Sou velha !

NO RITMO DA VELHICE
Não sou antiga, sou velha.
Gosto e me delicio com café de coador de pano. Não gosto de filtros. Sou velha.
Gosto de mexer na terra com as mãos. Não uso luvas. Sou velha.
Varro minha casa, tiro o pó, limpo banheiros, vidraças, calçadas. Não terceirizo mãos. Sou velha.
Cozinho minha comida. Não alugo paladares alheios. Sou velha.
Gosto de móveis antigos, de chão de madeira, de enfeites antigos, de cores antigas. Sou velha.
Encantam-me conversas longas, vozes, silêncios, risos e surpresas presenciais ou ao telefone. Não uso mensagens celulares. Sou velha.
Gosto de LPs, de MPB antiga, pouca coisa nova. Gosto de cantoras antigas, de paixões antigas, de jeitos de ser e de se amar como antigamente. Sou velha.
Sou mulher de um homem só, concreto, sólido. Não suporto amores líquidos, fugazes, à la carte, ou self service. Gosto de ficar curtindo o preparo de doces, de carnes, de pratos saborosos e de amores. Sou velha.
Gosto de folhas secas, de pedras dos caminhos, de imagens a esmo, de fotos antigas, de recordações. Sou velha.
Tenho medos, receios, cuidados, reservas na bagagem sexagenária. Não gosto de atropelos. Sou velha.
Namoro beija-flores em voos solitários, atraem-me cantos de pássaros, quaisquer pássaros, gosto de luas, de céus ao entardecer; reais, não em telas. Sou velha.
Gosto de ler versos, prosa, romances, no papel. Sou velha.
Não tinjo cabelos, não altero meu corpo: minhas marcas e cicatrizes são verdadeiras. Não inflo meus seios, minha bunda, minhas coxas, meus lábios. Sou velha.
Minha pele é morena, sem o bronze do sol cancerígeno. Gosto do mar para sentir-lhe a brisa, o marejar das ondas e os silêncios internos. Sou velha.
Prefiro vinho, bebo e sonho. As nuances, ah as nuances. Sou velha.
Ando preferindo há décadas animais e flores a humanos cabotinos, hipócritas, lobos do mal em peles de cordeiro. Sou velha.
Gosto dos homens fortes, corajosos, valentes, que não se dissolvem por quaisquer mulheres pequenas. Não gosto dos homens que acreditam virem me salvar a tirar teias de aranha da minha velhice. Sou forte e admiro homens fortes,
portanto,
sou velha.

Texto: Odonir Oliveira

Vídeos:

1- Canal GreatPerfomers1

2- Canal Laserdisc70

O lirismo das rosas

ROSAS FORMOSAS

O que aprendi com as rosas
Aprendi que coloridas, lindas
se transformam
mudam de cor
outros botões surgem, outras belezas aparecem
outras cores se misturam
ora se despetalam
ora se embotoam
o ciclo da vida é esse
somos rosas amarelas
bonitas, formosas, em botão
depois despetalamos
ficamos metade
ficamos assim
uma parte apenas.

Isso foi o que aprendi com as rosas
a beleza é efêmera
a beleza é passageira
Mas, quem não admira
Quem não se enamora da beleza?

Rosas formosas são rosas de mim
rosas em botão
assim.

CRÔNICA PERFUMADA
No domingo de sol frio há um tom de multicores no ar. É flor de inverno. Companhia que não dispenso por cores, perfumes, belezas.
Quando não as tenho por aqui. Vou buscá-las. Gosto das rosas amarelas, das grandes, que se abrem e permanecem comigo por uma semana, me olhando escrever, me dirigindo olhares lânguidos e fluidos. São de uma sensualidade atrevida e suave, como gosto.
Nessa cidade das rosas, essas lindas para exportação, vez ou outra aparecem em buquês nos supermercados. Não resisto a elas. Compro, trago-as nas mãos. Ninguém toca nelas. Aconchego-as em meu colo. Dou-lhes água e jarro. Namoro-as com prazeres.
Nas manhãs, bem cedo, alimento-as de água nova, converso com elas e me inspiro em sua beleza, assim, como agora, mirando-as ao escrever.
Sempre adorei rosas.
No meu quintal, as miudinhas fazem saraus ao entardecer, como num conjunto, aos grupos. E perfumam tudo. Não tenho coragem de cortá-las de lá. Prefiro admirá-las nas manhãs, cheias de gotinhas geladas e ao entardecer, quando me contam que estão ali, que se delas precisar, estarão ali.
Doces rosinhas as minhas.

MEU QUINTAL

meus pássaros cúmplices
meus pássaros cúmplices
me trouxeram as sementes
me enfeitaram o quintal
árvores que vi crescer
árvores que vi brilharem
árvores
árvores
árvores
belezas que vi resplandecer
no meu quintal
pertinho de mim
chegando juntinho de mim
árvores que semeei
árvores que encontrei
flores que chegaram
sem que eu pudesse 
por elas nada fazer
nada impedir
nada coibir
só vê-las em seu resplandecer

Poesias e crônica: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal cfariarj

Entre trancos e barrancos

FLORES DO CAMPO

Caminho,
encontro flores do campo,
que lindas,
amarelas selvagens,
róseas-vermelho-alaranjadas,
germinadas vadias, florescidas ao léu,
alheias a cimento, areia, pedras.

De pouca água de sarjeta,
De muito sol avassalador,
alimentam-se,
robustas coloridas selvagens.

Livres, esparramam-se por aqui, ali, acolá.

Sem perfume.

Colho-as, que lindas,
Quero-as minhas.
Carrego-as em meu regaço
Mãos quentes
Olhos vigilantes
Caminho
Tropeço
Caminho
Apressadamente
Sofregamente
adonadamente.

Minhas,
sem perfume.
Minhas.

Aperto-as,
Que minhas.

Ao final do caminho,
sem vida,
sem viço,
sem beleza.

Sem perfume.

Mortas.
Minhas.

BARRANCOS

Tudo engenho e arte
desço da nave-esconderijo
com asas de pousar
no ar

tudo seco
tudo ramo-rumo no chão
no barranco ressequido a cor
tatuagens no barro rijo

Flores de barranco

O dia tem poesia
o silêncio
o encantamento
Entre trancos e barrancos
o dia tem poesia

AOS TRANCOS

Caminho
no meio do caminho
caminham
duas siriemas
penteado contemporâneo
garbo e elegância
caminham
caminho
sou passo leve
sem assustar
sem máscara
aproximação leve
calma
sem assustar
no caminho as siriemas se embonitam
no passo-compasso
aguardam
sabem dos tempos de seu caminhar
uma vai
a outra vai
calmamente
siriema estátua no pedestal-cupim
o tempo
o vento
os secos
duas siriemas

PÁSSAROS IRREPREENSÍVEIS

que dançam
que leves
que saltam
que seguem
que brincam
que brindam.
Que soltam-se
que seguem-se
que envolvem-se
que vão
que vêm
em vão
em vai-e-vém
Levitam nos ares
nos portos
nos dorsos
nas rotas.

No porto.

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1- Canal Yamandu Costa

2- Facebook Odonir Araujo

”Barbacena, cidade dos loucos”?

ESPECTRO SOCIAL
São loucos os que querem igualdade
São loucos os que pedem justiça
São loucos os que exigem direitos cristalizados
São loucos os que empunham votos expostos
São loucos os que abrem as janelas do novo
São loucos os que aspergem contradições
São loucos os que gritam nas ruas
São loucos os que seduzem olhares, sentires
São loucos os que habitam praças declamando sonhos
São loucos os que assumem vergonhas próprias alhures
São loucos os que percorrem entranhas estranhas e vis
São loucos os que acreditam no todo social justo
São loucos os que expõem suas mazelas em nuvens
São loucos os que sustentam suas teses de paz
São loucos os que recusam moedas e guardam prazeres …

TERRA DE MINAS
Que bondade tem o garoto mineiro que ajuda a carregar embrulhos, mesmo sem precisão…
Que prosaico é aquele “cê bobo” ao final das frases coloquiais …
Que vontade é essa de ficar sentado na praça a tocar causos e prosas até o entardecer…
Que permissivo é esse tom de confidência de quem jamais nos viu antes …
Que adocicado é esse olhar de matutagem espalhado pelas calçadas …
Que coisa caseira é essa que me enternece de água os olhos …
Talvez seja encontro de sangue mineiro com sangue mineiro.
Talvez seja um ponto de vista repleto de montanhas .
Talvez seja essa vontade de encontrar o que uma vez se perdeu em mim.

Sobre Barbacena, leia aqui no blog:

Território de loucos

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2019/11/21/territorio-de-loucos/

Essa Barbacena, cidade mineira

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2018/04/16/essa-barbacena-cidade-mineira/

Tecendo o amanhã

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2017/02/15/tecendo-o-amanha/

De perto ninguém é normal

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2017/01/03/de-perto-ninguem-e-normal/

Tecendo sedas

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2020/05/05/tecendo-sedas/

Barbacena, ela viveu ali

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2017/01/08/barbacena-ela-viveu-ali/

Dona Augustinha, leve como passarinha

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2017/04/06/dona-augustinha-leve-como-passarinha/

Feiras livres e belas

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2018/01/04/feiras-livres-e-belas/

Poesias: Odonir Oliveira

Vídeos: Facebook Prefeitura de Barbacena (série Giro Barbacena)

“Só viver no afeto”

Em janeiro de 1970 com o irmão mais velho e o mais novo

Leve e Suave
(Lenine)

Há de ser leve
Um levar suave
Nada que entrave
Nossa vida breve
Tudo que me atreve

A seguir de fato
O caminho exato
Da delicadeza
E ter a certeza
De viver no afeto
Só viver no afeto

”A alegria é a prova dos nove” – Oswald de Andrade

É o que me interessa
(Lenine e Dudu Falcão)

Às vezes é um instante
A tarde faz silêncio
O vento sopra a meu favor
Às vezes eu pressinto e é como uma saudade
De um tempo que ainda não passou
Me traz o teu sossego, atrasa o meu relógio
Acalma a minha pressa
Me dá sua palavra
Sussurre em meu ouvido
Só o que me interessa

Daqui desse momento
Do meu olhar pra fora
O mundo é só miragem
A sombra do futuro
A sobra do passado
Assombram a paisagem
Quem vai virar o jogo e transformar a perda
Em nossa recompensa
Quando eu olhar pro lado
Eu quero estar cercado só de quem me interessa

A lógica do vento
O caos do pensamento
A paz na solidão
A órbita do tempo
A pausa do retrato
A voz da intuição
A curva do universo
A fórmula do acaso
O alcance da promessa
O salto do desejo
O agora e o infinito
Só o que me interessa

Vídeos: Canal Lenine Oficial

Ser e parecer ser

SER OU NÃO SER
o jeito parece ser
o ser engana
a fala parece ser
o ser engana
o meio parece ser
o ser engana
a moldura parece ser
o ser engana
o retrato parece ser
o ser engana
a aparência parece ser
o ser engana
a essência parece ser
o ser engana
o território parece ser
o ser engana
caipira parece ser
o ser engana

AVARANDADO
A taça de Dioniso me impele.
Não estou aqui.
Vou. Vou. Vou.
Olho, olho, olho.
Sinto, sinto, sinto.
Não tiro poesias das coisas.
Amo as coisas e elas tornam-se poesia.
Amo formigas e formigueiros, imagine.
Amo casas e telhados coloniais.
Amo cães e flores de todas as variedades.
Amo cachoeiras, rios, cascatas e chuva.
Amo sol, lua e estrelas.
Amo trens e estações vazias.
Amo música sem palavras e silêncio.
Amo risos de crianças e perfumes de amor.
Talvez por isso seja tão confessional e comum o que escrevo
porque as coisas sobre as quais versejo
estão prosaicamente aqui, ali, em qualquer lugar.
Não tiro poesia das coisas.
Amo as coisas e elas tornam-se poesia.

LÍNGUA E LINGUAGEM

Na década de 1980 começaram a chegar às escolas – com atraso de pelo menos uma década – os estudos de sociolinguística, as variantes linguísticas, o respeito aos falares etc. Até então, nas aulas de Português – disciplina -ensinava-se muito mais a gramática: as construções sintáticas e morfológicas do português escrito e em norma culta, o aceito socialmente etc. Sabe-se que ”o português” são muitos (já ensinava Drummond com “o português são dois’‘, em seu poema ”Aula de Português”). Esse ensino de NORMAS gramaticais, segundo a história da educação, advinha do ensino religioso que primava por pregar padrões clássicos de leituras, de condutas etc. Tudo seguindo norma única. Os colégios jesuítas disseminaram em terras brasileiras esses ensinamentos. Era o ensino para OS ESCOLHIDOS, para alguns. Os outros … continuariam analfabetos, serviçais, braçais etc.

Quando a universalização do ensino se deu (como ainda acontece hoje no Brasil inteiro) predominaram as ESCOLAS PÚBLICAS. Ainda assim, destinavam-se a poucos. Era mais fácil se ensinar a decorar regras gramaticais da norma culta a quem já as usava em casa. Alunos vinham de famílias com livros em seus lares, com experiência de cultura formal etc. Só iam para ESCOLAS PARTICULARES aqueles cujos pais preferiam o ensino religioso ou os que não ”conseguiam acompanhar” o ENSINO PÚBLICO – porque eram reprovados por anos seguidos. As ESCOLAS PARTICULARES, não-religiosas, ditas leigas, abraçavam ”alunos de classe média e média alta considerados ”problemas” para escolas públicas (por vezes, sendo até expulsos/jubilados dessas instituições).

Em um quadro, de universalização das ESCOLAS PÚBLICAS, seriam evidentes as diferenças entre as línguas orais e escritas dos alunos. Ensinar uma gramática de normas e regras cultas tornou-se desafio enorme – quase como colocar um pé 40 num sapato 36, um canhoto escrever com a mão direita, um pato voar bem alto etc. Passou-se a ter de entender a linguagem que traziam, as culturas que traziam e a respeitar-se tudo isso. Era preciso ensinar a ”ser poliglota na sua língua”, conhecer para saber usá-la em situações que solicitavam certo código linguístico – para isso seria necessário que os professores também se adequassem, mudassem paradigmas. (Resistências enormes: ”Tenho que desaprender’, já vi, né’, ”Então é pra baixar o nível, né?”) – Na verdade, medo do ”novo”, de ter de estudar, de ter de se confrontar com a realidade social do país, de ter de SER PROFESSOR (A)/ EDUCADOR (A).

É imprescindível trabalhar-se com a oralidade dos alunos em sala de aula. A mescla é saudável. Aprendi muito com meus ”meninos”. Nunca me esqueço de quando era professora de Sala de Leitura, em SP, numa aula noturna, com alunos de supletivo – hoje EAD – e comecei uma aula com a música do Chico ”Pivete”. Foram ouvindo, fui tirando deles o que achavam, do que o poeta falava etc. (Tinha acabado de acontecer o massacre do Carandiru) – a escola ficava na periferia da zona oeste da cidade, com gente bem humilde no bairro.

Percebi que interagiam pouco, meio tímidos. Interrompi a canção, perguntei o que gostavam de ouvir. Resposta unânime: RAP. Os MCs eram seus ídolos. Pedi que trouxessem as letras, cantaríamos e eles me ensinariam aquilo tudo, porque eu conhecia pouco. ”Eu tiro as cópias, professora, lá no Xerox que eu trabalho”. ”Eu trago os CDs.” ”Eu também”. Animação total.

Na semana seguinte – as aulas na Sala de Leitura eram semanais, com empréstimos etc. – me apresentaram o RAP, os campeonatos, dançaram HIP HOP, e eu fiz ”do limão muita limonada”, comparando com ‘Pivete”, e ”O meu Guri” do Chico, a diferença entre as linguagens etc. Depois fomos para a ”pixação”, o graffiti, primeiro no papel kraft, com desenho de tijolos e com os graffitis em giz de cera sobre os tijolos. Depois, ah, depois, eles grafitaram coisas belíssimas nos muros da escola – com a sedução da diretora à causa. E num sábado, à luz do sol: participativos, vibrantes, criativos e conhecedores de seus direitos, de seus deveres … e de Chico Buarque também. Daí para as poesias de autores populares, regionais, leitura dos regionalistas etc. foi ”sopa no mel”. E dá-lhe RAP.

Observação do mestre Graciliano Ramos que, ao se referir à arte de Cândido Portinari, dizia que ela morava dentro dele próprio. “Arte é sangue, é carne. Além disso não há nada. As nossas personagens são pedaços de nós mesmos, só podemos expor o que somos.”

PERTINÊNCIA: Havia escrito esse post alguns dias atrás e hoje assisti a uma live no 247, com o Zé Miguel Wisnik , meu ex-professor na USP. Coincidentemente, falávamos das mesmas coisas.

Poesia e texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1- Canal Felipe José

2- Canal Caetano Veloso

3- Canal Elza Soares

Homem nu

RAÍZES DE HOMENS
Há certos homens que têm caules vigorosos.
São eles que semeiam a terra
afagam sementes
exalam perfumes de flores
recolhem os frutos doces.
Há certos homens que encostam as mãos na terra
a fortificam com seus dedos ásperos
a revolvem com palmas ardentes
a fertilizam com braços seguros.
Há certos homens que têm raízes em lugar de pés,
fincam-se inexoravelmente.

HOMEM DE PALHA
Como uma vela
era manobrado com facilidade por ventos quentes
Como uma biruta
era moldado com facilidade por ventos novos
Como uma pipa
era conduzido com facilidade por ventos de ocasião
Como paina
era assoprado com facilidade por bocas de pimenta
Porque de palha
cedia ao rumo que lhe impusessem.
Um dia pegou fogo.
Não era mais um homem, então.

HOMEM NU
Há em ti um medo insofismável de ser
Há em ti um esconderijo de tempos espaços externos e iluminados
Há em ti um entranhar-se em ti, como caverna de um Platão inédito
Há em ti espaços impenetráveis até por ti mesmo.
Há em ti um tom fúnebre de vazio existencial
Há em ti um carpe diem funesto e não libertador
Há em ti enigmas segredos secularmente indecifráveis
Há em ti um fugere urbem que se pretende equacionador
Há em ti uma rebelião dos valores estamentais sociais religiosos
Há em ti um sagrado íntimo trancado em celas-cárceres-degredos
Há em ti um código de valores herdado e mantido a ferrolhos
Há em ti um reflexo que não é o de ti
mas o de um outro que a ti intentas impor.

O HOMEM CHORA
Esse homem chora de dor pelas águas
chora de dor pelos peixes
chora de dor pelo hoje
que não é mais o ontem
nem será mais o amanhã.
Esse homem chora porque tem a pele das águas
a alma de lagoa e os olhos de ver
Tem flores do campo,
orquídeas selvagens no dorso,
conversa com deuses da aquarela
Esse homem chora
porque é menino que levita.

NARCISO
Quem é você Narciso
que encontro na vereda da minha salvação
atropeladamente
bruscamente
impactantemente?
Quem é você Narciso
que abraço nas águas como se fora um sertão
embriagadamente
ingenuamente
instantaneamente?
Quem é você Narciso
que me entontece de intrigas
em um torvelinho de dores flores amores
tropegamente
bastardamente
inominadamente?
Quem é você Narciso
que me acaricia e me chicoteia com o mesmo rigor
nas manhãs tardes noites e madrugadas
em meus lagos rios e cachoeiras?
Revele-se
Quem é você Narciso?

ORÁCULO GREGO
Meninos de todas as idades
Mãe pai irmãos
A contação de histórias na hora de dormir
A sanfona a viola
O pai a mãe os irmãos
A comida no fogão sempre quente
O bule no fogão sempre quente
A mãe o pai os irmãos
O dia a tragédia o ir-se
O irmão mais velho agora sendo o pai
de repente
A mãe sucumbe entontece delira
Perda
Mais tarde outra perda
O dia a tragédia o ir-se
A sina, a sanha, a saga
Os filhos os irmãos
Os parentes os amigos
A união mais forte na dor
A união mais forte nos braços
A união mais forte nos traços
A união mais forte nos abraços
A união ainda mais forte
nos louros
Mãe e irmãos num só lume
Mãe e irmãos num só barco
Mãe e irmãos num só compasso
Mãe e irmãos
num só
laço.

CERTO MENINO
Media-se por competições
Estimava-se por reflexo em espelhos
Divertia-se com os desafios
Era um, mas era bem outro
Gostava de duelar
Gostava de vencer os duelos
Adorava exibir os troféus
Seduzia-se por ser sempre o vencedor.
Era um homem, mas era apenas um menino.

CENA PITORESCA
Ao molhar as plantas da sacada, um beija-flor pequenino de penas verdes ”fluorescentes” veio beijar cada uma das lavandas. Não resisto, me afasto e percebo que ele beija TODAS, sem repetição. Inacreditável. Depois voa para o fio de luz e fica esperando eu sair.
Entro, venho pegar o celular. Volto, ele está beijando todas as outras lavandas do vaso ao lado. Sem repetir nenhuma também. Fiquei distante. Não tive coragem de interromper o namoro dele com elas.
Beijou todas e se foi.
Beija-flor mineiríssimo !

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de aquivo pessoal

Vídeos: Canal Willie Nelson

Raízes

RAÍZES
limpo a terra
lavo as raízes
descarto as apodrecidas
seleciono as vivas
fixo as miúdas
facilito sua aderência
ajudo-as com cascas firmes
sustento-as com caules rijos
crio moradas para viverem
acondiciono-as no colo do afeto
acarinho-as com a cor das esperas
falo com elas
acompanho seu ciclo
seu brotar
seu florescer
seu rebrotar
enamoro-me delas
cuido
aconchego
beijo-abraço de flores

DE PÉ

Está fincada na terra,
na terra profunda.
Está agarrada ao chão de húmus,
sulcos,
por mitose espalha-se,
pelos absorventes
suga
sustenta.

De pé.

SOBREVIVÊNCIA

Pressionada
encurralada
luta.

Esparrama-se.
Tem estofo
tem lastro
tem estrutura
tem garras,
luta.

Permanece,
sobrevive.

AQUELA FIGUEIRA
Na vereda
encontrei aquela figueira.
Fiquei ali.
Copa magnífica.
Dos verdes, todos.
De denso, o tronco.
De lastro, histórias
De expressão, singular.
Estáticas, ambas.
Incomum.
Raízes para sempre em mim.

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1 e 2 – Canal Música de Interior (Excelente Canal, com simplicidade e sofisticação)

3- Canal Odonir Oliveira

Travessias

”Quem escolheu a busca não pode recusar a travessia”

“Todo caminho da gente é resvaloso.
Mas também, cair não prejudica demais – a gente levanta, a gente sobe, a gente volta!…
O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem. Ser capaz de ficar alegre e mais alegre no meio da alegria, e ainda mais alegre no meio da tristeza…”- Guimarães Rosa

Vídeos:

1- Canal Orange Poem

2- Canal Mateus Aleluia – Tema

Fotos de arquivo pessoal: São Paulo, SP

Arte poética

A LÍRICA
A música caipira adoça as mãos
chuvinha de canela sobre os dedos
versos puros
rimas pobres
almas ricas
corre o domingo
coro de bem-te-vis
não se deixam fotografar
batem asas para outros galhos
o sol aquece o corpo
ao meio-dia queima
o espírito levita
as mãos sentem as cores
cacos coloridos de lirismo
desenhos de histórias nas canções
raízes de árvores etéreas
a sombra vem temperar o corpo
as formas e as cores
enternecer a tarde
reinventar formas
reciclar os móveis móveis
a lírica das mãos
a lírica da criação

Ando encantada com mandalas. Sem geometrismos, apenas ao som das líricas e reciclando os materiais e os não-materiais que ainda possuo por aqui

Poesia: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal: trabalhos e flores ”criados” por mim

Vídeo: Canal TRISCH II