Rendendo homenagens

Admiro aqueles que inspiram versos, melodias, arte em geral. Ser musa inspiradora é uma bênção. Saber-se razão e emoção para a criação é algo inestimável. Muitos poetas beberam lirismo em suas musas e assim foi Paulo César Pinheiro, em relação à Clara Nunes.

Conheci uma escritora em São Paulo que, já estando separada do marido, enviou-lhe por correio em um pacote bonito, envelope grande, os originais de seu livro de poemas, grande parte deles escritos enquanto viveram casados, por muitos anos. Havia ali uma linda dedicatória ao homem amado, fonte daquela produção de versos em cascata e guardados, por anos, com ela. Contou-me que ele sequer abrira o envelope, devolveu-o pelo correio, escrevendo por dentro “outras postagens serão incineradas”. Fiquei estarrecida com a narrativa dela. O livro foi publicado, é claro, mas com outra dedicatória. Muita insensibilidade, muito medo de ter que responder por um sentimento inequívoco vivido por ambos.

 

Outra amiga da Granja Viana contava que se apaixonou por um homem, homem rústico, pouco apreciador de versos, literatura, arte. Bebedor de pagodes paulistanos e engolidor de garrafas de cerveja transformava-se num dançarino de primeira, risonho, falastrão, gargalhador. Fascinou-a isso. Como professora que era, ela adorava cinema, arte, literatura. Passados uns meses, talvez um ano, não me recordo- romperam sem explicações plausíveis. O homem, hoje já falecido até, não atendia ligações dela, numa época em que poucos tinham detector de chamadas, nem existiam celulares. Passou a fugir de minha amiga, por medo de envolvimento, como um gato escaldado.

Na verdade, ela queria transformar o sentimento, de forma natural, sem marcas e mágoas. Telefonar-lhe em aniversários, datas comemorativas, congratular-se com ele. Não compreendeu nada e, muito grosseirão, passou a tratá-la como uma daquelas mulheres mais vulgares a que ele estava acostumado.

 

Uma prima minha me conta que presenteou um namorado, na década de 80,com dois lindos livros raros, que o rapaz dizia um dia querer comprá-los etc. Tempos depois, quando ela os achou, fez um pacote, sem nada de declarações amorosas, enviou-os pelo correio ao moço, quando ele já vivia no Rio de Janeiro. Assustada, ouço que ele havia devolvido o pacote, dentro de outro envelope, sem sequer saber do que se tratava. Prova inequívoca de desprezo, humilhação e medo do que poderia haver ali. Um horror.

 

Fico me perguntando que medo é esse que grande parte dos homens têm de nutrir outros sentimentos por mulheres, que não sejam apenas os baseados no amor físico. Parece que não sabem lidar com isso. Talvez por certa onipotência masculina, talvez por absoluta necessidade de comando, talvez por vaidade, talvez por medo de não encontrar e não saber onde guardar sentimentos antigos, sem aquecê-los, e por isso evitam vivê-los.

Há sim amizade entre homens e mulheres. Há sim admiração entre homens e mulheres. Há sim sentimentos de maturidade entre homens e mulheres, que podem existir sem amor físico ou mesmo após este ter existido. É preciso aprender a transformar, a reciclar sensações. Não somos seres primitivos que se mantém apenas nutridos por instintos básicos. Somos seres sensíveis, delicados, frágeis também. É preciso reconhecer, admitir isso. Agressividades gratuitas, humilhações cotidianas revelam, na maioria das vezes, fraqueza moral e, sobretudo, grande imaturidade. O que é mais “simples” é mais fácil. Sempre.

Dedicatória:  A todas as mulheres e à sua sensibilidade natural.

 

Texto: Odonir Oliveira

Vídeos: Canal Clara do Brasil