Aquarius, a era

NAQUELE TEMPO

As saias longas, as roupas coloridas
os tamancos em couro cru
as alegrias primeiras
a serem inauguradas
por dentro e por fora
sol aquarius
mudanças, expectativas
projetos, rumos e ramos
beijos na boca
abraços fraternos
dança, muita dança
rosto pintado, desenhado
paz e amor
sem dor
muita cor
espelhos da alma
flores e sinfonias
desafios, entregas, chances
um mundo de aquarius
SONIA BRAGA, ESSA MULHER
Conheci Sonia Braga em janeiro de 1977 nas filmagens de A Dama do Lotação, por motivos muito particulares. Acompanhei algumas delas em locações. Achei-a exigente com o diretor Neville de Almeida, solicitando laboratório para cenas densas etc. chegando a dizer-lhe que estava acostumada a elaborações, requisitando dele interrupção da filmagem para concentração, conversas em particular com o diretor e com quem iria contracenar com ela. Tinha vindo da novela Gabriela na TV, do filme Dona Flor e seus Dois Maridos, feito teatroera novinha, 3 anos a mais que eu. Achei-a uma atriz já muito comprometida com seu trabalho. Era linda e sensual, ao ponto, como as brasileiras e os valores considerados de beleza naquele momento. Nada artificial. Ela era ela.
Sempre admirei a beleza feminina. (A masculina, não. Nunca foi valor pra mim o visual masculino). E a beleza sem retoques, no falar, no andar, no sorrir, tudo encanta. Gosto de mulheres bonitas assim. Sonia Braga era assim. E sem excessos de gostosuras, manipulação de machos ao redor …  franca, verdadeira. Gostei muito dela.
Acompanhei a carreira da atriz no cinema internacional e mais do que isso, seu amadurecimento feminino e seu envelhecimento. Assim foi que quando assisti, no cinema, pela primeira vez,  ao filme Aquarius, me encantei.( Já o assisti mais 4 vezes). A temática do filme é bastante abrangente, a protagonista é uma mulher com a idade da própria Sonia Braga. Os valores questionados – e descartados – pelo mercado imobiliário, por seus filhos adultos, pela urgência quase absoluta de se aderir a tudo o que for tecnológico, descartável, vendável e fugaz é atroz.
Sonia Braga está linda, em sua plenitude feminina, no filme e na vida. Olhando-a, comparando-a com a ”outra ela” que conheci, me vejo bastante representada, como outras mulheres da era de aquarius também. E o filme parece ter um roteiro escrito por minhas mãos. Por mãos que sentem.
Não perca.
AQUARIUS
direção: Kleber Mendonça Filho
Sinopse: Clara (Sonia Braga) mora de frente para o mar no Aquarius, último prédio de estilo antigo da Av. Boa Viagem, no Recife. Jornalista aposentada e escritora, viúva com três filhos adultos e dona de um aconchegante apartamento repleto de discos e livros, ela irá enfrentar as investidas de uma construtora que tem outros planos para aquele terreno: demolir o Aquarius e dar lugar a um novo empreendimento.
Poesia e texto: Odonir Oliveira
Vídeos:
1. Canal Isabella D
2. Canal Danilo Rodrigues
3. Canal Movieclips Indie
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O ”carteiro” e a poeta : ”A poesia não pertence a quem a escreve, mas àqueles que precisam dela”

MORADAS REFÚGIO

Avisto um paraíso
refúgio de anos
sossego de buscas
oásis de penúrias.
Posso me adonar de ti?
Posso me embeber de ti?
Posso me entregar a ti?
Adentrando cômodo a cômodo,
meus olhos desfrutam de ti
encanto-me com  tuas paredes,
com teu chão de histórias.
Eu, uma Helena de Troia mineira, raptada por ti.
Regozijo de perfumes
Regozijo de lirismos
Regozijo de paisagens
Regozijo de melodias
De onde conheço essa moradia abandonada ?
Estive aqui antes?

 

CAMINHOS DE PEDRAS

Quem era ela que acreditava nas águas dos rios?
Quem era ela que assobiava com os passarinhos naquelas manhãs?
Quem era ela que costurava panos leves de enfeitar venezianas solares?
Quem era ela que contava janelas coloridas em ruas de inconfidentes?
Quem era ela que pintava cores em telas desbotadas de perfumes?
Quem era ela que dedicava o olhar para uma única paisagem?
Quem era ela que saltitava pedra por pedra na trilha de ser?
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POETAS E RISCOS

Poetas são entes que assumem riscos
que se esfolam nas alegrias,
como um simples botão de romã,
que acham bonito um sorriso do cão vadio que os segue.
Vadias ideias rendem versos toscos,
sem polimento,
apenas versos.
A uns serão potes repletos de significados
ocultos
transfeitos
transversos.
A outros serão mensagens concretas de tapas e socos
porque a crueza dos dias assim os fez.
Nada pode incomodar tanto quanto versos.
E aliviar também.
Principalmente a quem os escreve
a quem os regurgita,
a quem os devolve como lírica,
sem nada pedir.
Plumas a quem os ler.
E, eventualmente, a quem os possuir como seus.
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GRITO DE PAVOR

Minha pele em chagas
Meu tronco em dor
Quem me socorre?
Quem me vivifica?
Quem me reanima?
Minha casca em chagas
Meu dorso lancetado
Meu colo esvaziado
Quem me socorre?
Meu útero semimorto
Minhas folhas sobreviventes
Meu de dentro se esvaindo
Meu de fora resistindo.
Quem me socorre?
Um fogo de fora
apagando
um fogo de dentro.
Quem me socorre?
Quem me vivifica?
Quem me reanima?
Um broto.

 

NA FRANJA DO MAR

Com as dores todas,
beijo a franja do mar
miro ao longe
quase na curva do horizonte
a entrega
do que a maré me trouxe
toco nela
bebo dela
sal da minha vida
Expurgo os restos refugos
aproveito as ondas
enxaguo as feridas,
sangrando ainda,
regozijo interno,
com o que me entrega o mar
porque não sou eu,
mas ‘quem me navega
é o mar.’
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Poesias: Odonir Oliveira
Fotos de arquivo pessoal
Imagem retirada da Internet – Augustin-Alphonse Gaudar de Laverdine – Narcisse se mirant dans l’eau 
Vídeos:
1. Canal Mario Ismael Guerrero Pérez
2. Canal Leandro Oliveira
3. Canal Attosday
4. Canal educarede

Besame !

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Rendez-vous

sopro de labaredas
fogo na pele
entardecer cúmplice
colóquio de brumas
sabores de carne
corpo em rumo
corpo em sumo
corpo em frente

sopro de brisa
colóquio de nuvens
perfume de unhas
tonalidades de outonos
olfato de azuis
sabores de sedas
corpo em sumo
corpo em frente

sinfonias

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UM BEIJO E UM QUEIJO

Desceu correndo as escadas,
arrumou os seios no sutiã,
bonito.
Ajeitou os cabelos,
curtos.
Viu-se, mesmo sem espelho,
jovem.
Abriu-lhe a porta.
Abriu-lhe o sorriso.
Abriu-lhe o colo regaço.
Quedou a nuca,
lentamente,
em sua direção.
Entregou-lhe  a face colando-a à sua.
Roçou-lhe as orelhas com os cílios.
Afagou-lhe o nariz com seu aroma.
Fechou-lhe os olhos com duas lambidas.
Embebeu-se do ópio momentâneo.
Abriu-lhe os lábios,
sem palavra alguma,
acariciou-os com os dedos.
Abriu-se em paladar,
naquele beijo.

UM POEMA DE AMOR

Ah, que demorem essas noites a chegar,
que fiquem as tardes, congeladas, com o ardor de seus beijos,
que permaneçam em meu dorso seus toques firmes
que em meus ouvidos cristalizem-se suas palavras todas
que seu rosto, como um som, repercuta em meu colo
que suas mãos cálidas entorpeçam minha voz incapaz
que seus pés se sobreponham aos meus como se me sustentassem a alma
que seus braços me envolvam com ternura e firmeza como um laço
que sua boca nada mais diga a não ser sussurros e apelos de ais
que seus olhos se fechem a apenas enxergar sabor em mim
que seus encantos estrangeiros e únicos não se percam com o escurecer
que sua língua armazene senhas de contato insubstituíveis
que seus dedos deslizem como seda no percurso de mim
que suas delicadas e sensíveis marcas se descubram por mim
que eu possa escurecer, com você, à chegada da primeira estrela.

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Poemas: Odonir Oliveira

Imagens de telas do pintor impressionista figurativo Andre Kohn, retiradas da Internet

1º Vídeo: Canal Hugo Rondón

Vídeo: Canal HECTOR PINEDA SAX

3º Vídeo: Canal Odonir Oliveira

Ressignificar, reciclar, re-ver

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INTOLERÂNCIAS

 

Não tolero mais
hipocrisias, cabotinismos
Não tolero mais
injustiças, descartes, desmontes
Não tolero mais
rapapés, tapinhas nas costas
Não tolero mais
escapismos, fugas, realinhamentos
Não tolero mais
nenhum tipo de disfarce no jogo social
Não tolero mais
o discurso do falso desconhecimento
Não tolero mais
o efeito manada
a manipulação generalizada
Não tolero mais
o que tolerava
quando mais jovem
quando mais ingênua
quando mais crédula.
Helô
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RECICLAR, RE-VIVER
Sempre tive poucos AMIGOS
nas mãos, conto menos de dez
Sou difícil de ter
Gosto de compartilhar
gosto de celebrar encontros
gosto de reciclar a mim
gosto de reciclar
objetos
gosto de ressignificar objetos
gosto de ressignificar amores e dores
gosto de gente dolorida, colorida, retorcida, colorida
gosto de cozinhar para amigos
gosto de dar de mim aos amigos
presenteio com artesanato
presenteio com minha presença
presenteio com meus ouvidos
presenteio com meus versos
Sou difícil de ter
Gosto de compartilhar
ENCONTROS INESQUECÍVEIS
Sempre fui uma menina muito sensível. Entretanto, nunca soube disso. Lá pelos 20 anos foi que – lendo psicologia, pois lidava com crianças especiais,  pra mim, muito especiais – me percebi bastante sensível. Gostava pouco de ”coisas” novas, de gente nova, de músicas de gente nova. Enfim, achava-me mais velha que eles. Hoje sei que isso tem a ver com uma certa percepção diferenciada dos momentos vividos, com a ressignificação das coisas que se tem, com olhar incomum para a natureza etc.
Depois dos 50 anos, passei a buscar outros prazeres na vida. Acho que até antes, mas eles dormitavam em mim, talvez pela rotina elétrica do cotidiano. Mas já gostava do que era mais antigo: moedas, panelas, gamelas, ruínas, restos de passado, e claro, de música antiga, a medieval, os clássicos, mesmo os fados que me estruturam o sangue português.
Depois dos 50, aprendi o que sempre quis, fiz o que sempre quis. Costuro e me dá um prazer enorme em costurar, olhar para uma cortina, uma roupa simples e dizer- porque falo mesmo, para os meus ouvidos – fui eu que fiz.
Cozinho e gosto de fazê-lo para os amigos – aqueles menos que 10 – nem sei cozinhar pra muita gente, gosto de ficar horas à mesa ouvindo, falando, ouvindo, rindo, bebendo, rindo e vivendo. Tenho grande prazer em inventar receitas e ressignificar receitas, em enfeitá-las e depois, ah, depois, ver as pessoas se deliciarem. Sinto-me uma rainha, até porque nunca pensei chegar a cozinhar o que cozinho hoje. E digo pra mim  fui eu que fiz. Gosto de re-aproveitamentos, de substituições de ingredientes, se não tem isso, uso aquilo. Meus amigos sabem o quanto isso me traz alegrias. Sinto falta deles aqui tão distante. Tenho postado fotos no Facebook, com as minhas receitas, assim incentivando-os a cozinhar também e compartilhando como se estivessem por aqui. E, principalmente, para amigos com quem nunca compartilhei a mesa. Trata-se de uma celebração, assim é que vejo comer junto.
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O meu artesanato, quando apreciado, logo me perguntam faz por encomenda, quero comprar. Não, faço com afetividade. Não vendo nada, nunca. Nem versos, nem artesanato, nem comidas, nem costuras (Tenho certo desprezo pelas moedas. Não sei ”me vender”, ”botar preço” no que crio. Sei doar, sei até trocar). Vender, nunca. Mas me encanta olhar algo que alguém descartou, jogou fora nas caçambas das ruas, no terreno baldio, até para coleta do lixo, e eu atribuir àquilo uma nova função ou significado. É o olhar de GARIMPEIRA, GARIMPADORA. O que para alguns NÃO SERVE, para mim É O MÁXIMO. E reformo, lixo, pinto, corto, recorto e acho lindo o que resultou daquilo. Olho e digo  fui eu que fiz. Jamais acreditei que tivesse a habilidade, a capacidade até, de recriar o que ninguém quis mais.
Não tenho nenhuma preocupação com perfeição, alinhamentos; tenho, com capricho. Assim também ao fazer meus mosaicos, meus trabalhos com retalhos e na VIDA REAL. Tudo se alinha, tudo se complementa, mantendo certa coerência.
Vivi algum tempo, numa comunidade na Bahia, com artistas plásticos e acompanhava diariamente a criação de suas telas, de suas molduras. Eles bem mais velhos que eu. (Jamais acreditei em poder fazer algo ligado a artes. Desenho muito mal, fui completamente amputada dessa habilidade desde criança. Criou-se em mim um bloqueio para desenhar). Admiro quem desenha, quem recria, faz caricaturas. O olhar, sempre o olhar.
Meus amigos pintores vendiam suas telas em exposições pelo país inteiro. Eu, sensibilizada com suas vendas, perguntava reiteradamente, mas vocês não sentem nada vendo seus quadros irem embora assim, depois de semanas em suas mãos, não sentem tristeza nisso? Eles, como profissionais, diziam que as telas tinham que seguir seus rumos, a comunicação é assim, no máximo iam à casa de quem as adquirira pra ver o melhor espaço para cada tela, a iluminação e depois adeus a elas. Não me conformava porque eu já era uma de suas apreciadoras, durante toda sua criação. Talvez estivesse ali a distinção entre nós.
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(tela de Ricardo Martins, arquiteto, pintor e meu amigo de Brasília)
Às vezes me perguntam se eu não sofro de solidão, porque estando assim tão distante, sem um companheiro ao meu lado etc. Reflito e costumo responder que não. Amores humanos, do tipo romântico por exemplo, são importantes, mas não imprescindíveis. A menos que carreguem em sua bagagem viagens doloridas, contorcidas, coloridas para serem repartidas. Depois, com tantas atividades a me darem prazer, além das flores e das minhas árvores … só bate solidão quando enxergo meu país aos farrapos. Aí é hora de pegar estradas. Afinal, sou caminhoneira, né.
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Observação: Posteriormente farei uma postagem sobre mosaicos e o que de significativo representam para mim. Atualmente os tenho  feito menos detalhados e maiores por conta dos dedos, que já registram uma artrose ou outra. Mas ainda são de MÃOS QUE SENTEM.
Dedicado ao meu querido amigo paulistano Luiz Jacob.
Poesias e texto: Odonir Oliveira
Fotos de arquivo pessoal
Vídeo: Canal Steven Kelly

Ângulos do lirismo

AO JOVEM DE QUEM  LI AS DORES DE AMORES

Comoveu-me
o teu amor por teu amor
a dor, a súplica a ela por amor
encantou-me
teu quadro de tintas fortes
sem te importares com as negativas dela
sem te protegeres da entrega
expondo teus sentimentos
com tanta clareza
com tanta verdade
Cartas de amor não são ridículas
quem ama sabe que não são
Ainda que a amada não atenda
a teus chamados
telefônicos, tecnológicos,
escreva, como te incentivei
nada há de mais belo que amar.
Garantiu-me que continuarás
a escrever
E eu te peço,
a amar também.
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AO POETA MADURO DE POESIA SENSUAL

Leio teus versos lusos e brancos
sem pejo ou ressalvas
leio teus gritos de prazer e gozo
sem eiras, nem beiras
leio tuas imagens e alegorias
do objeto feminino
do teu amor
sem troça, trocas ou truques
leio teus motes e voltas líricas
com sentires uns e outros
conservo tua poética como música
absorvo tuas estrofes como canto de trovador
saberá tua amada
certamente
quão fortes e belos são esses teus vagidos
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À JOVEM QUE VERSEJA E FILOSOFA EM PAR
Enterneço-me com tua fé
saúdo tua expressão de esperança
tua credulidade
tua ventura
O Fado vai deixando as bocas amargas
O homem a quem se ama não se doa
O semelhante não estima o próximo
O próximo não ama a natureza
Tua fé no outro
colore tuas palavras
semeia esperança
sonoriza os horizontes
Encanta-me ir beber da tua fonte.
E vou.
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Poesias: Odonir Oliveira
Imagens retiradas da Internet

1º Vídeo: Canal HECTOR PINEDA SAX

2º Vídeo: Canal Hugo Rondón

Em primeira pessoa

PEDINDO ESTRADA

Paro, que gosto de respirar mato.
Paro, que gosto de beber ar de rio.
Paro, que nada pode ser mais sensual que nuvens de algodão-doce no céu.
Paro, que gosto de ouvir o som do nada cortado pelo bucolismo de mim.
Paro, porque meu sonho, meu lirismo, minha rima pedem estrada.
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Sempre adorei estradas. Quando menina, ficava olhando pelas janelinhas dos ônibus em que viajava do Rio para Minas e adivinhando que mundos eram aqueles, quem moraria por ali, se haveria crianças como eu, como iriam à escola … na minha imaginação as cidades não se aprofundavam, e aquilo que eu via das janelinhas já eram as cidades. Uma concepção infantil ainda, sem nenhuma elaboração.

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Crescida, quis ser caminhoneira, imagine. Acreditava que pudesse conhecer meu país dessa forma. Sim, porque a gente conhece vivendo ali, conhecendo as pessoas, seus hábitos, sua cultura, sua linguagem, ah, nisso então me delicio com ouvidos atentos. E pergunto, quando não entendo. O que é mesmo isso? Gosto das explicações e, surpresos de que existam outras formas de se dizer aquilo, acabam me explicando. O mundo é GRANDE mesmo. Bem sei. E vou aprendendo.

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Foi assim que em 1987, fiz uma viagem mochileira, como se tivesse 20 anos. Na verdade, por aqueles tempos, eu passei a ter mesmo.

Fui de ônibus com um amigo, professor de Geografia, Osvaldo, e um ex-aluno querido, Fabiano, o Bianinho, 15 anos, para o sul do Chile. Dias de viagem de ônibus, dormindo, acordando, nas paradas o banho, o almoço, a janta. Na madrugada a Cordilheira dos Andes penetrada, deflorada em neve – no verão de um janeiro. Eu, minha manta, minha mochila de ferros, enorme, para ficar em pé sozinha no chão (tenho-a ainda aqui, aguardo mochilar de novo) . Viña Del Mar inesquecível. Oceano Pacífico gelado e muito salgado. De Santiago, Viña Del Mar, fomos de trem até o fim do continente, de lá pra frente só mar. Aquele Pacífico salgado todo, a grana curta, sem comprar lembrancinhas, recuerdos, sem fotografar quase, tudo caro. As baterias para os fones de ouvido, idem. As ligações internacionais, idem. A vontade de ir em frente, sempre.

Ficávamos em pousadas, casas de famílias – que no verão hospedavam visitantes, apenas com café da manhã, o desayuno. E saíamos a pé, percorrendo, percorrendo, conhecendo, conhecendo. Naquele tempo me propus a nada escrever, nada anotar, nada registrar. Apenas a confiar na memória. Hoje para refazer aqueles percursos, tenho que recorrer ao Google, pois que não me lembro mais com precisão de nomes de lugares e apenas das sensações vividas, das emoções tatuadas em mim.

Num domingo ensolarado saímos de Valvívia , 840 km de Santiago – cidade universitária e cultural – com belos jardins e lindas paisagens e tomamos uma embarcação – não me recordo de que espécie- não tenho, nunca tive ligação forte com mar, com alto mar muito menos, meus amigos costumavam dizer “Você morreu afogada em outras encarnações, só pode“. Fato é que não tenho intenções de mar mesmo. Fizemos a viagem de cerca de uma hora até um forte, O Forte de Mancera. Viagem sobre lagos, nos quais não se enxergava margem alguma do outro lado, profundos e muitíssimo perigosos. Cuidei de ficar na parte de cima da embarcação. Observando as aves, enormes aves que sobrevoavam literalmente nossas cabeças. Meus amigos fotografavam e eu, maravilhada, apenas. Li que havia horário para o último retorno e tal. Avisei-os. Ficamos atentos.

A paisagem “em terra” era deslumbrante, uma pequena vila de pescadores, o forte, em ruínas, todo de pedra, com canhão e tudo, seculo XVII.  Perdemo-nos ali, tamanha beleza, presença inconfundível de um ser maior que o humano. Acontecia um Festival de Cinema ou de teatro em Valdívia, não me recordo bem, e muitos atores também haviam feito aquela viagem conosco na embarcação, eram da Argentina, do Chile e de outros países. Falavam muito alto, declamavam, riam muito e com isso, todos nós perdemos a última viagem de volta para Valdívia. Lembro que os atores, inclusive, precisavam estar lá para alguma premiação, algo assim. Foi um desespero total.

Não havia lugar para hospedagem na aldeia de pescadores. Era domingo, dia sagrado para eles, que tinham pequenos motores em seus barquinhos e talvez pudessem nos levar até uma aldeiazinha próxima e de lá pegarmos uma jardineira até Valdívia. Imaginei. Se nós os convencermos, seriam várias viagens … já fim de tarde, embora fosse verão, com horário de verão, naquela latitude, escurecesse muito tarde, às nove ou dez da noite, mesmo assim” … o medo estratosférico. Já pensei que haveria de morrer ali tão distante do meu país, longe de minha filha menina, oh, céus.

Convencemos os pescadores, pagamos bem paga cada viagem. Fomos os 3 e mais 2 atores já na segunda viagem. Entrava água dentro da embarcação, com o movimento “em alto mar”. O motor voava. Os peixes e as aves nos acompanhavam. E eu sentada, no chão do barco, não nas madeiras feitas de bancos. Não suportaria. Fui de olhos fechados os 40 minutos até a aldeiazinha. Pareceram-me séculos.

Chegando lá, tive uma crise de pânico – creio hoje – não consegui andar, fiquei enrijecida, minhas pernas travaram e eu só chorava, de gritar, de soluçar, de falar o que não me recordei nunca. Só meus 2 amigos me narraram depois. Fui carregada no colo até o ponto. Fui me acalmando, mas sem conseguir mexer as pernas. Fui colocada no banco da jardineira, e durante todo o tempo de viagem – nem recordo quão demorada foi – seguiram me acarinhando, conversando, contando piadas, cantando pra mim. Só em Valdívia, muito devagar, consegui descer da jardineira. De madrugada, na pousada, tive pesadelos e falei o tempo todo, assim contaram meus amigos – que por conta disso não dormiram também.

Mas nada nos impediu de prosseguir viagem 2 dias depois até Puerto Montt, de trem, por horas e horas, com porcos, bicicletas e muito mais, nos acompanhando na viagem. Quem já assistiu como eu, anos depois, a Diários de Motocicleta, com Che Guevara, personagem principal, saberá do que estou falando. Punta Arenas, depois.

A volta por Bariloche, pelos lindos lagos e vulcões em atividade, os parques magníficos, os cannyons, águas verde-esmeralda, parecendo ter sido derramada uma tintura dos céus nelas. Tudo de encantar mesmo. Depois a volta pelo interior argentino La Pampa, Buenos Aires. E no Brasil por Foz do Iguaçu, São Paulo. Tudo por terra, lago e mar. Dormindo numa barraca de camping. Tudo novo.

Pouca grana. Amigos de meus amigos já haviam feito esse percurso no ano anterior e nos indicaram todas as pousadas, casas de família etc. passeios nos caminhos. O que levei em grana? Em 1987, 350 dólares, para 28 dias de viagem. Do jeito que sempre gostei. Passeios para conhecer o mundo, os lugares, a natureza, as pessoas. Como a caminhoneira que nunca fui, ora.

Essa viagem inaugurou em mim, com um atraso relativo a uns 15 ou 20 anos, uma vida nova.

Continuo motorista de caminhão. Em terra. E algumas vezes nas nuvens também.

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Observação: Minha amiga, Conceição A. Bento, professora em uma Universidade Federal em MG, defendeu sua tese de doutorado na USP, sobre Memórias, a que assisti. Fez o último curso de um renomado memorialista, professor na Sorbonne, que depois aposentou-se. Ela foi sua aluna. Sei que é  muito importante resgatar nossas memórias, há nisso uma revisão histórica individual e coletiva, além de se registrar o “real vivido”. É exatamente sobre esse tal “real vivido” o desenvolvimento do trabalho dela publicado em ”A Fissura e a verruma: corpo e escrita em Memórias do Cárcere” – tendo a obra de Graciliano Ramos como centro e mais toda pesquisa psicanalítica, social, literária a seu redor (simplificando a complexa dissertação apresentada e já publicada em livro com esse título).

Há uma moçada mais jovem que acredita que quem vive de passado é museu. No entanto, como escreveu Mário de Andrade “O passado é para se refletir, não para se reproduzir“. Penso como o modernista. Quando se lê o passado com outros olhos, com reflexão, revive-se de outras maneiras aquele passado. Há um fluxo de significados naqueles acontecimentos diferente do momento em que se os viveu. Já cantou Chico Buarque         ” … tudo o que a memória coa“…

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Poesia e texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

1º Vídeo: Canal Grupo La Vuelta

2º Vídeo: Canal Jonathan Pereira

 

Já faz tantos anos. Nem percebi

 toquinho

A MÃE DOS ANOS 80

Revendo minhas fotos e recebendo outras, vou me lembrando da rotina de ter sido, tão nova ainda, tão cheia de responsabilidades. Ser mãe da minha ”cabritinha” era bom, viu. Chegando o mês do seu aniversário, eram dias e noites escolhendo o desenho do bolo, anotando as receitas dos docinhos e salgadinhos, testando antes, tudo com um PRAZER grandão mesmo. Ela, junto. Chegamos a enrolar mais de 400 brigadeiros, mais não sei quantos cajuzinhos, beijinhos, docinhos de abacaxi, a fazer as gelatinas coloridas, em formatos diferentes; depois embrulhar lembrancinhas, escolhidas por ela para os amigos, preparar os convites. Semanas de providências, a cada ano, com papeis crepom diferentes, nossa, tantas coisas lindas. Nós duas, apenas nós duas.

Mas minha filha gostava mesmo era de correr, ninguém a alcançava. Fazia teatrinho de fantoches, com palco, criava histórias, mas agradava a ela era correr, andar de balanço, na gangorra.  E riam muito, ela e seus amiguinhos. Fazíamos festa única, com os amigos do prédio, da escola e os poucos parentes que tinha seu pai em Santos.

Em 1986 foi diferente. Minha mãe foi do Rio para o seu aniversário. Sua avó santista, também. E muitos amiguinhos dela e meus enfeitaram a festinha. E enchemos mais de 100 bolas de assoprar – que em São Paulo são chamadas de bexigas. Além das músicas. Em 1986, fazia enorme sucesso entre as crianças, o disco de vinil Casa de Brinquedos, com músicas de muitos compositores e de Toquinho e Vinícius. Foi dança das 3 da tarde às 10 da noite.

Na parede fiz uma mostra de fotos de minha filha e lhe escrevi um poema. Não me lembrava disso, mas ao rever as fotos, fui lendo, agora com uma lupa, e transcrevendo o que lhe escrevera naquele dia.

Tenho grande prazer em ver fotografias, como vídeos também. Sou capaz de ficar muitos minutos resgatando o instante em que determinada foto foi capturada, quem a tirou, onde … fotos, na verdade, alguém já disse, capturam a alma das pessoas.

Creio que seja isso o que procuro quando me perco em fotos. Desejo capturar, captar a alma daquela pessoa ali.

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‘VOCÊ”
 
Choro suave
olhar indefeso
Você viva
Você vida
 
Era tarde
quase noite
Dedo na boca
Boca no seio
Dedo na boca
Você rindo
dormindo
qual anjo
acordada.
 
Você, menina nossa!
Olhos como o céu
Olhos da alma
Pureza! Paz! Alegria!
 
Meses correndo
Você resfriada
Doendo a barriga
Você tossindo
Você caindo
e sorrindo
 
Você com dentes
Você sem dentes
Comendo devagar
Falando depressa
 
Ah, você tão linda
loirinha do cabelo de milho
Você de pele clara
dos olhos agora de mar
Você, filha minha
Retrato da espécie
na continuação!
 
Você lendo
escrevendo
Você sofrendo
Você se formando
ganhando jeito próprio
particular
 
Dedo na boca
Você segue indo
 
Você, espelho da vida
Viva a sua vinda
Viva a sua vida
 
Viva você!
Te amo.
 
26/5/1986
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Texto e poesia: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal (imprecisas, propositalmente imprecisas)

1º Vídeo: Canal Simone Pedaços – Áudio

2º Vídeo: Canal BAUDATV

3º Vídeo: Canal TRIBUTO ROUPA NOVA