Quinhentos

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Parabéns pelos 500 posts para Poesias de Mãos que Sentem!

πεντακόσια

pentakósia
centum quinque
quinientos 
cinq cents
cinquecento

grego
latim
italiano
francês
espanhol
línguas mães
línguas irmãs
línguas parceiras
línguas formadoras
olhos sensíveis
ouvidos cúmplices
mãos que sentem

500 gritos
500 alívios
500 prazeres
500 gozos

em cada um desses 500
fornadas de versos
baciadas de prosas
cestas de flores
ramalhetes de cores
dores de amores

POEMAS SEM ALMA

o amigo leitor
o amigo poeta
o amigo virtual
lê versos de A a Z
reclama da falta de ânima
suscita a dor, a mágoa, as feridas
impele o suco nos versos
”não vejo alma aí”

há um pudico recolhimento
há um esconderijo
há uma dialética
o que é público
o que é privado

Pessoa conta
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel’

Janis Joplin canta
não ter vergonha de se expor
não ter vergonha de se mostrar

Nem tudo que escrevo entrego.
Há versos que guardo
.

DIA DA CRIAÇÃO

O chão a terra o céu
elementos primeiros
elementos sólidos
alimentos físicos.

A palavra a voz a vez
elementos seguintes
elementos consoantes
alimentos constantes.

A luz a cor a pele
do gosto do molho do dorso
encantamentos de elementos
encantamentos em tempos
encantamentos em espaços.
Passos

vozes internas em cores
vozes internas em versos

FLORAÇÃO

Na rota, um porto
Na reta, um ponto
insípido inóspito infértil

No tronco, uns galhos
Nos galhos umas folhas
secas opacas estéreis

Alma no trajeto
Curvas no caminho amargo
Gotas de perfumes
Pingos de cores
Chuvas de flores
fertilidade,sedução
produção
Poesia
Caminhos doces então.

VERSOS ÍNTIMOS

Nem tudo que escrevo entrego.
Há versos que guardo.
Há versos que são presentes únicos a cofres únicos.
Há versos que me aturdem sem trégua.
Há versos que andam comigo por passeios matinais.
Há versos intrusos que engasgam meu sentir como pedras nas picadas estreitas.
Há versos que colidem com meu ir e vir de chicote e rédeas.
Há versos que não serão escritos.
Há versos que não serão lidos.
Há versos impublicáveis.
De minha intimidade gozam poucos.
Bem poucos.
Talvez apenas os versos.

Drummond

Obrigada pela companhia, leitores. Quando me leem – confesso – sinto também suas mãos me afagando os ombros, os cabelos, apertando-me num gostoso abraço. Obrigada.

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal Samuel Pinheiro

Campos de boninas

Hoje pode ser um dia de poesia. Há aqueles que veem a vida com poesia, todos os dias. Hoje tem lua cheia. Haverá os que nem se darão conta disso. Mas quem vive em poesia a estará namorando, fará dela fotos e até … poemas.

BONINAS MENINAS

A filosofia fugiu
a história fugiu
a lógica fugiu
pensamentos vãos
sentimentos vazios
rochas arrumam o rumo
vales, serras, montes
campos em espaços uns
cores em tardes outras
menina bonina
estética de cor em flor
mistura de ar e vento nas mãos
doce voz de estio
menina bonina
colar de nuances nos olhos
recolho todas na cesta da minha memória
enquadro-as
emolduro-as
registro sua graça
duas três cores na mesma bonina
maravilhas
menina bonina
ternuras no olhar

FLORES DO CAMPO

Caminho,
encontro flores do campo,
que lindas, 
amarelas selvagens,
róseas-vermelho-alaranjadas,
germinadas vadias, florescidas ao léu,
alheias a cimento, areia, pedras.

De pouca água de sarjeta, 
De muito sol avassalador,
alimentam-se,
robustas coloridas selvagens.

Livres, esparramam-se por aqui, ali, acolá.

Sem perfume.

Colho-as, que lindas,
Quero-as minhas.
Carrego-as em meu regaço
Mãos quentes
Olhos vigilantes
Caminho
Tropeço
Caminho
Apressadamente
Sofregamente
adonadamente.

Minhas,
sem perfume.
Minhas.

Aperto-as,
Que minhas.

Ao final do caminho,
sem vida,
sem viço,
sem beleza.

Sem perfume.

Mortas.
Minhas.

BARCOS E FLORES DO CAMPO

De nuances originais
barcos repletos de flores 
anseiam por movimento
de águas
de ventos
de perfumes
de enleios

barcos vozes sonhos
noites certezas 
noites seguranças
madrugadas poéticas
sopros de ar dos céus
mãos segurando rostos
ora em nascente ora em foz

terras distantes abraçam os barcos
recolhem-nos
acariciam-lhes 
sob a luz das estrelas
e descobrem, 
por nuvens errantes qual velas berrantes,
que nos barcos desconstruídos
ainda pulsa o ritmo da corrente do rio
ainda pulsa o som das águas nas pedras 
ainda pulsa o perfume das flores do campo.

Assim como conchas carregam o barulho do mar.

Encontrar flores do campo pode ser trivial demais. Entretanto há que se saber olhá-las, detalhadamente, sem pressa. Há nelas sempre uma simplicidade que pode ser confundida com algo de pouco valor, de pouca cor, sem perfume. Há que olhá-las bem, posto que se alimentam de quase nada: de uma água fortuita, de uma terra imprevisível, de um olhar especial.

DE OLIVEIRAS

há troncos rijos
há troncos milenares
há raízes fincadas em nós
há um azeitar de olhares e de horizontes longínquos
há um devir incontestável
há um verde insubstituível
há um aroma de terra lusa
há um aroma de terra negra
há um misto de lusos e de negros
em oliveiras
há mastros de mares distantes
há naus à deriva
sem portos
sem pousos
há o monte das oliveiras
há um óleo de ungir dores

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:
Canal JB Jazz Blues House The Club

Revolucionárias e revolucionários

PRELÚDIO

nas mãos dela, ele
na foto
nas nuvens, ele
na imagem
no apito longe, ele
no espectro
na mata densa, ele
no rumo
na noite escura, ele
no lume
um cheiro de homem
um gosto de sal
uma pele acre
um rodopio breve
o disco
a capa
o trompete
ele
ela

1968

O bar da Maria Antônia, cheio. Dirceu tem barba, bigode, rosto de menino do interior paulista. E carrega nos erres. Demais. Marília o observa, faz tempo. Tem fome dele. Fome de ouvir aquele discurso embasado, aquelas leituras refletidas, aquelas vontades de mudanças. Há um desejo no corpo, nos pelos, na boca, nas mãos.

Chegam perto. Depois mais perto. Marília confirma na cartela de pílulas se havia tomado a do dia. Vai. Entram no ap. de Dirceu e de mais quatro. É início de noite. Beijam-se. Ninguém mais ali. Ninguém mais ali? Marília, mulher de seu tempo, tira a mini-saia, desabotoa a blusa de bolinhas. Ele fuma e a observa. Prende os cabelos com um elástico, desses de notas, e o beija no peito, na nuca, nos cotovelos, nos bicos dos peitos. Ele fuma e observa. Marília desabotoa o sutiã de bojo. Tinha seios pequenos. Dirceu retira o resto de roupa que lhes restava. São um. Fazem a revolução do corpo.

No dia seguinte, Madalena, a Madá, começa a frequentar o ap. de Dirceu. Era espiã. E ele se valendo da fama, com amigos, ”era a mais comestível de todas, libertária, livre, fumava maconha, bebia vodca – não apenas a cerveja das outras”. Ela ”comeu” todas as outras e o Dirceu também. Depois entregou-o à OBAN.

UM POEMA DE AMOR

Ah, que demorem essas noites a chegar,
que fiquem as tardes, congeladas, com o ardor de seus beijos,
que permaneçam em meu dorso seus toques firmes
que em meus ouvidos cristalizem-se suas palavras todas
que seu rosto, como um som, repercuta em meu colo
que suas mãos cálidas entorpeçam minha voz incapaz
que seus pés se sobreponham aos meus como se me sustentassem a alma
que seus braços me envolvam com ternura e firmeza como um laço
que sua boca nada mais diga a não ser sussurros e apelos de ais
que seus olhos se fechem a apenas enxergar sabor em mim
que seus encantos estrangeiros e únicos não se percam com o escurecer
que sua língua armazene senhas de contato insubstituíveis
que seus dedos deslizem como seda no percurso de mim
que suas delicadas e sensíveis marcas se descubram por mim
que eu possa escurecer, com você, à chegada da primeira estrela.

1978

Dirceu foi para o exílio. Sumiu. Marília não soube mais dele. Agora engajada na luta por eleições, conhece o Zé, no bar do Zé. Maria Antônia cheia. Manifestações explodindo por todo lado. Quer votar. Querem votar. Colagens nos postes, panfletos no metrô, caminhadas na Universidade, canções de protesto, censura, violência, desaparecimentos, mortes. Zé engravida Marília. Culpa dela que não tomou a pílula. Libertária, livre, fazia amor apenas com Zé. Zé dizia que nunca exigiu isso. Zé fazia sexo com metade do alfabeto do livrinho das companheiras. Não era de responsabilidade dele que alguma engravidasse. Propunha então, livres que eram todos, um aborto. Assim, Marília fez 1 e depois mais outros 2. Seguiam na luta pelas causas solidárias, pela igualdade, pela fraternidade.

BLOCO DURO

missa na catedral
corpo pendurado
corpo exilado
corpo seviciado
corpo sumido
corpo meu
corpo teu
corpo nosso
corpos nisso.
imagens distorcidas
vozes sufocadas
portas lacradas
estupor
angústia
fel
vinagre
dominicanos
dor.
bloco na rua
blocos nas ruas
vielas becos travessas
melodias amordaçadas
sonhos torturados
medos.

1984

Mais de 1 milhão. Cinelândia. Candelária. Dirceu continua fora. Não se sabe dele. Marília segue o curso normal de evolução. Compra na barraquinha do partido, bottons. Prefere aquele que num espelhinho registra ”Não há socialismo, sem feminismo”. Alfineta na camiseta esse e mais outros três. É livre. Gosta de fazer escolhas, não deixa que lhe construam a narrativa. Se quiser, transa. Se quiser, engravida. Se quiser, muda de emprego. Se quiser, bebe vinho ou cerveja ou refrigerante. Não segue a macrô, tão modinha. Não se torna vegetariana. Não transa sem se proteger. E ama aos potes. Quer amar, fazer sexo não é essencial. Mas amar sim. Sabe o que quer do sexo, quer sentir-se bem. Não vai na onda de ” todo mundo é de todo mundo; ninguém é de ninguém”. Quer mais. Difícil encontrar o Dirceu. Continua vendo revolucionários que adoram mulheres liberadas que não lhes solicitem quaisquer responsabilidades ou compromissos com o ser. ‘‘Mulher tem muitas. Mulher é tudo igual”.

Participa do ato público. Sente uma EMOÇÃO ENORME. Lembra de Dirceu. Estaria vendo aquilo também? Como seria Dirceu na volta? Porque ele vai voltar. A anistia vai acontecer já-já. Vem, Dirceu.

BLOCO DOS FAMINTOS

fome
ignorância
seleção cruel
hipocrisias
benesses
ortodoxias
sociologias torpes.
Crescer o bolo
depois repartir.
Mobral, madureza,
por décadas
seca
nomadismos
exílios
marginalização
discriminação
por séculos.
Céu sem estrelas.

1992

Marília reencontra seu Dirceu. Não é o Dirceu por quem esperava. Tocam-se, reconhecem-se. Dirceu é plural. Dirceu é de muitas empreitadas. Marília dorme com ele. Dorme com ele. Dias seguintes, Dirceu pergunta a ela se ainda pode ser mãe, porque ele não quer ser pai. Proteja-se Marília. Sem lirismo 68, a vida seguiu. Marília percebe que Dirceu apresenta muitas demandas. Segue com ele. Panfleta para suas campanhas, faz lambe-lambe acendendo postes de engajamento.

Marília faz trabalho comunitário nas favelas, nas periferias, dedica-se ao socialismo ensinado e ao feminismo aprendido. Dirceu faz sexo sem proteção. Dirceu gosta de mulheres livres. Dirceu se encanta por mulheres que dizem que têm tesão por ele, que querem gozar. Gosta de quem tem orgasmo na boca, nas mãos, nos olhos feiticeiros.

Marília percebe que Dirceus são parecidíssimos uns com os outros.

O feminismo que Marília deseja é aquele com socialismo. Não apenas o de pautas identitárias, que visam a escandalizar machos e bater um pau na mesa, ”frustração freudiana” perversa. Mulher é fibra, luta, ação. Marília entende que discurso não enche a barriga. Na hora do trem, do ônibus, da creche, precisa mais do que ser liberada no sexo. Precisa bem mais que isso.

BLOCO “NUNCA NA HISTÓRIA DESSE PAÍS !”

Um filho teu não foge à luta,
empunha bandeiras,
entoa cânticos hinos loas
distribui esperanças
vence o medo.
Vencem os medos.
carne feijão arroz ovo leite
luz água cisternas
mães assistidas
as bolsas das famílias celebradas
escola para todos
informática
inglês natação teatro
física em laboratórios
bibliotecas computadores,
moto-contínuo
universidades públicas gratuitas.
Viagens de ônibus …
Viagens de avião …
Geladeira fogão máquina de lavar
Televisão moderna
Celulares iguais aos dos patrões.
Banda larga.
Filhos nas universidades como os dos patrões.
Bloco dos sem dentes de Darcy,
bloco dos com dentes e dotes agora.

UNIDOS ESCOLA DA RESISTÊNCIA

Eles não desistem
Eles não entregam
Eles não aceitam
Eles não acatam
Atacam.
Vígílias nos blocos duros?
Vigília nos blocos dos famintos.
Vigília nos blocos dos solidários.
Vigiai.
Sempre.

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1 e 2- Canal Vangodias

3- Canal Tralha Brasil

4- Canal dudusampa9

Imagens retiradas da Internet

Educação: compromisso

PROFESSORES SEMPRE

Quem é professor e professora
tem um vício diferente daqueles das demais pessoas
está no respirar a carência de ensinar
a saciação de, em se dando, aprazeirar-se
ser e estar ensinando
mesmo a si mesmo
mesmo sem salas de aulas
mesmo em ágoras não ágoras …

Para sempre.

ENSINO DE TODAS AS ESPÉCIES

Como os gregos ensinavam? A Paidéia era compromisso, discussão, aquisição de conhecimentos e … compromisso. O que se ensina, como se ensina, a quem se ensina, tudo implica compromisso, seriedade, verdades.

Durante mais de 30 anos estive pelas salas de aula de ensino fundamental – nas de 1º ciclo – depois nas de 2º ciclo, mais tarde no nível médio, em cursinhos pré-vestibulares, nos cursos preparatórios para ingresso em colégios militares e também em cursos para professores de todos os níveis de ensino e já formados. Vi de quase tudo nessas 3 décadas. Acertei mais do que errei, acredito. Mas nunca me faltou compromisso com horários, planejamentos, execuções de trabalhos, avaliações minhas e dos educandos. Faltas, tive bem poucas. Quando eram necessárias, deixava material pronto para ser aplicado aos alunos e ainda combinava com eles como seriam feitos, esclarecia o porquê da minha ausência etc. Respeito ao processo educacional. Tive bem poucos casos de indisciplina e conto nos dedos das mãos quantos alunos tive que retirar de sala de aula, em 30 anos. Friso que eu e outros colegas de profissão com os quais trabalhei tínhamos o mesmo comprometimento.

Acredito assim que devam ser levados a sério os procedimentos dos professores, em todos os níveis de ensino, sejam em instituições privadas ou públicas. Amigas, professoras de Universidades Federais, narram a falta de seriedade de certos colegas seus quanto ao cumprimento das 40 horas, em dedicação exclusiva – embora já exerçam dessas apenas 8 a 10 h com aulas – em relação aos projetos de pesquisa nos quais se encontram envolvidos, ausência da cidade em que exercem seu ofício no período, fazendo combinados com os alunos – mesmo tratando-se de cursos presenciais – e muito mais. Ocorre que surgem denúncias e passam a enfrentar processos administrativos, avaliados por grupos de docentes de outras Universidades Federais, de outros estados, sob pena de sofrerem punições por sua postura pouco ética no exercício do magistério.

Fico pensando nos salários vergonhosos dos professores de ensino fundamental e médio pelo Brasil, e em sua garra ao defender seus alunos, a melhoria das escolas, o envolvimento dos pais no processo ensino-aprendizagem, na carência de recursos que manifestam, quase sempre, e mesmo assim, ali presentes, todos os dias, no mesmo horário, sem abdicar de suas responsabilidades, cumprindo suas obrigações corajosamente.

MÚSICA EM NOSSOS OUVIDOS

No final da década de noventa, fui convidada a desenvolver projetos culturais com escolas públicas de São Paulo a fim de que viessem a usufruir, a frequentar equipamentos públicos como teatros, salas de concertos, Theatro Municipal. Em meio ao trabalho, fui conduzida a ser coordenadora pedagógica de uma escola pública de música. O cargo chamava-se ”assistente artístico”. Havia denúncias de que professores, todos pertencentes às melhores orquestras sinfônicas da cidade, não cumpriam as 30 horas pelas quais recebiam, nem prestavam assistência aos alunos em plantões, ensaios etc. Foi bastante difícil interferir nesse vício, pois até cartões de ponto eram ”batidos” por colegas, secretários, funcionários, uns pelos outros. Ao invés das aulas a que deveriam estar presentes, viajavam, apresentavam-se em concertos em outras cidades, estados, sem informarem, pedirem autorização, legalmente, ao órgão responsável. Muitas vezes davam aulas em conservatórios particulares naqueles mesmos horários. E ainda recebiam muitos adicionais para indumentária, por exibições etc.

Quando quis motivá-los a fazerem mais apresentações com seus alunos – em noites, para a coletividade, ou em escolas públicas ou as trazendo para as exibições, resistiam alegando que não faziam nem questão de receber os adicionais por tais exibições ”porque o Imposto de Renda levava tudo”. Ou seja, nada a ver com o pedagógico.

Quando propus escrevermos nos ”programas das audições” além das obras, na última capa, informações culturais sobre os grandes mestres autores das obras a serem executadas ou adicionar poemas do período medieval, barroco, renascentista, romântico, revoltaram-se literalmente, em motim mesmo, alegando que ali deveria constar apenas o nome deles e um mini-curriculum, seus créditos, portanto. Não havia neles qualquer intenção em socializar conhecimentos etc. Até o nome de uma audição de percussão, à qual intitulei ”BARULHINHO BOM”, fazendo referência ao
último disco de Marisa Monte e, assim, gerando um atrativo para o comparecimento do público, foi rejeitado sumariamente. Não tinham o menor compromisso com as plateias, com a necessidade de formação de público, nada. Não cumpriam nem sua obrigação mínima. Hoje muitos estão aí nas melhores orquestras brasileiras, outros já faleceram e os de canto lírico, os vejo fazendo bastante sucesso. Seus alunos cresceram por si mesmos. Empenho daqueles famosos artistas músicos, vi muito pouco por lá.

Logo, precisei abandonar o cargo e ficar apenas com o projeto envolvendo a ida dos alunos das escolas públicas ao teatro etc. Em seguida, voltei para as salas de aula. Porque lá eu era senhora do meu trabalho, dona do meu compromisso e via sempre nos alunos muito reconhecimento e desenvolvimento.

Poesia e texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1- Canal ConselhoEscolar

2- Canal Paul Barton

3- Canal Yo-Yo Ma

4- Canal MatarazzoTreinamento

Ainda que …

Ninguém solta as patinhas de ninguém

HÁ SOL AQUI

Maritacas acordam aqui
bem-te-vis florescem por aqui
alheios a ameaças
distantes de assassinatos e massacres
Há sol aqui
A chuva bebeu todo o chão de dores
Há sol aqui
O vento da serra assopra
amenizando feridas
tratando corações
enxugando lágrimas
O cheiro do amanhecer
pulsa nas pernas
fortalece os braços
oferece colo
Ainda que …

Poesia: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal Grupo Vênus

Delicadezas, ternuras, lirismos

DE PELES

encosta tua pele aqui
sente o calor
encosta tua pele aqui
sente a chama
encosta tua pele aqui
sente a cor uma
encosta tua pele aqui
sente a força do ir e vir
encosta tua pele aqui
bebe doce, acre, perfumes
encosta tua pele aqui
enxerga o éter, o ar, o lume
encosta tua pele aqui
sorve a ternura do estar
absorve a delicadeza do embevecimento
embriaga-te das nuvens de algodão


Faixas:
1. Delicadeza I: Delicado 00:00
2. Delicadeza II: Da coisa linda 03:17
3. Delicadeza III: Pata humana pata 07:17
4. Delicadeza IV: Casa e janela 11:10
5. Delicadeza V: Absorta 15:08
6. Delicadeza VI: Frágil 19:16
7. Delicadeza VII: Etérea 23:44
8. Delicadeza VIII: Serenata 27:26
9. Delicadeza IX: Mundos… 31:28
10. Delicadeza X: Modinha para uma viola sem conserto 34:55
11. Delicadeza XI: Nossa música 38:07
12. Delicadeza XII: O sono de Katu 41:39
13. Delicadeza XIII: Remendo de pano feio 46:29


Todas as canções, letra e música, são de Socorro Lira.


OBS: Imprescindível ouvir as canções.


DAS TERNURAS

Agradeço sua mãozinha leve
sobre meu sonho leve
Agradeço a cor da flor
na moldura dos meus caminhos
Agradeço a chuva que ensopou meus canteiros
Agradeço o vento dessa tarde de arco-íris
Agradeço não odiar ninguém
Agradeço amorosidades maiores que aleivosias
Agradeço ter saudades de beijos, abraços e suspiros
Agradeço ainda poder sentir desejo de peles
Agradeço alguma voz em serenata pela madrugada
Agradeço um poema em asas pelos céus
Agradeço as sensações
Agradeço por ainda saber amar
a um
a outro
a outros
a tantos.


ESPERA

o laço, a fita, a foto, o filho
a vinda, a estrada, a entrada
fora do útero, fora da proteção
agora a caixa, a máscara, a espera
o cheiro menino
o cheiro franzino
o cheiro pequenino
a ternura na espera
a ternura no esmero
a ternura de vê-lo
a suprema vontade de tê-lo
nos braços
na pele
no calor do seu amor
saudável, sonoro, suave
de volta
à ternura antiga

DESVELO

ternuras tantas
afeto e companhia
parceria, cumplicidade, comunhão
ternuras tantas
ternuras muitas
vida, vidas
ramais, rotas, rumos
picadas, caminhos, veredas
esperas, entregas
desvelo
dedicação, cuidados
afetos, compreensão
dedicação, cuidados
todas e tantas
ternuras antigas

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal Pimalves

Descrição no vídeo: Socorro Lira

” Sétimo álbum de canções inéditas da compositora, instrumentista e cantora paraibana, lançado em 2012, com a participação de João Pinheiro. Socorro se dedica neste trabalho a tecer um disco conceitual em torno da temática da delicadeza, tarefa complexa e engenhosa, pois, como define em suas próprias palavras no encarte do CD, “Esse é um tema que, no seu inverso, persegue-nos. Ser delicada é muitas vezes mais difícil”. A musicista alcança com beleza o seu propósito e nos entrega um conjunto de canções que impressionam por sua força e maturidade, com a tessitura leve, diáfana, que o tema demanda. Ela considera ainda: “Quanta dúvida na hora de dizer e de ser ela mesma, a palavra, ante o berro, o zunido das buzinas e choque dos metais! Na metrópole que ruge, acalentar a fera? Como? Sei lá… Não sei não” 
O fruto de seu labor poético, no entanto, afirma o oposto: ela sabe, sim, e muito bem !

A palavra de Socorro é límpida e vivaz, poderosa em seu intrincado engenho de simplicidade; sua voz, plena de sabedoria e graça ancestrais, acalenta docemente a fera desta humanidade carente de sutilezas”.

Maria Márcia, a professora baiana

Em 1988, como leitora crítica da Editora Melhoramentos, elaborei a ficha de leitura/trabalho para essa belíssima obra de Marcus Accioly. Foi quando aprendi o que sei sobre cordel.

SERTÃO BAIANO

A 1244 km de São Paulo, a professora de ensino fundamental Maria Márcia, lê na Revista Nova Escola, material didático elaborado por mim. Consegue o endereço da Escola Municipal onde eu trabalhava e me envia uma carta. Sim, por correios. Estamos em 2001.

A cidade onde ela vivia em 2001 era Macaúbas, na beiradinha do rio São Francisco, na Bahia. Lecionava na área rural, para turmas multi-seriadas, ou seja, vários anos de ensino na mesma classe. Escrevia contando da sua carência, do trabalho que gostaria de fazer se tivesse mais recursos.
Falava em recursos materiais, visto que só contava com um quadro-negro riscado, giz e apagador. Lecionava em Escola Municipal como eu, naquele ano de 2001. Pedia, curiosamente, indicações didáticas para trabalhar cordel com seus meninos. Reparei logo que ela sabia o que queria. Queria ensinar mais o de sua gente para sua gente. Sensibilizei-me, portanto.

Expus aos meus alunos do 8º ano a situação e li a carta da professora que apontava uma quantidade de dificuldades em seus meninos para ler e escrever. Assim, fizemos um trato: iríamos preparar materiais pedagógicos para enviar a eles. Pesquisaram bastante e criaram diversos tipos de jogos para que ela trabalhasse problemas de ortografia com seus meninos: jogos da memória, dominó, caça-palavras, quebra-cabeças, palavras cruzadas foram alguns de que me recordo. Todos bem embalados em saquinhos de TNT, com muitos desenhos e muita criatividade. Tornaram-se CÚMPLICES de Maria Márcia no processo ensino-aprendizagem. E, enquanto preparavam tais materiais, iam aprendendo também. Tornaram-se mestres e aprendizes, pegando o conhecimento, literalmente, com as mãos.

Depois, preparamos fichas e fichas com poemas dos mais diversos autores e no verso suas biografias. Consegui um bom número de livros em editoras, como doação para professores, e juntei-os aos meus, que lhe enviamos. Para cada obra, havia uma sequência didática a ser desenvolvida, no sentido de ensinar Maria Márcia a semear a fruição da leitura na garotada. E, claro, o trabalho a ser feito com cordel e o livro Guriatã, um cordel para menino, de Marcus Accioly. Mandei-lhe uma sapateira para que colocasse os livros e pudesse ser socializada para as outras salas também. Sugeri que fosse mudando as obras para oferecer a eles diversidade e novidades.

Por fim, escreveram cartas para mandarmos junto com as duas caixas repletas de material, via correios, à Maria Márcia, em Macaúbas, na Bahia. Nas cartas pedi que narrassem como nascera a ideia de fazer o material, como fora o processo de construção, o que haviam aprendido com aquilo durante mais de um mês etc.

Fui a uma agência dos correios e enviei as duas grandes caixas. O prazer que senti nisso não sei se consigo retratar aqui, passados tantos anos. Mas posso contar a vocês que, umas semanas depois, recebemos na escola a resposta, com fotos de todos, de Maria Márcia, da irmã de Maria Márcia que também era professora ali, dos alunos felizes, lendo, jogando, aprendendo.

Maria Márcia mandava agradecer e pedia para me chamar de sua ”fada-madrinha”. Contava que estava grávida do segundo filho e que ela e a irmã haviam resolvido cursar faculdade de pedagogia – à distância- porque em Macaúbas, nem próximo dali, havia qualquer faculdade. Fez. Fizeram. Ajudei-a, anos depois com seu TCC, sobre ”As casas de farinha”. Durante anos nos falamos, quando ela ia à cidade e, em lan houses, me mandava e-mails. Certa vez até me telefonou de lá. Queria ouvir a voz de sua fada-madrinha – imaginem. Perguntou-me se eu gostava de farinha de tapioca, porque me mandaria, junto com um presente feito por ela e pela irmã. Disse-lhe que guardasse a tapioca para o dia que viesse a São Paulo e ela mesma me prepararia as suas delícias. Mandou-me, então, um conjunto de panos bordados por elas, formando oito joguinhos americanos com guardanapos. Adorei. E foram eles que hoje me fizeram lembrar de Maria Márcia, de Macaúbas, BA.

EU, NÓS

Se ando e enxergo, maravilho-me
Se paro e contemplo, pulso
Se ardo em sensações, vivo.
Se estou numa fala num gesto num sorriso, continuo.
Se toco a dor humana, emano
Se acarinho a terra vermelha, sou.
Se tenho compaixão, ajo.
Se tenho ainda a emoção, levito.
Se ando e enxergo, maravilho-me.

PROFESSORA, ESSA MULHER

Como um presságio, seu mestre mandou:
“Toda mulher deveria ser professora para poder ajudar na educação dos filhos mais tarde”
Faremos tudo que seu mestre mandar.
Até a página dois, querido mestre.
Trabalhadora, trabalhadeira,
segue a mulher no caminho das escolas, dos alunos,
com sua varinha de condão.
Magias retiradas de tapetes mágicos e cartolas de coelhos sábios,
cantarolando melodias de bruxas do bem,
disparando saberes e sabores de seus mestres gregos,
qual um desses seres brotados das páginas
de seus ensinadores livros encantados.
Corre por avenidas, estradas, sobe ladeiras, escadas
entrega mensagens de anjos, serafins e querubins aos infantes meninos
que bebem suas artes, palavras e mágicas
como fossem verdades únicas,
quando não passam de pequeninas estrelas
a brilhar, algum dia, nos céus.

DEDICATÓRIA: Aos profissionais da EDUCAÇÃO que acolhem todos os dias meninos, meninas, jovens e adultos para semear neles mais do que o conhecimento. Beijos e abraços parceiros aos professores, às merendeiras e a todos da ESCOLA ESTADUAL RAUL BRASIL, em Suzano, SP.

Poesias e texto: Odonir Oliveira

Imagens da Internet

Fotos de arquivo pessoal

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1- Canal cleber santos

2- Canal Caetano Veloso