Além do horizonte … o infinito

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INFINITO

Sem números cifras cálculos.
Nada de exatidão.
Do Velho, amante da geometria,
Não herdei nem o gosto.
Não saboreio retas, pontos, paralelas…
Saboreio as intersecções, o somos , o sumo, o sonho.
 
Dos 366 novos que acabo de receber de presente,
menos Windows,
mais janelas.
 
Ao  endoidecimento!
Mais amor, sem favor.
Rumo ao infinito !

 

 

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VIAGENS

Na plataforma, de partida, Marta esperava em si

Enquanto espera viaja seu mundo em cada dormente, em cada vagão,

em cada trilho.

Suspira.

Enquanto espera toma a decisão.

Tenta voltar atrás, ir ao encontro dos amigos. Quer desistir.

Assim o faz.

Mas no dia seguinte lá estava ela de volta na estação vazia.

E dessa vez não desistiria.

No instante de entregar-se ao vagão, quase um fetiche em si, olha o desembarque e de novo quer fugir, quer deixar de viver o que precisa viver, o que merece viver.

Recua. Espera.

Não ainda.

“Não subo no vagão.

E se não for o vagão que busco”.

Volta bovinamente ao hotel, entrega-se ao quarto vazio e chora.

Chora copiosamente a dor da falta de coragem da entrega, do passo seguinte no estribo do trem, da angústia de não querer-se entregue, abandonada ao ritmo do trem.

Recolhe-se.

Bebe três  quatro, cinco caipirinhas de vodca e mergulha seus passos solitários pelas ruas, antes que escureça, antes que anoiteça de novo em si.

É um poço de lágrimas vertido pela auto- estrada, pela ponte, pelos canteiros, pelo gramado.

Atravessa ruas perigosas, que nada há de lhe fazer mais mal do que não ter entrado naquele trem.

Volta ao hotel e sangra.

Sangra sua amargura, suas lembranças de vidas passadas nessa vida mesma.

Sangra setembros e outubros de ontem, hoje e sempre.

Lembra dos versos do amigo ” Amor deixa marcas no pescoço e no travesseiro'”

De álcool e lirismo reconhece-se fraca, vazia e estéril de palavras. Não consegue emitir um som além do apito de um trem. E eles não param de apitar noite e dia em seu sentimento.

Trem imagem recorrente quando acordada, quando dormindo.

Dorme e sonha com um trem. De carga. Um sonho curto. Pobre. Sem visão panorâmica. Um trem pobre. É isso. Pobre.

Esse não pode ser o meu trem. O trem é o meu céu, lembra.

Na tarde seguinte, a plataforma.

Quantas mais teria ela que adentrar, quase consumar a ida e  … voltar para trás. Quantas vezes ainda?

Dessa vez iria em frente, fosse o que fosse.

Precisava encontrar-se em seu trem.Não recuaria mais.

Aguardou ali sentada morrendo de medo de o trem dessa vez atrasar, não aparecer, não haver lugar mais para ela, que entendia tantas vezes ter desistido, que talvez não merecesse mais aquele embarque.

Repleta de prazer e gozo … penetrou no trem. E contemplou-o inteiro. Fascinação ao tocar em cada parte dele ali naquela primeira vez.

O êxtase da viagem foi tão incandescente que o trem deixou pela janela, aos poucos , ao longe, aos poucos, ao longe, ao longe,  aos poucos outras imagens que iam ficando cada vez mais distantes, distantes, distantes.

Totalmente para trás.

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OFERECIMENTO

Ofereço-te a água dessa lagoa
Para beberes tuas imagens
Ofereço-te a luz desse céu
Para tuas telas de muitos tons
Ofereço-te essas areias macias
Para mergulhares teus pés
Ofereço-te um barco quase morto
Para o reavivares e chegares ao infinito
Ofereço-te essa flor
Para encantares sentimentos
 
Ofereço-te um poema
Para fazeres com ele o que quiseres.

 

 

VERSÕES, TRANSGRESSÕES …

versos, versões grandões
bordeis sem cama sequer
em outras posições
sem coxas assim
os beijos virão pra mim
simples assim.
 
Assim que Pedro, lobo, Prokofiev,
sinfonicamente,
oferecer 
suas notas musicais
 
Beijos depois, bem, mas bem depois.
Sinfonias de grafites nas paredes,
nos muros,
nas escadas,
pela cidade.
 
Grosseiramente !

 

NOITE

Sei que é noite
porque de vento
e de ondas
os coqueiros respondem aos sinais.

Sei que é noite
porque ali
ficamos só nós dois
sem que nos percebessem,
que parecíamos
invisíveis.

Em simbiose de esperas
Em sussurros de combinações
Em movimentos de contemplações.

Sei que é noite
porque em meu corpo
sinto a noite
assim em todos os seus sinais.

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VERTIGEM

Odonir Oliveira

Deu que naquela noite o eletricista tocou a campainha às sete.

Esquecera ela que o chamara para uma conserto urgente, logo pela manhã.

Ao abrir a porta, já meio lá meio cá, que bebera uns bons 2 copos de vinho tinto forte, surpreendeu-se: não era o cavaleiro das matas que viera com seu cavalo levá-la embora para aquela nuvem? Estaria bêbada então?

Olhou para o homem decepcionada, abriu a porta e encaminhou-o quase sem palavras ao serviço a executar.

Ele começou.

Enquanto isso, voltou para sua ágora diária a discutir cidadania com  cidadãos gregos por uma Paidéia imaginária.

O homem lá, entre fios, chaves de fenda, alicates, desfazendo e refazendo um circuito inteiro.

Em lua sobre lá que signo, a mulher aguardava lá e cá pela finalização do conserto e de um concerto, que ora ouvia também.

Foram assim, um com seus fios reparando a energia, e outra, com outros fios, tecendo as suas energias vitais.

Dado um tempo, encaminhou-se ele a ágora da mulher e reparou no que esta ouvia ali, no que via ali, no que lia ali.

Deslumbrado com aquilo tudo, que era homem simples – rude não – perguntou-lhe “ Quem fez isso que a senhora está vendo e ouvindo aí na tela?” Respondeu do que se tratava, quem fizera, como fizera e quando, explicando-lhe em mínimos detalhes.

– Meu Deus, mas isso é muito lindo. Uma pessoa pra fazer uma coisa bonita dessas tem que ter muito tempo, né. Nem deve precisar trabalhar pra sustentar uma casa. Porque a senhora sabe, a gente acha tudo isso muito bonito, mas não tem tempo de ver nada disso acontecendo. A gente nem sabe que isso existe. A senhora é que é feliz.

“Sou mesmo, seu Inácio” – respondeu ela ao eletricista.

Pagou-lhe o serviço. Ele se foi. Mas pagou bem pouco ! Porque naquela noite, assim tão singelamente, ele havia dado a ela um dos mais belos presentes de sua vida.

Ele lhe entregara de volta a sua FELICIDADE!

AGRADECIMENTO

Aprendi a agradecer ao sol por ter-se aberto em dia.
Aprendi a agradecer à lua por coroar a noite.
Aprendi a agradecer aos campos por me trazerem esse cheiro de mato.
Aprendi a agradecer aos poetas por me perfumarem de versos.

ODE 

Ó céu,
que rebelde,
assumes todas as dores da terra
retorces a auréola da luz primeira
tornando-a última,
como se com isso
punisses todos os homens
por erros culpas desvios.

Ó céu,
que punes a claridade do dia
enrubescendo-a em sua moldura
escancarando-a com carrancas soturnas
para poder dela por fim se livrar.

Ó céu,
que queres,
se quanto mais duro te tornas
mais doce e lírico
te esbanjas
aos que te contemplam?

Que desejas, ó céu,
com fascinante beleza,
que por minutos,
liquida-nos,
arrebata-nos
como num golpe fatal.

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SÁBADO É BOM

Pra ficar sob os lençóis
pra limpar os discos, os livros e nada mais com Elis e Zé Rodrix
pra chamar o Chico junto e ‘dá nele um vem cá meu bem ‘Atrás da porta’
pra entregar o ouro ao bandido com as canções amorosas no rádio do carro
repetindo
repetindo
repetindo,
pra dizer dessa vez vai …
pra encontrar o amado
na rodoviária
no bondinho
no aeroporto
no banco da pracinha
ou no boteco de manhã, de tarde
e de noite
também.
 
Eta, que sábado é bom
pra aliviar a tensão interminável da pátria amada:
correr pro futebolzinho
com amigos
cerveja
fala – fala político, mulherio e gargalhadas
 
Eta, sábado é bom
pra lubrificar de Dioniso
corpo e alma
azeitando com paixão
o que se considera
‘o seu de melhor’.

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FRUTO DO MEU VENTRE

Noutras eras, eras
 Eras um metatarso apenas
Eras uma íris semovente
Eras um lábio inferior
Eras um antebraço avulso
Eras um lóbulo sem par
Eras um mamilo improdutivo
Eras um ventre desempareado
Eras uma meia face de esperas
Eras um acordo tácito de solidão
Eras uma palma vez ou outra estendida
Eras um feixe de antessalas
Eras um sopro de noites sem luas
Eras um estrato de si em uma
Era um compêndio de interrogações.
Eras canteiro a semear
porta a se abrir
porto a ancorar.
 
Deu-se a polinização
Deu-se ao beija-flor
Deu-se ao sol com lua, lua com sol
Encontraram-se e geraram um par
Depois o segundo.
A infinitude ensandeceu o corpo
A completude fez-se espírito.
 
Dois.
Três.
Quatro
Agora cinco.
Células de si mesmos.
 
Até sempre.

 

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos: Canal Odonir Oliveira

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O canto dos poetas

O CANTO DOS POETAS NECESSITA DE EMOÇÕES

Sempre que escrevo um verso, um poema, uma crônica, um conto ou um relato subjetivo, me perguntam se já publiquei um livro, se não gostaria de publicar um ou me aconselham a publicá-lo.

São perguntas para as quais tenho dado respostas diferentes, pelo menos há umas quatro décadas.

Em mocinha, quando ainda rascunhava pensares e sentires a esmo, em grandes livros pretos – de capa dura, do tipo daqueles em que se escrevem atas de reuniões – pensava em ser escritora. Mas não em publicar livros para serem vendidos. Sempre tive péssima relação na lida com a remuneração por um trabalho, ainda mais quando isso diz respeito a poetar. Não se vendem versos, palavras. Espalham-se ao vento, como plumas – pensava eu, talvez. Dessa forma, era qual meus poetas preferidos no Brasil, pois que nunca ninguém viveu, se sustentou com lirismo, mas sim de lirismo.

Ali, em mocinha, sempre associei palavras e imagens. Uma amiga – hoje nome muito reconhecido na educação e na benemerência em São José dos Campos, SP – ela sim, escrevia e desenhava muito bem. De tal sorte que eu ficava a invejar-lhe aqueles traços que vivificassem meus escritos, como se estes não se bastassem. Sempre tive em mim que as palavras não são bastantes. Necessito de imagens para concretizar o que escrevo.Como não desenhasse, recortava figuras de revistas e de publicidades que conferissem alguma concretude ao que eu escrevia, então. Parece, querendo provar que aquilo era de verdade ou algo assim. As imagens me ajudavam nisso.

Opostamente, não gosto de ler versos de outros com imagens, porque me tiram a capacidade de imaginar sobre aquilo que escreveram, e estou lendo.  Talvez porque já encontre na ilustração uma possível linha de interpretação que colha os escritos deles e me restrinjam às suas interpretações.

Subjetividades.

Fato é que sempre necessito chegar mais perto do real para subjetivar algo. Deficiência lírica, quem sabe. Apenas uma constatação, uma conjectura. Não sou o poeta fingidor de Pessoa. Nem desejaria me comparar a um deus, um vestal da lírica em língua portuguesa.

Mais tarde, estar apaixonada enchia cadernos e cadernos de letras. Ouvia muitos pedidos de empréstimos para meus textos serem copiados, dedicados a outros e a mais coisas e tal. Nunca me preocupei com isso e me sentia lisonjeada com os pedidos. Eram as plumas ao vento, entendo hoje.

Todo poeta é solitário. Escreve de si para o mundo. De si como fonte, e não apenas sobre si.

E a quem cobrar ou agradecer pela inspiração, pela motivação para escrever? A quem agradecer então? Aos deuses, às ninfas, aos homens amados, aos amigos, aos filhos, aos seres humanos, ao país? A quem?

Períodos estive completamente muda e talvez surda também porque estava viva e não me acometiam febres de versos. O que era então? Um estado de apoplexia de lirismo, com certeza.

Em mocinha, necessitava de imagens ilustrativas para me saber, para me entender, para esclarecer o que era aquilo que me infiltrava os olhos em lágrimas, ódio, medo, angústia e vertia de meus dedos palavras – agora sei bem que é assim.

De tal forma, se hoje me perguntam por que não publico o que escrevo, respondo, mas como assim não publico? Você não está me lendo agora? Você não compartilhou meus textos na rede social? Você não os assoprou ao vento, de modo que nem com dezenas e dezenas de buscas eu os consiga localizar mais? Não foi você mesmo que fez isso? Ou o outro, o outro…

Não guardo nenhuma simpatia pelo mercado editorial no Brasil – que é este o que conheço – por já haver lidado com ele e de muitas formas. Desconfio, virginiana que sou, de almoços e jantares grátis, mesmo que com vinho francês e doces seduções ao pé do ouvido.

Prefiro um bom dia, boa tarde e boa noite na serra a uma lauta ceia na capital.

Escrevo porque instantes existem.

Preciso de imagens.

Preciso de emoções e sensações como do pão da padaria mineira do meu avô.

Estudei grego por meia década na universidade e, por mais que não queira, os deuses todos vivem em mim como fantasmas homericamente platônicos a versejar Safo, a argumentar qual Demóstenes.

Digo sempre que poetar é solitário.

Quando acabo de escrever, fico vazia esperando que me alimentem de novo.

Não sei se o alimento vem de mim mesma, se da rua, da nuvem, do vento ou das estrelas.

Fico vazia sempre.

Não tenho saída, será assim até o fim. 

NÃO SEI ESCREVER SONETOS

Não sei escrever sonetos, pobre poeta que sou
eivada de erros, dores linguísticas, tratados de sofrer acumulados.
Não sei fazer sonetos, que não domino esquemas pré-estabelecidos
nas rimas ricas pobres preciosas de mim.
 
Não sei fazer sonetos porque sou incompleta em mim mesma.
nem escrevo como meus mestres, ainda que os queira imitar
sou mimeses de meus avessos apenas
recorro ao que sinto e entendo como se fossem verdades
 
E nada são que pequenas abstrações, atropelos de mim mesma
com meus mínimos percursos de estradas feridas, machucadas, sangrentas.
não conheço todas as verdades do mundo, intuo algumas; outras, perco.
 
Não sei escrever sonetos que de ínfima alma e espírito
sou um pálido ruído de trens pelas manhãs
rios e cachoeiras

 

ANDO NUA

Ando nua por essas ruas
asfaltadas por letras e números
filtrando dos raios solares
um pouco apenas
fico ali estática
como um símbolo
um risco uma interrogação.
 
Todos ali.
E eu, nua.

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PALAVRAS DE TUDO

Minha vida é feita de páginas.
Sem ler não concretizo voos
Sem ler não amanheço nem anoiteço,
e se entardeço
é porque sou em mim mesma um feixe de páginas
qual bambu
em touceiras
de difícil esfacelamento, destruição ou perda .
 
Quando de palavras me guarneço,
é com elas que me acasamato do mundo,
me resguardo das dores simples,
me afogo nas mais complexas,
irremediáveis e etéreas.
 
Palavras alimentam meu corpo,
atiçam meus desejos mais incompreensíveis,
sensorializam meu cotidiano mínimo,
transformando-o em rasantes sobre oceanos.

 

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VEREDAS

Meu corpo espera
abraçar e ser em ti.
Voe que te colho com minhas mãos
como colho teus cenários
e escrevo-te palavras.
 
Por quê, homem alado?
Porque é de púrpura a cor do meu vestido.

 

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BLUES DE ESTAÇÃO

pequeninas grandes
novinhas tenras
rijas macias
leves suaves
perfumadas aromatizadas
sagradas profanas
atrativas novidades
saborosas leviandades
prazeres ácidos
prazeres doces
prazeres uns
prazeres outros
prazeres

 

TAGORE

Se pudesse falar com Tagore,
diria a ele que o vinho de beijos, apenas, não basta
diria a ele que a nuvem macia é um corpo de prazer
diria a ele que os laços são doces e suaves, porque perfumados
diria que os raios de sol penetram até por mínimas frestas
diria que os afagos, guardados por milênios, restaram só para ele
diria que sua virilidade está completamente tatuada em sua amada
diria a Tagore que esse feitiço recíproco produz a liberdade.
 
Tagore, amado meu, és, por isso, completamente livre!

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CARNEIRINHOS

Contando carneirinhos,
andou o pastor
noite dia
dia e noite
tangendo com seu cajado
a lua e as estrelas
para que campos
lagos e lagoas
tivessem os sons mais aprazíveis
o perfume das flores nascidas ao léu
para que atravessasse a estrada
sem se perder
sem perder seus carneirinhos
de ontem
de hoje
de amanhã.
 
Assim, contava-os no céu
um, dois, três,
três, três, três,
um
de novo contava
sete, oito,
se atrapalhava
um, dois,
de novo.
dez, cem, mil
contava e tangia com vara de condão
sua lente, sua nostalgia
de suspiros cintilantes
por todas aquelas estrelas
por todos aqueles encantos.

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QUANDO MEU AMOR VIER

Olharei em seu olhos
e lhe entregarei minha fala
em poucas palavras porque já conhece quase todas.
Tocarei em seu dorso
alisarei seus braços seu rosto e seus ombros
e sentirei que é de verdade um homem.
Subirei com ele
vagarosamente
meus degraus,
um a um,
para que sinta meu andar
meu jeito de ser uma mulher.
Oferecerei a ele meu vinho,
sem mesmo saber se de vinho ele gosta.
Sentarei com ele sobre o sofá,
colarei meu corpo ao seu,
entregarei a ele minha boca
porque dela sei que gostará.
 
Quando meu amor vier,
poderei dizer a ele,
e exclusivamente a ele,
– Estou perdidamente apaixonada por você !

 

 

Poesias: Odonir Oliveira
Fotos de arquivo pessoal
 
1º Vídeo: Canal Damião Maia
2º Vídeo: Canal jnscam

 

A vida é um sopro

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SOPRO DE MORTE

Morre-se em vida
Vive-se morrendo
O tempo é um vento
O vento é um sopro
A vida é um verso
Mas em que ritmo ?

A DOR MAIOR

A fisgada a pontada a punhalada
A dor insustentável
A palpitação a cárdia frequente
A cardio
O eco-
O eletro-
o coris o cardis o cuore
Pílulas e sossego,
amor aos pedaços,
amor aos abraços,
amor aos afagos,
amor aos suores,
amor aos vapores.
Na volta, recado-aviso:
– Foi o tio Ari . Está morto.

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 O CONCEITO DE FELICIDADE

Felicidade é algo bastante discutível, relativo e até fugaz.

Na fase de vida em que me encontro, não mais nos 20 ou 30 anos de meus filhos, sei que se deve aproveitar TODOS os momentos na vida. Seja sentar escrachada embaixo do pé de manga, que amo, e chupar uma porção delas, dançar de rosto colado, barriga atrelada e beijinhos e beijinhos sem ter fim, até realizar um desejo secreto ou um prazer extemporâneo qualquer: dormir dentro de uma barraca de camping, acampar como mochileira, dormir e acordar na praia, fazer uma fogueira no mato pra cozinhar o que tiver de ser, beber uma pinga que nunca se bebeu antes, namorar um rapazinho novinho daqueles de que qualquer dama das camélias se perde nele, plantar jardins de flores para si mesma ou para o amado, compor canções inspiradas e gravá-las para que o mundo saiba disso, acreditar nas palavras mentirosamente adoráveis na hora dos corpos em si.

Estar feliz exala no ar, quando se caminha é de um jeito diferente, quando se trabalha é com um tesão de vida, de ânima, de vontade de ser, fazer e acontecer.

Animais são perceptivos e cantam nas primaveras das vidas deles e das nossas.

Felicidade é uma questão de enfoque ou de desenfoque, é questão de querer e fazer.

E é fugaz também. Mas isso não invalida nada. Ao contrário, a meu ver, faz com que se aproveite mais dela ainda.

A vida dói e isso é bom. De dores também se vive, fazem crescer, fazem melhorar, fazem querer se viver outras dores e de outras maneiras depois.

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VERMELHO 

é sangue
é sangue de árvore
é sangue de ave
é sangue- veia
é sangue de ovas
é sangue de flor
é sangue torpor
é sangue pavor
é sangue grito- terror
vermelho sangue
doce rio vermelho exangue
em sua dor
em nossa dor.

BASTA! ESTOU EXAUSTA!

Não suporto mais
Gestos cabotinos, risos sarcásticos
Rugas geometricamente tramadas no tecido socialmente exposto
Nervo exposto
Fratura exposta
Carne esponjosa fétida adoecida maculada
Chega de dores adormecidas despertadas
Chega de cenas de teatro burlesco
Chega do festival de hipocrisias de desvarios patéticos
De seres sem estares
De potes vazios de palavras cheias.
Chega de chocolates parisienses comidos pela menina de Pessoa
Tire o papel de alumínio, menina
E come chocolates, com verdade, sem máscaras e fantasias.
Come, menina, mas come de uma vez, sem espetáculo.
Chega de vaudevilles!
“Luzes, som, refletores
Mais um espetáculo”
O mote roubado
O script roteiro roubado
O pano de boca roubado
As personagens roubadas
O cenário roubado
Qual Amadeus, num túnel, enfrentando suas próprias partituras,
que suas.
Chega de bal masque
Do teatro de costumes de Pirandello
“Cada um a seu modo”,
“Seis personagens em busca de uma autor”.
Basta de encenações medíocres
De retretas improváveis
De farsas de ocasião.
“O tempo é a minha matéria
O tempo presente
A vida presente.”
Chega de cópias, vaguezas de ocasião.
Chega de mentirosas construções frasais
a partir de modelos bem- sucedidos.
Come chocolates, menina.
Seja uma versão original de si mesma
Pelo menos uma vez …
Porque será tarde de novo.
Chega de mimeses
Do teatro e seu duplo , de Artaud.
Chega de um Moliére de formas amesquinhadas
De rir, e castigar almas cabotinas.
Chega de livros sem páginas
Sem histórias de sangue
Nem de espinhos no osso.
“Chega de tentar fingir dissimular o que não dá mais para …”
Gonzaguinha, chame a Elis
Corra e pegue o Vinícius, depois o Drummond
Na tabacaria, arraste um fractal do Pessoa,
Traga Hendrix, Joplin, Lennon
Venham todos aqui para o meu banco
Que, nessa minha mesa,
Escorre sangue
Dor
Verdades
E, prazerosamente,
o mel do sexo também.
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LEGADO
De meu pai mineiro,
nascido em Alto Rio Doce,
recebi um rio.
Guardei de suas palavras
o doce do nome,
a vida das águas,
o sublime barulho de seu correr
em meus ouvidos.
De meu pai mineiro,
herdei suas margens verdes
seus passarinhos cantores
suas pedras limadas nas águas
suas nascentes e foz.
De meu pai mineiro,
aprendi a beber água limpa de mãos em concha
ao dedilhar seu nome, doce rio Doce.
De meu pai mineiro,
guardo um grito
uma revolta
uma revolução.
– Filha, não deixe.
Não aceite.
Lute, busque, altere
Interfira.
Ah, doce rio Doce,
legado de meu pai !

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“NÃO ESTOU FALANDO GREGO”

Logos– palavra, expressão, dito,
proposição, razão, definição, convencimento:
degrau racional da humanidade.
Dia–  através de, em pedaços
separadamente, a distância, por entre:
necessidade concreta de unir-se a
(Mas que poema é esse?
Eu não estou falando grego!)
Diálogos, dialogou, dialogó: conversação
evolução do racional no homem
necessidade do emocional no homem:
consciência de ser humano, integrado.
Imagens, metáforas, traços de aço
Ruas, calçadas, automóveis
Interação, integração, completude
Racional
Emocional
Dia-racional
Dia-emocional
 Diálogos.

 

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ANDANDO SOBRE AS ÁGUAS

Qual no episódio bíblico
caminha sobre as águas,
à revelia da fé em Deus
o desapego dos homens.
Sequestrando vida
sugando o sumo
esgotando o futuro
esmolando misericórdia.
Do milagre antigo,
não se precisa agora
caminhar sobre as águas.
Requisita-se apego
Implora-se atenção
Solicita-se empenho
Exige-se intervenção.
Milagres mudam de direção
Milagres eternizam-se
entre homens,
na natureza,
por signos, símbolos,
por ações humanas
conscientes
consistentes
protetoras
defensoras.
Milagres eternos.

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Igreja São José- Alto Rio Doce- MG

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MINEIRO

Um orgulho de Minas…
segue o mineiro em busca
de seu espírito,
em busca de seu corpo
perseguido pelo aço de suas conquistas.

Vai, mineiro.
Segue o rumo
Busca o rumo
Encontra o rumo

Ruma
Chega
Olha
Conhece
Desfruta

Aquiesce seu coração
com o acalanto das montanhas
e o brilho das estrelas,
nelas,
junto delas,
o alcance de suas mãos.

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Praça Dr. Miguel Batista Vieira-  Alto Rio Doce – MG

 

Poesias e texto: Odonir Oliveira
Fotos de arquivo pessoal
 
1º, 2º Vídeos: Canal jnscam
3º Vídeo: Canal Planeta do Samba

Das razões dos amores

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MADRUGADA

Quem está aí?
Ah, é você.
Entre. Fique imóvel.
Mantenha as mãos para trás.
Ouça.
Sinta.
Veja.
 
Quem é essa mulher?
pimenta rícino fel sangue
Quem é essa mulher?
pedra pau cuspe veneno
Quem é essa mulher?
tango rima ritmo gozo.
Quem é essa mulher?
fogo ventre peito bunda
Quem é essa mulher?
vômito catarro urina suor
Quem é essa mulher?
céu-inferno manto sangrento
Quem é essa mulher?
ódio inveja rancor estupor
Quem é essa mulher?
Quem está aí?
 
Ah, é você.
Entre.
Ouça.
Sinta.
Veja.

 

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INCOMPREENSÍVEL

– Mas que doideira é essa? Sofrer por atacado, chorar por tonelada, beijar por metáforas, abraçar por alegorias, penetrar-se por versos? Que doideira é essa?
Não se pode entender. Não se pode explicar
Não se pode aprovar. Não se pode apoiar.
Não se concebe a razão de não se telefonar,
de não se encontrar
de não se tocar
de não se beber do líquido da paixão.
 
– Deixe aquilo lá. Fique comigo aqui. Encontre-me já. Esqueça metáforas de situação. Tudo é fugaz, tudo é início, meio e fim.
 
Como chegar-se ao fim sem meio.
Como acalentar-se um novo,
sem apascentar-se o primeiro que arde em nós…
 
Como ser leve
se nada faz o mínimo sentido?

NA PELE DAS ÁGUAS

Uivo para a rua
Uivo para montanhas lagos lagoas.
Na percussão do meu pensamento
A batera do meu sentimento.
Namoro a ponte
Namoro na ponte.

Empino o sax
Desejo a tarde
Cobiço a noite
Cobiço-a à noite

O cheiro é um
O gosto é outro
Na pele das águas.

No nervo da luz
No músculo retesado do braço
Da perna firme em marcha
Marcha calma, trôpega, insinuante, feroz,
que enlevada pela luz bruxuleante do dia
logo vai se encontrar com a noite
A um idílio completo.

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METÁFORAS

Cofres repletos de imagens
de significantes ocultos
repletos de marcas, medos, modos.
Metáforas são rastros tachos, mastros
tudo e nada
códigos e manchas
flores e sangue.
Metáforas são arapucas, armadilhas, alçapões.
A quem acenarão todas essas metáforas?

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SIM

Sim, porque “eu te amo”
Sim, porque eu te amo, dei pra gostar de músicas de amor, outra vez;
Sim, porque eu te amo, dei pra gostar de cartas de amor, ora em nuvem;
Sim, porque eu te amo, dei pra conversar com as flores, os pássaros, os bichos que percorrem os caminhos;
Sim, porque eu te amo, dei pra recordar sorrisos e alegrias e piadas tolinhas outrora ouvidas;
Sim, porque eu te amo, dei pra adorar vegetais, verduras, pratos coloridos em geral;
Sim, porque eu te amo, voltei a ver os filmes que já vi, os que nunca vi e desejar fazer outros tantos;
Sim, porque eu te amo, encontro gente que me sorri adivinhando meu estado de constante prenhez amorosa;
Sim, porque eu te amo, fico a namorar a chuva pela janela, a ver escorrer enxurradas de barquinhos invisíveis …
Sim, porque eu te amo, abro sorrisos largos, antes desconhecidos;
Sim, porque eu te amo, dei pra dormir menos e viver mais;
Sim, porque eu te amo, passei a fertilizar a terra, a polvilhar nela sementes de abacateiros, ameixeiras, limoeiros, passiflora ardente;
Sim, porque eu te amo, espero o entardecer, o sol se por e o dia raiar de novo a suspirar;
Sim, porque eu te amo, dei pra aceitar mais as diferenças entre as pessoas, o percurso de cada uma, a beleza das animas;
Sim, porque eu te amo, encontro nas montanhas companhia solene para a reflexão, o assobiar dos bem-te-vis e a oratória das maritacas;
Sim, porque eu te amo, abro mão da cotidiana cobrança do ser e estar, do compulsório e eterno ressarcimento de tempo e espaço;
Sim, porque eu te amo entrego, em pacotes, manifestações de afeto e alegria como mínima  retribuição pelos sonhos sonhados;
Sim, porque eu te amo, entorno rios de lágrimas pela insegurança do meu amor e não do teu;
Sim, porque eu te amo, não me permito ser mais frágil como antes o fui e não polir esse último e único brilhante;
Sim, porque eu te amo, contraio vontades inusitadas de dirigir por estradas a esmo, easyridermente;
Sim, porque eu te amo, aguardo o sono e os sonhos em que símbolos e sons compartilharão sensações indefinidas, irracionais, incompreensivelmente deleitáveis;
Sim, porque eu te amo, conheço espaços nunca antes percorridos,  sabores nunca antes encontrados, sensações nunca antes experimentadas;
Sim, porque eu te amo, sei que estás no todo do meu caminhar e descubro que és a outra parte de mim em mim.
 
Sim porque eu te amo.

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LEITE DE ONÇA, LEITE DA ONÇA

da boca da onça desce um leite
que perfume de dioniso tem esse leite
da boca da onça desce um leite
que caminho segue o curso desse rio de leite
da boca da onça desce um leite
por que lagos de músculos escorre esse leite
da boca da onça esguicha um leite em jato
em que jarro acolhe-se esse leite
da boca da onça empina-se um leite quente e denso
ao sangue ao soro ao sumo.
 
A onça acolhe sua fêmea então.

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POENTE

sente,
silente,
nascente,
quente,
morrente,
dormente,
potente
docemente
febrilmente
sente
o poente.

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EXÍLIOS

exílios voluntários
exílio de coxas quentes
exílio de costas largas
exílio de pés enormes
exílio de mãos atrevidas
exílio de ventre berço
exílio de braços laços
exílio de membro aderente
exílio de pescoço salgado
exílio de orelhas atraentes
exílio de olhos mudos
exílio de cabelos outros
exílio de língua sonora
exílio de lábios profanos
exílio de boca sagrada
exílio de corpos nus
exílio de corpos nós
exílio de medos
exílio de gozo
exílio de tantos.
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AS GAIVOTAS

Vejo gaivotas
Trombeteando sementes de flores do campo
Aspergindo perfumes de estrelas cintilantes.
Mas como, se não estamos no mar?
No meu mar
Há rios lagos lagoas
E gaivotas
 
Livres.

 

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OUVE A ÁGUA

Ouve
Espera
Ouve
Ouve fora
Ouve dentro
Ouve o silêncio
Ouve o murmúrio
Ouve o soluço
Ouve a súplica
Ouve
Para e ouve
A água de dentro de você.

 

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UMA ESTRADA

Peregrino,
mambembe
andarilho
nômade
errante
andante
caminhante
pastor pássaro
árvore lagoa rio cascata pedra céu
 
Céu lua mooon nuvem
eternas ondas terra
eu mandava ladrilhar chão com pedrinhas de brilhante
minas rumo para o meu amor passar.
sem amarras, correntes, tormentas, nem rótulos
 
Se eu roubei teu coração
Tu também roubaste o meu.

 

 

Poesias: Odonir Oliveira
Fotos de arquivo pessoal
 
1º Vídeo: Canal Riobaldodiarim
2º Vídeo: Canal Odonir Oliveira
3º Vídeo: Canal GabrielBursztyn 

A simplicidade que faz levitar

 

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BARCOS E FLORES DO CAMPO

De nuances originais
barcos repletos de flores
anseiam por movimento
de águas
de ventos
de perfumes
de enleios
 
barcos vozes sonhos
noites certezas
noites seguranças
madrugadas poéticas
sopros de ar dos céus
mãos segurando rostos
ora em nascente ora em foz
 
terras distantes abraçam os barcos
recolhem-nos
acariciam-lhes
sob a luz das estrelas
e descobrem,
por nuvens errantes qual velas berrantes,
que nos barcos desconstruídos
ainda pulsa o ritmo da corrente do rio
ainda pulsa o som das águas nas pedras
ainda pulsa o perfume das flores do campo.

 

Assim como conchas carregam o barulho do mar.

TRILHAS

Obstáculo à frente.
Transpor.
Pedregulho.
 
– Vem, vem, me segue , me dá a mão. Vem.
– Estou com medo. Não.
– Não, vem; me segue aqui, cuidado.
 
trilha, chão, folha, pedra
Cansaço.
 
– Não vou conseguir.
– Vai sim, só mais um pouco. Eu ajudo, vem.
trilha, chão, folha, pedra
 
Viagem de dentro pra fora.
Dorso de almas
Canto de terra, água e pedra.
Promessa do prazer ao final.
 
Vem, mais um pouco, me segue.
– Sigo, me dá a mão.
Viagem de fora pra dentro
Conquistas, dificuldades, tropeços.
 
Encantamento.
Maravilhamento estético.
 
Natureza, artista de pincéis finos
Natureza, artista de melodias doces
Natureza, artista de lírica celestial.
 
Contemplação.
Entrega.
Silêncios internos.
 
Orquestra sob a batuta
De um regente maior.
 
Contemplação.
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GRITO DE PAVOR

Minha pele em chagas
Meu tronco em dor
 
Quem me socorre?
Quem me vivifica?
Quem me reanima?
 
Minha casca em chagas
Meu dorso lancetado
Meu colo esvaziado
 
Quem me socorre?
 
Meu útero semimorto
Minhas folhas sobreviventes
Meu de dentro se esvaindo
Meu de fora resistindo.
 
Quem me socorre?
 
Um fogo de fora
apagando
um fogo de dentro.
 
Quem me socorre?
Quem me vivifica?
Quem me reanima?
 
Um broto.

O MENINO QUE LEVITAVA

Ao clarear do dia o menino abria olhos arregalados
De beber o mundo.
Mas era pouco.

Montava seu cavalo alado
Como se dançasse com ele.
Era doce o menino.
E partia ao encontro de seus marimbondos
de suas rãs
e lagartixas.
Morcegos eram como flores do campo.

A tarde tinha a estrela vésper sempre a sua espera
E nela menino, cavalo e aventuras seguiam,
bebendo cada folha, cada árvore, cada trilha.
Mas era pouco.

Depois, pisar na água era um barulho celestial
Era cócega
Era música
Era verso
Era poesia.

Desmanchar rotas citadinas
Mergulhar no escuro de grutas cavernas, barcos e estradas.
Era pouco
Porque o menino ria, ria, mas ria tanto,
que de prazer
levitava.

E de baixo, em terra firme,
Ninguém o alcançava
E não era pouco!

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O HOMEM CHORA

Esse homem chora de dor pelas águas
chora de dor pelos peixes
chora de dor pelo hoje
que não é mais o ontem
nem será mais o amanhã.
 
Esse homem chora
porque tem a pele das águas
a alma de lagoa e os olhos de ver.
Tem flores do campo,
orquídeas selvagens no dorso,
conversa com deuses da aquarela.
 
Esse homem chora
porque é menino que levita.

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ABELHAS NO MEU QUINTAL

Abelha mestra
Abelha mãe
Abelha rainha
Abelha fel
Abelha mel
Abelha operária
Abelha canalha
Abelha doce
Abelha assassina
De dor- medo
De picadas mortais
Abelha beijadora de flores
Abelha semeadora de doces amores
Abelha tenaz
Abelha mordaz
Abelha eficaz
Abelha contumaz.

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 TRAVESSIAS

Quantas ainda
haveremos de fazer
por sobre águas quase lágrimas?
 
Momentos de ir
em quantos minutos,
quantos anos
quantas décadas assim …
 
Paisagens de enfeitar infortúnios
sons de céu
sons de ar
sons de atravessar
 
Margens de sempre
chegadas de nunca
travessias intermináveis
vozes longínquas.
 
Um trem que corta destinos,
o outro lado,
a entrega,
a chegada,
 
Travessias, quantas ainda?

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PERIGO, PERIGO!

uma árvore floresceu !
uma árvore frutificou !
uma árvore cumpriu seu ciclo !
uma árvore abriu-se em seiva !
uma árvore copulou,
seu gineceu e seu androceu,
apenas,
sob o sol !

uma árvore aqui
uma árvore ali
uma árvore embonitou-se
para seus pássaros beijarem
o que é de seu !

Perigo, perigo
Isso é um perigo !

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EM CASCATA

Que água é essa
que escorre,
atropela,
carrega,
dissolve
dilui
molha e
suaviza?
 
Que água é essa
que ensurdece a razão
lubrifica o espírito
entontece o corpo e
asperge a devoção?
 
Que água é essa
que sonoriza histórias
colore cenas
entorpece sentidos e
emoldura beirais?
 
Que água é essa
que devassa as palavras
desmata as distâncias
deflora as margens e
irrompe em murmúrios?
 
Que água é essa?
exibida
exuberante
medonha
terrível
quedando
pelos caminhos?
 
Que água é essa?!

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FLORES DO CAMPO

Caminho,
encontro flores do campo,
que lindas,
amarelas selvagens,
róseas-vermelho-alaranjadas,
germinadas vadias, florescidas ao léu,
alheias a cimento, areia, pedras.
 
De pouca água de sarjeta,
De muito sol avassalador,
alimentam-se,
robustas coloridas selvagens.
 
Livres, esparramam-se por aqui, ali, acolá.
 
Sem perfume.
 
Colho-as, que lindas,
Quero-as minhas.
Carrego-as em meu regaço
 
Mãos quentes
Olhos vigilantes
Caminho
 
Tropeço
Caminho
Apressadamente
Sofregamente
adonadamente.
 
Minhas,
sem perfume.
Minhas.
 
Aperto-as,
Que minhas.
 
Ao final do caminho,
sem vida,
sem viço,
sem beleza.
 
Sem perfume
Mortas.
 
Minhas.

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Poemas: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos: Canal Odonir Oliveira

 

Contrastes, encontros, desencontros

QUE DE SUPOSTOS CONTRASTES 

opostos
repostos
dispostos
também se amparam os sentidos
também se amparam os toques
também se amparam os risos
também se amparam as rimas
também se amparam os ombros
a vida ainda é curta
 
Eta vida besta , meu Deus!
diria meu poeta itabirano
do céu
nas estrelas.
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CRAVO E FERRADURA

No cravo
na ferradura
uma candura
gangorra
emocional
fundamental
essencial.
 
Ora cor
ora dor
ora flor
senhor.
 
Ora rancor
ora esplendor
no cravo
na ferradura
doçura
gostosura
espanto
recanto
encanto
tormento
lamento
infenso
intenso.
 
Ora no cravo
ora na ferradura
 
Travessuras.
Loucuras !

 

UM POEMA DE AMOR

Ah, que demorem essas noites a chegar,
que fiquem as tardes, congeladas, com o ardor de seus beijos,
que permaneçam em meu dorso seus toques firmes
que em meus ouvidos cristalizem-se suas palavras todas
que seu rosto, como um som, repercuta em meu colo
que  suas mãos cálidas entorpeçam minha voz incapaz
que seus pés se sobreponham aos meus como se me sustentassem a alma
que seus braços me envolvam com ternura e firmeza como um laço
que sua boca nada mais diga a não ser sussurros e apelos de ais
que seus olhos se fechem a apenas enxergar sabor em mim
que seus encantos estrangeiros e únicos não se percam com o escurecer
que sua língua armazene senhas de contato insubstituíveis
que seus dedos deslizem como seda no percurso de mim
que suas delicadas e sensíveis marcas se descubram por mim
que eu possa escurecer, com você, à chegada da primeira estrela.

 

Lua-Rio

 TRÊS… SEIS… NOVE …

a multiplicação dos corpos
das ideias
das vezes
das vozes
dos meios
dos terços
dos inteiros.

 

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ESTAR   FELIZ

Feliz, assim
Feliz assado
Feliz instante
Feliz momento
Feliz comendo
Feliz bebendo
Feliz cantando
Feliz chorando
Feliz dando
Feliz recebendo
Feliz sendo
Feliz estando
Feliz com
Feliz sem
Feliz dentro
Feliz fora
Feliz de pé
Feliz deitado
Feliz junto
Feliz separado
Feliz instante
Feliz momento.

 

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AGRO  NEGÓCIO DE VERDADE

Na manhã seguinte foi. Parecia querer resolver de uma vez aquilo. Entrou na cozinha da casa grande, mas não queria ninguém ali. Nem era dali. Ela era da senzala. Seu negócio, seu agro negócio era o lavrador de café, suado, vermelho da testa à ponta do queixo. Era ele que ela queria.

Era uma mulher de 30 anos, cheia de graças e segredos. Ninguém ali a tivera nem para aquelas conversinhas de cerca- lourenço tão costumeiras por lá. Tinha a marra característica de quem sabe escolher. Quero isso, quero esse, faça assim, faça aqui, que aqui é bom. Pois é,  Vilma era desse jeito.

Saíra da cidadezinha para estudar na universidade federal. Assim quis e continuou estudando … mas aquele gosto de terra e suor não saía de sua boca. Era prazer maiúsculo aquele negócio. Agro negócio – pensava sempre. Vou lá, vou voltar lá. Vai ser por lá.

De lembranças da universidade na cidade do interior – nem tão pequena assim – havia uns três caras que lhe amansaram desejos, mas também lhe deixaram carências. Carências de quê? De terra molhada, de sujeira nas unhas, de cheiro de chuva e de pegada. Homem pra ela, que crescera por meio dos matos, tinha de ter pegada. E ela também tinha, que era broto do chão.

Josué foi nascido e criado na vereda, na estrada do sem culpa nenhuma, no ensinamento do sertão, sem conceber nem conceder o pecado original. Bebia pinga e ria. E depois levitava o diabo do homem. Sestroso, manhoso, marrento. Como Vilma.

Na noite da cavalgada, eram muitos os peões ali. Paramentados como para um culto cristão, eram poucos os de raiz, flores e frutos. Josué era. Espalhava um perfume de maracujá, ou seria um sabor de jabuticaba? Bom mesmo era ver aquela boca vermelha dele, pendurada no rosto, quase sem sorrir. Vilma tomou as rédeas e seguiu.

Cavalgadas contam com encerramentos religiosos sagrados. Mas nem sempre. Às vezes, profaníssimos.

Josué rezou umas orações, benzeu-se, beijou a medalhinha e entregou-se à volúpia daquele negócio com Vilma.

Agro negócio de verdade!

Publicado em Carta capital (09/11/2015)                                    http://www.cartacapital.com.br/economia/agro-negocio-de-verdade-3903.html

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CHOVENDO

Primeiro, sons de gotas
Depois, cheiro de água na terra
Agora, na sacada,
vendo a  precipitação dos pingos.
entorno meu rosto por eles
para que me lavem dores,
para que me limpem do sangue,
para que me purifiquem com o prazer.
Nesse mesmo céu
há pouco havia estrelas.
Agora, entreguei a ele o meu coração.

 

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NÃO DEVERIA SE CHAMAR AMOR

Um afago, um empurrão
Uma lambida, um arranhão
Um céu, um inferno
Uma entrega, um medo
Um doce, um azedo
Um risco, um rabisco
Um colo, um chute
Um rio, um capeta
Uma música, um anátema
Um riso, um amargor
Uma fala, o humor.

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O ECO

veio feito música
veio feito aquarela
veio feito eco
à mensagem “eu amo você”
que assoprei ao vento
que atirei no rio
que espalhei pela mata.
 
Veio como eco de mim,
em ondas outras,
a resposta de ti.

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UM COMETA

A lua vem
A noite vem
A estrela vem
Quase um cometa
Quase um asteroide
Quase um facho
Quase brilho
Quase luz
Quase cor
Quase susto
Quase Céu
No meu céu.

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NEM UM SORRISO

Nunca um sorriso
nunca um abraço
nunca um beijo.
Uma foto , o mar, o espectro
Nunca um toque
nunca um fique
nunca um vá.
nunca aqui
sempre lá, acolá
O nunca sempre.

 

LIVRE AMAR É SÓ AMAR

Razão emoção
Sempre essa invenção
Sem definição
Uma distorção
Uma competição
Frente e costas
Verso e reverso
Pele e lógica
 
Em cena.
Pena.

 

SERES FRACTAIS

vozes de pessoas
me acompanham
vozes de Pessoa me aturdem
 
Serei eu ele
Será ele eu
seres em fractais
marginais
poliedros fantasmagóricos
espelhos fatiados
almas esmigalhadas
desdouros passados
compassos presentes
com passos urgentes
espectros futuros
coloridos
doloridos fractais.

 

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NERVO EXPOSTO

Carne exposta,
nervo exposto
ranhuras
fissuras
fraturas.
 
Foto exposta
Vida exposta.
À mostra
Raio X de sangue
Biópsias quase necropsias.

 

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BIPOLARIDADE

Aqui
lá.
Fica
vai.
Entra
Sai.
toma.
 
Gangorra existencial.
Suspensão em corda esticada nas nuvens
Precipício à frente.
Paraíso atrás.

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AMOR PLATÔNICO

tônico
sem isotônico
distônico
atômico
hipertônico
atônito
sub-tônico
Platônico.

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APAIXONADA PELO DIA

Como não olhar você
chegando pela estrada
De um lado, oeste
De outro, leste
De um lado dia
De outro noite
De um lado noite
Do outro vermelhidão
Fogueira incendiando céu, ar, imensidão?
Como não adivinhar você
Belo, forte, bravo, conquistador?
Como não adivinhar você,
 
Novo dia,
Que se abre dessa escuridão?

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AMAR É O QUÊ?

Ah, meu amor
eu não esperava mais amar.

Amar é difícil:
ficamos frágeis, inseguros, duvidosos.
Amar faz-nos ciumentos do que antes não éramos
Amar deixa marcas jamais cicatrizáveis
Amar faz entregar aos outros nossas incapacidades.

Amar nos torna
compulsórios demais,
cotidianos demais,
corriqueiros demais.

Amar nos faz beber lirismo
em um copo
em um livro
em uma flor
em uma risada tola.

Amar é um sentimento,
é uma parte,
é uma fase,
é uma tormentosa viagem
em um oceano a esmo,
é um deleite de senhas descobertas,
é um sentar-se ao lado, nos silêncios compartilhados?

Amar se parece com o quê?
Com um corpo dentro do outro
como encaixe de engrenagens que se integram
oferecendo trabalho?
Com um tempero harmonioso de manjericão, alecrim e salsa?
Com água de cachoeira pesando nos ombros
qual chicotadas de ânimo?
Com perfume de mãos deslizantes sobre flores delicadas?

Amar se parece com o quê?
Ah, meu amor
eu não esperava mais amar.

 

Texto e poemas: Odonir Oliveira
Fotos de arquivo pessoal
 
1º Vídeo: Canal Odonir Oliveira
2º Vídeo: Taís Marinho
3º Vídeo: Canal luciano hortencio
4º Vídeo: Canal Biscoito Fino

 

Voejando em tempos e espaços

PÁSSAROS IRREPREENSÍVEIS

que dançam
que leves
que saltam
que seguem
que brincam
que brindam.
 
Que soltam-se
que seguem-se
que envolvem-se
que vão
que vêm
em vão
em vai-e-vém
 
Levitam nos ares
nos portos
nos dorsos
nas rotas.
 
No porto.
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ESPÍRITOS DA FLORESTA

Espíritos domesticam
olhares, sentires e ficares,
pelo cheiro, pelo vento,
pelo sons do mato do sertão.
 
Espíritos atraem por rochas, por águas, por céus.
Espíritos nas florestas
polinizam almas inquietas
 
Para sempre.

 

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O GRITO

Aquela vontade
Insuportável
Insustentável
Insuperável
De gritar
De fazer chegar
De mandar dizer
De pedir para contarem
 
Ah, gritar pelas ruas
Nas madrugadas peregrinas
 
Eu amo você !

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PEGADAS

São pegadas essas que deixo aqui
São pegadas as que deixas aí
São incursões de ti em mim
São passos molhados
pelas águas
pelas lágrimas
pela paixão.
 
Pegadas é só o que se deixa
na natureza, então.

 

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O AMOR CÚMPLICE

De todos os amores
o mais perpétuo
entre os pares
é o cúmplice,
o parceiro,
o incomum.
 
Amores há muitos,
polinizados por abelhas de espécies várias.
Mas mel do bom
é o mel particular
é o meu,
particular,
essencial.

 

 

Poemas: Odonir Oliveira
Fotos de arquivo pessoal
Vídeo: Canal Odonir Oliveira