Encontros adiados

ENCONTROS

Ama-se o amor
Ama-se a busca do outro em si mesmo
Ama-se um acordo de pensamento que batiza encontros
Ama-se um gesto, um riso, um toque, um olhar
Ama-se um jeito, um comportamento, uma capacidade
Ama-se um cheiro, uma seiva, uma pele.

IDENTIDADES GARIMPADAS

Em meados dos anos 80, Ísis conheceu Antonio Carlos em uma reunião da categoria. A retomada do cinema tardava, e ele deleitava-se com seus curtas, meio documentários, docudramas, mas sem muitos recursos para voar. Inscrevia um ou outro em Festivais de Curtas, os exibia em Cinematecas, tudo muito cult. Era quase um hobby aquilo tudo. Nesse ponto conheceu Ísis. Os amigos lhe diziam que ela era a Eva do Adão. A mãe o batizara Adão. O pai Antonio Carlos autorizou o Toninho, como tratamento afetivo e familiar para Adão. Ficaram amigos.

Com a retomada do cinema nacional, Toninho seguiu em frente, criou uma produtora de vídeos, uniu-se a ONGs e continuou seu trabalho em defesa de matas, rios, lagos, indígenas … buscando conscientizar corações e mentes com suas produções. Ísis foi trabalhar com ele e sua pequenina equipe. Cabia a ela roteiros, incursões poéticas, elaboração dos planos de gravação. A admiração por ele era grande. Sempre se mostrando um homem simples, defensor da vida simples, da cultura nacional. Admirado por isso. Seguiram, e com a ECO92, por seus filmes, a produtora tornou-se bastante conhecida.

Logo foi convidado para produzir filmes publicitários. Depois, aderiu totalmente ao mercado publicitário. A sedução, sempre ela, fez com que Toninho, aquele Toninho, delegasse a produtora a outras mãos e olhos, e ele permanecesse apenas na publicidade. Ísis desligou-se da produtora. Ísis desligou-se dele.

Olhando pelo retrovisor, relia alguns dos bilhetinhos que ele lhe deixara no mural da sala de reuniões, no começo de outros tempos.

Uma poetisa

Sou um fã da super-craque no trato com as palavras.

Seus poemas sobre as águas – lagos, rios e cachoeiras […] dão um brilho extraordinário às cenas comuns do cotidiano.

Não sei expressar a emoção ao ser confrontado com a informação, que as minhas imagens em movimento podem provocar a imensa veia poética original, guardada para amadurecer e aflorar em sintonia com as batidas do coração da poderosa poetisa parceira” .

Sem mais saber o que dizer, com muito samba no pé, mando beijos pra ela.

[…]

Estou indo agora filmar umas orquídeas, só pro’cê. Contei do seu poema pro meu entrevistado, li pra ele, ele disse É, mesmo?

Apocalipse

A humana maldição,
que recusa permitir
ser a chama do inferno
o único apelo
que nos faz suar,
toma conta de mim.

Refundarei o intercurso
com a minha língua,
e lamberei as cinzas
do mundo nos seus pelos,
quando o apocalipse vier
em nós.

[…]

Sangue
Saúl Dias

Versos escrevem-se depois de ter sofrido.
O coração dita-os apressadamente.
E a mão tremente quer fixar no papel os sons dispersos…
É só com sangue que se escrevem versos.

Nos anos seguintes Toninho vencera o Prêmio Caboré de Publicidade. Ganhara muito dinheiro. Viajara muitas vezes aos E. Unidos. No Brasil, frequentava as praias mais badaladas da turma cult, de atores, atrizes, cantoras e passara a viver em outro mundo. Em outros mundos. Ísis perdera aquela admiração que tivera por ele. O homem simples, que gostava de gente simples, de viver de maneira simples, teria se revelado um blefe de ocasião, agora desmascarado pela sedução. Tudo que negara antes, agora era pactuado de forma doce e aceitável.

Nas idas e vindas aos E. Unidos fora indicado a prêmios. Depois o ápice, o maior deles em Cannes. Vencedor. Era um vencedor. Leonino, vencedor.

Das vezes em que a turma toda nos anos 90 se reunia no Bar do Alemão, para fomentar a discussão de uma sociedade mais justa e solidária, restaram as cadeiras, as mesas e os chorinhos, a MPB, as fotos nas paredes. Toninho ainda frequentaria aquele bar?

Ísis, estando na cidade, chegou cedo. Era sentar e esperar. Ouviu chorinhos. Relembrou tudo aquilo, riu, chorou. Alguém a viu por lá, mandou mensagem pra ele. Ela aguardou mais um pouco. As mesas iam se ocupando aos poucos. Numa segunda-feira …

Depois das 10, chegou Toninho com um amigo, que vinha abraçado a uma namorada.

COMPANHIA FÉRTIL

sabia ler meu peito
sabia ler minhas mãos
sabia ler meus seios
sabia ler meus ombros
sabia ler minha música
sabia ler meu verso, minha rima
sabia ler meus olhos
sabia ler minha língua
sabia ler meu querer
sabia ler meus cotovelos
sabia ler minhas pernas grossas
sabia ler minhas vértebras todas
sabia ler meus sucos internos inteiros
sabia ler minha poção única e particular
sabia ler meus doces e acres
sabia me ler
como nenhum outro me leu

CHEIROS

a boca aberta
fala fala fala
nervosismo
ocasião

a boca aberta
cala cala cala
observa reflete
percepção

a boca aberta
a boca aberta
a boca aberta
contemplação

álcool amor álcool amor
álcool desejo álcool desejo
alucinação
suor álcool amor
declaração
perdição
salvação.

PONTO FINAL

Pensou em ir
como seria ir
o que lhe esperaria no ir
pensou em ir

o ponto final nas humilhações
o ponto final nas comparações
o ponto final no deboche daqueles familiares
o ponto final no sarcasmo das postagens de Facebook
o ponto final naqueles cabotinismos femininos
o ponto final naqueles disfarces masculinos
o ponto final em tantas horas de desespero
o ponto final em tantas entregas e devoluções

pensou em ir
como seria ir
o que lhe esperaria no ir
pensou em ir

a vez era aquela
a voz não era mais a mesma
o canto não era mais o mesmo
a ironia, garça magra e esguia, se intensificava a cada hora
empurrando, atingindo, dando-lhe rasteiras
a cada hora idêntica à da imagem exposta
a cada hora idêntica a lagos, montes, rios, mar

pensou em ir
posicionou-se no precipício urbano
contemplou o fim
o ponto final.

Os famosos saraus do Luís Nassif, em SP
Na foto, Barão do Pandeiro e outros bambas do choro (nessa noite, Barão me contou desde quando tocou o 1º pandeiro no Rio e como acabou indo viver em SP. (Eduardo Gudin foi dono do BAR DO ALEMÃO, no Sumaré, por anos e anos, reduto de jornalistas, artistas e boêmios, em SP)

Pertinência: Os cancionistas muitas vezes superam os poetas sem acordes
musicais.

Gosto de poesia cantada, fico aqui ouvindo-os cantar pra mim, como numa serenata que se pode fazer de manhã, à tarde e à noite.

Em cada período de minha vida – e creio que da de todos – houve sempre uma trilha sonora que insistia em tocar, tocar, tocar.

Quando a gente ouve anos depois aquelas canções, fica assim sensibilizada, mas muito mais pela lembrança da época e do que se sentiu naquele momento do que propriamente pela saudade ou pela vontade de que aquilo volte a acontecer.

Tudo que vem na estrada pode ser ainda muito melhor, basta que haja estrada.

No domingo, assistindo à live do Eduardo Gudin, lembrei que tinha essas fotos.

Os outros eu conheci por ocioso acaso. A ti vim encontrar porque era preciso” – Guimarães Rosa

Poesias e texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal: SP, 2019

Vídeos

1- Canal Remo Luz

2-3 Canal Eduardo Gudin – Tema

4- Canal Carlos Bozzo Junior

5- Canal: A BATUCADA DOS NOSSOS TANTÃS

6- Canal TV GGN

O rio que entorna poesia: Pajeú

”O que corre no rio, na verdade, é a esperança de um povo, a resistência de um povo, que sabe conviver com as dificuldades e ainda faz poesia com essas dificuldades”

RIO DE POESIA

encharca, rio
derrama, rio
viceja sua poesia
sobre as almas resistentes
sobre os corpos resistentes
inunda com suas águas
a lira da glosa
a lira do verso
ensina e aprende
cordel e desafio por tuas margens
dá mote ao mundo
faz todos
beberem poesia
em tuas águas
Salve, salve, Pajeú
pernambucano em brasilidade
rio ritmo rima rica
água dos sertões

O documentário ” O rio feiticeiro” traz depoimentos de escritores, poetas, cantadores e outros artistas que vivem nas cidades formadas às margens do Rio Pajeú

Encharque-se de motes e glosas. Uma aula mágica para quem quer ser POETA e beber poesia. Assista.

Encante-se.

O documentário, que teve como propósito realizar o trajeto físico do Pajeú, indo da nascente, em Brejinho, ao encontro com São Francisco, em Floresta, contou com 30 personagens do ramo cultural, percorrendo 14 cidades pernambucanas. Um dos personagens e também fio condutor da narrativa, o poeta Antônio Marinho, apresenta aos espectadores, de forma intimista, a história do que corta o Sertão de Pernambuco: “A poesia do Pajeú sempre é bem recepcionada em qualquer linguagem colocada ao público. O Pajeú está vivendo um momento mágico das expressões culturais. Sem dúvidas, o documentário é mais um olhar para poesia do Pajeú”.


https://www.folhape.com.br/diversao/diversao/estreia/2019/08/22/NWS,114232,71,938,DIVERSAO,2330-DOCUMENTARIO-PERNAMBUCANO-SOBRE-RIO-PAJEU-ESTREIA-CANAL-CURTA.aspx

Poesia: Odonir Oliveira

Foto: divulgação

Vídeo: Canal Louro do Pajeú

”O alpendre”, Regina Pereira

O alpendre
Regina Pereira

Bati palmas no portão. Era um tempo sem campainhas. Mas, célere, o tempo das campainhas se foi também. (É tempo dos implacáveis interfones.) Pensando bem, não bati essas palmas. Os portões estavam sempre abertos pros alpendres. Neles havia um banco, uma cadeira de balanço, uma saudação, um sorriso calmo, um cipó de lágrimas-de-cristo escalando uma coluna. No alpendre da memória ela está sempre lá, Buda caipira. Roliça no vestido roxo de florezinhas, eternamente Semana Santa, o cigarro de palha meio pitado atrás da orelha, um coque de ralos cabelos brancos, os olhos verdes, esmeraldas fechadas, ouvindo profundamente uma musga que elegia uma casinha lá no pé da serra (seu Éden) com manacás, lilases como seu traje. Sua fala mansa e afetuosa, seu tempo, onde todos eram cumadre e cumpadre. Ela dominava o segredo das rezas, pra cobreiro, pra impingem, pra mau-olhado, pra espinhela caída. Campeava, no seu jardim, que cheirava arruda e fedegoso, a erva que curaria todos os nossos males. Não sei por que eu acreditava piamente que, enquanto ela vivesse, haveria claridade no meu mundo, a claridade dos dias azuis de maio, no máximo com céu de carneirinhos. Bem que eu queria, mas ela não era minha avó. Era só a vizinha a quem amei na infância, a quem minha mãe (sem muito pra dar) franciscanamente doava meio litro de leite de nossa vaca Guaraína, que ela buscava pacientemente, todo dia, na leiteira amassada, sem cabo. Elvira Ximenes do Prado não se despediu de mim, e como seus contemporâneos agonizou uns dias no balão de oxigênio da Santa Casa de Misericórdia de Guaxupé e virou eternamente a vó postiça sentada pra sempre pra sempre pra sempre pra sempre no meu alpendre do ar. De vez em quando ainda arrisco a bater palmas no portão, quem sabe ela só tenha entrado um pouquinho, pra não apanhar um golpe de ar, quem sabe?

Minha amiga Heloísa Ramos, há mais de 30 anos, me trouxe a página de Regina Pereira no Facebook e, faz alguns dias, me presenteou com esse texto dela. Fui à fonte, imediatamente, que gosto de ler e aprender. Regina escreve muito bem, com emoção. Suas escritas fazem companhia a gente, sabe como é?

VERSOS ÍNTIMOS

Nem tudo que escrevo entrego.
Há versos que guardo.
Há versos que são presentes únicos a cofres únicos.
Há versos que me aturdem sem trégua.
Há versos que andam comigo por passeios matinais.
Há versos intrusos que engasgam meu sentir como pedras nas picadas estreitas.
Há versos que colidem com meu ir e vir de chicote e rédeas.
Há versos que não serão escritos.
Há versos que não serão lidos.
Há versos impublicáveis.
De minha intimidade gozam poucos.
Bem poucos.
Talvez apenas os versos.

PLUMAS AOS VENTOS

Costumo recomendar a quem gosta do exercício da escrita que leia. E revise o que escrever. Hoje o editor de texto ajuda bastante. É fato que quem se serve de um celular, muitas vezes erra citações de nomes próprios de compositores, de canções, de obras literárias, de títulos de poemas … assim, rever o que se escreveu é saudável.

Leio vários blogueiros, principalmente os que espalham seus versos pelos caminhos, pelas nuvens – alguns bem jovens, iniciantes – não se preocupem com rimas, às vezes forçam a forma e depreciam o conteúdo. Escrevam, as imagens do inconsciente, elas pululam da gente de uma maneira que nem nós as percebemos. Rimas dão ritmo aos poemas, conferem certa musicalidade aos versos, e quem as aprecia deve usá-las. Mas há as rimas internas também, no meio dos versos e não apenas no final deles. As imagens metafóricas, as comparações são material para os poemas. Mas não a matéria. Matéria é vivência, é alegria, dor, conflito, amargura, revolta … tanta coisa. Caso contrário tudo resultará falso, artificial.

Nos blogueiros mais novos, algumas vezes leio as angústias de desejarem parar de escrever por não poderem se manter através daquilo que escrevem. Tenho o hábito de perguntar se querem vender o que escrevem ou serem lidos. Porque é preciso exercício. Uma coisa pode ser consequência natural da outra. Ou não. Somos lidos, bastante elogiados por amigos, familiares em geral, por pessoas que não se baseiam em critérios estéticos, que não se preocupam com a forma – até por nem estarem preparados para isso. Comentam o conteúdo apenas, a mensagem dos poemas. E, por não conseguirem, talvez, escrever algo como aquilo que leram, admiram-se, aplaudem etc. É válido. Não ocorre isso com editoras, não se tenha como meta vender versos em livros, publicar, ver seus livros distribuídos por livrarias, bancas de jornais ou até pela Internet. A não ser que o poeta custeie sua obra, por certa vaidade de título e capa, noite de autógrafos etc. Poesia é prazer. De se escrever e de se ler.

Os poetas brasileiros – e escritores em geral – nunca sobreviveram pela venda de seus livros. Muitos até hoje, já muito premiados, publicados no exterior, vivem da venda de direitos autorais para filmes, séries etc. e de palestras que proferem mundo afora. A porcentagem que cada livro vendido lhes rende é mínima. Há editoras, inclusive, que contratualmente remuneram autores durante um tempo pré-estabelecido, enquanto escrevem, e depois ficam com todos os valores sobre as vendas dos exemplares.

Mesmo autores muito reconhecidos, adquiridos em grandes tiragens por bibliotecas, prefeituras, estados são submetidos a uma editoria, que acontece em diversas fases: desde uma primeira leitura critica, feita por um especialista em literatura e colaborador, até chegar ao editor-chefe daquele segmento na editora. Todos. Todos mesmo.

Sugiro sempre que leiam. Gosta de crônicas, leia crônicas. E poemas. Gosta de contos, leia contos. E poemas. Cordel para os que queiram a naturalidade, a inventividade. Gosta de romances, leia pequenos romances, adquira fôlego de leitura, vocabulário, ritmo, bagagem e continue escrevendo. E poemas. Não adianta apenas ler Leminski e querer escrever como ele. Leia vários. Não escreva de forma muito hermética, em cofres, que só você ou quem inspirou aquilo vá absorver, possa abrir. Amplie imagens, abra os cofres para que outros se vejam ali também, tragam suas chaves de absorção. Não use seus versos para mandar recados pontuais, para fazer pregão. Use e abuse de muitas chaves. Deixe que muitos, ao lerem seus versos, viajem neles. Não gourmetize seus poemas, portanto.

Inovar, libertar-se de cânones poéticos só acontece quando a gente já se libertou na vida. Os inventivos cordelistas cresceram absorvendo literatura oral, musicalidade e possuem repertório individual e coletivo também.

E aí, você escreve para quê? Por quê?

Eu, por exemplo, escrevo para me expressar. Assopro o que escrevo ao vento, na nuvem, aqui, ali, acolá. Ser lida é consequência.

Abraços parceiros e, sobretudo, cúmplices.

Leia meu post ”Somos trovadores … urbanos” https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2017/06/23/somos-trovadores-urbanos/

Poesia e texto: Odonir Oliveira

Facebook da Regina Pereira: https://www.facebook.com/regina.veredas.5680

Vídeo: Canal Instrumental Sesc Brasil

Tejo meu

Rio das Mortes, Tiradentes, MG

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia,

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que veem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

Rio Tejo, em Toledo, Espanha (foto da amiga Isa)

NASCENTE

Porque nasci de um braço de rio e de uma pedra bruta
porque corri por margens doces e às vezes estéreis
porque saltei obstáculos e curvas
porque sou céu azul quando o céu é azul
porque sou barro quando o céu anda nublado
porque tenho voz e acolho olhares uns
porque sou força quando recebo torrentes outras
porque brinco de carregar flores
porque brinco de atrair borboletas
porque gosto de estar em mim
porque gosto de estar em ti
foi simplesmente
porque nasci de um braço de rio e de uma pedra bruta.

CORRENTEZAS

jorra água
jorra flor
jorra aroma
jorra folha
jorra flor
jorra cor
jorra dor
jorra verso
jorra amor
corre o rio
corre a flor
corre o tempo
corre o vento
corre o verso
corre o amor
curso de rio
decurso do tempo
percurso do verso
correnteza do amor

NA CORRENTEZA DE UM RIO

O rio segue
olho de longe
observo seu movimento
escuto sua melodia
estou sempre por perto
ainda que longe
meus ouvidos gravaram sua música
meus olhos fotografaram suas cores
meu corpo está aqui
o rio é regaço
o rio é colo
o rio é metáfora
não correrei para o rio
não seguirei o rio diuturnamente
o rio venha até mim assim
gosto do rio, tenho brio
o mundo é maior que um rio
o mundo não está aos pés da rima do rio
o mundo é maior que uma rima
e se eu me chamasse Raimundo
seria apenas uma rima
não uma solução.
Sou mais que uma rima.
Não me chamo Raimundo.

A SAGA DOS BARCOS

Não apague as marcas, deixe-as pelas águas, com os remos
abandone-as a esmo
entregue-as ao porvir
dos rios serão as almas dos que chegarem de outras vezes.

Os silêncios e os murmúrios
o que importarão,
se o que sempre valerá serão os sonhos das águas
e seu próprio silêncio.

Que restem as pegadas
as súplicas
os seixos
as ramas
que restem !

EU-RIO

eu-rio camuflado de gente
eu-rio disfarçado de planta
eu-rio escondido no mar
eu-rio, camaleão burguês naturalista
eu-rio de olhos de peixe-morto
eu-rio, jacaré fantasiado de gente
eu-rio, piranha nadando de braçada
eu-rio da margem esquerda mascarada
eu-rio da margem direita enrustida
eu-rio de redemoinhos oportunistas
eu-rio de abismos enfeitados por armadilhas
eu-rio
eu-rio
eu-rio

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal: rios e lagoas de MG

Vídeo: Canal Renato Teixeira

Estradas, ramais, caminhos …

AGRADECIMENTO

Aprendi a agradecer ao sol por ter-se aberto em dia.
Aprendi a agradecer à lua por coroar a noite.
Aprendi a agradecer aos campos por me trazerem esse cheiro de mato.
Aprendi a agradecer aos poetas por me perfumarem de versos.

PEDINDO ESTRADA

Paro, que gosto de respirar mato.
Paro, que gosto de beber ar de rio.
Paro, que nada pode ser mais sensual que nuvens de algodão doce no céu.
Paro, que gosto de ouvir o som do nada cortado pelo bucolismo de mim.
Paro, porque meu sonho, meu lirismo, minha rima pedem estrada.

NA GARUPA

cavalo encilhado
braços em torno da cintura
trote
galope ágil
picadas vielas veredas
água barro poeira vermelha
limo cachoeiras grutas
trote
galope ágil
cavalo trôpego
garupa
parceria
trote
galope ágil
tropeiros de si
fotografia do céu
fotografia do chão
fotografia do ser
fotografia dos seres

PAISAGEM

Bebe terra vermelha
Sorve vento quente pela janela
Namora o lago o rio as bananeiras as árvores
Namora o eterno rumo percorrido.
Chora o encontro de trem ar água vento e trilhos.

TRILHOS

Andar nos trilhos
Trilhar caminhos
Dormentes acordando sentidos
encruzilhadas eternas
apitos que cortam uma noite que não termina
vozes segredadas entre dentes
vozes felizes por conquistas perseguidas ferrenhamente
idas vindas voltas encontros desencontros separações
bancos nas estações, repletos de ouvidos secretos e bocas atormentadas
Trens fazem anúncios sempre.

OUSADIAS

Com os dias passando, assim correndo,
há que se correr também,
há urgência em tudo.

Corro pra visitar aquelas cachoeiras nunca tocadas
corro para beber água gelada de serras amanhecidas
corro para falar “eu te amos” aos que nunca o ouviram de mim
corro para cozinhar delícias e, em comunhão, ofertar aos queridos aliados
corro para beber sabores que nunca experimentei por impossibilidades várias
corro para escrever letras, sílabas e linhas anoitecidas,
enquanto ainda consigo
andar
ver
falar
ler
respirar
me encantar.

TRILHAS

Obstáculo à frente.
Transpor.
Pedregulho.
– Vem, vem, me segue , me dá a mão. Vem.
– Estou com medo. Não.
– Não, vem; me segue aqui, cuidado.
trilha, chão, folha, pedra
Cansaço.
– Não vou conseguir.
– Vai sim, só mais um pouco. Eu ajudo, vem.
trilha, chão, folha, pedra
Viagem de dentro pra fora.
Dorso de almas
Canto de terra, água e pedra.
Promessa do prazer ao final.
Vem, mais um pouco, me segue.
– Sigo, me dá a mão.
Viagem de fora pra dentro
Conquistas, dificuldades, tropeços.
Encantamento.
Maravilhamento estético.
Natureza, artista de pinceis finos
Natureza, artista de melodias doces
Natureza, artista de lírica celestial.
Contemplação.
Entrega.
Silêncios internos.
Orquestra sob a batuta
De um regente maior.
Contemplação.

Post dedicado ao jovem piloto Jucélio, que me ajudou a concretizar, durante mais de 400 dias, muitos sonhos, desde dirigir pra mim nas estradas da vida, bem como pousar meus versos em nuvem. Obrigada por sua jovialidade, energia, parceria e por seu respeito. Você vai longe. De avião nos céus e aqui na terra também.

E como a gente está sempre cercado por famílias de anjos, Julierme também vem me conduzindo com maturidade mineiríssima pelas estradas da vida.

Agradeço aos 2 irmãos, meus amigos, já meio filhos, pelo prazer de contar com vocês.

Todas as alegrias em suas vidas e na união com suas jovens amadas !

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal: Viagens por caminhos tantos de MG

Vídeos

1- Canal Vermelho

2- Canal sergioeye 1

Setembro

LÍRICA

conhece montes
visita ninhos de passarinhos
bebe água de rios com mãos em concha
suspira ao nascer do sol
entontece no vinho do anoitecer
saboreia pingos de chuva no rosto erguido aos céus
entrega corpo e alma às luas cheias
caminha sobre pedras de riachos muitos
vasculha matas fechadas com olhares fascinados
é sol
é estrela
é lua
é rua
é acorde
é vírgula
é reticências
é ritmo
é rima
é dor, flor, cor
amor
também

Virgem (23/08 a 22/09)

Sol, Lua, Vênus, Mercúrio e Marte em seu signo trazem brilho e destaque. Sinal de desejos amorosos, encanto pessoal e vontades poderosas. Trate-se com carinho !

Por Barbara Abramo – Universa/ Uol (31/08/2019)

MAIS UMA VEZ

Um setembro depois do outro
gargalhadas, risos, sorrisos …
“Acorda, que se foram mais de seis décadas …”
responsabilidade inegável na bagagem
escolhas definitivas na bagagem
ações definitivas na bagagem
Não cabem nela mais arroubos, nem fortuitas ilusões
O tempo urge
A vida urge
A sensibilidade à flor da pele.
Setembros, de décadas em décadas, sempre ofereceram jardins de mudanças.
Florir !

ENSINAMENTOS

“Coloca-te no teu lugar, mulher !
Olha ao redor, o tempo é de imagens, de viço, de gargalhadas.
Coloca-te no teu lugar, mulher !
Aqui só pernas… fininhas
Aqui só seios … durinhos
Aqui só pele clarinha… bronzeada… lustrosa
Coloca-te no teu lugar, mulher !
Aqui só vitrine, só perfume, só novidades …
Coloca-te no teu lugar, mulher !
Briga por teu homem, por teus homens, enfrenta, guerreia !
Enfeita-te, perfuma-te, enfeitiça …
Coloca-te no teu lugar, mulher! “
Setembros,
muitos,
trazem ensinamentos.
Não, não vou por ali.
Minha vereda é de raízes.

PRESENTE

Quem me sabe percorre meus gostos e sabores do meu jeito
Quem me sabe me enfeita de gestos singelos, significativos, majestosos
Quem me sabe me recheia de mimos a alma, com fragrâncias insubstituíveis
Quem me sabe me presenteia
diariamente
episodicamente
emergencialmente.
Quem me sabe me leva ao céu com um sinal
Quem me sabe entende meus ritos, meus riscos, meus gritos.
Quem me sabe está.

ÚLTIMAS ESTAÇÕES

Nada importam cascas e capas
Nada importam tecidos e chapéus
Nada importam apupos e rapapés
Essencial é a alegria
Essencial é a simplicidade
Essencial é a cumplicidade.
Essencial é a bondade.
Os bolsos seguirão sem moedas
As mãos seguirão sem anéis
Os ombros seguirão sem afagos
As pernas seguirão sem apoios.
As últimas estações
não podem ser vias-sacras.
As últimas estações devem ser leves, francas e ternas.

Se a vida é um sopro,
há que se encontrar
quem a assopre com ternura.

Poesias: Odonir Oliveira

Imagens da Internet

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1- Canal AuntieSoul34

2- Canal JoãoBoscoVEVO

3- Canal Luiz lucio Merg

Cabana

O que a gente tem que aprender é, a cada instante, afinar-se como uma linhazinha para saber passar no furo de agulha que cada momento exige.”

João Guimarães Rosa

Bordadeiras da Chapada dos Guimarães / NEOM

NA CABANA À BEIRA DO RIO

Diz que se embrenhou na mata toda pra buscar lenha e acender sua fogueira
Diz que era de pouco em pouco que se via uma morada, uma vivenda-cabana, sem luz, sem Internet, sem quase tudo.
Diz que um gerador único dava conta de ligar aquelas poucas moradas. E por poucas horas.
Diz que aceitou todas as condições. Queria era acender sua fogueira
Fazendo isso, todo o resto era o bastante.
Estando ali era vontade de viver desde o nascer do sol. Caminhava pela mata, as botas empurrando-a às veredas. Cada dia ia mais um pouco. De certo chegaria aonde queria. Decerto chegaria. Trazia na volta, na cesta de vime, umas flores do campo, umas pedrinhas, umas sementinhas.
Levava a manhã inteira, separando, escolhendo, limpando, cheirando, acariciando cada pétala, cada talo, cada aspereza de pedra, cada cor de perfume. Gastava tempo, sem relógio, naquele gozo-prazer de beber natureza aos goles, devagar, aos poucos, engolindo, sem mastigar, lambendo, sem enxergar, vendo sem ver e amando mesmo aquilo tudo ali.
Depois comia o da lenha no fogão, descascava umas frutas, tomava água geladinha da moringa e descansava a sesta embaixo da sombra da mangueira. 
Vinham ali bem-te-vis, melros, sabiazinhas, passarin de tudo que é tipo, de tipo que ela nem conhecia, nem sabia os nomes, mas sabia das vozes, das cantigas, das cores. Eram demais companheiros, sem nada pedir. Ao contrário, vinham ali se oferecer em penugem e acalanto pra ela esvaziar dores e amarguras. E só ser.
Queria era acender sua fogueira. Para isso era necessário o sonho, em matizes de cores várias, perfumes particulares e ar puro. Além disso queria água de rio, vento de monte e terra vermelha.
Queria era acender sua fogueira.
De tardezinha, quando não chovia chuva fina, que lá chovia em fins de tarde, ficava namorando as estrelas, cada uma chegando na sua vez e depois a lua, que mesmo quando não vinha vinha. E era um prazer sucessivo, repetido, repetido. Um gozo de carne e osso. Um gozo de pele, cheirar a noite que caía.
Queria era acender sua fogueira.
Às vezes dentro, às vezes fora. Namorar o crispar do fogo como brinquedo de criança. Assar batata doce, mandioca, cana e chupar ainda quente aquela gostosura.
Depois deitar na cama de colcha de retalhos, fechar as cortinas de xadrez- ou abrir, dependendo da lua – e sonhar.
Queria era acender sua fogueira.

EM CASCATA

Que água é essa
que escorre,
atropela,
carrega,
dissolve
dilui
molha e
suaviza?

Que água é essa
que ensurdece a razão
lubrifica o espírito
entontece o corpo e
asperge a devoção?

Que água é essa
que sonoriza histórias
colore cenas
entorpece sentidos e
emoldura beirais?

Que água é essa
que devassa as palavras
desmata as distâncias
deflora as margens e
irrompe em murmúrios?

Que água é essa?
exibida
exuberante
medonha 
terrível 
quedando
pelos caminhos?

Que água é essa?!

BARCOS E FLORES DO CAMPO

De nuances originais
barcos repletos de flores 
anseiam por movimento
de águas
de ventos
de perfumes
de enleios

barcos vozes sonhos
noites certezas 
noites seguranças
madrugadas poéticas
sopros de ar dos céus
mãos segurando rostos
ora em nascente ora em foz

terras distantes abraçam os barcos
recolhem-nos
acariciam-lhes 
sob a luz das estrelas
e descobrem, 
por nuvens errantes qual velas berrantes,
que nos barcos desconstruídos
ainda pulsa o ritmo da corrente do rio
ainda pulsa o som das águas nas pedras 
ainda pulsa o perfume das flores do campo.

PAZ

Mundo, mundo, mundo
você é muito maior que meu leito
minha mesa
minha casa
meu homem .

Não posso esquecer
a rua,
a cidade,
o país.

Meu mundo é muito maior do que uma rima.

Trilhas, veredas, rotas, caminhos estão sempre escorrendo à nossa frente. Ir por aqui, por ali, por acolá é desafio a se enfrentar, é risco a se correr, é mote a se desenvolver. A vida é cheia de trilhas e labirintos. Segui-las, descobri-las, desnudá-las é tarefa para sempre. Contemplá-las, porém, é tarefa de quase nunca.

Poesias e texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal: recantos de Minas Gerais

Vídeos:

1- Canal Cassio Todelo

2- Canal PedroProgresso

”Porque poeta não cala”

POETAS

Poetas são entes que assumem riscos
que se esfolam nas alegrias,
como um simples botão de romã,
que acham bonito um sorriso do cão vadio que os segue.
Vadias ideias rendem versos toscos,
sem polimento,
apenas versos.

A uns serão potes repletos de significados
ocultos
transfeitos
transversos
A outros serão mensagens concretas de tapas e socos
porque a crueza dos dias assim os fez.

Nada pode incomodar tanto quanto versos.
E aliviar também.
Principalmente a quem os escreve
a quem os regurgita,
a quem os devolve como lírica,
sem nada pedir.
Plumas a quem os ler.
E, eventualmente, a quem os possuir como seus.

Brilhante espetáculo no Itaú Cultural, maio de 2019

Assisti ao primeiro espetáculo de Antonio Nóbrega em 1996, no Brincante, hoje sua casa e escola de música e dança, em São Paulo. Era o Na Pancada do Ganza, recolho de nossa tradição musical, de Mário de Andrade, de frevos e muito mais. Dança, dança, dança, canto, canto, canto. Fui com meus alunos do Colégio Galileu Galilei e com professores amigos, após termos desenvolvido o Projeto sobre a Semana de Arte Moderna. Demos a Nóbrega, num álbum, o registro de fotos e poemas escritos por nossos meninos. Ficou encantado.

Disse ao Antonio Nóbrega, ao fim do último espetáculo Rima, que ele ali estava GREGÓRIO DE MATOS em corpo e versos.

(Acesse o Facebook de Antonio Nóbrega para assistir aos vídeos do espetáculo. Uma ode à RIMA. Maravilhoso. Nessa apresentação, em vez da dança, enaltece o ritmo dos poemas, das canções – privilegiando a palavra, portanto)

Aqui alguns deles.

Sobre o trabalho com os alunos, leia no link à direita: Trabalhos realizados com alunos

Outra Semana de Arte Moderna, 1996

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2018/06/13/outra-semana-de-arte-moderna-1996/

E salve CHICO BUARQUE DE HOLLANDA, o meu Camões.

Sobre Chico Buarque leia :

Chico Buarque, muito obrigada

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2018/06/19/chico-buarque-muito-obrigada/?fbclid=IwAR2w-F7uhwb4IOA7Fz8RTyT1AiZuyaooT6kPQ5TmMvBZb8MIBF50sg4RoNA

Chico, 73 anos:

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2017/06/19/chico-73-anos/?fbclid=IwAR0XKr0XYYYRr8GQH3IyO3NzR2xPnNHDMVNZCjxtbFTrcniGaNJJWzo-oCU

Chico Buarque, as mulheres de si:

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2016/03/20/chico-buarque-as-mulheres-de-si/?fbclid=IwAR36-0rBZoWL0hwlOc1yZzH4LxhUyEH0B8Qn2w-reffevyy4VJCYecKWI44

Poesia: Odonir Oliveira

Vídeos: Facebook de Antonio Nóbrega

Sensibilidade à flor da pele: Eliana

“Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas – é de poesia que estão falando.”

“A voz de um passarinho me recita” – Manoel de Barros

BENDITAS ALMAS

Benditas as conversas de passarinhos
Benditos os que ouvem os passarinhos
Benditos os que permanecem imóveis frente a passarinhos
Benditos aqueles que têm colorido nas mãos,
qual seus companheirinhos,
salpicando-lhes alimento
em horas combinadas do dia.
Benditos os que veem bicos, asas, penas e voos
como mais que bicos, asas, penas e voos.
Benditos os escolhidos pelos passarinhos
para serem seus semelhantes,
quase iguais.

SENSIBILIDADE, TEU NOME É ELIANA

Era começo de tarde. Fui ao supermercado muito rapidamente buscar uns 5 itens, pagar e voltar, que aguardava visita.

Já no último item – pães. Nos pães, me perco, que neta de padeiro tenho tesão no cheiro deles assando ou quando ele sai pelas chaminés das padarias … além do mais o sensorial olfativo se junta ao visual, e aí, meus amigos, acabou. Perco ali é bastante tempo. Prazer do bom.

Para bagunçar todo o planejamento, o imprevisto vem brincar de esconde-esconde comigo. Sabe que será irresistível. Surge ele, um abusado minúsculo pássaro, que de longe namora, literalmente, um pão de sal redondo que algum freguês deixou cair no chão. Vi a cena e o saltitar do abusado. Veio devagarzinho, de ladinho, a caminho do pão. Funcionários saíam de dentro da padaria do supermercado e iam abastecer prateleiras. Ele lá. Às vezes clandestinamente sob umas delas. Voltava. Não resisti, pedi à funcionária que arrumava os bolos não recolhesse o pão do chão. Pedi que esperasse.
– Se o gerente vir, vai mandar eu retirar o pão. Mas a vontade que eu tenho é pegar o pão e dar pra ele lá fora.
– Então tá, deixa eu filmar e fotografar. Como é seu nome?
– É Eliana.

Enquanto ela continuava a sua função, outros funcionários passaram por lá, olharam meu interesse, acharam graça.
Levei um papo mineirim com Eliana sobre sua sensibilidade, chamei sua atenção para quantas belezas dos caminhos a gente desperdiça sem dar a elas nenhuma importância. Ao que me respondeu que adorava paisagens e poesia. Disse-lhe que escrevia poesias, crônicas e que se quisesse ler, quando tivesse tempo, os endereços eram tais. Na mesma hora achou no bolso uma caneta e anotou num pedacinho de guardanapo os endereços. Queria ler.

Depois, enquanto foi lá pra dentro buscar mais mercadorias, dei uma empurradinha no pão, com o pé, pra debaixo de um balcão. Meu amiguinho, o Abusado, entendeu tudo e foi comer lá, refugiado, sem ser incomodado por mais ninguém.
Contei meu delito passarinheiro à Eliana. Ela riu.

Viva Eliana. Gente que gosta de passarinhos e de poesia salva o nosso dia. (Com rima e tudo).

Mãos que trabalham, mãos que sentem

” Por viver muitos anos dentro do mato
Moda ave
O menino pegou um olhar de pássaro –
Contraiu visão fontana.
Por forma que ele enxergava as coisas
Por igual
como os pássaros enxergam
.”

Manoel de Barros

Minhas mãos sentem, eu me emociono quando em estabelecimentos comerciais ninguém espancou um cão até a morte, nem estrangulou um rapaz até matá-lo também.

Sobre o mesmo tema, leia AQUI: ”Dona Augustinha, leve como passarinha”

Poesia e texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1- Canal Instrumental Sesc Brasil

2- Facebook Odonir Araujo

Correntezas

OUVE A ÁGUA

Ouve
Espera
Ouve
Ouve fora
Ouve dentro
Ouve o silêncio
Ouve o murmúrio
Ouve o soluço
Ouve a súplica
Ouve
Para e ouve
A água de dentro de você

CORRENTEZAS

jorra água
jorra flor
jorra aroma
jorra folha
jorra flor
jorra cor
jorra dor
jorra verso
jorra amor
corre o rio
corre a flor
corre o tempo
corre o vento
corre o verso
corre o amor
curso de rio
decurso do tempo
percurso do verso
correnteza do amor

CHOVENDO

Primeiro sons de gotas
Depois, cheiro de água na terra
Agora, na sacada
vendo a precipitação dos pingos
entorno meu rosto por eles
para que me lavem dores
para que me limpem do sangue
para que me purifiquem com o prazer
Nesse mesmo céu há pouco havia estrelas
Agora, entreguei a ele o meu coração.

UM PÉ DE VERSOS

Prefiro sacudir versos de árvores,
retirar rimas de camélias,
colher metáforas de galhos e raízes.

O olho estaciona sua menina no igual desigual
resgata a outra menina com sonhos incorporados
recupera ilusões e faz acreditar no improvável.

Árvores são canteiros de lirismo.

NA CORRENTEZA DE UM RIO

O rio segue
olho de longe
observo seu movimento
escuto sua melodia
estou sempre por perto
ainda que longe
meus ouvidos gravaram sua música
meus olhos fotografaram suas cores
meu corpo está aqui
o rio é regaço
o rio é colo
o rio é metáfora
não correrei para o rio
não seguirei o rio diuturnamente
o rio venha até mim assim
gosto do rio, tenho brio
o mundo é maior que um rio
o mundo não está aos pés da rima do rio
o mundo é maior que uma rima
e se eu me chamasse Raimundo 
seria apenas uma rima
não uma solução.

Sou mais que uma rima.
Não me chamo Raimundo.

RAÍZES DE HOMENS

Há certos homens que têm caules vigorosos.
São eles que semeiam a terra
afagam sementes
exalam perfumes de flores
recolhem os frutos doces.

Há certos homens que encostam as mãos na terra
a fortificam com seus dedos ásperos
a revolvem com palmas ardentes
a fertilizam com braços seguros.

Há certos homens que têm raízes em lugar de pés,
fincam-se inexoravelmente.

AQUELA FIGUEIRA

Na vereda
encontrei aquela figueira.
Fiquei ali.
Copa magnífica.
Dos verdes, todos.
De denso, o tronco.
De lastro, histórias
De expressão, singular.
Estáticas, ambas.
Incomum.
Raízes para sempre em mim.

ESPÍRITOS DA FLORESTA

Espíritos domesticam
olhares, sentires e ficares,
pelo cheiro, pelo vento,
pelo sons do mato do sertão.
Espíritos atraem por rochas, por águas, por céus.
Espíritos nas florestas
polinizam almas inquietas
Para sempre.

DEDICATÓRIA: A dois grandes brasileiros que fizeram o mundo inteiro saber mais sobre o Brasil, sobre sua natureza e lutaram para preservá-la como nossa: FRANCISCO ALVES MENDES FILHO (CHICO MENDES) e ANTONIO CARLOS BRASILEIRO DE ALMEIDA JOBIM (TOM JOBIM)

Foto retirada do Facebook

Para saber mais, veja no Youtube o documentário: História de Chico Mendes

Cartas, bilhetes e entrevistas mostram como Chico Mendes — criado longe dos bancos da escola — aprendeu a ler, a escrever e se tornou o maior líder seringueiro que o Brasil já conheceu. Além de testemunhar a luta dos seringueiros contra a pressão do latifúndio e a devastação da floresta.

Roteiro e Direção: Dulce Queiroz
Imagens: Marcos Feijó
Duração: 43 minutos

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:
1- Facebook Odonir Araujo

2- Canal Alexei Dunaway

3- Canal AlipioSapucaia

4 – Canal bibliotecadafloresta