Tempos nefastos

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VITRINE LEXICAL

o maléfico chega
o peçonhento intriga
o danoso rebate
o nocivo contamina
o funesto amplia
o danoso ataca
o tóxico envenena
o lesivo atiça
o prejudicial aplaude
o maligno comemora
o pernicioso condena
o fatal sepulta.

 

SEMÂNTICA PERVERSA

Ela disse, ela fez, ela causou
Ele escreveu, ele ofendeu, ele registrou
Ela contou, ela entregou, ela ofendeu
Ele aceitou, ele concordou, ele marcou
Ela feriu, ela se feriu, ela sofreu
Ele encarnou, ele assumiu, ele sumiu
Ela chorou, ela bebeu, ela adoeceu
Ele seguiu, ele voou, ele mergulhou
Ela sangrou, ela anoiteceu, ela amanheceu
Ele encantou-se, ele fascinou-se, ele enlevou-se
Ela envelheceu, ela endureceu, ela cristalizou-se
Ele, asas
Ela, concha.

 

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RELAÇÕES SINTÁTICAS

Ser agente de voz ativa ou passiva
Ser sujeito ativo ou paciente
Ser objeto direto ou indireto de um verbo qualquer
Ser termo acessório apenas ou termo integrante
Ser uma circunstância adverbial, o quando, o talvez, o finalmente
Ser adjunto do nome, enfeite, qualificador, apêndice
Ser um aposto explicador, um  esclarecimento, um entendimento, uma identificação
Ser vocativo, chamamento, invocação, busca
Sintaxes cotidianas, relações de interdependência.
Texto, contexto, intenção.

 

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Poesias: Odonir Oliveira

Vídeos Canal  JB Jazz Blues House The Club

Imagens da Internet

Lendo pelo mundo …

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LER O MUNDO
Odonir Oliveira

bebo palavras
lambo ilustrações
sorvo metáforas, alegorias, hipérboles
de mim
de nós
de todos.

mastigo estrofes
degluto versos
sugo frases
chupo páginas

amo capas lombadas
devoro prefácios, sumários, epígrafes

Sou uma devoradora de livros
quase autofagia de meus mitos gregos
quase antropofagia de meus mestres poetas
quase dependência física de papéis escritos.

Essa sou eu.
Sei que é você.
Também.

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Eu, uma contadora de histórias, declamadora de poemas …

Durante mais de 3 décadas tentei seduzir meu alunos pela leitura. Muitas foram as atividades que realizamos com esse objetivo. Fora de sala líamos sob as árvores, fazíamos leituras compartilhadas- capítulo a capítulo- de narrativas memoráveis. Recriamos finais de obras, transformamos texto narrativo em texto dramático- e o encenamos para o autor, inclusive. Fizemos tantas e tantas peripécias literárias… de saraus lítero-musicais até a recriação da Semana de Arte Moderna de 1922- com duração de uma semana mesmo, com vaias, apupos, plateia etc.Sempre lutei, lutei mesmo, nas editoras para conseguir levar os escritores às escolas, com intuito de dessacralizar essa coisa chamada LIVRO.

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Quando fui saindo das salas de aulas, havia decidido ser uma leitora apenas. Trabalho voluntário.Leria para quem desejasse, fossem analfabetos, internos em hospitais, asilos … ou para crianças em quaisquer circunstâncias- menos nas escolares. Fujo de escolas, de seu carcomido anacrônico roteiro apostilado e pasteurizado de ensino. Por mais de 15 anos, trabalhei com recapacitação de professores por 4 estados brasileiros, mambembando leituras. Concluí que pouco havia conseguido alterar na sua forma obsoleta de ensinar, naquela em que estavam viciados.

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O Clubinho da Leitura é um dos ramais que sigo com o objetivo de ser apenas uma leitora. Logo vem alguma mãe que me pede para ir a um encontro de crianças e contar histórias etc. VOU.

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De outra vez o faço em domicílio, há ali uma criança adoentada, desanimada, merecendo sonhar. VOU.

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Ainda outra vez há uma festa de aniversário, crianças de todas as idades, inquietas, talvez acostumadas a tablets, celulares… VOU.

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Todos deveriam ler para outros, experimentar fazer isso em voz alta, declamar um poema, ler com a beleza que a literatura quer distribuir, ler com o encanto que as palavras, as frases e suas combinações querem semear com suas metáforas e alegorias. Ler sem ficar investigando o que se aprendeu com aquele texto, aquele poema. Quando muito, conversar sobre a fruição, se gostou e por que gostou, de que trecho gostou mais, se gostaria de conhecer outros textos como aquele, do mesmo autor etc. E com crianças, deixar que elas namorem os livros, peguem, abram, cheirem, vejam as ilustrações, de que material são feitos e tudo mais.

Em novembro, em um shopping de B. Horizonte, MG, havia um espaço montado para leitura que funcionava da seguinte forma: qualquer pessoa doava 2 livros e levava outros 2 pra casa. Assim, o acervo tornava-se atualizado e circulante, manipulável, facilmente. Uma menininha chegou com mãe, pai e avó, tocou nos livros que lá estavam, não havia um infantil sequer. Fiquei observando, de perto. Abriu, manipulou, queria penetrar neles, mas não viu graça. Pedi que esperassem um pouco ainda por lá. Corri à Livraria Leitura e comprei 4 livros infantis. Coloquei-os na mesinha. Imediatamente ela os devorou, ainda que não soubesse ler. Ofereci minha leitura, comecei e deixei a cargo do pai continuar. Em troca, levei meus 2, um do Saramago e outro do Chico Buarque, que aliás não os tinha em casa.

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LIVROS ENCANTAM. 

Leituras necessitam de MEDIADORES, bons leitores, que tragam a chave (como indicou Drummond em seu verso: ”Trouxeste a chave?”) e arreganhem as cortinas do sonho, da aventura, da magia, da poesia … Depois é deixar com os novos leitores que eles seguem os ramais e caminhos.

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As mais belas histórias – por Sartre

“Eu ainda não sabia ler, mas já era bastante esnobe para exigir os meus livros. Meu avô foi ao patife de seu editor e conseguiu de presente Os Contos, do poeta Maurice Bouchor, narrativas extraídas do folclore e adaptadas ao gosto da infância por um homem que conservava, dizia ele, olhos de criança. Eu quis começar na mesma hora as cerimônias de apropriação. Peguei os dois volumezinhos, cheirei-os, apalpei-os, abri-os negligentemente na ‘página certa’, fazendo-os estalar. Debalde eu não tinha a sensação de possuí-los. Tentei sem maior êxito tratá-los como bonecas, acalentá-los, beijá-los, surrá-los. Quase em lágrimas, acabei por depô-los sobre os joelhos de minha mãe. Ela levantou os olhos de seu trabalho: ‘O que queres que eu te leia, querido? As Fadas? ‘ Perguntei, incrédulo: ‘As fadas estão aí dentro?’ A história me era familiar: minha mãe contava-a com frequência, quando me levava, interrompendo-se para me friccionar com água -de- colônia […] e eu ouvia distraidamente o relato bem conhecido […] Durante todo o tempo em que falava, ficávamos sós e clandestinos, longe dos homens, dos deuses e dos sacerdotes, duas corças no bosque, com outras corças, as Fadas; eu não conseguia acreditar que se houvesse composto um livro a fim de incluir nele este episódio de nossa vida profana, que recendia a sabão e a água-de-colônia.”

Em As Palavras, Jean-Paul Sartre,Nova Fronteira, 5ª edição, p.34.

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A paixão de Bastián

As paixões humanas são um mistério, e com crianças acontece a mesma coisa que com os adultos

A paixão de Bastián Baltasar eram os livros.

Quem não tiver passado nunca tardes inteiras diante de um livro, com as orelhas ardendo e o cabelo caído no rosto, lendo e lendo, esquecido do mundo e sem perceber que estava com fome ou com frio…

Quem nunca tiver lido à luz de uma lanterna, embaixo das cobertas, porque papai, mamãe ou alguma pessoa solícita apagou a luz com o argumento bem intencionado de que tem de dormir, porque amanhã precisa levantar cedinho…

Quem nunca tiver chorado dissimuladamente lágrimas amargas porque uma história maravilhosa acabou e era preciso se despedir dos personagens com os quais tinha corrido tantas aventuras, que amava e admirava, pelo destino dos quais temera e rezara e sem cuja companhia a vida pareceria vazia e sem sentido….

Quem não conhecer tudo isso por experiência própria, provavelmente não poderá compreender o que Bastián fez então.

Em “La historia interminable, Madrid, Alfaguara, p.12-13)

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1º vídeo: Canal Odonir Oliveira

2º vídeo: Canal HYnd- Photography

Marisas, Maísas, Marias …

VIOLÊNCIA , AOS COSTUMES

Nas noites …
reprime a fala
maltrata o sentir
encosta o açoite sutil da moeda
encosta o açoite do domínio sexual
encosta o açoite do poder físico
cala as mãos, os pés, o olhar
cala a partida
cala , amedronta, ameaça.
Marisa engole
Marisa sufoca
Marisa implode
Maísa bebe
Maísa enlouquece
Maísa explode
Maísa se suicida.
Maria grita
Maria berra
Maria enfrenta
Maria desacata
Maria chora
Maria enxerga as pedras
Maria enxerga a luta
Maria faz jardins
Maria faz poesia.

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En la lucha de clases
todas las armas son buenas
piedras
noches
poemas

Paulo Leminski

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Poesia: Odonir Oliveira

Vídeo: Canal Milton Nascimento

Fotos de arquivo pessoal

1968, hora da escola !

1968

“HORA DA ESCOLA !”

O uniforme esticado na cadeira pra manhã seguinte, saia de pregas, blusa de gola bem passada, meia e sapatos boneca pretos.Tudo adiantado pra não perder tempo de manhã.

O caminho até a escola ligeiramente curto ia encontrando uma, duas, três. dez colegas que se uniam em uma conversa de Beatles a festivais da canção, namoros supostamente iniciados, paqueras, brincadeiras de “me pega e me deixa de alguns”, cantoria de outros. Assunto sobre as aulas ou sobre os conteúdos…nem unzinho. Ah, o professor de Ciências é um pão; será que tem namorada; credo, ele pode ser seu pai; nada, não deve ter nem dez anos mais do que eu; você e suas paixões platônicas, eu, hem !

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Aula de inglês, recitação do verbo to be forever, preenchimento de exercícios com verbos irregulares, consulta no livro de João Fonseca. Professora, posso trazer a letra de Yesterday “All my troubles seemed so far away” pra gente traduzir e cantar? Vamos ver…vamos ver.

Recreio. Cantina. Vôlei. Detestando. Formação de torcida organizada. Gritos extravasando o que nas aulas era sempre contido. Vontade de dizer, de expressar, de perguntar, se interagir. Nada. 1968.

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Aula de português, fonética, vogais anteriores, médias posteriores, consoantes bilabiais, linguodentais, fricativas , alveolares. Meus Deus, pra quê? Exercícios de completamento no livro de português. Redação? Poesia, narrativa, argumentação, carta, bilhete, …nada. Nada mesmo. Pouca escrita, quando acontecia era pra nota, pra se avaliar conteúdo gramatical. Talvez verificar se as bilabiais foram bem aprendidas ou não… e voltar a ensiná-las.

Aula de história, professor gordinho, afetivo, alegre, lotando o quadro-negro de matéria a ser copiada, causas e consequências do domínio romano, imperadores. 1968.   Nenhuma referência ao Brasil, ao Rio, a nós. Só consumindo história morta, sem análise comparativa, sem contextualização, sem estudo das mentalidades, sem nexo, sem conceitos, sem pé nem cabeça. Conteúdo de 4ª série ginasial oras bolas, o livro diz que é esse, então…

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Aula de artes… oba…  de artes. Vamos aprender hoje abscissas, é muito importante pra entender incógnitas, é útil ao colegial. Vontade de pedir pra ter aulas de artes… mas isso só corredor, depois da aula, no caminho do pátio ou seria do pátheo; na quarta série ginasial aula de artes é de geometria, preparando para a geometria analítica do colegial… a matéria é essa, não tenho como mudar, entende. Não, não entendo. 1968.

Aula de educação física, grupos separados meninos e meninas, meu nome sempre constando da lista errada… não gosto de vôlei, não jogo futebol, não faço ginástica olímpica. Oba, chefe de torcida, criar os gritos de guerra, fazer os cartazes de apoio ao time, organizar uma bandinha fuleira de tambor, pandeiros e apitos…criar um hino, juntar todo mundo, ir cantando pelo caminho.

Que bom que hoje não tem matemática, geografia, OSPB, nem Moral e cívica, nem ciências porque o livro de ciências já está quase no fim, já vimos tudo de platelmintos, nematelmintos e anelídeos. Logo vai ter prova e decorei tudo, gosto de estudar repetindo, falando bem alto o que está no livro, que assim gravo melhor; já minha amiga prefere escrever páginas e páginas aquilo, credo !

“Hora da escola ! ”- alguém acordando as vontades de novo hoje; no caminho o motivo danado de grande de torcer pelo time, de ir cantando e ensinando o novo grito de guerra, todos muito motivados a ir pra escola, afinal o social é o mais importante. Necessidade de se sentir pertencente, gregário, integrado. Igual a todos.

Canal: leandrooooo

Texto: Odonir Oliveira