Histórias de amor: O filho da mãe

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Arrasado, Caetano resolveu não mais amar. Fora a última vez. Daqui pra frente iria pegar geral. Nada de se dedicar a uma garota apenas. Estimava estar sendo passado pra trás, logo ele que havia se atirado inteiro naquele relacionamento. Era tão jovem ainda, 29 anos, e já tão desencantado.

Célia, sua mãe, nascida em 47, leu, estudou, trabalhou muito, era conhecedora de gente como ninguém. Célia observava tudo e se preocupava com aquela decepção amorosa do filho, temendo que não saísse mais do fundo daquele poço. Sofrer era salutar, recuperar-se era obrigatório. Não desejava para ele aquela cicatriz irremovível. Precisava interferir como mãe, educadora, responsável por sua formação. Orientava tanta gente, por que não o saberia com o seu Caetano? Tentaria.

A cada noite, ou melhor, a cada madrugada Caetano chegava embriagado, muitas vezes acompanhado, a se perder de sua razão de viver. Bebeu muito, em seguida buscou outras fugas de si, daquele seu antes subjetivo modo de ser. Agora era pegar geral, não se dedicava à garota alguma. Saía com uma, voltava com outra. Infeliz por dentro e por fora, idem.

Mãe de duas moças mais velhas que o rapaz, Célia repensava a educação que dera aos três. Seria a melhor, seria o respeito ao ser humano algo que não se encontrava mais na praça; as moças e os rapazes daquele tempo seriam tão diversos dos de sua juventude  no interior; metrópoles produzem  comportamentos diferenciados mesmo, exigem posturas mais contemporâneas ao seu tempo, aos seus iguais. Estaria ali como uma antagonista da modernidade, estaria impotente para ajudar seus filhos porque diacrônica demais? Não sabia mais.

Pensava e tomava algumas atitudes. Sozinha, estava difícil interferir em tudo aquilo. Convocou o pai. Vivendo em uma cidade distante, viesse assumir aquelo processo junto com ela. Veio. Achou tudo natural. Coisa de rapaz. Conversou com o filho, quase sendo conivente com suas ações. Quase. Atribuiu as apreensões, com os desvios, a excessos de preocupação de mães. Foi embora no mesmo dia, o avião sairia às 18.

Numas madrugadas, Célia ia ao quarto do rapaz e via sua cama vazia. Em outras, estava lá jogado, vestido, às vezes até com tênis nos pés, apagado, amortecido, sofrido, amargurado. Saía sem ser notada. Vez ou outra tirava-lhe os tênis. Nem sempre. Mãe tem limites que não se pode nem entender.

Naquela manhã combinou com ele que deveria ir morar sozinho, assumir sua vida. Seria sua fiadora no novo apartamento, mas que deveria assumir geral, pagar suas contas, não faltar ao trabalho, parar com aqueles excessos e entender que amores são doídos mesmo, uns vêm, outros vão, a vida segue. Caetano deveria reger sua vida dali em diante. A batuta estava em suas próprias mãos e não nas dela mais. Era muito jovem, tinha a vida toda á sua frente, meu Deus!

Célia amargou uma saudade imensa. Todas as preocupações com seu caçula, alimentação, doença, sofrimento, falta de grana … tudo sofreu de forma maiúscula, mas suportou.

Caetano fez mais cursos, especializou-se, montou um espaço ligado a terapias de corpo. Célia o apoiou com orientação, espaço físico – chegou a mudar-se para que ali onde morava fosse criado um centro holístico. Caetano passou a trabalhar com uma das irmãs, ergueu-se, pegou geral nas mãos e nos pés a trilha da sua vida.

Caetano era filho da mãe, ora !

 

Texto: Odonir Oliveira

Imagem: Jacques Louis David, Pinterest

Vídeo: Canal Joana Ziller

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Histórias de amor: 45 anos depois …

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Noite de lua … não olhou a lua lá fora. O e-mail a tirara do chão. “Saudades”. Por que tão mexida assim, agora, depois de tantos anos! O conteúdo, o pedido delicado, a menção suave a ela, por que tão mexida assim, meu Deus?

Amor de sua vida. Primeiro amor de carne e pele de sua vida. Por que tão mexida assim? Lembrou que ele gostava de mar, era de São Paulo, sem mar. Amar. Aquela barba grande, aquela literatura toda, aquela bolsa de couro repleta de livros, aqueles 10 anos a mais dele, aqueles jantares nos bandejões regados a James Dean, juventude transviada, On the Road, Kerouac, Jules e Jim, Maysa, ah Maysa, Sartre e Simone de Beauvoir, Mário de Andrade, a ditadura militar. Tantos encontros fortuitos, tantas caminhadas de mãos dadas pelas noites, tantas sessões de cinema, pré-estreias.  Que estímulo à leitura, que vontade de ler todo o Sartre pra poder discutir sobre aquilo com ele, que vontade de conhecer Pessoa tão melhor. Passeios de dentro, passeios por dentro.

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Por que tão mexida assim agora … “Saudades”. Valorização de palavras escritas, de lirismos uns e outros. Estrada conhecida, familiares, amigos, destinos ..“Saudades”.

Tempo, inimigo cruel de corpos, de projetos, de trajetórias. “Saudades”. 45 anos depois, umas fotos, uns elogios, um reconhecer de carne e osso, um aroma de gente que se conhece, que sabe o valor de si e do outro. “Saudades”. Umas sensíveis observações, uma seleção das histórias preferidas. Olhares pelo retrovisor. Tudo caminha, evolui, se espraia …

Que acaso misterioso é esse que faz uma palavra ganhar tanto sentido. “Saudades”.

Também eu tenho saudades de mim, como ouvi nessa narrativa. Também eu.

Texto: Odonir Oliveira

Vídeo: Canal daou007

Nascidas nos anos cinquenta

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TODA NUDEZ SERÁ PERDOADA

Despe-se o corpo
da mulher metáfora
da mulher antítese
da mulher metonímia
da mulher eufemismo
da mulher onomatopeia
Despe-se o corpo
da mulher signo do sexo do medo do amargor
Despe-se o corpo
da mulher frasco embalagem colírio  motivo
Despe-se o corpo
da mulher fresca tenra rija excitante
Despe-se o corpo
da mulher frágil entregue carente
Despe-se o corpo
da mulher estrada barro lodo chão
Despe-se o corpo
da mulher marcas suspiros chegadas e partidas
Despe-se um corpo de carne e osso.

OS SEMELHANTES SE ATRAEM

Três MULHERES, assim maiúsculas mesmo. MULHERES que nasceram nos anos de 1950. Uma no início da década, outra na metade dela e outra ainda, no seu final. Conheceram-se, em comum, pelas redes sociais. Duas delas se conheciam há décadas por terem trabalhado juntas. O encontro estava marcado. Quem marcou não se sabe. Marcado.

Encontraram-se na Praça. Sentaram-se nos bancos de cimento, apoiaram-se na mesa. Quando se perceberam eram um facho de luz, iluminando passados, presentes e futuros. Tinham a cara da MULHER de seu tempo, femininas, feministas, conhecedoras de seus direitos e deveres. Eram amantes de amores, da sensibilidade. Não odiavam homens, nem desejam com eles qualquer luta de capa e espada. Pessoas do diálogo, lutadoras, emancipadas, coerentes com suas histórias de vida: discurso e ação.

Encontraram-se ali 3 MULHERES de corpo e alma, 3 MULHERES em sua natureza.

Uma arriscou conhecer o mundo, literalmente, sem conhecer inglês, sem grana, foi trabalhar, foi buscar, foi conhecer, foi fazer-se a seu modo. Que história de se ouvir ! Bastava fechar os olhos para ver a sua história. Uma arte educadora de corpos em movimento, de estudo e conhecimento de fora pra dentro e de dentro pra fora. MULHER dos anos cinquenta.

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A outra, ligada às letras, cidadã do mundo, estudiosa da humanidade,  do socialismo, em terras lusitanas, lançada ao mar português, qual um Pessoa feminino, amou e fez tudo valer a pena porque sua alma não foi pequena. Nunca. Sabendo-se ela, mulher, forte e frágil em sua natureza, reinventou-se sempre, do começo ao fim. MULHER dos anos cinquenta.

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A terceira, ali prostrada, bebendo uma caipirinha de vodca, depois mais uma, com elas, ouvindo e entendendo mais uma vez quem era, quem eram, porque eram. Eram as três tatuadas pelas lutas, pelas conquistas, pelos amores e desamores que se injetam nas MULHERES dos anos cinquenta.

Seu feminismo vai muito, muito mais além do que o de comportamento apenas. Seu feminismo é de classe, de oportunidades iguais para quem trabalha, estuda, produz e é digna de reconhecimento, por isso há que se ir além do comportamento, considerado tão libertário. As 3 MULHERES acreditam que não se pode copiar, por osmose ou nas veias, o que há de pior no comportamento de grande parte dos homens. Mas sim o que de melhor existe no SER HUMANO, a solidariedade, a justiça social. Para todos.

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“As sementes não brotarão se sobre elas houver uma pedra. E também pode acontecer que, depois de brotar, elas sejam arrancadas… De fato, muitas plantas precisam ser arrancadas, antes que cresçam. Nos jardins há pragas: tiriricas, picões…

Uma dessas sementes é a “solidariedade”. A solidariedade não é uma entidade do mundo de fora, ao lado de estrelas, pedras, mercadorias, dinheiro, contratos. Se ela fosse uma entidade do mundo de fora, poderia ser ensinada e produzida. A solidariedade é uma entidade do mundo interior. Solidariedade nem se ensina, nem se ordena, nem se produz. A solidariedade tem de brotar e crescer como uma semente…” Rubem Alves

 

Poesia e texto: Odonir Oliveira

Texto de Rubem Alves, na íntegra: http://www.revistaprosaversoearte.com/a-solidariedade-como-a-beleza-e-inefavel-esta-alem-das-palavras-rubem-alves/

Fotos de arquivo pessoal

1º Vídeo: Canal Odonir Oliveira

2º Vídeo: Canal Samantha Alevatto

Natal: De bar, oficina e biscoitos

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[Quando se escreve, quase sempre, toca-se as pessoas. Meu post sobre “sororidade”, Natal: Sexagenárias também amam, trouxe uma torrente de lembranças a uma leitora que perfumou minha emoção com seus sentimentos. Pedi, então, para narrar um Natal vivido por ela, entre tantos outros que me contou.]

DE BAR, OFICINA E BISCOITOS

Houve aquele Natal que agora a memória côa. Nos anos sessenta, o pai de Vera, bem embriagado, num bar, fez um negócio com a casa e a oficina mecânica. Vendeu tudo.

No dia seguinte apareceu o comprador, com uma testemunha e finalizaram a compra. O espanto da esposa, a palavra empenhada, o negócio concluído.

Resultado, em três meses tiveram que entregar casa e oficina, sem ter para onde ir. O produto da venda foi entregue a um fazendeiro, a um açougueiro … nada a ser compreendido pela menina, pela irmã mais velha com um filho e grávida de outro, pela esposa.  Não tinham mais casa. Foi preciso espalhar móveis pelas casas dos parentes e alugar cômodos para, amontoados, resistirem. 
Foram dias de muita fome, sofrimento, bebedeiras, xingamentos. Com quatro crianças pequenas, dois sobrinhos e duas irmãs menores 8, 6 anos, foram acolhidos numa cidade do interior, onde morava outra irmã mais velha. Ela fez o que pode para ajudar.
Vera começou a trabalhar aos 14 e trazia dinheiro para a pouca comida. A irmã, com pequena diferença de idade, e já viúva, também ajudava, lavava e passava para uma senhora rica.
Alugaram uma casinha no fundo de um consultório e começaram a viver melhor, tentando a sobrevivência.
Que músicas ouviam? Não, Vera não se recorda, pois não tinham rádio. A secura pertinente àqueles que precisam encher as panelas de comida, muitas vezes cria uma presumida falta de sensibilidade, uma remota capacidade de emocionar-se, necessitando ser tocada, ser motivada, ser sacada como rolha de vinho. Está lá no ser humano vivo, entretanto precisa ser provocada, resgatada.
Chegando o Natal, o assunto era proibido perto das crianças.
Uma tarde, a  irmãzinha entrou toda feliz com um saco de biscoitos, era tudo que ela desejava. Um presente. E chorava. Na mão um cartão que agradecia o Natal e também desejava bons votos de fim de ano. Dois nomes estavam lá, quem seriam, pois moravam perto de outro estado e nada sabiam das coisas de cidade mais próxima.
Intrigada, a mãe chamou a irmã mais velha e mostrou-lhe o cartão com as assinaturas. Esta riu muito e disse que eram os coletores de lixo da cidade, que davam cartões e recebiam presentes ou algum dinheiro, a caixinha de Natal. Então, perguntaram a menina, como tudo havia acontecido.
– Tocou a campainha, fui atender . O homem deu o cartão. Perguntei pra o que era. Ele me explicou que queriam uma caixinha de Natal, algum dinheiro. Respondi que não tinha dinheiro nem para comprar um biscoito que estava com vontade de comer. Ele, então, tirou do carrinho um pacote de bolacha e me deu. É esse.
Ali, naquele lar onde Natal era proibido encontrou-se no coletor de lixo a solidariedade com a criança. Ele havia feito o NATAL DA PEQUENA.
A mãe riu, as filhas riram da situação e de onde tinham ido parar. Em vez de dar, receberam.
São recordações de Vera que nem sempre são reconhecidas como válidas, nobres, sensíveis por todos. Homens, em geral, por serem mais práticos, objetivos e guardarem menos o que chamam de memórias descartáveis, não dão o valor que relatos como esse merecem. Talvez, por não quererem sofrer dores. Talvez.
Pois saiba, Vera, nem que meu lirismo não conseguisse convencer o homem amado do meu amor, nem que minhas palavras escritas não fossem capazes de louvar meu país como o desejo, nem que a combinação de meus pensamentos em palavras não fosse capaz de mudar situações insustentáveis, nem assim essa sua história de Natal deixaria de me emocionar.
” Fortes lembranças, amiga”.

 

MEMÓRIA

ceia ausente
presentes ausentes
moradia ausente
rádio ausente
pai ausente
ternura ausente
mãe presente
irmãs presentes
Presentes
eternos
a memória côa presentes
a memória ensina o presente

 

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(São do meu jardim, pra você, com todo meu carinho. Feliz Natal )

Poesia: Odonir Oliveira

Texto: Odonir Oliveira (escriba da Vera)

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos: Canal Sandro M. Silva

Leia também: https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2017/12/18/natal-sexagenarias-tambem-amam/

Natal: Amor, paixão, fé

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Resolvera. Nada de panetones, leitões, rabanadas, nozes ou amêndoas. Iria para dentro. Para dentro de si. Foi. O que esperava? Não esperava nada mais. Queria ser de novo o novo de dentro de si, sem nódoas, marcas, medos e lágrimas. Lágrimas dali pra frente só de prazer. De prazer estético, de prazer no amor, de prazer na natureza. Foi.

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Seguia em seus pensamentos. Ou melhor, sob seus sentimentos.

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Via a árvore e saltava-lhe a imagem do homem em som e espectro. Adentrava uma lagoa e dava-lhe a mão o riso do homem em lume. Corria pelas estradas vicinais e era o homem, de novo, que a acompanhava na música do carro. Sentava para comer o trivial lírico, e seu rosto e sua lente coloriam o fundo do prato. Trocava para prato raso, mas era pouco, queria o prato fundo, antes tão repleto dos sabores a lhe fartar. Ao olhar aquela lua cheia, tão transformadora de homens em lobos, era na estrela que pensava Sofia. Como um presente ou um anátema, o que seria aquele homem tão onipresente?

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Bebeu uma caipirinha num botequinho muito simpático, onde estavam apenas homens. Que importava? Bebeu outra em outro, a uns 5 quarteirões. Já enxergava a estrela dos 3 Reis Magos a apontar-lhe uma única direção. Sentou no banco de pedra. As ruas quase vazias. Apenas os companheiros das noites vagas, anônimas e eternas.

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Olhou pro céu. Viu como em letras de fogo o que leu.

SORRISO DE ESTRELA

É quando no desespero de mim,
que encontro a ti
sorrindo repetidas vezes
com passos ouvidos
em reflexos mínimos
em espaços imprevisíveis
em momentos inesperados.

É quando miro estrelas
que encontro
teu lume no delas
tua silhueta na delas
teu dorso incomum no brilho delas.

É quando escurece
que estrelas em ramalhetes
te trazem a mim,
e em ti permaneço
pousada no céu.

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Agora já era quase meia-noite. Quase hora de se celebrar o Natal. O Natal veio e esteve ali com Sofia todo o tempo. Estivera com ela em carne, osso e paixão. Era sim nascimento, renascimento, Natal.

Havia ali um presépio real à sua frente. Era só caminhar. Ir.

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Texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal: MG

1º Vídeo: Canal Zelda Silveira

2º Vídeo: Canal Marcio Proença

Simplicidades … três mulheres de verdade

 

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Ave, Maria

Passo por uma casa. É domingo. Encanto-me com o jardim, as flores. O cão late forte abafando minhas palmas insistentes.

Na janela surge a mulher. Espanta-se com as fotografias que tiro fascinada com suas flores. Entro mais. Vou vendo muita beleza. Não sei o que é mais lindo. Conta-me que gosta muito de plantas, como trata delas. Olho que o mais importante ali são as flores, as plantas. O acabamento da casa não tem a mínima relevância. Mas as flores.

Converso muito com ela. Digo-lhe de onde venho, o que estou fazendo ali. Nada pergunto. Olha-me desconfiada, como se não acreditasse em tantos elogios a ela, a seu trabalho. Sorri agradecida e diz Mas esse jardim nem tá bem cuidado nem nada. Discordo, explico por quê. Ela é só atenção.

Saio dali inchada de delicadezas, das delicadezas das flores e daquela mulher.

No dia seguinte, volto, bato palmas. Insisto nas fotos. Ela cede e, por último, me conta. Seu nome é Maria.

Ave, Maria !

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Marilene, a Dica

Ri, ri muito, ri de tudo.

Ensina que se as folhinhas da arruda caem é porque tem muita inveja ao redor, e as folhas estão como escudo de proteção. E fala da vida, do filho, das mulheres, da força das mulheres e ri, ri muito. Aprendo tanto que fico sem saber se digo que sou professora. Digo e conto que aprendi muito ali. Vou até os canteiros das verduras, fotografo a beleza delas verdinhas e vistosas. Conta-me o que tem que ser feito. Olha só, você não tem que dar muita confiança pra planta, não. Quanto mais você quer que ela fique bonita, mais ela desobedece. Esquece dela, não liga. Você vai ver, logo logo ela vai desabrochar. É como mulher que quer muito ter filho e não engravida. Tem que esquecer. Esquecendo dá certo.

Vou com seu sorriso e sua habilidade faceira de falar e de cortar couve nos dedos. E olha que a faca não pode estar muito afiada não – declara – porque senão corta os dedos.

Caminho pelas ruas no dia seguinte. Lá vem Dica lá longe. Quer saber se já fui aqui, ali, acolá. Ficamos cúmplices de ensinamentos.

Segue ela pra cuidar do filho adolescente indo pra escola.

Dica é demais !

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Salve, salve, Maristana

Conheci essa mulher bem antes, mas só agora pude sentar com ela e ouvir sua história.

Trabalha desde os nove anos. Veio da roça trabalhar com Sá Donana. Morou a vida toda com ela, até que falecesse. Trabalhava para pagar a pensão …  de Sá Donana.

Tem 82 anos e sabe da história muito. Sabe da cultura mineira, sabe que foi a diretora do grupo escolar a primeira a ter uma TV na cidade, sabe das verduras que planta, colhe e cozinha do quintal-horta direto pra cozinha. Cada um que pegue seu prato e venha se servir diretinho no fogão à lenha. Comida leve, fresca, barata, como gosto.

Primeiro, meio desconfiada, mineiramente desconfiada, me conta que vai fazer frango com quiabo e angu amarelo. Gosta? Gosto. Muito. Volto em seguida, depois de deixar minha Luna sossegada e poder me entregar à  conversa com ela. Envergonha-se, diz que não sabe se explicar direito … tem apenas uma ajudante durante a semana e uma para sábados e domingos. Sempre foi só.

Aos poucos me conta tanto, como se me conhecesse de há muito. É um poço de afetividades. Vou. Ela corre até o carro a se despedir de mim e me contar mais na janela do automóvel. Diz que noutro dia tirará uma foto, mas que estava pouco arrumada agora.

Fui embora pensando nela. No outro dia voltei, e no outro …  há dias.

Mulher forte assim a gente não desperdiça nem um pouquinho, bebe até o último gole. E sai cheia de energia, de coragem, de esperança. E de força.

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Texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal PianOrquestra Dez Mãos e Um Piano

A cabocla Tereza

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CABOCLA TEREZA
Lá no alto da montanha
Numa casinha estranha
Toda feita de sapê
Parei numa noite a cavalo
Pra mór de dois estalos
Que ouvi lá dentro bate
Apeei com muito jeito
Ouvi um gemido perfeito
Uma voz cheia de dor:
“Vancê, Tereza, descansa
Jurei de fazer a vingança
Pra morte do meu amor”
Pela réstia da janela
Por uma luzinha amarela
De um lampião quase apagando
Vi uma cabocla no chão
E um cabra tinha na mão
Uma arma alumiando
Virei meu cavalo a galope
Risquei de espora e chicote
Sangrei a anca do tar
Desci a montanha abaixo
Galopando meu macho
O seu doutô fui chamar
Vortamo lá pra montanha
Naquela casinha estranha
Eu e mais seu doutô
Topemo o cabra assustado
Que chamou nóis prum lado
E a sua história contou
“Há tempo eu fiz um ranchinho
Pra minha cabocla morá
Pois era ali nosso ninho
Bem longe deste lugar.
No arto lá da montanha
Perto da luz do luar
Vivi um ano feliz
Sem nunca isso esperá
E muito tempo passou
Pensando em ser tão feliz
Mas a Tereza, doutor,
Felicidade não quis.
O meu sonho nesse oiá
Paguei caro meu amor
Pra mór de outro caboclo
Meu rancho ela abandonou.
Senti meu sangue fervê
Jurei a Tereza matá
O meu alazão arriei
E ela eu vô percurá.
Agora já me vinguei
É esse o fim de um amor
Esta cabocla eu matei
É a minha história, dotor.
(De João Pacífico e Raul Torres )

 

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TEREZA, UMA CABOCLA ROMÂNTICA 

“Viver é muito perigoso” (G. Rosa)

Era Tereza a morena cabocla mais feminina da região. Gostava de ouvir as modas nas rodas de noites, sentados irmãos, a parentada e os violeiros rasgando dores e saudades das amadas, das terras distantes, das esperanças perdidas, das traições de amigos, de mulheres … Tereza apreciava cada moda daquelas e era alimento pras suas carências e prazeres.

Deu que ali entre todos os que paravam na venda do seu Neco, agradou em demasia de um quase índio quase negro, meio assim de olhar matreiro e risada alta, voz de cantador. Tocava pouco da viola, menos ainda da rabeca, mas cantava. E inventava. Era bão de invencionices o tal. Pedia acompanhamento, “um dó maior”, “um si menor”, como se de muito entendesse ou tivesse estudado de cancionices. Era matreiro. Matreiro e bonito. Bonito e encantador de olhares também. Agradou de Tereza como nem. Agradou de suas pernas grossas, desde meninota eram assim. Agradou de seus seios fartos e empinados. Agradou de seu cabelo ondulado castanho-escuro e do seu olhar romântico pros versos que cantava nas noites de varanda, lá  no seu Neco.

Fez que fez, dedicou que dedicou, com olhares e sorrisos, versos a ela, que Tereza entregou-se. Foi dele e de mais nenhum outro que vinha por aquelas bandas a se entornar  viola pra ela. Disse pra cada amiga que tinha dono agora. Ele era seu. Nome não sabia, que todos o chamavam de Goiano apenas. Imaginava que fosse das bandas de Goiás então.

Passou a esperar por ele. Passou a gostar dele num tanto, que quem via achava que já houvera lhe dado os beijos, os abraços, os seios, as coxas e o ventre pra serem degustados a dois. Nonada. A Tereza era de matutar num tanto e esperou que ele se entregasse, falasse cara a cara o que dela queria, como é que seriam, pra onde é que iriam, se tudo ficaria daquele jeito mesmo – que bão era um tanto tamém. Aguardou.

Goiano, sempre  pelas corrutelas e querências da vida, num vinha nem ia, empacava. Tereza querendo ir e vir, ir e vir,  Goiano preferindo as casas de tolerância das vielas de vento forte, se abrigando em bocas alheias, cantando modas e tocando um nada de viola. Ora num cabaré, ora num lupanar, outra hora num bordel mais perfumado, dançando boleros e cochichando safadezas nas orelhas das mulheres amaciadas pelas estradas. Não havia uma zona dos entremeios em que Goiano nunca tivesse deitado em colcha de cetim grená. Era doido por pinga de qualidade, por boleros e permanências curtas. Gostava da alta rotatividade das picadas, das veredas e dos caminhos esquerdos da bandidagem parceira.

De costume assim enfileirado, o homem moreno acaboclado sentia falta por alguma vez de rever Tereza, de dedicar certo olhar religioso a ela, mas nunca deixava claro suas intenções, fossem quais. Não dava torcer nem braço, nem mão, nem boca, nem corpo pra Tereza se afeiçoar. Media distância, como se a moça fosse reservada pra um seiquê qualquer de pouco esclarecimento na sua cachola e no seu apaixonamento insistente.

Foi assim que foi.

Foi que Tereza amava aqueles braços de poesia e invencionices de rir e de chorar também.

Foi mesmo assim que um dia, levou Tereza pra dijunto dele, mas separado, de certeza.

Abandonava Tereza e ficava dias sem aparecer nem pra dar conta de um angu com feijão e couve, nem pra uma noite de suor com ela, nem mais pra uma viola, daquelas que tinham endoidecido Tereza antesmente. Foi ficando Tereza e seus doces olhos castanhos. Restando, restando.

Numa noite, chegou Goiano sem notícia dada antes.

Pegou Tereza e um cavaleiro tocando viola na sala pra ela. Era como se estivessem grudados de imã no olhar.

Matou.

(E mais não conto que conheci a cabocla Tereza e sei que sucedeu mesmo assim essa história)

Texto: Odonir Oliveira

Imagens de arquivo pessoal

Vídeo: Canal Kaio Diêgo Costa