A canoa e o Velho Chico

SEJA OS OLHOS MEUS

Me empresta os teus olhos?
Me empresta.
Aí por onde andas não estou
Aí por onde te maravilhas não estou
Embebe-me do teu olhar
Olhamos parecido
Somos fruto das mesmas árvores
Pois então
Me empresta os teus olhos?
Me empresta.
Gostas do amanhecer
Saboreias o perfume do entardecer
Navegas por rios que tanto eu desejaria
Me empresta os teus olhos?
Me empresta.
Quando tuas retinas fotografam águas
Tuas retinas me fotografam a alma
Quando viajas pelas estradas
Nelas meus olhos te acompanham
Quando segues em canoas
Remo junto contigo na força das águas.
Quando entornas imagens de teu país por meus olhos
Semeias lirismo em minhas mãos.
Me empresta teus olhos?
Me empresta.

GUIAS DE ASAS

Esperem, me guiem
vocês são muito velozes
vou devagar
tenham calma
isso, me levem a ele
peguem minhas mãos com suavidade
borboletas são anúncio de rio
obedeço porque têm toda a sabedoria
conduzem meus passos
fazem asas de meus pés
beijam meus olhos
abraçam meus ouvidos
o rio ri
já ouço seu riso bem perto
o rio faz-se voz e vez
estou aqui

LEITOS

Onde me deito,
leito sagrado,
corre espuma
desce torpor
exala ardor
concebo imagens
imagino paisagens
coloro personagens.
Estou vivo em margens,
passagens de um rio
passagens de um corpo
passagens de um afluente
entornando vida em mim.

CORRENTEZAS

jorra água
jorra flor
jorra aroma
jorra folha
jorra flor
jorra cor
jorra dor
jorra verso
jorra amor
corre o rio
corre a flor
corre o tempo
corre o vento
corre o verso
corre o amor
curso de rio
decurso do tempo
percurso do verso
correnteza do amor

OUVE A ÁGUA

Ouve
Espera
Ouve
Ouve fora
Ouve dentro
Ouve o silêncio
Ouve o murmúrio
Ouve o soluço
Ouve a súplica
Ouve
Para e ouve
A água de dentro de você

NASCENTE

Porque nasci de um braço de rio e de uma pedra bruta
porque corri por margens doces e às vezes estéreis
porque saltei obstáculos e curvas
porque sou céu azul quando o céu é azul
porque sou barro quando o céu anda nublado
porque tenho voz e acolho olhares uns
porque sou força quando recebo torrentes outras
porque brinco de carregar flores
porque brinco de atrair borboletas
porque gosto de estar em mim
porque gosto de estar em ti
foi simplesmente
porque nasci de um braço de rio e de uma pedra bruta.

DISCURSOS

Falo
calo reparo ensaio falo
Penso
sinto penso sinto penso sinto
Morro
entrego nego renego corro
Escorro sangue
por margens
ribeiras
mangues
Encharco peles
ensaboo mãos
enxáguo braços
pélvis e dorsos
Renasço verde
repleto de seixos
ardendo em chamas
colhendo raízes
em mim.

RIOS RUMAM

rio companheiro
sento-me aqui junto a ti
para te ouvir
para me ouvir
às margens
à margem
medito sobre nada
medito sobre tudo
silencio comovida
acompanho-te menina
absorvo-te ave
escuto-te flor
observo-te nuvem
estamos nós
estamos sós
eu e tu
revelo-te meus sentimentos nesse olhar
entrego-te meu coração nesse sorriso

CURSOS

Corro
socorro
morro
recorro
entorno
torno
sorvo
movo
retorno
novo
provo
renovo
curso
recurso
impulso

pulso …

CAMINHOS DE PEDRAS

Quem era ela que acreditava nas águas dos rios?
Quem era ela que assobiava com os passarinhos naquelas manhãs?
Quem era ela que costurava panos leves de enfeitar venezianas solares?
Quem era ela que contava janelas coloridas em ruas de inconfidentes?
Quem era ela que pintava cores em telas desbotadas de perfumes?
Quem era ela que dedicava o olhar para uma única paisagem?
Quem era ela que saltitava pedra por pedra na trilha de ser?

Quem era ela, meu Deus?

Poesias: Odonir Oliveira

As fotos, fraternalmente enviadas, são dos olhos de meus amigos queridos de São Paulo, me trazendo as águas do São Francisco

2ª, 3ª e 8ª fotos: de Rui Daher

As demais fotos são de Heloísa Ramos, até sua foz na última foto.

Vídeos:

1- Canal Ney Matogrosso

2- Canal Caetano Veloso

Tiradentes, amante sensual

CONVERSA DE GENTE-RIO

curvas sinuosas
sinestesias de prazer
mútuo
muito
flor-perfume
água-barca
água-balsa
conversa de gente-rio
pétalas de enlaces
gente-rio
abraço-beijo
olho-boca
mãos-pés
gente-rio
o esvoaçar de falas alheias
o borboletear de sons profanos
conversa de gente-rio
enlace de fluidos
musa-anjos
terra-pedra
água de rio
eu gente, tu rio
eu rio, tu gente

REFÚGIO SECULAR

Quando desavisadamente
o céu mineiro quer me ensinar
bate forte em mim
bate forte na memória do real vivido.

Então fujo
Então me escondo
Então me deixo dormitar
no colo das montanhas
nas pedras do penar
no alvorecer, no entardecer
do desenho das montanhas.

Somos apenas nós
elas e eu
segredando verdades
acolhendo súplicas
curando feridas sempre abertas.

Se há alegrias … Tiradentes.
Se há tristezas … Tiradentes.

Somos confidentes,
secularmente.

CANTOS DE ACORDAR

coral de galos confidentes
chamam é dia do batizado
herói alferes sussurra nos ouvidos
palavras de ordem
o tempo já se faz tarde
a hora de novo se apresenta tardia
confabulam-se conselhos
proseio mineiro de raízes libertárias
a Serra de São José acorda o sol
as aves acordam as borboletas
as borboletas bailam para os rios
os rios semeiam as terras
o tempo já se faz tarde
as gentes todas cheiram o café pelas vielas
a cultura do prosaico falador no banco da praça
de que família você é
as linhagens de sangue mineiro
conferidas
antes da confiança maior
montes fazem elevar o sentir
sentidos de prazer
sentidos de fé

Banda Ramalho, de Tiradentes

Sobre a cidade histórica TIRADENTES, em Minas Gerais, leia também:

”Eu já estou com o pé nessa estrada …”

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2020/01/25/eu-ja-estou-com-o-pe-nessa-estrada/

Tiradentes, a cidade mineira

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2017/04/04/tiradentes-a-cidade-mineira/

21 de abril, do povo brasileiro

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2016/04/22/21-de-abril-do-povo-brasileiro/

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos: Facebook Odonir Araujo

Os homens e a natureza

CÉU E TERRA

olhar o céu
olhar a terra
homem que constrói
homem que cria
homem que transforma
olhar o céu
olhar a terra
naves noves fora nadas
noites noves fora nadas
dias noves fora nadas
olhar o céu
olhar a terra
a construção bizantina
a acrópole helênica
a torre renascentista
olhar o céu
olhar a terra
encanto do homem
fascínio pelo homem
deslumbramento com os criadores
olhar o céu
olhar a terra
varre o tufão
varre o maremoto
varre o vulcão
varre a guerra

arrebatamento com o criador

PRAGMATISMOS

As pragmáticas me dizem
Corte essa árvore
não vejo dar fruto nenhum nela
Corte essa árvore
Corte a outra!

Mas eu a semeei faz pouco tempo
ela é tão novinha
Árvores não servem apenas para dar frutos
árvores são poesia
enfeitam
trazem a respiração vital, a cor, a sombra
e a poesia

UM PÉ DE VERSOS

Prefiro sacudir versos de árvores,
retirar rimas de camélias,
colher metáforas de galhos e raízes.

O olho estaciona sua menina no igual desigual
resgata a outra menina com sonhos incorporados
recupera ilusões e faz acreditar no improvável.

Árvores são canteiros de lirismo.

NA CORRENTEZA DE UM RIO

O rio segue
olho de longe
observo seu movimento
escuto sua melodia
estou sempre por perto
ainda que longe
meus ouvidos gravaram sua música
meus olhos fotografaram suas cores
meu corpo está aqui
o rio é regaço
o rio é colo
o rio é metáfora
não correrei para o rio
não seguirei o rio diuturnamente
o rio venha até mim assim
gosto do rio, tenho brio
o mundo é maior que um rio
o mundo não está aos pés da rima do rio
o mundo é maior que uma rima
e se eu me chamasse Raimundo
seria apenas uma rima
não uma solução.
Sou mais que uma rima.
Não me chamo Raimundo.

HOMEM MACHADO

tudo mato
não dá frutos faz anos
tudo mato
tem que cortar
tem que tirar as raízes
tem que limpar tudo
tem que por fogo
tirar as raízes

a boca num sorriso plástico
a eficiência mortal
o prazer da destruição contumaz
arrancar tudo
o auto-elogio do trabalho rápido
o aplauso a si mesmo
dores de raízes
dores de troncos
dores de folhas
dores de flores
frutos aos pedaços no chão

o homem machado
exala morbidez
pelo olhar
pelas mãos
pela fala

os verdes do cenário 
ausentes
os verdes da moldura
ausentes
o homem machado presente

PAINEIRA

sagrada e bicentenária
resiste ao declive
resiste às histórias
resiste às mortes
emoldura corações sensíveis ao belo
aguardo meses para que se embeleze assim
tomo-a, então, para mim
passo por ela diariamente
sei que está lá
do alto tudo vê
do alto tudo sabe
faz-se muda
porque são os passarinhos que cantam para ela
faz-se imóvel
porque é o vento que a faz dançar
faz-se rija, severa e discreta
porque duzentos anos são duzentos anos
resiste aos homens
resiste aos tempos
resiste a tudo
só para eu poder encontrá-la
ali no fim da minha rua
diariamente

DIA DA CRIAÇÃO 

O chão a terra o céu
elementos primeiros
elementos sólidos
alimentos físicos.

A palavra a voz a vez
elementos seguintes
elementos consoantes
alimentos constantes.

A luz a cor a pele
do gosto do molho do dorso
encantamentos de elementos
encantamentos em tempos
encantamentos em espaços.
Passos

vozes internas em cores
vozes internas em versos

AGRADECIMENTO

Aprendi a agradecer ao sol por ter se aberto em dia
Aprendi a agradecer à lua por coroar a noite
Aprendi a agradecer aos campos por me trazerem esse cheiro de mato
Aprendi a agradecer aos poetas por me perfumarem de versos

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1- Canal Geunwha Lee

2- Canal Daniele Franco de Godoy

Tejo meu

Rio das Mortes, Tiradentes, MG

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia,

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que veem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

Rio Tejo, em Toledo, Espanha (foto da amiga Isa)

NASCENTE

Porque nasci de um braço de rio e de uma pedra bruta
porque corri por margens doces e às vezes estéreis
porque saltei obstáculos e curvas
porque sou céu azul quando o céu é azul
porque sou barro quando o céu anda nublado
porque tenho voz e acolho olhares uns
porque sou força quando recebo torrentes outras
porque brinco de carregar flores
porque brinco de atrair borboletas
porque gosto de estar em mim
porque gosto de estar em ti
foi simplesmente
porque nasci de um braço de rio e de uma pedra bruta.

CORRENTEZAS

jorra água
jorra flor
jorra aroma
jorra folha
jorra flor
jorra cor
jorra dor
jorra verso
jorra amor
corre o rio
corre a flor
corre o tempo
corre o vento
corre o verso
corre o amor
curso de rio
decurso do tempo
percurso do verso
correnteza do amor

NA CORRENTEZA DE UM RIO

O rio segue
olho de longe
observo seu movimento
escuto sua melodia
estou sempre por perto
ainda que longe
meus ouvidos gravaram sua música
meus olhos fotografaram suas cores
meu corpo está aqui
o rio é regaço
o rio é colo
o rio é metáfora
não correrei para o rio
não seguirei o rio diuturnamente
o rio venha até mim assim
gosto do rio, tenho brio
o mundo é maior que um rio
o mundo não está aos pés da rima do rio
o mundo é maior que uma rima
e se eu me chamasse Raimundo
seria apenas uma rima
não uma solução.
Sou mais que uma rima.
Não me chamo Raimundo.

A SAGA DOS BARCOS

Não apague as marcas, deixe-as pelas águas, com os remos
abandone-as a esmo
entregue-as ao porvir
dos rios serão as almas dos que chegarem de outras vezes.

Os silêncios e os murmúrios
o que importarão,
se o que sempre valerá serão os sonhos das águas
e seu próprio silêncio.

Que restem as pegadas
as súplicas
os seixos
as ramas
que restem !

EU-RIO

eu-rio camuflado de gente
eu-rio disfarçado de planta
eu-rio escondido no mar
eu-rio, camaleão burguês naturalista
eu-rio de olhos de peixe-morto
eu-rio, jacaré fantasiado de gente
eu-rio, piranha nadando de braçada
eu-rio da margem esquerda mascarada
eu-rio da margem direita enrustida
eu-rio de redemoinhos oportunistas
eu-rio de abismos enfeitados por armadilhas
eu-rio
eu-rio
eu-rio

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal: rios e lagoas de MG

Vídeo: Canal Renato Teixeira

Estradas, ramais, caminhos …

AGRADECIMENTO

Aprendi a agradecer ao sol por ter-se aberto em dia.
Aprendi a agradecer à lua por coroar a noite.
Aprendi a agradecer aos campos por me trazerem esse cheiro de mato.
Aprendi a agradecer aos poetas por me perfumarem de versos.

PEDINDO ESTRADA

Paro, que gosto de respirar mato.
Paro, que gosto de beber ar de rio.
Paro, que nada pode ser mais sensual que nuvens de algodão doce no céu.
Paro, que gosto de ouvir o som do nada cortado pelo bucolismo de mim.
Paro, porque meu sonho, meu lirismo, minha rima pedem estrada.

NA GARUPA

cavalo encilhado
braços em torno da cintura
trote
galope ágil
picadas vielas veredas
água barro poeira vermelha
limo cachoeiras grutas
trote
galope ágil
cavalo trôpego
garupa
parceria
trote
galope ágil
tropeiros de si
fotografia do céu
fotografia do chão
fotografia do ser
fotografia dos seres

PAISAGEM

Bebe terra vermelha
Sorve vento quente pela janela
Namora o lago o rio as bananeiras as árvores
Namora o eterno rumo percorrido.
Chora o encontro de trem ar água vento e trilhos.

TRILHOS

Andar nos trilhos
Trilhar caminhos
Dormentes acordando sentidos
encruzilhadas eternas
apitos que cortam uma noite que não termina
vozes segredadas entre dentes
vozes felizes por conquistas perseguidas ferrenhamente
idas vindas voltas encontros desencontros separações
bancos nas estações, repletos de ouvidos secretos e bocas atormentadas
Trens fazem anúncios sempre.

OUSADIAS

Com os dias passando, assim correndo,
há que se correr também,
há urgência em tudo.

Corro pra visitar aquelas cachoeiras nunca tocadas
corro para beber água gelada de serras amanhecidas
corro para falar “eu te amos” aos que nunca o ouviram de mim
corro para cozinhar delícias e, em comunhão, ofertar aos queridos aliados
corro para beber sabores que nunca experimentei por impossibilidades várias
corro para escrever letras, sílabas e linhas anoitecidas,
enquanto ainda consigo
andar
ver
falar
ler
respirar
me encantar.

TRILHAS

Obstáculo à frente.
Transpor.
Pedregulho.
– Vem, vem, me segue , me dá a mão. Vem.
– Estou com medo. Não.
– Não, vem; me segue aqui, cuidado.
trilha, chão, folha, pedra
Cansaço.
– Não vou conseguir.
– Vai sim, só mais um pouco. Eu ajudo, vem.
trilha, chão, folha, pedra
Viagem de dentro pra fora.
Dorso de almas
Canto de terra, água e pedra.
Promessa do prazer ao final.
Vem, mais um pouco, me segue.
– Sigo, me dá a mão.
Viagem de fora pra dentro
Conquistas, dificuldades, tropeços.
Encantamento.
Maravilhamento estético.
Natureza, artista de pinceis finos
Natureza, artista de melodias doces
Natureza, artista de lírica celestial.
Contemplação.
Entrega.
Silêncios internos.
Orquestra sob a batuta
De um regente maior.
Contemplação.

Post dedicado ao jovem piloto Jucélio, que me ajudou a concretizar, durante mais de 400 dias, muitos sonhos, desde dirigir pra mim nas estradas da vida, bem como pousar meus versos em nuvem. Obrigada por sua jovialidade, energia, parceria e por seu respeito. Você vai longe. De avião nos céus e aqui na terra também.

E como a gente está sempre cercado por famílias de anjos, Julierme também vem me conduzindo com maturidade mineiríssima pelas estradas da vida.

Agradeço aos 2 irmãos, meus amigos, já meio filhos, pelo prazer de contar com vocês.

Todas as alegrias em suas vidas e na união com suas jovens amadas !

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal: Viagens por caminhos tantos de MG

Vídeos

1- Canal Vermelho

2- Canal sergioeye 1

Casa de marimbondo

CASA SEM DONO, CASA DE MARIMBONDO

Dizem por aí que quem usa cuida. Pode ser. Mas em casa de poeta, marimbondo pode ser fatal.
Estando mais de 50 dias distante de jardins, galos e quintais, com 5 asas partidas, sem poder voar, confiando em mãos alheias, não em mãos que sentem, mãos de poeta, negligenciando – a contragosto – flores e passarinhos, a surpresa.

Deu que habitantes alados, sem terra, sem teto invadiram a propriedade. Com propriedade. Seria? Trata-se de recanto encantado, repleto de vermelhos e rosa, verdes-refúgio e éden de canarinhos, bem-te-vis, sabiás, beija-flores, maritacas e poeta.

Não fora autorizada nenhuma edificação, tampouco o habite-se de marimbondos ali.

Devidamente documentada a morada invasora no primeiro pé de mexerica, considerou-se a hipótese de não reprimir a colônia. No entanto, passaram a se achar os donos do pedaço. E poeta, quando começa a voar de novo, bate asas, reapropria-se de seu território e escreve.

Ao namorar suas plantinhas, conversar com suas rosinhas, encantar-se com as palmas cor de cenoura, todas elas sedutoras, reparou no voo do beija-flor ao redor delas. Permaneceu poeta ao encantar-se com aquele bater de asinhas tão apaixonadamente terno. Foi aí que – por ciúme ou crueldade – um marimbondo desceu de seu apartamento  e, num átimo, picou a poeta. Em seguida vieram todos os demais moradores e vilmente trataram de picar seus versos e seu lirismo.

Poetas são seres lentos, doem-se muito por agruras, vilezas, injustiças e sofrimentos alheios, o que dirá por seus próprios.

Tentando evadir-se, a poeta, ainda sem poder voar totalmente, que com asas adoecidas, vê-se picada em várias partes do corpo, nas mãos, no rosto. Dores demais, inchaços, vermelhidões.

Recorre ao doutor que lhe dá as orientações, de maneira virtual, e ri.

O anjo da guarda da poeta havia entregue sua carta de demissão, alegando trabalho escravo ‘’Ninguém dá conta de tanto serviço. Em 11 meses, essa poeta me deu mais trabalho que a Academia de Letras inteirinha, incluindo-se os imortais já mortais. Não suporto mais’’

 A poeta ouviu tudo e pediu que ele reconsiderasse.

Ardida, queimando em verso e prosa, ajeitava com a mão direita tijolinhos de gel congelados, dispostos em um embornal, qual uma mochila, sobre as costas, enquanto que com a mão esquerda congelava as demais picadas do rosto. De asas ainda quebradas, em convalescença, suportava tudo porque sabia que passaria, ah, iria passar, teria que passar.

No dia seguinte, a saga dos homens que vieram para exterminar o condomínio dos invasores de quintais alheios. Foram necessários 3 homens diferentes, cada um cheio de delicadezas e respeito com o jardim e as flores da poeta – que sabiam ter de ser assim. Mas, um deu continuidade ao serviço do outro e, por fim, chegou a termo a desocupação.

Como tudo tem seu lado bom, a poeta sentada no banco do jardim, na tarde, admira a beleza da correria, da brincadeira de pique-esconde das maritacas pelas árvores e telhados. Mas … surge o visitante mais ilustre de todos, ao som do canto dos bem-te-vis, surge ele, o tucano. Lindo, menino, formoso, fascinante.

A poeta vive onde há 2 bosques, um em cada extremidade da rua, portanto personagens alados desfilam o dia inteiro por ali.

Filhos – em cidade distante, e em país no outro hemisfério – se apavoram com mais essa peleja entre o perigo e a poeta. Afirmam que a escritora vivera um halloween nas Gerais.

Pois então …  já ela crê que o anjo da guarda tenha reconsiderado o pedido de demissão.

Texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal bboxerz

“O sertão é dentro da gente”

“A obra do escritor mineiro João Guimarães Rosa é o impulso por trás do projeto Rosário. São canções compostas e interpretadas pelo grupo Nhambuzim que procuram traduzir e evocar, em música, o universo de um dos grandes nomes da literatura brasileira, autor de livros como Grande Sertão: Veredas, Sagarana, Primeiras Estórias e Manuelzão e Miguilim”

Depoimento de Marcos sobre ”Os Caminhos do Sertão- caminhada coletiva pelos sertão de G.Rosa”, em julho de 2019

Cheiro rosa de poeira

Ainda penso sobre o peso colorido das poeiras daquele chão. O cheiro que o ar transportava e levava, o calor intenso que exalava da terra e dos corpos que seguiam em uma espécie de romaria rumo a uma terra prometida e já de posse tomada. As pessoas, de diversos credos, tamanhos, papéis sociais e vontades, portavam um cajado de bambu que se transmutava no corpo equestre, cuja cabeça era encoberta por fios de lã entrelaçados para coroá-lo. Por um instante, pensava no velho e bom Rosa ao ver, do alto, a cena dos tais peregrinos: talvez, deliciava-se com boas gargalhadas ao dizer que sua obra, na verdade, era apenas para ser lida; talvez, já encantado, via com os olhos marejados a intensidade do movimento dos passos de pés machucados e das almas sedentas em sertão plenas. Entendia que naquele universo onde reinam os interiores pessoal e da nação, nada pode se desejar, porque, de fato acontece. Desde a pequena vontade de comer pipoca até o refrescar a garganta com um geladinho de fruta do cerrado: passos a frente, o milho em forma de noiva, ganhava no gergelim da rapadura de Seu Raimundo, sabor igual e, ao descer a ladeira sobre os cascalhos e sob o sol escaldante, meninos com cor de jambo traziam em suas caixas térmicas porções mágicas congeladas para saborear. Sim. Nada pode se desejar. Ou, melhor, pode, sim!

É que o sertão é terra de desejo e de medo, porque lá não há máscaras. Ele é assim. Ama-se ou se odeia. Não há meio termo nem tempo para delongas e des-verdades. Há, sim, outro tempo. O tempo dele, de seus povos, de seus frutos, de seus sóis e luas que se confundem. A cadência está em outra lógica que transcende à da ciência, da religião, das previsibilidades. O encontro com o “miolo” do real. Tudo é muito tudo, sabe? Intensidade, poderia ser outro nome. Intensidade que se potencializa no mistério. Não há como descrevê-lo sem recorrer às falas de Riobaldo ou de Miguilim… Isso porque, diferente do segredo, o mistério não se encerra: contempla-se. O segredo, descobre-se, desvela-se, decifra-se. O mistério, não. Está na ordem de outra linguagem que, provavelmente, por conta da nossa imperfeição humana, utiliza-se de várias linguagens para poder chegar até a nós.

Então, ouvem-se gritos e cheiram-se olores perdidos nos galhos imaginários de um cerrado real repleto do simbólico. Como aquilo que “une”, o simbolé convive com o diabolé que separa. Este último que empresta o seu prefixo para aquele que está no meio do redemoinho (diá+bo) ou para aquele (aquela) que era a “neblina dos olhos” do jagunço protagonista (diá+dorim). É o que é e não é. É a força do “exu” que é o sim onde deve ser o não e vice-versa: força de vida, da potência, da instabilidade, do caos que gera ou pode gerar o cosmos. O exu que emprestou seu nome para apelidar tantos caminhantes que, ora surpresos, não se davam conta da força que tem a palavra.

Palavra dita e não escrita; desenhada, falada, cantada. Cantada ao som do toque de um cantil que, de forma mágica, tornou-se tambor. E que, ao ritmo do carnaval das ruas de Salvador, ajudou a dar passos mais esquecidos de dor nos areais, cascalhos, vegetação rasteiras, chão batido. Foram momentos mágicos de transformação e de transmutação. O suor dos corpos era fruto do bailar coreográfico somado aos risos e vozes de um povo que sonha e que canta; que grita e que chora ao mesmo tempo. Um povo que caminha. E que não recusa a travessia por ter elegido a busca… Sim!

Um espaço desorganizadamente organizado para confundir, onde um dos guias que detinha a maior precisão de tempo e espaço, possuía, fisicamente, deficiência visual. Como pode um guia “sem ver bem”, guiar pelas sendas, sobretudo noturnas, caminhantes desorientados? A resposta está na própria travessia: não só ele guiou como ensinou a guiar. Os seus olhos eram outros. A pedagogia da “guiança” foi uma das muitas que surgiram nesses dias de travessia.

Nessa mesma ordem, trago à memória a cena de médicos sendo tratados por homens sem ter estudado medicina. Psicólogos usando o chão como divã ao dividir suas dores e anseios com outros sem formação semelhante.

Fotógrafos se deixando fotografar pelas lentes de aprendizes… Sacerdotes sendo “rezados” por leigos… Foram vários momentos de inversão de uma lógica dominante de poder e de status, possibilitando ver, entender e pensar a vida de outra forma. De outras formas. É possível. É, verossivelmente, possível. Constata-se. Há uma mística do caminhar que é revolucionária. Passo-a-passo com constância e respeitando o ritmo pessoal e coletivo. Já sabíamos que “ninguém solta a mão de ninguém” e aprendemos que “ninguém pisa na bolha de ninguém”. Caminhando ou dançando uma quadrilha junina improvisada ou nas cantorias dos reisados. E, ninguém pisou: ao contrário, cuidou. Sarou. Com pomadas ou com lágrimas. Com os passos dos pés ou nos assentos dos carros de apoio. Todos chegaram. Todas chegaram. Descidas e subidas, pedregulhos e areias.

Poeira e veredas. Ah! As veredas.. com seus imponentes e elegantes buritis que sinalizavam ali ter água. Água cor de Oxum de temperatura gélida que massageava os pés brasis. Vi juntarem-se aos leitos delas, lágrimas de uma caminhante que dizia ter lido o Rosa em preto e branco e que, agora, o faz em “3D”. É o “Rosa no Rosa”.

Ah! Tantos sonhos reforçados em balões coloridos imaginários que subiam e ficavam juntos às estrelas daquele mar de areia do fim de tarde, onde vimos uma amazona sem precedentes, com cabelos ao vento, galopar sutil e fortemente sob o lombo de um cavalo. Ela atravessava portais e nos convidava a isso também. Seguia os passos do disseminador de enigmas que, com o chapéu de vaqueiro e um olhar-olho, via mais que todo mundo: era o Mestre dos Magos que, com seu abrir-e-fechar portais, nos aprisionou para sempre no mundo do nosso interior de busca e de travessia. Ele aparecia e sumia “do nada”. Como, “do nada”, a trupe encantada nos surpreendia, ora na vereda, ora no chão de terra vermelha, com performances que, por uns minutos nos tiravam do “real”, colocando-nos num tapete mágico de sonhos e de reflexões e, quando o último grão de areia da ampulheta caia, tiravam-nos o tal suporte e nos devolviam ao chão e, descaradamente, dizia: “boa em pratos e copos plásticos como aqueles das merendas da minha infância no povoado do Km 100 travessia!”. Ainda me perco nos sabores das comidas servidas na Bahia, no canto dos pássaros antes das quatro da manhã ou do galo que “diza” uma frase obscena; no prateado das madeixas da Vó Geralda ou nas lágrimas do valente Jorge; no romper de Seu Agemiro e de Bergues ou nos roseanos versos cortantes declamados por Elsinho; na figura de uma sacerdotiza medieval de Fernanda, na altivez e doçura de Gabi ou no sorriso e lágrimas de Alice, seguidos pelos tons doces da flauta de Gustavo. No olhar de Paulo que me fez ir às lágrimas muitas vezes ao pensar sobre o meu “ver” nesse/desse mundo. Olha. Preciso parar um pouco de escrever, porque aqui, a travessia continua, sabe?

Da janela da minha cidade-feitiço, vejo prédios altos e o mar no horizonte. Aqui, também, há ser-tões. Aqui, nesse terreno é o meu escolhido para continuar a dar os passos. Sim. Parece que estava lá no Monte Tabor e que, agora, foi necessário, literalmente, desarmar as tendas e descer. Aqui, há muito o que caminhar. Mas, esse peso colorido daquela poeira não me larga. E não quero que isso aconteça. Quero estar com ele tatuado para sempre na pele da minha alma. Aliás, já lá estava: foram retoques feitos para garantir a sua existência e permanência, porque, de fato, a travessia é uma necessidade. Sinto que é possível, embora ser desafiador, vivenciar a magia desses dias aqui onde estou. Para isso, “vamos precisar de todo mundo” e seguir rumo ao rosáceo universo do ser-tão.

Marcos Cajaíba,

Salvador, Cidade-Feitiço, 19 de julho de 2019

Texto: Marcos Cajaíba

Fotos de arquivo pessoal: recantos e encantos das Gerais

Vídeos:

1- Canal Leonardo Ferreira Almada

2- Canal Danilo de Oliveira Azevedo (2012)

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