Coretos e folhas

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NO TEMPO
era quase tarde
ali ela apenas
sem ele
com ele
era quase tarde
ali apenas ela
um sino plangente
uma pétala de flor
umas folhas ao chão
era quase tarde
ali ela apenas
sem ele
com ele
uma música interna
um fulgor interno
uma carícia de vento frio na pele
ali apenas ela
sem ele
com ele
era quase tarde
ali

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TROVA
Soubesse ela seduzir pelos braços
soubesse ela fascinar pelos pelos
soubesse ela encantar pelos sorrisos fagueiros
soubesse ela morder seu peito
soubesse ela apertar seus ombros
soubesse ela desfalecer em seu regaço
soubesse ela ser folha e flor
soubesse ela ser verão e primavera
soubesse ela ser
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CORETO
brinca a mulher
banda música dança
par
ímpar
brinca a mulher
uma procissão a seguir
um cortejo a acompanhar
um movimento de passos e pés
brinca a mulher
banda música dança
par
ímpar
um vulto nas nuvens
umas asas gigantes
uns braços viris
carregam a mulher
brinca a mulher
em par
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PRELÚDIO
passa a reza
passa a moça
passa a carroça
passa o tropeiro
passa o tempo
passa o cavaleiro
passa a festa
passa a banda
passa o tempo
passa a hora
passa o encanto
passa a chuva
passa o vento
passa a vida
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RETRETA
na marcha o soldado
todas as manhãs
na marcha umas pernas
todas as tardes
na marcha o soldado
todas as noites
não sabe ele
não sabe deles
não sabe a dança
não sabe da boca
não sabe dos seios
não sabe do ventre
na marcha o soldado
todas as manhãs
todas as tardes
todas as noites
na marcha o soldado
não sabe como a banda toca
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Poesias: Odonir Oliveira
Fotos de arquivo pessoal
1º Vídeo: Canal Savalla Records
2º Vídeo: Canal  Andrew Keogh
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Nascidas nos anos cinquenta

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TODA NUDEZ SERÁ PERDOADA

Despe-se o corpo
da mulher metáfora
da mulher antítese
da mulher metonímia
da mulher eufemismo
da mulher onomatopeia
Despe-se o corpo
da mulher signo do sexo do medo do amargor
Despe-se o corpo
da mulher frasco embalagem colírio  motivo
Despe-se o corpo
da mulher fresca tenra rija excitante
Despe-se o corpo
da mulher frágil entregue carente
Despe-se o corpo
da mulher estrada barro lodo chão
Despe-se o corpo
da mulher marcas suspiros chegadas e partidas
Despe-se um corpo de carne e osso.

OS SEMELHANTES SE ATRAEM

Três MULHERES, assim maiúsculas mesmo. MULHERES que nasceram nos anos de 1950. Uma no início da década, outra na metade dela e outra ainda, no seu final. Conheceram-se, em comum, pelas redes sociais. Duas delas se conheciam há décadas por terem trabalhado juntas. O encontro estava marcado. Quem marcou não se sabe. Marcado.

Encontraram-se na Praça. Sentaram-se nos bancos de cimento, apoiaram-se na mesa. Quando se perceberam eram um facho de luz, iluminando passados, presentes e futuros. Tinham a cara da MULHER de seu tempo, femininas, feministas, conhecedoras de seus direitos e deveres. Eram amantes de amores, da sensibilidade. Não odiavam homens, nem desejam com eles qualquer luta de capa e espada. Pessoas do diálogo, lutadoras, emancipadas, coerentes com suas histórias de vida: discurso e ação.

Encontraram-se ali 3 MULHERES de corpo e alma, 3 MULHERES em sua natureza.

Uma arriscou conhecer o mundo, literalmente, sem conhecer inglês, sem grana, foi trabalhar, foi buscar, foi conhecer, foi fazer-se a seu modo. Que história de se ouvir ! Bastava fechar os olhos para ver a sua história. Uma arte educadora de corpos em movimento, de estudo e conhecimento de fora pra dentro e de dentro pra fora. MULHER dos anos cinquenta.

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A outra, ligada às letras, cidadã do mundo, estudiosa da humanidade,  do socialismo, em terras lusitanas, lançada ao mar português, qual um Pessoa feminino, amou e fez tudo valer a pena porque sua alma não foi pequena. Nunca. Sabendo-se ela, mulher, forte e frágil em sua natureza, reinventou-se sempre, do começo ao fim. MULHER dos anos cinquenta.

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A terceira, ali prostrada, bebendo uma caipirinha de vodca, depois mais uma, com elas, ouvindo e entendendo mais uma vez quem era, quem eram, porque eram. Eram as três tatuadas pelas lutas, pelas conquistas, pelos amores e desamores que se injetam nas MULHERES dos anos cinquenta.

Seu feminismo vai muito, muito mais além do que o de comportamento apenas. Seu feminismo é de classe, de oportunidades iguais para quem trabalha, estuda, produz e é digna de reconhecimento, por isso há que se ir além do comportamento, considerado tão libertário. As 3 MULHERES acreditam que não se pode copiar, por osmose ou nas veias, o que há de pior no comportamento de grande parte dos homens. Mas sim o que de melhor existe no SER HUMANO, a solidariedade, a justiça social. Para todos.

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“As sementes não brotarão se sobre elas houver uma pedra. E também pode acontecer que, depois de brotar, elas sejam arrancadas… De fato, muitas plantas precisam ser arrancadas, antes que cresçam. Nos jardins há pragas: tiriricas, picões…

Uma dessas sementes é a “solidariedade”. A solidariedade não é uma entidade do mundo de fora, ao lado de estrelas, pedras, mercadorias, dinheiro, contratos. Se ela fosse uma entidade do mundo de fora, poderia ser ensinada e produzida. A solidariedade é uma entidade do mundo interior. Solidariedade nem se ensina, nem se ordena, nem se produz. A solidariedade tem de brotar e crescer como uma semente…” Rubem Alves

 

Poesia e texto: Odonir Oliveira

Texto de Rubem Alves, na íntegra: http://www.revistaprosaversoearte.com/a-solidariedade-como-a-beleza-e-inefavel-esta-alem-das-palavras-rubem-alves/

Fotos de arquivo pessoal

1º Vídeo: Canal Odonir Oliveira

2º Vídeo: Canal Samantha Alevatto

“Ressuscita-me”

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O Amor

Talvez
Quem sabe
Um dia
Por uma alameda
Do zoológico
Ela também chegará
Ela que também
Amava os animais
Entrará sorridente
Assim como está
Na foto sobre a mesa
 
Ela é tão bonita
Ela é tão bonita
Que na certa
Eles a ressuscitarão
O século trinta vencerá
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias
 
Agora vamos alcançar
Tudo o que não
Podemos amar na vida
Com o estrelar
Das noites inumeráveis
 
Ressuscita-me
Ainda
Que mais não seja
Porque sou poeta
E ansiava o futuro
 
Ressuscita-me
Lutando
Contra as misérias
Do cotidiano
Ressuscita-me por isso
 
Ressuscita-me
Quero acabar de viver
O que me cabe
Minha vida
Para que não mais
Existam amores servis
 
Ressuscita-me
Para que ninguém mais
Tenha de sacrificar-se
Por uma casa
Um buraco
 
Ressuscita-me
Para que a partir de hoje
A partir de hoje
A família se transforme
 
E o pai
Seja pelo menos
O Universo
E a mãe
Seja no mínimo
A Terra
A Terra
A Terra

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Composição de Caetano Veloso sobre poema de Maiakovski

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal: EveyMash

Flora em prosa e verso

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“Era o verão de 79. Ela estava passando férias em Salvador. Eu a tinha conhecido um mês antes, e nós ainda não namorávamos. Telefonei para um amigo comum: ‘Diga que eu quero vê-la, que vou estar no Teatro Vila Velha entre quatro e seis da tarde. Tenho uma coisa pra mostrar a ela.’ Quando ela chegou, eu cantei a música. ‘Flora’ foi, portanto, uma cantada literal. Cantei Flora na canção e com a canção. É minha única canção-cantada. A alma exigia capricho: o sentimento era intenso, e o desejo, de uma relação durável. O que eu cantava não era só uma pessoa, mas toda uma vida com ela. Na letra eu já a imagino ‘idosa’, ‘bela senhora’, ‘futura’. Elis é que me disse: ‘Nunca uma mulher teve de um homem uma música dessa!’ A canção teve pra mim, como talvez pra ela, o caráter da irrecusabilidade da proposta. ‘Flora’ foi além das intenções nela contidas, acabou tendo uma função. A cantada funcionou. É bom que a música e a poesia também tenham essa utilidade. Um modo sutil de ser útil. Uma sutil utilidade, uma ‘sutilidade’…”

#PorTrásDaLetra – “Flora”

Foto: Gilda Barbosa da Silva

Do Facebook do Gilberto Gil

 

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Flora

Gilberto Gil

Imagino-te já idosa
Frondosa toda a folhagem
Multiplicada a ramagem
De agora

Tendo tudo transcorrido
Flores e frutos da imagem
Com que faço essa viagem
Pelo reino do teu nome
Ó, Flora

Imagino-te jaqueira
Postada à beira da estrada
Velha, forte, farta, bela
Senhora

Pelo chão, muitos caroços
Como que restos dos nossos
Próprios sonhos devorados
Pelo pássaro da aurora
Ó, Flora

Imagino-te futura
Ainda mais linda, madura
Pura no sabor de amor e
De amora

Toda aquela luz acesa
Na doçura e na beleza
Terei sono, com certeza
Debaixo da tua sombra
Ó, Flora

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Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal beatrizebreda

Mais simples

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DIARIAMENTE
caminhadas matinais
o cão e seu dono
a flor na sarjeta nascida
o jardim invulgar
o garimpo de outra pedra
as bananeiras
o sol tímido
o vento frio
o menino zunindo na bicicleta
a lua minguando
restando
espetáculo ímpar
diariamente simples
mais simples
simples assim
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Poesia: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo; Canal MaisSimplessim

Caixa de sonhos

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“Tem horas em que penso que a gente carecia, de repente, de acordar de alguma espécie de encanto” Guimarães Rosa – Grande Sertão Veredas

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Conversas externas, e depois internas, me fizeram revisitar essa obra de Orígenes Lessa, O feijão e o sonho, publicada em 1938. Quando a li, ainda mocinha, me identifiquei demais com o personagem principal – o sonho-  ao mesmo tempo que o relacionei a meu pai; já minha mãe era o feijão, ícones eternos em nós.

Percebo que o sonho incomoda muito as pessoas que estão sempre pregadas ao chão, sem levitar, sem voar. Não é o meu caso, nem o de alguns seres humanos que conheci pela vida. Ainda bem.

Que sonhos são os nossos? Como variam com as idades, com nosso crescimento, com nossas experiências de vida …

Há sonhos que estão ao nosso alcance e se realizam. E por isso deixam de ser sonhos? Não, é bom saborear sonhos alcançados e entender que foram sonhos.

Há outros sonhos que escapam de nossas mãos, escapolem mesmo. É necessário ver isso. Mas … não deixam de ser sonhos, ora se não são !

Os sonhos coletivos de sociedade, país, planeta tornam-se distantes demais. Distantes porque o tempo histórico de uma vida humana é curto em comparação com o necessário para a realização desses sonhos mais universais – a história é contada em séculos, eras …

O que fazer então? A meu ver, sonhar, uai. Sonhar que conquistamos algo daquilo que buscamos e, com isso, viver mais realizados.

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QUERO UM PAÍS NAÇÃO

Quero rios admiráveis
brasileiros amáveis
de dentes completos
com cultura acessível
beijos amistosos
abraços sinceros
sonhos realizáveis
desejos coletivos
alegrias sociais
barrigas cheias de letras
barrigas cheias de eletricidade
barrigas cheias de água potável
barrigas cheias de ruas saneadas e saudáveis
barrigas cheias de pensamentos e reflexões.
Quero gente dançando e reivindicando
Quero caminhadas e blocos de ritmos, em consagração
Quero jovens plenos de conhecimento e decisão
Quero irmãos vivendo com mais merecimento e menos sofrimento
Quero mais paz nas ruas, no campo, na lua.
Quero olhar o céu como quem já se vai
deixando um país nação
mais intenso a todos
os que nele ficarão.

CAIXA DE SONHOS

sonha pão com manteiga
sonha livros de histórias
sonha pique-bandeira nas noites
sonha andar de bicicleta
sonha brincar de escolinha
sonha e vive
vive e sonha
 
 
sonha amor-amar
sonha ser-ter sonhos
sonha músicas
sonha poemas
sonha o cãozinho no colo
sonha a sacola de compras
sonha a matinê no cinema
sonha as risadas com amigos
sonha e vive
vive e sonha
 
 
sonha e escreve sonhos
guarda sonhos na caixinha
abre a caixinha de sonhos
sonha e vive
vive e sonha

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Poesias e texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos: Canal Orquestra Ouro Preto

” Buscando reviver a histórica vocação musical da cidade de Ouro Preto (Minas Gerais), Rufo Herrera e Ronaldo Toffolo, associados a um grupo de instrumentistas que integravam o grupo Trilos e o Quarteto Ouro Preto, criaram, no ano de 2000, a Orquestra Experimental da UFOP, hoje Orquestra Ouro Preto. É formada por cerca de 20 músicos, aos quais se associam músicos convidados, em função do repertório a ser executado. Tem como Diretor Artístico e Regente Titular o Maestro Rodrigo Toffolo.

Ao longo de 17 anos de trabalhos ininterruptos, a Orquestra Ouro Preto reúne projetos de grande relevância.

Do repertório dito padrão, comumente executado por orquestras de todo mundo, a projetos de caráter artístico-pedagógico, a Orquestra Ouro Preto vem se destacando como um grupo de câmara de excelência, ao dedicar especial atenção à efervescência cultural da América Latina, com foco na música brasileira de concerto e nas demais manifestações musicais de países vizinhos, assim como à pesquisa e difusão do repertório vinculado à Escola Mineira de Compositores do Séc. XVII.

A concepção de novos trabalhos no campo da música experimental, rende ao grupo aclamação de público e crítica, ao propor o diálogo entre os universos erudito e popular, formando novos públicos e dinamizando o acesso à música de concerto. Orquestra Ouro Preto – The Beatles, Valencianas – Alceu Valença e Orquestra Ouro Preto e a recente parceria com o multiartista Antônio Nóbrega são importantes referências.”

Visite o site: http://www.orquestraouropreto.com.br/a-orquestra/

Saraus

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VESPERTINOS

é um som
é um aroma
é um rodopio
é uma vagueza na música
é um acorde
melodia agridoce
um colo
uma nuca
um ombro
uns braços
um néctar de encontro e desencontro
olhares perdidos
palavras ausentes
tom de crepúsculo
em cor
em ritmo
em peles

Lua-Rio

NOTURNOS

uma camisa fluida
dedos deslizantes
boca de batom atonal
pescoço de semibreves
colo de breves
seios fartos em sol maior
dorso de semínimas
ancas de allegros
flor em dó menor
coxas em si bemol
pernas em sustenidos e colcheias
sem camisa fluida
sem semibreves e breves
sinfonia noturna
perfeição de acordes
sintonia perfeita
neblina
querubins serafins
sinfonia dionisíaca
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Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

1º Vídeo: Canal Sol Poda

2º Vídeo: Canal Marcelo Marinho