Nojo, asco, repulsa …

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HIPÓCRITAS, INJUSTOS
 
morrer na véspera
verter até a última gota de sangue
seu merda
seus merdas
tenho punhos erguidos
tenho braços erguidos
não cedi
não cedo
não me calarão
não me derrubarão
hipocrisias a rodo
testemunhos falsos
pistas falsas
disfarces, máscaras, ludibrios
quanta vileza travestida de exatidão
quanta farsa ao espalhar as migalhas de pão
não me neutralize
não me arrefeça
não me adoce
sou farejadora de canalhas
sou farejadora de mascarados
sou farejadora de cúmplices
sou unhas na pele
sou boca e dentes na pele
sou  loba esfaimada
não me atenuem fomes legítimas
não me acarinhem com cantigas de ninar
não sou feromônios apenas
nunca fui feromônios apenas
nunca serei feromônios apenas
sou fêmea parida e belicosa
verdadeira
não visto peles enganosas
quero justiça
quero justiça
quero justiça
até a última gota de sangue
 
cuspo em suas máscaras, hipócritas
escarro sobre seu território podre
vomito em cima de vocês
tenho nojo de suas couraças
seu merda
seus merdas.
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POETAS E RISCOS

Poetas são entes que assumem riscos
que se esfolam nas alegrias,
como um simples botão de romã,
que acham bonito um sorriso do cão vadio que os segue.
Vadias ideias rendem versos toscos,
sem polimento,
apenas versos.
A uns serão potes repletos de significados
ocultos
transfeitos
transversos.
A outros serão mensagens concretas de tapas e socos
porque a crueza dos dias assim os fez.
Nada pode incomodar tanto quanto versos.
E aliviar também.
Principalmente a quem os escreve
a quem os regurgita,
a quem os devolve como lírica,
sem nada pedir.
Plumas a quem os ler.
E, eventualmente, a quem os possuir como seus.

ACHADOS E PERDIDOS

Não me segurem
não me acudam
não me acalmem.
Minha boca escorre catarro vermelho
visgo
estrato de alma podre de fel
charco de ferida biliosa
amargor de pus em traqueia.
Não me afaguem
não me toquem acordes de violinos ou de acordeons
esse tango é noite
essa mordaça é fina.
Grito, grito e grito.
A boca é minha.
A purulência é minha.
O estupor é meu.
Os dentes que marcam a pele são meus.
O contrato que reproduz a ferida é mal cheiroso e meu.
É dor, é rasgo, é contágio.
Não há mais tempo para rotatórias.
Não há mais espaços para benfeitorias ou rapapés.
O osso roído, a carne exposta, o tumor revelado.
Fétido.
Ludibrioso.
Panaceico
Patético.
É escárnio, é troça, é truque, é fosso, é falso.
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GRITO DE PAVOR

Minha pele em chagas
Meu tronco em dor
Quem me socorre?
Quem me vivifica?
Quem me reanima?
Minha casca em chagas
Meu dorso lancetado
Meu colo esvaziado
Quem me socorre?
Meu útero semimorto
Minhas folhas sobreviventes
Meu de dentro se esvaindo
Meu de fora resistindo.
Quem me socorre?
Um fogo de fora
apagando
um fogo de dentro.
Quem me socorre?
Quem me vivifica?
Quem me reanima?
Um broto.
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DAS DORES

Das Dores
pinga dores lágrimas e lamentos.
Das Dores
verte sangue pus fedores.
Das Dores
amarga manhãs tardes noites
na clausura de subidas e descidas
em companhia solene de anjos, serafins e querubins.
Das Dores
entrega sua lira aos deuses
na esperança de que pousem em sua janela,
devolvendo-lhe luz, cor e o perfume dos dias.
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MULHER DE OUTONOS

Calem-me aqueles que conseguirem.
Não vai ser fácil.
Aprendi a escrever com letras maiúsculas o de dentro de mim.
Não consigo mais esquecer como se faz.

Beiro as últimas estações de uma existência
Delas colho flores nas primaveras
Recolho folhas secas e murchas nos outonos.
Ensandeço e ardo nos verões
Quedo semimorta de cansaço nos invernos de meu sofrer.

Não quero mais amores que já tive.
Não quero mais emoções que já vivi.
Não quero mais dores que já senti.
Não aceito mais meios, terços e quartos.
Gosto de inteiros, cheios, amplos e grandes.
De tudo que estiver comigo
seja o que for
seja quem for.

Sou mulher.
Estou nos outonos de mim.
Faltam-me poucos meios-dias e meias-noites
Assim desejo-os inteiros.
Nada pela metade.
Ainda que só eu mesma é que saiba
o que é inteiro e o que é apenas metade

 

Poesias: Odonir Oliveira
Fotos de arquivo pessoal- Museu da Loucura, Barbacena, MG
1º Vídeo: Canal Mauro Senise
2º Vídeo: Canal Odonir Oliveira
3º Vídeo: Canal Priscilla Araujo

 

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Histórias de Minas, seu Teco

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Em maio de 2017, escrevi sobre meu primeiro encontro com seu Teco:

“Seu Teco me leva pela mão a conhecer suas preciosidades da horta. Surpreende-me ser como o meu velho pai, que se vivo estivesse completaria, nesse mesmo 7 de maio, os seus 99 anos. Seu Teco é um Plácido pai revivido então. Vê que me encanto fotografando seus caquizeiros repletos de frutos e me carrega pela mão. Vai narrando seu prazer quando sai do restaurante e vai pro fundo, pra horta, ficar com suas plantações. Diz que volta outro. Vai falando aquela poesia lírica toda nos meus ouvidos, como fosse um personagem roseano caído de uma página de um Sagarana ou de um Grande Sertão daqueles. Ficamos ali por muito. Gostou de me ouvir contar onde eu vivia antes e por que estava agora por aqui, fez perguntas, elogiou minhas escolhas e me encheu de presentes: muitas mexericas, que fomos eu e ele pegando nos pés repletos, chuchus de 3 qualidades diferentes, cebolinhas, goiabas grandonas, maracujás, e, disfarçando um instante, me trouxe uma bela abóbora – sequinha, viu- que de tão pesada carregou-a para mim o tempo inteiro.

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A refeição de comida caipira, à vontade, feita no fogão à lenha,  apenas vinte reais, era saborosa e fresca – como gosto. Muitos turistas no caminho entre BH e o Rio param por ali só pra levar, em si, os céus em caldos e caldas da dona Aparecida e do seu Teco.

Continuamos nossa prosa, fotografei mais, muito mais e segui pela estrada.

Seu Teco deve ter descido de uma estrela de noite e ficado ali me esperando, só pode ter sido assim. Quase desisto de ir embora, de tão carregada da energia telúrica com a qual me abastecera.”

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Depois disso, voltei e o encontrei debilitado, desidratado, deprimido, sem coragem nem força para se levantar da cama. Fui ao seu quarto, com dona Aparecida, levamos uma conversa suave, sem tocar em doença. Prometi voltar e desejei vê-lo forte, cuidando da horta tão rica e bela. Quis telefonar para saber dele, mas com essa envergonhada postura de gente que vem da cidade e teme constranger os outros, não o fiz.

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Fui até ele, por fim.

Sentei, esperei que começassem a colocar panelas e caldeirões no fogão de lenha, no salão de refeições, para que cada um se servisse à vontade, e tudo se mantivesse quentinho. Perguntei por ele. Foi avisado. Veio logo e sentou-se para o nosso proseado de sempre. Quem me acompanhava sabia que pergunto pouco, ouço mais do que falo. Dois homens da mesa ao lado, interferiam na nossa conversa, por terem percebido meu interesse pelas histórias mineiras de seu Teco e quiseram protagonizar o bate-papo. Sei dar um corte preciso em entrões, galanteadores, exibicionistas contumazes. Fiz isso. Estava ali pra me deliciar com aqueles quitutes, hum, o quiabo com carne moída estava mais gostoso que tudo. O macarrão, com pouco molho vermelho, até o torresmo, sequinho, saboroso. Sem falar nos doces de figo, de leite, de cidra, de goiaba e o queijinho branco. Tudo de primeira linha, com tempero de mãe, de avó. De sonhar mesmo.16507897_562617267419601_3742626132457015636_n

Principiei perguntando a ele pela saúde. Narrou um pouco a trajetória de exames e internações, os remédios e disse que estava melhorando. Desanimado pra cuidar lá da horta, mato grande, muito cansaço. Mas que mesmo assim, as goiabeiras estavam carregadas, os pés de romã e que as outras frutas aguardavam o tempo delas de frutificarem. Quando lá estive, na primeira vez, estavam muito lindas todas elas. Depois quando esteve doente, só fiquei com ele, sem ir ver as plantações, de que tanto gosto.

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Contou-me que bebeu muito, durante muitos anos. Havia parado fazia 18 anos. Bebia pelos bares, pelos armazéns, se o dono do local dizia que ia fechar, não apavorava não, pegava a garrafa de pinga e ficava do lado de fora. Mas continuava bebendo. Quando voltava pra casa na jumentinha, vinha que vinha caído. Ao cuidar da horta, levava a garrafa, enterrava a mardita dentro de um pote com água e só deixava a beiradinha pra fora. E ia assim o dia todo.

Agora acha que beber não tá certo, faz mal; o médico mandou parar de beber e de fumar, bastou. Pergunto-lhe por que as pessoas bebem. Ele não entende e diz que não é porque mulher não quis mais que o homem bebe, isso é bobagem. Não me quis … ou eu arranjo outra ou deixo pra lá. Não me quer, não me quer. Também eu era treteiro, assim bebia e gostava de contá vantagem. Era isso.

Insisto na razão pela qual se bebe tanto, era pelo sabor, por exemplo? A surpresa geral, não fala mais dele, mas passa a falar de uma terceira pessoa, um companheiro do passado – como se desejasse também compreender os porquês a partir dos motivos de outro. Conta-me que havia um, cita nome, que não aceitava tira-gosto com a pinga. Corta o efeito da pinga. Não como, quando bebo não- dizia o tal. Era como um remédio que perde o efeito se …

Aproveito a carona e sugiro se era pelo sabor, pelo efeito … ele diz que pelo sabor não era não. A pinga dá mais disposição. Como assim? Assim, uma coisa que você não tinha coragem de fazer, você faz com a pinga, por exemplo, entra num córrego perigoso e nem dá fé daquilo. Insisto se a bebida faz a vida ficar diferente, ficar melhor, era isso? É isso. Agora, minha mulher não gostava que eu bebesse não. Também, já pensou a mulher deitar na cama com um homem fedendo à pinga. Ela não aguenta, né.

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Como foi que o seu Teco começou a beber? O pai bebia muito, mas nunca me deu copo na mão, não. Dizia a bebida tá aqui, se quiser beber, mas te dar no copo eu não dou.

Trabalhando nas roças, ganhou casa do patrão. Aqui seu Zé, quero casar, preciso de casa pra morar. Eu te dou. Veja quanto fica que eu te dou o dinheiro. Naquela época me deu 30 conto, seria uns 30 mil hoje. É aqui onde eu construí. Sempre vivi aqui. O terreno aí pra trás com o riozinho, a horta, foi tudo junto que ele me deu e eu levantei a casa, eu e meu primo.

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Admiro. Pergunto se ele acredita nisso que quem faz o bem acaba prosperando, vivendo bem etc. Ah, é isso mesmo. Quando alguém vem me pedi uma ajuda aqui e tá no meu alcance, eu posso fazê, eu faço, fico numa satisfação danada. Analisando aqui, acho que a gente não deve brigar com ninguém, a gente vai descobrindo, conversando com um com outro, que a gente é tudo irmão mesmo. Não deve brigar não. Uma hora o outro pode te servi também. Por isso tem que ajudá os outro.

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Os dois homens da mesa ao lado intervém, querem dar seus exemplos, gente mais jovem, dois irmãos, um de vinte e poucos anos e o outro de menos de quarenta. Bebem conhaque e cerveja. Vermelhões já. Ouço e corto pro seu Teco de novo. Lembro a ele o quanto se parece com meu pai e lhe revelo que conheci em Santana do Paraíso um outro homem ainda mais parecido com meu pai, mais moreno de pele como ele, de roça, plantador de horta etc. Ele me diz num disse que a gente é tudo irmão. Aí, lá longe, achou ele.

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Converso com dona Aparecida sobre a saúde dele, peço pra ir ver o que gosto tanto. Avisa que está tudo sem capinar, frutas feias etc. sem os cuidados do seu Teco. Despedidas.

Adentro ao paraíso de onde aquele anjo me faz tão bem sempre.

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TERRA DE MINAS

Que bondade tem o garoto mineiro que ajuda a carregar embrulhos,
mesmo sem precisão …
Que prosaico é aquele “cê bobo” ao final das frases coloquiais …
Que vontade é essa de ficar sentado na praça a tocar causos e prosas até o entardecer…
Que permissivo é esse tom de confidência de quem jamais nos viu antes …
Que adocicado é esse olhar de matutagem espalhado pelas calçadas …
Que coisa caseira é essa que me enternece de água os olhos …
Talvez seja encontro de sangue mineiro com sangue mineiro.
Talvez seja um ponto de vista repleto de montanhas .
Talvez seja essa vontade de encontrar o que uma vez se perdeu em mim.

 

Texto e poesia: Odonir Oliveira
Fotos de arquivo pessoal
1º Vídeo: Canal Piano Brasileiro
2º Vídeo: Canal Odonir Oliveira

Amar o mar

DE PELE

nasci no mar
cresci no mar
amei no mar
vivi no mar
caminhei nas areias
banhei-me nas ondas
lambuzei-me de sal
nasci no mar
cresci no mar

Niteroi3

AQUARELÁVEIS
sim, na infância
gostava da onda
quebrando sobre mim
uma vez, duas vezes, cem vezes
– Saia daí, menina, as conchinhas virão até aqui
sim, na juventude
adorava estar ao sal ao sol
bronzear-me seduzir encantar
pele morena cabelos longos revoltos
– Cuidado, garota, sol assim faz mal, mar assim também
sim, na maturidade
bebi do sal, do sol, do mar
tanto quanto pude
tanto quanto quis
tudo nele gozei
sim, hoje
procuro o mar a amar
a beber meditação
a sonhar cores e tons
em dias e horas outras
em recantos e cantos tardios
aí sim, eu e ele estamos
só nós

Niterói2

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MARES E MARÉS

Nunca tive intenções de mar.
Mulher de águas salgadas,
nasci e convivi com elas
por sempre.
Nos anos em que ainda me empinava
a cauda e o mastro era grande e rijo,
naveguei por marés e areias
de Rio, Santos, Salvador, Itaparica…
Vivi de mar.
Tive riscas de sal na pele ao fim das tardes
cabelos longos que ventavam meu rosto ressecado
por desejos realizados, paixões de sol.
Nunca tive intenções de mar
Nem tampouco de alto-mar.
No Pacífico, gelado e salgadíssimo,
quase sucumbi em um bote pesqueiro, de domingo sagrado.
Albatrozes chegavam-nos aos braços como peixinhos de aquário
a sugar seus alimentos e nosso sossego.
Nunca tive intenções de mar.
Nunca quis sugar nada de seu.
Nunca sorvi mais do que seu quebrar de ondas nos ouvidos
seu movimento de entrega e recolho
pelas manhãs, às tardes,
sentada nas pedras do Farol de Itapuã,
caminhando pela praia de areias pesadas,
namorando distâncias de horizontes imaginados.
Nunca tive intenções de mar.
Em menina, não quis nadar nunca.
Sequer aprender.
Meu encantamento com o mar
é o de quem sabe o que é o mar
e com ele não tem
sequer uma intenção.

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Poesias: Odonir Oliveira
Fotos de arquivo pessoal (última foto da Heloísa Ramos)
1º Vídeo: Canal Gravadora Galeão
2º Vídeo: Canal Lusafrica
3º Vídeo: Canal N Krumah Lawson Daku

Coretos e folhas

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NO TEMPO
era quase tarde
ali ela apenas
sem ele
com ele
era quase tarde
ali apenas ela
um sino plangente
uma pétala de flor
umas folhas ao chão
era quase tarde
ali ela apenas
sem ele
com ele
uma música interna
um fulgor interno
uma carícia de vento frio na pele
ali apenas ela
sem ele
com ele
era quase tarde
ali

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TROVA
Soubesse ela seduzir pelos braços
soubesse ela fascinar pelos pelos
soubesse ela encantar pelos sorrisos fagueiros
soubesse ela morder seu peito
soubesse ela apertar seus ombros
soubesse ela desfalecer em seu regaço
soubesse ela ser folha e flor
soubesse ela ser verão e primavera
soubesse ela ser
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CORETO
brinca a mulher
banda música dança
par
ímpar
brinca a mulher
uma procissão a seguir
um cortejo a acompanhar
um movimento de passos e pés
brinca a mulher
banda música dança
par
ímpar
um vulto nas nuvens
umas asas gigantes
uns braços viris
carregam a mulher
brinca a mulher
em par
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PRELÚDIO
passa a reza
passa a moça
passa a carroça
passa o tropeiro
passa o tempo
passa o cavaleiro
passa a festa
passa a banda
passa o tempo
passa a hora
passa o encanto
passa a chuva
passa o vento
passa a vida
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RETRETA
na marcha o soldado
todas as manhãs
na marcha umas pernas
todas as tardes
na marcha o soldado
todas as noites
não sabe ele
não sabe deles
não sabe a dança
não sabe da boca
não sabe dos seios
não sabe do ventre
na marcha o soldado
todas as manhãs
todas as tardes
todas as noites
na marcha o soldado
não sabe como a banda toca
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Poesias: Odonir Oliveira
Fotos de arquivo pessoal
1º Vídeo: Canal Savalla Records
2º Vídeo: Canal  Andrew Keogh

Nascidas nos anos cinquenta

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TODA NUDEZ SERÁ PERDOADA

Despe-se o corpo
da mulher metáfora
da mulher antítese
da mulher metonímia
da mulher eufemismo
da mulher onomatopeia
Despe-se o corpo
da mulher signo do sexo do medo do amargor
Despe-se o corpo
da mulher frasco embalagem colírio  motivo
Despe-se o corpo
da mulher fresca tenra rija excitante
Despe-se o corpo
da mulher frágil entregue carente
Despe-se o corpo
da mulher estrada barro lodo chão
Despe-se o corpo
da mulher marcas suspiros chegadas e partidas
Despe-se um corpo de carne e osso.

OS SEMELHANTES SE ATRAEM

Três MULHERES, assim maiúsculas mesmo. MULHERES que nasceram nos anos de 1950. Uma no início da década, outra na metade dela e outra ainda, no seu final. Conheceram-se, em comum, pelas redes sociais. Duas delas se conheciam há décadas por terem trabalhado juntas. O encontro estava marcado. Quem marcou não se sabe. Marcado.

Encontraram-se na Praça. Sentaram-se nos bancos de cimento, apoiaram-se na mesa. Quando se perceberam eram um facho de luz, iluminando passados, presentes e futuros. Tinham a cara da MULHER de seu tempo, femininas, feministas, conhecedoras de seus direitos e deveres. Eram amantes de amores, da sensibilidade. Não odiavam homens, nem desejam com eles qualquer luta de capa e espada. Pessoas do diálogo, lutadoras, emancipadas, coerentes com suas histórias de vida: discurso e ação.

Encontraram-se ali 3 MULHERES de corpo e alma, 3 MULHERES em sua natureza.

Uma arriscou conhecer o mundo, literalmente, sem conhecer inglês, sem grana, foi trabalhar, foi buscar, foi conhecer, foi fazer-se a seu modo. Que história de se ouvir ! Bastava fechar os olhos para ver a sua história. Uma arte educadora de corpos em movimento, de estudo e conhecimento de fora pra dentro e de dentro pra fora. MULHER dos anos cinquenta.

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A outra, ligada às letras, cidadã do mundo, estudiosa da humanidade,  do socialismo, em terras lusitanas, lançada ao mar português, qual um Pessoa feminino, amou e fez tudo valer a pena porque sua alma não foi pequena. Nunca. Sabendo-se ela, mulher, forte e frágil em sua natureza, reinventou-se sempre, do começo ao fim. MULHER dos anos cinquenta.

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A terceira, ali prostrada, bebendo uma caipirinha de vodca, depois mais uma, com elas, ouvindo e entendendo mais uma vez quem era, quem eram, porque eram. Eram as três tatuadas pelas lutas, pelas conquistas, pelos amores e desamores que se injetam nas MULHERES dos anos cinquenta.

Seu feminismo vai muito, muito mais além do que o de comportamento apenas. Seu feminismo é de classe, de oportunidades iguais para quem trabalha, estuda, produz e é digna de reconhecimento, por isso há que se ir além do comportamento, considerado tão libertário. As 3 MULHERES acreditam que não se pode copiar, por osmose ou nas veias, o que há de pior no comportamento de grande parte dos homens. Mas sim o que de melhor existe no SER HUMANO, a solidariedade, a justiça social. Para todos.

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“As sementes não brotarão se sobre elas houver uma pedra. E também pode acontecer que, depois de brotar, elas sejam arrancadas… De fato, muitas plantas precisam ser arrancadas, antes que cresçam. Nos jardins há pragas: tiriricas, picões…

Uma dessas sementes é a “solidariedade”. A solidariedade não é uma entidade do mundo de fora, ao lado de estrelas, pedras, mercadorias, dinheiro, contratos. Se ela fosse uma entidade do mundo de fora, poderia ser ensinada e produzida. A solidariedade é uma entidade do mundo interior. Solidariedade nem se ensina, nem se ordena, nem se produz. A solidariedade tem de brotar e crescer como uma semente…” Rubem Alves

 

Poesia e texto: Odonir Oliveira

Texto de Rubem Alves, na íntegra: http://www.revistaprosaversoearte.com/a-solidariedade-como-a-beleza-e-inefavel-esta-alem-das-palavras-rubem-alves/

Fotos de arquivo pessoal

1º Vídeo: Canal Odonir Oliveira

2º Vídeo: Canal Samantha Alevatto

“Ressuscita-me”

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O Amor

Talvez
Quem sabe
Um dia
Por uma alameda
Do zoológico
Ela também chegará
Ela que também
Amava os animais
Entrará sorridente
Assim como está
Na foto sobre a mesa
 
Ela é tão bonita
Ela é tão bonita
Que na certa
Eles a ressuscitarão
O século trinta vencerá
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias
 
Agora vamos alcançar
Tudo o que não
Podemos amar na vida
Com o estrelar
Das noites inumeráveis
 
Ressuscita-me
Ainda
Que mais não seja
Porque sou poeta
E ansiava o futuro
 
Ressuscita-me
Lutando
Contra as misérias
Do cotidiano
Ressuscita-me por isso
 
Ressuscita-me
Quero acabar de viver
O que me cabe
Minha vida
Para que não mais
Existam amores servis
 
Ressuscita-me
Para que ninguém mais
Tenha de sacrificar-se
Por uma casa
Um buraco
 
Ressuscita-me
Para que a partir de hoje
A partir de hoje
A família se transforme
 
E o pai
Seja pelo menos
O Universo
E a mãe
Seja no mínimo
A Terra
A Terra
A Terra

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Composição de Caetano Veloso sobre poema de Maiakovski

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal: EveyMash

Flora em prosa e verso

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“Era o verão de 79. Ela estava passando férias em Salvador. Eu a tinha conhecido um mês antes, e nós ainda não namorávamos. Telefonei para um amigo comum: ‘Diga que eu quero vê-la, que vou estar no Teatro Vila Velha entre quatro e seis da tarde. Tenho uma coisa pra mostrar a ela.’ Quando ela chegou, eu cantei a música. ‘Flora’ foi, portanto, uma cantada literal. Cantei Flora na canção e com a canção. É minha única canção-cantada. A alma exigia capricho: o sentimento era intenso, e o desejo, de uma relação durável. O que eu cantava não era só uma pessoa, mas toda uma vida com ela. Na letra eu já a imagino ‘idosa’, ‘bela senhora’, ‘futura’. Elis é que me disse: ‘Nunca uma mulher teve de um homem uma música dessa!’ A canção teve pra mim, como talvez pra ela, o caráter da irrecusabilidade da proposta. ‘Flora’ foi além das intenções nela contidas, acabou tendo uma função. A cantada funcionou. É bom que a música e a poesia também tenham essa utilidade. Um modo sutil de ser útil. Uma sutil utilidade, uma ‘sutilidade’…”

#PorTrásDaLetra – “Flora”

Foto: Gilda Barbosa da Silva

Do Facebook do Gilberto Gil

 

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Flora

Gilberto Gil

Imagino-te já idosa
Frondosa toda a folhagem
Multiplicada a ramagem
De agora

Tendo tudo transcorrido
Flores e frutos da imagem
Com que faço essa viagem
Pelo reino do teu nome
Ó, Flora

Imagino-te jaqueira
Postada à beira da estrada
Velha, forte, farta, bela
Senhora

Pelo chão, muitos caroços
Como que restos dos nossos
Próprios sonhos devorados
Pelo pássaro da aurora
Ó, Flora

Imagino-te futura
Ainda mais linda, madura
Pura no sabor de amor e
De amora

Toda aquela luz acesa
Na doçura e na beleza
Terei sono, com certeza
Debaixo da tua sombra
Ó, Flora

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Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal beatrizebreda