Às mães tudo se perdoa?

 

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MÃE É MÃE

Carmem. Meu nome é Maria Del Carmo, mas todo mundo me chama de Carmem, eu prefiro.
Quero contar uma história que carrego há algumas décadas comigo. Poucos sabem. Eu quero contar. Posso?
Pode. Fale como desejar, o que desejar, estou te ouvindo.

 

Naquela época lá, eu morava sozinha e me apaixonei por um rapaz lindo, carinhoso, meio frágil, mas ele era tudo que eu sonhei. Começamos a nos encontrar, a relação foi crescendo, fomos nos entendendo. Eu era pouco experiente nesse assunto de sexo. Ele, por ser homem, poderia ser mais. Mas era pouco também. Namorávamos muito, dançávamos, passeávamos, era uma vida muito boa, sabe.

Os meses foram passando. Eu dei a ele, numa caixinha de anel, a chave do meu apartamento numa data especial pra nós. Ele ficou todo vaidoso com aquilo. Parecíamos muito juntos mesmo. Pensei, é esse que eu quero pra ser pai de um filho meu. Não pensei em casamento, nada disso. Confesso, gostava de cozinhar pra ele, de dormirmos e acordarmos juntos, tomarmos nossos longos banhos juntos. Era uma vida boa demais. Aí falei pra ele a coisa de ser pai de um filho meu. Tínhamos a mesma idade, trabalhávamos, éramos adultos. Por que não? Ele gostou muito.

Contei nosso desejo pra uma amiga, que eu tinha feito há pouco mais de um ano e que era vizinha de prédio dele, da mãe, da família. Ela demonstrou alegria. Perguntou se ele também queria, como eu iria criar, sobre pensão e essas coisas mais práticas. Fiquei danada. Eu falando de amor, de procriação, fruto do amor, e ela veio com dinheiro e essas coisas mais. Ora, eu iria criar meu filho, não precisava de homem pra pagar contas não. Precisava era de amor, carinho, atenção. Mas ela tinha uns 15 anos a mais que eu, e já viu né, muito ligada em dinheiro etc.

Você não teve receio da fofoca, quer dizer, de ela ir contar isso pra mãe dele, pra família dele, antes mesmo de vocês dois contarem?

Não. Começamos a nos preparar pra concretizar a ideia. Era um momento muito bom em nossas vidas. Tínhamos amigos que dividiam os mesmos ideais que nós, tínhamos tudo pra ser muito felizes ali. Teve um dia até que cheguei em casa, encontrei um bilhetinho dele, tinha estado lá, tomado uma dose de sua bebida predileta, ouvido Chico, Gonzaguinha, assistido um capítulo da novela. Eu não chegava. Foi embora, e escreveu tudo isso com uma frase amorosa ao final. O encantamento foi enorme. Foi até melhor que encontrá-lo lá. O sabor do amor foi maior, eu acho.

Então, resolveu que iria morar comigo. Como assim? Cama de solteira, casa de solteira, vida de solteira. Arriscamos viver aquilo. Em mês de aniversário, já estávamos juntos. Tudo pronto pra gestar nosso rebento. Na entrada do apartamento, como uma oferenda,  duas botinhas brancas de couro penduradas, tamanho bebê, anunciavam que aguardávamos a vinda do nosso.

Certa noite, ao entrar em casa, achei embaixo da porta um bilhete e um disco, um compacto simples. O bilhete era da mãe dele, ”muito terna”, me pedindo que não engravidasse e, se já estivesse grávida que interrompesse a gravidez, enquanto era tempo. Não seria ”uma boa pro filho dela”, pra vida dele, ainda em início de carreira etc. Deixou o disco do Roberto Carlos de presente, alegando que havia sido dado a ela pelo filho, em um momento de tristeza dela. E que agora seria meu.

Recebi e chorei muito, sabe. Como ela se achava no direito de se meter assim na minha vida? Ela parecia namorada dele, esposa, sei lá, e não mãe. Vivia chamando ele de lindinho, cumprimentava ele com bitoquinhas na boca. Passei a reparar naquilo, coisa que nunca tinha me chamado a atenção antes. Sei lá, mas aquilo era muito louco mesmo. Será que ela estava fazendo aquilo pro bem, que achava que era pro bem?

Eu não sabia ainda, mas já estava grávida. Logo soube. Ele, ao ver o disco, sem o bilhete, reconheceu e quis saber. Fiquei constrangida de contar do bilhete porque tinha aprendido que não se põe filhos contra seus pais. Ele insistiu. Sempre adorou a mãe. Contei. E chorei, claro. Tive medo, medo mesmo de termos de abandonar nossos sonhos etc. Mas não aconteceu isso.

Passadas algumas semanas, foi visitar a mãe. Voltou chocado. Ela havia doado sua cama, seu guarda-roupas, e colocado suas coisas numa caixa grande. Dali pra frente passou a ser minha opositora. Sempre. Até a duvidar que nosso filho fosse do filho dela. Procurou nos separar o quanto pode, buscando outras namoradas, favorecendo situações para que ele se envolvesse com outras mulheres como solteiro e não  como meu companheiro e pai do nosso filho.

Foi assim. Mãe tem direito de interferir assim na vida dos filhos? Eu ouvi uma vez na televisão um psicanalista dizer que “Mãe pode fazer mais mal do que a bomba atômica”. Concordo com ele, viu.

Como você lembra da situação, com detalhes, te marcou muito, pelo visto.

Marcou mais naquela época, quando eu ainda era muito nova e pouco sabia da vida. E de mães. Obrigada por me ouvir.

Por nada, volte quando quiser.

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Texto: Odonir Oliveira

1º Vídeo: Canal Nelson Santiago

2º Vídeo: Canal Sandro M. Silva

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“Quem não gosta de samba bom sujeito não é”

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NUNCA DIGA NUNCA

Pode me ouvir? Quero te falar de um louco amor, pode ouvir?

Posso. Comece do começo ou de onde quiser. Se eu não entender, te perguntarei, ok.

Conheci Sérgio numa festa na casa geminada à minha, num churrasco de família. Eu era nova ali, tinha  resolvido comparecer por cortesia, para poder estreitar meus laços de vizinhança etc. Ele ouvia sentado os sambas que colocavam pra tocar. Meus vizinhos eram uns negros animados, coloridos em família, bebiam muita cerveja e faziam churrasco a qualquer hora e por qualquer razão. Eram pessoas bem simples, o dono da casa tinha uma oficina mecânica,  4 filhos pequenos e esposa, que trabalhava em escritório. Sérgio era cunhado da minha vizinha. Um homem claro, de cabelos grandes, desalinhados e cacheados, pai atento, cortava cada pedacinho de carne, bem pequenininho, pra dar aos 3 filhos pequenos. Meu vizinho me tirou pra dançar, salientando que eu não devia gostar de samba, pelas músicas que eles ouviam tocando na minha casa. Contou  que ali era casa de gente simples, alegre, bebedora de cerveja e pinga, e bem família. Falei pouco, bebi a cerveja, de garrafa que eu gosto assim, e comi a carne. Conversei com as irmãs da dona da casa,  a sogra, as crianças e dancei um pouco.

Sérgio não me chamou a atenção. Achei-o meio submisso, caladão, talvez com certo medo da mulher. Creio que foi isso. Apenas o jeito paternal dele me atraiu. Seu cuidado penteando as filhas, colocando agasalho nelas, levando o pequeno pra dormir no quarto da tia, isso me chamou a atenção sim.

Tempos se passaram e a cada sábado à noite chegava a família toda para os churrascos. Eu via tudo da janela do meu sobrado. Vinham sogra,  irmãs,  cunhados, as crianças, amigos, era muita festa. Nunca mais fui até lá. Gostava de ouvir outras músicas, ler meus livros, assistir a uns filmes. Até que um dia meu carro teve um caos qualquer e o levei à oficina do meu vizinho, recomendação da mulher dele. O marido cuidaria de tudo pra mim.

Chegando lá, enquanto cuidavam do carro, percebi Sérgio trabalhando, recebendo carros etc. trabalhava ali, portanto. Cumprimentou-me e senti que escondia com a estopa as mãos de graxa. Contou-me que fazia um bico ali com o cunhado, era mais um trabalho de registro de entrada, serviços, pagamentos; tinha sido responsável pelo departamento pessoal de construtoras etc. agora sem emprego, estava ali até aparecer alguma coisa. Percebi que não estava à vontade com aquela conversa ou comigo, não sei. Algo nele sinalizou interesse por mim. Éramos muito diferentes. A conversa emperrava. Achava indelicado fazê-lo se sentir constrangido. Gostava de samba, de partido alto, sambava miudinho na ponta do sapato e rodava com as parceiras. Detestava sertanejo, dizia que era música de corno.

E você gostou dele?

Bem, era um homem atraente, mas muito mal informado, meio magoado, frustrado, sem ação. Naquele dia, a oficina fecharia na hora do almoço. O dono, meu vizinho, convidou umas amigas e fomos a um barzinho desses que aos sábados têm música ao vivo, feijoada, batidas, cerveja e dança. Logo rolou o pagode, muitos casais … Dancei com ele. E foi aí, que ao segurar minhas mãos, colocar as dele no meu corpo, senti que me atraía. E muito. Fiquei preocupada com a situação, o cunhado, aquelas moças. Mas a situação caminhou muito. Dançamos, bebemos, dançamos, bebemos. Meu vizinho quis sair dali. Em carros diferentes, fomos nos conhecer em corpo, ritmo e paraíso.

Depois daquela tarde, tudo se complicou porque o corpo chamava, e a cabeça, fora do corpo, gilhotinada do corpo, repelia aquele homem. Não quis mais ver. Não quis mais saber. Não quis mais encontrar. Não foi possível. Era convidada para as festinhas, inclusive na casa dele. Como não ir? Dançava com ele na casa dele, na presença da sogra, da mulher, das cunhadas, das crianças. Não podia continuar aquilo daquela forma. Havia uma sedução, quase sedação naqueles passos trocados por nós.

E ele aceitava isso bem? Estava bem com a mulher?  

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Não se sentia bem não. Brigavam muito. Ela o menosprezava por estar sem emprego. Chegava a humilhá-lo. Era ele quem cuidava dos filhos, cozinhava, servia de motorista, mas tudo sem parceria, quase como que compensando o fato de estar sem levar o suficiente pra casa. Além do mais, comentava isso em rodinhas, na frente dele. Cheguei a me levantar certa vez por alguns comentários dela. Para fugir disso, Sérgio bebia seus rabos-de-galo, sua pinga de sempre, suas cervejas , pra seguir em frente.

Até que disse a ela que iam se separar. Ela não fez muito caso, a princípio. Ele que saísse. A dor da separação dos filhos era enorme. Sérgio iria voltar para a casa da mãe, que já vivia com sua irmã e duas crianças.

Nesse momento quis vir morar comigo. Não, não podia aceitar ser transformada em refúgio para ele. Tentei explicar-lhe, comentando como os terapeutas viam essas questões etc. Ele dizia que eu pensava muito, analisava muito todas as coisas. Acabávamos sempre entre fogo e paixão porque essa era a cor das nossas vidas ali. Sérgio adorava AGEPÊ.

Isso durou quanto tempo?

Ficamos juntos por mais de um ano, com certas consequências ainda mais duradouras. Sua mulher descobrira por amigas a situação toda. Eu preferia que ele tivesse contado a ela, adequadamente, tudo aquilo. Assim, como ocorreu, foi pior. Sabia que sofreriam bem mais, tanto ela quanto ele. Começou a perguntar-lhe, então, se eu iria sustentá-lo, já que não tinha emprego, se eu era boa de cama, se gostava da comida que eu fazia, essas coisas que fazem todas as mulheres.

Quando neguei a vinda dele pra viver comigo, sabia que não daria mais certo nada daquilo. Não era homem pra viver comigo, pra partilhar tempos e espaços. Não era. Sofri muito porque minha pele havia ficado com ele. Meu sentido racional tinha ido com ele. Minha vontade de dançar e cantar samba tinha se pulverizado no momento de sua saída.

Ele voltou para a família.

Por isso, jamais repeti uma frase sequer em que categoricamente dissesse NUNCA a algo. Sérgio levou todos os meus nuncas com ele. Não sei se me arrependo, não sei.

Foi assim, obrigada por me ouvir.

Adeus.

Volte quando quiser.

Texto: Odonir Oliveira

1º Vídeo: Canal luciano hortencio

2º Vídeo: Canal fatima brito

3º , 4º e 5º Vídeos: Canal Vangodias

 

Maktub, eternamente

 

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OLHOS DE TIGRE

Bagunçou tudo. Revirou suas gavetas. Falou alto com decisão. Falou baixinho em seu ouvido. Entregou-lhe prosa e perfume do novo, de novo. Entornou seu vinho. Sujou a toalha da mesa. Adorou a lasanha. Entrou com pés sujos. Trocou a música da vitrola. Dançou rock. Atirou cabelos molhados de louro e cinza, bem no meio do quarto. Falou verdades e mentiras com a mesma graça. Dourou o amanhecer. Enluarou as noites e as madrugadas. Citou e discutiu Nietzsche com sedução. Cantou em inglês. Ensinou Pink Floyd em carne e osso. Sabotou seus fracassos. Ludibriou suas certezas. Pintou seus olhos de gatinho. Passou-lhe o batom vermelho- madrugada. Cortou seus cabelos à máquina zero. Salgou-lhe língua, mamilos, umbigo e ardores. Caminhou de mansinho para não acordar o amor dormindo ali. Acordou o amor dormindo ali com mordidas de mel. Sapateou seus medos com afagos, toques, começos e fins. Escreveu frases de mel e fel no papel. Caminhou cedo, correu ao meio-dia, caminhou às tardes na autoestrada, abriu o portão ao anoitecer. Esteve sempre presente na terra, no fogo, na água e no ar. Foi nuvem que desceu naquela barraca de camping. Dançou o tango de sua pátria em sua pátria. Falou em castelhano em seu ouvido bêbado de paixão. Caminhou de mãos dadas provocando inveja em olhares azedos. Ensinou o desafio, a raiva, o grito, a pressa, o alívio. Foi gaivota, canário, sabiá. Leu seu corpo em todas as línguas. Escreveu em inglês, de propósito, para provocar leitura em suas línguas todas. Riu, riu muito, gargalhou alegrias e riscos de vida e de morte em um só gozo. Homem, escorregou suores dos pés à cabeça. Menino, inverteu a vida até seu último minuto.

Zé, homem-menino, eternamente nas nuvens. Morto ou vivo, assim.

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Texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal (obrigada, Helô e Pedro )

Vídeos: Canal Vangodias

A insustentável leveza do não ser

LENÇÓIS ESTICADÍSSIMOS

Tia Ana Amélia era uma mulher privilegiada. Sempre cuidara da casa, tinha um marido de setenta e três anos, viril em tempos de comprimidinhos azuis inexistentes. Ela, mais nova que ele uns dez anos, tinha um fogo domiciliar característico das mulheres de um homem só, daquelas que vinham envelhecendo junto a seus companheiros e por isso conheciam-lhe todos os pensamentos, os desejos, os seres e estares da vida.

Sua norinha, vinte anos, namoradinha do filho mais novo, sempre lhe intrigara. Dormiriam juntos os dois? Ali na casa dos pais sabia que não; não poderia admitir tamanha falta de respeito, ora, ora.

Naquele sábado pela manhã, o filho  saíra a buscar componentes para a feijoada do domingo, a se comemorar o aniversário do pai na segunda. Norinha e sogra esticando lençóis, conversam sobre um assunto, com diferença de mais de quarenta anos de tabus: sexo.

Enquanto ali, Ana Amélia pergunta à jovem se ela e o filho faziam sexo. A moça sem pejo ou recato responde-lhe que sim e há bastante tempo. Quis saber se o rapaz era carinhoso, se usavam se proteger e essas coisas que Chico diz que diz toda mulher.  A outra respondia sem titubear, com sonoros sins a quase todas as questões.

Depois, tomada da mesma coragem, foi ela que perguntou à Ana Amélia como era o sexo dela com o marido? Esta quase engasgou; terminou a arrumação doentia de se esticar lençóis e foram para a cozinha. Colocaram um feijão preto de molho ali, umas carnes secas também, e a conversa continuava. “Você já ouviu falar desses cursos de strip-tease, Ana Amélia?” ‘Como, pra quê? Pra dançar em boates, assim?” “Nada, pra dançar pro marido, namorado, companheiro. São um tesão. Não há quem não curta. Vou te dar o endereço de um, tá”.

“Despudorada a menina, veja só, curso de strip-tease… ai…ai”.

Tempos se passaram. Ana Amélia todas as tardes aprendia um passo novo, um jeito sensual de retirar sua saia, de suspender a blusa até a altura do sutiã, de deixá-la ali meio a acobertar um bojo e o outro não… No ritmo de muitas músicas diferentes, foi ensinada a enlouquecer o parceiro com seu corpo, aquele seu mesmo de sessenta e alguns anos. Estava pronta.

Numa segunda-feira, aniversário de casamento, pediu que o marido Jorge chegasse mais cedo. Estariam sozinhos. Filho viajando.

O pior de tudo era na hora H sentir-se ridícula, que já era entrada em anos e aquilo ficaria bem em uma mocinha como a norinha e tal. Teria coragem?! No curso aprendera a levantar sua auto-estima – como diziam por lá – aprendera também a rir de si mesma, caso o marido brochasse, bem possível tamanha a mudança, apreendera a gostar-se mais e, sobretudo, a gostar de fazer amor com seu amor.

Assim o fizera: planejara tudo, casa cheia de velas aromáticas, jantar com frutos do mar e saladas, vinho branco gelado, da preferência dos dois, flores pela casa e um filminho na tela “Love in the afternoon”. Depois era só dançar para ele, não uma música sensual como aquelas do curso. Escolheria uma que para eles sempre representara magia. Seria mais ou menos assim. E se nada corresse como previra, iria fazer tudo de novo noutro dia.

Chegou mais cedo do trabalho, encontrou-a ainda por vestir-se. Tomou banho.

Ela de salto alto, lingerie preta – vermelha pareceria puta, pensava- perfume atrás das orelhas, nos pulsos, sem aliança. Tirou a dele também.

Jantaram, riram, embebedaram-se de um tesão incomensurável.

Colocou o filme. Assistiram de mãos dadas, alguns carinhos, e por fim, o strip- tease. Peça por peça, beijo a beijo, mãos a mãos …

Deu tudo certo. Riu na cama ao recordar  como seu irmão mais velho sempre pilheriava ”Galinha boa cria bom pinto”. Ao que Ana Amélia respondia “Galinha pra ser boa é que precisa de bons pintos”.

Ficaram muito tempo ali sob lençóis, sobre os lençóis, sob a ducha …

Daquele dia em diante lençóis esticadíssimos, nunca mais .

QUANDO MEU AMOR VIER

Olharei em seu olhos
e lhe entregarei minha fala
em poucas palavras porque já conhece quase todas.
Tocarei em seu dorso
alisarei seus braços seu rosto e seus ombros
e sentirei que é de verdade um homem.
Subirei com ele
vagarosamente
meus degraus,
um a um,
para que sinta meu andar
meu jeito de ser uma mulher.
Oferecerei a ele meu vinho,
sem mesmo saber se de vinho ele gosta.
Sentarei com ele sobre o sofá,
colarei meu corpo ao seu,
entregarei a ele minha boca
porque dela sei que gostará.
Quando meu amor vier,
poderei dizer a ele,
e exclusivamente a ele,
– Estou perdidamente apaixonada por você !
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UMA ESTRADA
peregrino,
mambembe
andarilho
nômade
errante
andante
caminhante
pastor
pássaro
árvore
lagoa
rio
cascata
pedra
céu
Céu
lua
moon
nuvem
eternas ondas
terra
eu mandava ladrilhar
chão
com pedrinhas de brilhante
ramais
rumo
para o meu amor passar.
sem amarras
sem correntes
sem tormentas
sem rótulos
se eu roubei teu coração
tu também roubaste o meu.

ELAS

Da janela da sala olhava a chuva que caía forte. O ponto de ônibus cheio. Poucos guarda-chuvas, que o temporal viera sem se esperar.

Vilminha , delicada mulher, de uns trinta e poucos anos, observava as gotas que se jogavam na janela do sobrado.

Nem bem passou um, passaram dois, três ônibus seguidos, e o ponto foi ficando vazio. Mais um e seria o suficiente para esvaziá-lo totalmente.

Naquela noite nada de encontro com Nélson, o gato que lhe fazia delirar por noites e noites a fio. Tinha ele um fôlego de assustar. Era uns cinco anos mais novo que Vilminha. Mas gostava de surpreender. Trazia sorvete, cremes de diversos sabores, balas de arder, e assim, faziam as noites valerem muito mais que oito horas de sono. Trabalhava no setor de compensação de cheques anteriormente; hoje conferia telas e telas de computador. Na sala onde ficava não dava conta de saber se ainda era madrugada ou se amanhecera. Entretanto, por umas horas imaginava Vilminha com ele em trôpegos passeios de tempos e espaços e quase configurava o ato … de conferir telas e telas e telas, por assim dizer.

Moça de olhares amplos, com objetiva angular poderosa, Vilminha em sua delicadeza era só amplitudes.

Naquela noite uma flor parecia abrir-se, sem que dela a graciosa mulher se desse conta antecipadamente.

Ponto de ônibus vazio. Vilminha volta à janela e encontra lá uma garota bonitinha. E sozinha. Molhada feito pinto. Não, molhada feito flor.

Um  relâmpago anunciava sua chegada. Da janela viu tratar-se de uma garota de túnica indiana sobre a pele, transparentemente ensopada, saia longa, sandália rasteirinha. Fora pega de surpresa pela chuva, com certeza. Uma vontade de socorrê-la, de súbito, lhe ocorrera. Tentaria oferecer-lhe talvez uma toalha para secar aqueles longos cabelos de Maria Schneider, sem ambições de um último tango – mesmo que nunca tivesse visto o filme. Apenas solidariedade com a sedutora menina de roupa colada no corpo.

Não pensou duas vezes, que era de outra geração, para quê reflexões, vamos fazer acontecer. Nunca experimentara, contudo, um beijo feminino na nuca, um roçar de seios de mão delicada, nunca tocara, nem ensaboara virilhas de pelos pubianos ou quase sem, como os seus.

Desceu. Chegou. Ofereceu toalha, secador, banho ou o que a outra desejasse. Temeu recusa. Não ocorreu. Subiram. Viu-lhe a tatuagem na nuca.

Banho quente, oferta de toalha. Quer secador? Quero, está sozinha aqui? Estou, namorado trabalhando a madrugada inteira hoje. Ah, tá! Quer que ajude a secar… cabelo grande, né. Quero sim.

Mãos na nuca, sacudidelas de cabelos, a saber se secos já estavam. Cabeça tombada de repente para trás, Capitu e Bentinho penteando-se, em um enlevo feminino apenas. Bocas roçando bocas. Secador desligado. Gazelas da cadeira ao chão, ao tapete, à cama.

Amaram-se como se fossem uma. Sabiam o que queriam. Gostavam daqueles toques, daqueles lábios, daqueles doces de si. Esqueceram-se dos ônibus – também agora só amanhã mesmo.

Mais tarde outro banho, ensaboamentos cor-de-rosa, azul, lilás, amarelo, azul, fogos de artifício, choros, gritos, relicários de uma vez… talvez única. Ou quem sabe primeira.

Vestiu-se a da túnica indiana e partiu.

Mais tarde chegaria Nélson, e Vilminha o receberia com variações em dó, ré, mi, fá, sol, lá e si.

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FALTANDO POUCOS MINUTOS

Faltando poucos minutos para o encerramento da visita, lá estava ela assistindo àquele filme de roteiro corriqueiro, direção pífia, atuação de quinta e sem efeitos especiais. Era só mais um filme B. Sem nenhum lance ou ação inesperada, nada surpreendente ou impactante  que viesse  fazê-la guardar para sempre aquele filme como inesquecível ou incomparável.

Era assim a vida de Tânia, a mulher de 49 anos, que agora aguardava para fazer aquela visita.

Um filme B, coitada, sempre implorando ao outro que a atendesse, que a ouvisse, que a amasse. Amasse não, que lhe desse qualquer atenção mínima, para que pudesse guardá-la por horas e horas, como a emoção do dia. Assim o fizera sempre com amigos, colegas de trabalho e com os companheiros de escola antes. Era sempre coadjuvante. Coadjuvante não. Era  uma figurante apenas.

Cansada desse papel de pequena importância, resolvera fazer aquela visita e se transformar após tudo aquilo. Era de negro que estava vestida. Foi percebida na entrada, mas ninguém lhe dirigira palavra. Caminhou até o local, mas não entrou. Ficou ali parada, como sempre, fora do enquadramento, fora da luz, a buscar uma alternativa a inverter a situação.

Faltando poucos minutos para o encerramento da visita, abriu a bolsa, sacou uma arma branca,  cor oposta à de seu figurino. Entrou sozinha no quarto. Um leito apenas. Olhou o marido com quem vivera por mais de 15 anos e desferiu nele alguns golpes fatais.

Tragédia não anunciada.

SILÊNCIO NO SET.

FIM DAS GRAVAÇÕES POR HOJE

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Poesias e textos: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal
1º Video: Canal Okatu Tensai
2º Vídeo: Canal virgiliosiqueira
3º Vídeo: Canal luciano hortencio
4º Vídeo: Canal Poemoda, a canção em verso e prosa

Ontem

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SANGUE

pulsando lateja
correndo percorre
fervendo explode
muitas vezes
muitas vezes
muitas vezes
ele e eu
eu e ele
ele e eu
eu e ele
veias dilatadas pulsando
veias quentes gritando
veias dele sobre
veias dela sobre
transfusão
transfiguração
rios vermelhos
tempestades vermelhas
sem afluentes
desaguando num mar
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MULHERES DESAPAIXONADAS

Conhecendo a quem conhecia, era fácil ou até básico entender do que falavam. Na festa de aniversário de Márcia, estavam presentes amigas de muitos anos. Aquele barzinho, de luz fraca e mesas acolhedoras , aquelas comidinhas e bebidinhas, a gosto, propiciavam conversas de pé de ouvido entre elas.

Márcia completava 70 anos. Mais velha que ela só Virgínia, 73, bem vividos. A neta de Virgínia de 17, acompanhava a avó – sempre gostara de “papo de idosas”. Come-se isso, bebe-se aquilo, muitos risos, muitas gargalhadas, piadas escatológicas, safadinhas, de mulheres de pilequinho, sabe né? A neta Priscila acompanhava o baile.

” Minha neta está sofreeeendo por amor, vocês nem imaginam. Já falei pra ela não deixar a paixão dominar. Quem tem que gostar mais é o homem. Eu nunca me deixei pegar por paixão. Amei vários amores, mas paixão jamais. O homem faz o que quer da gente, não dá. Tem que ter o controle da relação, se não você sofre muito.”

” Mas vó, não dá pra controlar assim. Você fala uma coisas, viu. ”

” Concordo com sua avó, Priscila. Homem não pode ser tratado assim não. Você acha que é paixão, mas vai se apaixonar muuuito ainda. Tenha calma. E controle, né.”- comenta Vera.

Mais uma rodada de chopp, o garçom bonitão olha sem nenhum rodeio para as pernas de Laura, sempre grossas e à mostra, mesmo de saião, sempre havia uma fenda, uma janela de sensualidade aberta nela. Estivera sempre solteira e aos 65 era ainda bastante sensual e segura do seu poder. Ouvia tudo e pouco falava. Conhecia todas havia décadas. Apenas Priscila, tomando um energético, era novidade ali. Sempre tivera os namorados que desejara. Trabalhando e vivendo sozinha na capital, vinha aos finais de semana ou quinzenalmente à casa da mãe. Sentia falta deles. E sua chegada na cidadezinha era um festival, com sessões de bar e namoros quase de hora em hora. Namorava muitos. Voltava tarde, de madrugada, parando pelos cantos em abraços, beijos e amassos incessantes. Certa vez sua mãe lhe dissera Faça tudo, mas não engravide. Isso é o pior que pode te acontecer. Laura sempre lembrava isso, depois dos chopps e das caipirinhas. E assim foi feito. Jamais  havia se atirado a precipícios por paixão. Só gozando a vida.

Vera, 64, jamais namorara. Na verdade tivera 2 namorados, mas os encontrara nos laços de outras, isso quando estavam quase às portas do casamento. Passara a cuidar dos pais. Depois de mortos, dos irmãos,  já adultos; depois ainda, dos sobrinhos. Falava muito mal de homens homem é bicho que não presta mesmo, mas seu pai, seus irmãos e sobrinhos pertenciam a uma outra categoria talvez, desses nunca falava mal, só dos outros. Parecia ser mulher, esposa, amante de cada um, tamanho o desvelo que lhes dedicava. Detestava homens e dizia não acreditar em amor. Jamais se apaixonara. Defendia-se com galhardia dessa doença – afirmava. Não bebia nada alcoólico. Controle total da situação. Sempre.

“Vera, conta pra Priscila o que lhe espera, conta.”

“É, Priscila, homem é bicho falso, arranja pistas falsas pra comprovar suas mentiras, quase álibis mesmo. Te prepara. ”

“Gente, que qué isso? Vocês vão assustar a Priscila, né. Linda, ame bastante, se jogue. Vai sofrer? Vai. Homem tem as características do beija-flor? Tem, sim. Você vai querer se atirar do 10º andar? Vai. E mais, não adianta esse papo aranha de que você tem que se valorizar, que a vida continua e  mais. Você vai sofrer mesmo. A paixão acontece. E se estiver na retranca, com um pé atrás, fugindo, aí que é pior. Outra coisa: o cara vai preferir, na maioria das vezes, a outra, sabe a música  … que nem um pedaço do seu pode ser? Então, é assim mesmo.” – consertou Marina, 65 anos, bem sofridos, de mel e fel, como gostava de dizer. Mas ali … de pé. Ainda. Sozinha, mas acompanhada de muita coisa e de muitos prazeres também.

” Vamos pedir mais chopp, gente. Agora que a Priscila começou a gostar, né, menina?” – gracejou Márcia.

“Escuta, e a Sílvia? Não vinha também?”

” Ficou em casa com os netos do marido. Vocês vejam, casou aos 48 e agora é babá dos netos dele. Logo ela, namoradeira, que nunca quis filho, nem plantas, nem gatos, nem cachorros… só rindo mesmo. “- espetou Vera.

“Fazer o quê? Ela já contou aqui da outra vez que nunca havia sofrido de amor, lembram? Eu lembro. Casou com aquele cara, um ogro, sem nenhum tipo de sensibilidade, instrução, nada. Só por casar. Vocês lembram o que falamos pra ela, né. Adiantou? Nada. Agora reclaaaama que só ela. É a vida.”- emendou Virgínia.

Priscila declarou que pensava um pouco diferente delas todas. Era uma mulher apaixonada. Estava lendo Vinícius em verso e prosa. A biografia dele a fascinara. Era assim. Talvez porque ainda tivesse apenas 17 anos etc. mas queria continuar se apaixonando pela vida afora.

Riram, fizeram piadas de tudo e de todos. Pediram a conta e foram embora.

Era ontem, é hoje ou seria amanhã?

Lua-Rio

Poema e texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

1º Vídeo: Canal Marquinho G.S.

2º Vídeo: Canal marifk

3º Vídeo: Canal amjramjr (CD Antologia Poética)

Histórias de mulheres: perdões e mais perdões

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PERDÃO, AMIGA
Eram quase seis da tarde quando o telefone tocou. Olhando o número, Cristina reconhecera certa familiaridade. Mas quem seria, porque agora só atendia a ligações conhecidas. Não gostava de celular, não gostava de mensagens escritas. Gostava de falar e de ser ouvida.
Atendeu. Era Ana Elisa.
Havia lembrado do seu aniversário porque era bem próximo do dela. Alegou que, aliás, lembrara sempre, ao longo daqueles quase dez anos separadas. Cumprimentou-a, que meio fria e sem entender, lhe agradeceu. O que estaria por trás de tal telefonema. Aprendera a ser desconfiada. Pena. Preferia quando era menos calcificada pelas dores de amores de uns e de outros. Amigos em quem confiara tanto… foram as maiores desilusões. Não se tratava de expectativas criadas, mas sim de afetos entregues e naturalmente retribuídos. Não foram. Quebra de confiança, quebra de intimidade, quebra de amizades. Era rígida quanto a seguidos tropeços em suas relações. Expurgava outras emoções, ainda que pudessem vir a ser novas. Expurgava. Ponto.
Ana Elisa, professora de História, trabalhara com ela por três anos. Não atendia a nenhuma solicitação amistosa para trabalhos coletivos, parcerias etc. Ao contrário, era muito crítica ao trabalho da outra, acreditando que Cristina inventava moda, e logo-logo viriam exigir aquelas ações dela também e de outros … de tal forma que tornara um calvário a trajetória da colega de ofício naquela instituição pública de ensino. Em reuniões, a destratava, invertia razões e manipulava uns e outros, que não queriam se envolver com nada, sempre neutros, “fazendo a egípcia”, demonstrando cara de paisagem e tais. Isso vinha se tornando insuportável. Cristina não resistiu mais, embora adorasse ensinar, gostasse do trabalho com seus parceiros … quis abandonar tudo. E o fez. Entrou com um pedido de aposentadoria, precocemente – quando poderia ter continuado por mais uma década em sua docência – perdendo direitos, concursada que era, e tinha carreira a seguir.
Agora aquele telefonema. Ana Elisa pedia desculpas. Desculpas não, perdão. Dizia reconhecer, naquele momento, todos os problemas pelos quais Cristina passara antes e que agora era ela que estava vivendo tudo aquilo.
Cristina contou a mim esse telefonema, assim também como ela o encerrara.
“Ana Elisa, você não tem que me pedir perdão. Pense aí na sua vida e vá em frente. Aliás, como diz a sabedoria popular, quem perdoa é Deus. Felicidades pra você”.
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PERDÃO DAS VIOLETAS
Durante anos cultivei violetas. De todos os tipos, tamanhos e cores. Começavam bonitas, viçosas, alegres, irretocavelmente lindas. Não sei se por zelo demais, desvelo demais, encantamento demais, não sei, era demorado vê-las florescer de novo. Ainda que lhes trocasse a terra, as mudasse de lugar … era sempre difícil vê-las daquele jeito como as vira antes.
Muitos me recomendavam que comprasse outras, que era assim mesmo, ninguém tem sorte com violetas mesmo
Durante anos entreguei as violetas à sua própria sorte. Hoje já aprendi. Tenho que ajudá-las a florescer.
Fui observando melhor cada uma.
Além de deixá-las com terra boa, em locais de sol indireto, sem molhá-las demais, aprendi que muitas vezes é preciso ABRIR ESPAÇO PARA AS FLORES. Produzem muitas e muitas folhas e nada, nadica de flores, PORQUE ESTAS NÃO ENCONTRAM ESPAÇO, LUZ, estão sufocadas pela profusão de folhas. Aí é que eu entro. Arranco algumas folhas e abro espaço para as flores se abrirem e aparecerem. Com as folhas retiradas, faço mais mudas, reproduzo bonitezas. De todas as tonalidades.
As violetas  me perdoaram pelo fato de não ter percebido antes esse detalhe tão simples. É preciso abrir espaço para as flores poderem surgir. Abrir espaço.
Vou dormir. Quando acordo, elas estão cheinhas de graças.
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PERDÃO DE JOELHOS

Separada , depois de um casamento que durara 2 anos e com uma menina agora de cinco, Marta seguia trabalhando muitas horas por dia, exercitando seu ofício nas relações humanas. Separou-se amando o homem com quem vivera. Ele, também. E agora, anos mais tarde, o engenheiro reconstruía sua vida com uma mulher bem mais jovem, bem mais linda, de olhos verdes fascinantes, com falas juvenis e que tinha no novo parceiro um professor. Ele, cego de paixão, aceitava tudo que ela dizia com beijos, abraços e apelos secretos em uma, duas, três explosões em série.

A moça Regina, rainha, teria ocupado o lugar deixado por outra mocinha, magrinha, bem mais mocinha, que brincava com a filha de Marta como se fossem duas crianças. Esta teria dito a ela que gostaria de ter uma filha com o engenheiro que fosse como a de Marta com ele. Afirmou ainda o quanto ele  elogiava Marta como mulher, mãe, considerando-a quase uma musa. Achava lindo isso num homem, ao referir-se a uma ex. O engenheiro sabia executar a conquista , sabia o que dizer e à qual.

A Regina, rainha, passou a imitar ações de Marta, burlar regras e acordos feitos sobre horários, pedidos etc. estabelecidos entre pai, mãe e filha. Configurava-se ali um completo jogo, uma batalha de poder. Mulher duelando com mulher. Uma criança no meio. No meio mesmo.

Durante quase um ano foram rompidos os laços tão ternos existentes antes entre Marta e o pai da menina. Tão perniciosa fora a influência exercida sobre ele, que se afastara da filha. Pouco falava com ela. E só ao telefone. Prometendo sempre que no Natal se encontrariam. Eram crises de choro da menina após as ligações; as de Marta, sufocadas na cena, mas depois uma explosão. Seguramente também ele sofria com aquele acordo de separação da filha, acertado entre conversas de alcova com sua rainha.

Ano seguinte. Dois aniversários diferentes. Os brinquedos recebidos de presente na festa de lá não podiam vir com a menina para a sua casa com a mãe. Um território de guerra e periculosidade flagrantes que só evidenciavam a fraqueza da livre oponente.

Tempo passando. A rainha engravidou. Alegrias da irmã mais velha que receberia a irmãzinha mais nova. Novidades. A rainha deixara seu corpo inicial e adquirira mais 20 quilos, pressão alta, riscos, cesariana… Tudo se acalmara entre as partes, festejos, cumprimentos, comemorações. Fotos, muitas fotos, alegrias muitas.

Menos de um ano depois, Marta fora chamada para uma visita à casa da rainha e de sua princesa. Estavam se separando ela e seu engenheiro. Estava muito triste com ações dele. Abriu seu coração.

Deu a bebê para a avó levá-la para o bercinho. A  irmãzinha foi junto.

Nesse momento, a rainha, ainda com os seios cheios de leite, peso-de-mãe, muito acima daquele de mulher, pediu que Marta a ouvisse.

Ajoelhou-se no chão e lhe pediu perdão. Agora sentia na pele aquilo por que Marta havia passado. Pedia perdão pelo pai ter ficado distante da filha pequenina por tanto tempo e mais e mais e mais.

Marta pediu que se levantasse. Abraçaram-se.

Perdão, perdões !

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“A VERDADE É FILHA DO TEMPO, NÃO DA AUTORIDADE”

(Frase atribuída a Galilei Galilei ou a uma fala de Galileu Galilei , na peça homônima escrita por Brecht)

Poesia e textos: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal
 Vídeo: Canal Antonio Bocaiúva

Histórias de amor: O filho da mãe

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Arrasado, Caetano resolveu não mais amar. Fora a última vez. Daqui pra frente iria pegar geral. Nada de se dedicar a uma garota apenas. Estimava estar sendo passado pra trás, logo ele que havia se atirado inteiro naquele relacionamento. Era tão jovem ainda, 29 anos, e já tão desencantado.

Célia, sua mãe, nascida em 47, leu, estudou, trabalhou muito, era conhecedora de gente como ninguém. Célia observava tudo e se preocupava com aquela decepção amorosa do filho, temendo que não saísse mais do fundo daquele poço. Sofrer era salutar, recuperar-se era obrigatório. Não desejava para ele aquela cicatriz irremovível. Precisava interferir como mãe, educadora, responsável por sua formação. Orientava tanta gente, por que não o saberia com o seu Caetano? Tentaria.

A cada noite, ou melhor, a cada madrugada Caetano chegava embriagado, muitas vezes acompanhado, a se perder de sua razão de viver. Bebeu muito, em seguida buscou outras fugas de si, daquele seu antes subjetivo modo de ser. Agora era pegar geral, não se dedicava à garota alguma. Saía com uma, voltava com outra. Infeliz por dentro e por fora, idem.

Mãe de duas moças mais velhas que o rapaz, Célia repensava a educação que dera aos três. Seria a melhor, seria o respeito ao ser humano algo que não se encontrava mais na praça; as moças e os rapazes daquele tempo seriam tão diversos dos de sua juventude  no interior; metrópoles produzem  comportamentos diferenciados mesmo, exigem posturas mais contemporâneas ao seu tempo, aos seus iguais. Estaria ali como uma antagonista da modernidade, estaria impotente para ajudar seus filhos porque diacrônica demais? Não sabia mais.

Pensava e tomava algumas atitudes. Sozinha, estava difícil interferir em tudo aquilo. Convocou o pai. Vivendo em uma cidade distante, viesse assumir aquelo processo junto com ela. Veio. Achou tudo natural. Coisa de rapaz. Conversou com o filho, quase sendo conivente com suas ações. Quase. Atribuiu as apreensões, com os desvios, a excessos de preocupação de mães. Foi embora no mesmo dia, o avião sairia às 18.

Numas madrugadas, Célia ia ao quarto do rapaz e via sua cama vazia. Em outras, estava lá jogado, vestido, às vezes até com tênis nos pés, apagado, amortecido, sofrido, amargurado. Saía sem ser notada. Vez ou outra tirava-lhe os tênis. Nem sempre. Mãe tem limites que não se pode nem entender.

Naquela manhã combinou com ele que deveria ir morar sozinho, assumir sua vida. Seria sua fiadora no novo apartamento, mas que deveria assumir geral, pagar suas contas, não faltar ao trabalho, parar com aqueles excessos e entender que amores são doídos mesmo, uns vêm, outros vão, a vida segue. Caetano deveria reger sua vida dali em diante. A batuta estava em suas próprias mãos e não nas dela mais. Era muito jovem, tinha a vida toda á sua frente, meu Deus!

Célia amargou uma saudade imensa. Todas as preocupações com seu caçula, alimentação, doença, sofrimento, falta de grana … tudo sofreu de forma maiúscula, mas suportou.

Caetano fez mais cursos, especializou-se, montou um espaço ligado a terapias de corpo. Célia o apoiou com orientação, espaço físico – chegou a mudar-se para que ali onde morava fosse criado um centro holístico. Caetano passou a trabalhar com uma das irmãs, ergueu-se, pegou geral nas mãos e nos pés a trilha da sua vida.

Caetano era filho da mãe, ora !

 

Texto: Odonir Oliveira

Imagem: Jacques Louis David, Pinterest

Vídeo: Canal Joana Ziller