Além do horizonte … o infinito

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INFINITO

Odonir Oliveira

Sem números cifras cálculos.

Nada de exatidão.

Do Velho, amante da geometria,

Não herdei nem o gosto.

Não saboreio retas, pontos, paralelas…

Saboreio as intersecções, o somos , o sumo, o sonho.

Dos 366 novos que acabo de receber de presente,

menos Windows,

mais janelas.

Ao  endoidecimento!

Mais amor, sem favor.

Rumo ao infinito!

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VIAGENS

Odonir Oliveira

Na plataforma, de partida, Marta esperava em si

Enquanto espera viaja seu mundo em cada dormente, em cada vagão,

em cada trilho.

Suspira.

Enquanto espera toma a decisão.

Tenta voltar atrás, ir ao encontro dos amigos. Quer desistir.

Assim o faz.

Mas no dia seguinte lá estava ela de volta na estação vazia.

E dessa vez não desistiria.

No instante de entregar-se ao vagão, quase um fetiche em si, olha o desembarque e de novo quer fugir, quer deixar de viver o que precisa viver, o que merece viver.

Recua. Espera.

Não ainda.

“Não subo no vagão.

E se não for o vagão que busco”.

Volta bovinamente ao hotel, entrega-se ao quarto vazio e chora.

Chora copiosamente a dor da falta de coragem da entrega, do passo seguinte no estribo do trem, da angústia de não querer-se entregue, abandonada ao ritmo do trem.

Recolhe-se.

Bebe três  quatro, cinco caipirinhas de vodca e mergulha seus passos solitários pelas ruas, antes que escureça, antes que anoiteça de novo em si.

É um poço de lágrimas vertido pela auto- estrada, pela ponte, pelos canteiros, pelo gramado.

Atravessa ruas perigosas, que nada há de lhe fazer mais mal do que não ter entrado naquele trem.

Volta ao hotel e sangra.

Sangra sua amargura, suas lembranças de vidas passadas nessa vida mesma.

Sangra setembros e outubros de ontem, hoje e sempre.

Lembra dos versos do amigo ” Amor deixa marcas no pescoço e no travesseiro'”

De álcool e lirismo reconhece-se fraca, vazia e estéril de palavras. Não consegue emitir um som além do apito de um trem. E eles não param de apitar noite e dia em seu sentimento.

Trem imagem recorrente quando acordada, quando dormindo.

Dorme e sonha com um trem. De carga. Um sonho curto. Pobre. Sem visão panorâmica. Um trem pobre. É isso. Pobre.

Esse não pode ser o meu trem. O trem é o meu céu, lembra.

Na tarde seguinte, a plataforma.

Quantas mais teria ela que adentrar, quase consumar a ida e  … voltar para trás. Quantas vezes ainda?

Dessa vez iria em frente, fosse o que fosse.

Precisava encontrar-se em seu trem.Não recuaria mais.

Aguardou ali sentada morrendo de medo de o trem dessa vez atrasar, não aparecer, não haver lugar mais para ela, que entendia tantas vezes ter desistido, que talvez não merecesse mais aquele embarque.

Repleta de prazer e gozo … penetrou no trem. E contemplou-o inteiro. Fascinação ao tocar em cada parte dele ali naquela primeira vez.

O êxtase da viagem foi tão incandescente que o trem deixou pela janela, aos poucos , ao longe, aos poucos, ao longe, ao longe,  aos poucos outras imagens que iam ficando cada vez mais distantes, distantes, distantes.

Totalmente para trás.

OFERECIMENTO

Odonir Oliveira

 

Ofereço-te a água dessa lagoa

Para beberes tuas imagens

Ofereço-te a luz desse céu

Para tuas telas de muitos tons

Ofereço-te essas areias macias

Para mergulhares teus pés

Ofereço-te um barco quase morto

Para o reavivares e chegares ao infinito

Ofereço-te essa flor

Para encantares sentimentos

Ofereço-te um poema

Para fazeres com ele o que quiseres.

 

VERSÕES, TRANSGRESSÕES …

Odonir Oliveira

versos, versões grandões

bordeis sem cama sequer

em outras posições

sem coxas assim

os beijos virão pra mim

simples assim.

Assim que Pedro, lobo, Prokofiev,

sinfonicamente,

oferecer 

suas notas musicais

Beijos depois, bem, mas bem depois.

Sinfonias de grafites nas paredes,

nos muros,

nas escadas,

pela cidade.

Grosseiramente!

Vídeo:Canal Odonir Oliveira

NOITE
Odonir Oliveira

Sei que é noite
porque de vento
e de ondas
os coqueiros respondem aos sinais.

Sei que é noite
porque ali
ficamos só nós dois
sem que nos percebessem,
que parecíamos
invisíveis.

Em simbiose de esperas
Em sussurros de combinações
Em movimentos de contemplações.

Sei que é noite
porque em meu corpo
sinto a noite
assim em todos os seus sinais.

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VERTIGEM

Odonir Oliveira

Deu que naquela noite o eletricista tocou a campainha às sete.

Esquecera ela que o chamara para uma conserto urgente, logo pela manhã.

Ao abrir a porta, já meio lá meio cá, que bebera uns bons 2 copos de vinho tinto forte, surpreendeu-se: não era o cavaleiro das matas que viera com seu cavalo levá-la embora para aquela nuvem? Estaria bêbada então?

Olhou para o homem decepcionada, abriu a porta e encaminhou-o quase sem palavras ao serviço a executar.

Ele começou.

Enquanto isso, voltou para sua ágora diária a discutir cidadania com  cidadãos gregos por uma Paidéia imaginária.

O homem lá, entre fios, chaves de fenda, alicates, desfazendo e refazendo um circuito inteiro.

Em lua sobre lá que signo, a mulher aguardava lá e cá pela finalização do conserto e de um concerto, que ora ouvia também.

Foram assim, um com seus fios reparando a energia, e outra, com outros fios, tecendo as suas energias vitais.

Dado um tempo, encaminhou-se ele a ágora da mulher e reparou no que esta ouvia ali, no que via ali, no que lia ali.

Deslumbrado com aquilo tudo, que era homem simples – rude não – perguntou-lhe “ Quem fez isso que a senhora está vendo e ouvindo aí na tela?” Respondeu do que se tratava, quem fizera, como fizera e quando, explicando-lhe em mínimos detalhes.

– Meu Deus, mas isso é muito lindo. Uma pessoa pra fazer uma coisa bonita dessas tem que ter muito tempo, né. Nem deve precisar trabalhar pra sustentar uma casa. Porque a senhora sabe, a gente acha tudo isso muito bonito, mas não tem tempo de ver nada disso acontecendo. A gente nem sabe que isso existe. A senhora é que é feliz.

“Sou mesmo, seu Inácio” – respondeu ela ao eletricista.

Pagou-lhe o serviço. Ele se foi. Mas pagou bem pouco ! Porque naquela noite, assim tão singelamente, ele havia dado a ela um dos mais belos presentes de sua vida.

Ele lhe entregara de volta a sua FELICIDADE!

Vídeo: Canal Odonir Oliveira

AGRADECIMENTO

Odonir Oliveira

Aprendi a agradecer ao sol por ter-se aberto em dia.

Aprendi a agradecer à lua por coroar a noite.

Aprendi a agradecer aos campos por me trazerem esse cheiro de mato.

Aprendi a agradecer aos poetas por me perfumarem de versos.

 

Vídeo: Canal Odonir Oliveira

ODE 
Odonir Oliveira

Ó céu,
que rebelde,
assumes todas as dores da terra
retorces a auréola da luz primeira
tornando-a última,
como se com isso
punisses todos os homens
por erros culpas desvios.

Ó céu,
que punes a claridade do dia
enrubescendo-a em sua moldura
escancarando-a com carrancas soturnas
para poder dela por fim se livrar.

Ó céu,
que queres,
se quanto mais duro te tornas
mais doce e lírico
te esbanjas
aos que te contemplam?

Que desejas, ó céu,
com fascinante beleza,
que por minutos,
liquida-nos,
arrebata-nos
como num golpe fatal.

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SÁBADO É BOM

Odonir Oliveira

Pra ficar sob os lençóis

pra limpar os discos, os livros e nada mais com Elis e Zé Rodrix

pra chamar o Chico junto e ‘dá nele um vem cá meu bem ‘Atrás da porta’

pra entregar o ouro ao bandido com as canções amorosas no rádio do carro

repetindo

repetindo

repetindo,

pra dizer dessa vez vai …

pra encontrar o amado

na rodoviária

no bondinho

no aeroporto

no banco da pracinha

ou no boteco de manhã, de tarde

e de noite

também.

Eta, que sábado é bom

pra aliviar a tensão interminável da pátria amada:

correr pro futebolzinho

com amigos

cerveja

fala – fala político, mulherio e gargalhadas

Eta, sábado é bom

pra lubrificar de Dioniso

corpo e alma

azeitando com paixão

o que se considera

‘o seu de melhor’.

 

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FRUTO DO MEU VENTRE

Odonir Oliveira

 

Noutras eras, eras

 Eras um metatarso apenas

Eras uma íris semovente

Eras um lábio inferior

Eras um antebraço avulso

Eras um lóbulo sem par

Eras um mamilo improdutivo

Eras um ventre desempareado

Eras uma meia face de esperas

Eras um acordo tácito de solidão

Eras uma palma vez ou outra estendida

Eras um feixe de antessalas

Eras um sopro de noites sem luas

Eras um estrato de si em uma

Era um compêndio de interrogações.

Eras canteiro a semear

porta a se abrir

porto a ancorar.

Deu-se a polinização

Deu-se ao beija-flor

Deu-se ao sol com lua, lua com sol

Encontraram-se e geraram um par

Depois o segundo.

A infinitude ensandeceu o corpo

A completude fez-se espírito.

Dois.

Três.

Quatro

Agora cinco.

Células de si mesmos.

Até sempre.

Fotos de arquivo pessoal

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O canto dos poetas

O CANTO DOS POETAS NECESSITA DE EMOÇÕES

Odonir Oliveira

Sempre que escrevo um verso, um poema, uma crônica, um conto ou um relato subjetivo, me perguntam se já publiquei um livro, se não gostaria de publicar um ou me aconselham a publicá-lo.

São perguntas para as quais tenho dado respostas diferentes, pelo menos há umas quatro décadas.

Em mocinha, quando ainda rascunhava pensares e sentires a esmo, em grandes livros pretos – de capa dura, do tipo daqueles em que se escrevem atas de reuniões – pensava em ser escritora. Mas não em publicar livros para serem vendidos. Sempre tive péssima relação na lida com a remuneração por um trabalho, ainda mais quando isso diz respeito a poetar. Não se vendem versos, palavras. Espalham-se ao vento, como plumas – pensava eu, talvez. Dessa forma, era qual meus poetas preferidos no Brasil, pois que nunca ninguém viveu, se sustentou com lirismo, mas sim de lirismo.

Ali, em mocinha, sempre associei palavras e imagens. Uma amiga – hoje nome muito reconhecido na educação e na benemerência em São José dos Campos, SP – ela sim, escrevia e desenhava muito bem. De tal sorte que eu ficava a invejar-lhe aqueles traços que vivificassem meus escritos, como se estes não se bastassem. Sempre tive em mim que as palavras não são bastantes. Necessito de imagens para concretizar o que escrevo.Como não desenhasse, recortava figuras de revistas e de publicidades que conferissem alguma concretude ao que eu escrevia, então. Parece, querendo provar que aquilo era de verdade ou algo assim. As imagens me ajudavam nisso.

Opostamente, não gosto de ler versos de outros com imagens, porque me tiram a capacidade de imaginar sobre aquilo que escreveram, e estou lendo.  Talvez porque já encontre na ilustração uma possível linha de interpretação que colha os escritos deles e me restrinjam às suas interpretações.

Subjetividades.

Fato é que sempre necessito chegar mais perto do real para subjetivar algo. Deficiência lírica, quem sabe. Apenas uma constatação, uma conjectura. Não sou o poeta fingidor de Pessoa. Nem desejaria me comparar a um deus, um vestal da lírica em língua portuguesa.

Mais tarde, estar apaixonada enchia cadernos e cadernos de letras. Ouvia muitos pedidos de empréstimos para meus textos serem copiados, dedicados a outros e a mais coisas e tal. Nunca me preocupei com isso e me sentia lisonjeada com os pedidos. Eram as plumas ao vento, entendo hoje.

Todo poeta é solitário. Escreve de si para o mundo. De si como fonte, e não apenas sobre si.

E a quem cobrar ou agradecer pela inspiração, pela motivação para escrever? A quem agradecer então? Aos deuses, às ninfas, aos homens amados, aos amigos, aos filhos, aos seres humanos, ao país? A quem?

Períodos estive completamente muda e talvez surda também porque estava viva e não me acometiam febres de versos. O que era então? Um estado de apoplexia de lirismo, com certeza.

Em mocinha, necessitava de imagens ilustrativas para me saber, para me entender, para esclarecer o que era aquilo que me infiltrava os olhos em lágrimas, ódio, medo, angústia e vertia de meus dedos palavras – agora sei bem que é assim.

De tal forma, se hoje me perguntam por que não publico o que escrevo, respondo, mas como assim não publico? Você não está me lendo agora? Você não compartilhou meus textos na rede social? Você não os assoprou ao vento, de modo que nem com dezenas e dezenas de buscas eu os consiga localizar mais? Não foi você mesmo que fez isso? Ou o outro, o outro…

Não guardo nenhuma simpatia pelo mercado editorial no Brasil – que é este o que conheço – por já haver lidado com ele e de muitas formas. Desconfio, virginiana que sou, de almoços e jantares grátis, mesmo que com vinho francês e doces seduções ao pé do ouvido.

Prefiro um bom dia, boa tarde e boa noite na serra a uma lauta ceia na capital.

Escrevo porque instantes existem.

Preciso de imagens.

Preciso de emoções e sensações como do pão da padaria mineira do meu avô.

Estudei grego por meia década na universidade e, por mais que não queira, os deuses todos vivem em mim como fantasmas homericamente platônicos a versejar Safo, a argumentar qual Demóstenes.

Digo sempre que poetar é solitário.

Quando acabo de escrever, fico vazia esperando que me alimentem de novo.

Não sei se o alimento vem de mim mesma, se da rua, da nuvem, do vento ou das estrelas.

Fico vazia sempre.

Não tenho saída, será assim até o fim. 

NÃO SEI ESCREVER SONETOS

Odonir Oliveira

 

Não sei escrever sonetos, pobre poeta que sou

eivada de erros, dores linguísticas, tratados de sofrer acumulados.

Não sei fazer sonetos, que não domino esquemas pré-estabelecidos

nas rimas ricas pobres preciosas de mim.

Não sei fazer sonetos porque sou incompleta em mim mesma.

nem escrevo como meus mestres, ainda que os queira imitar

sou mimeses de meus avessos apenas

recorro ao que sinto e entendo como se fossem verdades

E nada são que pequenas abstrações, atropelos de mim mesma

com meus mínimos percursos de estradas feridas, machucadas, sangrentas.

não conheço todas as verdades do mundo, intuo algumas; outras, perco.

Não sei escrever sonetos que de ínfima alma e espírito

sou um pálido ruído de trens pelas manhãs

rios e cachoeiras

ANDO NUA

Odonir Oliveira

Ando nua por essas ruas

asfaltadas por letras e números

filtrando dos raios solares

um pouco apenas

fico ali estática

como um símbolo

um risco uma interrogação.

Todos ali.

E eu, nua.

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PALAVRAS DE TUDO

Odonir Oliveira

 

Minha vida é feita de páginas.

Sem ler não concretizo voos

Sem ler não amanheço nem anoiteço,

e se entardeço

é porque sou em mim mesma um feixe de páginas

qual bambu

em touceiras

de difícil esfacelamento, destruição ou perda .

Quando de palavras me guarneço,

é com elas que me acasamato do mundo,

me resguardo das dores simples,

me afogo nas mais complexas,

irremediáveis e etéreas.

Palavras alimentam meu corpo,

atiçam meus desejos mais incompreensíveis,

sensorializam meu cotidiano mínimo,

transformando-o em rasantes sobre oceanos.

VEREDAS

Odonir Oliveira

 

Meu corpo espera

abraçar e ser em ti.

Voe que te colho com minhas mãos

como colho teus cenários

e escrevo-te palavras.

Por quê, homem alado?

Porque é de púrpura a cor do meu vestido.

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BLUES DE ESTAÇÃO

Odonir Oliveira

 

pequeninas grandes

novinhas tenras

rijas macias

leves suaves

perfumadas aromatizadas

sagradas profanas

atrativas novidades

saborosas leviandades

prazeres ácidos

prazeres doces

prazeres uns

prazeres outros

prazeres

Vídeo: jnscam

 

TAGORE

Odonir Oliveira

 

Se pudesse falar com Tagore,

diria a ele que o vinho de beijos, apenas, não basta

diria a ele que a nuvem macia é um corpo de prazer

diria a ele que os laços são doces e suaves, porque perfumados

diria que os raios de sol penetram até por mínimas frestas

diria que os afagos, guardados por milênios, restaram só para ele

diria que sua virilidade está completamente tatuada em sua amada

diria a Tagore que esse feitiço recíproco produz a liberdade.

Tagore, amado meu, és, por isso, completamente livre!

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CARNEIRINHOS

Odonir Oliveira

Contando carneirinhos,

andou o pastor

noite dia

dia e noite

tangendo com seu cajado

a lua e as estrelas

para que campos

lagos e lagoas

tivessem os sons mais aprazíveis

o perfume das flores nascidas ao léu

para que atravessasse a estrada

sem se perder

sem perder seus carneirinhos

de ontem

de hoje

de amanhã.

Assim, contava-os no céu

um, dois, três,

três, três, três,

um

de novo contava

sete, oito,

se atrapalhava

um, dois,

de novo.

dez, cem, mil

contava e tangia com vara de condão

sua lente, sua nostalgia

de suspiros cintilantes

por todas aquelas estrelas

por todos aqueles encantos.

 

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QUANDO MEU AMOR VIER

Odonir Oliveira

 

Olharei em seu olhos

e lhe entregarei minha fala

em poucas palavras porque já conhece quase todas.

Tocarei em seu dorso

alisarei seus braços seu rosto e seus ombros

e sentirei que é de verdade um homem.

Subirei com ele

vagarosamente

meus degraus,

um a um,

para que sinta meu andar

meu jeito de ser uma mulher.

Oferecerei a ele meu vinho,

sem mesmo saber se de vinho ele gosta.

Sentarei com ele sobre o sofá,

colarei meu corpo ao seu,

entregarei a ele minha boca

porque dela sei que gostará.

Quando meu amor vier,

poderei dizer a ele,

e exclusivamente a ele,

– Estou perdidamente apaixonada por você !

 

Fotos de arquivo pessoal

A vida é um sopro

SOPRO DE MORTE

Odonir Oliveira

Morre-se em vida
Vive-se morrendo
O tempo é um vento
O vento é um sopro
A vida é um verso
Mas em que ritmo ?

 

Vídeo: jnscam

 

A DOR MAIOR

Odonir Oliveira

 

A fisgada a pontada a punhalada

A dor insustentável

A palpitação a cárdia frequente

A cardio

O eco-

O eletro-

o coris o cardis o cuore

 

Pílulas e sossego,

amor aos pedaços,

amor aos abraços,

amor aos afagos,

amor aos suores,

amor aos vapores.

 

Na volta, recado-aviso:

– Foi o tio Ari . Está morto.

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 O CONCEITO DE FELICIDADE

Odonir Oliveira

Felicidade é algo bastante discutível, relativo e até fugaz.

Na fase de vida em que me encontro, não mais nos 20 ou 30 anos de meus filhos, sei que se deve aproveitar TODOS os momentos na vida. Seja sentar escrachada embaixo do pé de manga, que amo, e chupar uma porção delas, dançar de rosto colado, barriga atrelada e beijinhos e beijinhos sem ter fim, até realizar um desejo secreto ou um prazer extemporâneo qualquer: dormir dentro de uma barraca de camping, acampar como mochileira, dormir e acordar na praia, fazer uma fogueira no mato pra cozinhar o que tiver de ser, beber uma pinga que nunca se bebeu antes, namorar um rapazinho novinho daqueles de que qualquer dama das camélias se perde nele, plantar jardins de flores para si mesma ou para o amado, compor canções inspiradas e gravá-las para que o mundo saiba disso, acreditar nas palavras mentirosamente adoráveis na hora dos corpos em si.

Estar feliz exala no ar, quando se caminha é de um jeito diferente, quando se trabalha é com um tesão de vida, de ânima, de vontade de ser, fazer e acontecer.

Animais são perceptivos e cantam nas primaveras das vidas deles e das nossas.

Felicidade é uma questão de enfoque ou de desenfoque, é questão de querer e fazer.

E é fugaz também. Mas isso não invalida nada. Ao contrário, a meu ver, faz com que se aproveite mais dela ainda.

A vida dói e isso é bom. De dores também se vive, fazem crescer, fazem melhorar, fazem querer se viver outras dores e de outras maneiras depois.

 

VERMELHO 
Odonir Oliveira

é sangue
é sangue de árvore
é sangue de ave
é sangue- veia
é sangue de ovas
é sangue de flor
é sangue torpor
é sangue pavor
é sangue grito- terror
vermelho sangue
doce rio vermelho exangue
em sua dor
em nossa dor.

Vídeo: jnscam

 

BASTA! ESTOU EXAUSTA!

Odonir Oliveira

 

Não suporto mais

Gestos cabotinos, risos sarcásticos

Rugas geometricamente tramadas no tecido socialmente exposto

Nervo exposto

Fratura exposta

Carne esponjosa fétida adoecida maculada

Chega de dores adormecidas despertadas

Chega de cenas de teatro burlesco

Chega do festival de hipocrisias de desvarios patéticos

De seres sem estares

De potes vazios de palavras cheias

Chega de chocolates parisienses comidos pela menina de Pessoa

Tire o papel de alumínio, menina

E come chocolates, com verdade, sem máscaras e fantasias.

 

Come, menina, mas come de uma vez, sem espetáculo.

Chega de vaudevilles!

“Luzes, som, refletores

Mais um espetáculo”

O mote roubado

O script roteiro roubado

O pano de boca roubado

As personagens roubadas

O cenário roubado

Qual Amadeus, num túnel, enfrentando suas próprias partituras,

que suas.

Chega de bal masque

Do teatro de costumes de Pirandello

“Cada um a seu modo”,

“Seis personagens em busca de uma autor”.

Basta de encenações medíocres

De retretas improváveis

De farsas de ocasião.

“O tempo é a minha matéria

O tempo presente

A vida presente.”

 

Chega de cópias, vaguezas de ocasião.

Chega de mentirosas construções frasais

a partir de modelos bem- sucedidos.

Come chocolates, menina.

Seja uma versão original de si mesma

Pelo menos uma vez …

Porque será tarde de novo.

 

Chega de mimeses

Do teatro e seu duplo , de Artaud.

Chega de um Moliére de formas amesquinhadas

De rir, e castigar almas cabotinas.

Chega de livros sem páginas

Sem histórias de sangue

Nem de espinhos no osso.

“Chega de tentar fingir dissimular o que não dá mais para …”

Gonzaguinha, chame a Elis

Corra e pegue o Vinícius, depois o Drummond

Na tabacaria, arraste um fractal do Pessoa,

Traga Hendrix, Joplin, Lennon

Venham todos aqui para o meu banco

Que, nessa minha mesa,

Escorre sangue

Dor

Verdades

E, prazerosamente,

o mel do sexo também.

 

LEGADO

Odonir Oliveira

 

De meu pai mineiro,

nascido em Alto Rio Doce,

recebi um rio.

 

Guardei de suas palavras

o doce do nome,

a vida das águas,

o sublime barulho de seu correr

em meus ouvidos.

 

De meu pai mineiro,

herdei suas margens verdes

seus passarinhos cantores

suas pedras limadas nas águas

suas nascentes e foz.

 

De meu pai mineiro,

aprendi a beber água limpa de mãos em concha

ao dedilhar seu nome, doce rio Doce.

 

De meu pai mineiro,

guardo um grito

uma revolta

uma revolução.

 

– Filha, não deixe.

Não aceite.

Lute, busque, altere

Interfira.

 

Ah, doce rio Doce,

legado de meu pai!

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“NÃO ESTOU FALANDO GREGO”

Odonir Oliveira

 

Logos palavra, expressão, dito,

proposição, razão, definição, convencimento:

degrau racional da humanidade.

 

Dia–  através de, em pedaços

separadamente, a distância, por entre:

necessidade concreta de unir-se a

 

(Mas que poema é esse?

Eu não estou falando grego!)

 

Diálogos, dialogou, dialogó: conversação

evolução do racional no homem

necessidade do emocional no homem:

consciência de ser humano, integrado.

 

Imagens, metáforas, traços de aço

Ruas, calçadas, automóveis

Interação, integração, completude

Racional

Emocional

Dia-racional

Dia-emocional

 Diálogos.

 

ANDANDO SOBRE AS ÁGUAS

Odonir Oliveira

 

Qual no episódio bíblico

caminha sobre as águas,

à revelia da fé em Deus

o desapego dos homens.

 

Sequestrando vida

sugando o sumo

esgotando o futuro

esmolando misericórdia.

 

Do milagre antigo,

não se precisa agora

caminhar sobre as águas.

 

Requisita-se apego

Implora-se atenção

Solicita-se empenho

Exige-se intervenção.

 

Milagres mudam de direção

Milagres eternizam-se

entre homens,

na natureza,

por signos, símbolos,

por ações humanas

conscientes

consistentes

protetoras

defensoras.

 

Milagres eternos.

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Igreja São José- Alto Rio Doce- MG

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MINEIRO

Odonir Oliveira

Um orgulho de Minas…
segue o mineiro em busca
de seu espírito,
em busca de seu corpo
perseguido pelo aço de suas conquistas.

Vai, mineiro.
Segue o rumo
Busca o rumo
Encontra o rumo

Ruma
Chega
Olha
Conhece
Desfruta

Aquiesce seu coração
com o acalanto das montanhas
e o brilho das estrelas,
nelas,
junto delas,
o alcance de suas mãos.

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Praça Dr. Miguel Batista Vieira-  Alto Rio Doce – MG

 

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Das razões dos amores

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MADRUGADA

Quem está aí?

Ah, é você.

Entre. Fique imóvel.

Mantenha as mãos para trás.

Ouça.

Sinta.

Veja.

Quem é essa mulher?

pimenta rícino fel sangue

Quem é essa mulher?

pedra pau cuspe veneno

Quem é essa mulher?

tango rima ritmo gozo.

Quem é essa mulher?

fogo ventre peito bunda

Quem é essa mulher?

vômito catarro urina suor

Quem é essa mulher?

céu-inferno manto sangrento

Quem é essa mulher?

ódio inveja rancor estupor

Quem é essa mulher?

Quem está aí?

Ah, é você.

Entre.

Ouça.

Sinta.

Veja.

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INCOMPREENSÍVEL

 – Mas que doideira é essa? Sofrer por atacado, chorar por tonelada, beijar por metáforas, abraçar por alegorias, penetrar-se por versos? Que doideira é essa?

Não se pode entender. Não se pode explicar

Não se pode aprovar. Não se pode apoiar.

Não se concebe a razão de não se telefonar,

de não se encontrar

de não se tocar

de não se beber do líquido da paixão.

Deixe aquilo lá. Fique comigo aqui. Encontre-me já. Esqueça metáforas de situação. Tudo é fugaz, tudo é início, meio e fim.

Como chegar-se ao fim sem meio.

Como acalentar-se um novo,

sem apascentar-se o primeiro que arde em nós…

Como ser leve

se nada faz o mínimo sentido?

Vídeo: Canal Odonir Oliveira

NA PELE DAS ÁGUAS

Uivo para a rua
Uivo para montanhas lagos lagoas.
Na percussão do meu pensamento
A batera do meu sentimento.
Namoro a ponte
Namoro na ponte.

Empino o sax
Desejo a tarde
Cobiço a noite
Cobiço-a à noite

O cheiro é um
O gosto é outro
Na pele das águas.

No nervo da luz
No músculo retesado do braço
Da perna firme em marcha
Marcha calma, trôpega, insinuante, feroz,
que enlevada pela luz bruxuleante do dia
logo vai se encontrar com a noite
A um idílio completo.

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METÁFORAS

Cofres repletos de imagens

de significantes ocultos

repletos de marcas, medos, modos.

Metáforas são rastros tachos, mastros

tudo e nada

códigos e manchas

flores e sangue.

Metáforas são arapucas, armadilhas, alçapões.

A quem acenarão todas essas metáforas?

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SIM

Sim, porque “eu te amo”

Sim, porque eu te amo, dei pra gostar de músicas de amor, outra vez;

Sim, porque eu te amo, dei pra gostar de cartas de amor, ora em nuvem;

Sim, porque eu te amo, dei pra conversar com as flores, os pássaros, os bichos que percorrem os caminhos;

Sim, porque eu te amo, dei pra recordar sorrisos e alegrias e piadas tolinhas outrora ouvidas;

Sim, porque eu te amo, dei pra adorar vegetais, verduras, pratos coloridos em geral;

Sim, porque eu te amo, voltei a ver os filmes que já vi, os que nunca vi e desejar fazer outros tantos;

Sim, porque eu te amo, encontro gente que me sorri adivinhando meu estado de constante prenhez amorosa;

Sim, porque eu te amo, fico a namorar a chuva pela janela, a ver escorrer enxurradas de barquinhos invisíveis …

Sim, porque eu te amo, abro sorrisos largos, antes desconhecidos;

Sim, porque eu te amo, dei pra dormir menos e viver mais;

Sim, porque eu te amo, passei a fertilizar a terra, a polvilhar nela sementes de abacateiros, ameixeiras, limoeiros, passiflora ardente;

Sim, porque eu te amo, espero o entardecer, o sol se por e o dia raiar de novo a suspirar;

Sim, porque eu te amo, dei pra aceitar mais as diferenças entre as pessoas, o percurso de cada uma, a beleza das animas;

Sim, porque eu te amo, encontro nas montanhas companhia solene para a reflexão, o assobiar dos bem-te-vis e a oratória das maritacas;

Sim, porque eu te amo, abro mão da cotidiana cobrança do ser e estar, do compulsório e eterno ressarcimento de tempo e espaço;

Sim, porque eu te amo entrego, em pacotes, manifestações de afeto e alegria como mínima  retribuição pelos sonhos sonhados;

Sim, porque eu te amo, entorno rios de lágrimas pela insegurança do meu amor e não do teu;

Sim, porque eu te amo, não me permito ser mais frágil como antes o fui e não polir esse último e único brilhante;

Sim, porque eu te amo, contraio vontades inusitadas de dirigir por estradas a esmo, easyridermente;

Sim, porque eu te amo, aguardo o sono e os sonhos em que símbolos e sons compartilharão sensações indefinidas, irracionais, incompreensivelmente deleitáveis;

Sim, porque eu te amo, conheço espaços nunca antes percorridos,  sabores nunca antes encontrados, sensações nunca antes experimentadas;

Sim, porque eu te amo, sei que estás no todo do meu caminhar e descubro que és a outra parte de mim em mim.

Sim porque eu te amo.

sam_2727

LEITE DE ONÇA, LEITE DA ONÇA

da boca da onça desce um leite

que perfume de dioniso tem esse leite

da boca da onça desce um leite

que caminho segue o curso desse rio de leite

da boca da onça desce um leite

por que lagos de músculos escorre esse leite

da boca da onça esguicha um leite em jato

em que jarro acolhe-se esse leite

da boca da onça empina-se um leite quente e denso

ao sangue ao soro ao sumo.

A onça acolhe sua fêmea então.

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20160625_172917

POENTE

sente,

silente,

nascente,

quente,

morrente,

dormente,

potente

docemente

febrilmente

sente

o poente.

sam_3639

EXÍLIOS

exílios voluntários

exílio de coxas quentes

exílio de costas largas

exílio de pés enormes

exílio de mãos atrevidas

exílio de ventre berço

exílio de braços laços

exílio de membro aderente

exílio de pescoço salgado

exílio de orelhas atraentes

exílio de olhos mudos

exílio de cabelos outros

exílio de língua sonora

exílio de lábios profanos

exílio de boca sagrada

exílio de corpos nus

exílio de corpos nós

exílio de medos

exílio de gozo

exílio de tantos.

AS GAIVOTAS

Vejo gaivotas

Trombeteando sementes de flores do campo

Aspergindo perfumes de estrelas cintilantes.

Mas como, se não estamos no mar?

No meu mar

Há rios lagos lagoas

E gaivotas

Livres.

sam_3629

sam_3630

OUVE A ÁGUA

Ouve

Espera

Ouve

Ouve fora

Ouve dentro

Ouve o silêncio

Ouve o murmúrio

Ouve o soluço

Ouve a súplica

Ouve

Para e ouve

A água de dentro de você.

sam_1586

DO PRAZER

duas

três

dez

cem

me alvoroçam a pele

me eriçam o sexo

me embebem de mel

são elas as que me presenteiam

são cheiros aos meu, opostos

são cores às minhas em destaque

são relevos de encaixe nos meus

são pingos de doce-azedos

deliciosamente

saborosamente

absorvidos

mel de gente

em mim.

sam_2941

sam_2940

UMA ESTRADA

Peregrino,

mambembe

andarilho

nômade

errante

andante

caminhante

pastor pássaro

árvore lagoa rio cascata pedra céu

Céu lua mooon nuvem

eternas ondas terra

eu mandava ladrilhar chão com pedrinhas de brilhante

minas rumo para o meu amor passar.

sem amarras, correntes, tormentas, nem rótulos

Se eu roubei teu coração

Tu também roubaste o meu.

 

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

A simplicidade que faz levitar

Canal: luciano hortencio

 

Canal: Odonir Oliveira

 

BARCOS E FLORES DO CAMPO

 

De nuances originais

barcos repletos de flores

anseiam por movimento

de águas

de ventos

de perfumes

de enleios

 

barcos vozes sonhos

noites certezas

noites seguranças

madrugadas poéticas

sopros de ar dos céus

mãos segurando rostos

ora em nascente ora em foz

 

terras distantes abraçam os barcos

recolhem-nos

acariciam-lhes

sob a luz das estrelas

e descobrem,

por nuvens errantes qual velas berrantes,

que nos barcos desconstruídos

ainda pulsa o ritmo da corrente do rio

ainda pulsa o som das águas nas pedras

ainda pulsa o perfume das flores do campo.

 

Assim como conchas carregam o barulho do mar.

Canal: Odonir Oliveira

 

TRILHAS

 

Obstáculo à frente.

Transpor.

Pedregulho.

 

– Vem, vem, me segue , me dá a mão. Vem.

– Estou com medo. Não.

– Não, vem; me segue aqui, cuidado.

trilha, chão, folha, pedra

Cansaço.

– Não vou conseguir.

– Vai sim, só mais um pouco. Eu ajudo, vem.

trilha, chão, folha, pedra

 

Viagem de dentro pra fora.

Dorso de almas

Canto de terra, água e pedra.

Promessa do prazer ao final.

 

Vem, mais um pouco, me segue.

– Sigo, me dá a mão.

Viagem de fora pra dentro

Conquistas, dificuldades, tropeços.

 

Encantamento.

Maravilhamento estético.

 

Natureza, artista de pincéis finos

Natureza, artista de melodias doces

Natureza, artista de lírica celestial.

Contemplação.

Entrega.

Silêncios internos.

Orquestra sob a batuta

De um regente maior.

Contemplação.

sam_2743

GRITO DE PAVOR

 

Minha pele em chagas

Meu tronco em dor

 

Quem me socorre?

Quem me vivifica?

Quem me reanima?

 

Minha casca em chagas

Meu dorso lancetado

Meu colo esvaziado

 

Quem me socorre?

 

Meu útero semimorto

Minhas folhas sobreviventes

Meu de dentro se esvaindo

Meu de fora resistindo.

 

Quem me socorre?

 

Um fogo de fora

apagando

um fogo de dentro.

 

Quem me socorre?

Quem me vivifica?

Quem me reanima?

 

Um broto.

 

Canal: Odonir Oliveira

 

O MENINO QUE LEVITAVA

 

Ao clarear do dia o menino abria olhos arregalados
De beber o mundo.
Mas era pouco.

Montava seu cavalo alado
Como se dançasse com ele.
Era doce o menino.
E partia ao encontro de seus marimbondos
de suas rãs
e lagartixas.
Morcegos eram como flores do campo.

A tarde tinha a estrela vésper sempre a sua espera
E nela menino, cavalo e aventuras seguiam,
bebendo cada folha, cada árvore, cada trilha.
Mas era pouco.

Depois, pisar na água era um barulho celestial
Era cócega
Era música
Era verso
Era poesia.

Desmanchar rotas citadinas
Mergulhar no escuro de grutas cavernas, barcos e estradas.
Era pouco
Porque o menino ria, ria, mas ria tanto,
que de prazer
levitava.

E de baixo, em terra firme,
Ninguém o alcançava
E não era pouco!

sam_2550

O HOMEM CHORA

Esse homem chora de dor pelas águas

chora de dor pelos peixes

chora de dor pelo hoje

que não é mais o ontem

nem será mais o amanhã.

Esse homem chora

porque tem a pele das águas

a alma de lagoa e os olhos de ver.

Tem flores do campo,

orquídeas selvagens no dorso,

conversa com deuses da aquarela.

Esse homem chora

porque é menino que levita.

 sam_1808

ABELHAS NO MEU QUINTAL

 

Abelha mestra

Abelha mãe

Abelha rainha

Abelha fel

Abelha mel

Abelha operária

Abelha canalha

Abelha doce

Abelha assassina

De dor- medo

De picadas mortais

Abelha beijadora de flores

Abelha semeadora de doces amores

Abelha tenaz

Abelha mordaz

Abelha eficaz

Abelha contumaz.

 sam_3881

 TRAVESSIAS

 

Quantas ainda

haveremos de fazer

por sobre águas quase lágrimas?

 

Momentos de ir

em quantos minutos,

quantos anos

quantas décadas assim …

 

Paisagens de enfeitar infortúnios

sons de céu

sons de ar

sons de atravessar

 

Margens de sempre

chegadas de nunca

travessias intermináveis

vozes longínquas.

 

Um trem que corta destinos,

o outro lado,

a entrega,

a chegada,

Travessias,quantas ainda?

 

sam_3031

PERIGO, PERIGO!

uma árvore floresceu !
uma árvore frutificou !
uma árvore cumpriu seu ciclo !
uma árvore abriu-se em seiva !
uma árvore copulou,
seu gineceu e seu androceu,
apenas,
sob o sol !

uma árvore aqui
uma árvore ali
uma árvore embonitou-se
para seus pássaros beijarem
o que é de seu !

Perigo, perigo
Isso é um perigo !

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EM CASCATA

 

Que água é essa

que escorre,

atropela,

carrega,

dissolve

dilui

molha e

suaviza?

 

Que água é essa

que ensurdece a razão

lubrifica o espírito

entontece o corpo e

asperge a devoção?

 

Que água é essa

que sonoriza histórias

colore cenas

entorpece sentidos e

emoldura beirais?

 

Que água é essa

que devassa as palavras

desmata as distâncias

deflora as margens e

irrompe em murmúrios?

 

Que água é essa?

exibida

exuberante

medonha

terrível

quedando

pelos caminhos?

 

Que água é essa?!

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FLORES DO CAMPO

Caminho,

encontro flores do campo,

que lindas,

amarelas selvagens,

róseas-vermelho-alaranjadas,

germinadas vadias, florescidas ao léu,

alheias a cimento, areia, pedras.

 

De pouca água de sarjeta,

De muito sol avassalador,

alimentam-se,

robustas coloridas selvagens.

 

Livres, esparramam-se por aqui, ali, acolá.

 

Sem perfume.

 

Colho-as, que lindas,

Quero-as minhas.

Carrego-as em meu regaço

Mãos quentes

Olhos vigilantes

Caminho

Tropeço

Caminho

Apressadamente

Sofregamente

adonadamente.

 

Minhas,

sem perfume.

Minhas.

 

Aperto-as,

Que minhas.

 

Ao final do caminho,

sem vida,

sem viço,

sem beleza.

 

Sem perfume.

 

Mortas.

Minhas.

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Poemas: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal 

 

Contrastes, encontros, desencontros

QUE DE SUPOSTOS CONTRASTES 

Odonir Oliveira

opostos

repostos

dispostos

também se amparam os sentidos

também se amparam os toques

também se amparam os risos

também se amparam as rimas

também se amparam os ombros

a vida ainda é curta

Eta vida besta , meu Deus!

diria meu poeta itabirano

do céu

nas estrelas.

CRAVO E FERRADURA

Odonir Oliveira

 

No cravo

na ferradura

uma candura

gangorra

emocional

fundamental

essencial.

Ora cor

ora dor

ora flor

senhor.

Ora rancor

ora esplendor

no cravo

na ferradura

doçura

gostosura

espanto

recanto

encanto

tormento

lamento

infenso

intenso.

Ora no cravo

ora na ferradura

Travessuras.

Loucuras!

Canal: Odonir Oliveira

 

UM POEMA DE AMOR

Ah, que demorem essas noites a chegar,

que fiquem as tardes, congeladas, com o ardor de seus beijos,

que permaneçam em meu dorso seus toques firmes

que em meus ouvidos cristalizem-se suas palavras todas

que seu rosto, como um som, repercuta em meu colo

que  suas mãos cálidas entorpeçam minha voz incapaz

que seus pés se sobreponham aos meus como se me sustentassem a alma

que seus braços me envolvam com ternura e firmeza como um laço

que sua boca nada mais diga a não ser sussurros e apelos de ais

que seus olhos se fechem a apenas enxergar sabor em mim

que seus encantos estrangeiros e únicos não se percam com o escurecer

que sua língua armazene senhas de contato insubstituíveis

que seus dedos deslizem como seda no percurso de mim

que suas delicadas e sensíveis marcas se descubram por mim

que eu possa escurecer, com você, à chegada da primeira estrela.

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 TRÊS… SEIS… NOVE …

 

a multiplicação dos corpos

das ideias

das vezes

das vozes

dos meios

dos terços

dos inteiros.

sam_4195

ESTAR   FELIZ

Feliz, assim

Feliz assado

Feliz instante

Feliz momento

Feliz comendo

Feliz bebendo

Feliz cantando

Feliz chorando

Feliz dando

Feliz recebendo

Feliz sendo

Feliz estando

Feliz com

Feliz sem

Feliz dentro

Feliz fora

Feliz de pé

Feliz deitado

Feliz junto

Feliz separado

Feliz instante

Feliz momento.

sam_2757

VOLTA

Volta envolvendo meus braços

Volta enovelando meus vaievéns

Volta encurtando ramais de tolices

Volta bebendo em meus entres os seus fiques

Volta envolvendo de sangue pulsando meus hojes inteiros

Volta entornando caudalosos suspiros por meu eu-nós

Volta antes desse depois eterno

Volta das pedras pelos sinos que tilintam

Como gorjeios de aves de voos amplos

Volta porque és a tempo e a quando

um grande amor.

 

sam_2745

AGRO  NEGÓCIO DE VERDADE

Odonir Oliveira

Na manhã seguinte foi. Parecia querer resolver de uma vez aquilo. Entrou na cozinha da casa grande, mas não queria ninguém ali. Nem era dali. Ela era da senzala. Seu negócio, seu agro negócio era o lavrador de café, suado, vermelho da testa à ponta do queixo. Era ele que ela queria.

Era uma mulher de 30 anos, cheia de graças e segredos. Ninguém ali a tivera nem para aquelas conversinhas de cerca- lourenço tão costumeiras por lá. Tinha a marra característica de quem sabe escolher. Quero isso, quero esse, faça assim, faça aqui, que aqui é bom. Pois é,  Vilma era desse jeito.

Saíra da cidadezinha para estudar na universidade federal. Assim quis e continuou estudando … mas aquele gosto de terra e suor não saía de sua boca. Era prazer maiúsculo aquele negócio. Agro negócio – pensava sempre. Vou lá, vou voltar lá. Vai ser por lá.

De lembranças da universidade na cidade do interior – nem tão pequena assim – havia uns três caras que lhe amansaram desejos, mas também lhe deixaram carências. Carências de quê? De terra molhada, de sujeira nas unhas, de cheiro de chuva e de pegada. Homem pra ela, que crescera por meio dos matos, tinha de ter pegada. E ela também tinha, que era broto do chão.

Josué foi nascido e criado na vereda, na estrada do sem culpa nenhuma, no ensinamento do sertão, sem conceber nem conceder o pecado original. Bebia pinga e ria. E depois levitava o diabo do homem. Sestroso, manhoso, marrento. Como Vilma.

Na noite da cavalgada, eram muitos os peões ali. Paramentados como para um culto cristão, eram poucos os de raiz, flores e frutos. Josué era. Espalhava um perfume de maracujá, ou seria um sabor de jabuticaba? Bom mesmo era ver aquela boca vermelha dele, pendurada no rosto, quase sem sorrir. Vilma tomou as rédeas e seguiu.

Cavalgadas contam com encerramentos religiosos sagrados. Mas nem sempre. Às vezes, profaníssimos.

Josué rezou umas orações, benzeu-se, beijou a medalhinha e entregou-se à volúpia daquele negócio com Vilma.

Agro negócio de verdade!

Publicado em Carta capital (09/11/2015)                                    http://www.cartacapital.com.br/economia/agro-negocio-de-verdade-3903.html

 

 

sam_4530

CHOVENDO

 

Primeiro, sons de gotas

Depois, cheiro de água na terra

Agora, na sacada,

vendo a  precipitação dos pingos.

entorno meu rosto por eles

para que me lavem dores,

para que me limpem do sangue,

para que me purifiquem com o prazer.

Nesse mesmo céu

há pouco havia estrelas.

Agora, entreguei a ele o meu coração.

Canal: Taís Marinho

 

NÃO DEVERIA SE CHAMAR AMOR

Um afago, um empurrão

Uma lambida, um arranhão

Um céu, um inferno

Uma entrega, um medo

Um doce, um azedo

Um risco, um rabisco

Um colo, um chute

Um rio, um capeta

Uma música, um anátema

Um riso, um amargor

Uma fala, o humor.

 

sam_4588

O ECO

 

veio feito música

veio feito aquarela

veio feito eco

à mensagem “eu amo você”

que assoprei ao vento

que atirei no rio

que espalhei pela mata.

Veio como eco de mim,

em ondas outras,

a resposta de ti.

sam_3744

UM COMETA

A lua vem

A noite vem

A estrela vem

Quase um cometa

Quase um asteroide

Quase um facho

Quase brilho

Quase luz

Quase cor

Quase susto

Quase Céu

No meu céu.

sam_2571

NEM UM SORRISO

Nunca um sorriso

nunca um abraço

nunca um beijo.

Uma foto , o mar, o espectro

Nunca um toque

nunca um fique

nunca um vá.

nunca aqui

sempre lá, acolá

O nunca sempre.

LIVRE AMAR É SÓ AMAR

Razão emoção

Sempre essa invenção

Sem definição

Uma distorção

Uma competição

Frente e costas

Verso e reverso

Pele e lógica

Em cena.

Pena.

 

SERES FRACTAIS

vozes de pessoas

me acompanham

vozes de Pessoa me aturdem

Serei eu ele

Será ele eu

seres em fractais

marginais

poliedros fantasmagóricos

espelhos fatiados

almas esmigalhadas

desdouros passados

compassos presentes

com passos urgentes

espectros futuros

coloridos

doloridos fractais.

sam_3058

NERVO EXPOSTO

Carne exposta,

nervo exposto

ranhuras

fissuras

fraturas.

Foto exposta

Vida exposta.

À mostra

Raio X de sangue

Biópsias quase necropsias.

sam_2275

BIPOLARIDADE

Aqui

lá.

Fica

vai.

Entra

Sai.

toma.

Gangorra existencial.

Suspensão em corda esticada nas nuvens

Precipício à frente.

Paraíso atrás.

sam_2263

AMOR PLATÔNICO

tônico

sem isotônico

distônico

atômico

hipertônico

sub-tônico

Platônico.

sam_1809

APAIXONADA PELO DIA

Como não olhar você

chegando pela estrada

De um lado, oeste

De outro, leste

De um lado dia

De outro noite

De um lado noite

Do outro vermelhidão

Fogueira incendiando céu, ar, imensidão?

Como não adivinhar você

Belo, forte, bravo, conquistador?

Como não adivinhar você,

Novo dia,

Que se abre dessa escuridão?

 

sam_3170

AMAR É O QUÊ?

Ah, meu amor

eu não esperava mais amar.

Amar é difícil:

ficamos frágeis, inseguros, duvidosos.

Amar faz-nos ciumentos do que antes não éramos

Amar deixa marcas jamais cicatrizáveis

Amar faz entregar aos outros nossas incapacidades.

Amar nos torna

compulsórios demais,

cotidianos demais,

corriqueiros demais.

Amar nos faz beber lirismo

em um copo

em um livro

em uma flor

em uma risada tola.

Amar é um sentimento,

é uma parte,

é uma fase,

é uma tormentosa viagem

em um oceano a esmo,

é um deleite de senhas descobertas,

é um sentar-se ao lado, nos silêncios compartilhados?

Amar se parece com o quê?

Com um corpo dentro do outro

como encaixe de engrenagens que se integram

oferecendo trabalho?

Com um tempero harmonioso de manjericão, alecrim e salsa?

Com água de cachoeira pesando nos ombros

qual chicotadas de ânimo?

Com perfume de mãos deslizantes sobre flores delicadas?

Amar se parece com o quê?

Ah, meu amor

eu não esperava mais amar.

Texto e poemas: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Voejando em tempos e espaços

Canal: Odonir Oliveira

 

PÁSSAROS IRREPREENSÍVEIS

que dançam

que leves

que saltam

que seguem

que brincam

que brindam.

Que soltam-se

que seguem-se

que envolvem-se

que vão

que vêm

em vão

em vai-e-vém

Levitam nos ares

nos portos

nos dorsos

nas rotas.

No porto.

sam_2989

ESPÍRITOS DA FLORESTA

Espíritos domesticam

olhares, sentires e ficares,

pelo cheiro, pelo vento,

pelo sons do mato do sertão.

Espíritos atraem por rochas, por águas, por céus.

Espíritos nas florestas

polinizam almas inquietas

Para sempre.

sam_2940

O GRITO

Aquela vontade

Insuportável

Insustentável

Insuperável

De gritar

De fazer chegar

De mandar dizer

De pedir para contarem

Ah, gritar pelas ruas

Nas madrugadas peregrinas

Eu amo você!

sam_3588

PEGADAS

São pegadas essas que deixo aqui

São pegadas as que deixas aí

São incursões de ti em mim

São passos molhados

pelas águas

pelas lágrimas

pela paixão.

Pegadas é só o que se deixa

na natureza, então.

O AMOR CÚMPLICE

De todos os amores

o mais perpétuo

entre os pares

é o cúmplice,

o parceiro,

o incomum.

Amores há muitos,

polinizados por abelhas de espécies várias.

Mas mel do bom

é o mel particular

é o meu,

particular,

essencial.

 

Poemas: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal