Primeiros passos

AQUARELÁVEIS

sim, na infância
gostava da onda
quebrando sobre mim
uma vez, duas vezes, cem vezes
– Saia daí, menina, as conchinhas virão até aqui


sim, na juventude
adorava estar ao sal ao sol
bronzear-me seduzir encantar
pele morena cabelos longos revoltos
– Cuidado, garota, sol assim faz mal, mar assim também


sim, na maturidade
bebi do sal, do sol, do mar
tanto quanto pude
tanto quanto quis
tudo nele gozei


sim, hoje
procuro o mar a amar
a beber meditação
a sonhar cores e tons
em dias e horas outras
em recantos e cantos tardios
aí sim, eu e ele estamos
só nós

MARES E MARÉS

Nunca tive intenções de mar.
Mulher de águas salgadas,
nasci e convivi com elas
por sempre.

Nos anos em que ainda me empinava
a cauda e o mastro era grande e rijo,
naveguei por marés e areias
de Rio, Santos, Salvador, Itaparica…

Vivi de mar.
Tive riscas de sal na pele ao fim das tardes
cabelos longos que ventavam meu rosto ressecado
por desejos realizados, paixões de sol.

Nunca tive intenções de mar
Nem tampouco de alto-mar.
No Pacífico, gelado e salgadíssimo,
quase sucumbi em um bote pesqueiro, de domingo sagrado.
Albatrozes chegavam-nos aos braços como peixinhos de aquário
a sugar seus alimentos e nosso sossego.

Nunca tive intenções de mar.
Nunca quis sugar nada de seu.
Nunca sorvi mais do que seu quebrar de ondas nos ouvidos
seu movimento de entrega e recolho
pelas manhãs, às tardes,
sentada nas pedras do Farol de Itapuã,
caminhando pela praia de areias pesadas,
namorando distâncias de horizontes imaginados.

Nunca tive intenções de mar.
Em menina, não quis nadar nunca.
Sequer aprender.
Meu encantamento com o mar
é o de quem sabe o que é o mar
e com ele não tem
sequer uma intenção.

ACHADOS E PERDIDOS

Azul
Complexo
De matizes muitos.
A descobrir-se
Inquietações
Sombras molduras, ranhuras de profundidade.
Idade prêmio troféu
Céu

Dores sabores refletores de sinos
Audíveis por ouvidos únicos
Sensíveis aos afrescos de capelas de sangue e cicatrizes
De festas fétidas de pudores singulares.

Vulgaridades expostas
Particularidades repostas.
Estradas de ir e de continuar indo
Sem chegadas
Sem estações
Sem portos
Sem píer sequer.

Rios de águas muitas
Rios de águas poucas
Rios de céus enluarados.
Nuvens emoldurando rumos.
Rumos emoldurando caminhadas.

NO TEMPO

era quase tarde
ali ela apenas
sem ele
com ele
era quase tarde
ali apenas ela
um sino plangente
uma pétala de flor
umas folhas ao chão
era quase tarde
ali ela apenas
sem ele
com ele
uma música interna
um fulgor interno
uma carícia de vento frio na pele
ali apenas ela
sem ele
com ele
era quase tarde
ali

REFÚGIO SECULAR

Quando desavisadamente
o céu mineiro quer me ensinar
bate forte em mim
bate forte na memória do real vivido.

Então fujo
Então me escondo
Então me deixo dormitar
no colo das montanhas
nas pedras do penar
no alvorecer, no entardecer
do desenho das montanhas.

Somos apenas nós
elas e eu
segredando verdades
acolhendo súplicas
curando feridas sempre abertas.

Se há alegrias … Tiradentes.
Se há tristezas … Tiradentes.

Somos confidentes,
secularmente.

MULHER DE OUTONOS

Calem-me aqueles que conseguirem.
Não vai ser fácil.
Aprendi a escrever com letras maiúsculas o de dentro de mim.
Não consigo mais esquecer como se faz.

Beiro as últimas estações de uma existência
Delas colho flores nas primaveras
Recolho folhas secas e murchas nos outonos.
Ensandeço e ardo nos verões
Quedo semimorta de cansaço nos invernos de meu sofrer.

Não quero mais amores que já tive.
Não quero mais emoções que já vivi.
Não quero mais dores que já senti.
Não aceito mais meios, terços e quartos.
Gosto de inteiros, cheios, amplos e grandes.
De tudo que estiver comigo
seja o que for
seja quem for.

Sou mulher.
Estou nos outonos de mim.
Faltam-me poucos meios-dias e meias-noites
Assim desejo-os inteiros.
Nada pela metade.
Ainda que só eu mesma é que saiba
o que é inteiro e o que é apenas metade.

EM FRENTE

Há que se atravessar a pinguela
Há que se fazer a travessia
Há que se olhar em frente
Há que se olhar o céu
Há que se olhar a natureza
Há que se olhar a vida pulsando
Há que agradecer a vida pulsando
o sol que tudo vivifica
Há que se fazer travessias

RECOLHIMENTOS

Fui recolher, varrer, limpar
não consegui
a beleza me reteve
a paleta de cores me deteve
apaixonada
fiquei ali
sentei ali
agradeci ali
paraíso possível
paraíso sensível
paraíso indizível
não atirarei suas cores fora
não retirarei suas cores de mim
não expurgarei seus tons de meu jardim
que restem
que fiquem
que coloram as manhãs
que deslumbrem as tardes
que enterneçam as noites

POSTOS DE ABASTECIMENTO

Há instantes em que nos sugam até o espírito
Há fases em que nos vampirizam todas as emoções suaves
Há momentos de tamanha crueldade e desprezo a nos anular
Há voltas que destilam revoltas em corações esmigalhados
Há vazios perfurantes de facas sangrentas sobre nossa voz
Há que se abastecer os dias e as noites
Há que se beber do vinho tinto dos sorrisos
Há que se saber ler a si mesmo sem as leituras alheias
Há que se manter de pé mesmo após as rasteiras vis
Há que se abastecer de vida
com amigos
com flores e cantos
com risadas compartilhadas
Há de haver postos de abastecimento em nós.

OLHARES PERFUMADOS

Avistamo-nos
da porta ao balcão
um farol de décadas
era ou não era você
era
Uns gracejos de hoje
outros gracejos de ontem
atualizações de percursos idos
revisitações de fatos e feitos
atualizações de sonhos idos
atualizações de sonhos abandonados
em curso o curso das horas que chegam
em curso o curso das décadas que se foram
um fraterno olhar para trás
um fraterno olhar à frente
uma timidez de menino
uma ousadia de menina
risos verdadeiros
sem máscaras, disfarces, nem seduções de ocasião
recordações de sexagenários amigos
recordações de gente da mesma aldeia

INTOLERÂNCIAS

Não tolero mais
hipocrisias, cabotinismos
Não tolero mais
injustiças, descartes, desmontes
Não tolero mais
rapapés, tapinhas nas costas
Não tolero mais
escapismos, fugas, realinhamentos
Não tolero mais
nenhum tipo de disfarce no jogo social
Não tolero mais
o discurso do falso desconhecimento
Não tolero mais
o efeito manada
a manipulação generalizada
Não tolero mais
o que tolerava
quando mais jovem
quando mais ingênua
quando mais crédula.

PISANDO EM TERRA FIRME

Quanto vale um abraço de carne e pele?
Quanto vale sentir-se segura nos braços de alguém?
Quanto vale ver-se forte e reconhecida?
Quando vale pisar em terra firme?
Quanto vale estar entre gente do mesmo berço?
Quanto vale sentir o cheiro da sua aldeia de novo?
Quanto vale estar exalando carinhos?
Quanto vale falar e ser entendida?
Quanto vale estar distante de fingimentos oportunos?
Quanto vale não se sentir afogada em mar traiçoeiro?
Quanto vale dar e receber afagos em dobro?
Só estando em terra firme.

CHEGANDO AO FIM

Nada importam cascas e capa
Nada importam tecidos e chapéus
Nada importam apupos e rapapés
Essencial é a alegria
Essencial é a simplicidade
Essencial é a cumplicidade.
Essencial é a bondade.
Os bolsos seguirão sem moedas
As mãos seguirão sem anéis
Os ombros seguirão sem afagos
As pernas seguirão sem apoios.
As últimas estações
não podem ser vias sacras.
As últimas estações devem ser leves, francas e ternas.
Se a vida é um sopro,
há que se encontrar
quem a assopre com ternura.

Poesias: Odonir Oliveira

Fotos de arquivo pessoal

Vídeo: Canal Biscoito Fino

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