Já faz 5 anos … categorias

DE CATEGORIA

Quando iniciei esse blog, havia perdido outro, onde era bastante lida (uma rasteira daquelas cruéis que a vida nos dá ). Meu filho ( formado na área de sistemas de informação, da ciência da computação), conhecedor dos meus objetivos ao escrever ”para o mundo” e sabedor de meus parcos recursos e conhecimentos na área, tratou de criar algo simples e de fácil manuseio. Sabia que eu queria texto escrito, imagens e músicas. Orientou-me a manter a mediação (porque a Internet é cruel). Minha filha, publicitária, prática, objetiva e nada saudosista, advertiu-me que o segmento/ categoria POESIA não era vertical e sim, horizontal, ou seja, atenderia àqueles que já se interessavam por POESIA. Não tivesse expectativa de ser bastante lida – como acontecia no blog anterior (com um público leitor de jornalismo político, por exemplo).

Acontece que jamais quis publicar livros, vender livros. A publicidade que salta por aqui, nos celulares, é ação comercial do WordPress, nada tem a ver comigo. Sou péssima vendedora. Não sou, nem sei vender. Nada. Costumo dizer que meus produtos são caros demais, quase inacessíveis a mãos várias. Desprezo grana. Vivo do que possa me trazer prazer, alegrias e crescimento. Apenas o suficiente então.

CATEGORIAS DO BLOG

Revendo as postagens desde dezembro de 2015, consigo agora, separá-las por categorias. Às vezes, com dificuldade, posto que se misturam e, como eu, são complexas e não se excluem.

POESIAS: predominam, até porque são de mãos que sentem

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/category/poesias/

CRÔNICAS: dizem respeito a algo mais cotidiano, atual e relevante

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/category/cronicas/

PAISAGEM EXTERNA – NATUREZA: tenho predileção por flores, rios, matas, estrelas, lua, sol e me motivam a escrever

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/category/paisagem-externa-natureza/

#TBT: lembranças a partir de fotos e imagens que mergulham a memória na escrita ou vice-versa

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/category/tbt/

CHICO BUARQUE: poemas e textos nos quais me misturo ao escritor e compositor durante mais de 50 anos

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/category/chico-buarque/

ESCUTADOR DE HISTÓRIAS DE AMOR: há um narrador que procede a oitivas das narrativas alheias

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/category/escutador-de-historias-de-amor/

ESCUTADORA DE HISTÓRIAS DE MULHERES: há uma narradora que ouve as narrativas femininas, nem sempre de amor

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/category/escutadora-de-historias-de-mulheres/

HISTÓRIAS DE CERTO REALISMO FANTÁSTICO: aqui as narrativas são tão inacreditáveis, que beiram o fantástico

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/category/historias-de-certo-realismo-fantastico/

CLUBINHO DA LEITURA DE BARBACENA: atividades e fotos que registram meu trabalho voluntário com crianças na cidade, nos anos de 2014 a 2017

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/category/clubinho-da-leitura-de-barbacena/

TRABALHOS REALIZADOS COM ALUNOS: relatos, em sequências didáticas, de minhas atividades docentes, com processos e produtos

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/category/trabalhos-realizados-com-alunos/

PROFESSORES SEMPRE: textos que registram emoções e sensações vividas por professores

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/category/professores-sempre/

SEM CATEGORIA: são os produtos escritos de difícil enquadramento em categorias

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/category/sem-categoria/

Leia também, ”SOBRE” o blog: https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/sobre/

Texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal Odonir Oliveira

Valor às amizades

Eu só faço um trabalho, quando tem amizade”– Milton Nascimento

Documentário “Sobre Amigos e Canções” que conta a história do movimento musical mineiro Clube da Esquina. Produzido como trabalho final do curso de Jornalismo da PUC-SP, o filme superou expectativas e foi exibido na TV Cultura e em diversos festivais e mostras. As diretoras entrevistaram e acompanharam, durante todo um ano, músicos como Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes, Wagner Tiso, Toninho Horta e outros.

Além das histórias contadas pelos protagonistas do movimento, o documentário é recheado com um material de pesquisa rico em imagens históricas.

Direção e Roteiro: Bel Mercês e Leticia Gimenez

Edição: Thais Cortez Apoio: TV PUC / TV Cultura

Vídeo: Canal Mistérios do Espaço e os Americanos Banda Morta

Fotos de arquivo pessoal

A gramática da poesia: aulas em cápsulas de lirismo

Como foram suas aulas de português na escola?

Teriam sido as eternas decorações das conjugações dos verbos – em particular dos pronominais, defectivos e anômalos?

Teriam sido a decoração, com duplo sentido, das regras de acentuação, da lista de substantivos coletivos, dos plurais de substantivos compostos, do emprego do hífen e do trema, da colocação dos pronomes nas orações? Hoje quase tudo fossilizado pela gramática do português brasileiro contemporâneo !

Ou você ficou estudando por uma década as funções sintáticas todas, as orações coordenadas, subordinadas, as reduzidas, sem reduzi-las ao seu verdadeiro lugar: escravas do nosso escrever.

Tudo se move; nada é imovível – diria o teórico que eu já esqueci o nome,  mas fiquei com sua fala nas mãos para usá- la a gosto . Porque as regras da gramática do português escrito são receitas, como as de bolo, as da etiqueta social, as do doutor da medicina: devem ser consultadas, usadas apenas em caso de necessidade, de precisão e, por isso, devem ser conhecidas, jamais servirem de NORMAS a serem obedecidas sem discussão, insubordinação, intromissão, irreverência.

Nossos grandes Guimarães Rosa, Manoel de Barros, Mário de Andrade e os poetas mais recalcitrantes e “modernos” recriaram seus falares e dizeres porque a língua é doce e cruel, é delgada e grossa como nossos intestinos, portanto há que se mastigá-la até o último grãozinho para degustá-la com prazer. E só assim lambuzar-se dele e nele.

As aulas de língua jamais poderiam ser e estar separadas das de literatura, bem brasileiras, dessas de a gente reconhecer pelo cheiro, nas ruas, pelo gosto nas calçadas, pelo tato nos bares, dessas também de se encontrar e ser encontrado nelas.

As aulas de português deveriam ser, de uma forma ou de outra, pequenas doses de lirismo, drágeas de encantamento por ler, por escrever, por entender o lido e o escrito, para se poder ir longe com esses ensinamentos. Bem mais longe!

AULA DE PORTUGUÊS
Carlos Drummond de Andrade

A linguagem
na ponta da língua,
tão fácil de falar
e de entender.

A linguagem
na superfície estrelada de letras,
sabe lá o que ela quer dizer?

Professor Carlos Góis, ele é quem sabe,
e vai desmatando
o amazonas de minha ignorância.
Figuras de gramática, esquipáticas,
atropelam-me, aturdem-me, sequestram-me.

Já esqueci a língua em que comia,
em que pedia para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua entrecortada
do namoro com a prima.

O português são dois; o outro, mistério.

Livro de meu pai Plácido, com capa recuperada por mim. Drummond nasceu em 1902, em Conceição do Mato Dentro (Itabira), e meu pai em 1918, em Alto Rio Doce; ambos estudaram em Minas Geraes, nos livros do professor Carlos Góes.

Então … vamos ver um pouco de poesia concreta hoje !?

A CHUVA
Arnaldo Antunes

A chuva derrubou as pontes. A chuva transbordou os rios.
A chuva molhou os transeuntes. A chuva encharcou as
praças. A chuva enferrujou as máquinas. A chuva enfureceu
as marés. A chuva e seu cheiro de terra. A chuva com sua
cabeleira. A chuva esburacou as pedras. A chuva alagou a
favela. A chuva de canivetes. A chuva enxugou a sede. A
chuva anoiteceu de tarde. A chuva e seu brilho prateado. A
chuva de retas paralelas sobre a terra curva. A chuva
destroçou os guarda-chuvas. A chuva durou muitos dias. A
chuva apagou o incêndio. A chuva caiu. A chuva
derramou-se. A chuva murmurou meu nome. A chuva ligou o
pára-brisa. A chuva acendeu os faróis. A chuva tocou a
sirene. A chuva com a sua crina. A chuva encheu a piscina.
A chuva com as gotas grossas. A chuva de pingos pretos.
A chuva açoitando as plantas. A chuva senhora da lama. A
chuva sem pena. A chuva apenas. A chuva empenou os
móveis. A chuva amarelou os livros. A chuva corroeu as
cercas. A chuva e seu baque seco. A chuva e seu ruído de
vidro. A chuva inchou o brejo. A chuva pingou pelo teto. A
chuva multiplicando insetos. A chuva sobre os varais. A
chuva derrubando raios. A chuva acabou a luz. A chuva
molhou os cigarros. A chuva mijou no telhado. A chuva
regou o gramado. A chuva arrepiou os poros. A chuva fez
muitas poças. A chuva secou ao sol.

Mas … se depois fizéssemos essa poesia de Drummond conversar com A Chuva, de Arnaldo Antunes . Uma conversa assim … sobre o mesmo tema ?

CASO PLUVIOSO

A chuva me irritava. Até que um dia
descobri que Maria é que chovia.

A chuva era Maria. E cada pingo
de Maria ensopava o meu domingo.

E meus ossos molhando, me deixava
como terra que a chuva lavra e lava.

Eu era todo barro, sem verdura…
Maria, chuvosíssima criatura!

Ela chovia em mim, em cada gesto,
pensamento, desejo, sono, e o resto.

Era chuva fininha e chuva grossa,
matinal e noturna, ativa…Nossa!

Não me chovas, Maria, mais que o justo
chuvisco de um momento, apenas susto.

Não me inundes de teu líquido plasma,
não sejas tão aquático fantasma!

Eu lhe dizia em vão – pois que Maria
quanto mais eu rogava, mais chovia.

E chuveirando atroz em meu caminho,
o deixava banhado em triste vinho,

que não aquece, pois água de chuva
mosto é de cinza, não de boa uva.

Chuvadeira Maria, chuvadonha,
chuvinhenta, chuvil, pluvimedonha!

Eu lhe gritava: Pára! e ela chovendo,
poças dágua gelada ia tecendo.

Choveu tanto Maria em minha casa
que a correnteza forte criou asa

e um rio se formou, ou mar, não sei,
sei apenas que nele me afundei.

E se comparássemos e se pintássemos e bordássemos com esses versos, suas estruturas linguísticas, suas imagens, seu sentido próprio e seu sentido figurado e se   …

Olhe que belíssima música para se criar uma narrativa a partir dela.

Pode ser em quadrinhos – por conta dos marcadores de tempo (1ª manhã, 2ª manhã … ), com movimentação, até com recursos do Youtube

Pode ser criado um texto explicativo referencial apontando os motivos para o acontecimento do fato principal.

E até um texto instrucional com regras objetivas para se evitar o fato principal.

Além das ilustrações em painéis, com subtítulos etc. etc.

Pronominais

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro.

Oswald de Andrade ANDRADE, O. Obras completas, Volumes 6-7. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972.

E que negócio é esse de “Beija eu”, hem?

Vamos aprender isso com música… e ver se é isso mesmo? Arnaldo Antunes conta a história dessa letra e surpreende quem acreditava em algo diferente, até por conta da leitura de Marisa Monte. Obra aberta, minha gente, cada um traz a sua chave.

Aula de sintaxe

A norma culta ensina que nada de Beija eu, hem. Beija-me, ok. Mas e na fala? Existe a norma culta oral e a norma culta escrita também. Não castigue seus alunos, ensine-lhes isso. A língua é viva, mutante, cheia de variantes linguísticas regionais, sociais, jargões de grupos etc. Não engesse a língua, por favor.

A língua é assim como … um traje, sabe como é? Um traje que você usa de acordo com as situações, os lugares, as funções. Ah, às vezes se torna necessário transgredir as normas linguísticas também, viu. Principalmente na fala e na escrita criativas, nos versos, nas narrativas, nos discursos orais …

Deu ruim, professora, chegou o Adoniran e veio com a Elis, quebiadéisso?

Vamos respeitar o que eles estão cantando.

É português também, moçada.

LENDO NA NATUREZA

Minha moçadinha do Clubinho da Leitura de Barbacena, 2015

Camões chegou reclamando de Vinícius. Diz que é um plagiador.

Será?

Vamos com os adolescentes para debaixo das árvores dos coqueiros ou dos laranjais e, aristotelicamente, discutir esse tema, aos moldes do Tião Rocha, com seus meninos de Araçuaí, em MG.

VAMOS LÁ ?

SONETO DO AMOR TOTAL

Amo-te tanto, meu amor… não cante
O humano coração com mais verdade…
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude

Vinícius de Moraes
Em Antologia Poética.


ALMA MINHA GENTIL QUE TE PARTISTE

Alma minha gentil que partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma coisa a dor que me ficou
Da mágua, sem remédio, de perder-te.

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te
Quão cedo de meus olhos te levou.

Luís de Camões
Em Sonetos de Camões, Cultrix.

Já pensou em questionar, filosoficamente, em uma fábula o emprego e as diversas formas de se grafar por que, por quê, porque, porquê…. então, senta que lá vem história aí.

E de autoria de aluno, hem. 

Os porquês do porquinho, de Clóvis Sanchez

Aconteceu na Grécia !

Era uma vez um jovem porquinho, belo e bom, muito pequenino, cuja vida foi dedicada à procura dos porquês da floresta. Tal porquinho, incansável em sua busca, passava o dia percorrendo matas, cavernas e savanas perguntando aos bichos e aos insetos que encontrava pelo caminho todos os tipos de porquês que lhes viessem à cabeça.

 – Por que você tem listras pretas se os cavalos não as têm ? – perguntava gentilmente o porquinho às zebras.

– Pernas compridas por quê, se outros pássaros não as têm? – indagava às seriemas, de forma perspicaz.

– Por que isso? Por que aquilo?

Era um festival de porquês, dia após dia, ano após ano, sem que ele encontrasse respostas adequadas aos seus questionamentos de porquinho.

Por exemplo, sempre que se deparava com uma abelha trabalhando arduamente, ele perguntava por quê. E a pergunta era sempre a mesma:

– Saberias, por acaso, por que fazes o mel, oh querida abelhinha?

E a abelha, com seus conhecimentos de abelha, sempre respondia assim ao porquê:

– Fabrico o mel porque tenho que alimentar a colmeia.

Mas a resposta das abelhas não o satisfazia, porque eram os ursos os maiores beneficiados com aquela atividade.

– Alguma coisa deve estar muito errada, porque eram os ursões que ficavam com quase todo o mel, sem ter produzido um pingo.- pensava o porquinho.

Então, valente como os porquinhos de sua época, seguia pela floresta à procura de ursões, fortes e poderosos, ansioso por que eles soubessem a resposta. Quando encontrava um, perguntava:

 – Senhor, grande e esperto ursão, poderias me dizer a razão e solucionar o porquê da questão?

E alguns ursos, mais exibidos, até tentavam responder, porque de mel eles entendiam muito, mas sobre trabalho… as respostas eram sempre do senso comum de ursão e não resolviam a questão.

– Elas fabricam o mel porque ele é muito gostoso. – diziam uns.

 – Elas o fabricam porque o mel é delicioso. – diziam outros. Havia aqueles que se limitavam a olhar feio e, ainda, aqueles que até ameaçavam o pobre porquinho e iam embora, sem dizer por quê. Apesar disso, o porquinho seguia em frente.

 Um dia – porque toda história tem um dia especial – o porquinho encontrou um oráculo em seu caminho e resolveu elaborar o seu mais profundo porquê. Afinal, oráculo é para essas coisas. Então, ele perguntou com sua voz fininha, mas de modo firme e sonoro

– Por que existo?

Houve um profundo silêncio na floresta e o porquinho pensou que aquele porquê nunca seria respondido, afinal.

Mas de repente, o oráculo falou, estrondosamente, porque era oráculo.

– Procure o Sr. Leão, rei da floresta, e pergunte a ele por que você existe. Só ele lhe dará uma resposta adequada.

Então, feliz, animado e saltitante, lá se foi o porquinho à casa do grande e sábio rei da floresta, carregando o seu também grande e sábio porquê.

Ao chegar à casa do leão, o porquinho bateu à porta e, quando foi atendido por sua realeza, tratou logo de lascar o seu porquê mais precioso:

 – Sr. Leão, rei dos reis, sábio dos sábios, poderia Vossa Alteza me dizer por que existo?

 E o leão, porque era leão, respondeu mais que depressa.

Nhac.

Porque é o  fim da história!

Já pensou saborear esses versos com os meninos e recriá-los de muitas maneiras; criar narrativas a partir deles; criar vídeos com os celulares, declamando os versos e voar … voar … voar !

O apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios

Manoel de Barros

Em  Memórias inventadas para crianças, Ed. Planeta, p.13

E… pontuação para quê, hem?

Antes de ler Machado de Assis, que tal “roçar a língua de Luís de Camões”?

FAÇA A MOÇADA PENSAR E POR ISSO PONTUAR CONSCIENTEMENTE, EXPRESSIVAMENTE. Vamos lá.

A HERANÇA

Um homem rico estando muito mal de saúde, pediu que lhe trouxessem papel e tinta.
Escreveu o seguinte:
 

“Deixo meus bens à minha irmã não a meu sobrinho jamais será paga a conta do padeiro nada dou aos pobres”

Deu o último suspiro antes de ter podido fazer a pontuação. A quem, afinal, deixava sua fortuna?”

Eram apenas quatro os citados.
No dia seguinte, ao receberem o papel, cada um dos citados deu ao texto a pontuação e a interpretação que lhe favorecia.

E você aí, quer ser desafiado?

Então, reescreva o texto pontuando da mesma forma que os outros interessados na herança. Depois vamos conversar sobre isso. Que tal?

– O sobrinho fez a seguinte pontuação: ……………………………………………….

– A irmã chegou em seguida e o pontuou assim: ………………………………..

– O padeiro pediu cópia do original e o deixou dessa forma: ………………………

– A notícia se espalhou pelas redondezas e um sabido homem representando os pobres deixou o texto desse jeito: ………………………………..

Que tal a leitura de “Morte e vida Severina “?

Namorar bastante o texto, ouvir as músicas do Chico, contextualizar a obra, a  região, os valores implícitos e explícitos e depois encenar trechos do maravilhoso poema épico, de João Cabral de Melo Neto.

FUNERAL DE UM LAVRADOR (MORTE E VIDA SEVERINA)
Chico Buarque

Esta cova em que estás, com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida

É de bom tamanho, nem largo, nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio

Não é cova grande, é cova medida
É a terra que querias ver dividida

É uma cova grande pra teu pouco defunto
Mas estarás mais ancho que estavas no mundo

É uma cova grande pra teu defunto parco
Porém mais que no mundo, te sentirás largo

É uma cova grande pra tua carne pouca
Mas à terra dada não se abre a boca

É a conta menor que tiraste em vida

É a parte que te cabe deste latifúndio

(É a terra que querias ver dividida)

Saramago em momentos. Por que não aproveitá-los?

“Cada um de nós vê o mundo com os olhos que tem, e os olhos veem o que querem, os olhos fazem a diversidade do mundo e fabricam as maravilhas, ainda que sejam de pedra, e altas proas, ainda que sejam de ilusão.” José Saramago

NOTAS FUNDAMENTAIS:

Paulo Freire não alfabetizava pelo método da silabação, nem pelo fonético. Acreditava que as palavras deveriam vir inteirinhas, palavras-tema, palavras estas que encontrassem sentido, significado no REAL VIVIDO pelos aprendentes. Sabia ele que EDUCAÇÃO tem a ver com afeto. Assim a palavra TIJOLO para os operários da construção civil, por exemplo, vinha carregada de significados. Dali partia-se para a sua inserção no mundo letrado.

Quem não possuir o REAL VIVIDO, concreto, jamais poderá se inserir na REALIDADE BRASILEIRA, literalmente, e continuará (apesar de haver concluído cursos superiores até), a escrever com erros de ortografia, de concordância, de inadequação vocabular etc. – aquilo que vulgarmente, chulamente, se classifica apenas como ‘‘erros de português’‘ por aí.

Leia, no link ”Categorias”, outros trabalhos realizados com alunos.

Post publicado no GGN, em 2015

A gramática da poesia: aulas em cápsulas de lirismo, por Odonir Oliveira

Texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1- Facebook de Odonir Araujo

2- Canal Vangodias

3- Canal Jonathan Pereira

4- Canal Adoniran Barbosa

4- Canal Milena Barbosa

6- Canal Caetano Veloso

7- Canal Centro de Memória Sindical Música e Trabalho

8- Canal Vinicius Vinicius

Chico, sem desafinar nunca

PARCERIA DE TODA UMA EXISTÊNCIA

A arte de Chico Buarque ajudou na trajetória da minha vida inteirinha. Com seus versos, com a variedade de ritmos que desfilou na minha frente, com os livros que escreveu, com as peças de teatro a que assisti – todas – desde Os Saltimbancos. Depois com os filmes que recheou com trilhas sonoras e os documentários sobre seus discos. Chico dificulta a inserção de um outro AMOR em meu coração.

Os primeiros amores, as marcas felizes e doloridas dos relacionamentos a dois, as separações, os novos amores e as comparações entre eles todos, as perdas de quem valeram as penas sofridas … tudo Chico acompanhou e me deu a mão.

Converso aqui e ali e ouço que não se deve amar profundamente, que não se deve ”arrastar correntes por um amor”, que isso e aquilo, que ”lavou tá novo”. Caramba, que vida fuleira é essa, meu Deus. O que seria da literatura, da poesia, dos romances escritos por séculos, sem tudo isso. Encantamento é ler alguém que se expõe por AMOR, prova que assume um AMOR. Isso se torna ímpar, singular, incomum. Homens, assim então … exercem sobre mim eterno fascínio.

Chico sempre se expôs com coragem. Detesto homens fracos, em amplitude. Sem brios pessoais e coletivos, lentos. A arte de Chico não desafinou nunca. E quando decide que vai escrever ”só” LIVROS a partir de certo momento… uau ! Chico é Rei !

Amo Chico Buarque de forma incondicional, defendo-o com unhas e dentes, acompanhei sua beleza interna e sua velhice externa – ela nunca importou mesmo – ele é gente que tem defeitos, que amou e sofreu, que fez escolhas, viveu com integridade toda a sua existência. E mais, foi meu PARCEIRO MAIÚSCULO em todas as fases da minha existência. Temos pouca diferença de idade. Envelhecemos juntos. Nunca tive ciúme de nenhuma de suas mulheres. Meu AMOR por Chico é incondicional. Por quê? Porque sei quem é Chico Buarque e, como escreveu Guimarães Rosa, ”quem elegeu a busca não pode recusar a travessia”.

CHICO, EU TE AMO, CARA !


Sobre Chico Buarque leia outras postagens minhas:

Chico, o meu Camões

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2019/10/27/chico-o-meu-camoes/

Chico Buarque e as mulheres de si

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2016/03/20/chico-buarque-as-mulheres-de-si/

Chico Buarque, muito obrigada

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2018/06/19/chico-buarque-muito-obrigada/

Chico, por isso te amo

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2017/07/28/chico-buarque-por-isso-te-amo/

Chico Buarque, um ser totalmente explícito

https://jornalggn.com.br/blog/odonir-oliveira/chico-buarque-um-ser-totalmente-explicito

Texto: (em 1ª pessoa) Odonir Oliveira

Vídeos:

1- Canal Douglas Pawoski

2- Canal Marcel Fukuwara

3- Canal valeriabdiniz

4- Canal Angeli Pex

5- Canal Jefferson Souto

6- Canal JC Pasquini

7- Canal geraldorjr

8- Canal EDUARDO VASSOLER

9- Canal Biscoito Fino

10- Canal Biscoito Fino

11- Canal Jorge Bautista

12- Canal HG Erick

13- Canal Gabriel Alves da Silva

Dezembro, 2019

O que foi feito devera (Vera)

O que foi feito, amigo,
De tudo que a gente sonhou
O que foi feito da vida,
O que foi feito do amor
Quisera encontrar aquele verso menino
Que escrevi há tantos anos atrás
Falo assim sem saudade,
Falo assim por saber
Se muito vale o já feito,
Mais vale o que será
Mais vale o que será
E o que foi feito é preciso
Conhecer para melhor prosseguir
Falo assim sem tristeza,
Falo por acreditar
Que é cobrando o que fomos
Que nós iremos crescer
Nós iremos crescer,
Outros outubros virão
Outras manhãs, plenas de sol e de luz

Alertem todos alarmas
Que o homem que eu era voltou
A tribo toda reunida,
Ração dividida ao sol
E nossa vera cruz,
Quando o descanso era luta pelo pão
E aventura sem par
Quando o cansaço era rio
E rio qualquer dava pé
E a cabeça rodava num gira-girar de amor
E até mesmo a fé não era cega nem nada
Era só nuvem no céu e raiz
Hoje essa vida só cabe
Na palma da minha paixão
Devera nunca se acabe,
Abelha fazendo o seu mel
No canto que criei,
Nem vá dormir como pedra e esquecer
O que foi feito de nós

FELICIDADES A TODOS !

Odonir

Vídeo: Canal bauelisregina

Território de loucos

A LOUCURA NOSSA DE CADA DIA

Sempre estive próxima da loucura. Circundava meus ambientes. Fosse em círculos mais próximos, em cenários profissionais, em visitas a Minas. Conheci de perto, bem de perto gritos, insanidades, sangue, cortes, contenções, internações, medicações, visitas, dores, lágrimas, culpas atribuídas a uns, heranças genéticas atribuídas a outros, brigas e discussões eternas. Dentro e fora.

Minas casava parentes consanguíneos com naturalidade. Minas comprometia primos ainda meninos entre si. Drummond, em mais de um conto, crônica e em entrevistas, revelou que saiu de sua cidadezinha, principalmente, por temer ter que se casar com alguma prima e gerar filhos não saudáveis – assim se acreditava nas primeiras décadas do século XX. Leia A doida, de sua autoria, por exemplo.

Seres bipolares que acusam, gritam e podem até agredir fisicamente a outros e, no momento seguinte afagá-los, acarinhá-los, sem demonstrar resquício de qualquer culpa, beiram à esquizofrenia, às psicopatias. E coexistem em nossos meios, sem qualquer tratamento psicológico, acompanhamento ou medicação. Correm riscos. Correm-se riscos.

No meio literário, muitos escritores e poetas tinham em sua produção escrita a salvação para seus males. Fernando Sabino, por exemplo, declarava que se não escrevesse, teria enlouquecido e acabado num divã de psiquiatra. Autran Dourado sofria de psicose maníaco-depressiva – só para citar mineiros. Outros, como Cruz e Souza e Lima Barreto, encontraram no álcool uma fuga para ingressar em suas loucuras. A loucura, de certa maneira, liberta da opressão. De qual ? Não sei. Talvez de suas chagas de infância, de adolescência, da sua falta de adaptação a um mundo do qual discordam.”Fulano (fulana) sempre foi rebelde”.

A sociedade, ”o público em geral”, sempre considerou como grande castigo ter alguém louco na família. Poderia haver ladrão, assassino, polígamo, ímpio e ateu; mas louco, jamais. Fonte de discriminações, camisas-de-força, recolhimento a sanatórios, choques elétricos, embobecimentos medicamentosos … tudo para higienizar a sociedade da convivência com seres enlouquecidos.

Sabe-se hoje, que há muita muita gente necessitando de terapia, de grupos de apoio por razões diversas, vícios de toda ordem, formas de tratar os semelhantes de forma adoecida – o que gera outros adoecimentos ao redor. Costuma-se aconselhar que famílias inteiras façam acompanhamento psicológico, caso pretendam conviver com alguém tóxico em seus ambientes cotidianos.

Já nos ambientes profissionais, pessoas adoecidas, psicopatas, convivem com seus colegas e, de maneira cruel, agem nas alcovas, prejudicam, agridem, atacam naturalmente – muitas vezes sem se dar conta de suas psicopatias. Seguem sem tratamento, acompanhamento, sem terapias de apoio.

A loucura, há bem pouco tempo vem sendo mais aceita socialmente, pela idade, quando se torna demência, agora diagnosticada melhor como Mal de Alzheimer. Do contrário, um doente mental será sempre escondido, excluído, maltratado.

Em uma sociedade que tudo nos cobra e nada nos dá, com parâmetros de uniformidade cada vez mais doutrinados pela religião, pelo consumo, o adoecimento das pessoas é flagrante. Só não enxerga quem não quer enxergar.

Guimarães Rosa, o gênio, clinicou em Barbacena, antes de se desgostar da medicina e ingressar na carreira diplomática. Comenta-se , em ambientes de médicos, quais foram os seus desgostos. No entanto, a loucura, os sertões e as fugas dos ambientes institucionalmente constituídos foram temas constantes em tudo o que escreveu, depois de ter vivido por aqui.

“O senhor mire e veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam, verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra montão.”

“Quem elegeu a busca, não pode recusar a travessia …”

“Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”

Leia também aqui nesse blog, sobre o tema ”loucura”

Sanidades e loucuras

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Eu sou muito louca, por pensar assim …

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“Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura” G. Rosa

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“Ela é fã da Emilinha, não sai do Cesar de Alencar” I

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“Ela é fã da Emilinha, não sai do Cesar de Alencar” II

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Psicopatias

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Texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal Lenine Oficial