Anjos de guarda

MENINO DE ASAS

No princípio era a terra
munido de bússola e timão
percorria as picadas mais empoeiradas
as estradas mais acidentadas
as cachoeiras, os rios e os montes
sempre risonho, cantante, pícaro
menino-homem cheio de asas para voar
atendia a todos os desejos
uma fada-madrinha na direção dos sonhos
encantador e companheiro
com as artes nas mãos
conheceu de meus os meus
soube das minhas desventuras e enganos
riu da persistência neles e deles
voou
voou para o nordeste
voou para o sul
sempre me contando
Estou decolando!

Meu anjo de guarda
me ouve
me apazigua dores
me faz ver o outro assim como ele é
me desempoeira ilusões 
me avalia e me reconsidera de maus-tratos
o menino de asas está sempre nas nuvens
agora mesmo o vi daqui
agora mesmo falei com ele por aqui

Bendito seja !

ANJO REFLEXIVO

No meio-metade era a terra vermelha
um outro anjo reflexivo
mais velho
mais homem
realiza sonhos
aquela cachoeira
aquela igreja
aquele rio
aquela ferrovia
aquele museu
dispara sua bússola
informa a distância dos sonhos
o tempo a serem concretizados
ouve relatos
emite juízo
limpo da matéria-prima bruta das torpezas
reflexivo
timoneiro de minhas aventuras por terra
acompanha as outras, etéreas
auxilia, responde, pondera
homem íntegro
homem de caráter
sem dissimulações e embustes
facilita veredas para irmos ver e ouvir
Dona Aparecida e seu Teco
Dona Maristânia
Dona Fizica e seu Anézio
Dona Marilene- a Dica
Dona Maria

De posse do barco
vai de casa em casa
conhece meus irmãos, meu mundo
nada a esconder
nada em segredo
anjo de guarda abre asas de proteção
sobre meus ramais e caminhos
respeita
aconselha e é aconselhado
irmão do anjo alado mais novo
dá as mãos ao pai e à mãe
conduzindo-nos a todos
com firmeza e coragem

Bendito seja!

OUSADIAS

Com os dias passando, assim correndo,
há que se correr também,
há urgência em tudo.
Corro pra visitar aquelas cachoeiras nunca tocadas
corro para beber água gelada de serras amanhecidas
corro para falar “eu te amos” aos que nunca o ouviram de mim
corro para cozinhar delícias e, em comunhão, ofertar aos queridos aliados
corro para beber sabores que nunca experimentei por impossibilidades várias
corro para escrever letras, sílabas e linhas anoitecidas,
enquanto ainda consigo
andar
ver
falar
ler
respirar
me encantar.

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal calmaria

De pobrezas e riquezas

DE MELANCIAS E CHOCOLATES

tarde de domingo
o caminhão de melancias
faz pregão da fruta
toda gente corre
pega a sua
paga a sua
felicidade

sentados na calçada
sentados no portão
sentados no passeio
abrem as melancias
escorre delas um sumo suco vermelho
tingindo a tarde
repartem nacos de prazer
dividem risos e gotas de doce
distribuem felicidade

Pessoa, aquele chocolate da menina
também é melancia.

AO REDOR DA FOGUEIRA

o fogo atrai
o fogo une
a magia da cor
a magia do calor
as mãos estendidas
aquecidas
a meditação
o fogo atrai
a vizinhança reunida
faz festa na rua
canta e dança até o chão
prazeres comuns
entendimento daquilo como apenas aquilo
uma piada duvidosa
uns risos cúmplices
a cerveja
outra cerveja
o canto em uníssono da sertaneja em ascensão
o caldo, a canjica, o espetinho
a pipoca, o quentão
mais lenha no fogo
observação
contemplação

Vale do Jequitinhonha https://territoriodobrincar.com.br

Poesias: Odonir Oliveira

1ª fotografia de Roubem Foong- Instagram photos e vídeos

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1- Canal Matheus Moscatelli

2- Canal Território do Brincar

Salvem o cinema brasileiro !

MATINÊS DE DOMINGO

Era assim, 
o menino que havia em mim. 
Era assim, 
a matinê de domingo, 
a torcida pelo mocinho, 
a alegria de ver o bem vencer. 
Era assim, sempre um sim.
Era assim

”O filme disse eu quero ser poema” – Caetano Veloso

TELA GRANDE

encantamento
som luz imagens
duas cores
muitas cores
poltronas
escuro
silêncios
magia
prazer
imaginação
delírio
sonho
ilusão fascinação perpetuação

CINEMA MONUMENTAL

Um filme circulava-lhe os pensares,
era longa-metragem sem intervalos
era cinemascope por vidros embaçados
era olhos fechados sem lanterninha
era roteiro de lembranças
ora sequência em plano aberto
ora close de rosto, dorso, pernas.
Num sacudir de trem moderno,
a memória da fumaça de fuligens dos seus antes.
Tudo era análise, avaliação.
Partes esparsas, excertos, segmentos de poemas,
trechos de melodias, frases sem contexto,
fragmentos de situações em versos,
inversos, postos, opostos, repostos, dispostos.
Numa estação insone,
um caminhar ansioso
um encontro de asas
um flutuar de prazer.

SEMEANDO CINEMAS

– Tem sala de cinema aqui não?
– Tem não.
– Lutem por uma, meus jovens, lutem.
Cinema é sonho
cinema é visão de mundo
cinema é beber com os olhos um país
cinema é sair de si
em som e imagem
cinema é beijar a moça linda
cinema é beijar o moço lindo 
cinema é ser o valente herói também
cinema é postar-se frente aos perigos
cinema é emoção
quando já nem se emocionava mais
cinema é tela pra comer
cinema é tela como arroz e feijão
semear cinemas
colher cultura

PERDEU, RAPAZ, PERDEU

Cresceu em cidade com cinemas?
Frequentou cinemas?
Aprendeu a conhecer seu país inteiro
com as telas de cinema?
Saboreou os primeiros beijos
nas telas e nas cadeiras dos cinemas?
Marcou encontros
para porta do cinema?
Namorou cenas de amor
de mãos dadas no cinema?
Fez sexo,
cumplicemente,
com as imagens dos cinemas?
Gargalhou de doer a barriga
com as comédias nacionais?
Decorou as músicas dos filmes?
Saiu do cinema
assobiando as canções?
Assistiu ao mesmo filme várias vezes?
Admirou a fotografia nas telas
a ponto de querer ir conhecer aqueles lugares?
Bebeu a magia e o sonho
daqueles filmes inesquecíveis?
Fez tudo isso e muito mais?
Que maravilha, prazer em te conhecer.
Você, não?
Perdeu, pleibói, perdeu.

CINE BRASIL

orgulho, valor, aplausos
que beleza é se ver na tela
que beleza é fechar os olhos e se ouvir na tela
que beleza é gargalhar de graças nossas
é chorar com desgraças nossas
é ouvir trilha sonora nossa
que feitiço é sentir
a interpretação da gente nossa
o país em nossas imagens

cinema brasileiro
porque retrata o rio da nossa aldeia
torna-se universal
prêmios pelo mundo
indústria de cinema
oferta de centenas, milhares de empregos
oferta de cultura por todos os poros
de quem faz a quem faz
de quem faz a quem assiste

todo o apoio
todos os troféus
todas as honrarias
cinema brasileiro
prazer em te ver

Poesias: Odonir Oliveira

Imagens retiradas da Internet (filmes premiados e representativos da história, literatura e cultura nacionais)

Selecionei alguns entre os excelentes filmes nacionais que fotografam, literalmente, a realidade social dos brasileiros. Até por isso, tornam-se UNIVERSAIS e recebem prêmios em vários festivais internacionais de cinema. Inseri em alguns os temas que abrilhantaram suas imagens. Teria uma lista enorme com todos aqueles que vi, nas telas, as comédias engraçadíssimas, as histórias de amor, de suspense, ah, tanta coisa linda. Esses são alguns apenas.

VIVA O CINEMA BRASILEIRO que emprega muita gente e sustenta muitas famílias. A indústria cinematográfica existe e faz o que há de melhor pelo Brasil, aqui dentro e lá fora.

Vídeos:

1- Canal EstadodasCoisasCine

2- Canal LUBOR

3- Canal mariaperdida

4- Canal PackPcote

5- Canal vsn41

Em nome do pai

PAI PLÁCIDO

pai,
me ensina plantar
pai, me ensina cuidar
pai, me ensina esperar
ah, pai, me ensina colher

trago-te essa oferenda, pai
é fruto de tua sabença
é fruto de tua ensinança
como sou fruto de ti

pai, recebe
é tudo teu

PAI DRUMMOND

pai,
me ensina a ler
me ensina a escrever
me ensina Minas
me ensina o mundo

pai,
me ensina sua lírica
me ensina sua métrica
me ensina seu tom
me ensina a prosseguir

me ensina, pai Drummond,
me ensina

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

Canal magrosi65

Facebook

Poetas, para o que servem?

VERSOS ÍNTIMOS

Nem tudo que escrevo entrego.
Há versos que guardo.
Há versos que são presentes únicos a cofres únicos.
Há versos que me aturdem sem trégua.
Há versos que andam comigo por passeios matinais.
Há versos intrusos que engasgam meu sentir como pedras nas picadas estreitas.
Há versos que colidem com meu ir e vir de chicote e rédeas.
Há versos que não serão escritos.
Há versos que não serão lidos.
Há versos impublicáveis.
De minha intimidade gozam poucos.
Bem poucos.
Talvez apenas os versos.

LEITURAS

Paulo Freire
homem dos saberes ensinou
depois da descoberta
depois de se saltarem os muros
nada aprisiona mais.

Ler poesia no papel
sensualidade, gozo, orgasmo
Ler prosa no papel
prelúdio, viagem, fantasia, orgasmo
Ler sabenças no papel
desafios, encontros, enriquecimento

Ler, ler, ler
romper porões
explodir cárceres
acalentar horizontes
Ler, ler, ler

POETAS INCOMODAM

Poetas são entes que assumem riscos
que se esfolam nas alegrias,
como um simples botão de romã,
que acham bonito um sorriso do cão vadio que os segue.
Vadias ideias rendem versos toscos,
sem polimento,
apenas versos.

A uns serão potes repletos de significados
ocultos
transfeitos
transversos
A outros serão mensagens concretas de tapas e socos
porque a crueza dos dias assim os fez.

Nada pode incomodar tanto quanto versos.
E aliviar também.
Principalmente a quem os escreve
a quem os regurgita,
a quem os devolve como lírica,
sem nada pedir.
Plumas a quem os ler.
E, eventualmente, a quem os possuir como seus.

PALAVRAS DE TUDO

Minha vida é feita de páginas.
Sem ler não concretizo voos
Sem ler não amanheço nem anoiteço,
e se entardeço
é porque sou em mim mesma um feixe de páginas
qual bambu
em touceiras
de difícil esfacelamento, destruição ou perda .

Quando de palavras me guarneço,
é com elas que me acasamato do mundo,
me resguardo das dores simples,
me afogo nas mais complexas,
irremediáveis e etéreas.

Palavras alimentam meu corpo,
atiçam meus desejos mais incompreensíveis,
sensorializam meu cotidiano mínimo,
transformando-o em rasantes sobre oceanos

NÃO SEI ESCREVER SONETOS

Não sei escrever sonetos, pobre poeta que sou
eivada de erros, dores linguísticas, tratados de sofrer acumulados.
Não sei fazer sonetos, que não domino esquemas pré-estabelecidos
nas rimas ricas pobres preciosas de mim.

Não sei fazer sonetos porque sou incompleta em mim mesma.
nem escrevo como meus mestres, ainda que os queira imitar
sou mimeses de meus avessos apenas
recorro ao que sinto e entendo como se fossem verdades

E nada são que pequenas abstrações, atropelos de mim mesma
com meus mínimos percursos de estradas feridas, machucadas, sangrentas.
não conheço todas as verdades do mundo, intuo algumas; outras, perco.

Não sei escrever sonetos que de ínfima alma e espírito
sou um pálido ruído de trens pelas manhãs
rios e cachoeiras pelos dias, sofridamente.

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Poemas fotografados dos sites: Projeto Releituras – http://www.releituras.com/releituras.asp

Letras https://www.letras.mus.br/carlos-drummond-de-andrade/818509/

Vídeo: Canal TheWickedNorth

Sobre colheitas e sementes

”Talvez eu não veja a colheita, mas quero morrer semente”
Frei Betto

TERRA

a sofisticação do viver
é terra
é semente
é raiz
é folha verde
é flor
é fruto
é folha amarelada
é folha murcha
é folha outra
é cor outra
é cheiro outro
é flor outra
de cor outra
de perfume outro
é fruto de novo
é sabor de novo
é saber novo
é escorrer pelos dedos
é lamber os dedos
é melar as mãos
é ter mãos
para a sofisticação do viver

TERRA MINEIRA

Toda toada enterra
um topo
um trono
um teto.

Todo terreno tanto
semeia um pomo
um botão
um perfume
um sabor
um tempo.

Vivenda do sobrenome
vivenda de ares e ventos
vivenda de céu coalhado de estrelas
vivenda fértil
vivenda da vinda
vivenda da volta
vivenda semeada.

Toda toada encerra
um ponto
um pouso
um corpo.

MEU QUINTAL

meus pássaros cúmplices
meus pássaros cúmplices
me trouxeram as sementes
me enfeitaram o quintal
árvores que vi crescer
árvores que vi brilharem
árvores
árvores
árvores
belezas que vi resplandecer
no meu quintal
pertinho de mim
chegando juntinho de mim
árvores que semeei
árvores que encontrei
flores que chegaram
sem que eu pudesse
por elas nada fazer
nada impedir
nada coibir
só vê-las em seu resplandecer

SENTIDO HISTÓRICO

Quer saber
que conhecer
quer viver
caminha por estas ladeiras
observa as patas dos cavalos da história
enxerga as colunas e os pórticos das igrejas
namora os alpendres das moradas
alisa os encantos barrocos
ouve as vozes sufocadas por movimentos debelados
adentra as cadeias públicas
bebe a bebida da terra
come a comida da terra
escuta as histórias da terra
sonha os sonhos dos sertões
reza suas procissões eternas
reconhece Brasil por aqui.

E volta.
Ou então fica para sempre.

A amiga me enviou. Seu filho esteve agora em julho na minha cidade, hospedou-se no Hotel Lucape, de onde se tem essa bela vista da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Piedade, na Rua XV, em Barbacena. Obrigada, Maria Mercês.

CONFIDÊNCIAS MINEIRAS

Há sempre aquele pedaço de terra te esperando
há sempre aquele céu de estrelas à mão
há sempre aquelas estradas a te estender caminhos
há sempre aquele prosear a te aguardar pra contar
há sempre aquele teu sangue mesmo a correr nas veias
há sempre uma cantata a ser ouvida ainda
há sempre um colo semelhante a te esperar
há sempre um ar frio e um vento nos becos a te arrodear
há sempre um café de brasa, um polvilho de brasa, uma linguiça pendurada …
há sempre um cheiro de lenha queimando num fogão da memória.

Há que retornar sempre.

São Tomé das Letras, MG

Não deixe de assistir a esse vídeo. Sigo o Canal e só encontro belezas e aprendizagens por lá.

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1- Canal Miltinhort

2- Facebook de Maria Mercês Souza Figueiredo

3- Canal Chico Abelha

Estrela da tarde

ODE AO POR-DO-SOL

Ó céu,
que rebelde,
assumes todas as dores da terra
retorces a auréola da luz primeira
tornando-a última,
como se com isso
punisses todos os homens
por erros culpas desvios.

Ó céu,
que punes a claridade do dia
enrubescendo-a em sua moldura
escancarando-a com carrancas soturnas
para poder dela por fim se livrar.

Ó céu,
que queres,
se quanto mais duro te tornas
mais doce e lírico
te esbanjas
aos que te contemplam?

Que desejas, ó céu,
com fascinante beleza,
que por minutos,
liquida-nos,
arrebata-nos
como num golpe fatal.

Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia 
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia 
Era tarde, tão tarde, que a boca tardando-lhe o beijo morria. 
Quando à boca da noite surgiste na tarde qual rosa tardia 
Quando nós nos olhámos, tardámos no beijo que a boca pedia 
E na tarde ficámos, unidos, ardendo na luz que morria 
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia 
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia.
Meu amor, meu amor 
Minha estrela da tarde 
Que o luar te amanheça 
E o meu corpo te guarde. 
Meu amor, meu amor 

Eu não tenho a certeza 
Se tu és a alegria 
Ou se és a tristeza. 
Meu amor, meu amor 
Eu não tenho a certeza!
Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram 
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram 
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram 
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram. 
Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram 

Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam 
Era a noite mais clara daqueles que à noite se deram 
E entre os braços da noite, de tanto se amarem, vivendo morreram.
Meu amor, meu amor 
Minha estrela da tarde 
Que o luar te amanheça 
E o meu corpo te guarde. 
Meu amor, meu amor 
Eu não tenho a certeza 
Se tu és a alegria 
Ou se és a tristeza. 
Meu amor, meu amor 

Eu não tenho a certeza!
Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso se é pranto 
É por ti que adormeço e acordado recordo no canto 
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto 
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto 
Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!

Ary dos Santos

EM TEMPO: Tenho uma ligação eterna com Portugal e portugueses, na literatura, na música, na história … por minhas origens e por ter convivido no Rio de Janeiro com a cultura portuguesa. Costumo repetir que só sairia do meu país para visitar Portugal, suas aldeias, sua-minha língua, sua-minha gente.

Poesia: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal (inverno na BR 040)

Vídeo: Canal mirandalagoon

Meninices

IGREJA DE NOSSA SENHORA DAS GRAÇAS, 70 ANOS

Na moldura do tempo
os verdes adoçam sentimentos
são corridas pelo mato
apressadamente
o catecismo já vai começar
a missa já vai começar
sobe por dentro
ganha tempo
arranha as canelas nos gravetos
suja as meinhas branquinhas
suja os sapatinhos-boneca
ufa, que chega a tempo
sino de badaladas às seis da tarde
a Ave Maria pelos alto-falantes
tempo vai, tempo vem
sensações de sol na pele
sensações de vento no rosto vermelho da corrida
olhar de cima
olhar de perto
olhar no tempo

uma porta majestosa
uns bancos, uma pia batismal
um piso ainda sempre igual
um altar de graças
de Nossa Senhora das Graças
a primeira comunhão
as procissões com anjinhos
as festas da Cruzada Eucarística
a corrida do saco, o ovo na colher …
a venda de santinhos com orações e de terços aos domingos
a coroação de Nossa Senhora nos maios todos
Como já foi gigante essa igreja !
Como é pequenina essa igreja.

AFETO E COMPANHIA

Remexe nas raízes e sente cheiro da terra
com mesmos valores
com mesmos princípios
com mesmos meios
com mesmos fins
é gente simples
com lições aprendidas com severidade
com mesmos ramais e caminhos
cheiram igual
têm cores parecidas
sabem das mesmas histórias
riem de recordações risíveis
emocionam-se com lembranças comuns
choram por perdas tão significativas
têm brio, caráter, apego a verdades
é gente simples
quando se percebem
estão trocando mudinhas
eu te dou as de violetas
você me dá as de flor-de-seda

tal qual faziam com suas coleções da meninice
tal qual faziam suas mães, seus pais
Olham-se com afeto
refletem juntos
não há do que se envergonhar
não há o que esconder
são produto de sua criação
são reflexo das verdades de seus pais
Qualquer um pode saber delas
Qualquer um pode reconhecer neles os seus pais.

Beijos, Cristina, amiga por mais de 60 anos.

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1- Canal Instrumental Sesc Brasil

Formação: Cristina Braga: harpa e Ricardo Medeiros: baixolão

2- Canal Analysexavier

3- Canal olinthos1

Imagem & imaginação

TREM DOIDO, SÔ

arranjei uma casinha rústica
pus gramado no seu quintal
jardineiras na janela
pra poder ficar olhando o trem dali
ouço seu apitar várias vezes ao dia
observo seu serpentear melancólico
com carga exposta
com carga imposta
com seu maquinista diário
várias vezes, várias vezes, várias vezes
enamorada por seu bucolismo
fico encantada
hipnotizada mesmo
pelo prazer primeiro
de ser passageira daqueles vagões
não sou carga
ferro, aço, derivados
não estou sentada em seus bancos
sou mera namoradeira de seu ir e vir
cotidianamente
arranjei uma casinha rústica
sem azulejos na cozinha
com portas singelas
com cômodos simples
cheia de sol de norte a sul
arranjei uma casinha rústica
só para poder ver nascer e morrer o dia dali
a lua vem
a lua vai
arranjei essa casinha rústica de frente para o fim do mundo

(Aos 11 anos)

Lindas imagens de espaços e tempos que viajam na gente para sempre

Quando eu era menina e vinha do Rio passar férias em Barbacena, me punha a ouvir o trem, a debulhar as estações uma a uma, em alegrias pela chegada e de tristeza profunda com as partidas.

Era assim sempre que acontecia nos verões da minha vida.

Na estrada já namorava as casinhas ao longe – quem moraria ali, como as crianças iriam à escola, como voltariam, não conseguindo adivinhar esses mistérios; assim, me fixava na paisagem como se fosse uma moldura dos meus sonhos de chegar e de partir.

Estradas sempre me percorreram fundo a alma.

Trem de carga, sem gente, que triste.

O país perdeu suas estações lotadas de pessoas de irem e virem.

Mas o bucolismo das estações ainda está tatuado em mim

Ainda que os vagões insistam em ser de carga apenas.

TREM DE CARGA

Nos dormentes,
vagões vazios
dormem
solitários
de vozes
risos abraços beijos.
Despedidas ausentes
chegadas ausentes
encontros e reencontros
ausentes.

Carga pesada
fantasma
que apita
chegadas
partidas
sem paradas
sem estações sentimentais
sem coloridos de saias e calças roçantes nos corpos
sem cheiro de corpos roçando os sentidos
sem massa de almas
desejos súplicas.
Vagões de carga apenas
suportando o peso das remessas diárias,
eternamente.

O TREM

Você sabe me dizer
se esse amor que tenho por ele
tem explicação?
Teria sido de outras vidas?
Teria sido eu um maquinista?
Teria sido uma passageira diária
nas fagulhas do queimar?
Teria sido eu o bilheteiro da estação?
Teria sido a responsável pelo apito fascinante?
Você sabe me dizer
se essa atração voraz é real?
Teria sido semeada por meu pai mineiro?
Teria sido inoculada pelos filmes que vi?
Teria sido uma mescla de som e imagem?
Teria sido uma janela eterna que emite paisagens?
Você sabe me dizer
por que paro para reverenciar um trem?

EM TEMPO: Por favor, TREM, para mim, está em sentido próprio e não em sentido figurado. Não pense que estou escrevendo uma coisa querendo dizer outra. NÃO SE TRATA DE UMA METÁFORA.

Sobre trens, leia também:

”Trens”

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2016/02/21/trens/

Viagens de trem”

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2016/10/25/viagens-de-trem/

”O trem se vai na noite sem estrelas”

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2016/09/09/o-trem-se-vai-na-noite-sem-estrelas/

”Trilhos, trilhas, trens”

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2016/05/10/trilhos-trilhas-trens/

Trem de carga”- no GGN

Nos últimos 4 anos tenho feito muitas viagens de trem, por maria-fumaça, em São Paulo, em Tiradentes, São João Del Rei, e até nos mais modernos da Vale, no percurso Vitória-Minas. São sempre sensações que ficam mais no corpo físico do que nas ideias. Gosto das paisagens, da ausência de ultrapassagens das rodovias, e da possibilidade de viajar para dentro e para fora de mim.

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal Washington Douglas

Lua curiosa

DOIS PÉS NO CHÃO

Deu que sonhar fica pequeno
quando se tem as rotas nas mãos
acordar cedo com cheiro de orvalho
dormir cedo com pirilampos
almoçar com bem-te-vis
jantar com perfume de damas-da-noite
cear com cheiro de amor
Deu que sonhar fica pequeno
quando se tem mãos grossas nos cabelos
braços fortes nos ombros e nas costas
pele ágil e quente alisando o lirismo
Deu que sonhar fica pequeno
quando o silêncio das vozes vem
quando as bocas se abrem e fecham em lábios uns e outros
quando um fogo queima as vontades ambas
Deu que sonhar fica pequeno
quando os corpos se lançam
quando os murmúrios se entendem.

SANGUE

pulsando lateja
correndo percorre
fervendo explode
muitas vezes
muitas vezes
muitas vezes
ele e eu
eu e ele
ele e eu
eu e ele
veias dilatadas pulsando
veias quentes gritando
veias dele sobre
veias dela sobre
transfusão
transfiguração
rios vermelhos
tempestades vermelhas
sem afluentes
desaguando num mar

ENCONTROS

Ama-se o amor
Ama-se a busca do outro em si mesmo
Ama-se um acordo de pensamento que batiza encontros
Ama-se um gesto, um riso, um toque, um olhar
Ama-se um jeito, um comportamento, uma capacidade
Ama-se um cheiro, uma seiva, uma pele.

ARDE A TARDE

esteve sempre ali
esteve sempre silente
com mãos vivas e pele quente
esteve sempre ali
esteve sempre no verde
com pernas maduras e pés ardentes
esteve sempre ali
com grutas incandescentes e acalentadoras
esteve sempre ali
esteve sempre no verde
nunca musa, esfinge, vestal
esteve sempre ali.

UNS E OUTROS

5 da manhã
café puro
pão velho na chapa
quente

acorda um
acorda o outro
acorda a outra

seguem
caminham todas as picadas, pinguelas, estradas
seguem
no horizonte um ponto
no porto um norte
no firmamento uma luz
fim do túnel
começo da vida
escola, amigos, professores
pertencimentos

VIAJANTES

uma taça cheia
de vinho
tinto
goles lentos
goles gentis
goles parceiros
uma taça de vinho
vazia
uma taça de vinho
cheia
goles uns
goles outros
Dioniso, braços abertos
Διόνυσος,
Baco presente
presente do inconsciente
pensamento ausente
sonho sonho sonho
percurso de lua e estrelas
caminhos estreitos
Dioniso de braços abertos
Διόνυσος,
lua farol
estrelas estrelas estrelas
entrega.

PRELÚDIO

nas mãos dela, ele
na foto
nas nuvens, ele
na imagem
no apito longe, ele
no espectro
na mata densa, ele
no rumo
na noite escura, ele
no lume
um cheiro de homem
um gosto de sal
uma pele acre
um rodopio breve
o disco
a capa
o trompete
ele
ela

NA NOITE

encosta tua pele aqui
sente o calor
encosta tua pele aqui
sente a chama
encosta tua pele aqui
sente a cor uma
encosta tua pele aqui
sente a força do ir e vir
encosta tua pele aqui
bebe doce, acre, perfume
encosta tua pele aqui
enxerga o éter, o ar, o lume
encosta tua pele aqui
sorve a ternura do estar
absorve a delicadeza do embevecimento
embriaga-te das nuvens de algodão

Uma lua curiosa aqui no meu quintal

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal: ramais e caminhos em Minas Gerais

Vídeos:

1- Canal Zé Geraldo – Tópico

2- Canal Shirlei Nobrega