Tempo, cúmplice parceiro

 

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Foto de arquivo pessoal- Meninos do Clubinho da Leitura em Barbacena

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“… rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra o seu curso, não irritando sua corrente, estando aberto para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é.”

Raduan Nassar, in: Lavoura arcaica, 1975

TEMPOS

Odonir Oliveira

 

A brevidade das manhãs concorrendo com as vesperais de gritos

nas brincadeiras coletivas,

nos sorrisos

no descompromisso de ser,

na preciosidade de apenas estar.

Compasso régua transferidor desenhando uma geometria

doce suave risonha.

 

O tormentoso entardecer contemplando o sangue quente de gritos

na explosão das paixões saborizadas,

nas picadas das abelhas de mel único inesquecível.

Bocas braços pernas contornos enfeitando uma paisagem

forte quente incontrolável.   

 

O inquieto anoitecer desfazendo ramais e caminhos traçados.

Gritos,

em espaços e tempos redesenhados

em figuras sobrepostas em vãos

em retas e curvas deslizes e reviravoltas.

 

Tempo,

parceiro,

cúmplice …

 

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SEMEAR

Odonir Oliveira

 

Entrego a terra todas as minhas sementes

de flores frutos e dores.

Aguardo os tempos

recolho as ervas daninhas

rego galhos novos e folhas

adubo de lágrimas e risos a terra-mãe.

 

Aguardo tempos

aguardo luas

aguardo estações

aguardo anos.

 

Tempo,

anjo algoz de minhas esperas.

 

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COLHER

Odonir Oliveira

 

Deu-se a polinização

Encantou-se a terra com a água

o ar trouxe o beija-flor

depois o bem-te-vi

depois a cotovia.

 

romeus e julietas dos espíritos

acudiram afrodites cupidos

anjos e delírios

bacos e dionisos

arlequins, colombinas, pierrôs

otelos e desdêmonas

socorreram

 aspergindo pólens e pólens e pólens.

 

De esperas gritos e contemplações

de gineceus e androceus,

Tempo,

suserano vassalo.

 

 

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“[…] o tempo, o tempo, esse algoz às vezes suave, às vezes mais terrível, demônio absoluto conferindo qualidade a todas as coisas, é ele ainda hoje e sempre quem decide e por isso a quem me curvo cheio de medo e erguido em suspense me perguntando qual o momento preciso da transposição? Que instante, que instante terrível é esse que marca o salto? Que massa de vento, que fundo de espaço concorrem para levar ao limite?”

“[…] toda palavra, sim, é uma semente; entre as coisas humanas que podemos nos assombrar, vem a força do verbo em primeiro lugar; precedido o uso das mãos, está no fundamento de toda prática, vinga e se expande, e perpetua, desde que seja justo.”

Raduan Nassar, in: Lavoura arcaica. 2ª ed., Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982 p. 85-86- 160 

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Foto de arquivo pessoal

 

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Janelas de Minas, janelas de mim

FUGAS E CAMINHOS

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FUGA

Odonir Oliveira

 

Não são jardins,

não têm fragrâncias

as flores que se exibem aqui.

 

Não há cores,

não têm do dia os tons do laranja

nem da noite o perfume das damas

magnólias rosas cravos e jasmins.

 

Fuga dos exílios de mim.

Fuga dos exílios de peles gotas sementes.

Fuga do desterro opressor de décadas.

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NA CONTEMPLAÇÃO DO BELO, ADENTRAR O NOVO NÃO-NOVO

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JANELA

Odonir Oliveira

 

Era sol

Era água

Era lago, lagoa, rio.

 

Era amanhecer

Era entardecer

Era anoitecer

 

Era madrugada em sintonia

Era madrugada em sinfonias.

 

Era gelosia centenária

Era veneziana secular

Era peitoral histórico.

Era janela dos olhos.

 

Era explosão do sentir.

 

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DAS DORES

Odonir Oliveira

 

Das Dores

pinga dores lágrimas e lamentos.

Das Dores

verte sangue pus fedores.

 

Das Dores

amarga manhãs tardes noites

na clausura de subidas e descidas

em companhia solene de anjos, serafins e querubins.

 

Das Dores

entrega sua lira aos deuses

na esperança de que pousem em sua janela,

devolvendo-lhe luz, cor e o perfume dos dias.

 

 

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RETÁBULOS

Odonir Oliveira

 

Sagrados aros

altares expostos

falares repostos

ouvires devotos.

 

Minas serras

Minas terras

Minas entranhas

Minas estradas

Minas, mineiros guardiões.

Minas, mineiros paixões.

 

Um dedo, um sonho, um medo

Uma rebelião.

Uma porta

Uma retorta

Um arco

Uma janela composta

Um olhar distante

Montanhas em tela.

 

Inspiração

Entrega

Expiação.

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VIZINHOS

Odonir Oliveira

 

Cheiro de taioba talhada

Refogada com alho pilado.

Angu molinho

Fubá banco, amarelo

Couve picada fininha

Feijão fresquinho

Quiabo com galinha

Doce de leite ambrosia e queijo fresco molhado

Desejos

Sabores senhores

Vassalagem amorosa de corpos e peles de Minas.

 

Num vento brejeiro,

com uma lua amante de estrelas,

um gozo de céu e terra,

um grito de entrega e refrega,

ao som de vozes fantasmas mineiras,

Drummond, Drummond , Drummond, Drummond,

me carrega que sou tua.

 

NO MEIO DO CAMINHO, QUALQUER CAMINHO

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Fotos de arquivo pessoal:Tiradentes- Barbacena- 2016

Com as estrelas … vieste

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo,
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de espanto. […] Olavo Bilac

DA ESTRELA

Odonir Oliveira

 

Noite escura,

opacidade imensidão esperas

diáfanos ventos brisas sopram sonatas

O sono impele ao sonho contumaz.

 

Impacto,

brilho luz cor movimento

suaves alimentos sopram lirismo

O sonho seduz ao lume da estrela.

 

De tantas ali ora expostas

Só ela incita àquela descoberta fugaz.

 

CONVERSA COM ESTRELAS

Odonir Oliveira

 

Só, somente assim ser.

Acalanto de sossegos ninando aspirações.

Respostas ternas para enigmas ocultados.

 

Confissões em cantos únicos

súplicas, apelos, inquietações.

Aquiescendo dores inconfessáveis

segredos indizíveis

amores inexplicáveis.

 

Oráculos de almas em conflito.

Estrelas,

dos mistérios

à luz.

SORRISO DE ESTRELA

Odonir Oliveira

 

É quando no desespero de mim,

que encontro a ti

sorrindo repetidas vezes

com passos ouvidos

em reflexos mínimos

em espaços imprevisíveis

em momentos inesperados.

 

É quando miro estrelas

que encontro

teu lume no delas

tua silhueta na delas

teu dorso incomum no brilho delas.

 

É quando escurece

que estrelas em ramalhetes

te trazem a mim,

e em ti permaneço

pousada no céu.

Canal: Odonir Oliveira

 

A CULPA É DAS ESTRELAS

Odonir Oliveira

 

Você lua

rua

nua

noite

dança,

Baco.

 

Eu estrela

dupla

culpa

multa

luta,

Dioniso

 

Lua nua

Estrela nua.

 

 

ÀS ESTRELAS, OS PORQUÊS

Odonir Oliveira

 

Não sei o que dizer

quando ela quer saber do meu amor.

Não sei se digo que a amo.

Não sei se digo que não sei se é amor.

Não sei se sei, antes de ter o que lhe dizer.

 

Sei um pouco do que sinto

E tudo o que sinto é pouco

Perto do pouco que vivi com ela.

 

Não sei o que dizer com palavras de sentido claro e único

porque o que sinto por ela não é claro e único também.

Assim prefiro imagens repletas de polissemias a cada linha

porque garantem que ela, por si mesma,

terá que desocultá-las.

 

Não sei ser mais claro do que tenho tentado ser

porque também eu sou incomum, estrangeiro, invulgar.

 

Romantismo, quem não quer?

SER ROMÂNTICO É SER DERRAMADO POR DENTRO E POR FORA.

Dores de amores viram escaras e depois feridas. Às vezes, cicatrizam , mas deixam queloides, aquelas que de se olhar para elas, dói tudo de novo, por dentro.

Eu gosto muito de gente assim, dolorida, retorcida e depois COLORIDA.

De homem assim, então… UMA DELICIOSA DELÍCIA.

“Eu faço as minhas coisas e você faz as suas. Não estou neste mundo para satisfazer as suas expectativas e você não está neste mundo para viver conforme as minhas. Você é você, eu sou eu. E se por acaso nos encontrarmos será maravilhoso. E se não, não há o que fazer.” (Fritz Perls)

“Se eu faço unicamente o meu                                                                                                                                                   E tu o teu                                                                                                                                                      Corremos o risco de perdermos                                                                                                                                                 uma ao outro e a nós mesmos                                                                                                                                 Não estou neste mundo para                                                                                                                                                  preencher tuas expectativas                                                                                                                                   Mas estou no mundo para me                                                                                                                                   confirmar a ti.                                                                                                                                                          Como um ser humano único para                                                                                                                                ser confirmado por ti.                                                                                                                                                  Somos plenamente nós mesmos                                                                                                                              somente em relação um ao outro                                                                                                                                        Eu não te encontro por acaso                                                                                                                                     te encontro mediante uma vida                                                                                                                                  atenta                                                                                                                                                                        em lugar de permitir que as coisas                                                                                                                               me aconteçam passivamente                                                                                                                                   Posso agir intencionalmente para                                                                                                                                 que aconteçam                                                                                                                                                        Devo começar comigo mesmo,                                                                                                                               verdade,                                                                                                                                                                         mas não devo terminar aí                                                                                                                                               a verdade começa a dois.”

 

Em: AME e DÊ VEXAME, de Roberto Freire, Ed. Guanabara, 1990, RJ

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ESTRADA

Odonir Oliveira

Não havia mais jeito. Fim de linha. Era essa viagem e depois cada um pro seu lado.E isso agora de ter de contar aos pais, tios e avós já era demais.

Casamento acabando, dez anos de alegrias e tropeços, sem filhos. Fim. Nada segurava mais aquilo. Fim do romantismo, fim do erotismo, fim do companheirismo, fim de tudo. Carmem pensava enquanto o marido Raul dirigia por aquela estrada cheia de remendos e de chuva fininha, sabão para acidentes.

Motorista, só sirvo pra isso. Bem que ela podia guiar um pouco, não considera nem minha dor nas costas, não se oferece, nada. Horas nesse volante. Fim de tudo. Acabou esse jogo, fim da parceria, ainda bem que não tem filho no meio. Menos pensão, menos discussão, só separação e pronto.

Silêncio absurdo como o de uma sala de cirurgia delicada. Delicadíssima. Nenhum lamento, nenhum xingamento ou conexão. Mudez recíproca, que cada palavra dita era prenúncio de deboche, desdém, menosprezo. Fim.

Tropeço na estrada. Engasgo do carro. Esforço de alcançarem uma luzinha acesa à frente. Chuva aumentando. Chegaram. Ele saiu. Chuva. Olhou o motor. Nada. Perguntou a alguém no balcão se ainda haveria alguma oficina nas redondezas que pudesse socorrê-lo. Só amanhã- foi a resposta.

Ela no carro. Lembrou do auxílio da seguradora, mas ali o telefone não funcionava. Fora de área.

Sugestão do homem em pé no balcão: Amanhã, amanhã consertam o seu carro.

O do balcão sugeriu que pernoitassem lá. Nos fundos havia uns quartinhos com banheiro, chuveiro.

Essa música é de onde? – quis saber Raul. Do bailinho aqui ao lado. Toda quarta, sexta e sábado tem. Tem? Tem.

Banhos tomados. Roupas trocadas. Lanches quentes na chapa. Raul, uma pinguinha. Uma batida pra ela. Duas batidas, três batidas. Raul mais umas pingas. Perdeu a conta. Foram até o tal lado porque ouviram a primeira, a segunda, a terceira e eram todas músicas com histórico na etiqueta. Tinham viajado com elas por anos de namoro etc. etc. Dançaram. Ficaram mudos e totalmente sozinhos. Ninguém dos outros pares foi sequer notado pelos dois. Colados de rosto e pele, foram ficando mais e mais colados de rosto e pele, por mais de uma hora.

Chega. Cama. Romantismo. Erotismo. Beijos, toques e prazeres.

Na manhã seguinte o carro ficou pronto.Um sorriso de cumplicidade neles.

Estrada.

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MENINOS ROMÂNTICOS

Odonir Oliveira

Em Santos, nos anos sessenta, Ricardo e seu primo Renato iam tentar conquistar umas garotas de São Paulo que lá estavam passando o verão.

Marcaram na praia, no final da tarde, e, ambos com 14 anos pouco sabiam de amar, embora desejassem aprender. Assim o primo encontrou-se com as meninas, levou uma delas pra caminhar na praia e a outra ficou aos cuidados de Ricardo.

Com pouca grana, pouquíssima aliás, resolveu comprar uma cocada grande para irem caminhando, passeando e comendo. A mocinha, calada, Ricardo, calado, a cocada era a salvação. E como nada dissessem, a cocada ia sumindo na boca da menina, sem ter ele dado uma bocadinha sequer no delicioso doce. Ícones eternos.

Pararam, ela já quase sem ter mais o que comer, e ele sem ter assunto que falar, vê que a mocinha parada se encosta em um murinho. Surpresa. Era o último pedacinho de cocada que se ia, sem o rapazinho ter provado nem um tiquinho  dela !

Nada restava a ele, a hora passava, nada do primo voltar com a amiga de seu par.

Foi aí que teve, não se sabe de onde, a sacada maior : virou-se para a garota encostada no murinho, chegou bem perto dela, num enlevo revelador  e, perguntou, de súbito:

–  Qual a sua religião ?

A menina começou a caminhar de volta ao ponto de onde haviam saído, apressando o passo, sem mesmo olhar para Ricardo mais atrás.

Ele, meio ao lado, meio atrás, sem cocada, sem mais nada, perdera aquele beijo de murinho.

Dia seguinte, mentiu ao primo.

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VERTIGEM

Odonir Oliveira

Acordara bem cedo. A noite havia sido curta. Encontrara-se pela madrugada de uma, duas ou três maneiras com ele. Em uma delas perdera a respiração, como que engasgada, e numa apneia orgástica, sufocara.

Água fria, não gelada para não espantar de todo o companheiro de viagem que a cama ainda estava quente.

Computador, músicas, leituras, versos, notícias. Vontade de dormir a continuação daquele sonho anterior. Não daria, que Virgínia era exigente pra cacete. Em sua boca só palavras de alto calão. Em sonhos… em sonhos…outras palavras.

Voltou pra cama em olhos fechados e imagens distorcidas.

Tudo lhe vinha misturado agora; muitas figuras, muitas vozes, de Dioniso um aviso, acorda, acorda. De Morfeu outra, dorme, dorme . Afrodite ainda, fica, fica, espera, espera, chove, chove, chove, fica.

Confusão etílica de vinho tinto bom. Queijos, pouco aprovados que desejava apenas a companhia de seus deuses hoje, ontem, amanhã.

De pé de novo, escreve. Escreve não, pois que psicografa dez poemas, uma crônica, uma ode, dois recados e uma apelo. Era uma romântica.

Exílios, ainda sem forma e estilo. Psicografa.

Exílios voluntários; exílio de coxas quentes; exílio de costas largas; exílio de pés enormes; exílio de mãos atrevidas; exílio de ventre berço; exílio de braços laços; exílio de membro aderente; exílio de pescoço salgado;exílio de orelhas atraentes; exílio de olhos mudos; exílio de cabelos outros; exílio de língua sonora; exílio de lábios profanos; exílio de boca sagrada; exílio de corpos nus; exílio de corpos nós; exílio de medos; exílio de gozo; exílio de tantos.

Não consegue mais dormir. Precisa dormir. Não sabe mais a quem ouvir se a Safo, a Baco, a Dioniso, a Afrodite ou até mesmo a Zeus, ó pai.

Tem visões alucinadas de estradas, automóveis, flores, barcos, trens, vozes surdas, convites vagos, interpretações múltiplas. Estaria Virgínia enlouquecendo com aquele jogo de dá e toma dos deuses, com aquelas gestalts interrompidas todas. Muito mais do que falar, a ensandecida  adormecida queria ouvir. Impossível. Estava dentro de um sonho, repleto de imagens fugazes, inefáveis, pouco táteis. Era uma romântica.

Decidida a se levantar, fossem que horas fossem. Pegou o carro, entrou num bar, havia ali  três ou quatro caras acompanhados, e mais um, de rosto moreno, braços fortes no balcão.

Sentou lá ao lado dele. Ele perguntou seu nome. Ela disse. Bebeu pinga. Ele pagou.

Saíram dali para casa dele.

Surpresa.

O cara sabia dos desejos de uma mulher. Falou nada.

Talvez um oferecimento de um isso ou de um aquilo. E só.

Vertigem. Em poucas palavras.

Estranhou ela tudo aquilo e que tivesse alcançado tanto prazer naquele encontro casual.

Sentiu falta de um Vinícius, de um Drummond, de um Caetano, de um Pessoa, de um Baleiro, talvez. Mas nem tudo pode ser perfeito,  não é.

Era uma romântica.

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DOMINGO DE MANHÃ

Odonir Oliveira 

Domingo era dia de lirismo. Era um lirismo de corpos. Acordavam tarde, porque rolavam da cama ao chão, do chão à chuva do chuveiro e depois ao secador de corpos natural- ao sol.

Nus gostavam de se deixar assim, naquela praia deserta de Salvador.

Doces anos aqueles em que praias eram desertas em Salvador.

Ele vinha, ela vinha. Encontravam-se ali, quase que sem palavras. Era rude o amor de seus interiores. Era rude. Arrependia-se de suas rudezas, mas era tarde. Palavras batiam nela como palmatórias e tapas em boca suja de criança.

Para ela, pouco importavam aqueles desprezos dele. Era mulher casada. Bem casada dizia sempre. Estava ali à vontade, por vontade, com vontade e assim seguia dando acolhida a seu corpo dentro do dele, homem rude, bem diferente do esposo, homem fino, de vocabulário comedido – um almofadinha gaulês. Era fino, que se diga logo. Incapaz de uma posição estranha, de um toque mais rude. Em todas as situações: em pé ou não.

Serafine queria mais. Gostava de conquistar, de arrebatar, de sentir que conseguira mais um troféu. Romantismo a serviço.

Não era má. Ao contrário, não fazia mal a ninguém, nem pelo signo, nem pelo discurso, sempre doce e gentil. Quase uma fadinha de contos da carochinha. Mas era assim, digamos, insaciável.

Ser insaciável é qualidade, não é defeito nem senão.

Seu prazer maior residia nesses domingos, quando podia encontrar com seu rude homem e, nus, viverem um mundo à parte.

Talvez, porque bem jovem tivesse sido apascentada com a Belle de Jour, com O Último Tango em Paris, e com outros roteiros de queijos e vinhos finos. Tudo isso fazia dela uma insaciável de corpos.

Serafine era branquinha, cabelos negros, magra e fada. Tinha uma varinha de condão específica. Ia e voltava , ia e voltava. Em várias situações.

O marido fino não suspeitava dessas idas e vindas. Mas talvez se soubesse, aceitasse, porque a varinha mágica o encantava também. E muitos são os mistérios que existem nos corpos encantados de cores e sabores.

Ali, nus, se secando ao sol, começaram a se lembrar de vezes outras. Dores surgiram. Mas o que são dores para quem bebe mel em gotas, várias e várias vezes?

Das dores de dentro, preferiam as de fora: o ralar dos joelhos, a boca mordida, o edema no pescoço… ouvindo aqueles boleros viris e aquelas cançonetas de antanho.

Serafine era mulher de tratos e truques, e, os homens … com ela se encantavam.

De femme fatale não poderia ser acusada jamais. Não era. Era fada, era Fedra, era festa, a Serafine!

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O PROFESSOR

 Odonir Oliveira

Era um garoto daqueles de perder qualquer mulher, experiente ou não. Cabelos cinza, 17 anos, baterista de banda de rock, inglês perfeito, meio sardento, pele clara, nascido na Argentina, criado na Alemanha e morando naquela época no Brasil. Um sorriso de covinhas, com calça jeans esburacada num tempo em que isso não era pedigree ainda. Por ele todas as adolescentes eram apaixonadas. Aquelas brincadeiras todas de me pega e me deixa acontecendo na entrada das aulas, nos intervalos, na hora da saída. Ele, doce, de lábios doces, sorriso doce, pele clarinha. Doce.

Aula de artes, construção do corpo, dimensões, recriação de modelos estéticos, leituras, interpretações, visitas a mostras. Tudo que um adolescente criativo, vivo, vibrante gosta de fazer.

A aula acontecendo, a professora Rosana de saia curta, de pernas grossas senta-se na mesa.  Alan olha direto para aquelas pernas, com tanto ímpeto que ela se sentiu despida por aquele olhar. Aula no fim. Alan pouco se dirigia à professora, o que a deixava intrigada se por querer evitá-la ou temer ter que enfrentá-la.

De repente ela começou a sentir seu faro feminino direcionado a Alan. O que seria aquilo… um rapazinho quase quinze anos mais novo que ela. Maluquice, carência afetiva produzida por uma voluntária ausência de parceiros. Devia ser isso.

Outra aula, sala escura, projeção de slides. Olhares que se cruzam entre ambos. Tesão sob a blusa fina, sob o avental, que agora vinha preparada para possíveis bicos de seios enfarolados de repente, como ocorrera de outra vez.

Ele, seguro, um verdadeiro professor. Olhava, retirava o olhar. Jamais cafajeste com as meninas suas amigas, jamais fazendo qualquer joguinho para despertar ciuminho tolo no plantel que o envolvia, di-a-ri-a-men-te !

Nadava com destreza, jogava os cabelos longos de um lado para o outro, ao sair da piscina. Ela assistia a tudo sem esboçar reação.

Visita à Bienal, quem vai com quem , no carro de quem. Na volta, uns alunos entregues em suas casas, outras levados por seus pais. Ele, o último no carro dela. Sábado à noite.

“Para o carro aí” . “O que houve, esqueceu alguma coisa?” Não conseguiu terminar a frase. Beijou-a com uma segurança pouco vista até ali. Alisou seus cabelos, sem falar uma palavra sequer. Beijou-a, beijou-a. Ela não conseguia dizer uma palavra, pois que sua língua da dela não saía mais. Parecia estar em um curso de como se beijar professoras titubeantes, num sábado à noite.

Casa. “Vamos embora já”. Foram.

Como olhar para Alan em classe agora? Como cobrar dele um exercício, um trabalho. Era excelente aluno. Lia e escrevia como poucos. Um artista, um privilegiado.

Na cidade grande saíram certa vez, sem serem reconhecidos. Ela era jovem, bonita, de corpo autoral. Ele parecia mais novo, mas não tanto.

Esse romance demorou uns meses, sempre corretíssimo, Alan jamais deixou escapar qualquer coisa que prejudicasse a professora, um verdadeiro mestre, até quando ela saiu da escola.

Os dois ainda se encontraram algumas vezes, consumaram seu amor , perdidos em manias de você por ali por aqui.

Uma situação impensável anos antes por ela.

Ele mudou-se de volta para Argentina.

Anos mais tarde se encontraram por lá.

De néctares, águas e veredas

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DE NÉCTARES E DORES: CORES

Odonir Oliveira

 

 

Acordava e deparava com aquele cenário carregado de belezas

Podia ver amarelos, azuis, verdes e doces aspirados por abelhas,

besouros beliscadores, formigas laboriosas.

Dias encantados pela visão do belo, do inusitado, do inexplorado, do inexplicável até.

Atropelos para retornar logo ao cenário,

que o prazer daquilo era insuperável, companheiro, amigo,

metáforas difíceis de serem sorvidas

por aqueles que, às vezes, ouviam, observavam, compartilhavam … o cenário.

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Motivação fértil para lirismo, reflexões, prazeres incontestáveis.                                                   De mexericas a cenas de filmes,                                                                                                                   tudo vinha colorido por aquela florada inesperada.

E montanhas e sons e melodias e alegrias.                                                                                               Sim, alegrias vieram imprimir cores, aromas e sabores                                                                       às manhãs, às tardes, às noites.

Seriam aquelas flores amarelas responsáveis por tão brejeiras sensações?

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Certeza de um prazer insuspeitável agora.

Vontade suprema de tocar, de enovelar-se, de derramar pelos cotovelos versos e versos

em prosa, como num surto de vida.

As flores amarelas inertes, estáticas, apenas inspirando emoções.

Bom gosto e bom senso para quem se deseja cortejado por sensações tão genuínas e,

de certa forma, originais até.

Agora havia um certo frescor em tudo ali.

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Até o de alimentar-se abriu-se mais bonito e mais frondoso

Temperos para corpo e espírito:

o manjericão misturado à alegria, o alecrim à esperança, a hortelã ao sonho;

abóboras floridas, mamões em crescimento…

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Tudo num verdor inusitado, incompreensível, talvez sazonal, entretanto.

Que aproveitasse o momento desses prazeres do quintal.

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Como num passe de mágica, como aquele das badaladas da meia-noite do conto de fadas,

perdeu-se o sapatinho de cristal.

Acabou-se o encantamento.

Sem saber bem como, nem por quem, uma ação esterilizadora ocorreu.

Sem aviso prévio, sem anuência, sem acordo ou negociação anterior.

Ocorreu.

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Como se fosse proibido

religiosamente

socialmente

culturalmente

contemplar-se as flores amarelas do vizinho.

São minhas, corto-as quando desejar,

arranco-as quando quiser,

faço como acho que deve ser feito-

teria dito ele.

Ficou com aquele sentimento nas mãos.

Sem entender por quê e como, o inusitado da contemplação

poderia oferecer tamanhos perigos, tamanhas ameaças, tantos silêncios.

O quadro sintomático era claro:

tristeza resultado de processo de apaixonamento,

que costuma demorar um tempo para ser superado,

demandando repouso e espera,

não em dose única,

posto que é chama e arde.

Mas outras flores amarelas virão ainda para serem contempladas

e espera-se que vizinhos não resolvam podá-las a bel-prazer, como ora aconteceu.

Como tratamento, repouso e espera.

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ROAD MOVIE II
– Odonir Oliveira

Meu “Paris, Texas”
em verde-amarelo
é “Central do Brasil”;
No meu “Easy Rider”
tem montanhas e pedras
é “Bye, Bye, Brasil”.

Meu momento pérola na concha
é “Cinema, Aspirina e Urubus”.
Minha descoberta eu lírico
é “On the road” com Kerouac
Meu ensaio político com veias abertas de latinidade
é “Diários de Motocicleta”.

Minha libertação feminina
é “Thelma e Louise”
Minha liberação em intensidade
é “E sua mãe também“.
Buscas encontros procuras entregas
Nas estradas…

Minha “Pequena Miss Sunshine”
na pureza, no reconhecimento da particularidade.
No meu amor por vinhos,
Sideway“.
No meu amor por meu amor
Uma estrada.

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Canal: Odonir Oliveira

MERGULHO

Odonir Oliveira

 

Sentada, a luz de Narciso me suga

Interpreto o mais e o menos

Mergulho no líquido

Mergulho no sólido

E é etéreo e gasoso.

 

De pé, caminho sobre tábuas

de mandamentos pagãos.

Tudo em frente, tudo ali

E é etéreo e gasoso.

 

Mergulho entregue

Sem nadadeiras

Sem asas

Nem redes de proteção.

 

Mergulho no risco de Narciso, então.

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BUSCAS

Odonir Oliveira

 

Sigo na direção

é sim é não.

Transformação.

 

Janelas abertas

vento pelos ouvidos

esperas na pele

torneios entre razão e emoção.

 

Uma canção

Duelos constantes

é sim e não.

 

Rotas sinuosas

casas de menina

cores de menina.

Encontro de mulher.

Canal: Odonir Oliveira

 

AFIRMAÇÕES

Odonir Oliveira

 

Beijo-te a boca porque neste dossel estás

Beijo-te a boca porque numa sóbria embriaguez pousas em mim

Beijo-te a boca porque és onírico, fugaz e tépido.

 

Abro-te meus cofres para descobrires registros tênues

Abro-te meus cofres para beberes sólidos, líquidos e gasosos

Abro-te meus cofres para não indagares sequer um suspiro meu.

 

Encontro-te pelas manhãs nas curvas de mim

Encontro-me pelas tardes no lirismo de meus versos

Encontro-te pelas noites apenas para estares.

 

(Fotos de meu arquivo pessoal)

 

Quem gosta de ouvir histórias de amor …

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SOU QUEM GOSTA DE OUVIR HISTÓRIAS DE AMOR

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É preciso dizer “eu te amo”?

Odonir Oliveira

Não sei responder à pergunta que eu mesma me faço.  Até que ponto é necessário dizer que se ama alguém.

Muitos acreditam que quem ama não precisa declarar com palavras seu amor. Talvez estejam com a razão. Ouvir uma declaração de amor, de qualquer tonalidade, seja de um amor materno, paterno, fraterno, platônico ou erótico romântico carnal é para fortes. Declarar-se então, necessita de muita coragem do declarante.

Assim, muitos pais e mães jamais declararam seu amor com palavras a seus filhos. Amigos homens que se amam fraternalmente, e  por eles  são capazes de manter segredos eternos, jamais declaram que os amam. Mulheres, mais expressivas, costumam manter relações mais explícitas em relação ao afeto com suas amigas e até com amigos homens também. Mas dizer  ‘eu te amo’ não pode constar desse rol de espontaneidades. Não se ama de maneira fácil, de maneira simples. Talvez o seja até assim para alguns, mas não para todos.

Receber uma declaração de amor desconcerta as pessoas, tira delas a naturalidade da relação, de certa forma as incomoda porque não se sabe o que fazer com o amor dos outros em relação a nós. Teremos que corresponder àquele amor; estaríamos alimentando um amor que pode se virar contra nós em algum momento; tal amor pode ser uma ameaça à situação de conforto em que vivemos no momento; o amor escancarado em palavras poderá provocar em nós  um retorno inesperado também; “não quero saber, ainda que saiba, que alguém me ama”.

E, deveria ser o contrário. Amar e ser amado implica identidades, admiração e até ânsia de viver. Se pais pudessem fazer valer seu amor também por palavras por abraços, beijos e contato físico entre os seus, muitas das neuroses existentes teriam sido evitadas.

Roberto Freire, terapeuta anarquista, acreditava que “sem tesão não há solução”, que só se consegue viver e saudavelmente, quando se está apaixonado, e  Reich citava a  energia  vital que rege o homem e escreveu “Amor, trabalho e saber são as fontes de nossa existência. Deverão regê-la também” .

Estar apaixonado por outro requer dedicação, investimento consciente, e às vezes até certo grau de entrega. Segurar o fluxo das águas ..  dá-se a isso o nome de represa. Deve ser eficiente apenas para produção de energia elétrica, contudo. Acostumamo-nos a viver um amor regimental, legal e socialmente credenciado. Então  o que fazer com algo que não tem nome, que não tem documento oficial, que não comparece diariamente ao local combinado, na mesma hora e com a roupa combinada ? O medo represa ao acolhimento do amor. Muitas vezes rejeita-se o amor sem mesmo ter tido a chance de conhecê-lo melhor – qual uma iguaria de que jamais se ouviu falar ou se saboreou e se rejeita por isso.

Acolher ou não acolher o amor tem grandes implicações sociais também, pois se expande por todo um contexto

Diz  Reich  ao final do Prefácio de seu livro A Revolução Sexual, de 1944:

“[…] O desenvolvimento da nossa época, em toda a parte, é no sentido de uma comunidade planetária dos cidadãos terrestres e de um internacionalismo sem condições e sem restrições. O domínio dos povos pelos políticos deve ser substituído pela orientação científica dos processos sociais. O que importa é a sociedade humana , não o Estado. O que importa é a verdade, não a tática. A Ciência Natural enfrenta seu maior problema; assumir finalmente e definitivamente a responsabilidade pelo destino futuro desta humanidade atormentada. A política desgastou-se definitivamente. Os  naturalistas terão, quer queiram, quer não, que assumir a direção dos processos de vida social , e os políticos aprenderão, por bem ou por mal , a prestar serviço útil. Auxiliar a afirmação da nova ordem  de vida racional e científica, pela qual  em toda  parte se luta encarniçadamente, tornar o seu nascimento e o seu crescimento mais indolores e menos sacrificados é uma tarefa desta obra. Quem, no sentido do ser vivo, for digno e socialmente cônscio de suas responsabilidades, não pode deixar de compreender isso, nem o usará indevidamente,”

Declarar amor por alguém pode ser bom no sentido de aprendizagem. Doar-se, mostrar-se um ser que se expõe, se solidariza com o sentir do outro pode ser um exercício social grandioso, então.

Já houve tempos em que se escondiam sentimentos, não se sabia conviver com eles, mascaravam-se emoções e todas as couraças se interpunham aos sentimentos.

Depois ficou bonito na foto demonstrar-se , expor-se , fosse o que fosse. Depois, depois ..

Sentimentos e suas manifestações também dependem de moda, de última coleção, como as vitrines expostas nos shoppings ?

Vai saber ….

Então, melhor ouvir.

Fontes: Sem tesão não há solução, Roberto Freire, 1987, Editora Guanabara.

A Revolução Sexual, Wilhelm Reich, 1980, Zahar Editores.

HISTÓRIAS DE AMOR – I

Vídeo: jnscam

REMÉDIO NA ESTAÇÃO

Odonir Oliveira

Não me recordo bem se era morena, loira ou ruiva. Sei que tinha um dor de amor nas costas que a fazia se sentar na beiradinha do banquinho e falar meio pra dentro, como se quisesse desistir a qualquer momento.

E o fez por umas três vezes. Vinha, começava, se arrependia e saía rapidamente, descendo as escadas que davam para a rua de baixo. Alguma vez a acompanhei com o olhar, nas outras desisti.

Na quarta vez, iniciou contando que havia amado um único homem em uma cidadezinha. Era forte, jeito de moleque, piadista, que o conhecera no bar em frente à estação. Gostava de ir ali comer qualquer coisa porque sempre apanhava uma história ou outra descida do trem com os passageiros. Assim teria o que contar mais tarde, no pensionato, às colegas de quarto, após o jantar.

Lembrou que vez ou outra faltava energia, e, ficarem ali à luz de velas era excitante … enchiam-lhe de prazer as histórias das colegas, muito mais experientes que ela, nascida e criada na zona rural da cidade mais distante daquele estado. Nem trem parava por lá. Trem para ela… novidade e tanto. Rita era calada, tinha cabelos ondulados qual essas moças de filmes antigos. Não sei por que não consigo lembrar de que cor eram.

Contou que conhecera lá o homem, que para ela dissera ser Júlio, representante comercial de laboratórios farmacêuticos. Vinha com uma bonita pasta marrom de couro que se abria como flor para um lado e para o outro.

Estava por ali a cada quinze dias e foi o bastante para Rita entrar na sua rota de conquista.

Havia um hotelzinho barato em que passaram a se encontrar. Apaixonou-se, ela, num tanto que já nem respirava bem, acometera-lhe uma certa asma brônquica que lhe tirava o ar. Mas quando Júlio chegava, não havia remédio melhor a sair de sua maleta que a camisa de vênus que usava sob os lençóis do hotelzinho barato. Era rápido sempre, beijos no fim, sem muito lirismo, quase sem nenhum lirismo, na verdade. Dava-se a ele e ele a ela assim em doses quinzenais, qual remédio em visita de médico.

E então, sumiu.

Anos e anos Rita comparecera à estação. Até que esta foi desativada. Não receberia mais passageiros, só cargas.

Rita perdeu as esperanças de reencontrar Júlio por um trem de amor daqueles. Só cargas e encargos apareciam por ali. Dor nas costas.

Fechou-se como um vagão em um túnel.

Não mais se entregou a viagens. Nunca mais.

Sofria dessa maneira, até enquanto sentou-se aqui para contar essa sua dor.

OCITOCINA DEMAIS!

Odonir Oliveira

Você sabe, existem tantos tipos e espécies de amor, que acredito, muitos destes nem chegaremos a saborear. Não daremos conta em vida, talvez.

A eternidade dos amores, a meu ver, deve ser entendida como as águas dos rios que vão a cada minuto existindo para encherem , de alguma forma, o mar, os mares depois.

Foi quando estava pensando nisso que comecei a ouvir uma história marcante na tarde daquele sábado.

Apaixonou-se por Nuno Leal Maia nos anos 70. O ator fazia a novela Estúpido Cupido, de Mário Prata, na Globo.

Foi paixão  que se cozinhou em banho-maria, noite a noite, durante meses.

Até que de férias no Rio de Janeiro, resolveu conhecer Nuno pessoalmente. Foi ao teatro, na Praia do Flamengo. Parou seu fusca na calçada e comprou ingresso para a peça que o ator protagonizava com Tonia Carrero.

Deslumbrada, repetiu isso duas , três, várias vezes em quinze dias. Até que encheu-se de coragem e foi falar com Nuno, após o espetáculo.

Conversaram. Ele pegou o carro, um fusca branco, que estava, inclusive, estacionado na rua, ao lado do dela. Dali foram à cantina famosa, frequentada por atores em fim de noite, no Largo do Machado. Papo bom, apresentou-a a outros atores, cantores…

Combinaram: iria levá-la às gravações no Jardim Botânico e em Itaboraí, interior do Rio, para ver externas etc. etc. Contava isso e parecia que estava de novo lá com ele, só vendo.

Itaboraí era longe ! Sem saber o caminho, em tempos quando não se tinha a ajuda do GPS, guiou léguas até lá. Recompensa: conversou com ele por horas, enquanto aguardavam as infinitíssimas outras tantas até a gravação das cenas dele. Ela adorando, contudo.

Levou-a a assistir a filmagem de A Dama do Lotação, aos pés do Cristo Redentor, e ali conheceu Sonia Braga, Neville de Almeida e muita gente mais.

Ao fim de um período de deslumbramento total, foi com o Nuno e todo o elenco da peça à quadra da Mangueira, estação primeira daquele roteiro amoroso, digamos assim.

Dia seguinte, parou o carro na frente do teatro para assistir mais uma vez ao espetáculo qual gregos o faziam nas tragédias, sabendo-o já quase de cor. Tratava-se de O Pássaro da Juventude, de Tennessee Williams.

Na saída, onde estaria o seu fusca, ali estacionado horas antes?

Desaparecera. Roubado, nunca mais o encontrou.

“Mas um mês de Nuno tinha valido a pena”- contava isso e deixava escorrer prazer pelos cantos da boca.

A carta, de Almeida Júnior

SINA DE HEROÍNA ROMÂNTICA

Odonir Oliveira

No domingo, sentou-se no banquinho Sofia e preferiu ler o que escreveu. Fez isso com timbre dramático que, sinceramente, acostumado que estou a ouvir histórias de amor, cheguei às lágrimas. Tinha pele branca de dama das camélias pós-moderna.

Gostava de uma narrativa impossível com heroína morrendo no final .

Conhecia todos os versos brancos e as noites negras de desilusões ancestrais.

Nascera da coxa de um semideus e do braço de uma caçadora imortal.

Antevia seu destino traçado no ar e na água.

Viera para sofrer, paskw  era assim também  apaixonar-se, sofrer por ação do amor

E sabia  que deveria dividir sempre, qual Afrodite, Adônis com Perséfone , sob as ordens de um zeus  qualquer que lhe outorgara tal missão na Terra.

Aceitava, então, com desprendimento a sina imposta pelos oráculos anunciadores das eternas dores.

Percorria, por isso, montanhas, vales e serras à procura de quem a livraria dessa maldição.

Inda que tropeçasse, e de joelhos se atirasse às pedras, à compaixão de zeus, este não a libertava de tão dolorida caminhada

Havia de ser por trôpegos penhascos, à dor sofrida, que um dia, não se sabia quando nem onde, ver-se-ia livre daquela condição.

Eras e eras se passaram sem que pudesse a heroína romântica vencer seu destino, pois sempre incompleto.

Todas as vezes em que se dispunha a enfrentar zeus e concluir sua jornada involuntária, ali vinha ele a lembrar-lhe que, qual Afrodite, seu fado ainda estava por se cumprir.

De tal sorte, acostumou-se ao desprendimento de laços, a não fazê-los nós, posto que reconhecia nunca os teria em si, por herança do céu na terra.

Errante por mares, rios e fontes, continua ainda sua busca incessante pelo grão-senhor que conseguirá, por si só, enfrentando todos os obstáculos e as ações interpostas por aquele zeus, formar com ela laços hedonicamente carnavalizados, os quais nem mesmo o próprio Zeus poderá desenlaçar.

PRIMOS

Odonir Oliveira

“Quero contar sobre meu amor por um primo. Nunca consegui esquecer aquilo, sabe.”

Viveram sempre em cidades diferentes, desde crianças. Passavam férias de verão no mesmo lugar.

Ali, sempre amiguinhos, descobriram-se adolescentes e apaixonados.

Armando – dizia ela –  lindos olhos verdes, tímido, um poço dos afetos todos com a prima. Tanto afeto que, uma vez quando ela quebrara a perna, tinham os dois doze anos, cuidara as férias inteirinhas dela, dando-lhe preparação de água, esquentando-a, colocando em outro recipiente água gelada para que ela banhasse várias vezes ao dia a perna e o calcanhar ainda inchados – depois do gesso retirado. Era de uma gentileza que beirava à submissão. Contava isso quase sem fôlego.

Ah, mas quem nunca brincou de médico com primas! Eles não. Cuidava dela como de uma flor do campo, frágil, mimosa. Para ela buscava o que fosse necessário, mesmo sem que pedisse. Lembrava Peri e Ceci em O Guarani, tamanha adoração.

Mesmo sozinhos, com todos os hormônios em ebulição, jamais efervesceram paixões neles mesmos. Nem um beijo roubado sequer. Eram primos. Filho de pai, irmão da mãe dela. Jamais poderiam ficar juntos e se casassem e tivessem filhos, como seria?

Que casar nada. Doze anos. Ouvindo o Lobo bobo de João Gilberto, disco do primo mais velho, jogando pedrinhas e batalha naval. Férias.

Tempos e tempos se passaram

Ela se casara com seu engenheiro. Ele, com sua vizinha, tendo com esta uma filha. Separara-se, casara-se de novo tenho aí mais dois meninos.

Ela soubera pouco de Armando por mais de duas décadas. Até que voltaram a frequentar os mesmos lugares. O olhar dele sempre o mesmo por ela. Divorciada, livre, sequer demonstrava qualquer intenção para com ele, homem casado, pai de dois filhos então.

Os olhares dele, no entanto, encandearam-se em palavras mais adocicadas, mais atenciosas. Uma balançada geral nela.

Tempos e meses depois, tudo é Carnaval na praça principal, onde sempre passavam as férias. Praça da Matriz.

Na barraquinha em que se vendiam bebidas, os dois se esbarraram. Ela já estava ali, bebendo cerveja com parentes e amigos há horas. Ele, pescando. Chegou depois, bem depois de as escolas de samba e blocos terem desfilado.

Sozinho, olhou para ela, que meio ali meio lá na casa dele, recuou.

Anos e anos de tesão reprimido, agora o sabiam mesmo- explicava a mim.

Por que não beijar na boca, rir muito e relembrar o quão tontos sempre haviam sido. Lembrou-se de Mário de Andrade apaixonado por sua impossível prima Luísa e resolveu aceitar aquele desafio por décadas adiado.

Lendo seus pensamentos, Armando puxou-a pelo braço, naquela música “me dá um dinheiro aí”, levou-a para uma calçadinha com jardim e, na frente de quem quisesse ver, beijou-a com três décadas de atraso.

Dali foram se amar como se jamais tivessem se conhecido, mas com uma intimidade tal, que pareciam ter estado juntos por todos aqueles trinta anos  também.

“Depois só rezando na Igreja da Matriz uns três padres-nossos e umas três ave-marias, a pedir perdão a Deus pelo sacrilégio cometido. Mas teria sido sacrilégio, o senhor acha?”

FUTEBOL DEMAIS!

Odonir Oliveira

“Na versão da minha amiga, futebol é paixão mesmo”- começou contando.

Flávia detestara futebol sempre.

Até que começou a namorar um torcedor roxo daquele time- não vou dizer qual, por motivos óbvios – e, na ansiedade da paixão já em andamento, resolveu esquecer aquela sua falta de fé no futebol e entrar com bola e tudo em campo, com o ruivo em questão.

O cara parecia gostar mais dos 11, ou seriam 22, jogadores do seu time do que dela. Todo fim de semana era campo, torcida, churrasco depois do jogo com os amigos, as namoradas dos amigos, os colegas dos amigos. Um campeonato inteiro assim.

Foi aí que ele propôs irem às quartas-feiras também. Mas seria diferente agora, com um apelo mais romântico ao fim da noite etc. Ela topando qualquer jogada , fugindo de divididas, que de boba não tinha nada – me contou aqui. Queria continuar marcando seu gol, batendo um bolão. Aquele campeonato estava no papo, acreditava.

Foi aí que numa entrada mais dura, apelativa mesmo, o torcedor deu bandeira demais. Nem pensou em adverti-lo, dizer que aquela jogada era sem nenhum fair play etc. O parceiro no passe era tão gente boa, que Flávia jamais poderia ter imaginado tamanha finta e tamanha jogada fominha.

Expulso de campo, sem nem ter tomado amarelo antes, hem !- conclui.

“Ah, é, futebol assim já era paixão demais ! Nesse tipo de jogada eu não entro não, esclareceu ela.”

Textos: Odonir Oliveira

“Por quem os sinos dobram; eles dobram por ti “

Fernando Pessoa citou os sinos de sua aldeia. Quanto a mim, reles escrevedora de palavras, amantes de mim, daqui ouço sinos em igrejas próximas: magia, deslumbramento, sem condicionantes religiosos, porque há uma liturgia intrínseca no badalar dos sinos, um recolhimento, uma reflexão, uma entrega.

MEDITAÇÃO 17  
[…]

“Nenhum homem é uma ilha, completa em si mesma; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme. Se um torrão de terra for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se tivesse perdido um promontório, ou perdido o solar de um teu amigo, ou o teu próprio. A morte de qualquer homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido; por isso, nunca mandes indagar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti. “

John Donne (tradução Paulo Vizioli)

SILÊNCIOS

Odonir Oliveira

 

Tilintam as noites de ser

Badalam os órgãos de ter

Retinam os sussurros

Uivam os guinchos de sangue

Trombeteiam anjos com anúncios

Clamam plangentes por contornos internos.

 

Presságios de sons, tons

Presságios de sinos, hinos

avisos anúncios apelos ressoam

 

Trinados

brados

recados.

 

Novenas

nascimentos

batismos

enlaces

mortes.

 

Não, mas por que não ouço mais

os sinos da minha aldeia?

Vídeo: jnscam

 

BEBO

Odonir Oliveira

 

Bebo olhos de lentes

Bebo focos de luzes de manhãs tardias

De tardes já sem sol

De noites em flashes artificiais

 

Bebo sons de fardos fatos e fotos

Bebo retinas de nesgas de luz morrente

Bebo uma fissura mínima de acontecimentos

Bebo cores nuances tons

toantes

soantes

penetrantes.

 

Vídeo: jnscam

 

SÃO JOSÉ OPERÁRIO

Odonir Oliveira

 

– Vamos, vamos, menina, que já-já começa a novena!

Tia Ziza, mãos dadas

compasso de passos crentes

em seu Deus único e salvador.

 

– São José Operário

Veja que lindo ali em cima. Veja!

 

Entra-se em silêncio

Ajoelha-se

Sinal da cruz

Em dó, ré mi, fá

Sol lá fora

Tarde declinando as horas

De janeiros vividos

Sabidos

Entornados

De ângelus a reginas rainhas

 

Novenas às dezenas

Badalar de sinos eternos

Retornos de vozes dores súplicas perdões.

 

Tia Ziza

virgem

solteira

entregue ao seu Deus e a suas peregrinações

por todos,

por um, por dois, por mil…

 

– Deixa Deus com seu mundo!

Reza diária repetida, herdada de vô Zé,

sábio matuto mineiro,

de filosofia e metafísica maiores

que as de um Pessoa qualquer.

 

Vinde, entranhas, vinde,

que as busco inteiras e me entrego,

também eu, a  vossa  consumição.

Vinde!

Vídeos: jnscam

 

TIRADENTES

Odonir Oliveira

 

“Entrega

delata

Fala

Aponta

Trai”

 

 Então,

puna

fira

corte

retalhe

desfibre

salgue

pendure.

 

Exiba

Impeça.

 

Liberdade, Plácido,

Liberdade ainda que tardia.

 

Aqui

Junto de ti.

 

AQUI JAZEM

Odonir Oliveira

 

corpos vivos

corpos mortos

corpos uns

corpos outros

um pai uma mãe

um avô uma avó

um tio uma tia

uma família

uma ninhada, um rebanho

constelação

de corpos.

 

uma colina, uma pedra fria

o mármore, o granito

o começo do fim

o pó

a pedra

a flor

no jardim.

 

Aqui jazem meus ossos

minha raiz.  

 

Vídeos: jnscam

 

SINOS D’ALMA – I

Eu não vivo

vivo disperso no mar cósmico

a minha existência é uma nuvem

eu não vivo

porque vivo a inconstância do ser.

Eu não vivo

vivo o grande conflito

entre as estrelas e os deuses

então me esqueço

dissipo-me nas trevas do Universo

então me vendo ao existencialismo de Sartre

e afogo-me no álcool da teodiceia.

Desisto:

a vida viveu-me

aspirando os meus parcos desejos.

Não existo:

Dei à Vida a minha vida!

O porvir? Eu não sei …

Que há em eu ser somente eu?

Não são as flores apenas flores

E as folhas, folhas de um verde exacto?

Se assim é

Por que cingistes em mim

A extensão vaga de eu não ser eu mesmo?

O porvir?

Eu não sei …

Tu conheces os passos do vento?

Que há no caminho cego que não vejo?

Serão as trepadeiras

Os degraus do meu desterro no tempo?

Se assim é

Por que fizestes de mim

A brisa rasa depois do temporal?

 

O porvir?

Eu não sei …

Mas quem saberá?

 

 Cristóvão Luís Neto– poeta africano de Luanda, nascido em 1954

[…]

“Humilde sino da vida,
Que assim badalas, badalas,
Na paz da tarde tranquila;

Não, tu não falas à toa:

Percebo o que e a quem falas…

Perdoa! “

A voz do sino II  Vicente de Carvalho