aquele sistema dos vasos comunicantes.

— Há muito tempo? Que seu marido…

— Faz uns seis meses. Vivíamos tão bem, mas tão bem. Foi quando ele encontrou por acaso essa antiga namorada, me falou nela fazendo uma brincadeira, a Bila enfeiou, sabe que de nós dois fui eu que acabei ficando mais bonito? Não tocou mais no assunto. Uma manhã ele se levantou como todas as manhãs, tomou café, leu o jornal, brincou com o menino e foi trabalhar. Antes de sair ainda fez assim com a mão, eu estava na cozinha lavando a louça e ele me deu um adeus através da tela de arame da porta, me lembro até que eu quis abrir a porta, não gosto de ver ninguém falar comigo com aquela tela no meio… Mas eu estava com a mão molhada. Recebi a carta de tardinha, ele mandou uma carta. Fui morar com minha mãe numa casa que alugamos perto da minha escolinha. Sou professora.

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Olhei as nuvens tumultuadas que corriam na mesma direção do rio. Ia contando as sucessivas desgraças com tamanha calma, num tom de quem relata fatos sem ter realmente participado deles. Como se bastasse a pobreza que espiava pelos remendos de sua roupa, perdera o filhinho, o marido, via pairar uma sombra sobre seu segundo filho que ninava nos braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante. Apatia?  Não, não podiam ser de uma apática aqueles olhos vivíssimos, aquelas mãos enérgicas. Inconsciência? Uma certa irritação me fez andar.

— A senhora é conformada.

— Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou.

— Deus — repeti vagamente.

— A senhora não acredita em Deus?

— Acredito — murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por quê, perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela segurança, daquela calma. Era a tal fé que removia montanhas…

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Ela mudou a posição da criança, passando-a do ombro direito para o esquerdo. E começou com voz quente de paixão:

— Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma noite tão desesperada que saí pela rua afora, enfiei um casaco e saí descalça e chorando feito louca, chamando por ele! Sentei num banco do jardim onde toda tarde ele ia brincar. E fiquei pedindo, pedindo com tamanha força, que ele, que gostava tanto de mágica, fizesse essa mágica de me aparecer só mais uma vez, não precisava ficar, se mostrasse só um instante, ao menos mais uma vez, só mais uma! Quando fiquei sem lágrimas, encostei a cabeça no banco e não sei como dormi. Então sonhei e no sonho Deus me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava na minha mão com sua mão de luz. E vi o meu menino brincando com o Menino Jesus no jardim do Paraíso. Assim que ele me viu, parou de brincar e veio rindo ao meu encontro e me beijou tanto, tanto… Era tamanha sua alegria que acordei rindo também, com o sol batendo em mim.

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Fiquei sem saber o que dizer. Esbocei um gesto e em seguida, apenas para fazer alguma coisa, levantei a ponta do xale que cobria a cabeça da criança. Deixei cair o xale novamente e voltei-me para o rio. O menino estava morto. Entrelacei as mãos para dominar o tremor que me sacudiu. Estava morto. A mãe continuava a niná-lo, apertando-o contra o peito. Mas ele estava morto.

Debrucei-me na grade da barca e respirei penosamente: era como se estivesse mergulhada até o pescoço naquela água. Senti que a mulher se agitou atrás de mim

— Estamos chegando — anunciou.

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Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse, correr para longe daquele horror. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma larga curva antes de atracar. O bilheteiro apareceu e pôs-se a sacudir o velho que dormia:

– Chegamos!… Ei! chegamos!

Aproximei-me evitando encará-la.

— Acho melhor nos despedirmos aqui — disse atropeladamente, estendendo a mão.

Ela pareceu não notar meu gesto. Levantou-se e fez um movimento como se fosse apanhar a sacola. Ajudei-a, mas ao invés de apanhar a sacola que lhe estendi, antes mesmo que eu pudesse impedi-lo, afastou o xale que cobria a cabeça do filho.

— Acordou o dorminhoco! E olha aí, deve estar agora sem nenhuma febre.

— Acordou?!

Ela sorriu:

— Veja…

Inclinei-me. A criança abrira os olhos — aqueles olhos que eu vira cerrados tão definitivamente. E bocejava, esfregando a mãozinha na face corada. Fiquei olhando sem conseguir falar.

— Então, bom Natal! — disse ela, enfiando a sacola no braço.

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Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para trás, seu rosto resplandecia. Apertei-lhe a mão vigorosa e acompanhei-a com o olhar até que ela desapareceu na noite.

Conduzido pelo bilheteiro, o velho passou por mim retomando seu afetuoso diálogo com o vizinho invisível. Saí por último da barca. Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E pude imaginá-lo como seria de manhã cedo: verde e quente. Verde e quente.

 

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Texto extraído do livro “Para gostar de ler – Volume 9 – Contos”, Editora Ática – São Paulo, 1984, p. 67.

Fotos de arquivo pessoal: MG

1º Vídeo: Canal jnscam

2º Vídeo: Canal CNascimento27

Semana da criança: o menino das cocadas

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JOÃO E OS IRMÃOS

Era magrinho, mais do que os garotos de sua idade. Depois dele a mãe, de forma surpreendente, teve gêmeos, 2 meninos. E depois mais uma menina. Todos quase da mesma idade, 3 e 4 anos de diferença entre João e a irmã mais nova.

O Pai ganhava pouco para tantas bocas, tantos pés, tantas calças, tantos sapatos, tantas urgências. Das urgências nasceram as cocadas. João era o mais velho, coube a ele, ainda garoto, levar o tabuleiro pelas ruas, aos vizinhos, às portas das escolas, à saída da fábrica.untitled-5

Enquanto seus amigos se divertiam das maneiras mais divertidas de se divertirem meninos, João trabalhava. E, por amor à família, não achava ruim não. Seguia. Às vezes uma parada desobediente e cheia de meninice o impelia a ser garoto como os demais. Ali conquistava a todos. Sempre teve discurso convincente de vendedor. Reconhecia em si tal habilidade. Quase que intuitivamente, reconhecia. E vendia todas as cocadas.

Os amigos por vezes sentiam certa pena de João, assim tão cheio de compromisso com as vendas, comentavam um isso e um aquilo, mas tudo passava, que João era muito gente boa.

2c775fd763c0a85187babb2c5440c63e-arte-popular-coelhoTinha lá os seus complexos e, conforme foi crescendo, no começo do contato com as garotas, pode-se perceber algum detalhe de superioridade manifesta, disfarce para uma inferioridade latente nele. Escrevia muito mal, ortografia impossível, letra ilegível, tudo em seus estudos denunciava uma idade inferior à que já tinha. Parara no tempo, do ponto de vista cognitivo. Como trabalhador ia em frente, muito além do que se poderia estimar para um rapazola como ele.e52aef6f678e6d1d98a9f786da3caa64meninocomcarneirocc3a2ndidoportinari28195429

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Muitas vezes, ao desejar assistir à televisão, ficava do lado de fora, aproveitando a janela aberta de algum vizinho, e contemplava aquele aparelho, que como outros tantos também, não tinha em casa. Cresceu olhando pelas frestas aquilo que achava merecer.

A gangorra da vida empurrava João para o comércio Comprou no Paraguai, em S. Paulo, comprou sem Nota Fiscal, deixou de emitir recibos nas vendas, negociou o que deu e o que pode. Trouxe os irmãos para trabalharem com ele. Enriqueceu. Comprou um diploma em uma faculdade particular. Adquiriu muitos imóveis, casou com rica filha de fazendeiros, teve 3 filhos, mandou-os estudar fora do país. Enriqueceu.

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Tornou-se esnobe, sem perceber que é, relatando seus bens, suas posses a todos e a todo momento. Exibe, em encontros com amigos de outros tempos, lindos carros importados, bens materiais e engata narrativas esdrúxulas frente a eles.

A Síndrome do Pânico, o medo de morrer a qualquer momento, a fobia de avião e o medo de assalto, de sequestro, o corroem dia e noite.

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Texto: Odonir Oliveira

Imagens: telas de Cândido Portinari (retiradas da Internet)

1º Vídeo: Canal  Andrés Treviño

2º Vídeo: Canal TheVideoJukeBox4 (clique no Youtube)

Fé, esse condimento eterno

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objeto
do meu mais desesperado desejo
não seja aquilo
por quem ardo e não vejo
seja a estrela que me beija
oriente que me reja
azul amor beleza
faça qualquer coisa
mas pelo amor de deus
ou de nós dois
seja

Paulo Leminski, do livro “Caprichos e relaxos“, 1983.

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DISCURSO

é solidária
é solidário
é cristão
é cristã
tem humanidade
tem sororidade
é socialista
é hedonista
é comprade
é comadre
é parceiro
é parceira
verbo oral
verbo escrito
olhar piedoso
olhar cândido
voz doce
voz piedosa
 
discursos
máscaras
couraças
hipocrisias
 
filisteu, filisteia
Você é ?

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COMO ENXERGO O FACEBOOK

Sempre tive meu próprio discurso. Mas sempre li muito também. E fui aprendendo com o que lia. E vivia, certamente. Tenho minhas contradições, minhas idiossincrasias, meus medos e desesperos, como qualquer um.
Gosto de belezas, principalmente das ofertadas pela natureza. Assim, posto e adoro ver belezas naturais postadas por aqui. Aprecio também as criadas pelo Homem, mas bem menos.
Gosto de cozinhar e vez ou outra testo uma das milhares de receitas que postam – muitas não dão certo- foram photoshopadas pra ficarem belas etc.
De literatura, não preciso falar…. posto porque gosto e acredito que as pessoas devam ler literatura. Ao mesmo tempo sei que a grande maioria lê rapidamente tudo no celular, sem concentração, sem encantar-se com as belezas literárias ali apresentadas, além de nem terem iniciação para saborear o que leem- e NEM QUEREM TENTAR, pelo menos. Pena. Nossos autores brasileiros agradeceriam, pelo menos eles.
Além disso, tenho uma trajetória de conscientização política que me impele a ser contra o capital, a bens materiais apenas por possuí-los etc, dessa forma ME AVILTAM posturas contra os mais pobres ou menos favorecidos pela vida, e todo tipo de hipocrisia social.
NÃO ACEITO falar-se em DEUS e continuar sendo concentrador de riquezas, pedófilo, manipulador de fieis, crentes iludidos por uma FÉ que não é nem cristã nem não-cristã – de quaisquer religiões.
Se há realmente cristãos que sejam NO DIA A DIA, DE FORMA VERDADEIRA, SEM OBSTRUÇÃO DO ACESSO À MELHORIA DE VIDA de toda a humanidade, de todos os brasileiros.
Vivo no Brasil., NÃO vou sair daqui.
Vou morrer e ser cremada aqui, se Deus quiser.
Facebook DEVE SERVIR não apenas para diversão. Seria muito pouco para a tão alta penetração que possui.
Refletir não doi.

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Entranhas, noites, sussurros, segredos
histórias, cumplicidades, desvãos
Um leque, uma moeda, um retrato
um terço
um meio
um décimo de vidas
um centésimo de tristezas
um milésimo de revelações.
 
Revelações de últimos meses, de últimos dias e horas.
Confidências insuspeitáveis.

 

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É um ponto
é uma meta
é um rumo.
Persigo
sigo
avanço.

 

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Bato à porta,
que fechada, me permite contemplações
 
Bato à porta,
que inerte,
me permite reflexões.
 
Bato à porta,
que signo, me conduz a leituras internas.
 
Adentro o adro sagrado, profana que ainda sou.
Bato à porta.

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Luzes em penumbra
altares, sinos e santos
toalhas brancas, presépios, mistérios,
ritos de vida e de morte,
encontros domésticos, casuais, sacramentados,
flores brancas,
perfume de rosas, jasmins, camélias e cravos brancos
 
Silêncios sigilosos de evocações
Humanos, sagrados pecadores.

 

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Cruzeiro de joelhos
ainda que doam e sangrem feito penitência ignorada.
 
Cruzeiro do madeiro bento
Cruzeiro da Senhora do Carmo
respondendo por mim
entendendo a mim
respondendo a mim.
Cruzeiro cheio de luz dos dias frios de junho.
 
Minas escorrendo sempre por minhas veias.

 

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Poemas: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal: Igrejas de cidades mineiras

1ª imagem: Foto do Facebook de Hermes Prado Jr.

Vídeo: Canal anindya8q