São João baiano

 

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TEMPOS INESQUECÍVEIS

vozes roucas cantam
vozes bentas cantam
vozes bêbadas cantam
vezes umas dançam
vezes outras sonham
vezes castas são
vezes profanas estão
fogueira arde
balão sobe
rojão explode
prazer
encantamento
tesão
inesquecíveis

FESTA JUNINA EM ITAPUÃ

Viver à beira-mar tem seus prazeres obscuros. Aprende-se a amar não só os dias, como as noites, não só os dias e as noites, como nos dias e nas noites.

São João na Bahia era Natal. A publicidade apresentava ofertas para compras da mesma maneira que o fazia para o Natal. A força do mês de junho na Bahia é enorme. Talvez no nordeste inteiro. Coisa de sincretismo religioso mesmo. Enfeitavam-se as casas, e os apartamentos também, pelo lado de dentro, com bandeirinhas, balõezinhos, guirlandas, lanterninhas japonesas, de tudo um pouco – como as árvores de Natal em dezembro. Funcionários pediam férias, respeitavam-se as datas como feriados sagrados.

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Os preparativos nas casas comparavam-se aos das ceias de Natal, só que com o milho, como rei dos quitutes. Nomes diferentes para iguarias conhecidas no sudeste. Bebidas à base de caju, pinga, amendoim. Quiabo em carurus e pimenta da boa. Vatapás , abarás, acarajés, os pasteizinhos de arraia (que eu jamais comera) e de camarão, a paçoca salgada para acompanhar a moqueca, a farofa de caju do quintal, tudo feito durante o dia pra nos servirmos à noite. A canjica – a que chamamos de curau no sudeste – o mungunzá – a que chamamos de canjica – a pamonha e o maravilhoso bolo de rolo. A mandioca quentinha derretendo com manteiga de garrafa por sobre seu dorso … pra quem adora comer era festa divina, eram manjares dos deuses.

Nossa casa, nossa comunidade, vivia repleta de amigos baianos que gostavam de artes em geral, música, pintura, literatura, cantorias e muita dança. Enquanto fazíamos, íamos ouvindo os nossos baianos na vitrola, separando os vinis para a noite, depois era cortar bandeirinhas, colar e estender nas árvores do nosso grande quintal: do cajueiro à mangueira, do coqueiro ao outro coqueiro, do mamoeiro ao cajueiro. Tudo magia. Não soltávamos fogos, nem balões.

Nós éramos os fogos e os balões dançando, rindo, comendo, bebendo, amando.

Viver à beira-mar tem seus prazeres obscuros.

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Poesia e texto: Odonir Oliveira

ARTE NAIF

1ª imagem: Pinterest – Festa de Sao Joao-Militao Dos Santos

2ª imagem: Ciranda de São João,  Barbara Rochlitz

3ª imagem: Arte Naif Letras e cores, São João

Vídeo: Canal Carlinhos Freddy “Doces Bárbaros”

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