Histórias de Minas, seu Teco

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Em maio de 2017, escrevi sobre meu primeiro encontro com seu Teco:

“Seu Teco me leva pela mão a conhecer suas preciosidades da horta. Surpreende-me ser como o meu velho pai, que se vivo estivesse completaria, nesse mesmo 7 de maio, os seus 99 anos. Seu Teco é um Plácido pai revivido então. Vê que me encanto fotografando seus caquizeiros repletos de frutos e me carrega pela mão. Vai narrando seu prazer quando sai do restaurante e vai pro fundo, pra horta, ficar com suas plantações. Diz que volta outro. Vai falando aquela poesia lírica toda nos meus ouvidos, como fosse um personagem roseano caído de uma página de um Sagarana ou de um Grande Sertão daqueles. Ficamos ali por muito. Gostou de me ouvir contar onde eu vivia antes e por que estava agora por aqui, fez perguntas, elogiou minhas escolhas e me encheu de presentes: muitas mexericas, que fomos eu e ele pegando nos pés repletos, chuchus de 3 qualidades diferentes, cebolinhas, goiabas grandonas, maracujás, e, disfarçando um instante, me trouxe uma bela abóbora – sequinha, viu- que de tão pesada carregou-a para mim o tempo inteiro.

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A refeição de comida caipira, à vontade, feita no fogão à lenha,  apenas vinte reais, era saborosa e fresca – como gosto. Muitos turistas no caminho entre BH e o Rio param por ali só pra levar, em si, os céus em caldos e caldas da dona Aparecida e do seu Teco.

Continuamos nossa prosa, fotografei mais, muito mais e segui pela estrada.

Seu Teco deve ter descido de uma estrela de noite e ficado ali me esperando, só pode ter sido assim. Quase desisto de ir embora, de tão carregada da energia telúrica com a qual me abastecera.”

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Depois disso, voltei e o encontrei debilitado, desidratado, deprimido, sem coragem nem força para se levantar da cama. Fui ao seu quarto, com dona Aparecida, levamos uma conversa suave, sem tocar em doença. Prometi voltar e desejei vê-lo forte, cuidando da horta tão rica e bela. Quis telefonar para saber dele, mas com essa envergonhada postura de gente que vem da cidade e teme constranger os outros, não o fiz.

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Fui até ele, por fim.

Sentei, esperei que começassem a colocar panelas e caldeirões no fogão de lenha, no salão de refeições, para que cada um se servisse à vontade, e tudo se mantivesse quentinho. Perguntei por ele. Foi avisado. Veio logo e sentou-se para o nosso proseado de sempre. Quem me acompanhava sabia que pergunto pouco, ouço mais do que falo. Dois homens da mesa ao lado, interferiam na nossa conversa, por terem percebido meu interesse pelas histórias mineiras de seu Teco e quiseram protagonizar o bate-papo. Sei dar um corte preciso em entrões, galanteadores, exibicionistas contumazes. Fiz isso. Estava ali pra me deliciar com aqueles quitutes, hum, o quiabo com carne moída estava mais gostoso que tudo. O macarrão, com pouco molho vermelho, até o torresmo, sequinho, saboroso. Sem falar nos doces de figo, de leite, de cidra, de goiaba e o queijinho branco. Tudo de primeira linha, com tempero de mãe, de avó. De sonhar mesmo.16507897_562617267419601_3742626132457015636_n

Principiei perguntando a ele pela saúde. Narrou um pouco a trajetória de exames e internações, os remédios e disse que estava melhorando. Desanimado pra cuidar lá da horta, mato grande, muito cansaço. Mas que mesmo assim, as goiabeiras estavam carregadas, os pés de romã e que as outras frutas aguardavam o tempo delas de frutificarem. Quando lá estive, na primeira vez, estavam muito lindas todas elas. Depois quando esteve doente, só fiquei com ele, sem ir ver as plantações, de que tanto gosto.

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Contou-me que bebeu muito, durante muitos anos. Havia parado fazia 18 anos. Bebia pelos bares, pelos armazéns, se o dono do local dizia que ia fechar, não apavorava não, pegava a garrafa de pinga e ficava do lado de fora. Mas continuava bebendo. Quando voltava pra casa na jumentinha, vinha que vinha caído. Ao cuidar da horta, levava a garrafa, enterrava a mardita dentro de um pote com água e só deixava a beiradinha pra fora. E ia assim o dia todo.

Agora acha que beber não tá certo, faz mal; o médico mandou parar de beber e de fumar, bastou. Pergunto-lhe por que as pessoas bebem. Ele não entende e diz que não é porque mulher não quis mais que o homem bebe, isso é bobagem. Não me quis … ou eu arranjo outra ou deixo pra lá. Não me quer, não me quer. Também eu era treteiro, assim bebia e gostava de contá vantagem. Era isso.

Insisto na razão pela qual se bebe tanto, era pelo sabor, por exemplo? A surpresa geral, não fala mais dele, mas passa a falar de uma terceira pessoa, um companheiro do passado – como se desejasse também compreender os porquês a partir dos motivos de outro. Conta-me que havia um, cita nome, que não aceitava tira-gosto com a pinga. Corta o efeito da pinga. Não como, quando bebo não- dizia o tal. Era como um remédio que perde o efeito se …

Aproveito a carona e sugiro se era pelo sabor, pelo efeito … ele diz que pelo sabor não era não. A pinga dá mais disposição. Como assim? Assim, uma coisa que você não tinha coragem de fazer, você faz com a pinga, por exemplo, entra num córrego perigoso e nem dá fé daquilo. Insisto se a bebida faz a vida ficar diferente, ficar melhor, era isso? É isso. Agora, minha mulher não gostava que eu bebesse não. Também, já pensou a mulher deitar na cama com um homem fedendo à pinga. Ela não aguenta, né.

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Como foi que o seu Teco começou a beber? O pai bebia muito, mas nunca me deu copo na mão, não. Dizia a bebida tá aqui, se quiser beber, mas te dar no copo eu não dou.

Trabalhando nas roças, ganhou casa do patrão. Aqui seu Zé, quero casar, preciso de casa pra morar. Eu te dou. Veja quanto fica que eu te dou o dinheiro. Naquela época me deu 30 conto, seria uns 30 mil hoje. É aqui onde eu construí. Sempre vivi aqui. O terreno aí pra trás com o riozinho, a horta, foi tudo junto que ele me deu e eu levantei a casa, eu e meu primo.

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Admiro. Pergunto se ele acredita nisso que quem faz o bem acaba prosperando, vivendo bem etc. Ah, é isso mesmo. Quando alguém vem me pedi uma ajuda aqui e tá no meu alcance, eu posso fazê, eu faço, fico numa satisfação danada. Analisando aqui, acho que a gente não deve brigar com ninguém, a gente vai descobrindo, conversando com um com outro, que a gente é tudo irmão mesmo. Não deve brigar não. Uma hora o outro pode te servi também. Por isso tem que ajudá os outro.

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Os dois homens da mesa ao lado intervém, querem dar seus exemplos, gente mais jovem, dois irmãos, um de vinte e poucos anos e o outro de menos de quarenta. Bebem conhaque e cerveja. Vermelhões já. Ouço e corto pro seu Teco de novo. Lembro a ele o quanto se parece com meu pai e lhe revelo que conheci em Santana do Paraíso um outro homem ainda mais parecido com meu pai, mais moreno de pele como ele, de roça, plantador de horta etc. Ele me diz num disse que a gente é tudo irmão. Aí, lá longe, achou ele.

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Converso com dona Aparecida sobre a saúde dele, peço pra ir ver o que gosto tanto. Avisa que está tudo sem capinar, frutas feias etc. sem os cuidados do seu Teco. Despedidas.

Adentro ao paraíso de onde aquele anjo me faz tão bem sempre.

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TERRA DE MINAS

Que bondade tem o garoto mineiro que ajuda a carregar embrulhos,
mesmo sem precisão …
Que prosaico é aquele “cê bobo” ao final das frases coloquiais …
Que vontade é essa de ficar sentado na praça a tocar causos e prosas até o entardecer…
Que permissivo é esse tom de confidência de quem jamais nos viu antes …
Que adocicado é esse olhar de matutagem espalhado pelas calçadas …
Que coisa caseira é essa que me enternece de água os olhos …
Talvez seja encontro de sangue mineiro com sangue mineiro.
Talvez seja um ponto de vista repleto de montanhas .
Talvez seja essa vontade de encontrar o que uma vez se perdeu em mim.

 

Texto e poesia: Odonir Oliveira
Fotos de arquivo pessoal
1º Vídeo: Canal Piano Brasileiro
2º Vídeo: Canal Odonir Oliveira
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