Um mundo de máscaras

PERSONAS

Basta ! Estou exausta !
Não suporto mais
Gestos cabotinos, risos sarcásticos
Rugas geometricamente tramadas no tecido socialmente exposto
Nervo exposto
Fratura exposta
Carne esponjosa fétida adoecida maculada
Chega de dores adormecidas despertadas
Chega de cenas de teatro burlesco
Chega do festival de hipocrisias de desvarios patéticos
De seres sem estares
De potes vazios de palavras cheias.
Chega de chocolates parisienses comidos pela menina de Pessoa
Tire o papel de alumínio, menina
E come chocolates, com verdade, sem máscaras e fantasias.
Come, menina, mas come de uma vez, sem espetáculo.
Chega de vaudevilles!
“Luzes, som, refletores
Mais um espetáculo”
O mote roubado
O script roteiro roubado
O pano de boca roubado
As personagens roubadas
O cenário roubado
Qual Amadeus, num túnel, enfrentando suas próprias partituras,
que suas.
Chega de bal masque
Do teatro de costumes de Pirandello
“Cada um a seu modo”,
“Seis personagens em busca de uma autor”.
Basta de encenações medíocres
De retretas improváveis
De farsas de ocasião.
“O tempo é a minha matéria
O tempo presente
A vida presente.”

Chega de cópias, vaguezas de ocasião.
Chega de mentirosas construções frasais
a partir de modelos bem- sucedidos.
Come chocolates, menina.
Seja uma versão original de si mesma
Pelo menos uma vez …
Porque será tarde de novo.
Chega de mimeses
Do teatro e seu duplo, de Artaud.
Chega de um Moliére de formas amesquinhadas
De rir, e castigar almas cabotinas.
Chega de livros sem páginas
Sem histórias de sangue
Nem de espinhos no osso.
“Chega de tentar fingir dissimular o que não dá mais para …”
Gonzaguinha, chame a Elis
Corra e pegue o Vinícius, depois o Drummond
Na tabacaria, arraste um fractal do Pessoa,
Traga Hendrix, Joplin, Lennon
Venham todos aqui para o meu banco
Que, nessa minha mesa,
Escorre sangue
Dor
Verdades.

COURAÇAS

socapa à sorrelfa
capas de ludíbrio
escudos de palavras doces
esconderijos de alçapões lúgubres
disfarces de presenças ocas
logro de ausências cordatas
aparências incoerentes
fachadas de névoas vazias
dissimulação contumaz

CARRANCAS

arranca a carranca
abre a tranca
escancara o riso
mostra os dentes

espanta a carranca
mexe os olhos
sacode a cabeça
espanta os ódios

arranca a carranca
bebe luz
come flor
respira sabor

espanta a carranca
dissolve as mágoas
apaga as chagas
faz-se amor

DEFESAS

não pode mostrar a boca
não pode mostrar o nariz
não pode sorrir
não pode sorver aromas de vida

não pode rir com expressão
não pode falar com expressão
não pode mover-se com expressão
não pode ter expressão

castração anônima
esterilização alheia
assepsia funesta
higienização fúnebre

defesas internas
defesas externas
pasteurização de corpos
imunização de almas

ODE À MORTE

Ó, Pessoa, que me a apresentaste
com tantas máscaras e disfarces
Ó maldita seja a morte
que mesmo sabendo a brotar o último e inteiro fruto
adiantou-se covardemente
adiantou-se vilmente
adiantou-se traiçoeiramente
a decepá-lo da terra que germinava
naturalmente
aos poucos
nas estações necessárias,
o mais belo e último fruto de boa cepa.
Maldita morte, que dizimaste a vida derradeira
o sumo cultivado por eras
a beleza compartilhada em sabor
Ó, maldita morte,
eu te odeio com o maior de todos os ódios
eu te odeio por traíres um sulco, um sonho, um broto a desabrochar.
Ceifaste com sua foice libidinosa
o perfume do jardim
o colorido das mais belas tonalidades que ainda restavam por vingar.
Maldita sejas tu, ó morte, que se ri de teu triunfo.
Maldita sejas por teres decepado gotas últimas de sementes férteis.
Maldita sejas tu que te regozijas de teres alcançado o éter
com o que nem sequer sonhavas.

Nada poderá te fazer satisfeita
Ainda que pareças estar ou ser
Nada, ó morte, vinga ou viceja através de artimanhas e manhas
através de truques e vinganças
Saibas, ó morte, semeaste dor, feridas, pus e hemorragias
tudo impossível de ser tratado, cicatrizado.
Mataste, ó morte invejosa e insatisfeita, mataste uma vida
Tua máscara é torpe
Teu disfarce sem nome ou sobrenome te desvendará
não hoje ou amanhã
Tu te verás revelada mais à frente, no auge de teus dias
O tempo te mostrará feridas sangrentas, gangrenas em ti
Recordarás de quem feriste mortalmente
para regozijar-te em triunfo.
Venha, morte, venha que te aguardo fisicamente.
Venha, que o espírito está morto.
Inevitavelmente.

A vida na roça ainda é um dos últimos refúgios de pessoas sem máscaras,
sem cabotinismos e incongruências. O que é é e pronto. Eta vida boa, meu Deus !

CINEMA: Para quem tem interesse, procure assistir aos filmes de Fellini , e se aprofundar nas múltiplas camadas da obra do diretor e descobrir as máscaras de Fellini, os aspectos encobertos pela uniformidade do termo “felliniano”: A Estrada da Vida, Os Boas Vidas, Noites de Cabíria, Os Palhaços, Roma, Satyricon, A Doce Vida, Oito e meio, Amarcord, A Cidade das Mulheres, E La nave Va, entre outros.

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeos:

1- Canal mpb4

2- Canal Chico Abelha

”Porque poeta não cala”

POETAS

Poetas são entes que assumem riscos
que se esfolam nas alegrias,
como um simples botão de romã,
que acham bonito um sorriso do cão vadio que os segue.
Vadias ideias rendem versos toscos,
sem polimento,
apenas versos.

A uns serão potes repletos de significados
ocultos
transfeitos
transversos
A outros serão mensagens concretas de tapas e socos
porque a crueza dos dias assim os fez.

Nada pode incomodar tanto quanto versos.
E aliviar também.
Principalmente a quem os escreve
a quem os regurgita,
a quem os devolve como lírica,
sem nada pedir.
Plumas a quem os ler.
E, eventualmente, a quem os possuir como seus.

Brilhante espetáculo no Itaú Cultural, maio de 2019

Assisti ao primeiro espetáculo de Antonio Nóbrega em 1996, no Brincante, hoje sua casa e escola de música e dança, em São Paulo. Era o Na Pancada do Ganza, recolho de nossa tradição musical, de Mário de Andrade, de frevos e muito mais. Dança, dança, dança, canto, canto, canto. Fui com meus alunos do Colégio Galileu Galilei e com professores amigos, após termos desenvolvido o Projeto sobre a Semana de Arte Moderna. Demos a Nóbrega, num álbum, o registro de fotos e poemas escritos por nossos meninos. Ficou encantado.

Disse ao Antonio Nóbrega, ao fim do último espetáculo Rima, que ele ali estava GREGÓRIO DE MATOS em corpo e versos.

(Acesse o Facebook de Antonio Nóbrega para assistir aos vídeos do espetáculo. Uma ode à RIMA. Maravilhoso. Nessa apresentação, em vez da dança, enaltece o ritmo dos poemas, das canções – privilegiando a palavra, portanto)

Aqui alguns deles.

Sobre o trabalho com os alunos, leia no link à direita: Trabalhos realizados com alunos

Outra Semana de Arte Moderna, 1996

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2018/06/13/outra-semana-de-arte-moderna-1996/

E salve CHICO BUARQUE DE HOLLANDA, o meu Camões.

Sobre Chico Buarque leia :

Chico Buarque, muito obrigada

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2018/06/19/chico-buarque-muito-obrigada/?fbclid=IwAR2w-F7uhwb4IOA7Fz8RTyT1AiZuyaooT6kPQ5TmMvBZb8MIBF50sg4RoNA

Chico, 73 anos:

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2017/06/19/chico-73-anos/?fbclid=IwAR0XKr0XYYYRr8GQH3IyO3NzR2xPnNHDMVNZCjxtbFTrcniGaNJJWzo-oCU

Chico Buarque, as mulheres de si:

https://poesiasdemaosquesentem.wordpress.com/2016/03/20/chico-buarque-as-mulheres-de-si/?fbclid=IwAR36-0rBZoWL0hwlOc1yZzH4LxhUyEH0B8Qn2w-reffevyy4VJCYecKWI44

Poesia: Odonir Oliveira

Vídeos: Facebook de Antonio Nóbrega

Gente é poesia

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CHEIRO DE GENTE

braços pernas passos
passo e compasso
respiração suor
graça traço laço
emanação contemplação religião
união de olhares
união de falares cantares contares
união de igualdades
união de cores de peles de oportunidades
união de sensibilidades
democraticamente, ver sentir saber
usufruir conquistar usufruir
cheiro de gente
calor de gente
gosto de gente
gente que é gente

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“METE O COTOVELO E VAI ABRINDO O CAMINHO”

Nos últimos 2 anos fiz incursões pelos lugares mais maravilhosos, de cuja natureza me embebi o quanto pude. Foram cidades mineiras com pequeno número de habitantes e até maiores; foram cidades do interior do Rio de Janeiro que também me encantaram e  capitais também.

Há belezas em todos os lugares. Há lugares onde a beleza maior está na riqueza da diversidade de gente que há ali. Sampa é assim.

Gosto de ver gente se interessando por atividades culturais gratuitas, por atividades de lazer, por esporte, gratuitos. Gosto muito de ver crianças e adultos à noite, à beira do lago do Parque do Ibirapuera deslumbrando-se com o espetáculo da fonte luminosa com duração de quase meia-hora, sentados no chão, com seus filhos sentados em seus ombros, com idosos saindo à noite e usufruindo de espaço público do qual são os donos.

Há um frisson enorme em mim, quando me lambuzo de gente, quando sinto em mim a energia acumulada por toda a gente. Abasteço-me de vida, de contentamento. Há nisso uma distribuição de amor, de alegria- à qual todos devem ter direito. Gente faz bem.

” Mas como? Você não tem receio de estar assim, quase espremida, no meio dessa gente toda?”

Medo de quê? De que me roubem? O quê? Estou ali justamente para furtar deles aquilo tudo, para levar comigo o que eles me dão. Então…. como temer isso?

Para encontros assim, repletos de amorosidades, vai-se apenas com o essencial. E ao contrário, leva-se dali o muito mais essencial, a vida, a humanidade, a energia amorosa compartilhada com a alegria do outro.

E gente que gosta de gente se torna sempre nossos melhores amigos. Seja em que lugar for.

Há beleza em todos os lugares !

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Poesia e texto: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal: São Paulo, dezembro de 2017

1º  Vídeo: Canal Choro e Poesia

2º Vídeo: Canal Leonardo Thurler

3º Vídeo: Canal CaetanoVelosoVEVO