Semana da criança: uma menina especial

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GESTAÇÃO

Meses no de dentro

meses no tato interno

meses no cuidado seu e dela

além de todos

além de tudo.

Anúncio notícia aviso

chegada próxima

vinda ansiada

vinda celebrada

vinda proclamada

uma estrela pousaria em seu colo

uma estrela se aninharia em seu aconchego.

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VIDA

Chega quieta

chega  e fica

mama e fica

dorme e fica

acorda e fica.

Correm as águas dos rios

mudam-se as luas

a estrela quieta

a estrela em repouso

a estrela distante.

A análise, especial

A síntese, especial

 

O luto paterno

O luto materno

Doce pele, doces cabelos, doces amores

A luta materna

A luta paterna

O olhar distante, inconsútil, sem nuances

O gesto inerte, impensável, incompreensível

O vago, o trôpego, o ímpar

A caminhada estendida aos pés de todos.

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GERMINAÇÃO

afeto e companhia

toques sorrisos confeitos confetes

semeadura nutrição ternura

atenção percepção semente

ninho aconchego carinho

amor amor amor

estradas de cores

estradas de movimentos

estradas de melodias

estradas em harmonia

olhares

sentires

ficares

Arte

Encanto com a arte

Encanto com o belo

Encanto enquanto arte

Alicerces apoios aplausos

Arte

Germinação

Flor em botão

Especial

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DANÇA

sedução atenção

encantamento

concentração

improvisação criação intenção

dança ritmo rumo

corpo alma corpo intenção ação sedução

sedução ação intenção corpo alma corpo

luz cor movimento

encantamento

luz movimento luz movimento

concentração

aplausos

salvação

análise, uma estrela

síntese, uma menina especial.

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Nota pertinente: Durante os primeiros 4 anos de minha docência em S. Paulo, lecionei para crianças especiais. Eu era um pouco mais velha que eles, uns 10 anos. Aprendi, com eles, a arte de ensinar. Todos com diferentes dificuldades – naquele momento ainda não se falava em TDAH,  nem em muito do que se sabe hoje. Eram considerados pelos psiquiatras e psicólogos como crianças DCM – com disfunção cerebral mínima. Fato é que aprendiam por canais de afetividade e de conhecimento que muitas vezes ainda não entendíamos à luz das matrizes teóricas. Aprendiam, relacionavam-se entre seus pares e amavam ARTE. ARTE salva. ARTE prevê, antecipa questões individuais e sociais. A ARTE não rotula, não aprisiona, não etiqueta. Assim, foi com eles que eu, ainda bem jovem, aprendi que se ensina e se aprende ao mesmo tempo. Foi graças aos meus meninos e meninas dos anos 70 que pude exercer meu ofício respeitando individualidades, as diferenças nas formas de se aprender e, principalmente, que todo o conhecimento passa pelo canal da afetividade.

 

Poemas: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

1º Vídeo: Canal motet ( sanem ucar )

2º Vídeo: Canal  Jazz Ilija Capko

3º Vídeo: Canal  JB Jazz Blues House The Club

4º Vídeo: Canal GrupoCorpoOficial

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Semana da criança: o menino das cocadas

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JOÃO E OS IRMÃOS

Era magrinho, mais do que os garotos de sua idade. Depois dele a mãe, de forma surpreendente, teve gêmeos, 2 meninos. E depois mais uma menina. Todos quase da mesma idade, 3 e 4 anos de diferença entre João e a irmã mais nova.

O Pai ganhava pouco para tantas bocas, tantos pés, tantas calças, tantos sapatos, tantas urgências. Das urgências nasceram as cocadas. João era o mais velho, coube a ele, ainda garoto, levar o tabuleiro pelas ruas, aos vizinhos, às portas das escolas, à saída da fábrica.untitled-5

Enquanto seus amigos se divertiam das maneiras mais divertidas de se divertirem meninos, João trabalhava. E, por amor à família, não achava ruim não. Seguia. Às vezes uma parada desobediente e cheia de meninice o impelia a ser garoto como os demais. Ali conquistava a todos. Sempre teve discurso convincente de vendedor. Reconhecia em si tal habilidade. Quase que intuitivamente, reconhecia. E vendia todas as cocadas.

Os amigos por vezes sentiam certa pena de João, assim tão cheio de compromisso com as vendas, comentavam um isso e um aquilo, mas tudo passava, que João era muito gente boa.

2c775fd763c0a85187babb2c5440c63e-arte-popular-coelhoTinha lá os seus complexos e, conforme foi crescendo, no começo do contato com as garotas, pode-se perceber algum detalhe de superioridade manifesta, disfarce para uma inferioridade latente nele. Escrevia muito mal, ortografia impossível, letra ilegível, tudo em seus estudos denunciava uma idade inferior à que já tinha. Parara no tempo, do ponto de vista cognitivo. Como trabalhador ia em frente, muito além do que se poderia estimar para um rapazola como ele.e52aef6f678e6d1d98a9f786da3caa64meninocomcarneirocc3a2ndidoportinari28195429

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Muitas vezes, ao desejar assistir à televisão, ficava do lado de fora, aproveitando a janela aberta de algum vizinho, e contemplava aquele aparelho, que como outros tantos também, não tinha em casa. Cresceu olhando pelas frestas aquilo que achava merecer.

A gangorra da vida empurrava João para o comércio Comprou no Paraguai, em S. Paulo, comprou sem Nota Fiscal, deixou de emitir recibos nas vendas, negociou o que deu e o que pode. Trouxe os irmãos para trabalharem com ele. Enriqueceu. Comprou um diploma em uma faculdade particular. Adquiriu muitos imóveis, casou com rica filha de fazendeiros, teve 3 filhos, mandou-os estudar fora do país. Enriqueceu.

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Tornou-se esnobe, sem perceber que é, relatando seus bens, suas posses a todos e a todo momento. Exibe, em encontros com amigos de outros tempos, lindos carros importados, bens materiais e engata narrativas esdrúxulas frente a eles.

A Síndrome do Pânico, o medo de morrer a qualquer momento, a fobia de avião e o medo de assalto, de sequestro, o corroem dia e noite.

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Texto: Odonir Oliveira

Imagens: telas de Cândido Portinari (retiradas da Internet)

1º Vídeo: Canal  Andrés Treviño

2º Vídeo: Canal TheVideoJukeBox4 (clique no Youtube)

Semana da criança: aqui existiu uma menina

(Aí estão a Escola Santo Antonio, a banda marcial do Colégio Estadual Barão de Mauá, a FNM, montadora de caminhões, de JKs etc. Estão aí o adorado e apaixonante prof. Josemar Contage, entregando um diploma a uma mocinha; estão os times de futebol dos 3 clubes que ali havia Aliança, Piauí e Vila Nova- este último tendo seu Plácido como um de seus fundadores; o ônibus da Junel, que levava para o Rio, para a Praça Mauá; os  desfiles da primavera, estão aí o escorregador, o balanço, a gangorra, o rema-rema nos quais escorregam as infâncias, estão aí o Cine FNM, das matinês dos domingos às 11 h, depois da missa na Igreja N. Sª das Graças, o armarinho do seu Passos, a farmácia, o grupo de escoteiros que se reunia aos domingos, e UM TRILHÃO DE LEMBRANÇAS FERVILHANDO LÁGRIMAS, nessa Vila Operária de 1953 até 1968.

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BONECOS

– Dá, é meu

-Você só gosta de boneco, boneca é mais bonita

– Dá, gosto de bonecos, não quero esses enfeites da sua nele não

– Vem, vamos andar de bicicleta então.

– Vou. Só se depois a gente brincar de pique

– De pique depois.

– De pique antes. Depois, de bonecos.

– Tá bom, de pique antes !

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MATINÊS

Missa das nove, depois matinê

Domingos

canto oração hóstia comunhão

olhos espichados no relógio do pulso ao lado

Matinês

Oscarito, Mazzaropi, Jerry Lewis

balas doces chicletes amendoins

almoço sobremesa bicicletas piques

sonhos desejos planos

Domingos

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SEMEANDO O FUTURO

O pai planta

semeia espera

molha cuida  enriquece a terra

A menina observa

tem regador pá e ancinho

Olha copia reproduz

na terra na horta

na sala

na vida

Prazer em saber semear e colher

Prazer em poder semear e colher. 12080343_156916624656336_5899358534482934815_o

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(Amigas de infância se encontrando, depois de mais de 50 anos)

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1º Vídeo: Facebook Direção Cafura’s Studio

2º, 3º, 4º Vídeos: Canal Eduardo Paz Fraga

Fotos de arquivo pessoal

Texto e poemas: Odonir Oliveira

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Fé, esse condimento eterno

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objeto
do meu mais desesperado desejo
não seja aquilo
por quem ardo e não vejo
seja a estrela que me beija
oriente que me reja
azul amor beleza
faça qualquer coisa
mas pelo amor de deus
ou de nós dois
seja

Paulo Leminski, do livro “Caprichos e relaxos“, 1983.

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DISCURSO

é solidária

é solidário

é cristão

é cristã

tem humanidade

tem sororidade

é socialista

é hedonista

é comprade

é comadre

é parceiro

é parceira

verbo oral

verbo escrito

olhar piedoso

olhar cândido

voz doce

voz piedosa

discursos

máscaras

couraças

hipocrisias

filisteu, filisteia

Você é ?

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COMO ENXERGO O FACEBOOK

Sempre tive meu próprio discurso. Mas sempre li muito também. E fui aprendendo com o que lia. E vivia, certamente. Tenho minhas contradições, minhas idiossincrasias, meus medos e desesperos, como qualquer um.
Gosto de belezas, principalmente das ofertadas pela natureza. Assim, posto e adoro ver belezas naturais postadas por aqui. Aprecio também as criadas pelo Homem, mas bem menos.
Gosto de cozinhar e vez ou outra testo uma das milhares de receitas que postam – muitas não dão certo- foram photoshopadas pra ficarem belas etc.
De literatura, não preciso falar…. posto porque gosto e acredito que as pessoas devam ler literatura. Ao mesmo tempo sei que a grande maioria lê rapidamente tudo no celular, sem concentração, sem encantar-se com as belezas literárias ali apresentadas, além de nem terem iniciação para saborear o que leem- e NEM QUEREM TENTAR, pelo menos. Pena. Nossos autores brasileiros agradeceriam, pelo menos eles.
Além disso, tenho uma trajetória de conscientização política que me impele a ser contra o capital, a bens materiais apenas por possuí-los etc, dessa forma ME AVILTAM posturas contra os mais pobres ou menos favorecidos pela vida, e todo tipo de hipocrisia social.
NÃO ACEITO falar-se em DEUS e continuar sendo concentrador de riquezas, pedófilo, manipulador de fieis, crentes iludidos por uma FÉ que não é nem cristã nem não-cristã – de quaisquer religiões.
Se há realmente cristãos que sejam NO DIA A DIA, DE FORMA VERDADEIRA, SEM OBSTRUÇÃO DO ACESSO À MELHORIA DE VIDA de toda a humanidade, de todos os brasileiros.
Vivo no Brasil., NÃO vou sair daqui.
Vou morrer e ser cremada aqui, se Deus quiser.
Facebook DEVE SERVIR não apenas para diversão. Seria muito pouco para a tão alta penetração que possui.
Refletir não doi.

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Entranhas, noites, sussurros, segredos

histórias, cumplicidades, desvãos

Um leque, uma moeda, um retrato

um terço

um meio

um décimo de vidas

um centésimo de tristezas

um milésimo de revelações.

Revelações de últimos meses, de últimos dias e horas.

Confidências insuspeitáveis.

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É um ponto

é uma meta

é um rumo.

Persigo

sigo

avanço.

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Bato à porta,

que fechada, me permite contemplações

Bato à porta,

que inerte,

me permite reflexões.

Bato à porta,

que signo, me conduz a leituras internas.

Adentro o adro sagrado, profana que ainda sou.

Bato à porta.

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Luzes em penumbra

altares, sinos e santos

toalhas brancas, presépios, mistérios,

ritos de vida e de morte,

encontros domésticos, casuais, sacramentados,

flores brancas,

perfume de rosas, jasmins, camélias e cravos brancos

Silêncios sigilosos de evocações

Humanos, sagrados pecadores.

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Cruzeiro de joelhos

ainda que doam e sangrem feito penitência ignorada.

Cruzeiro do madeiro bento

Cruzeiro da Senhora do Carmo

respondendo por mim

entendendo a mim

respondendo a mim.

Cruzeiro cheio de luz dos dias frios de junho.

Minas escorrendo sempre por minhas veias.

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Poemas: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal: Igrejas de cidades mineiras

1ª imagem: Foto do Facebook de Hermes Prado Jr.

Vídeo: Canal anindya8q

Quando eu tiver sessenta e quatro …

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INVERNOS

Quantos invernos cumprirão uma existência?

Quantos dias de chuva e de bonança comporão uma existência?

 

Quantas luas serão suficientes para um grito de êxtase e felicidade?

Quantas raivas, dúvidas, indecisões e tropeços antecederão a um beijo?

 

Quantas falsas interpretações dos sinais emitidos pelos ventos,

quantas incorretas leituras de sinais de fumaça,

quantas incompreensíveis decodificações de letras e números

quantas indecifráveis frases serão culpadas

por improváveis leituras de estrelas?

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CHEGANDO AO FIM

Nada importam cascas e capas

Nada importam tecidos e chapéus

Nada importam apupos e rapapés

 

Essencial é a alegria

Essencial é a simplicidade

Essencial é a cumplicidade.

Essencial é a bondade.

 

Os bolsos seguirão sem moedas

As mãos seguirão sem anéis

Os ombros seguirão sem afagos

As pernas seguirão sem apoios.

 

As últimas estações

não podem ser vias sacras.

As últimas estações devem ser leves, francas e ternas.

 

Se a vida é um sopro,

há que se encontrar

quem a assopre com ternura.

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Poesias:  Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

1º Vídeo: Canal Violeiro do Sertão

2º Vídeo: Canal MonaLisa Twins

Doce era o Rio Doce

VERMELHO

é sangue
é sangue de árvore
é sangue de ave
é sangue- veia
é sangue de ovas
é sangue de flor
é sangue torpor
é sangue pavor
é sangue grito- terror
vermelho sangue
doce rio vermelho exangue
em sua dor
em nossa dor.

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LÍRICA

conhece montes

visita ninhos de passarinhos

bebe água de rios com mãos em concha

suspira ao nascer do sol

entontece no vinho do anoitecer

saboreia pingos de chuva no rosto erguido aos céus

entrega corpo e alma às luas cheias

caminha sobre pedras de riachos muitos

vasculha matas fechadas com olhares fascinados

é sol

é estrela

é lua

é rua

é acorde

é vírgula

é reticências

é ritmo

é rima

é dor, flor, cor

amor

também

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CAMINHOS DE PEDRAS

Quem era ela que acreditava nas águas dos rios?

Quem era ela que assobiava com os passarinhos naquelas manhãs?

Quem era ela que costurava panos leves de enfeitar venezianas solares?

Quem era ela que contava janelas coloridas em ruas de inconfidentes?

Quem era ela que pintava cores em telas desbotadas de perfumes?

Quem era ela que dedicava o olhar para uma única paisagem?

Quem era ela que saltitava pedra por pedra na trilha de ser?

Quem era ela, meu Deus?

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A SAGA DOS BARCOS

 Não apague as marcas, deixe-as pelas águas, com os remos
abandone-as a esmo
entregue-as ao porvir
dos rios serão as almas dos que chegarem de outras vezes.

Os silêncios e os murmúrios
o que importarão,
se o que sempre valerá serão os sonhos das águas
e seu próprio silêncio.

Que restem as pegadas
as súplicas
os seixos
as ramas
que restem !

UNS BARCOS

Nessas ilhas de águas doces
barcos à deriva
ainda que juntos
esperam
anseiam
dançam

o vento é forte
dançam
o vento é doce
aguardam
o vento é visgo
acolhem

o vento não para de ventar
o vento ajuda a navegar
o vento, ainda que fraco,
segura-os nessas águas
doces
líricas
a não naufragar

doces ventos
ventos doces
águas doces
palavras doces

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O HOMEM CHORA

Esse homem chora de dor pelas águas

chora de dor pelos peixes

chora de dor pelo hoje

que não é mais o ontem

nem será mais o amanhã.

 

Esse homem chora

porque tem a pele das águas

a alma de lagoa e os olhos de ver.

Tem flores do campo,

orquídeas selvagens no dorso,

conversa com deuses da aquarela.

 

Esse homem chora

porque é menino que levita.

 

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LEGADO

De meu pai mineiro,

nascido em Alto Rio Doce,

recebi um rio.

 

Guardei de suas palavras

o doce do nome,

a vida das águas,

o sublime barulho de seu correr

em meus ouvidos.

 

De meu pai mineiro,

herdei suas margens verdes

seus passarinhos cantores

suas pedras limadas nas águas

suas nascentes e foz.

 

De meu pai mineiro,

aprendi a beber água limpa de mãos em concha

ao dedilhar seu nome, doce rio Doce.

 

De meu pai mineiro,

guardo um grito

uma revolta

uma revolução.

 

– Filha, não deixe.

Não aceite.

Lute, busque, altere

Interfira.

 

Ah, doce rio Doce,

legado de meu pai !

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Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

1º Vídeo: Canal Antonio Bocaiúva

2º Vídeo: Canal Odonir Oliveira

” E o hábito de sofrer, que tanto me diverte, é doce herança itabirana”

ITABIARA 1(…) Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

(…) E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

(Resíduo)

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A Máquina do Mundo

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

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lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

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Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

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Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

ITABIRA 37

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

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a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
“O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

ITABIRA 8

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste… vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”

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As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

ITABIRA 28

no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo,

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e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade:

e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

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tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

ITABIRA 18

como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

ITABIRA 21

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em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

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A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.

ITABIRA 9

Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade , “Poemas”. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1959.

 

Poesias: Carlos Drummond de Andrade

Fotos de arquivo pessoal : Itabira, setembro de 2017

Vídeo: Canal Matheus Reis