Moradas e abandonos

 

MORADAS REFÚGIO

Avisto um paraíso
refúgio de anos
sossego de buscas
oásis de penúrias.
 
Posso me adonar de ti?
Posso me embeber de ti?
Posso me entregar a ti?
 
Adentrando cômodo a cômodo,
meus olhos desfrutam de ti
encanto-me com  tuas paredes,
com teu chão de histórias.
 
Eu, uma Helena de Troia mineira, raptada por ti.
Regozijo de perfumes
Regozijo de lirismos
Regozijo de paisagens
Regozijo de melodias
 
De onde conheço essa moradia abandonada ?
Estive aqui antes?

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SARAU

Olha o moço moreno de sorriso e covinhas
Adivinha-lhe a pele rude de matuto
Saboreia seu olhar de olhos fechados
Antevê um braço forte enlaçando-a
Rodopia com ele no chão de barro
Pés difíceis de deslizar
Corpo morada leve em braços fortes
Saia de flor, blusa de algodão e colete de crochê
Sai  música, entra  música
O par constante
O enlevo constante
O ardor constante.
 
Laços apertados de dois.

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FESTA NA ROÇA

O céu dormiu chovendo
acordou sorrindo.
Dia de festa na roça.
 
Café adoçado com rapadura.
Quitandas em potes
Bolo de milho, bolo de mandioca, doce de leite, queijo de casa.
Linguiças penduradas tinindo de frescas.
Um anguzinho mole, sem sal
pra ser comido com leite
 
” Dona Neuma me traz frango. E o quiabo fresquinho da horta, hem.”
 
Ouvem-se vozes ao longe.
Ouvem-se conversas de décadas, relembradas,
do primo de uns, dos tios de outros, da madrinha deles todos.
Quem morreu na semana passada? Quem casou? Quem nasceu?
Uns trazem as encomendas, outros trazem os braços e as mãos pra arrumação
Outros trazem as palavras na voz a um aconselhamento .
 
Risos doces e salgados de dança mineira no chão.

 

PAIXÃO BREJEIRA

Helena espera o dia inteiro
Helena quer ver o moreno dengoso de pele bronzeada
Helena lava cabelos, mãos, pés com as folhinhas da lavanda do jardim..
Helena é botão, é broto, é semente.
Helena espera a noite chegar.
 
O moreno chega antes e traz viola.
Helena não adivinhava que o moreno a encantaria com uma viola.
Helena ouve da cozinha a conversa do moreno com seus irmãos.
Helena enxuga as vasilhas e esconde no guarda-comida sua espera.
Helena sente um cheiro diferente daquele dos irmãos.
Helena bebe prazer, devagarinho, numa canequinha verde de café.
Helena olha as árvores do quintal e cruza olhares com o moreno.
 
O moreno toca a viola.

 

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ABANDONO

Há um risco de nuvem, como facho, no céu azul,
parece de avião, em espaço nunca visto por aviões.
Há uma tempestade ameaçando desmoronar
 
Só Helena sente.
Só Helena adivinha.
Só Helena aguarda.
 
O moreno da viola nunca mais voltou.
O moreno da viola é uma novena.
O moreno da viola é o canto dos bem-te-vis pelas manhãs,
a ave-maria da igreja às tardes.
 
Helena bebe café, lentamente, na janela.

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Poesias: Odonir Oliveira
Fotos de arquivo pessoal
 
1º Vídeo: Canal jnscam
2ª Vídeo: Canal Odonir Oliveira
3º e 4º Vídeos: Canal luciano hortencio
5ª Vídeo: Canal MusicErudita

 

Leia mais sobre o tema “ABANDONO” em:

http://vidasimples.uol.com.br/noticias/pensar/abandono.phtml#.VySnrzArKUn

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Clubinho da leitura: Obsessão por educação

OBSESSÃO  

Sou obsessiva.
Sou obsessiva sim.
Tenho ideia fixa de justiça
Tenho ideia fixa de comprometimento.
Tenho ideia fixa de educação
Tenho ideia fixa de doação e entrega.
Não tenho receio de dor.
Não tenho medo de envolvimento.
Não tenho pavor de amor.
 
Minha obsessão por ensinar
seja a miúdos, maduros, graúdos
passa pelo ato de amar.
Não restrinjam minhas ações.
Não desprezem minhas veredas.
Não me imponham o silêncio covarde.
Não me limitem os braços e as pernas.
Não me amordacem o verbo.
Defendo meus aprendizes
como felina parida.
Não mexam com eles.
Não os ignorem
Não os maltratem.
Não os desprezem.
 
Somos raízes, mas também somos sementes.                                                                                                 

 

CLUBINHO DA LEITURA “PLÁCIDO DE OLIVEIRA’, de Barbacena, MG

(Obs: Trata-se de um trabalho voluntário que realizo com as crianças do bairro do Carmo, em Barbacena, MG)

Vamos ouvir uma história em outro suporte. No youtube, no computador

Enquanto ouvimos e aprendemos a história, vamos atentando para o que ela tem de especial, desde o título, o nome da autora e do ilustrador, as ilustrações, as palavras nas frases … tudo.

Agora é nossa vez de contar essa história. E com nossas palavras.

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E se a gente também fizesse laços de todas as cores? Quem sabe fazer ajuda ou ensina o outro a fazer. Vamos juntos?

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” Mas menino não usa laço, né. ”                                                                                                           “Não sei. Quem pode resolver isso de alguma forma? ”                                                                        “Ah, já sei. Pode ser uma gravatinha de laço, vocês querem meninos? Pronto, Odonir, resolvido.”

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Enfim, no Clubinho da Leitura não temos nenhum problema em CRIAR LAÇOS.

Ao contrário, estamos sempre aprendendo uns com os outros. E é muito bom !

 

VAMOS AO CIRCO ?

“Oba! ”

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Do que eu gostei mais foi do Globo da Morte.

Eu gostei dos palhaços.

Eu gostei do atirador de facas.

Eu gostei foi do mágico, queria descobrir como ele fez aquilo, Odonir.

Eu gostei do equilibrista.

Queria que os palhaços tivessem nomes mais engraçados.

“Então vamos recontar as piadas que eles contaram?

Vamos desenhar palhacinhos e criar outros nomes para os seus? Vão bora, meninada.”

E no CLUBINHO DE CAMPO DA LEITURA, cantamos, tocamos e lemos poesias e histórias

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A PROMESSA DO GIRINO

Quero contar uma história

Que é muito emocionante

Um Girino bem pretinho

E uma Lagarta falante.

Eles se apaixonaram.

Vejam só que interessante.

Ele assim a apelidou

És minha pérola negra

Ela assim já lhe chamou

E foi nesses devaneios

Que o amor se instalou

A Lagarta apaixonada

Falou ao seu grande amor:

– Nunca mudes, viu querido

Eu te peço, por favor

– Eu prometo, disse ele

Mas com o coração de dor

Novamente se encontraram

Muito havia já mudado

Dois bracinhos no Girino

Por ela já notados

– Eu não queria esses braços-

disse ele magoado.

Por três vezes a lagarta

Perdoou o seu amado

Mas sua pérola negra

Já tinha muito mudado

A Lagarta então foi embora

Com o coração despedaçado

O Girino, já um sapo,

Esperou a sua amada

Que chorou por muitos dias

E depois foi despertada

Já não era mais Lagarta

Mas borboleta encantada

Bateu suas lindas asas

Atrás do amado partiu

Encontrou um grande sapo

Olhou para ele e sorriu

Perguntou toda faceira

Uma perola você viu?

Mas a pobre coitadinha

Nem terminou de falar

Já foi logo engolida

Pelo sapo sem pensar

Que aquela borboleta

Era Arco-Íris a voar

E até hoje o pobre sapo

Tá na lagoa a esperar

Que o seu lindo Arco-Íris

Volte a lhe procurar

Mal sabe o pobrezinho

Que ela foi o seu jantar

Digo então, oh minha gente,                                                                                                                        Preste muita atenção                                                                                                                                    Não devemos só agir                                                                                                                                      Pelos olhos da visão                                                                                                                                        Pois o bom a gente vê                                                                                                                                    Com os olhos do coração.

 

 

VEJA TAMBÉM SOBRE O CLUBINHO DA LEITURA:

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2016/03/17/a-paz-eu-fico-com-a-resposta-das-criancas/

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2016/02/23/clubinho-da-leitura-de-barbacena/

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2016/03/15/a-onca-lograda-e-outras-oncas-no-clubinho-da-leitura-em-barbacena/

DEDICATÓRIA

Dedico esse post a Osvaldo Ferreira, brilhante professor de geografia (além de advogado) que tem a obsessão de ensinar, com verdade, com coragem, entregando-se a essa dura e doce arte.

Conheço o querido professor Osvaldo desde os anos oitenta. Lutamos em muitas trincheiras juntos. Viajamos juntos. Aprendi muito no Chile e na Argentina com ele.

Professor, poucos têm sua coragem e sua determinação em lutar por uma educação maiúscula. Quem não souber reconhecer isso não o merecerá. Há muitos esperando por seus ensinamentos, por seus estudos de meio e seus projetos. À  diante !

Forte abraço.

21 de abril, do povo brasileiro

UMA ESTRADA REAL

No rumo, na rota , no traço
uma estrada real sangra meus olhos.
 
Parto com Beatles a meu lado
ora cantam
ora apenas orquestrados
ora apenas sussurrados.
 
O sol ao meio
as nuvens na ponta do para-brisas
o vento de acordes doces.
 
No caminho, um aceno do pai na beira da estrada,
no outro lado, a mãe me sorri,
mais à frente vejo avôs e avós que me estendem as mãos.
 
No azul do céu mineiro uma seta desenhada cuidadosamente
por tios e tias como se preparassem uma festa de batizado.
 
Esse é meu torrão.
Essa é a minha vereda, a minha picada.
Estou entre os meus.
 
Tiradentes corre nas minhas veias.

 

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PEDINDO ESTRADA

Paro, que gosto de respirar mato.
Paro, que gosto de beber ar de rio.
Paro, que nada pode ser mais sensual que nuvens de algodão doce no céu.
Paro, que gosto de ouvir o som do nada cortado pelo bucolismo de mim.
Paro, porque meu sonho, meu lirismo, minha rima pedem estrada.

 

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CAMINHOS DE PEDRAS

Quem era ela que acreditava nas águas dos rios?
Quem era ela que assobiava com os passarinhos naquelas manhãs?
Quem era ela que costurava panos leves de enfeitar venezianas solares?
Quem era ela que contava janelas coloridas em ruas de inconfidentes?
Quem era ela que pintava cores em telas desbotadas de perfumes?
Quem era ela que dedicava o olhar para uma única paisagem?
Quem era ela que saltitava pedra por pedra na trilha de ser?
 

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PATAS DE CAVALOS

Há que se ter medo.
Há que se ter cuidados
Há que se ter ouvidos, olhos e mãos de entender.
Há que se confidenciar a poucos.
Há que se omitir de muitos.
A pata, a opressão, a chibata, a inaceitação.
Seguem-nos, cercam-nos, amordaçam-nos
 
Calam-nos, sem perdão.
São muitos.

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TELHADOS, EIRAS E BEIRAS

No cume do sonho a liberdade
No alto do monte a reflexão
Saltando por bandas, perseguindo uma flama, a vez
Juntando pedras e marcas a torre de um ideário libertador
Telhados, eiras, beiras escondem presságios devastadores
 
O que nos esperará ao final dessa outra derrama?

 

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ESTRADA, DERRAMA, ÓDIO

Passadas largas
tropeços
Passadas curtas
tormentas
 
Passadas trôpegas
Medo.
 
Quem vem lá?
 
É dia
Há pedras
Há marcas
Há dores
Há gritos
Há ferros
Há fogo
Há brasas
Há mortes.
 
Quem vem lá?
É noite.
Há choro
Há cortes
Há súplicas
Há berros
Há arrependimentos
Há delações
Há entregas
Há torturas
Há conspirações.
Há corpos.
Há retalhos de corpos.
Há deflagração de ódio.
 
Para sempre.

 

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ONTEM HOJE AMANHÃ

uma estrada de trem de ferro.
uma estação de trem de ferro.
gente dentro do trem de ferro
gente fora do trem de ferro
gente de ontem
gente de hoje
gente do amanhã.
 
Eu?  Apenas contemplo…

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TERRA DE MINAS

Que bondade tem o garoto mineiro que ajuda a carregar embrulhos, mesmo sem precisão…
Que prosaico é aquele “cê bobo” ao final das frases coloquiais …
Que vontade é essa de ficar sentado na praça a tocar causos e prosas até o entardecer…
Que permissivo é esse tom de confidência de quem jamais nos viu antes …
Que adocicado é esse olhar de matutagem espalhado pelas calçadas …
Que coisa caseira é essa que me enternece de água os olhos …
 
Talvez seja encontro de sangue mineiro com sangue mineiro.
Talvez seja um ponto de vista repleto de montanhas .
Talvez seja essa vontade de encontrar o que uma vez se perdeu em mim.

 

Poemas: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal : Tiradentes, abril 2016

1º Vídeo: Canal  TMusicaCanal   

2º Vídeo: Canal jnscam

3º Vídeo: Canal Odonir Oliveira

Penhascos e degredos

 

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“É fácil trocar as palavras,
Difícil é interpretar os silêncios!

É fácil caminhar lado a lado,
Difícil é saber como se encontrar!

É fácil beijar o rosto,
Difícil é chegar ao coração!

É fácil apertar as mãos,
Difícil é reter o calor!

É fácil sentir o amor,
Difícil é conter sua torrente!

Como é por dentro outra pessoa?
Quem é que o saberá sonhar?

A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;

As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,

Com a suposição
De qualquer semelhança no fundo.”

Fernando Pessoa
(Luso-Poemas: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=150148)

ACHADOS E PERDIDOS

Não me segurem
não me acudam
não me acalmem.
 
Minha boca escorre catarro vermelho
visgo
estrato de alma podre de fel
charco de ferida biliosa
amargor de pus em traqueia.
 
Não me afaguem
não me toquem acordes de violinos ou de acordeons
esse tango é noite
essa mordaça é fina.
 
Grito, grito e grito.
 
A boca é minha.
A purulência é minha.
O estupor é meu.
Os dentes que marcam a pele são meus.
O contrato que reproduz a ferida é mal cheiroso e meu.
 
É dor, é rasgo, é contágio.
 
Não há mais tempo para rotatórias.
Não há mais espaços para benfeitorias ou rapapés.
O osso roído, a carne exposta, o tumor revelado.
 
Fétido.
Ludibrioso.
Panaceico
Patético.
 
É escárnio, é troça, é truque, é fosso, é falso. 

       

 

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ODE 

Ó céu,
que rebelde,
assumes todas as dores da terra
retorces a auréola da luz primeira
tornando-a última,
como se com isso
punisses todos os homens
por erros culpas desvios.

Ó céu,
que punes a claridade do dia
enrubescendo-a em sua moldura
escancarando-a com carrancas soturnas
para poder dela por fim se livrar.

Ó céu,
que queres,
se quanto mais duro te tornas
mais doce e lírico
te esbanjas
aos que te contemplam?

Que desejas, ó céu,
com fascinante beleza,
que por minutos,
liquida-nos,
arrebata-nos
como num golpe fatal.

GRITO DE PAVOR

Minha pele em chagas
Meu tronco em dor
 
Quem me socorre?
Quem me vivifica?
Quem me reanima?
 
Minha casca em chagas
Meu dorso lancetado
Meu colo esvaziado
 
Quem me socorre?
 
Meu útero semimorto
Minhas folhas sobreviventes
Meu de dentro se esvaindo
Meu de fora resistindo.
 
Quem me socorre?
 
Um fogo de fora
apagando
um fogo de dentro.
 
Quem me socorre?
Quem me vivifica?
Quem me reanima?
 
Um broto.

 

POETAS E RISCOS

Poetas são entes que assumem riscos
que se esfolam nas alegrias,
como um simples botão de romã,
que acham bonito um sorriso do cão vadio que os segue.
 
Vadias ideias rendem versos toscos,
sem polimento,
apenas versos.
 
A uns serão potes repletos de significados
ocultos
transfeitos
transversos.
 
A outros serão mensagens concretas de tapas e socos
porque a crueza dos dias assim os fez.
Nada pode incomodar tanto quanto versos.
E aliviar também.
Principalmente a quem os escreve
a quem os regurgita,
a quem os devolve como lírica,
sem nada pedir.
 
Plumas a quem os ler.
E, eventualmente, a quem os possuir como seus.

ERA SÓ O MAR

Necessidade extrema de água e areia
de sal, água, areia e vento.
Necessidade absurda de vento, sol, ondas, céu, azul, verde.
Necessidade incontrolável de ondas, marés, correntes e luas
Necessidade insuportável de ir.
 
Mas era só o mar…

 

NA FRANJA DO MAR

Com as dores todas,
beijo a franja do mar
miro ao longe
quase na curva do horizonte
a entrega
do que a maré me trouxe
 
toco nela
bebo dela
sal da minha vida
 
Expurgo os restos refugos
aproveito as ondas
enxaguo as feridas,
sangrando ainda,
regozijo interno,
com o que me entrega o mar
porque não sou eu,
mas ‘quem me navega
é o mar.’

DAS DORES

Das Dores
pinga dores lágrimas e lamentos.
 
Das Dores
verte sangue pus fedores.
 
Das Dores
amarga manhãs tardes noites
na clausura de subidas e descidas
em companhia solene de anjos, serafins e querubins. 
 
Das Dores
entrega sua lira aos deuses
na esperança de que pousem em sua janela,
devolvendo-lhe luz, cor e o perfume dos dias.

 

 

NOITE

Sei que é noite
porque de vento
e de ondas
os coqueiros respondem aos sinais.

Sei que é noite
porque ali
ficamos só nós dois
sem que nos percebessem,
que parecíamos
invisíveis.

Em simbiose de esperas
Em sussurros de combinações
Em movimentos de contemplações.

Sei que é noite
porque em meu corpo
sinto a noite
assim em todos os seus sinais.

Poesias: Odonir Oliveira
Telas do pintor russo Ivan Konstantinovitch Aïvazovski (1817-1900)
 Imagens da Internet