Pedro

DECLARAÇÃO UNIVERSAL DE AMOR

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PEDRO

Da vez primeira, a alegria
Do choro vivo, a força da existência
Dos belos lábios, a contemplação
Do choro grave, a música ansiada
Dos primeiros passos,o deslumbramento
Das primeiras palavras às frases especiais,
a perplexidade,
o encantamento,
o orgulho.
De bebê a menino, a sensibilidade
à flor da pele, do nariz,da boca.
A escrita da letra, da palavra, da voz.
O gosto da Ciência, a cor da Música,
tudo junto, tudo forte, tudo assim.
Vendo e sentindo
Vendo e pensando
Vendo e sofrendo
Vendo e sorrindo.
A dor nas mudanças,
a dor nos riscos.
Você, especialmente,
Você …

PEDRO

Filho, fruto da minha ânsia de amar, de ser mãe de menino-homem. Quem poderia imaginar que seria assim tão diferenciado …

Pregam que devemos dizer a quem amamos que o amamos antes que seja tarde ou nunca seja.

Companheiro desde os primeiros instantes quando chorou de dentro para fora de mim, quando varado de fome, voraz, em poucas horas sugou o colostro que o protegeria de todas as infecções primeiras.Sempre voraz em acalanto, me aprazerava com seu sorrisinho suave quando cuidava de mim, fingindo  ser eu quem cuidava dele.

Afetuoso sempre, suave e fraterno com amigos, com os mais velhos – seus preferidos, aliás. Sem tolerar palavras duras e brigas, fossem de quem fossem. Sensível, parceiro, amigo.

Quantas vezes me ensinou a ler. Ao ouvir o poema de Drummond, aos 5 anos, enquanto eu dirigia na volta da escola, me revelou que a pedra no caminho era como uma fase dos jogos do Nintendo, quando se vencia uma fase logo vinha outra a ser vencida e que tinha entendido o que o poeta falara.Como não me lembrar disso ?!

Quantas vezes suportou com muita paciência minhas conversas de trabalho, mesmo sem alcançar a dimensão das queixas que eu fazia ou as injustiças das quais eu reclamava. Ao contrário, adorava me ouvir contar dos projetos que realizava com meus alunos- e muitas e muitas vezes me acompanhou em atividades extra-classe, em concertos de música erudita, em espetáculos de dança, ao teatro, aos museus …

Quantas vezes foi meu parceiro em mudanças e arrumações- diga-se de passagem sem gostar muito, pois prefere o estabelecido, sem arrastar móveis e encaixotar o já vivido.

Quantas vezes acompanhou novelas de época, minisséries, shows ao meu lado, fisica e efetivamente junto.

Muito responsável em menino, menos exigente consigo mesmo quando adolescente, sempre lendo, informando-se, crítico, reflexivo, completamente puro e ingênuo para as rasteiras que a vida oferece a todo instante, seja no terreno emocional, pessoal, profissional… a vida vai ensinando -muito mais do que eu, que sou aprendiz em grau bem mais fundamental que o de Pedro.

Fazer escolhas pessoais, fazer escolhas profissionais, responder por elas, mestre de intuição e sensibilidade, meu filho é senhor. Respeitador de mulheres, consciente do que busca e valoriza, segue.

Independente de mim, é preciso ir.

Nada consegue me fazer esquecer meu eterno cúmplice.

Quando estico um lençol na cama, quando ponho a mesa, quando penduro roupas no varal, quando arrasto um móvel, quando o computador me pede que o desvende… quando, quando… meu Pedro engrossa cada lágrima de saudade em mim. E como não ser assim ?

Revejo fotos de meu bebê, de meu menino, de meu rapaz, do homem que se tornou hoje… e me fortaleço muito.

Na vida o que deixamos como herança é o que fica. Pedro (e Carla também) não terá nada mais do que aquilo que vivemos juntos. É o bastante.

Pedro, eu amo você, meu filho.

 

Poema e texto: Odonir oliveira

1º Vídeo: Canal valeriabdiniz

2º Vídeo: Canal  Caio Mesquita Oficial

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Rendendo homenagens

Admiro aqueles que inspiram versos, melodias, arte em geral. Ser musa inspiradora é uma bênção. Saber-se razão e emoção para a criação é algo inestimável. Muitos poetas beberam lirismo em suas musas e assim foi Paulo César Pinheiro, em relação à Clara Nunes.

Conheci uma escritora em São Paulo que, já estando separada do marido, enviou-lhe por correio em um pacote bonito, envelope grande, os originais de seu livro de poemas, grande parte deles escritos enquanto viveram casados, por muitos anos. Havia ali uma linda dedicatória ao homem amado, fonte daquela produção de versos em cascata e guardados, por anos, com ela. Contou-me que ele sequer abrira o envelope, devolveu-o pelo correio, escrevendo por dentro “outras postagens serão incineradas”. Fiquei estarrecida com a narrativa dela. O livro foi publicado, é claro, mas com outra dedicatória. Muita insensibilidade, muito medo de ter que responder por um sentimento inequívoco vivido por ambos.

 

Outra amiga da Granja Viana contava que se apaixonou por um homem, homem rústico, pouco apreciador de versos, literatura, arte. Bebedor de pagodes paulistanos e engolidor de garrafas de cerveja transformava-se num dançarino de primeira, risonho, falastrão, gargalhador. Fascinou-a isso. Como professora que era, ela adorava cinema, arte, literatura. Passados uns meses, talvez um ano, não me recordo- romperam sem explicações plausíveis. O homem, hoje já falecido até, não atendia ligações dela, numa época em que poucos tinham detector de chamadas, nem existiam celulares. Passou a fugir de minha amiga, por medo de envolvimento, como um gato escaldado.

Na verdade, ela queria transformar o sentimento, de forma natural, sem marcas e mágoas. Telefonar-lhe em aniversários, datas comemorativas, congratular-se com ele. Não compreendeu nada e, muito grosseirão, passou a tratá-la como uma daquelas mulheres mais vulgares a que ele estava acostumado.

 

Uma prima minha me conta que presenteou um namorado, na década de 80,com dois lindos livros raros, que o rapaz dizia um dia querer comprá-los etc. Tempos depois, quando ela os achou, fez um pacote, sem nada de declarações amorosas, enviou-os pelo correio ao moço, quando ele já vivia no Rio de Janeiro. Assustada, ouço que ele havia devolvido o pacote, dentro de outro envelope, sem sequer saber do que se tratava. Prova inequívoca de desprezo, humilhação e medo do que poderia haver ali. Um horror.

 

Fico me perguntando que medo é esse que grande parte dos homens têm de nutrir outros sentimentos por mulheres, que não sejam apenas os baseados no amor físico. Parece que não sabem lidar com isso. Talvez por certa onipotência masculina, talvez por absoluta necessidade de comando, talvez por vaidade, talvez por medo de não encontrar e não saber onde guardar sentimentos antigos, sem aquecê-los, e por isso evitam vivê-los.

Há sim amizade entre homens e mulheres. Há sim admiração entre homens e mulheres. Há sim sentimentos de maturidade entre homens e mulheres, que podem existir sem amor físico ou mesmo após este ter existido. É preciso aprender a transformar, a reciclar sensações. Não somos seres primitivos que se mantém apenas nutridos por instintos básicos. Somos seres sensíveis, delicados, frágeis também. É preciso reconhecer, admitir isso. Agressividades gratuitas, humilhações cotidianas revelam, na maioria das vezes, fraqueza moral e, sobretudo, grande imaturidade. O que é mais “simples” é mais fácil. Sempre.

Dedicatória:  A todas as mulheres e à sua sensibilidade natural.

 

Texto: Odonir Oliveira

Vídeos: Canal Clara do Brasil

Toda toada

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TERRA MINEIRA

Toda toada enterra
um topo
um trono
um teto.
 
Todo terreno tanto
semeia um pomo
um botão
um perfume
um sabor
um tempo.
 
Vivenda do sobrenome
vivenda de ares e ventos
vivenda de céu coalhado de estrelas
vivenda fértil
vivenda da vinda
vivenda da volta
vivenda semeada.
 
Toda toada encerra
um ponto
um pouso
um corpo.

 

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CONFIDÊNCIAS MINEIRAS

Há sempre aquele pedaço de terra te esperando
há sempre aquele céu de estrelas à mão
há sempre aquelas estradas a te estender caminhos
há sempre aquele prosear a te aguardar pra contar
há sempre aquele teu sangue mesmo a correr nas veias
há sempre uma cantata a ser ouvida ainda
há sempre um colo semelhante a te esperar
há sempre um ar frio e um vento nos becos a te arrodear
há sempre um café de brasa, um polvilho de brasa, uma linguiça pendurada …
há sempre um cheiro de lenha queimando num fogão da memória.
 
Há que retornar sempre.

 

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SENTIDO HISTÓRICO

Quer saber
que conhecer
quer viver
caminha por estas ladeiras
observa as patas dos cavalos da história
enxerga as colunas e os pórticos das igrejas
namora os alpendres das moradas
alisa os encantos barrocos
ouve as vozes sufocadas por movimentos debelados
adentra as cadeias públicas
bebe a bebida da terra
come a comida da terra
escuta as histórias da terra
sonha os sonhos dos sertões
reza suas procissões eternas
reconhece Brasil por aqui.
 
E volta.
Ou então fica para sempre.

 

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Versos: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal: cidades mineiras

Vídeos: Canal Orquestra Ouro Preto

Barbacena, ela viveu ali

MENINA PADEIRINHA

Venha de fita nos cabelos e botinas,
venha entregar pão com o pai,
venha cedo proteger irmãos menores.
Venha.
A rua é essa.
A casa é essa.
Os pais são esses.
Venha padeirinha,
ser onça braba na vida.

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Rua Padre Manoel Rodrigues (Pau de barba) Do acervo de Antônio Carlos D. de Andrada – 1931

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REINVENTANDO UMA INFÂNCIA

Meu pai sempre foi um homem bom.
Trabalhava desde madrugadinha.
Meu pai sempre foi bom.
Meu pai e sua sabedoria, um homem de pouca leitura.
Meu pai foi enganado e roubado pelo guarda-livros.
Meu pai tinha um lindo cavalo.
Meu pai, era só olhar, pra gente acatar.
Meu pai era de poucas palavras.
Homem tem que ser de poucas palavras, de pouco riso.
Meu pai nem suava.
Meu pai era brabo como tinha que ser.
Meu pai, meu pai e seus ditados.
“Deixa Deus com seu mundo”.
Meu pai era o melhor dos padeiros.
Meu pai sempre foi um homem bom.
Trabalhava desde madrugadinha …
Ah, meu pai …

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(Foto- 1920 – Estação Ferroviária de Barbacena, detalhe da antiga Estação atrás da atual. Coleção de ELTON BELO REIS.: Detalhe com abrangência a Rua do Anjo, a existência do Castelinho).

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MEDO DA MULHER

Entregando pães
de madrugadinha
na OESTE
a carroça parada
o ajudante distante
o homem tarado aproxima-se
o homem tarado cerca
o homem tarado amedronta a menina-moça
o homem tarado ri da menina-moça
o homem tarado agarra a menina-moça e tampa sua boca
O ajudante chega, o homem tarado foge.
O medo da menina-moça
O medo da mulher.

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(Chegada de um comboio da Oeste de Minas vindo de São João del Rei, passando pelo Bairro Jardim, antes da Ponte Seca quase próximo à Estação de Barbacena da E.F.C.B. que era junto com a da OESTE. Ao centro da foto no alto o prédio da antiga cadeia.
Ao fundo lado direito torres da Igreja da Boa Morte.) Década de 1930.

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NAMORANDO COM A IRMÃ

Moça não dá braço a moço
Moça sai com a irmã
Moça tira foto com moço e a irmã
Jardim do Globo,
moça virgem
moço virgem
irmã virgem
risos infantis
conversas pueris
olhares fitando longes
olhares buscando veredas
o bairro cresce
a cidade cresce
o país cresce.
Enlace.

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Foto de direito de Antonio Carlos Doorgal de Andrada, Praça Joao [Pessoa] ou Hermilio Alves hoje estação, Adrianinho de Oliveira. – 1932

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Foto de direito de Antonio Carlos Doorgal de Andrada , Largo do Rosário, Barbacena, MG 1932

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MÃE, MULHER, AVÓ

Nossas mulheres são boas parideiras
ancas largas
suportam dores
suportam dissabores
suportam desamores.
Nossas mulheres são mães fortes
Nossas mulheres gemem, mas gritam
Nossas mulheres amamentam, sacodem, mas acarinham.
Nossas mulheres são mães fortes.

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Post dedicado à minha mãe, Itália de Araújo Oliveira, nascida em Barbacena, MG, em 1919 e falecida em 2001, na mesma cidade.

Poesias: Odonir Oliveira
Fotos de arquivo pessoal.
Fotos da cidade de Barbacena antiga: Bárbaras Cenas, facebook
1º Vídeo: Canal armarinhodemiudezas
2º Vídeo: Canal Andrew Bergamo
3º Vídeo: Canal Marcelo Marinho
4º Vídeo: Canal Marcelo Marinho
5º Vídeo: Canal norynOO

 

De reis e reisados, a fé maior

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A FESTA

Prepara nas vésperas do Natal
aqui a Cítara de Davi
ali as cantatas mineiras
Vem chegando o mestre
o rei a rainha o contramestre
mais logo os Mateus e a Catirina.
Vem pras batalhas
vem pras danças
vem pro coro do Reisado
vem com fé
se Deus quisé.

 

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Em Minas Gerais, Folia de Reis, essa festa de devoção e fé, de tradição famíliar, é celebrada em todos os lugares. Os grupos de foliões iniciam sua jornada no dia 24 de dezembro com visitações e cantorias pelas casas, cuja mensagem é a peregrinação do caminho percorrido pelos três reis magos para estarem diante do menino Jesus. As visitas terminam no dia 6 de janeiro e encerram com confraternizações.

“A esmola que vóis dá / Nois viemo arrecebê / O glorioso santo Reis / É quem vai agradecê.
-Santo Reis pede esmola / Não é ouro nem dinhêro / Ele pede um agitoru (adjutório) / Um alimento pros festero.
Ó de casa, ó de casa / Alegra esse moradô / Que o glorioso santo Reis / Na sua porta chegô.
Aqui está o santo Reis / Meia-noite foras dora / Procurou vossa morada / Pedino a sua ismola”.

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Folia de Reis- Vale das Vertentes (S. João Del Rei e Juiz de Fora) 

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Serra da Canastra

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SINFONIAS DE REISADO

Bate o tambor
inaugura a caminhada
abre as janelas
toca a zabumba
abre as portas
ensina a rabeca, a viola e o ganzá
bate os pandeiros
sopra os pifos
sacode os maracás
roda, arrodeia, remexe
Canta o coro
melodias eternas
lembranças de menino
lembranças de fé.

Bate o tambor

 

 

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A CAMINHADA

abertura de porta
eh
ai, ai
entrada e louvação do Divino
chamada do Rei
eh
ai, ai
as peças de sala
as danças
ai, ai
a guerra, as sortes
eh
Os passos da gingá
a maquila o pião o entrecruzado
ai, ai
a fé
a contrição
Salve os Reis
ai, ai

FESTA NA ROÇA

O céu dormiu chovendo
acordou sorrindo.
Dia de festa na roça.
Café adoçado com rapadura.
Quitandas em potes
Bolo de milho, bolo de mandioca, doce de leite, queijo de casa.
Linguiças penduradas tinindo de frescas.
Um anguzinho mole, sem sal
pra ser comido com leite
” Dona Neuma me traz frango. E o quiabo fresquinho da horta, hem.”
Ouvem-se vozes ao longe.
Ouvem-se conversas de décadas, relembradas,
do primo de uns, dos tios de outros, da madrinha deles todos.
Quem morreu na semana passada? Quem casou? Quem nasceu?
Uns trazem as encomendas, outros trazem os braços e as mãos pra arrumação
Outros trazem as palavras na voz a um aconselhamento .
Risos doces e salgados de dança mineira no chão.

 

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos retiradas da Internet

1º Vídeo: Canal: luciano hortencio

2º Vídeo: Canal: Túlio Villaça

3º Vídeo: Canal: parruco20

4º Vídeo: Canal Odonir Oliveira

“De perto ninguém é normal”

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BARBACENA DOS LOUCOS

Estação dos insanos,
parada nacional de estranhos
chegadas de décadas
depósitos
homens sem esquadro,
mães solteiras,
mulheres histéricas,
seres dissociados do sistema
do círculo fechado
do aceito, do tolerável.
ferros choques dores feridas
lobotomia de luas estrelas porvir.
Parada obrigatória da alienação nacional.
Colônia dos angustiados aflitos.
Colônia dos mortos, vivos.

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Sanatório de assistência aos alienados, Barbacena, MG

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LOUCURA

casamento entre primos
mineiras chagas,
sífilis nas veias
mineiras chagas,
virgens eternas
mineiras chagas,
sacrílegos ditos
mineiras chagas,
ditados persecutórios,
mineiras chagas
janeiros dezembros
castigos pagãos,
mineiras chagas.
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ENLOUQUECENDO

braços estendidos
mãos abertas
artérias perfuradas
rodopio de imagens
tontura vertigem entrega
pernas retesadas
dedos escorregadios
músculos latejantes
tontura vertigem entrega
seios aquecidos
pés frágeis
nervos de manteiga
tontura vertigem entrega
ventre faiscante
joelhos tontos
ossos de areia
tontura vertigem entrega.

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LOBOTOMIAS COTIDIANAS

Para com isso, sua louca
acalma
obedece
não se altera
abaixa a cabeça
obedece
não se revolta
cala
aceita
obedece
aquiesce adoça entontece
sangra
esfola-se
maltrata-se
obedece
acata
embobece
Assim.

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ESPECTRO SOCIAL

São loucos os que querem igualdade
São loucos os que pedem justiça
São loucos os que exigem direitos cristalizados
São loucos os que empunham votos expostos
São loucos os que abrem as janelas do novo
São loucos os que espalham contradições
São loucos os que gritam nas ruas
São loucos os que seduzem olhares, sentires
São loucos os que habitam praças declamando sonhos
São loucos os que assumem vergonhas próprias alhures
São loucos os que percorrem entranhas estranhas e vis
São loucos os que acreditam no todo social justo
São loucos os que expõem suas mazelas em nuvens
São loucos os que sustentam suas teses de paz
São loucos os que recusam moedas e guardam prazeres …

 

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FILME: EM NOME DA RAZÃO

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PARA QUE A HISTÓRIA SEJA OUTRA
o avô paterno lavra à força
o consciente inconsciente de todos
o avô paterno pressagia
“Este não dará nada por conta”
O anátema sobre a cabeça
o avô paterno lavra na contenção
o avô paterno e a repressão
o avô paterno e a repreensão
o avô paterno e a opressão
ao consciente inconsciente de todos
o riso congelado de todos
as carnes nuas de todos
as almas sangrando nas grades
os corpos voando pelas grades
Avôs e avós paternos e maternos de todos
De todos eles
em nós todos.
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ESSA BARBACENA

Barba
-acena
Sobe
Desce
Venta
Queima sol
Olha as rosas
Olha a Rua Quinze
Olha a Escola de Cadetes
Olha a Cabana da Mantiqueira.
Olha as pedras
Tropeça
Levanta
Cai
Levanta
Olha mais
Olha isso-aquilo, olha.
Que Visconde de Barbacena que nada.
Que cidade de loucos que nada
Que gente boa de tudo!
Ah, Barbacena!
Acena
traz teus filhos todos de volta
Que a gente muda esse negócio de política
leite com leite
Vota de novo
Muito bem
E reconstrói esse país.
Eh, Minas,
Eh, Minas !
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ATUALMENTE
ARTE TERAPIA
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ABANDONO

 

Há um risco de nuvem, como facho, no céu azul,
parece de avião, em espaço nunca visto por aviões.
Há uma tempestade ameaçando desmoronar
Só Helena sente.
Só Helena adivinha.
Só Helena aguarda.
O moreno da viola nunca mais voltou.
O moreno da viola é uma novena.
O moreno da viola é o canto dos bem-te-vis pelas manhãs,
a ave-maria da igreja às tardes.
Helena bebe café, lentamente, na janela.
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ANORMAIS

 Norma
Para acordar
Norma para dormir
Norma para falar
Norma para lembrar
Norma para esquecer
Norma
Régua compasso transferidor
De cima pra baixo
De baixo pra cima
Da esquerda pra direita
Da direta pra esquerda
Norma para chegar
Norma para conhecer
Norma para falar
Norma para tocar
Norma para beijar
Norma para estar em
Norma para sair de
Norma para busca
Norma para entrega
Norma para ler
Norma para ouvir
Norma para comer
Norma para degustar
Norma para olhar a estrada
O  lago
A  mata
A  lua
A vida anormal.

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Poesias: Odonir Oliveira

Imagens do Museu da Loucura (Barbacena , MG, dez. 2016)

1º Vídeo: Canal: TheWickedNorth
2º Vídeo: Canal Odonir Oliveira

PARA SABER MAIS: 

http://www.fhemig.mg.gov.br/banco-de-noticias/235-complexo-de-saude-mental/1815-museu-da-loucura-15-anos-coragem-para-contar-uma-historia

http://www.brasilpost.com.br/2016/11/09/holocausto-brasileiro-silencio_n_12882906.html

“Holocausto brasileiro”, de Daniela Arbex ( em PDF)

 Holocausto brasileiro

Novo, de novo

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NOVO

Ei, vem aqui perto

vem

ouve o que quero te segredar

vem, ouve

É novo

de novo

Vem

Agora corre comigo

agora ri comigo

agora pega essa chuva forte comigo

Vem

Anda comigo nos trilhos do trem

Vem

Você prometeu

Vem

Me faz rir com gracejos, trocadilhos e chistes

Vem

Faz verso, faz prosa

Faz música, faz rio, faz ponte, faz trem

Vem

Me faz VIVER

Vem, por favor, vem.

Vem, meu ano novo

Vem, meu novo horizonte

Vem, meu belo horizonte.

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Canal: Mou Marques

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DEDICATÓRIA: QUE O SORRISO DE PIETRA, a joaninha, BRILHE COMO UM FAROL EM NOSSOS DIAS EM 2017

Poesia: Odonir Oliveira