José

ALTO-FALANTES NA PRAÇA

Berenice viajava no vagão 12. Era sua primeira viagem de trem. Teria ido de avião, pelo menos num trecho do percurso mas, convencida por amigos, iria encontrá-los … de trem. Recomendaram tanto, já que estaria apenas no início das férias, haveria tempo, que fizesse aquela longa viagem até eles.

Tudo lindo, rios, matas, montes, flores, passeios feitos, sentada, com ar condicionado, restaurante, lanchonete, bons banheiros. Encantada.

De repente, fogo na mata, incêndio mesmo. Trem seguiria até a próxima estação e esperaria que debelassem o fogaréu. Horas e horas. Opções seriam pernoitar na cidadezinha, seguir de ônibus ou permanecer na estação bucólica onde aguardavam. Havia café, lanchonete, banheiros e bancos. Bancos.

Berenice optou – surpreendentemente – por um banco da estação. Sem saber por quê. Sentou-se, abriu a grande mochila e continuou sua leitura do livro de memórias. Confiava em sua opção. O trem seguiria, não seria necessário o pernoite na cidadezinha. Nem quis conhecê-la. Quase todos foram.

Conheceu, então, José que se sentou ali, calado, observador, com um livro de poemas de Neruda nas mãos, sem ler. Olhou para ela, interrogativo. Começaram a conversar. Falou da família, da mãe, das belezas do país, de gente, de valores. Berenice encantou-se com ele. Seria mesmo José o seu nome, seria casado, a qual cidade estaria indo, fazer o quê? Aquilo tudo que lhe contou seriam verdades? Em certo momento chegou a afirmar que o que procurava nas mulheres novinhas eram apenas os feromônios, mas era mais seletivo, valorizava tantas outras coisas numa mulher etc. Foram horas de conversa, de bom humor, de piadas, de trocadilhos, de presença de espírito, Berenice continuou encantada. Mas que homem é esse, meu Deus? Duas covinhas, a pele de índio, o nariz de negro, a graça incomum. Que homem é esse? – continuava se perguntando.

Problemas contornados, tráfego restabelecido, horas e horas de bagagens comuns. Berenice já conhecia José havia décadas? A saber.

José despediu-se. Desceu na estação a que se destinara. Ela anotou o nome da estação. Chegando ao encontro dos amigos, narrou tudo aquilo. As versões dadas pelo casal ao fato ocorrido iam desde predestinação, karma, até ilusão de ótica, cansaço, sonho, delírio. Riram muito da história de Berenice por semanas.

José, manifeste-se, apareça, sejamos amigos, ficou algo sem entendimento? Por favor, conversemos mais. Era assim que Berenice passou a tentar encontrar sua ilusão de ótica, depois daquele dia. Anunciava em jornais das cidades vizinhas, dedicava canções nas rádios locais, em programas noturnos e, por fim, passou a dizer suas mensagens nos alto-falantes das praças da cidadezinha onde descera José, e em outras ao redor. Por três vezes foi até a tal cidade, mas temia ser inconveniente, cometer qualquer invasão de privacidade.

Concluiu que José – seria esse o seu nome mesmo – era um homem casado, comprometido, enrolado, sem poder se envolver com mulher alguma mais. Ficassem amigos, então.

Algum dia outras estações poderão ser visitadas, exploradas, conhecidas – avaliava Berenice que nunca mais fez aquele percurso. Entendeu que ”José” fizera outras escolhas e respeitava aquilo.

COMPANHEIROS DE VIAGEM

Nos dias de lúgubre cenário, há sempre quem nos faça companhia.
Há rostos, mãos, vozes, risos e ouvidos a nos velar as falas.
No banco, ao lado, na entrada, na saída, no percurso,
há sempre alguém sentado anonimamente.
Como querubins e serafins, colorem de humanidade nosso trajeto
São asas farfalhantes e desconhecidas que nos impulsionam ao desembarque.
Trocam-se confidências, revelam-se segredos, pedem-se conselhos
Depois, cada um desce do trem na estação pretendida
E a viagem continua.
Há sempre um companheiro na nossa viagem.

VARANDAS

passa boi passa boiada
um monte
uma cerca
uma invernada.
passa boi passa boiada
um açude, um aceno
um olhar até onde pude.
apito aviso
apito grito
apito choro
apito lembranças
apito conversas
apito promessas
apito chegadas
apito despedidas.
um túnel esgarçando em mim
uma luz no fim começo
no fim travessia
no fim revelação.

VAGÕES

Há como um compasso aberto
no traçado de certas rotas.
Toca-se ao extremo a superfície
apoia-se a ponta seca nos dormentes
eriçam-se os cordeiros
empina-se a fornalha
queima-se um fogo eterno
por bancos, poltronas , estribos, trilhos.
Vagões vagueiam por espaços etéreos
de estradas verticais qual pássaros audazes.
Há como uma geometria desconexa de espelho,
imagens se opõem ainda que as mesmas.
Há um mistério no sussurro lamento
do apito de um trem.

ENCONTROS

Ama-se o amor
Ama-se a busca do outro em si mesmo
Ama-se um acordo de pensamento que batiza encontros
Ama-se um gesto, um riso, um toque, um olhar
Ama-se um jeito, um comportamento, uma capacidade
Ama-se um cheiro, uma seiva, uma pele.

INVERNOS

Quantos invernos cumprirão uma existência?
Quantos dias de chuva e de bonança comporão uma existência?
Quantas luas serão suficientes para um grito de êxtase e felicidade?
Quantas raivas, dúvidas, indecisões e tropeços antecederão um beijo?
Quantas falsas interpretações dos sinais emitidos pelos ventos,
quantas incorretas leituras de sinais de fumaça,
quantas incompreensíveis decodificações de letras e números
quantas indecifráveis frases serão culpadas
por improváveis leituras de estrelas?

MÃOS DO DESTINO

Que traçado é este, destino, que insistes em me fazer trilhar?
Por que me fizeste acreditar na leitura de minha mão?
Como conseguiste aspergir de morenice essas minhas noites de luar?
Quando estaria mais perto a estrela que me sorria e tão alto luzia ?
Que rota é essa de ramais tortuosos que me estendes sem termo ou chegada?
Responde, destino, que não suporto mais ter que desvendar-te !

Texto e poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal: Viagens de trem por RJ, SP e MG

Vídeo: Canal VADO VADUSKA

Janela discreta

LUAU

terra firme
canoa silente
em serenata
líricos coaxares
murmúrios solitários
ruídos de pirilampos
tantos
corredeira de rio
frio
ventos leves
febre
dó ré mi fá
estrela lume
halo da lua
halo de gente
sol lá si
sós

MULHERES APAIXONADAS

Durante alguns anos, observei pessoas e, principalmente em terapias reichianas em grupo, pude conhecer muitas histórias de amor. Sempre me interessei mais, e guardei na memória, as das mulheres – por motivos de identificação ou por oposição. Gostava de tentar compreender aquilo que narravam, visualizar os episódios e até sentir o que haviam sentido. Enfim, sempre fui solidária àquelas histórias, nunca critiquei suas ações ou não-ações, sei que nessas coisas de amor, quem ridiculariza o outro é, no mínimo cabotino; quando não, cruel.

Assim, quando estou ouvindo uma canção ou até lavando a louça, me vem a imagem daquela mulher e da situação vivida. Lembro, reflito, às vezes com outro olhar … e quero escrever aquilo.

SANGUE

pulsando lateja
correndo percorre
fervendo explode
muitas vezes
muitas vezes
muitas vezes
ele e eu
eu e ele
ele e eu
eu e ele
veias dilatadas pulsando
veias quentes gritando
veias dele sobre
veias dela sobre
transfusão
transfiguração
rios vermelhos
tempestades vermelhas
sem afluentes
desaguando num mar

JANELA DISCRETA – I- ”FENÊTRE”

Cíntia era assim.

– Eu? Homem nenhum faz de mim o que quiser. Vou lá, pego, mato e como, hahaha, duvida?
– Mas parece que ele tá com a outra, todo mundo tá vendo, Cíntia.
– Tá nada. Ganho fácil. Eu sei do que esse tipo de homem gosta. Ela não tem isso, não. Sabe a ” Jennifer” da música, então? Ganho, fico, não tem pra ela não. Porque os direitos são iguais. Homem e mulher, sexo, cerveja, cigarro, gargalhadas, quer melhor? Nenhum zé resiste, neguinha.
– Vai se apaixonar pelo zé, hem?
– Eu? É zé, igual a todos os outros da praia, da quadra, do samba, do forró. Entendo de homem e sei o que é bom. Eles precisam de mim e eu deles, o combinado não é caro, minha santa.

Cíntia sabia do que estava falando. Brincava bem. Jogava em várias posições e não cometia falta, nem cobrava … pênaltis. Fez tá feito. Gozava com gosto em campo. Era mulher gol. Valorizava sexo casual, sem relacionamento, sem namoro. Dizia que os caras pareciam gostar disso, mas que, na verdade, queriam era a caça. Amoleciam, bambeavam sem a caça.

Começou a ver que o zé pensava como ela. Pensava só ou agia também ?

Resultado: no atacado a casual, a free; no varejo, ah, no varejo cedeu.

Caiu de joelhos pelo zé. Não desgrudava mais dele, mensagens, viagens, aproximação cheia de artifícios e joguinhos. O pessoal do forró nem fechava muito com aquilo. E dizia pra ela. Mas estava cega. ”Quem me ama me aceita assim vida loka como sou. Se não gostar, pode ir embora”. Era assim a Cíntia.

RITMO

saiu à tardinha
no metrô o olhar dele já a seguia
na entrada um odor de Dionísio
um copo vazio
um copo cheio
a vez, a voz, a música esperada
o salão cheio
a pista cheia
a dança sem ele
os braços, as coxas, os pés
a dança com ele
o encaixe, o encontro, o suporte
suas mãos envolvidas na cintura dela
giros, ritmo, risos, cor,
mesmos
olhos fechados dele
olhos fechados dela
quem é ele
quem é ela
dançam
riem, giram, envolvem-se
dançam
nela a música
nele a música
dançam
riem, fluem, voam
dançam

JANELA DISCRETA – II – ”FINESTRA”

Quem nunca?

Conheceu o ruivo e fugiu dele. Era uma cafa de marca. Convencia até freira a morder hóstia, digamos assim. Era mentiroso demais. Rei dos álibis, dos disfarces, das encrencas mal resolvidas. Negava sempre, página zero do manual do cafa, sabe como, né. Era um donjuan canhestro, se achando a última bolacha do pacote, o rei da cocada preta. Mulher pra ele não fazia diferença, isto é, caía na rede era peixe. Preferia as que não haviam tido filhos, por motivos óbvios, dizia. A carne era mais macia, mais estreita, mais saborosa.

Conquistou, com disfarces, a moça do apartamento exatamente embaixo do dele. Rodeou, ela resistiu. Encenou, ela resistiu, fez a dança do acasalamento em serenata, ela resistiu.
Valdete, a Dete, a Detinha, era dura, conhecia aquele tipo de homem. Se quisesse, entraria na jogada por desejo seu, mas que conhecia, conhecia.
Era carioca folgadão, chegava com aquele papo de ”se tiver teia de aranha, a gente tira’‘, ‘‘vem se deleitar na macaxeira do zé aqui”, ”vem pra felicidade”. Papo cafa mesmo.
E acontece que jogava ao mesmo tempo com várias. E, sem distinção, fosse quem fosse, indo ao seu encontro ” receberia dele a maior assistência’‘. Era aquele tipo de homem que, já desinteressado, costuma dizer ”Eu não te mereço, você vai encontrar alguém que te ame’‘ e que quando sabe que a mulher já está com outro, logo diz ”que bom pra ela, e assim vai parar de me perseguir

A Dete foi na dele. Apaixonou-se. Ele já estava com a Val, uma outra, engatilhada, a ponto de bala. Ela não sabia. A Dete perdia pra Val em alguns quesitos.
O zé gostoso deu de debochar de Dete, ironizar seu amor, suas buscas por ele. Algo assim como se fosse um dono de harém.” quem nunca … teve uma apaixonada correndo atrás? ”, costumava comentar com outros, quando tinha plateia.
Nunca teve irmã. Nunca teve sobrinhas.
Mais tarde teve duas filhas.

CORPOS

nus
eram uns
nus
eram outros
sem nomes
sem restos
sem rostos
sem máscaras
sem mitos
sem metas
sem mesmos

tronco membros cabeça
membros tronco cabeça

tronco e membros
membros e tronco

sinfonias

JANELA DISCRETA – III – ”WINDOW”

Jéssica conheceu aquele rapaz pela Internet. Site de relacionamento? Nada. Rede social. Era de outra cidade. Encantou-se com ele.

– Tia, já chega minha mãe, você também não. E daí, gente, gosto dele, corro atrás mesmo. Se eu não fizer assim, tem outra que vai fazer.

-Mas pôs silicone nos seios por que, Jéssica? Não gostava deles, incomodavam, está se sentindo mais feliz, precisava mudar seu corpo?

-Nunca liguei pra isso, tia, mas homem gosta de seios maiores, é exigente, entendeu? Toda mulher mexe nisso. Aqui em casa todo mundo tem seios pequenos, somos magras, pernas finas, é de família. Não ia conseguir me dar bem com nenhum companheiro desse jeito, tia. Aí resolvi logo isso.

-E com esse rapaz da rede social, está se dando bem? Ele valoriza você? Reconhece esse seu esforço de deixar tudo aqui, amigos, programas que você fazia e ir pra lá ficar com ele?

-Acho que sim, né, se não nem me recebia lá. Mas também não dou mole, vou atrás mesmo. Caso contrário tem quem ocupe o vácuo. Hoje tudo é assim.

– Ele quer só diversão, isso satisfaz você? Foi pra isso que você abriu mão de todo o resto? O contrato entre vocês é só esse? Não está barato demais, não? Pra você?

-Os tempos são esses, tia, vocês não compreendem. A gente fica junto, viaja, dança, bebe, transa, ri, namora e tá valendo. Quando eu não estiver com ele, não quero saber. Liberdade.

-Mas você também age como ele? Tem outros namorados? Vejo é você indo sempre pra ficar com ele.

-Não, não fico com outros. Mas ele até pensa que eu fico. Feminismo, tia, já ouviu falar? A gente é empoderada, faz o que quiser, vai aonde quiser.

-O amor de vocês é curioso, né Jéssica.

-Se não fosse assim, não existiria, tia.

JANELA DISCRETA – IV – ”窓 (MADO)”

Bairro da Liberdade. Sampa. Trabalhava lá. Morava no bairro vizinho. Escritório.

Nos ônibus, no metrô, tudo quanto era homem vivia querendo alguma coisa com ela. Praga ! Não sabia por quê, mas não aguentava mais aquilo. Era assim que Suzette relatava às amigas do grupo de terapia bioenergética a sua cruz com os homens. As outras se divertiam dizendo que achavam que ela fazia caretas e por isso provocava aquelas reações nos homens.

Suzette vivia lendo alguma coisa na condução. O quê? Ah, o Jornal do Metrô, um folheto de propaganda, uma revistinha de pedidos da Natura. Alheia sempre ao entorno, blasée.

Naquela manhã desceu na estação do metrô e … foi seguida. O homem a observava de perto e viu quando entrou no prédio. Depois foi obter as informações sobre Suzette, inclusive seu nome e o horário em que deixaria o escritório – o porteiro do pequeno edifício fora camarada até.

No fim da tarde, o homem estava à sua espera. Pediu para conversar, se apresentou e contou que havia sido enfeitiçado por ela. Suzette se assustou um pouco. Um pouco. Depois ouviu tudo. Fez ar de superioridade e considerou encontrar-se com ele em outro dia.

A insistência do homem não rendia muito. Era daquele tipo que gostava de falar umas tolices, umas sacanagens sem propósito, achando que seduziam, excitavam etc. Ela era mulher para muitos talheres, ao contrário, via naquilo muita vulgaridade, cantada comezinha, sabe como é? Quando saía com ele, no carro importado, cheio de acessórios, não dava a mínima para o motor, o estofamento, a parafernália de som e imagem. Apenas ia. Era tudo muito, muito comum.

Na terapia, continuava a reclamar da perseguição dos homens pelos caminhos. O terapeuta chegara a perguntar a todas se não seria pelo ar blasée de Suzette. Homem adorava ser desprezado? Gostava de investir e de insistir na conquista? Seria isso?

JANELA DISCRETA – V- ””FINESTRA”

– Encontrou com ele ontem na pracinha? 
– Encontrei nada. Vi de longe. Nem parece aquele homem lindo com quem tive meu filho. Fui andando e não falei nada. Fiquei observando. Sabe um cara grosseirão … não sei como as pessoas se transformam daquele jeito. Já pensou se eu tivesse ficado com ele, nossa, foi livramento minha filha, foi livramento. No começo não entendi assim, mas depois, sim.
– Como foi que você engravidou, Lena, isso já não acontecia na nossa época.
– Ele vinha de São Paulo nos feriados, depois nos fins de semana e aí, a relação foi ficando mais constante. Eu tomava pílula, mas tinha que ficar escondendo da minha mãe, sabe né. Esquecia de tomar.
– Mas e ele não tinha como evitar? Só você?
– Ah, nos anos 70 quem tinha que evitar gravidez era a mulher, os caras não tinham nada com isso. Só perguntavam se a gente estava tomando pílula e pronto. Ninguém usava preservativo não. A tal história da bala com papel, lembra?
– Mas não usavam nunca, você acha?
– Usavam sim, senão as fabricantes não fariam mais, né. Eles usavam com as prostitutas, na zona, nos bordéis e para se protegerem das doenças, sífilis, etc. Em casa, com as esposas, era um filho atrás do outro. Minha mãe teve 8, duas gêmeas.
– Mas quando você falou que estava grávida, o que ele fez?
– Disse que ia pensar, voltou pra São Paulo. Eu fiquei com aquela reação dele em mim. Não era garotinha, né, mais de 30 anos. Todo mundo achava que eu tinha engravidado porque quis. E não era.
– Mas dizem que no inconsciente, a mulher engravida porque deseja ser mãe, sente falta disso e acolhe a fecundação. Os psicanalistas analisam assim.
– Pode até ser, mas ele contou pra mãe dele lá em São Paulo, que mandou me chamar. E eu fui. Ela disse que receberia o neto com amor, mesmo se seu filho não o assumisse. Mas deu nome e tudo. Só não casamos. Casou com outra, mais tarde.
– Ah, agora entendi porque você se dá tão bem com a família dele até hoje e seu filho, já um adulto, também.
– Foi assim. Eu posso dizer que amei muito o pai do meu filho. Mas quando ele se afastou no momento mais necessário, aquilo morreu em mim. Mesmo depois, quando meu filho foi crescendo, indo sempre lá pra casa da avó, das tias, mesmo assim, aquele homem ficou muito pequeno pra mim. Meu filho é importante; ele, não.
– Depois, você não teve ninguém mais, Lena?
– Muita gente. Danço, bebo, beijo, abraço, transo e tiau. Nunca mais me liguei a nenhum homem. Não que eu não quisesse. Mas não consegui. Não brota mais amor em mim pra me fixar em alguém, entendeu?
– Foi o tempo o responsável?
– Não sei. Não me abri mais para sentir o que sentia por ele. Sou outra. Fui vivendo assim. Agora já tenho até minha netinha. Linda. Mas continuo dançando, abraçando, beijando. Vou indo.
– Vamos ao ”Pilequinho” um dia desses? Lembra das batidas deliciosas de lá? Eu adorava a de abacaxi com vinho, e você a de pêssego, né. Vamos?
– Claro, adoro, vamos sim.

JANELA DISCRETA – V – ”OKHO”

Olhos de tigre.

Bagunçou tudo. Revirou suas gavetas. Falou alto com decisão. Falou baixinho em seu ouvido. Entregou-lhe prosa e perfume do novo, de novo. Entornou seu vinho. Sujou a toalha da mesa. Adorou a lasanha. Entrou com pés sujos. Trocou a música da vitrola. Dançou rock. Atirou cabelos molhados de louro e cinza, bem no meio do quarto. Falou verdades e mentiras com a mesma graça. Dourou o amanhecer. Enluarou as noites e as madrugadas. Citou e discutiu Nietzsche com sedução. Cantou em inglês. Ensinou Pink Floyd em carne e osso. Sabotou seus fracassos. Ludibriou suas certezas. Pintou seus olhos de gatinho. Passou-lhe o batom vermelho- madrugada. Cortou seus cabelos à máquina zero. Salgou-lhe língua, mamilos, umbigo e ardores. Caminhou de mansinho para não acordar o amor dormindo ali. Acordou o amor dormindo ali com mordidas de mel. Sapateou seus medos com afagos, toques, começos e fins. Escreveu frases de mel e fel no papel. Caminhou cedo, correu ao meio-dia, caminhou às tardes na autoestrada, abriu o portão ao anoitecer. Esteve sempre presente na terra, no fogo, na água e no ar. Foi nuvem que desceu naquela barraca de camping. Dançou o tango de sua pátria em sua pátria. Falou em castelhano em seu ouvido bêbado de paixão. Caminhou de mãos dadas provocando inveja em olhares azedos. Ensinou o desafio, a raiva, o grito, a pressa, o alívio. Foi gaivota, canário, sabiá. Leu seu corpo em todas as línguas. Escreveu em inglês, de propósito, para provocar leitura em suas línguas todas. Riu, riu muito, gargalhou alegrias e riscos de vida e de morte em um só gozo. Homem, escorregou suores dos pés à cabeça. Menino, inverteu a vida até seu último minuto.

Zé, homem-menino, eternamente nas nuvens. Morto ou vivo, assim.

ποιητής , poietés

Ah, pudesse eu, imitando deuses,
ser palavra criadora
ser a que produz, a que fabrica e confecciona.
Sou uma operária na poesia.
Já avisei a Safo que não serei ela.
Já me expliquei com Teógnis, aristocrata,
sou plebeia, filha de fresador ferramenteiro,
não sei de lutas políticas o suficiente.
Já me entendi com Anacreonte, que pouco sei ser satírica
em versos de vinho e de amor.
Sou o que me fizeram.
Sou daqueles que me influenciaram.
Sou sombra deles, irremediavelmente

JANELA DISCRETA – VI – ”παράθυρο”

Noite de lua … não olhou a lua lá fora. O e-mail a tirara do chão. “Saudades”. Por que tão mexida assim, agora, depois de tantos anos! O conteúdo, o pedido delicado, a menção suave a ela, por que tão mexida assim, meu Deus?

Amor de sua vida. Primeiro amor de carne e pele de sua vida. Por que tão mexida assim? Lembrou que ele gostava de mar, era de São Paulo, sem mar. Amar. Aquela barba grande, aquela literatura toda, aquela bolsa de couro repleta de livros, aqueles 10 anos a mais dele, aqueles jantares nos bandejões regados a James Dean, juventude transviada, On the Road, Kerouac, Jules e Jim, Maysa, ah Maysa, Sartre e Simone de Beauvoir, Mário de Andrade, a ditadura militar. Tantos encontros fortuitos, tantas caminhadas de mãos dadas pelas noites, tantas sessões de cinema, pré-estreias.  Que estímulo à leitura, que vontade de ler todo o Sartre pra poder discutir sobre aquilo com ele, que vontade de conhecer Pessoa tão melhor. Passeios de dentro, passeios por dentro.

Por que tão mexida assim agora … “Saudades”. Valorização de palavras escritas, de lirismos uns e outros. Estrada conhecida, familiares, amigos, destinos ..“Saudades”.

Tempo, inimigo cruel de corpos, de projetos, de trajetórias. “Saudades”. 45 anos depois, umas fotos, uns elogios, um reconhecer de carne e osso, um aroma de gente que se conhece, que sabe o valor de si e do outro. “Saudades”. Umas sensíveis observações, uma seleção das histórias preferidas. Olhares pelo retrovisor. Tudo caminha, evolui, se espraia …

Que acaso misterioso é esse que faz uma palavra ganhar tanto sentido. “Saudades”.

Textos e poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Fotos retiradas da Internet : 1-5-7

Vídeos:

1- Canal PedroProgresso

2 e 3- Canal gipsykingsVEVO (canções enviadas por meu filho para começarmos bem o dia; renderam)

Amor de mulher IV

CAMINHOS DE SOL

Separaram-se amando-se perdidamente. Perdidamente … já não se sabe. Só quem sabe de dois são os dois mesmo.

Filomena, a Filô, era apaixonada pelos diferenciais de Ricardo, o homem amado. Ele, envolto em um Édipo sem fim, de cuidados e superproteção materna, não se fixava em mulher alguma. Mas costumava deixá-las dependuradas nele eternamente – típico exemplo de gestalt interrompida. Seguiria assim, o perfeito amigo, posterior aos namoros e apaixonamentos.

Filô era corpo e pele, caixa amplificadora dos sons do amor. Alto- falantes à mostra, aos ouvidos. Viveram juntos por dois anos, tiveram um filho. Entretanto, o interesse de Ricardo por ela ia diminuindo. Logo depois do filho, ao se aninharem na cama, carinhosamente, aos beijos, abraços e prelúdio, perguntou-lhe se já poderiam ser um. Ao que ela não respondeu com palavras. Ele era assim. Depois foi vendo-a como a santa mãe de seu filho, quase num procedimento semelhante ao dos poetas românticos do século XIX. Isso incomodava demais Filô. Ora, ora, santa é a mãe !

Quando ele viajava a trabalho, junto com sua equipe, ela costumava ouvir das esposas dos outros ”Dou graças a Deus quando o zé viaja, me sinto livre, vou ao shopping, ao cinema, ao cabeleireiro, passeio, sem preocupação nenhuma. Podia ter uma viagem dessas por mês, né”. Filô era só ouvidos, porque, diferentemente, morria de saudades da voz de Ricardo, de sua pele aninhada à dela, de sua voz doce, de suas conversas com ele e de serem um.

Após tentativas de reaproximá-lo em corpo e alma, Filô, agora mãe, resolvera e dissera a ele. ”Quando você voltar dessa viagem a Salvador, vamos conversar sobre nós”. Ele concordou.

Antes disso, já havia conversado com a mãe de Ricardo sobre o assunto. Sentiu-se mexida em brios, como um filho seu, tão jovem, apresentaria tal comportamento. Pediu que marcasse uma consulta com aquele psiquiatra famoso da televisão para Ricardo. Ela pagaria. Foi. O psiquiatra disse – segundo ele – que todos os grandes personagens da literatura, por exemplo, tinham amor por suas musas e não tesão físico. Isso seria de menor importância, citando diversos exemplos. Isso serviu de álibi amoroso para o Ricardo de Filô. Era o vamos deixar como está pra ver como é que fica.

Filomena encheu-se de coragem e pediu que ele fosse embora. Sentia-se muito mal, humilhada mesmo, com seu desinteresse. Antes, batalhara tanto para tê-la, e ela resistira em nome de uma continuidade, eram tão amigos, tinham tantas identidades descobertas … depois de tudo aquilo, agora o desinteresse. Não. Inaceitável. Separaram-se.

Ricardo mudou-se para um prédio na mesma rua, dois quarteirões acima, no mesmo lado. Afirmava que com menino pequeno era bom ficarem próximos. Um novo terapeuta lhe teria dito ‘‘Pra que tantos gastos, entra um pela sala; outro, pela cozinha e estamos conversados” – ironizando a escolha de endereço de Ricardo. Pois é.

A cada fim de semana uma namorada nova, linda, mais jovem que Filô, o esperava no carro, enquanto ele subia para buscar o menino. Ela olhava da janela o carro sumindo, sumindo, levando sua cria e a namorada da vez. Assim seria ainda por alguns anos.

Agora, aquele bilhete, aqueles versos, aquele poema, deixado na portaria do prédio, em envelope aberto, no qual se lia apenas o número de seu apartamento. Pareciam letras femininas.

Perdi

” Perdi as folhas e os escritos, perdi o poema que escrevi à pouco, perdi a vontade de rescrever, perdi as nuvens que não chegaram e os sonhos que ainda não sonhei, perdi o sono que não encontrei e perdi a certeza de que sonhei. De entre todas as loucuras do mundo apenas a minha é sã, nesta liberdade condicional que me atribuíram sem julgamento, julgo escrever sem fundamento o que a alma vomita, porque sentir eu sinto, e viver nisso minto, não sei se vivo ou se morto, sei que eu sou, mesmo que não esteja, embriaga-me seriamente saber que me amas, ainda que eu te ame sem reciprocidade, amamo-nos, ainda sem nos somarmos, antes de nos dividirmos, na impossibilidade física de nos multiplicarmos… 
Que venha o sono, ou a loucura de o dormir!”

Ah, o amor, esse carrasco que fazia Filô chorar todas as noites, imaginando os beijos, os abraços e o sexo que Ricardo tinha com todas aquelas namoradas de ocasião.

Certa vez perguntou a ele se fazia AMOR com elas naquele colchão grandão, sob medida, que ambos haviam mandado fazer pra eles (Ricardo era muito alto), e se ele as chamava de ”marida” também. Ele riu, a abraçou, aconchegou-lhe a cabeça no peito e completou ”Cada relacionamento tem suas coisas particulares. Esqueça isso”.

Filomena, a muito amada, já diziam gregos e troianos.

CORPOS

nus
eram uns
nus
eram outros
sem nomes
sem restos
sem rostos
sem máscaras
sem mitos
sem metas
sem mesmos

tronco membros cabeça
membros tronco cabeça

tronco e membros
membros e tronco

sinfonias

GESTOS

de espasmos
de espaços
de espécie
de epicentros
de ex-pontes
de ex-pulsos
de ex-braços
de ex-ventre
de espasmos
de expulsos

DAS DORES

Das Dores
pinga dores lágrimas e lamentos.
Das Dores
verte sangue pus fedores.
Das Dores
amarga manhãs tardes noites
na clausura de subidas e descidas
em companhia solene de anjos, serafins e querubins.
Das Dores
entrega sua lira aos deuses
na esperança de que pousem em sua janela,
devolvendo-lhe luz, cor e o perfume dos dias.

MARIA

Bebe veneno no frio
come veneno no calor
cheira veneno no quintal
olha a lua
fala com as estrelas.
Chora com as ondas
soluça com as serras
engasga com o sol.
descama com a fumaça.
Sofre com incertezas
emagrece com torpezas
engorda com durezas
desfaz-se em friezas.
Maria
faz travessias na garupa do cavalo torpe
que lhe encilha a alma.

O texto do bilhete é do poeta português Alberto Cuddel 

Poesias e textos: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1- Canal Francisco Roberto Bertrão

2- Canal Biscoito Fino

Amor de mulher III

SOFIA PERDEU O TREM

A metrópole ardia em começo de férias. O trânsito caótico, a chuva fina. O sonho agitado na noite anterior era ainda enigmático para Sofia. Corria, corria, da estação em direção aos trilhos e não alcançava o trem.

Ela, o marido e a filha bebê fariam sua primeira viagem naquele trem noturno até a outra cidade. Era aniversário da mãe. Compraram passagens de ida e volta. Dormiriam na cabine de nº 28 na ida e na 31 na volta. Esperava, sonhadora, por aquela viagem. De tudo que namorara nos filmes de tela grande, era sonho a ser concretizado. Desses que se tem numa listinha e vai-se assinalando como num rol ”esse já foi”, e vai-se projetando outro e acrescendo mais outro. Viagem de trem, em cabine, com restaurante, com cama, hum, era um sonho na lista.

De tarde, arrumou valises, objetos da bebezinha, muitas coisas, presente para a mãe, e deixou que o marido, chegando do trabalho ao fim da tarde, fizesse o mesmo com as coisas dele. Atrasou-se um pouco com os técnicos que não conseguiam fazer uma máquina extrusora funcionar. Prejuízos para a indústria, pressão dos patrões, engenharia em tensão. Chegou. Arrumou suas coisas, arrumou-se.

Chamaram o táxi. No caminho até a estação mais tensão. Trânsito parado, caótico, chuva fina, começo de férias. Estação de trens, ao lado da estação rodoviária, centro da cidade. O suor escorria-lhe pela testa e descia até o seio que antevia a perda. A perda do trem. Significado antecipado no sonho-aviso. A bebezinha dormia, depois de ter mamado no mesmo seio que agora suava quase em lágrimas de nervosismo. O táxi não andava. O táxi não andava.

Teve vontade de descer com a filhinha e ir caminhando o trecho, não muito longo, que ainda faltava. Mas e as valises, o carrinho, o marido? E sua romântica viagem na cabine do trem com o homem amado? Estava tudo cinza, chovia, suava, sofria.

Chegaram. Corria pela estação com sua filhinha grudada no corpo, amarrada no canguru. O marido mais atrás com as valises, o carrinho. Foi ao guichê. Onde é o embarque? O trem já partiu. Como? Não podemos pegá-lo na próxima estação, vamos de carro e o pegamos lá. Não. Esse trem é direto, capital a capital, a senhora não leu as instruções?

Claro que Sofia havia lido. Era apenas uma tentativa de não perder seu sonho, de não deixar de viver aquilo por que tanto esperara. Voltaram em outro táxi, ela muda, a bebezinha dormindo e o marido repleto de culpa e de insatisfação. Argumentou uma coisa ou outra, o tempo chuvoso, o trânsito caótico, em num chiste ainda acrescentou Tá parecendo mineira que chega uma hora antes na estação e ainda perde o trem. Sofia riu um pouco, sem vontade.

No dia seguinte foi acordada pelo marido, Vamos acorde, o avião não vai esperar não, nem parar na próxima estação. Vamos que o aniversário da sua velha já é hoje. Sofia não acreditou naquilo que ouviu. Foi.

Na volta, chegou, mineiramente, bem antes à estação. Voltaram de trem, se amaram no trem. A bebezinha, uma santa. Jantaram no trem. Ouviram música no trem. Aquele sonho-aviso só mostrava a ida, não falava nada da volta. E Sofia voltou de trem.

A INCRÍVEL HISTÓRIA DAS VEIAS BAILARINAS

Reza a lenda que viviam num corpo feminino umas veias bailarinas. Uns as conheciam por dançarinas também.
Ocorre que quando lhes queriam chupar até a última gota, escondiam-se. Não havia como encontrá-las. Simplesmente escondiam-se.
Os profissionais do sexo masculino, apressados, gabavam-se de seu ofício, ”nenhuma veia me dá baile, é bailarina, né? vamos ver”. Era trabalho na certa, muitas tentativas, muitas perfurações, muita impaciência. E as veias resistindo.

Naquele corpo ninguém tocava gratuitamente. As mamografias, aqueles sanduíches, tostex de mamas, eram doídos, torturantes, invasores e violentos. As lágrimas lhe escorriam dos olhos como reação à tamanha violação de corpo. Corpo feminino exige mais. E só as profissionais femininas davam conta de tocar-lhe as mamas grandes, sem feri-las.

Naquela manhã, a jovem Yasmim, pressentindo sensibilidades, tomou-lhe dos braços as energias, analisou, passou neles o detector de veias, meticulosamente. Perfumada como jasmim, Yasmim iniciou as preliminares com as veias dançarinas. Tratou de acariciá-las, deu pequenos toques para energizá-las, trazê-las para serem vistas, para que atendessem as batidinhas na porta. Nada de atropelos, nada de correria, nada de pragmatismo de macho. Tudo delicadeza, tudo refinamento, nada de instinto animal. Seda, de seda eram suas mãos.

A importância das preliminares para corpos sensíveis é inegável. Atingiu seu objetivo, infiltrou-se pelo corpo feminino, entrou em sua pele, sugou seu néctar de sangue. Até a mais. Ao final, perguntou, com certa graça, ‘‘quer levar o que sobrou de recordação, num tubinho?”

Nunca fora tão simples, dar sangue para análise completa.
Há uma gota de sangue em cada poema, escreveu Mário de Andrade.

QUEM NUNCA ?

Conheceu o ruivo e fugiu dele. Era uma cafa de marca. Convencia até freira a morder hóstia, digamos assim. Era mentiroso demais. Rei dos álibis, dos disfarces, das encrencas mal resolvidas. Era um donjuan canhestro, se achando a última bolacha do pacote, o rei da cocada preta. Mulher pra ele não fazia diferença, isto é, caía na rede era peixe. Preferia as que não haviam tido filhos, por motivos óbvios, dizia. A carne era mais macia, mais estreita, mais saborosa.

Conquistou, com disfarces, a moça do apartamento exatamente embaixo do dele. Rodeou, ela resistiu. Encenou, ela resistiu, fez a dança do acasalamento em serenata, ela resistiu.
Valdete, a Dete, a Detinha, era dura, conhecia aquele tipo de homem. Se quisesse, entraria na jogada por desejo seu, mas que conhecia, conhecia.
Era carioca folgadão, chegava com aquele papo de ”se tiver teia de aranha, a gente tira’‘, ‘‘vem se deleitar na macaxeira do zé aqui”, ”vem pra felicidade”. Papo cafa mesmo.
E acontece que jogava ao mesmo tempo com várias. E, sem distinção, fosse quem fosse, indo ao seu encontro ” receberia dele a maior assistência’‘. Era aquele tipo de homem que, já desinteressado, costuma dizer ”Eu não te mereço, você vai encontrar alguém que te ame’‘ e que quando sabe que a mulher já está com outro, logo diz ”que bom pra ela, e assim vai parar de me perseguir

A Dete foi na dele. Apaixonou-se. Ele já estava com a Val, uma outra, engatilhada, a ponto de bala. Ela não sabia. A Dete perdia pra Val em alguns quesitos.
O zé gostoso deu de debochar de Dete, ironizar seu amor, suas buscas por ele. Algo assim como se fosse um dono de harém.” quem nunca … teve uma apaixonada correndo atrás? ”, costumava comentar com outros, quando tinha plateia.
Nunca teve irmã. Nunca teve sobrinhas.
Mais tarde teve duas filhas.

CORAÇÃO TRAIÇOEIRO

Recordações espremem limão na pinga
Companheiros ouvintes de peito encharcado
Narram loucuras e entregas
Eu abandonei tudo por ela
Saía da cidade, rodava mais de 500 quilômetros,
mas um amor com uma estrada no meio tem seu valor,
depois ela montava meu cavalo e galopava comigo por dias,
sem tirar,
sem reclamar
só prazer
”.

Como num jogral afinado, o outro desfia
Vivi perdido por meses no meio do mato,
entre rio e mar,
caminhadas de só nós,
em pelos e mel,
abandonei trabalho, família, cidade,
mas valeu cada milhar de moedas deixado ali
”.

Pinga e choro.
Alguém traz um cavaquinho, um violão
Bebem
Comem
Iguais

São iguais

CÍNTIA ERA ASSIM

– Eu? Homem nenhum faz de mim o que quiser. Vou lá, pego, mato e como, hahaha, duvida?
– Mas parece que ele tá com a outra, todo mundo tá vendo, Cíntia.
– Tá nada. Ganho fácil. Eu sei do que esse tipo de homem gosta. Ela não tem isso, não. Sabe a ” Jennifer” da música, então? Ganho, fico, não tem pra ela não. Porque os direitos são iguais. Homem e mulher, sexo, cerveja, cigarro, gargalhadas, quer melhor? Nenhum zé resiste, neguinha.
– Vai se apaixonar pelo zé, hem?
– Eu? É zé, igual a todos os outros da praia, da quadra, do samba, do forró. Entendo de homem e sei o que é bom. Eles precisam de mim e eu deles, o combinado não é caro, minha santa.

Cíntia sabia do que estava falando. Brincava bem. Jogava em várias posições e não cometia falta, nem cobrava … pênaltis. Fez tá feito. Gozava com gosto em campo. Era mulher gol. Valorizava sexo casual, sem relacionamento, sem namoro. Dizia que os caras pareciam gostar disso, mas que, na verdade, queriam era a caça. Amoleciam, bambeavam sem a caça.

Começou a ver que o zé pensava como ela. Pensava só ou agia também ?

Resultado: no atacado a casual, a free; no varejo, ah, no varejo cedeu.

Caiu de joelhos pelo zé. Não desgrudava mais dele, mensagens, viagens, aproximação cheia de artifícios e joguinhos. O pessoal do forró nem fechava muito com aquilo. E dizia pra ela. Mas estava cega. ”Quem me ama me aceita assim vida loka como sou. Se não gostar, pode ir embora”. Era assim a Cíntia.

MULHER, TEM MUITAS

O cavaquinho derrete as cordas
os dois se embebem de seus merecimentos
Nada de chorar por mulher
“Mulher, tem muitas”
Ouvem as notas agradecidas nos dedos do amigo de copo e bar
“Mãos que sentem”, diz um
“Mãos que machucam”, desabafa o outro.

Olham ao redor
Duas mulheres batucam o choro chorado na mesa
Duas mulheres cochicham suas dores e mágoas
Um pote de mágoas
de zumbis, cobras venenosas, julietas, medeias, jocastas
Doem suas dores nos copos esvaziados
outros copos
outras vozes
outras vezes

Bebem.

Sobre o tema, leia: https://universa.uol.com.br/noticias/redacao/2019/02/12/eu-so-quero-transar-mas-os-homens-tem-medo.htm

Poesias e textos: Odonir Oliveira (escritos em 2016)

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1- Canal vsn41

2- Canal Chico César

3- Canal Moacir Simpatia

 

Amor de mulher II

DOSES DE LIRISMO

Escorrendo versos pelas ruas, vielas e praças
Beijam-se os amantes em excitação.
Romantismo em boleros, sambas-canção
Enovelando apaixonados corpos e vozes
sussurros em ouvidos últimos.
Ensaio de dança confessional
em dois a dois.
Doses de lirismo pelos ouvidos
pela boca
na pele eriçada
no corpo intumescido.
Doses de lirismo em aspersão no ar.

MELODIAS PELAS RUAS


– Sabe, Conservatória? Então, foi lá.
– Já ouvi amigos contarem que tem serenata quase todas as noites, né. Deve ser bacana.
– Feriados e fins de semana, com certeza. Cidade histórica, interior do Rio, próxima a fazendas e fazendas de café – hoje todas com criação de gado. Mas tem casarões lindos, muito artesanato bonito, cachoeiras e muita cantoria.
– Como é isso? Todo mundo sai cantando junto pelas ruas?
– Isso mesmo, as ruas já têm nomes de seresteiros famosos da época de ouro das serestas. Aí as pessoas vão seguindo os violeiros e cantadores pelas ruas, entoando as serestas. Quando fui, era julho, fazia frio. Melhor ainda.
– O amor apareceu por lá? Cinquentão também?
– Em princípio, conversamos muito na pousada, fizemos as caminhadas juntos, fotografamos o que queríamos e muitas coincidências foram aparecendo em nós. Mas nos desgarramos do grupo e fomos namorar numa pracinha mais discreta.
– Como assim? Namorar um homem de 50 anos?
– Na verdade, 60 anos. Eu sim com 50. Fomos namorar, ficar calados, olhar as estrelas, ouvir a cantoria ao longe. De vez em quando nos lembrávamos de uma coisa engraçada, contávamos, ríamos. Uma delícia de encontro.
– Não foram logo pra cama?
– Então… você com uma visão machista, menina? Só porque estão juntos um homem e uma mulher sozinhos é preciso fazer sexo? Isso acontece se for natural, não obrigatório.
– Mas o cara era capaz? Porque com essa idade, né.
– Ora, chega um momento em que a sensibilidade é mais complexa, a pele exige mais, o calor exige mais, o carinho exige mais, menina. A gente não é fábrica de sexo, não. Claro, grande parte dos homens foi a vida inteira máquina de sexo. Desses, fujo por faro.
– Como assim, foge?
– Olha pra mim. Você acha que eu atraio homem por corpo, só pra sexo, visualmente? Tenho competência pra entrar na fila das garotinhas douradas pelo sol das praias cariocas? Claro que não. Meu diferencial eu sei qual é.
– Mas como assim? Fica difícil, homem é direto, quer sexo. Vai ficar eternamente sozinha.
– Bem, ficar sozinha não é dilema algum. Depois, não disse que fujo de sexo. Fujo de homem idiota que só vê corpo em mulher. Sou muita areia pro carrinho de mão deles, entendeu? Dou mais trabalho. Dou. Mas com mais trabalho.
– Mas hoje isso não é assim não. Toda mulher sai e vai pegando, ficando, depois já foi. A fila anda.
– Sei disso. Mas muitas agem dessa forma para terem companhia. No fundo, há nelas um vazio existencial enorme. Tudo só por fora. Por dentro, a verdade é outra. Mas … cada um sabe o que é bom para si.
– Por fim, o cara sessentão era bom? Te fez bem?
– Muito. Agradável, inteligente, piadista demais. Cantamos, dançamos. Foi muito bom sim.
– Viram-se fora de Conservatória, no Rio, depois?
– Sim, muitas vezes. Fomos passar fim de semana em Petrópolis, Teresópolis, Friburgo. Foi uma excelente companhia. Claro que nunca quis grudar nele, todo fim de semana, como ventosa. Nem gostaria que ele fizesse isso comigo. Cada um tem sua vida. Grude? Nem quando eu tinha 30 anos. Acho chatíssimo.
– Mas homem apaixonado, não é bom?
– É, com limite. Quem fica babando atrás da mulher o tempo todo, fazendo o ator canastrão da novela das seis, não mesmo.
– Sabe aquela música ”Mulher de trinta”? Hoje teria que ser Mulher de quanto?
– Talvez Mulher de cinquenta, penso eu.
– Concordo.

SELEÇÃO NATURAL

escolher selecionar optar
melhorar espécies
lapidar espécimes.
critérios duvidosos
critérios viciosos
critérios maldosos.
loiros magros fortes altos
boa aparência
saudáveis
cordatos bonachões polidos loquazes.
requisitos datados
acepipes requentados
sabores azedados.
Seleção não natural.
Espectro.
Seleção incomum.

DOCE É O AMOR

O que é isso,
que apelido tem
que codinome tem
que alcunha tem
que diminutivo tem
que sinônimo tem
que antônimo tem
que química tem
que receituário tem
que disfarces tem
que fantasias tem
que lemas tem
que contraindicações tem
que efeitos colaterais tem
que desenganos tem
que tropeços tem
que feridas tem
que encantos tem
que sedução tem
que encaixes tem
que desassossegos tem ?
Doce é o amor ?

POENTE

Todos correm
Apressados
A dança se inicia
Onde estaria meu par?
Passos apressados
Ritmo acelerado
Que desse lado já dançam !
São muitos os pares.
Ajeito a boca
Com batom vermelho da cor do poente
Arrumo os cabelos curtos
Mas embaralhados
Por aquelas emoções.
Procuro
Procuro
Onde estaria meu par?
Apresso a coreografia
Antes que ele se perca de mim.
Apresso
Apresso
Vislumbro-o ao longe, que longe!
Do outro lado do lago.
De lá, comigo não poderá dançar.
Aceno
Aceno
Ele me entende e atravessa,
também ele,
coreografando passos,
o lago.
Agora sim ,
aqui perto,
corpo a corpo,
pele a pele,
nos engatamos no ritmo
também.

SENSIBILIDADES

Lia e Jorge se conheceram na estrada. O pneu do carro dele furou. Desligado, estepe vazio. Sem chance de socorro. Neblina, chuva. Lia parou e se ofereceu para ir com ele a um ponto mais próximo, com borracharia, onde pudesse consertar o pneu furado e sem câmara.
Chamou a atenção de Jorge a iniciativa de Lia, rápida, experiente, objetiva. Atraiu-o aquilo.

Tudo resolvido. Seguiram cada um em seu carro. Estavam indo para Teresópolis. Ele, a um bota-fora do casal de amigos que estava indo viver em Londres, para os doutorados de ambos. Ela iria visitar imóveis por lá, com um corretor. Pretendia abrir um negócio na cidade. Ficaria em uma bela pousada, serrana, não muito central, cheia de hortências e orquídeas.
Jorge pretendia voltar no fim da sexta-feira mesmo. Ela iria ficar até segunda de manhã. Mas resolveram voltar juntos na segunda-feira.

Lia tinha 39 anos, era artista plástica, pintava, desenhava, esculpia. Jorge era arquiteto de interiores, designer de móveis. Com 45 anos e um casamento desfeito, sem filhos. Pareciam se conhecer por anos e anos.

Ela vivera com um publicitário romântico, doce e sempre nas nuvens – por incrível que isso possa parecer. Com lindos olhos verdes, magra, esguia, quase um metro e oitenta. Ele, um moreno de Niterói, cheio de graça e artista, só de se olhar.

Naquele fim de semana além de procurarem o imóvel de que ela precisava, Lia e Jorge visitaram muitos espaços mágicos no Parque Nacional da Serra dos Órgãos – Parnaso, um restaurante italiano e outro alemão deliciosos, com músicos que vinham às mesas e pista de dança. A temperatura caiu, o vinho atraiu alegrias e foram um.

Jorge propôs sociedade à Lia no negócio que ela estava prestes a abrir em Teresópolis. Rejeitou. Disse a ele que poderiam estar juntos por prazer, por alegria e como companhia, entretanto nada de sociedade comercial entre os dois. Continuassem como estavam antes de se conhecerem.

Ele ouviu toda a argumentação da artista plástica, puxou seu corpo para o dele e beijou-a com paixão.

Voltaram para o Rio, e a estrada estava ótima. Cada um em seu carro, próximos, mas independentes.

NA PELE DAS ÁGUAS

Uivo para a rua
Uivo para  montanhas lagos lagoas.
Na percussão do meu pensamento
A batera do meu sentimento.
Namoro a ponte
Namoro na ponte.

Empino o sax
Desejo a tarde
Cobiço a noite
Cobiço-a à noite

O cheiro é um
O gosto é outro
Na pele das águas.

No  nervo da luz
No  músculo retesado do braço
Da perna firme em marcha
Marcha  calma,  trôpega, insinuante, feroz,
que enlevada pela luz bruxuleante do dia
logo  vai se  encontrar com a noite
A um idílio completo.

 Poesias e textos: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1- Canal LOVE TV – O Canal da música e do humor

2- Canal Sandro M. Silva

 

Amor de mulher I

Pontilhão, Barbacena, MG (Foto: VERTENTES DAS GERAIS)

VIZINHOS

Cheiro de taioba talhada
Refogada com alho pilado.
Angu molinho
Fubá branco, amarelo
Couve picada fininha
Feijão fresquinho
Quiabo com galinha
Doce de leite ambrosia e queijo fresco molhado
Desejos
Sabores senhores
Vassalagem amorosa de corpos e peles de Minas.

Num vento brejeiro,
com uma lua amante de estrelas,
um gozo de céu e terra,
um grito de entrega e refrega,
ao som de vozes fantasmas mineiras,

Drummond, Drummond , Drummond, Drummond,
me carrega que sou tua.

BATIDAS DELICIOSAS

– Encontrou com ele ontem na pracinha? 
– Encontrei nada. Vi de longe. Nem parece aquele homem lindo com quem tive meu filho. Fui andando e não falei nada. Fiquei observando. Sabe um cara grosseirão … não sei como as pessoas se transformam daquele jeito. Já pensou se eu tivesse ficado com ele, nossa, foi livramento minha filha, foi livramento. No começo não entendi assim, mas depois, sim.
– Como foi que você engravidou, Lena, isso já não acontecia na nossa época.
– Ele vinha de São Paulo nos feriados, depois nos fins de semana e aí, a relação foi ficando mais constante. Eu tomava pílula, mas tinha que ficar escondendo da minha mãe, sabe né. Esquecia de tomar.
– Mas e ele não tinha como evitar? Só você?
– Ah, nos anos 70 quem tinha que evitar gravidez era a mulher, os caras não tinham nada com isso. Só perguntavam se a gente estava tomando pílula e pronto. Ninguém usava preservativo não. A tal história da bala com papel, lembra?
– Mas não usavam nunca, você acha?
– Usavam sim, senão as fabricantes não fariam mais, né. Eles usavam com as prostitutas, na zona, nos bordéis e para se protegerem das doenças, sífilis, etc. Em casa, com as esposas, era um filho atrás do outro. Minha mãe teve 8, duas gêmeas.
– Mas quando você falou que estava grávida, o que ele fez?
– Disse que ia pensar, voltou pra São Paulo. Eu fiquei com aquela reação dele em mim. Não era garotinha, né, mais de 30 anos. Todo mundo achava que eu tinha engravidado porque quis. E não era.
– Mas dizem que no inconsciente, a mulher engravida porque deseja ser mãe, sente falta disso e acolhe a fecundação. Os psicanalistas analisam assim.
– Pode até ser, mas ele contou pra mãe dele lá em São Paulo, que mandou me chamar. E eu fui. Ela disse que receberia o neto com amor, mesmo se seu filho não o assumisse. Mas deu nome e tudo. Só não casamos. Casou com outra, mais tarde.
– Ah, agora entendi porque você se dá tão bem com a família dele até hoje e seu filho, já um adulto, também.
– Foi assim. Eu posso dizer que amei muito o pai do meu filho. Mas quando ele se afastou no momento mais necessário, aquilo morreu em mim. Mesmo depois, quando meu filho foi crescendo, indo sempre lá pra casa da avó, das tias, mesmo assim, aquele homem ficou muito pequeno pra mim. Meu filho é importante; ele, não.
– Depois, você não teve ninguém mais, Lena?
– Muita gente. Danço, bebo, beijo, abraço, transo e tiau. Nunca mais me liguei a nenhum homem. Não que eu não quisesse. Mas não consegui. Não brota mais amor em mim pra me fixar em alguém, entendeu?
– Foi o tempo o responsável?
– Não sei. Não me abri mais para sentir o que sentia por ele. Sou outra. Fui vivendo assim. Agora já tenho até minha netinha. Linda. Mas continuo dançando, abraçando, beijando. Vou indo.
– Vamos ao ”Pilequinho” um dia desses? Lembra das batidas deliciosas de lá? Eu adorava a de abacaxi com vinho, e você a de pêssego, né. Vamos?
– Claro, adoro, vamos sim.

TODA NUDEZ SERÁ PERDOADA

Despe-se o corpo
da mulher metáfora
da mulher antítese
da mulher metonímia
da mulher eufemismo
da mulher onomatopeia

Despe-se o corpo
da mulher signo do sexo do medo do amargor
Despe-se o corpo
da mulher frasco embalagem colírio motivo

Despe-se o corpo
da mulher fresca tenra rija excitante
Despe-se o corpo
da mulher frágil entregue carente

Despe-se o corpo
da mulher estrada barro lodo chão
Despe-se o corpo
da mulher marcas suspiros chegadas e partidas

Despe-se um corpo de carne e osso.

DE CORTAR OS PULSOS

Não queria fazer aquela viagem, mas a Vitória, insistente, me convenceu. Eu já conhecia aquilo tudo; ela, não. Sairíamos na quarta à noite e ficaríamos até domingo à tarde. Semana Santa nas cidades históricas mineiras. Já sabia que comeria todos aqueles doces que adoro, me deliciaria com mandioca frita, torresminhos, tudo um exagero de gostoso. Vitória disse que seria tudo mais light, que não deixaria eu comer nada em exagero. Tomaria conta de mim. Assim sendo, aceitei.

Na véspera, o tombo de Vitória. Quebrara o calcanhar. Imobilizada, medicada. Então também não vou mais. Vai sim. Tudo acertado, vai sim.

Na primeira noite, nada especial. Sonhos, leitura, telefonemas.
Na manhã seguinte uma sombra me seguia. Um homem cinquentão estava sempre por perto, me acompanhando no grupo da excursão. Em seguida, almoçou na minha mesa, conversamos, em meio a outras pessoas. Todos estranhavam que eu estivesse sozinha ali. Mas na verdade não estava. Estava com eles. E resolvi não ficar explicando muito não.

Henrique passou a ser meu companheiro de viagem, de dia, de tarde e de noite, ao sairmos para rir, caminhar, dançar. E depois, na cama que seria de Vitória no meu quarto. Dias e noites de turistas amados e amantes. Todos aqueles lugares que já conhecia tornaram-se novidade, com um frescor de um beijo, um abraço e um queijo.

Visitamos tudo com muita alegria.
Ao voltarmos, nos encontramos algumas vezes. Depois, ele não retornou mais meus chamados, minhas buscas, meus desejos.

Até que uma vez, bebi umas tantas doses de uísque, saí de casa, peguei um táxi, fui até seu apartamento. Toquei a campainha, ele não respondia, eu bati na porta, bati na porta, implorei, me ajoelhei na porta, chorei, chorei. Ele abriu, me pegou pela mão. Avisei que estava tonta. Levou-me ao banheiro, segurou minha testa. Vomitei muito e perdi os sentidos. Ao recobrar a visão, o vi com gelo na minha testa, me acarinhando, sendo doce e entendendo que aquilo era amor e deveria ter outro tratamento que não o que ele estava acostumado a dar às mulheres com quem se relacionava por um tempo, e as substituía, para não criar laços. Palavras dele. Depois disso tudo correu bem.

Ficamos amigos.

LUAU

terra firme
canoa silente
em serenata
líricos coaxares
murmúrios solitários
ruídos de pirilampos
tantos
corredeira de rio
frio
ventos leves
febre
dó ré mi fá
estrela lume
halo da lua
halo de gente
sol lá si
sós

Poesias e crônicas: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal: cidades históricas mineiras

Vídeos:

1- Canal Daniel Pimentel

2- Canal Maria Elisa Horn Iwaya 

Psicopatias


UM VENTO

bate um vento
vento mudo
vento surdo
vento soturno
bate um vento
um compasso triste
um soluçar ímpar
um vazio companheiro
bate um vento
sacudindo cortinas
fechando portas
levantando poeira
bate um vento
tardiamente
constantemente

PRIMA VERA

Em menina, teve pólio, num tempo em que não se vacinavam as crianças. Demorando a ser descoberta – e não pela mãe – restaram-lhe sequelas nos ossos de um dos pés, a perna não cresceu como a outra, o que a fazia mancar e se desequilibrar muito. Desequilibrada, seguia. Sempre divertida, fazendo piadas de tudo e todos, a que fazia todo mundo rir. Dificuldade de elaboração.

Namorou muito, todos os rapazes da região a beijaram, a tocaram, a encontraram nos becos e nos escuros, sempre mencionados em nomes e situações por ela. Certa vez, a mãe de uma prima fizera um casaco azul celeste com botões dourados em âncoras, o esquecera sobre a cama da tia e viajara. Pediu que a tia o guardasse para reavê-lo quando retornasse. Vera, adolescente, não resistiu. Levou-o embora com ela para a outra cidade distante onde morava, e a outra nunca mais o viu.

Sempre alegou não amar homem algum, gostava era do fuzuê. Nas festas orgulhava-se de arrebatar o rapaz por quem outra estivesse apaixonada e levá-lo com ela para os cantos, os escuros, ir embora com ele. Assim, quase todas as noites em que havia plateia. Bebia muita cerveja, fumava. Ficou noiva duas vezes, os dois rapazes faleceram antes. Um de acidente na estrada; outro, adoeceu. Dificuldade de reflexão. Alguma vez se entontecia. Desequilibrada.

Centro das atenções, quando adoecia, solicitava companhia compulsória para assistência, hospital. Nunca foi dona de casa. Mulher adulta tinha na mãe a superproteção para todas as necessidades. Nunca teve um animalzinho ”Não maltrato nem nada, mas não gosto’‘. Nunca teve plantas ”Muito trabalho, não quero não”. 

Nunca dava nada a ninguém, só apresentava gestos de certo afeto quando tinha interesse em algo, negociava afetividade, fazia escambo de favores. Nunca elogiava o que quer que seja em alguém. Ao contrário, comparava-se e dizia que fazia igual ou melhor. Muitas vezes acarinhava na frente e destratava por trás.

Capaz de falar as maiores ofensas a alguém e no momento seguinte esquecer tudo.”Sou canceriana, sabe né”. Nunca se responsabilizava por seus atos, sempre atribuindo a outros as suas reações. Não se via Vera sofrer de verdade por nada. Nem nas mortes de parentes, ditos tão queridos por ela, às vezes uma cena ou outra, mas teatrais.

Foi atropelada ao atravessar uma rua, passou por intervenção cirúrgica, teve que ficar imobilizada por meses numa cama em casa. Fez caderno para que todos os visitantes assinassem na data da visita. Orgulhava-se disso e o mostrava, durante anos, a amigos , sempre pedindo a confirmação da mãe ”Né, mãe?’‘. Sempre mentiu muito. Era a mais querida, a mais amada, a que todos buscavam. Teria ido a uma festa, teria sido convidada para uma viagem, teria recebido tal presente. Falas confrontadas. Grandes mentiras. Mitônoma ao extremo, incapaz de ouvir um relato de dor, sempre sem paciência, sem compaixão, ou na maioria das vezes repetindo ”Eu também”, ”Sabe que aconteceu igualzinho comigo”.

Vera casou-se aos quase 50 anos com um homem grosseirão, feioso, baixinho, muito diferente daqueles que ela afirmava terem sido os seus. E rude, em todos os aspectos. Vera fez dele um mestre de ordens na casa da mãe, onde continuou morando com o marido. Não se adonava do lar, era o da mãe. Com problemas de saúde, teve que parar de fumar e beber. Separou-se do homem rude que trazia pouco, ou quase nenhum, dinheiro pra casa, repleto de dívidas, balconista de loja, vivendo das comissões. Era 10 anos mais novo que ela. Caladão, sem demonstrações de afetos, a não ser por cães. A mãe dela faleceu. Já em processo de divórcio – a pedido da mãe antes de morrer- reatou com o marido.

Incapaz de se encantar com a natureza, reclamava da sujeiras de árvores pelos caminhos, de cantos de pássaros, e águas de rios e de mar, só para fotos. No cinema, enquanto todos morriam de rir de um filme, gargalhando convulsivamente, ela não mexia a boca; assim como não chorava também em outros. Sempre muito ácida, fazendo observações sinistras contra as pessoas e colocando-as umas contra as outras.

Engordou muito, passou a usar bengala para se locomover. Desequilibrada, segue.

FALTANDO POUCOS MINUTOS

Faltando poucos minutos para o encerramento da visita, lá estava ela assistindo àquele filme de roteiro corriqueiro, direção pífia, atuação de quinta e sem efeitos especiais. Era só mais um filme B. Sem nenhum lance ou ação inesperada, nada surpreendente ou impactante  que viesse  fazê-la guardar para sempre aquele filme como inesquecível ou incomparável.

Era assim a vida de Tânia, a mulher de 49 anos, que agora aguardava para fazer aquela visita.

Um filme B, coitada, sempre implorando ao outro que a atendesse, que a ouvisse, que a amasse. Amasse não, que lhe desse qualquer atenção mínima, para que pudesse guardá-la por horas e horas, como a emoção do dia. Assim o fizera sempre com amigos, colegas de trabalho e com os companheiros de escola antes. Era sempre coadjuvante. Coadjuvante não. Era  uma figurante apenas.

Cansada desse papel de pequena importância, resolvera fazer aquela visita e se transformar após tudo aquilo. Era de negro que estava vestida. Foi percebida na entrada, mas ninguém lhe dirigira palavra. Caminhou até o local, mas não entrou. Ficou ali parada, como sempre, fora do enquadramento, fora da luz, a buscar uma alternativa a inverter a situação.

Faltando poucos minutos para o encerramento da visita, abriu a bolsa, sacou uma arma branca,  cor oposta à de seu figurino. Entrou sozinha no quarto. Um leito apenas. Olhou o marido com quem vivera por mais de 15 anos e desferiu nele alguns golpes fatais.

Tragédia não anunciada.

CALADA

fique calada
escreva pouco
sem rima
sem ritmo
sem cor
sem dor
sem vento nem sol
calada sufocada amordaçada.

CAI A NOITE

tece teias
em telhados de tons outros
tantos
tece meias inteiras
em décimos de sons uns
tece xales em chalés difusos de outros
tece tece tece e se envaidece
tece tece tece e se enriquece
cai a noite, em teias
cai a noite, em meias
cai a noite
em chalés
enrola-se em si
na busca da tessitura real

A NUVEM

olha sonhando
olha desejando
olha em formas e tons
olha nuvens de algodão
toca nuvens de algodão doce
toca nuvens de algodão mais doce que algodão-doce
flutua à espera da nuvem lírica
espera esteja ainda ali


MENINA MOÇA

A beleza dele só pra mim?
O beijo dele só pra mim?
O olhar dele só em mim?
O riso dele especial em mim?
A dança dele só para mim?
O abraço dele só em mim?
A canção dele só pra mim?
O poema dele só pra mim?
O afeto dele só pra mim?
Rosa e azul,
azul e rosa,
pares dançados
pares trocados
pares troçados
pares sonhados
pares conquistados
pares lançados
pares ansiados
pares destroçados
Vermelho e negro

Poesias e textos: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1- Facebook de Odonir Araujo

2- Canal Edo M